AVANÇOS E RETROCESSOS DO FÓRUM DE AÇÃO PELA COLETA SELETIVA SOLIDÁRIA E RECICLAGEM EM SANTA CRUZ DO SUL – FACS Rosí Cristina Espindola da Silveira – [email protected] Universidade de Santa Cruz do Sul/UNISC, Departamento de Engenharia, Arquitetura e Ciências Agrárias. Programa de Pós-Graduação em Tecnologia Ambiental 96815-900 – Santa Cruz do Sul – RS José Antônio Kroeff Schmitz – [email protected] Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, Unidade Santa Cruz do Sul. Willian Goettert dos Santos – gswillian@hotmail Universidade de Santa Cruz do Sul/UNISC, Acadêmico do Curso de Engenharia Civil Resumo: Este artigo apresenta a trajetória do Fórum de Ação pela Coleta Seletiva Solidária e Reciclagem em Santa Cruz do Sul – FACS desde a sua fundação em 2009. Essa mobilização da sociedade civil organizada conta com a participação dos catadores através de sua associação no primeiro momento e posteriormente por sua cooperativa, Movimento Nacional dos Catadores e Recicladores - MNCR, a Prefeitura Municipal de Santa Cruz do Sul, a Universidade de Santa Cruz do Sul, a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, o Banco do Brasil, a Mercur S/A, a Escola Família Agrícola de Santa Cruz do Sul, o Instituto Humanitas, Parceiros Voluntários de Santa Cruz do Sul, além de diversas escolas estaduais. O principal objetivo do FACS tem sido a implantação e consolidação da coleta seletiva solidária na cidade, o que implica na realização da mesma pelos catadores organizados e cadastrados, de forma a serem agentes ambientais de conscientização da população na coleta porta-a-porta e contribuição para a diminuição da produção de resíduos, conquista essa, já realizada pelo MNCR através da Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS. Nesses cinco anos, muitas foram as conquistas dessa mobilização social concretizada pela participação dos catadores organizados, tanto na sua visibilidade na comunidade regional, estadual e nacional, como na consolidação de parcerias com organizações governamentais e não-governamentais e conquistando a gestão da Usina de Reciclagem e a responsabilidade pela coleta seletiva em Santa Cruz do Sul desde dezembro de 2012. Atualmente, está sendo revigorada pela possibilidade de concorrência da coleta automatizada na cidade. Palavras-chave: Coleta Seletiva Solidária, FACS, mobilização social, resíduos sólidos, Santa Cruz do Sul. ADVANCES AND SETBACKS OF THE FORUM OF ACTION FOR SOLIDARY SELECTIVE COLLECTION AND RECYCLING IN SANTA CRUZ DO SUL – FACS Abstract: This article presents the trajectory of The Forum of Action for Solidarity Selective Collection and Recycling in Santa Cruz do Sul - FACS since it’s founding in 2009. This mobilization of the civil society organizations count with the participation of the collectors by his association at a first moment and later by their cooperative of collectors, the National Movement of Collectors and Recyclers - MNCR, Prefeitura de Santa Cruz do Sul, Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC, Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), Banco do Brasil, Mercur S/A, Escola Família Agrícola of Santa Cruz do Sul, the Humanitas Institute, the Parceiros Voluntários of Santa Cruz do Sul, as well as several state schools. The main purpose of FACS has been the deployment and consolidation of selective solidarity collection in the city, which involves performing the same by organized and registered waste collectors in order to be themselves agents of environmental awareness of the population during the waste collection door to door and contribution to the reduction of waste generation. This achievement already was obtain by the MNCR through the National Solid Waste Policy - PNRS. Many achievements happened in those five years. Arising the social mobilization achieved by the participation of organized waste pickers, both in its visibility in regional, state and national community, such as the consolidation of partnerships with governmental and non-governmental and with conquering the management of the Recycling Factory, and getting the responsibility for selective waste collection in Santa Cruz do Sul since December 2012. Currently, by the possibility of competition from automated collection in the city, it is invigorated. Keywords: Solidary selective collection, FACS, Social mobilization, Solid waste, Santa Cruz do Sul. 1. INTRODUÇÃO A cidade