Anais do IV Simpósio sobre Formação de Professores – SIMFOP Universidade do Sul de Santa Catarina, Campus de Tubarão Tubarão, de 7 a 11 de maio de 2012 A CULTURA E O DESENVOLVIMENTO DA NARRATIVA INFANTIL. Andrea Santos Bach Juliana Da Silva Mendes Ketlin Stefani Spader Introdução A narração é um tipo de linguagem que proporciona a ampliação da imaginação e da criatividade, fazendo com que a criança aprimore seu vocabulário, trabalhe com o mundo da fantasia e do abstrato, ajudando assim na integração social. Esta afirmação comprova a intenção desta pesquisa. O seguinte trabalho apresentará a análise de narrativas realizadas por um idoso, reescritas pelas crianças, observadas novamente por um idoso e reescrita pelo mesmo. Indagando como a cultura influencia o progresso da linguagem e narrativa infantil? A presente pesquisa terá como base a teoria de Vygotsky, no que abrange o desenvolvimento do discurso narrativo da criança-sujeito. Além de outros autores que apresentam fundamentos teóricos relevantes ao estudo pretendido. A pesquisa foi realizada com crianças de 6 a 8 anos na instituição Leopoldo Marquides Corrêa na localidade de Tubarão – SC, tendo embasamento na história contada pela idosa, onde ela relata sobre vários assuntos, evidenciando também os seus medos. A partir desse material as crianças produziram suas próprias histórias e desenhos. A narração de cada história ocorreu em sala de aula com a utilização de áudio (gravador), feito pela professora responsável pela turma. Na qual somente uma história foi escolhida para ser recontada por um idoso. Desta forma mostraremos a diferença entre o saber infantil e seu imaginário, e o saber do idoso, uma mente já mais avançada e realista, mas que também tem seu toque de fantasia. Desenvolvimento da linguagem e do discurso narrativo. Através da linguagem que representamos o mundo, compartilhando-a e transferindo-a; a partir do momento que uma criança se insere no cotidiano e nas relações humanas, ela passa a obter um suporte para a aquisição da linguagem. Nesse ininterrupto processo a criança estrutura sua linguagem. No inicio ela expressa sua intenção, seu desejo. Logo após passa a incluir estruturas de frases. Somente aos três anos que as estruturas fundamentais da linguagem são adquiridas e sucessivamente o desenvolvimento da linguagem. (ALBANESE; ANTONIOTTI, 1998) “A produção comunicativa da criança parece ser o resultado global das diversas aquisições do desenvolvimento e de sua relação mutável com as condições ambientais.” (ALBANESE; ANTONIOTTI, 1998) Recentes estudos realizados sobre a aquisição da linguagem infantil esclarecem que a linguagem não é somente uma capacidade que pertence ao individuo, mas também a uma capacidade interindividual. É justamente a interação que se estabelece entre adulto e criança que permite o nascimento e o desenvolvimento da linguagem. (ALBANESE; ANTONIOTTI, 1998) O desenvolvimento da linguagem e a interação social são interdependentes. Onde essa sócio-interação, propicia o desenvolvimento da linguagem. E a mesma tem um papel 1 Anais do IV Simpósio sobre Formação de Professores – SIMFOP Universidade do Sul de Santa Catarina, Campus de Tubarão Tubarão, de 7 a 11 de maio de 2012 fundamental na construção do conhecimento, e o meio sócio cultural em que a criança esta imersa também é determinante para a construção do pensamento cognitivo. Onde “[...] a aquisição da linguagem se dá, [...] pela ação de três fatores: a interação da criança com o mundo físico, com mundo social, ou com o outro que o representa, e com objetos linguísticos, isto é, com enunciados efetivamente produzidos.” (PERRONI, 1992, p. 15) A leitura e a escrita sempre foram vistas como o ponto mais alto do desenvolvimento infantil, apesar de ser tão importante, o que se manifesta mais cedo é a fala; por isso sendo esta a que aparece primeiro nas crianças. Alguns estudos foram realizados e explica o porquê a narrativa oral deve ser trabalhada com as crianças. Muitos autores descrevem a respeito da narração de histórias como forma importante de comunicação entre crianças e entre adultos. (FIORINDO, 2011) De acordo com a linguista Fiorindo (2011), ao se analisar a capacidade de produção narrativa de uma