40 A INTERTEXTUALIDADE E A PARÓDIA LÚDICA NO DISCURSO DA DANÇA PÓSMODERNA: ESTUDO DE CASO DA OBRA CINDERELLA DE MAGUY MARIN Cristiane Wosniak∗ RESUMO: Este artigo se propõe a uma reflexão sobre a questão da intertextualidade e da paródia lúdica aplicadas ao texto coreográfico Cinderella de Maguy Marin. Ancorado por analogia nas teorias de Linda Hutcheon, a dança pós-moderna é re-visitada enquanto fenômeno cultural, artístico e crítico. O vídeo-texto analisado é um dos mais importantes representantes da danse nouvelle francesa. PALAVRAS-CHAVE: pós-moderno, dança, intertextualidade, paródia ABSTRACT: This article intends to reflect on the question of intertextuality and the parody in the choreographic text Cinderella by Maguy Marin. Based on Linda Hutcheon’s theories, the post-modern dance is again focused as an artistic, cultural and critical phenomenon. The video-text which has been analyzed is one of the most important and representative ones of French dance nouvelle. KEYWORDS: post-modern, dance, intertextuality, parody. A DANÇA DAS ETIQUETAS E DOS RÓTULOS Maguy Marin é uma das principais coreógrafas do eclético movimento da danse nouvelle na França. O termo danse nouvelle corresponde à dança pós-moderna norteamericana. Como a França não possui uma tradição de dança moderna anterior à década de 1970, quando se definiram os preceitos (ou anti-preceitos da dança pós-moderna), a danse nouvelle irá se desenvolver segundo Kátia Canton (1994, p. 22-23) “a partir da tradição teatral nacional e de influências estrangeiras na dança.” Esta dança incorpora influências de Merce Cunninghan, Carolyn Carlson e Trisha Brown (americanos), da dança-teatro alemã (Pina Bausch) e também do butoh japonês. A partir dos anos 1980, incorpora um tipo mesclado de narrativa, onde o conteúdo emocional e a figuração de caracteres (personagens) são os principais motes coreográficos. São representantes desta tendência na França: Régine Chopinot, Dominique Bagouet, Jean-Claude Gallotta e é claro, Maguy Marin. 1 A fim de discutir sua obra, é importante notar que tanto a dança moderna quanto a 2 pós-moderna são fenômenos relativamente novos para os artistas franceses se comparados ∗ Mestra em Comunicação e Linguagens pela UTP, professora do Curso de Dança da Faculdade de Artes do Paraná, coordenadora do Curso de Dança da FAP, autora do livro Dança, cine-dança, vídeo-danda, ciber-dança: dança, tecnologia e comunicação. 41 com a Judson Generation nos Estados Unidos. Esta geração de jovens coreógrafos europeus não passou por uma fase de rejeição estrita às narrativas como os americanos, para quem o slogan ‘menos é mais’, sintetizava seu credo artístico pós-moderno: Não ao espetáculo, não ao virtuosismo, não à transformação e magia e faz de conta, não ao glamour e à transcendência da imagem da estrela, não ao heróico, não ao anti-heróico, não ao lixo metáfora, não ao envolvimento do intérprete ou do espectador, não ao estilo, não ao camp, não à sedução do espectador pelos artifícios do intérprete, não à excentricidade, não a mover ou comover, não a ser movido ou comovido (BANNES, 1987, p. 67). Ainda que se costume associar a dança pós-moderna à negação da narrativa por métodos antiilusionistas, ou seja “a capacidade de conectar o espectador num nível diegético de relacionamento com a obra, ou em outras palavras: é a capacidade sistemática da obra de produzir e comunicar (se fazendo entender) através de seus significados” (CANTON, 1994, p. 104), nos anos 1970, observa-se um fenômeno inverso a partir da segunda metade dos anos 80. A narrativa retorna, principalmente na Europa, fazendo com que os coreógrafos como Maguy Marin (França), Matthew Bourne (Inglaterra) e Mats Ek (Suécia), para citar apenas os de maior destaque internacional, mostrem-se atraídos pelo conteúdo, pelo significado e pelas referências históricas, num processo que liga o mundo da dança e outros pós-, como a arte, a filosofia e a cultura pós-moderna. ________________________ 1 A Dança Moderna surge historicamente na virada do século XX em oposição radical ao estilo ou tendência acadêmica tradicional, ou seja, o balé clássico. É desenvolvida e mais tarde codificada pelas escolas americanas (Martha Graham – ‘tension and release’ e também Doris Humphrey – ‘fall and recovery’) e pela escola germânica (Rudolf von Laban, Kurt Jooss e Mary Wigman – espaço opressor). “Negando os princípios técnicos e estéticos do ballet, a Dança Moderna se utiliza dos pés descalços no chão (herança de Isadora Duncan), de uma profunda consciência corporal e de temas coreográficos ligados ao seu tempo e cultura, numa crítica social, política e cultural. Propõe o novo, o original, o criativo em oposição à repetição e perpetuação das tradições históricas do bailado clássico” (THOMAS, 1995, p. 100-115). Ainda, segundo WOSNIAK (2000, p. 10-11) “a dança moderna não pretendia estabelecer um novo código, diferente daquele do balé clássico e oposto a ele, mas queria procurar métodos que dessem ao corpo, meios de exprimir ou prefigurar novas experiências de vida numa época nova e perturbadora da história.” 