de Santa Cruz do Sul, assim como a grande maioria das cidades brasileiras, enfrenta diversas dificuldades com relação à gestão dos resíduos sólidos produzidos por sua população. Porém, desde 2009, com a articulação do FACS (Fórum de Ação pela Coleta Seletiva Solidária e Reciclagem do Lixo em Santa Cruz do Sul), a solução destas dificuldades passou a ser buscada de forma mais participativa e integrada, possibilitando o diálogo aberto entre o poder público e os diversos entes organizados da sociedade civil interessados na questão. No entanto, com a chegada da nova administração municipal em 2013, passou a ser gestado um projeto de conteinerização dos resíduos sólidos municipais, o qual está de acordo com os processos adotados na maioria das grandes cidades do Estado, mas que, no entanto, está se contrapondo a toda a discussão realizada ao longo da história do FACS, a qual visa a inclusão social e o protagonismo dos catadores de materiais recicláveis presentes na cidade, bem como a conscientização e a responsabilização da população do município quanto à destinação dos resíduos sólidos por ela produzido. O objetivo do presente artigo é fazer um relato desta experiência do FACS e seus reflexos no processo de gestão dos resíduos sólidos com participação de cooperativa de catadores e demonstrar, que as conquistas até então obtidas não devem servir para a desmobilização dos espaços de diálogo, de reflexão e de enfrentamentos já construídos, pois cada administração pública que se sucede tem seus próprios projetos e costuma ser um novo desafio à organização e aos projetos construídos através do debate democrático. 2. MOBILIZAÇÃO INICIAL No ano de 2009, o município de Santa Cruz do Sul possuía um sistema de coleta dos resíduos urbanos monopolizado por uma empresa privada. No contrato estabelecido com a Prefeitura Municipal, havia uma cláusula que estabelecia a necessidade de implantação de um processo de coleta seletiva na cidade. Porém, não havia sido estabelecido nenhum prazo para a implantação deste sistema por parte da empresa. Assim, esta adotava o uso de um caminhão bipartido (contêiner dividido em dois compartimentos), que circulava por alguns bairros da cidade, embandeirado com imagens da fauna do município e dizeres sobre a Coleta Seletiva, buscando dar a entender que esta já estaria ocorrendo. Na prática, a população visualizava que os resíduos recolhidos eram todos reunidos em um único compartimento do referido veículo e que não havia qualquer esforço para a separação entre resíduos recicláveis e rejeitos por parte da empresa contratada. Esta situação causava revolta entre a população e desestímulo para a realização da separação domiciliar dos resíduos. Ao mesmo tempo, neste período, um grupo de catadores de resíduos, organizado em uma associação e ligado ao Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis – MNCR, vinha apresentando diversas reivindicações à Prefeitura, e entre elas, a implantação de uma Coleta Seletiva Solidária na cidade. Este movimento social, no entanto, ainda se limitava ao público dos catadores, encontrando-se isolado da maior parte da sociedade e recebendo pouca atenção por parte da administração municipal. Em março de 2009, por iniciativa de uma articulação entre militantes do movimento dos catadores, professores e técnicos da UNISC (Universidade de Santa Cruz do Sul) e da UERGS (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul), agentes e militantes comunitários e também de técnicos da Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Saneamento (SEMMAS), surgiu o FACS – Fórum de Ação pela Coleta Seletiva Solidária e Reciclagem do Lixo em Santa Cruz do Sul. O FACS tinha como objetivo reunir todos os agentes envolvidos com a gestão de resíduos sólidos na cidade, bem como representantes de entidades e cidadãos interessados neste tema, para criar um ambiente de diálogo, de troca de informações e de criação de propostas para a implantação de uma política municipal que visasse à coleta seletiva e à reciclagem dos resíduos sólidos no município. Além disto, desde o início, objetivou também apoiar as organizações de catadores em suas reivindicações, abrindo espaços de negociação com o poder público municipal e com a sociedade civil, visando alcançar a inclusão social destes trabalhadores. A partir de então, o FACS passou a realizar reuniões periódicas, as quais buscaram, inicialmente, a