criança é possível avaliar a sua produção linguística, favorecendo o desenvolvimento cognitivo. “Percebe-se que, durante a narração, todas as memórias são acionadas ao mesmo tempo, mas não podem ser todas verbalizadas. Aqui se inicia a estruturação do pensamento, com a definição daquilo que se quer expressar e de como se quer expressar.” (FIORINDO, Priscila – 2011.). A importância de estimular as crianças a reconhecer objetos, nomear as coisas, guardar isso em sua memória para utilizar mais tarde na construção de um pensamento, faz parte do desenvolvimento da capacidade cognitiva da criança. “Nós achamos que não, mas a pessoa começa a enriquecer o vocabulário ainda antes de falar.” (FERNANDES, 2011 apud FIORINDO, 2011p.?). Além de estimular na fala e na escrita através da narração, a criança mergulha de cabeça na história e faz de si própria a personagem principal, torna-se dona da história. As crianças, quando recebem um tema para escrever uma história, ou elas mesmas devem criar seu tema e sua história ou até utilizar de gravuras para se obter uma narrativa; primeiramente elas observam o cenário (ou imaginam), se colocam dentro do contexto da história para assim criar as cenas. (VIEIRA, 2009) No caso da narrativa com a observação das gravuras, as crianças observam cada uma das imagens, sendo que, para elas, as imagens não tem uma única ordem correta, as crianças ordenam as imagens como lhes são entregues. Estes desenvolvimentos não são individuais, a criança observa outro grupo de colegas fazendo a atividade e automaticamente imita a ação dos colegas. (VIEIRA, 2009) Vygotsky, em contraposição a autores que explicam o desenvolvimento a partir de perspectivas individuais, explica o desenvolvimento humano se dá a partir dos determinantes sócio- culturais. Para Vygotsky, as funções mentais têm origem histórica, e o desenvolvimento não se dá de forma espontânea e nem pela ação individual sobre o meio. A construção dos sistemas cognitivos complexos caminha do exterior para o interior, do social para o psicológico. O processo de formação do pensamento é, portanto despertado e acentuado pela vida social e pela constante comunicação que se estabelece entre crianças e adultos, a qual permita a assimilação de experiências de muitas gerações.” (VIEIRA, 2009. Pág.55.) A formação linguística esta intrinsecamente atrelada ao discurso narrativo infantil, com o progresso linguístico a narrativa também se desenvolve, ela ganha corpo, as informações adquiriras se tornam conhecimento e aprimoram as produções das crianças. 2 Anais do IV Simpósio sobre Formação de Professores – SIMFOP Universidade do Sul de Santa Catarina, Campus de Tubarão Tubarão, de 7 a 11 de maio de 2012 Aprofundamento da pesquisa Através da entrevista realizada com o idoso, podemos extrair diversos conceitos e contextualizar o tempo em que ele vivia. As dificuldades eram imensas e prejudicavam o seu desenvolvimento cognitivo. A maioria de suas experiências vivenciadas e obstáculos ultrapassados é que moldaram o conhecimento desse individuo. Entretanto podemos perceber que o seu mundo imaginário, é repleto de criatividade e que seus aprendizados contribuíram para a construção do texto a seguir: “Era uma vez, um homem muito solitário, que vivia em uma pequena cabana, andava sempre de preto, e tudo que tinha, carregava em um saco preto sobre as costas. Com o passar do tempo ele foi ficando velho e feio. As crianças com muito medo corriam quando o viam. Suas mães vendo que elas ficavam mais perto de casa, porque tinham receio, começaram a assustá-las quando faziam alguma coisa que não deviam, dizendo: - Não faça isso senão o velho do saco te pega! “ Apresentamos este texto para crianças de faixa etária entre 6 à 8 anos, para visualizar, como a experiência de uma pessoa pode auxiliar no progresso cognitivo da criança, assim como nos diz Perroni (1992), “[...] as ‘estórias’ abrem para a criança a possibilidade de construir outros universos de referência, aos quais só se tem acesso através da linguagem.” E a medida que a criança aperfeiçoa os auxílios narrativos, ela da um passo importante para a autonomia através das variadas combinações que pode apresentar. A pesquisa e o estudo de campo realizados