2 Dança Pós-Moderna é a denominação de uma escola estética (não técnica ou formativa) que surge nos Estados Unidos na década de 60 a partir da Judson Church Generation. Segundo WOSNIAK, no artigo Dança e Anti-Dança Contemporânea (2004, p. 09), “a Judson Church era um local (porão de uma igreja) onde um grupo de artistas multidisciplinares (coreógrafos, bailarinos, vídeo-makers, compositores, performers, atores, artistas plásticos) se reunia em Nova Iorke com o objetivo de pesquisar novas linguagens de movimento.” A dança/performance/happening abandona o teatro e se utiliza de novos espaços alternativos (museus, edifícios, praças públicas, quadras de esportes, etc...). A intertextualidade, a ironia reflexiva, a fragmentação, a desconstrução de seqüências, o uso de acasos e apropriação de gestos e movimentos banais (do cotidiano), além da subversão das estruturas narrativas, estabeleceu o padrão (ou anti-padrão) mundial neste conceito artístico. São representantes de destaque neste movimento conceitual e estético: Merce Cunninghan, Trisha Brown, Twila Tharp, Yvonne Rainer, Steve Paxton, Lucinda Childs e Deborah Hay. 42 Como nos afirma Bramley (1998, p. 28-29) “os pós-modernos se apropriam das clássicas histórias – the fairytales narratives, mas subvertem seus significados e seus ideais, transportando-os para um outro contexto: o anti-mítico.” A desconstrução e os rumos filosóficos do pós-estruturalismo, impõem acima de qualquer outra, a noção de Texto. E enquanto Texto, esta nova dança ou fase da dança pós-moderna, ancorada nas narrativas, no conteúdo emocional e na historicidade, irá buscar nos contos de fadas, o material para suas coreografias o que irá lhe permitir ‘brincar’ com estes textos, usando-os para questionar os meios artísticos e em específico o Ballet Clássico3 (que se apropriara dos contos de fadas na construção de seus bailados de repertório), a relação da cultura erudita com a cultura de massas, os papéis de gênero, as questões sociais (os ex-cêntricos) e políticas em geral. Na França, Maguy Marin coreografa uma nova versão de Cinderella (1985) para o Lyon Ópera Ballet. Sua obra é ambígua: se por um lado propõe inovações estéticas, por outro, re-visita as tradições francesas do bailado clássico. Seus comentários em forma de movimentos e simbologias são recheados de ironia sobre as nossas noções de beleza, felicidade e infância. Enquanto Texto, Cinderella é um jogo de intertextos que pela paródia lúdica brinca, e, nesta brincadeira dançante desafia a historiografia, a própria narrativa, a linearidade e a continuidade como visão realista de representação. A intertextualidade pode aqui ser definida como o diálogo entre os muitos textos culturais, que se instalam no interior de cada texto e o definem. Como Texto Coreográfico, o vídeo analisado possui vozes internas e externas (narrativas) que segundo BARROS & FIORIN (2003) falam criticam, polemizam e ironizam situações, posições e conceitos, se utilizando muitas vezes da paródia auto-reflexiva. Pretendo fazer uma leitura desta obra pós-moderna, ancorada pelas teorias de Linda Hutcheon (1991) alegando que a história não existe a não ser como texto, o pós-modernismo não nega estúpida e ‘euforicamente’ que o passado existiu, mas apenas afirma que agora, para nós, seu acesso está condicionado pela textualidade. Cabe salientar que este retorno ao passado, na apropriação de uma temática tão popular (cultura de massa) como a tradição oral e mais tarde escrita, dos contos de fadas, não deve ser entendido como um mero retorno nostálgico, mas um enfrentamento, uma re-leitura crítica deste mesmo passado e de suas convenções: é aí que segundo a autora “na reelaboração crítica, está o papel predominante da ironia no pós-modernismo” (HUTCHEON, 1991, p. 21). A obra Cinderella não é iconoclasta, no sentido em que David Harvey (1989) aborda em Condição Pós-Moderna, como uma negação dos padrões anteriores (arte tradicional/regras/cânones) em prol de uma obra original, criativa, sem precedentes, ou seja, modernista. _________________________ 3 O Ballet é um estilo de dança originário do Ballet de Cour francês (sécs. XVII e XVIII) e herdeiro da Académie Royale de Danse, fundada em 1661, por Luis XIV, o rei-sol, no 1º ano de seu reinado absolutista. Tem imenso desenvolvimento na Rússia, no século XIX, onde e quando foram produzidos os principais bailados clássicos de repertório, produzidos por Marius Petipa, baseando-se nas narrativas de contos de fadas e adaptando-os ao gosto da aristocracia imperial (tradição, imutabilidade, preservação do status quo e conotação moralizante, herdeira ainda dos contos de fadas de Perrault e dos Irmãos Grimm). O conjunto do vocabulário técnico constitui uma sintaxe homogênea e codificada (imutável, totalizante e fechada) repousando em postulados como o en dehors e as cinco posições de pés a ele ligados, que determinam as grandes linhas da estética, segundo FARO & SAMPAIO (1989, p. 107) “ a elevação (sapatilha de pontas), o equilíbrio, a harmonia, a elegância e a graça.” 