reunião de ideias e de propostas que visassem o avanço no processo de coleta e reciclagem dos resíduos sólidos municipais e a maior inclusão dos trabalhadores informais deste setor que atuavam na cidade. Foram feitas reuniões com representantes convidados do MNCR, da SEMMAS e da própria empresa contratada para a coleta de resíduos sólidos no município. Ao longo das reuniões e dos debates, foram se tornando consenso as vantagens existentes na implantação de um sistema de Coleta Seletiva Solidária, o qual permitisse a inclusão direta dos catadores nos processos de conscientização e informação ao público, coleta, transporte, triagem, transformação e comercialização dos materiais recicláveis do município. É importante dizer que a Prefeitura Municipal sempre se fez presente no FACS, através dos técnicos representantes da SEMMAS. Sempre houve o entendimento de que a presença da administração municipal nas discussões propiciadas pelo FACS era fundamental, pois, mesmo não havendo consenso sobre a possibilidade de implantação das políticas ali discutidas, permanecia aberto o espaço de negociação e de diálogo. Este entendimento também ocorreu por parte do governo municipal à época, e, mesmo tendo que se defrontar com alguns enfrentamentos surgidos em determinados momentos das discussões, os técnicos da SEMMAS nunca se ausentaram das reuniões do FACS. E, em sendo mantido este diálogo constante, foram sendo construídas relações de confiança mútuas, e também espaços para o planejamento e para a construção de avanços. A metodologia adotada para a realização das assembleias gerais do FACS possivelmente tenha contribuído significativamente para os êxitos posteriormente obtidos. Todas as reuniões eram realizadas com os participantes dispostos em roda, de maneira a garantir um processo verdadeiramente participativo, no qual todos tinham direitos iguais de se expressar e de serem ouvidos. Além disso, a ocorrência de cada assembleia geral sempre era amplamente divulgada na imprensa local com alguma antecedência, de maneira a informar à população sobre a existência do FACS e sobre a possibilidade de participar livremente das discussões que ali estavam sendo propostas. As assembleias sempre foram realizadas em locais amplos e de fácil acesso à população, dando-se preferência a espaços existentes em colégios, universidades ou na Câmara de Vereadores da cidade. Com isto, foi possível incluir mais a comunidade e permitir a participação de novas entidades no processo. Logo passaram a incluir o FACS representantes de associações de moradores e de empresas locais, bem como agentes comunitários, estudantes e cidadãos comuns interessados em participar do processo de mudança do sistema de coleta de resíduos existente na cidade. 3. A COOPERATIVA DE CATADORES ASSUME A USINA DE RECICLAGEM Após diversas assembleias do FACS, realizadas ao longo de 2009 e 2010, a prefeitura municipal passou a mostrar-se mais aberta à negociação (Figura 1). Argumentava que não havia como alterar o contrato já estabelecido com a empresa responsável pela coleta dos resíduos na cidade, enquanto este estivesse em vigor, mas que seria possível atender a uma antiga reivindicação da associação dos catadores, que consistia na transferência da usina de reciclagem da cidade para as mãos da mesma. Figura 1 – Uma das reuniões de negociação do FACS com a assessoria jurídica da Prefeitura Foto: Antelmo Stoelben Esta usina, de propriedade do município, até aquele momento, vinha sendo utilizada pela empresa responsável pela coleta de resíduos na cidade, e servia basicamente como ponto de transbordo dos caminhões de coleta para o caminhão de transporte dos resíduos a serem encaminhados para o aterro sanitário da empresa SIL Soluções Ambientais, localizada no município de Arroio dos Ratos. Uma parte dos resíduos coletados era passada pelas esteiras existentes na usina, e havia uma equipe de funcionários encarregada de fazer sua triagem. O produto da venda dos materiais triados ficava com a empresa. Além disto, a empresa recebia mensalmente um recurso financeiro do município destinado a manter os custos de manutenção da usina. Dentro do FACS, sempre houve a discussão sobre a possibilidade de ocorrência desta transferência da utilização da usina para os catadores organizados da cidade. Como a própria empresa responsável passou a manifestar concordância em abrir mão do uso das