na instituição Leopoldo Marquides Corrêa, localizada em Tubarão – SC mostra a capacidade e a criatividade que cada criança tem. Dentro de um mesmo título existem variadas formas de narrar e contar a mesma história. Na instituição foram confeccionados com papel sulfite, e lápis de cor, os livrinhos com as histórias que cada criança criou e escreveu, também ilustraram as histórias com imagens onde cada cena era representada por um desenho. Após a confecção dos livros, cada criança leu a sua história e mostrou seu desenho, tudo isso enquanto usávamos o gravador para gravar as crianças lendo suas histórias. Através da contação de histórias e da narrativa, percebe-se que nas crianças o grau de dificuldade de leitura e expressão através dos desenhos é muito baixo, pois os desenhos foram ilustrados e demonstrados com exatidão e extrema coerência de acordo com respectiva cena representada. A escrita foi de um nível extremamente bom, apesar das crianças terem um raciocínio livre e querer colocar tudo o que pensam, conseguiram minimizar suas ideias criando assim cada cena, alguns representando toda a história, outras deixando um “gostinho de quero mais” como, por exemplo, um livro que não tinha texto descritivo, apenas continha as imagens, esclarecendo toda a sua história através da narração em sala de aula com o grupo todo reunido. Dentre diversas histórias, a escolhida foi “O medo do cachorro do mato”, entretanto a história escolhida é representada na forma de desenho e narrada pela autora e gravada, por isso à descreveremos abaixo. O MEDO DO CACHORRO DO MATO Oi meu nome é R_____, estudo na escola Leopoldo Marquides Corrêa, na Linha Mesquita, tenho 6 anos e hoje vou contar uma história pra vocês: o Medo do cachorro do mato. Um dia eu a minha irmã e o meu Irmão, saímos para levar uma santinha, e nós estávamos indo pela estrada e passou um velho de moto com um saco na garupa. Eu 3 Anais do IV Simpósio sobre Formação de Professores – SIMFOP Universidade do Sul de Santa Catarina, Campus de Tubarão Tubarão, de 7 a 11 de maio de 2012 e minha irmã ficamos com medo. E o meu irmão disse- “Lara, eu vou dar 10 pra ele!” daí a minha irmã disse - “Tu é loco!!!” Um dia eu sai para brincar na rua e teve um cachorro que me pegou, e eu correndo fui para dentro de casa e falei para a mãe do cachorro do mato. E outro dia a minha mãe contou uma história para mim dormir, do cachorro, e eu sonhei a noite inteira. Outro dia eu sai para brincar de bicicleta e o cachorro começou correr de trás de mim, e eu com minha bicicleta peguei e fui para dentro de casa. Outro dia eu sai para brincar de pega-pega com... só que dai o cachorro começou a correr de trás de mim. Outro dia eu estava brincando de bicicleta e dai o cachorro atrás de mim correndo. Eu fui para traz da arvore. Outro dia eu sai para brincar de se esconder, mas o cachorro atrás de mim de novo, eu não consegui. Outro dia eu sai para brincar de se esconder, e o cachorro atrás de mim de novo! E outro dia eu disse para minha mãe: - “Mãe, enquanto... eu vou pra escola, mas se aquele cachorro tiver lá de novo eu vou pra escola correndo e volto correndo pra casa.” Então eu fui lá para a escola e não vi nada de cachorro, na hora que eu vim, o cachorro..., eu passei bem pertinho pro cachorro não me pega, mas não adiantou ele me pegou. Segundo essa história desenhada pela criança, apresentamos a mesma, a idosa, que interpretou, de acordo com as suas concepções teóricas e lúdicas. Como podemos ler abaixo: O MEDO DO CACHORRO DO MATO. Em um dia de sol muito bonito, eu e minhas amiguinhas estávamos brincando no jardim da minha casa. De repente um cachorro aparece, ele era muito bravo e ficava me seguindo e eu tinha muito medo dele. De noite fui dormir e contei para minha mãe o que aconteceu. Ela me disse: - Filha tome cuidado com o cachorro do mato, pois ele pode ser perigoso e pode te morder!. E eu disse: - Ta mãe eu vou tomar cuidado! No outro dia de manhã, fui brincar de bicicleta no pátio de casa e o cachorro apareceu de novo. Ele queria brincar comigo, eu estava assustada, porque eu tinha medo dele. Mas ele estava alegre e eu brinquei com ele. Todos os dias ele vinha brincar comigo, e nos viramos amigos. Brincamos muito, até