43 Como um Texto pós-moderno, ela se apropria em seu contexto paródico, dos referentes históricos, sob a forma de personagens do conto de fadas, atribuindo-lhes um novo décor, uma nova situação, novas vestimentas e conseqüentemente, um novo sentido, embora o faça de forma lúdica, nem por isso é ingênua ou menos irônica e crítica. A CINDERELLA NÃO É MAIS AQUELA... O conto de fadas Cinderella é provavelmente, o mais popular do mundo, e, os contos neste estilo foram os primeiros a aparecer na tradição narrativa de histórias. Criado por Charles Perrault no século XVII, em plena corte francesa de Luis XIV, o tema aborda a história de uma garota maltratada pela madrasta. Recebendo um auxílio mágico (fada madrinha) ela é transformada (ganha um vestido, um par de sapatos de vidro/cristal e uma carruagem) podendo ir ao baile real, conhecer o príncipe e casar com ele. (fig. 01). Quando o encanto é desfeito (meia noite), ela retorna à vida de pobreza devendo ser encontrada (passivamente ser salva) pelo príncipe que a procurava, pois ela esquecera seu delicado sapatinho nas escadarias do palácio. Ao calçar o sapatinho e este servir apenas em seu pé e em nenhum outro do reino, os dois se casam, vivem felizes para sempre e têm muitos e muitos filhos... Fig. 01 - Cinderella e o Príncipe representados de forma infantilizada (bonecos) Segundo Canton (1994), há uma linha direta entre Charles Perrault e Walt Disney, no sentido de que ambos se utilizam do conto de fadas como ‘modelos para estabelecer padrões culturais dirigidos às crianças da classe dominante.’ Os contos de fadas e este especificamente, eram dirigidos às meninas e mulheres, que estavam no centro das reflexões de Perrault. Ambientado numa corte em que as regras, etiqueta, protocolo e boas maneiras eram o exercício constante da nobreza, em suas coleções, o autor irá privilegiar os contos que mostrassem as virtudes ‘ideais’ de uma mulher: beleza, doçura, paciência, obediência ao marido, dedicação ao lar, lealdade e humildade. Neste sentido, Cinderella é o estandarte da ‘mulher ideal’, construída por Perrault como a protagonista/heroína que deve ser salva por um homem. Este tipo de comportamento tão combatido pelas teorias feministas, serve para designar hoje em dia, uma dependência psicológica denominada Complexo de Cinderela, que é “uma rede de atitudes e temores 44 profundamente reprimidos que retém as mulheres numa espécie de penumbra e as impede de utilizar plenamente seu intelecto e criatividade” (DOWLING, 1987, p. 28). Como Cinderella, muitas mulheres ainda hoje, esperam por algo externo que venha ‘transformar’ suas vidas... Por meio de elementos visuais, sonoros e cinéticos, Maguy Marin subverte o sentido desta história, mas não sua narrativa, subverte o ponto de vista mitificado, clássico, mas não o destrói, subverte as vozes narrativas transformando-as em polifônicas, mas não as cala ou ignora. Como Texto coreográfico contraditório e paradoxal, ele se assemelha às teorias expostas por Hutcheon sobre o pós-modernismo: ... o pós-modernismo é um empreendimento fundamentalmente contraditório: ao mesmo tempo suas formas de arte (e sua teoria) usam e abusam, estabelecem e depois desestabilizam a convenção de maneira paródica, apontando autoconscientemente para os próprios paradoxos e o caráter provisório que a elas são inerentes, e, é claro, para sua reinterpretação crítica ou irônica em relação à arte do passado. Ao contestar implicitamente, desta maneira, conceitos como a originalidade estética e o fechamento de texto, a arte pós-modernista apresenta um novo modelo para a demarcação da fronteira entre a arte e o mundo, um modelo que atua a partir de uma posição que está dentro de ambos, e, apesar disso, não está inteiramente dentro de nenhum dos dois, um modelo que está profundamente comprometido com aquilo a que tenta descrever, e apesar disso, ainda é capaz de criticá-lo (HUTCHEON, 1991, p.43). Como texto paródico, Cinderella de Maguy Marin vem recheado de citações e referências contextuais, históricas e à própria literatura dos contos de fadas. E como afirma Jean-François Lyotard (2002) em A Condição Pós-Moderna, o pós-modernismo ao contrário do modernismo, não está preocupado com a falta de unidade, com a nostalgia ou a celebração do novo e original; na verdade ele celebra o sentido de que a experimentação pós-moderna (nas artes) desdenha tanto o construir quanto a totalidade – lembrando sempre que Lyotard defende o pós-modernismo como o ‘colapso das grandes e totalizantes narrativas’. Neste sentido, a coreógrafa pós-moderna utiliza-se dos recursos da historiografia como instrumento de possível e aberta alteração deste passado e não de sua re-construção ou preservação nostálgica. Construindo uma metaficção historiográfica, ela se entrega à paródia e às apropriações metafóricas dos contos de fadas com seus personagens, transformando-os em caricaturas burlescas e miniaturizadas no imaginário infantil de uma garota que se nos apresenta já na abertura do vídeo, como uma das vozes narrativas deste texto coreográfico. Se a dança pós-moderna é intertextual, então é preciso também conhecer os outros textos. E para conhecer o vídeo-texto Cinderella, comecemos do início... ERA UMA VEZ... De início a câmera focaliza uma menina que aos poucos vamos deduzindo tratar-se de uma das vozes narrativas do texto coreográfico. Ela encontra-se na cama, em seu dormitório, onde ao fundo vamos percebendo como cenário, uma casa de bonecas de três andares com nove compartimentos iluminados um a um, aos poucos deixando antever pequenos brinquedos (bonecos e bonecas) ali instalados. Esta visão inicial já nos desvela a posição da coreógrafa em relação ao conto de fadas. Como aparato ou ‘sujeito pós-moderno’, esta mediação infantilizada aí está para nos propor o seguinte discurso: somente na imaginação ou 45 ingenuidade infantil, conceitos como os que serão expostos e debatidos no conto, podem ser aceitos de forma ‘totalizante’. Como propõe Santos (1987a, p. 72) “o pós-modernismo está associado à