dependências da usina, a prefeitura entendeu que seria possível repassá-la para os catadores, porém exigiu dos mesmos que se organizassem em uma cooperativa. Os catadores, enfrentando este desafio, em agosto de 2010, criaram a COOMCAT - Cooperativa de Catadores e Recicladores de Santa Cruz do Sul. Cumprido este compromisso, em setembro daquele ano, a prefeitura passou às mãos desta cooperativa a possibilidade de utilização da usina municipal de reciclagem, conforme Figura 2. Figura 2 – Usina de Reciclagem de Santa Cruz do Sul - 2010 Fonte: Iuri Azeredo Esta conquista representou um grande avanço no processo de negociação e de implantação de uma política municipal voltada para a coleta seletiva de resíduos sólidos na cidade. Esta passou também a ser a primeira conquista significativa das ações do FACS até aquele momento. 4. IMPLANTAÇÃO E AMPLIAÇÃO DA COLETA SELETIVA SOLIDÁRIA A Coleta Seletiva Solidária já está sendo realizada em diversos municípios brasileiros e vem se consolidando como uma alternativa de inclusão socioeconômica dos catadores, seguindo um modelo que vislumbra maior eficiência do que os chamados convencionais. Isso porque ela proporciona um fortalecimento nas relações diretas entre a comunidade e catadores, resultando numa maior eficiência do serviço e maior conscientização da população. Desde sua fundação em 2009, o FACS vem aglutinando e mobilizando uma série de entidades e indivíduos interessados em construir um processo participativo e includente na gestão integrada dos resíduos sólidos no município de Santa Cruz do Sul. O projeto prevê a implementação gradativa da coleta seletiva na área urbana, num processo integrado entre catadores, moradores e Poder Público. Está fundamentado em três grandes eixos: o Plano de Capacitação, o Plano de Roteirização e o de Conscientização. Para assumir esta responsabilidade, foi formado um Grupo de Trabalho sob a responsabilidade da Secretaria de Saneamento e Meio Ambiente e Saneamento – SEMMAS e a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, com participação dos integrantes do Fórum, para organizar o cronograma de execução deste projeto. Muitas reuniões de trabalho foram realizadas entre a COOMCAT e a Prefeitura Municipal, com o acompanhamento do FACS em cada passo, para a conquista da implantação da coleta seletiva solidária. A expectativa era grande e se efetivou em dezembro de 2012, no “apagar das luzes” da gestão municipal de então, com a implantação da coleta nos três bairros considerados mais nobres da cidade: Centro, Higienópolis e Goiás. Este início estava configurado como um projeto piloto para análise do desempenho da cooperativa nesta nova atividade. Nesse contrato já havia a previsão de ampliação para mais seis bairros da cidade, após um ano de experiência. Como o FACS é um espaço de mobilização e articulação aberto à comunidade, muitos dos seus integrantes estavam lá para prestigiar e solidificar essa tomada de decisão. Assim, além do próprio poder público municipal e da COOMCAT, estavam presentes representantes do Movimento Nacional dos Catadores e Recicladores - MNCR, somando-se a representantes do Banco do Brasil, do Instituto Humanitas, da Mercur S.A., da Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC, da Universidade do Estado do Rio Grande do Sul - UERGS e da Escola Família Agrícola de Santa Cruz do Sul - EFASC. Todas estas entidades firmaram seu comprometimento em continuar construindo em conjunto esse processo no município. Neste importante momento, Ângela Nunes, catadora integrante da cooperativa e militante do MNCR, afirmou: “Estamos muito satisfeitos com esta conquista, sabemos que ela é fruto de muita luta e engajamento de muita gente, agora poderemos mudar a vida de mais companheiros e companheiras”. Esta iniciativa histórica na cidade configurou-se como um passo importante para consolidação de um modelo de gestão dos resíduos sólidos, que de fato seja integrado, com participação da comunidade na elaboração e no controle social das políticas públicas. Durante o ano de 2013, diversas atividades foram desenvolvidas pela COOMCAT para ampliar a conscientização da população, como as entrevistas em rádios, em noticiários de televisão e a realização de mutirões (Figura 3), como o realizado no bairro Higienópolis, considerado o mais “nobre” da cidade. Isso foi necessário, pois se esperava maior consciência da população no que concerne