cansar, era bem divertido. Tudo o que eu fazia, ele também fazia comigo, até atrás da minha bicicleta ele corria. Como nós viramos amigos, o meu pai faz uma casinha para ele morar e eu passei a cuidar dele e agora nós brincamos todos os dias juntos. Aonde eu vou ele vai, e ele sempre está cuidando de mim. FIM! Resultados da pesquisa Com as historias apresentadas podemos analisar que as semelhanças da primeira e da segunda narrativa, mostram que a criança obteve informações da história contada pelo idoso e compôs o seu próprio relato. A partir dos conceitos apresentados à criança, a mesma adaptou-os de acordo com a sua capacidade cognitiva, e reescreveu a história com suas próprias palavras. Isso reafirma que as interações entre o adulto e a criança aprimoram o avanço linguístico e narrativo infantil. As relações sociais contribuem para a construção de um sujeito de identidade, onde o individuo de desenvolve e se aprimora. Sendo assim o meio em que a criança esta inserida 4 Anais do IV Simpósio sobre Formação de Professores – SIMFOP Universidade do Sul de Santa Catarina, Campus de Tubarão Tubarão, de 7 a 11 de maio de 2012 influenciará suas atitudes e seu pensamento. E a cultura é um aspecto determinante para a edificação linguística infantil. “De acordo com Vygotsky, todas as atividades cognitivas básicas do indivíduo ocorrem de acordo com sua história social e acabam se constituindo no produto do desenvolvimento histórico-social de sua comunidade (Luria, 1976). Portanto, as habilidades cognitivas e as formas de estruturar o pensamento do indivíduo não são determinadas por fatores congênitos. São, isto sim, resultado das atividades praticadas de acordo com os hábitos sociais da cultura em que o indivíduo se desenvolve. Consequentemente, a história da sociedade na qual a criança se desenvolve e a história pessoal desta criança são fatores cruciais que vão determinar sua forma de pensar. Neste processo de desenvolvimento cognitivo, a linguagem tem papel crucial na determinação de como a criança vai aprender a pensar, uma vez que formas avançadas de pensamento são transmitidas à criança através de palavras (Murray Thomas, 1993).” ( VYGOTSKY, 2002. p.3). A narração faz parte do cotidiano do individuo, encontra-se em diversas situações e contextos comunicacionais, do mesmo modo que se manifesta em suportes expressivos diversos. O homem está imerso nas narrativas e é seduzido por elas. [...]” o homem conta o que sabe e esse saber está inserido numa cultura, até porque o homem produz e também é produzido pela cultura. E a cultura pode ser entendida, dentro das várias definições. Tudo o que é produzido pelo homem pode ser acolhido pelo vasto conceito de ‘cultura’”.(RAMOS, 201?, p.3) Considerações finais Com a presente pesquisa pode-se constatar que a formação da linguagem é um processo gradual que vai transformando o sujeito de acordo com as informações que ele vai recebendo ao longo do seu percurso na sociedade. A cultura é um fator determinante para a constituição do processo linguístico e narrativo da criança-sujeito. É a partir dos valores agregados a ela que o individuo se molda, e dessa relação esse ser continua a produzir cultura, pois age sobre o seu entorno, no tempo e no espaço. Pois a cultura é criação do coletivo, ela se situa no tempo e no espaço de cada grupo e dentro da sociedade. Desta forma oque nos é contado hoje, veio de outras gerações. A narração é uma forma do homem de contar o que ele vivencia e a escrita possibilitou a perpetuação e modificação de conceitos que ate hoje estão vigentes. A história é repleta de contos e encantos, na qual, encontram-se uma vasta variedade de informações que auxiliam no desenvolvimento da linguagem e posteriormente da narração tanto infantil quanto adulta. Pois estamos sempre nos aprimorando para sermos sujeitos críticos e modificadores da sociedade. A criança a partir do momento em que esta inserida no meio social, ela recebe diversas informações, que no inicio podem ser supérfluas, mas no decorrer do seu crescimento são de fundamental importância para o desenvolvimento da sua linguagem e da sua narrativa. Essas informações estão agregadas a diversos valores sociais e inclusive culturais, por isso a cultura é determinante para a formação cognitiva da criança, pois ela vai agir conforme as suas aspirações e aos valores existentes no meio em que ela se encontra. Isso influencia também a sua forma de escrever e contar. Ao ouvir uma história ele recria com o mesmo sentido porem com suas próprias palavras, mostrando como a relação adulto-infantil também é primordial para a formação do processo narrativo infantil. 