decadência das grandes idéias, valores e instituições ocidentais – Deus, Ser, Razão, Sentido, Verdade, Totalidade, Ciência, Sujeito, Consciência, Produção, Estado, Revolução, Família.” A menina segura um livro, onde ao invés de uma narrativa escrita, observamos em 1º plano, desenhos, gravuras, imagens iconográficas do conto Cinderella em que a pequena gravura segura uma vassoura. À frente do livro e, observando ‘imóvel e impassível’ a menina e o próprio livro, a câmera mostra uma boneca de porcelana (simbologia do imaginário do brinquedo infantil que irá mediar a trajetória do vídeo-texto). O olhar da menina vai da boneca para as ilustrações de seu livro e em seguida ela fixa o olhar no cenário ao fundo. A casa de bonecas, então, vai sendo focalizada em planos cada vez mais próximos, até o close de uma ‘boneca frágil’, recurvada sobre uma vassoura (fig. 02) e sentada num pequeno banquinho. Esta bailarina/boneca traja uma malha branca, possui um avental marrom, seu cabelo é cor-de-rosa e sua máscara dá-lhe um aspecto infantil, inocente e frágil (referencial da boneca de porcelana?). Trata-se de Cinderella e a história/coreografia/Texto vai começar! Fig. 02 - Cinderella em seu ‘aspecto infantilizado’ Surgem em cena as irmãs e depois a madrasta, estereotipadas como bonecos burlescos, grotescos, gorduchos e com movimentação desengonçada (fig. 03). Julgamos tratar-se destes personagens, pois nos apropriamos de textos anteriores (clássicos da literatura) e observamos as atitudes em relação à pequena boneca (manipulação, beliscões, empurrões e tombos). As máscaras das bailarinas/bonecas/irmãs são contrastantes com a de Cinderella: são deformadas, de aspecto malévolo e seus cabelos são grosseiros (perucas verdes e amarelas). Usam botas masculinizadas e saias de renda. 46 Fig. 03 - Irmãs e madrasta de Cinderella – bonecos estereotipados e burlescos Em seguida a cena apresenta a chegada do pai (ele traz uma grande mala e presentes). Cinderella ganha um beijo e aparenta estar contente com o retorno da figura paterna. Suas irmãs ganham cada uma um presente. Após ficar sozinha no palco, Cinderella carrega a grande mala de seu pai e então a grande ‘mágica’ acontece: a mala se abre e de dentro dela surge uma figura amorfa, uma espécie de ‘fantasminha de lençol’ com um rosto desenhado lembrando garatujas infantis. A música até então utilizada (partitura original de Prokofiev) é substituída por uma colagem de efeitos eletrônicos e que misturam balbucios de bebês, murmúrios e grunhidos. Numa intertextualidade referencial, Maguy Marin parece se apropriar do contraste entre as formas não definidas deste ser (manipulado em brincadeiras e jogos divertidos pela protagonista e assumindo diversas formas) em oposição à entrada em cena de três figuras (bailarinas/bonecas) com trajes pretos e rosa-choque que lembram (citação) os trajes formais 4 desenhados por Oskar Schlemmer na Bauhaus, para o Das Triadisch Ballet (balé triádico), numa alusão ao corolário-chave da Bauhaus - símbolo dos modernistas – ‘a forma segue a função’, que buscavam nas três formas primárias a base para suas criações. Enquanto as três figuras conduzem Cinderella para contemplar um dos cômodos da pequena casa de bonecas onde vemos uma espécie de jogo/teatro de fantoches congelado (alusão ao passado? À tradição?), a câmera corta a cena e nos mostra em 1º plano a ‘transformação’ do pequeno fantasminha de lençol numa criatura (bailarina/boneca) robotizada, de aspecto marcial, andrógina, careca, coberta de luzinhas piscantes e que porta uma espada brilhante. Em sua apropriação paródica do conto de fadas, Marin neste caso parece estar ‘brincando’ com a noção do auxílio mágico: transportada para o contexto da pósmodernidade, a fada é agora uma extensão tecnológica. _________________________ 4 Oskar Schlemmer foi professor de desenho cênico na Bauhaus. “Preocupado em explorar as possibilidades de ocupação de um corpo no Espaço, estabelece uma série de estudos que foram amplamente aproveitados pelos teóricos e criadores modernos. Baseado no corolário ‘a forma segue a função’, utiliza as formas e cores primárias na elaboração de sua obra Das Triadisch Ballet (o balé triádico) onde expõe um desfile de trajes geométricos com movimentos mecanizados e robóticos. Máscaras de todos os tipos complementam a coreografia” (WOSNIAK, 1994, p. 16-18). Isto está de acordo com algumas noções pós-modernas que afirmam que o sujeito pósmoderno é contraditório, ou seja, sua identidade passa a ser fragmentada, ou como afirma 47 Stuart Hall (2003, p.12) “o sujeito previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado, composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não resolvidas.” Esta fada andrógina, não definida e fragmentada, torna-se, nas palavras de Hall, uma ‘celebração móvel’, informando que a identidade plenamente unificada e totalizante, completa, segura e coerente é uma fantasia, nem mesmo aceita num conto de fadas... Nesta fantasia, este sujeito/fada pós-moderno, desarticula as identidades estáveis do passado e do discurso historiográfico: ao invés de portar uma varinha de condão (o que se esperaria de uma fada) ela porta uma espada e em movimentos que lembram poses de esgrima, este sujeito/guerreiro alude, intertextualmente, talvez, ao contexto sócio-cultural e, portanto, historiográfico, da corte francesa do século XVII (origem de Perrault) onde o ritual e aprendizado da esgrima, faziam parte da rígida etiqueta e dos costumes cortesãos. Tal qual nossos conceitos estereotipados, esta identidade entra em colapso na metanarrativa. Pela paródia lúdica, a coreógrafa se apropria até mesmo do argumento de Marx e Engels: ‘tudo o que é sólido se desmancha, agora, no ar...’ Esta fada astuta e mecanizada (fig. 04), após ‘abençoar’ Cinderella, aponta com sua espada para algumas de suas extensões (expostas como numa vitrine/capitalismo ? Consumismo ?): um carro conversível cor-de-rosa em 1º plano, uma saia rodada futurista e cor-de-rosa e um par de sapatos (agora não mais de vidro, mas hiper-brilhante com purpurina e glitter) para o espanto e deleite da protagonista. Eis todo o material de que necessita Cinderella, para ir ao baile, ser notada e ‘vencer na vida’... Nesta cena, pode-se fazer uma alusão a Marshall McLuhan, um dos maiores estudiosos dos meios de comunicação como extensões do homem. Afirma o teórico que “o carro se tornou uma peça de roupa sem a qual nos sentimos inseguros, despidos e incompletos...” (MCLUHAN, 1964, p. 246). É simples e óbvio, afirma ele, que o carro mais do que qualquer cavalo (talvez seja o ponto em que Marin quis se apropriar em sua paródia irônica em termos comparativos com a carruagem que deveria conduzir a heroína), “é uma extensão do homem que transforma o cavaleiro num super-homem” (MCLUHAN, 1954, p. 250). Assim sendo, pós-moderna, ou não, é como ‘super-mulher’, mais radiosa, mais brilhante, mais cor-de-rosa do que nunca, que ela deve ser notada pelo príncipe. Já afirmava Gilberto Gil “quanto mais purpurina melhor...” Fig. 04 - A fada andrógina e o carro conversível – extensões tecnológicas Estaríamos entrando, talvez, nos critérios de análise do fake e do simulacro ? Talvez. Mas como este não é o objetivo aqui, continuemos com a história... A mensagem que o vestuário estandartizado de Cinderella parece sugerir, pode também ser descrito nas palavras de McLuhan: “a roupa é uma manifestação não-verbal de 48 subversão política [...] os vestidos e os penteados das mulheres vêm abandonando o acento visual pelo acento icônico – tátil e escultório” (MCLUHAN, 1964, p. 248). O detalhe que pode passar desapercebido é que enquanto Cinderella se apronta (veste-se) para ir ao baile, em 1º plano as três figuras modernistas executam uma espécie de coreografia mecanizada, artificial e utilizando-se do léxico do ballet numa alusão ao referencial acadêmico, tradicional, imutável, como a querer dizer: o hábito faz o monge... Na próxima cena, vemos uma Cinderella aturdida, tentando assimilar os passos de dança, regras e noções de equilíbrio, que precisa aprender para se portar no novo mundo (cêntrico) em que está prestes a entrar. É preciso conhecer as regras! E a fada/boneca/marcial ensina, obriga e induz a heroína a repetir incansavelmente os mesmos passos, até assimilá-los. Numa apropriação fragmentada e desconstruída, Maguy Marin coloca seus bonecos dançantes executando movimentos bizarros que aludem aos port de bras, pirouettes e révérences, mas que não os preservam na sua execução intencionalmente descuidada. O vocabulário acadêmico está lá como re-construção e jamais como preservação. Para compreender este aspecto, presume-se, por parte do leitor, a identificação de certos textos dentro de outros, ou seja: O pós-modernismo é, ao mesmo tempo acadêmico e popular, elitista e acessível. Uma das formas com que ele atinge esta paradoxal identidade popularacadêmica é a técnica de inserir e depois subverter as convenções habituais dos dois tipos de arte. (HUTCHEON, 1991, p. 69) A cena que se observa a seguir mostra a fada e Cinderella, encaminhando-se para um dos cômodos da casa de bonecas onde se ilumina um grande relógio azulado com ponteiros luminosos (néon = fake ?) numa alusão ao fator tempo: a fada com sua extensão- espada move os ponteiros mecanicamente, até ambos marcarem meia noite apropriando-se do sentido efêmero (conceito pós-moderno) da realidade. Sua performance no baile só poderá acontecer até este período de tempo, pois a partir daí o espaço-tempo se converte em fumaça, desaparece no ar... Até mesmo a dança, seus rótulos e etiquetas só poderão ser dançados metaforicamente até a meia noite, pois a partir daí, a obsolescência da arte vigora, questão esta, que alude à efemeridade e ao colapso dos valores, conceitos, crenças, narrativas e até mesmo da fama, que todos, hoje em dia, podem assumir por ‘15 minutos’, basta lembrar das inúmeras Cinderelas que sonham com a fama, a fortuna e a felicidade, alcançadas nem que seja em palácios (des)encantados e vigiados ao estilo Big Brother... Mas aqui já entraríamos na discussão da carnavalização e da espetacularização e, não é esta também, minha intenção, portanto, voltemos ao Texto: vemos agora a cena em que Cinderella dirige seu carro conversível miniaturizado indo para o baile real. Corte. Após o corte, a câmera focaliza a fisionomia da menina (voz narrativa) sorrindo na expectativa e antegozo da festa. Que tipo de festa poderia se constituir num grande acontecimento no imaginário desta criança? Uma festa de aniversário, parece concluir a coreógrafa (outra voz narrativa) em sua perspectiva de apropriação do universo infantil miniaturizado para problematizar questões relativas à pós-modernidade. Lembro, neste sentido, que também Lyotard (1986) escreveu uma obra sobre a questão pós-moderna sob o título irônico Le Postmoderne expliqué aux enfants, (curiosamente um ano após a estréia deste texto-coreográfico), em que apresenta polêmicas questões acerca da filosofia conceitual deste fenômeno cultural, social-econômico, político e artístico, chamandoo de ‘fábula pós-moderna’, pois o pós-moderno, segundo o autor, reconta a história de uma força que faz, desfaz e refaz a realidade. 