ao respeito ao trabalho dos catadores e colaboração com a separação do lixo, mas tal não se configurou de imediato. Figura 3: Mutirão pela coleta seletiva solidária no Bairro Higienópolis – 2013. Fonte: http://facsrs.blogspot.com.br/ Apesar dos esforços do FACS para o estabelecimento de um entreposto ou centro de transbordo de recicláveis, o mesmo demorou para ser conquistado. Esse entreposto fazia-se necessário para que os catadores pudessem desenvolver um trabalho com dignidade e qualidade, com condições mínimas de trabalho, como energia elétrica disponível, água potável, sanitários, local para armazenar os recicláveis temporariamente e para realizar o controle das cotas de cada catador em condições básicas de conforto ambiental, penalizando menos o trabalho dos catadores. Esse entreposto é importante também, para os catadores poderem vencer as distâncias com seus carrinhos de tração humana. Inicialmente, a COOMCAT desenvolveu a coleta sem esse entreposto, o que forçou a ocupação do passeio público no primeiro momento, e de terreno baldio em outra rua no segundo momento para servir de suporte à coleta, com pesagem e recebimento das cargas, conforme figura 4. Figura 4: Falta de entreposto como suporte para a Coleta Seletiva Solidária - 2013 Fonte: Foto de Rosí Silveira Em dezembro de 2013, quando da ampliação da coleta seletiva para mais seis bairros, quais sejam: Santo Inácio, Universitário, Avenida, Renascença, Independência e Várzea; e ampliação para 70 cooperados na COOMCAT, a Prefeitura Municipal, por meio da SEMMAS, intermediou o aluguel de um pavilhão no bairro Goiás para a instalação do entreposto, conforme Figura 5. Figura 5: Entreposto da Coleta Seletiva Solidária em Santa Cruz do Sul – 2013 Fonte: Prefeitura Municipal de Santa Cruz do Sul - PMSCS A ampliação da coleta seletiva solidária requereu um esforço extra quanto à conscientização da população, processo este que ainda está em fase de adaptação, pois os recursos financeiros não têm sido suficientes para atender a real demanda provinda da conscientização porta-a-porta. Os recursos inicialmente aguardados, que adviriam do Fundo Nacional de Meio Ambiente, ainda não puderam ser disponibilizados para a execução da campanha de conscientização, como havia sido previamente planejado. Dessa forma, a COOMCAT tem buscado inovar nos processos de divulgação do processo de implantação da coleta seletiva solidária, disponibilizando informações e cartilhas via redes sociais, tendo obtido resultados satisfatórios com esta iniciativa (Figura 6). Figura 6: Campanha da Coleta Seletiva Solidária no Facebook Fonte: https://pt-br.facebook.com/CSSdeSCS 5. CONTEINERIZAÇÃO VERSUS COLETA SELETIVA SOLIDÁRIA Após a conquista de vários avanços na busca pela valorização do trabalho dos catadores em Santa Cruz do Sul, assim como vem acontecendo em outros municípios do Estado do Rio Grande do Sul, a atual gestão municipal passou a defender a proposta de conteinerização ou coleta automatizada a ser realizada por uma empresa privada. Este novo sistema de coleta encontra-se, atualmente, em processo final de licitação. A coleta conteinerizada ou automatizada é uma alternativa tecnológica já utilizada em diversas cidades brasileiras, do Mercosul e em países considerados desenvolvidos. Conforme ABLP (2014) e FACS (2014), quando bem planejada e monitorada, ela pode apresentar algumas vantagens, tais como: Disponibilidade do serviço por 24 horas; Elimina a dispersão de lixo pela cidade e consequente interferência na drenagem urbana; A cidade apresenta um aspecto de limpeza; Diminui a possibilidade de animais e catadores não organizados revirarem e exporem o lixo a céu aberto nas calçadas; Os resíduos ficam protegidos da ação da chuva e do vento; Elimina o cheiro do sistema atual por vedação do contêiner; Reduz os custos de transporte para a empresa. No entanto, também podem haver desvantagens, como: A mudança de hábito da população ao necessitar deslocar-se de sua residência ou local de trabalho para dispor seus resíduos sólidos nos conteiners; Contribui com a deseducação ambiental da população, dificultando a separação dos resíduos e de programas que visam a redução da produção de resíduos. A confusão proporcionada pela adoção de sistemas competitivos para recolher os mesmos resíduos; Devido à automação, a adoção do sistema implica no desemprego de trabalhadores como os garis; Não