5 Anais do IV Simpósio sobre Formação de Professores – SIMFOP Universidade do Sul de Santa Catarina, Campus de Tubarão Tubarão, de 7 a 11 de maio de 2012 Sendo assim, a formação linguística e narrativa da criança se dá pela sua interação com a sociedade, com pessoas que carregam consigo uma bagagem cultural e informativa primordiais para o desenvolvimento cognitivo da criança. Referências ALBANESE, Ottavia. ANTONIOTTI, Carla. O desenvolvimento da Linguagem. In: BONDIOLO, Anna. Manual de educação infantil. De 0 a 3 anos. Uma abordagem reflexiva. 9. Ed. Porto Alegre: Artmed.1998. cap.12 p. 203-211. FIORINDO, Priscila. Estudo mostra a importância da narrativa oral no desenvolvimento cognitivo das crianças. Em estudo apresentado na USP, linguista defende a teoria e sugere a inclusão do tema no currículo da educação infantil. Jornal EM. Minas Gerais.18 de ago. de 2011. Tecnologia. Disponivel em: http://www.em.com.br/app/noticia/tecnologia/2011/08/15/interna_tecnologia,245126/estudomostra-a-importancia-da-narrativa-oral-no-desenvolvimento-cognitivo-das-criancas.shtml PERRONI, Maria Cecília. Desenvolvimento do discurso narrativo. 1. Ed. São Paulo: Martins Fontes,1992. RAMOS, Flavia Brocchetto. Linguagem, cultura e conhecimento em interação na narrativa infantil. Disponível em: www.ucm.es/info/especulo/numero40/narinfa.html VIEIRA,Alba da Rosa, 2009. Narrativas de crianças de três a quatro anos produzidas a partir da ordenação de gravuras de uma história de um livro de imagens: Análise com base na Teoria da Relevância. 2009. 101 f. dissertação (mestrado em ciências da linguagem) Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL, 2009. Disponível em: http://aplicacoes.unisul.br/pergamum/pdf/97565_Alba.pdf VIGOTSKY, Lev Semenovich. Pensamento e Linguagem . edição eletrônica: Ed. Ridendo Castigat Morais. Disponível em: http://www.institutoelo.org.br/site/files/publications/5157a7235ffccfd9ca905e359020c413.pdf Anexo Nome: Dilma Brasil Idade: 68 anos Natural de: Tubarão Onde passou a infância? Passei minha infância em Tubarão Uma lembrança importante da infância: Antigamente produzia-se açúcar, e os mais velhos colocavam a forma de açúcar no paiol, e nós pequenas fazíamos puxa-puxa, em tiras e depois cortávamos em pedacinhos, como uma bala. Um dia nós estávamos empenhadas no doce, quando de repente os rapazes chegaram e roubaram tudo de nós. ESCOLA: Qual a primeira escola? Minha primeira escola foi a José Botega, não estudei muito só fui os primeiros 15 dias, pois não gostava muito por que tinha medo da professora e também não tinha ninguém que me estimulasse ir estudar. Como foi sua adaptação à escola? Gostava? Não gostava? Por que? A minha adaptação foi ruim eu não gostava, porque a professora batia nos meus colegas, pois eles eram levados, mas eu nunca apanhei dela. Como era a professora? Descreva suas características principais. Era uma boa professora mais muito braba. 6 Anais do IV Simpósio sobre Formação de Professores – SIMFOP Universidade do Sul de Santa Catarina, Campus de Tubarão Tubarão, de 7 a 11 de maio de 2012 Como foi sua aprendizagem de leitura? Foi difícil? Fácil? Quais eram as suas notas? Foi difícil aprender porque eu aprendi sozinha a ler, com a vida, pela necessidade. Não lembro de ter nota na escola, pois passei pouco tempo por lá. Você fazia tarefas em casa? Sozinha? Quem lhe auxiliava? Fazia as tarefas sozinha, pois nenhum irmão me ajudava, havia muita dificuldade. Na sala de aula havia leitura silenciosa? Sim, cada um lia. Lia-se em voz alta? Como você se sentia realizando leitura em voz alta? Não lia em voz alta pois tinha dificuldades, mas fazíamos ditados. Fazia copias do quadro negro? Tudo era copiado do quadro Havia cartilha(livro): Qual o nome? Não lembro muito, acho que tinha um livro. Você tem algum material