49 É, pois, numa festa de aniversário que o debate desta fábula pós-moderna irá se concretizar (ou des-concretizar). A câmera vai se aproximando lentamente, cada vez mais, do cômodo central da casa de bonecas, e aí observamos um grupo de bonecos em filas, lado a lado numa atitude de desfile ou início de um baile de corte (onde minuetos, pavanas, bourrés e outros tipos de dança de corte, são executadas como exibição para o rei num espetáculo de afetação, artificialismo e adulação). Não me parece à toa a escolha do cômodo central da casa para retratar a corte real: afinal trata-se do conceito do cêntrico, do poder, da hierarquia, do sistema, do fechamento, do status quo. O que deve acontecer à Cinderella que está prestes a penetrar neste centro? O que se pretende demonstrar? Neste momento cabe salientar: O pós-modernismo não leva o marginal para o centro. Menos do que inverter a valorização dos centros para o das periferias e das fronteiras, ele utiliza este posicionamento duplo paradoxal para criticar o interior a partir do exterior e do próprio interior. (HUTCHEON, 1991, p. 98) Parece ser o caso aqui. Cinderella assume o papel actante ou posicionamento duplo e paradoxal através do qual a crítica pós-moderna irá se realizar. Enquanto o minueto se apresenta em movimentos hiperbólicos e exagerados, uma grande escadaria vai aos poucos tomando forma no cenário do centro para baixo, como que a espera daquela que por ali vai passar (subir ao topo – a ascensão social metaforicamente coloca o cêntrico/poder, hierarquicamente no plano mais alto), subvertendo a noção de centro. Cinderella chega ao baile como ex-cêntrica confrontando esta realidade: ela se apropria do léxico aqui desenvolvido (conhece as regras, os passos de dança e traja um simulacro radiante e muito mais vistoso do que os demais estão vestindo), mas seu discurso é outro. Ela é vista com desdém e suspeita pelos grandes bonecos que vão desfilando uma série de atitudes mesquinhas e grosseiras para estigmatizá-la e excluí-la das brincadeiras e jogos infantis que povoam a festa de aniversário. O príncipe é o único atraído pela linda e meiga boneca. Este boneco/príncipe é retratado como um boneco longelíneo, com cabelos e trajes azuis e portando uma coroa de luzinhas que piscam, como uma alusão ao próprio monarca Luis XIV, o rei-sol, símbolo máximo do Absolutismo ‘L’état, c’est moi’, e, que também era conhecido por ser um excelente dançarino, tendo se apresentado em mais de 34 bailados com roteiro de Molière e composições de Jean-Baptiste Lully. O mais famoso deles, talvez tenha sido, como nos afirma Paul Bourcier (1987) e Peter Burke (1994) sua encarnação do deusApolo no Ballet de la Nuit, metaforicamente derrotando as trevas representadas pela Inglaterra e Holanda, em guerra com a França no século XVII. Nesta alegoria, o deus-sol portava uma coroa iluminada, as luzes, o sol o assemelhavam a Apolo. Parece que Maguy Marin se apropriou desta referência historiográfica para por meio de uma metaficção construir um príncipe/boneco infantilizado (fig. 05), que se propõe a questionar/romper uma das grandes narrativas do ocidente: neste caso, a Monarquia – o Absoluto, a Hierarquia, a Origem, o ‘Sol’... 50 Fig. 05 - O Príncipe em seu aspecto infantilizado – representação do cêntrico Numa irônica paródia, o trono do príncipe se apresenta como um cadeirão de bebê. E é entre brincadeiras infantis que toda a corte, incluindo os personagens que representam as irmãs e a madrasta de Cinderella desfilam suas atitudes, poses e movimentos grosseiros, mecanizados e estilizados, tentando humilhar a pequena boneca. A exclusão social a que a submetem só é interrompida pelo príncipe que a conduz e impõe perante a corte sua preferência por ela. Aqui novamente a partitura de Prokofiev é interrompida (fragmentada) para dar lugar aos sons infantis e grunhidos eletrônicos, enquanto uma imensa mesa com doces, balas e guloseimas é servida para deleite dos convidados. Entre jogos de amarelinha, pula carniça, esconde-esconde e pular corda, Cinderella é estigmatizada quando sozinha (pelos gestos de fofoca e algazarra geral), mas adulada quando em companhia do príncipe. Ele aparta algumas desavenças entre seus cortesãos e ordena que todos dancem juntos ao som de uma valsa burlesca, clownesca, enquanto a pequena boneca tenta se reaproximar do príncipe entre uma seqüência e outra de dança. O pós-modernismo está ancorado aqui: “na insustentável leveza de não crer nem na realidade e nem na ficção. Neste desvão decrescente passeiam os simulacros [...] invoca clownescamente senão verdades, ao menos possibilidades atravessadas pelo absurdo, o que é sempre inquietante” (SANTOS, 1987b, p. 71). Tem início o grand pas de deux na frente das escadarias (fig. 06), momento característico das narrativas do bailado clássico, quando o casal principal dança uma variação de movimentos que inclui um adágio inicial, para ambos, seguida da variação solo masculina, variação solo feminina