contribui para a geração de trabalho e renda; Pode precarizar o trabalho dos catadores; Maiores custos operacionais para o poder público e, consequentemente, para a população; Dependência da tecnologia de terceiros; Corresponde a uma lógica que se contrapõe à Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS, pois não prima pela gestão socioambiental ao esconder o lixo que a própria sociedade produz. Essa é uma polêmica que alimenta a insegurança dos catadores em função dos avanços que já alcançaram e pela concorrência velada existente entre a cooperativa que realiza a coleta seletiva solidária e a empresa responsável pela coleta convencional dos resíduos. Em função disso, o FACS é mobilizado a se organizar diante de uma nova frente de negociação com o poder público municipal. Isto porque o mesmo parece estar aceitando as propostas de inovação tecnológica, principalmente pela imagem de higiene e proteção ambiental veiculadas nas propagandas, incluindo os contêineres no centro da cidade na licitação para a coleta de resíduos, transporte e destinação final dos resíduos sólidos do município. Esses contêineres carecem de maior investigação quanto ao seu real custobenefício, pois se avalia como avultamento dos custos de implantação para a municipalidade. Por outro lado, a empresa coletora dos resíduos “economiza” com o transporte dos resíduos pelo caminhão compactador convencional, visto que reduz a quilometragem e o número de arranques e paradas do mesmo. De fato, a utilização dos contêineres transformou-se em uma “solução técnica” adotada em muitas das grandes cidades do Rio Grande do Sul, porém apresenta muitos problemas de gerenciamento por falta de maiores esclarecimentos dos gestores municipais, como também da população geradora de resíduos. O FACS tem procurado dialogar com o poder público municipal, na busca de maior reflexão conjunta sobre o modelo de gestão de resíduos que está em vigor – a coleta seletiva solidária - o qual já se tornou referência em nível nacional. Esta mobilização está sendo revigorada no presente momento, diante da tomada de decisão verticalizada por parte da administração municipal, incluindo unilateralmente a conteinerização da coleta e, assim, contrapondo-se à lógica da coleta seletiva solidária, que vem sendo gradativamente implantada nos bairros da cidade. 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS Apesar dos esforços ao longo de anos, através das mobilizações de catadores em Santa Cruz do Sul, amplificados pela atuação do Fórum de Ação pela Coleta Seletiva Solidária e Reciclagem do Lixo em Santa Cruz do Sul – FACS, que, no final de 2012, enfim resultaram na implementação gradativa de um processo de coleta seletiva solidária na cidade de Santa Cruz do Sul, tem sido observado um retrocesso com a aceitação de um projeto de conteinerização por parte do atual executivo municipal. A finalização de um processo licitatório para tanto, implicará na adoção de uma metodologia que está na contramão do processo protagonizado pelo FACS e que estava destacando Santa Cruz do Sul como um município brasileiro onde se implantou, de forma inédita, um espaço de amplo debate, formação dos cidadãos e tensionamento dos órgãos públicos e da própria sociedade, resultando na atual coleta seletiva solidária, coordenada pelos próprios catadores. Desta forma, está se fazendo necessária uma rearticulação e um novo diálogo com o poder público, de forma a rever esta nova opção ou, ao menos, minimizar os impactos negativos já esperados com sua adoção. 7. REFERÊNCIAS E CITAÇÕES ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LIMPEZA URBANA – ABLP. A experiência da conteinerização em Caxias do Sul. Disponível em: <http://www.ablp.org.br/conteudo/sen07_18-10-2007-04.php> Acesso em: mar. 2014. FÓRUM DE AÇÃO PELA COLETA SELETIVA E SOLIDÁRIA EM SANTA CRUZ DO SUL – FACS. Coomcat faz mutirão para aumentar conscientização popular. Disponível em: < http://facsrs.blogspot.com.br/> Acesso em: mar. 2014 (a) ________________ FÓRUM DE AÇÃO PELA COLETA SELETIVA E SOLIDÁRIA EM SANTA CRUZ DO SUL – FACS. Coleta Seletiva avançará para mais bairros. Disponível em: <https://pt-br.facebook.com/CSSdeSCS/> Acesso em: mar. 2014 (b) ________________ FÓRUM DE AÇÃO PELA COLETA SELETIVA E SOLIDÁRIA EM SANTA CRUZ DO SUL – FACS. Carta enviada à Prefeitura sobre os possíveis efeitos da conteinerização em Santa Cruz do Sul. 2014 (c)