daquela época guardado? Boletim, fotos, cartilha, livros.... Não tenho Na sala de aula costumava-se ler Poesias e Versos: sim, lembro-me de um verso : Laranjinha pequeninha carregada de botão, eu sou pequeninha sou carregada de bênçãos. A Professora contava histórias? Quais? Na escola eu não lembro Qual a sua historia preferida? Não lembro E com os mais velhos? Pais, avós, tios, aprendeu histórias? Causos, lendas? Quais? Antigamente eles contavam muitas histórias, principalmente lendas e causos, para nos assustar, lembro-me das do Zé pretinho, da noiva de branco, do cachorro sem cabeça.... Alguma adivinhação? Quais? Fazia, mas não lembro no momento Trava língua? Quais? Fazia muitos...” Num ninho de mafagafos, cinco mafagafinhos há! Quem os desmafagafizá-los, um bom desmafagafizador será.” E as musicas cantava musicas na escola? Qual? Quase não fui à escola, mas cantava música em casa, com o rádio. Quais as músicas de ninar que você aprendeu? Não me lembro Você escutou histórias, causos lendas? Quais? Sim, principalmente dos mais velhos. Você desenhava em sala de aula? Pintava? O que gostava de desenhar? Sim desenhávamos e pintávamos, gostava muito de fazer arvores, sol a lua e flores. Eram realizadas atividades com os sentidos? Tato, Olfato, Visão? Não 7 Anais do IV Simpósio sobre Formação de Professores – SIMFOP Universidade do Sul de Santa Catarina, Campus de Tubarão Tubarão, de 7 a 11 de maio de 2012 Você brincava de rimas? Cite algumas. Sim brincávamos muito, mas não me lembro de nenhuma. Quando começou a escrever tinha dificuldades? O que fazia a professora? Tive muita dificuldade. Quando alguém errava alguma coisa a professora batia com a régua, colocava no quadro, e saia de lá só se aprendesse a escrever a palavra, ou se não deixava de castigo. Foi por esses motivos que eu não fui mais as aulas. Havia punições quando errava? Quais? Sim, já mencionei acima. O que sua professora fazia que você não faria como alfabetizadora? Bater, obrigar fazer uma coisa que o aluno não saiba. O que você faria igual? Ensinar Era realizada alguma atividade fora da sala de aula? Não naquele tempo. Qual a experiência que mais gostava na escola? Por quê? De brincar, aproveitava quando estava com os amigos, pois quando chegava em casa tinha que trabalhar. Que livros você lia na escola? Eram livros só de imagem? Tinham textos escritos? Gostava? Liam-se livros, eles eram somente escrito, eu gostava de ler mais não sabia muito. E na sua residência você tinha livros? Quais você leu? Havia bem poucos livros, não li, pois tinha dificuldade. Existia biblioteca na sua escola? E onde morava? Não Qual foi o ultimo livro q você leu? Leio regularmente a Bíblia. Se você abrisse uma caixinha de memória o que retiraria de dentro como sendo uma lembrança importante da sua infância? Algo que deu prazer. Lembro-me de quando saia com as minhas amigas, das conversas, quando brincávamos debaixo da chácara de café, fazíamos casinhas, comidinha, quando brincávamos de balanço ... E alguma coisa que tenha lhe deixado triste? A morte da minha mão, pois tinha somente 7 anos, fiquei muito triste. Quais as brincadeiras cantadas de roda que você conhece? Brincávamos muito de roda, as músicas que me lembro são: a da “canoa virou”, da “cirandinha” e do ”Ovo Choco”. E as de faz de conta? Não recordo. Agora iremos fazer uma pausa e depois você vai olhar bem lá dentro de você, pensar na sua infância, ver imagens relacionadas àquela época. Em seguida você irá contar uma história inventada por você, para crianças... Conte-a pausadamente sem pressa. Irei registrar sua história. 8 Anais do IV Simpósio sobre Formação de Professores – SIMFOP Universidade do Sul de Santa Catarina, Campus de Tubarão Tubarão, de 7 a 11 de maio de 2012 “Era uma vez, um homem muito solitário, que vivia em uma pequena cabana, andava sempre de preto, e tudo que tinha, carregava em um saco preto sobre as costas. Com o passar do tempo ele foi ficando velho e feio. As crianças com muito medo corriam quando o viam. Suas mães vendo que elas ficavam mais perto de casa, porque tinham receio, começaram a assustá-las quando faziam alguma coisa que não deviam, dizendo: - Não faça isso senão o velho do saco te pega! “ Dilma Brasil 9