e dueto ou coda final, onde os movimentos virtuosísticos da técnica acadêmica são evidenciados. Nesta gramática, ao homem são reservados os movimentos vigorosos, saltos e a ‘condução’ como porteur da mulher. À bailarina, cabem os movimentos graciosos, equilíbrios nas pontas dos pés e movimentos virtuosos de giros e elevações de pernas. Porém neste dueto, sob os dois holofotes presentes (espetacularização ?) parece haver o equilíbrio. Os dois dançam como crianças ingênuas, brincando, dando-se as mãos timidamente, e, no final, jogando beijos um ao outro. Ela encarna o tipo, o ex-cêntrico, tentando apresentar, a partir das margens, a sua ideologia e sua identidade neste universo fragmentado que aqui se apresenta como a corte de uma casa de bonecas. Linda Hutcheon afirma que a metaficção historiográfica “adota uma ideologia pós-moderna de pluralidade e reconhecimento da diferença; o ‘tipo’ tem poucas funções exceto como algo a ser atacado com ironia”. (HUTCHEON, 1991, p. 151) 51 Fig. 06 - Cinderella e o Príncipe – antítese (ironia) ao pas de deux clássico O reconhecimento da diferença torna Cinderella, nesta fábula pós-moderna, objeto de desejo. Ele dança com ela alegre e apaixonadamente, até que a cena é ‘cortada’ pelo movimento da câmera que focaliza no alto da casa de boneca, a fada/andrógina na frente de um cavalo azul brilhante, como os cavalinhos de carrossel vistos nos parques de diversão. Entretanto sua atitude ameaçadora em nada lembra ou propõe a diversão. Ela está ali para lembrar Cinderella de que já é meia noite. Sua espada metaforicamente transforma-se no ponteiro de um relógio e neste momento a câmera desloca-se para a queda fantástica da boneca que escorrega escadarias abaixo, deixando para trás seu sapatinho brilhante. Ao contrário da versão de Perrault, como escreve Kátia Canton (1994) em sua obra E o Príncipe Dançou..., não é um cavaleiro (serviçal) do príncipe quem sai em busca da dona do sapatinho perdido, mas o próprio príncipe é que cavalga num cavalinho azulado, na frente de um pano colorido simulando uma paisagem (fake) estilizada. Simbolizando sua viagem à procura de Cinderella, para torná-la sua esposa, a coreógrafa apresenta algumas cenas em que bonecas exóticas (uma dançarina espanhola e outra de dança do ventre) dançam para o príncipe e depois tentam calçar o sapatinho rosado. Numa leitura pós-moderna é óbvia a alusão e a paródia crítica aí presentes: narrativas tradicionais (dança flamenca e dança oriental com seus códigos imutáveis) não podem se adequar ou compreender a metanarrativa fragmentada, re-inventada e re-apropriada e cujas fronteiras borradas e sem limites definidos do pós-modernismo oferecem para serem ‘experimentadas’ por meio de um sapatinho... Neste contexto, enquanto leitora e analista deste texto, eu julgo o sapatinho como símbolo do pós-. A cena é cortada para uma tomada em 1º plano de Cinderella inicialmente deprimida em sua condição de ex-cêntrica novamente, mas depois ela reage, numa atitude criativa e divertida e vestindo a vassoura com um lenço (simulando o príncipe) ela dança para ele. Entretanto o ‘encanto da ilusão’ logo se desfaz e a boneca cai em prantos. Quando as irmãs se aproximam ela foge assustada. O príncipe é anunciado na residência, devendo experimentar o sapatinho nas jovens presentes para ver se encontra sua princesa. A madrasta numa atitude dominadora, literalmente senta sobre Cinderella, escondendo-a, ignorando-a, anulando-a, numa metáfora, talvez, aos detratores do pós-modernismo como Jameson, Derrida, Baudrillard e outros ‘filósofos apocalípticos’... Quando o príncipe está prestes a partir, a fada/robô mais uma vez intervém: aponta a espada para a boneca, que adquire grande força, derruba sua madrasta e se apresenta ao príncipe experimentando o sapatinho, tirando o outro de seu bolso e sendo reconhecida por ele (finalmente). Neste instante voltam os grunhidos e os murmúrios de bebês, soando como satisfação. 52 A cena final mostra o casamento de Cinderella e o príncipe, que são abençoados pela figura da fada/robô que aqui, parodicamente assume a função da narrativa religiosa também. Com sua espada, ela faz o sinal da cruz sobre as cabeças dos bonecos e em seguida, um grande desfile invade a cena, aonde todos os bonecos vêm carregando diferentes tipos de brinquedos (atemporais e universais) e por último o casal de mãos dadas, também desfila puxando uma fileira com dezenas de bonecos bebês de borracha, vestidos com roupinhas nas cores rosa e azul simbolizando, de forma paródica, os finais felizes, que na concepção irônica de Maguy Marin, estão longe de acontecer: viver feliz para o resto de suas vidas e ‘povoar o mundo com seus descendentes’, exigindo da mulher uma função-mor ou uma identidade de submissão e procriação, longe das identidades (fragmentadas, é certo) mas alternativas, propostas para as mulheres, na pós-modernidade. A menina (voz narrativa) com o olhar feliz e um sorriso maroto, olha para a cena do desfile, em seguida para o seu livro e depois o fecha. Neste caso, as vozes polifônicas (narrativas) atingem sua plenitude: “as vozes que dialogam e polemizam ‘olham’ de posições sociais e ideológicas diferentes, e, o discurso se constrói no cruzamento dos pontos de vista” (BARROS & FIORIN, 2003, p. 5). Cruzamentos de perspectivas, longe de se fecharem, abrem possibilidades para outras vozes (espectadores) agirem na