IMPERFEIÇÕES DE FABRICAÇÃO NA CONSTRUÇÃO NAVAL E OFFSHORE Diogo do Amaral Macedo Amante PROJETO DE FIM DE CURSO SUBMETIDO À BANCA EXAMINADORA DA ESCOLA POLITÉCNICA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO COMO PARTE DOS REQUISITOS NECESSÁRIOS PARA A OBTENÇÃO DO GRAU DE BACHAREL EM ENGENHARIA NAVAL. Aprovado por: ________________________________________________ Prof. Segen Farid Estefen, Ph.D. ________________________________________________ Marcos Pereira, Ph.D. ________________________________________________ Tatiana Aleksandrovna Gurova, D.Sc. ________________________________________________ Francisco Quaranta Neto, D.Sc. RIO DE JANEIRO, RJ - BRASIL. FEVEREIRO DE 2006. AGRADECIMENTOS À minha mãe, que esteve presente nos momentos mais difíceis dando o apoio necessário para superá-los. À minha avó, meu avô, minhas irmãs e minha madrinha por terem me incentivado a alcançar meus objetivos. À minha namorada Daniela que sempre me escutou e ajudou nestes últimos períodos. Ao meu orientador Segen F. Estefen, pela fonte de sabedoria e conhecimento. Ao Engenheiro Xavier Castelo pelo apoio no desenvolvimento dos modelos numéricos utilizados. À Agência Nacional do Petróleo (ANP) pelo apoio financeiro por meio do Programa de Formação de Recursos Humanos da ANP para o Setor de Petróleo e Gás (PRH-ANP). i Índice Sumário Executivo...............................................................................................................iii Capítulo 1 .............................................................................................................................. 1 Introdução ............................................................................................................................. 1 1.1 Definição do problema ............................................................................................ 1 1.2 Distorções ................................................................................................................ 7 1.3 Tensões Residuais ................................................................................................. 10 1.4 Surgimento das Imperfeições de Fabricação no Processo de Soldagem ............... 13 Capítulo 2 ............................................................................................................................ 18 Influência das distorções na integridade estrutural ........................................................ 18 2.1 Introdução.............................................................................................................. 18 2.2 Modelo Numérico.................................................................................................. 20 2.3. Influência da Amplitude das Distorções............................................................... 23 2.4 Estudo Paramétrico................................................................................................ 29 2.5 Influência do Modo de Distribuição das Distorções ............................................. 32 Capítulo 3 ............................................................................................................................ 35 Medição das distorções....................................................................................................... 35 3.1 Introdução.............................................................................................................. 35 3.2 Tecnologias de medição ........................................................................................ 36 3.3 Tecnologia 3D Laser Scanning.............................................................................. 37 3.4 Laser Tracker......................................................................................................... 40 3.5 Medição das distorções em um painel em escala reduzida ................................... 44 Capítulo 4 ............................................................................................................................ 47 Simulação de soldagem ...................................................................................................... 47 4.1 Introdução.............................................................................................................. 47 4.1.1 Equações Básicas da Análise Térmica ............................................................... 51 4.2 Modelo Numérico.................................................................................................. 52 4.3 Análise Numérica .................................................................................................. 58 Capítulo 5 ............................................................................................................................ 65 Minimização das distorções ............................................................................................... 65 5.1 Introdução.............................................................................................................. 65 ii 5.2 Controle e Minimização das Distorções................................................................ 67 5.2.1 Melhoria no Controle dos Atuais Métodos de Fabricação ................................. 68 5.2.1 Implementação de Novos Equipamentos e Processos de Fabricação................. 69 5.2.3 Mudanças de projeto........................................................................................... 73 Conclusões ........................................................................................................................... 74 Trabalhos Futuros .............................................................................................................. 76 Referências .......................................................................................................................... 