construção de sentidos que não existem a priori, mas na apropriação de uma cadeia semiósica infinita, por associações e leituras de textos dentro de outros textos... Congela-se a cena e os créditos técnicos do vídeo-texto começam a surgir na tela, ao som da trilha de Prokofiev. A paródia nesta metanarrativa parece ser a principal estratégia da coreógrafa. O conceito de paródia defendido neste artigo é o proposto por Linda Hutcheon em A Theory of Parody: “paródia é uma repetição com distanciamento crítico que permite a indicação irônica da diferença no próprio âmago da similaridade” (HUTCHEON, 1985, p. 185). Deixando-nos pistas, marcas intertextuais, por meio de uma metanarrativa dos contos de fadas e da apropriação e usos do vocabulário do Ballet Clássico, Maguy Marin nos propõe uma dupla paródia com seus bonecos dançantes: em primeiro lugar do conto de Perrault e suas intenções moralizantes. Em segundo lugar das próprias noções romântico-burguesas e estilizadas da ideologia do Ballet Clássico de repertório construído ao longo do século XIX. CONDIDERAÇÕES FINAIS: QUEM CONTA UM CONTO, AUMENTA UM PONTO... Ao escolher um conto de fadas como fonte e meio para sua narrativa, Maguy Marin criou uma revisão estética e antimítica. Sua interpretação historiciza (e até exorciza) as histórias, adaptando-as ao seu novo contexto, revelando novos valores culturais, sociais e até políticos. A arte da simetria, equilíbrio e luxo com tramas ocasionais criadas como desculpa elegante 5 para as exibições virtuosísticas dos bailarinos clássicos imortalizados por Marius Petipa é aqui desconstruída de uma forma cínica, parodiando este universo de convenções, transcendendo-o com uma crítica lúdica, bem humorada, mas nem por isso menos séria ou social. _________________________ 5 Dançarino, mestre e compositor de danças, de origem francesa, mas que se notabilizou na Rússia (séc. XIX e XX), ao coreografar os principais bailados clássicos de repertório ainda hoje, remontados e apresentados no mundo todo. Segundo BRAGATO (1988, p. 27-31) “Petipa no auge de seu trabalho, dominando por mais de meio século a cena de dança numa Rússia czarista, coreógrafa usando sempre a mesma fórmula: uma perspectiva romântica escapista, de fuga da realidade, utilizando-se das narrativas dos contos de fadas, adaptados como roteiros, cujo objetivo além de artístico/estético, era instruir, deleitar e expressar metaforicamente os instrumentos de poder aristocrático.” Na medida em que ridiculariza, infantiliza e miniaturiza o luxo, o artificialismo e o preconceito social, na mesma proporção, ela diminui sua importância. É paródico em sua 53 relação intertextual com as tradições e convenções dos gêneros que aborda neste Texto, pelas seguintes pistas: 1- a vassoura enorme (convenção da classe proletária, trabalhadora), a que a ex-cêntrica Cinderella é submetida ou filiada; 2- a fada andrógina tecnológica e pós-moderna com a identidade fragmentada (transformação); 3- o carro conversível (extensão tecnológica/velocidade do mundo pós-moderno); 4- os sapatinhos rosa choque de purpurina e glitter (fake); 5- o trono do rei apresentado como um cadeirão de bebê (bajulação, adulação miniaturizadas); 6- o baile real carnavalizado numa grande (pequena) e infantil festa de aniversário; 7- o final feliz e lírico (com o casal arrastando dezenas de bebês = prole). Como argumenta Hayden White em Estudos Históricos (1994), a preocupação dos historiadores hoje, é muito mais no sentido da significação (que significados podem ter os acontecimentos para um determinado grupo e suas perspectivas) do que a legitimação dos mesmos (no espaço e no tempo). Assim, também na arte, e, neste caso a dança, a realidade externa é irrelevante; a dança cria sua própria realidade. Como metaficção historiográfica, o Texto Cinderella de Maguy Marin irá afirmar que só existem verdades, no plural e jamais uma só verdade, ou uma única maneira de se narrar o passado, pois hoje, tudo do que dispomos sobre o passado, dispomos através de textos e estes podem assumir diversos e inusitados sentidos e significados quando lidos em diferentes contextos. Desta maneira, a dança pós-moderna aqui abordada, nasceu e continuará a ser extremamente contraditória, paradoxal, aberta, apresentando apenas perguntas e jamais respostas definitivas... Concluo esta reflexão com uma frase atribuída a Oscar Wilde: a única coisa que devemos à história é a tarefa de reescrevê-la... REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BANNES, S. Terpsichore in sneakers. Boston: Houghton Mifflin Company. 1979. BRAGATO, M A Dança Contemporânea Francesa. Revista Dançar. São Paulo, Ano V, n. 23. 1988. p. 27-31. BRAMLEY, I. Return of the narrative. In: COX, M. Dance Theatre Journal. London: Laban Centre, vol. 14, n. 4 (p. 26-29). 1998. BARROS, D. L. P. & FIORIN, J. L. Dialogismo, polifonia, intertextualidade. São Paulo: EDUSP, 2003. BOURCIER, P. História da dança no ocidente. São Paulo: Martins Fontes. 1987. BURKE, Peter. A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luis XIV. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1994. CANTON, K. E o príncipe dançou... São Paulo: Ática. 1994. 54 CINDERELLA. Antoine Manologlou. Lyon: Lyon Ópera Ballet. Créteuil, 1990 [1985]. 1 videocassete (90 min.) son., color., 12mm., VHS. DOWLING, C. Complexo de Cinderela. 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