77 iii Sumário Executivo A retomada da construção naval no Brasil, incluindo a construção de plataformas semi-submersíveis e de um grande número de petroleiros, tem sido impulsionada pelo setor de petróleo e gás. Para o desenvolvimento da construção naval e offshore nacional, tornando-a mais competitiva, existe a necessidade de dar maior atenção às imperfeições de fabricação. O problema relacionado às imperfeições de fabricação não possui relevância somente na indústria de construção naval e offshore, estas imperfeições têm efeito negativo em grandes áreas industriais, especialmente considerando as indústrias que utilizam a soldagem como principal método de união. O objetivo da pesquisa é contribuir para um melhor entendimento das imperfeições de fabricação relacionadas às estruturas oceânicas. Estas imperfeições se apresentam na forma de tensões residuais e distorções. A importância dos processos relacionados às imperfeições de fabricação é exemplificada com a descrição do impacto das distorções de fabricação na construção naval. A pesquisa não se restringe somente aos problemas relacionados às distorções. Nesta pesquisa mencionam-se os atuais métodos que estão sendo desenvolvidos para o controle e minimização das distorções. O primeiro capítulo relata os principais problemas relacionados às imperfeições assim como fornece as definições básicas para o maior entendimento do leitor. As distorções, além de degradar os elementos estruturais, consistem no principal problema para a moderna construção naval e offshore. No segundo capítulo, observa-se a influência das distorções na integridade estrutural de placas planas de aço que formam em maior parte as estruturas oceânicas. A influência das distorções na integridade estrutural foi observada através de modelos numéricos de elementos finitos. Nesse capítulo é realizado um estudo paramétrico que engloba a razão de iv aspecto, condição de contorno e amplitude máxima das distorções. O modo de distribuição das distorções também é analisado. No terceiro capítulo, foi realizada uma pesquisa de equipamentos de alta precisão para medição das distorções. Essas tecnologias foram avaliadas no Laboratório de Tecnologia Submarina da COPPE/UFRJ com o objetivo de quantificar a forma e amplitude das distorções. Foram realizadas medições das distorções em modelos reduzidos. O desafio do quarto capítulo foi a tentativa de reproduzir um modelo numérico para previsão das tensões residuais de uma solda de filete elaborado por Sorensen (1999) em sua tese de doutorado. Este modelo de simulação de soldagem possui uma distribuição de temperatura altamente não uniforme no espaço e no tempo e representa a solda de duas placas de 12mm de espessura. Compara-se o resultado obtido com os resultados numéricos e experimentais de Sorensen. A pesquisa é finalizada com uma revisão de técnicas de minimização das distorções no quinto capítulo. Neste capítulo realiza-se um levantamento das técnicas mais atuais que estão sendo utilizadas e desenvolvidas. v vi Capítulo 1 Introdução 1.1 Definição do problema As imperfeições de fabricação se apresentam na forma de tensões residuais e distorções. Estas imperfeições constituem um sério problema existente nas áreas de engenharia em que o calor é usado no processo de fabricação, mas em nenhuma área exerce tanta influência quanto na Construção Naval. As distorções têm gerado incertezas para os engenheiros desde 1930, quando a maior parte dos navios já era fabricada em aço e a soldagem se tornava o principal processo de união estrutural. As estruturas oceânicas são constituídas, basicamente, de painéis enrijecidos, cujo método de fabricação envolve procedimentos de corte e soldagem. Esses painéis são formados pela união de chapas de aço que são enrijecidas com a soldagem de reforços longitudinais e transversais. A fabricação dos painéis segue o seguinte ciclo de produção: a) Chapas de aço são unidas através de um processo de soldagem; b) Os reforços longitudinais são soldados às chapas de aço; c) Soldagem dos reforços transversais. A Figura 1 ilustra um típico painel plano enrijecido. 1 Figura 1: Painel enrijecido. Os principais processos envolvidos na fabricação destes painéis são os de corte e de soldagem. Esses processos são baseados na aplicação de uma alta quantidade de calor. A aplicação de calor na fabricação é a principal causa do surgimento das distorções e tensões residuais nas estruturas envolvidas. O corte de chapas é um dos primeiros processos de fabricação utilizados na construção naval. Assim, o surgimento das imperfeições de fabricação devido à imprecisão de cortes pode ocasionar grandes perdas econômicas com o processo de correção destas imperfeições. Esta questão torna crucial a precisão do corte e o objetivo nos estaleiros é maximizar essa precisão. Mas o principal processo responsável pelo surgimento das imperfeições de fabricação é o de soldagem. O calor não uniforme recebido pelo material durante o processo de soldagem gera uma expansão térmica diferencial ao redor da solda. A baixa temperatura do material mais distante da solda reprime a sua expansão, produzindo distorções e tensões residuais. Uma explicação mais detalhada para o surgimento destas imperfeições no processo de soldagem encontra-se na seção 1.4 deste capítulo. O surgimento das imperfeições de fabricação em uma estrutura soldada pode ocasionar graves problemas estruturais, entre os quais podem-se citar a formação de trincas, maior tendência à fratura frágil e falta de estabilidade dimensional. Mas, o maior problema enfrentado pelas estruturas oceânicas devido às imperfeições de fabricação está relacionado 2 à falha por flambagem. O comportamento de painéis enrijecidos sob cargas de compressão é relativamente complexo devido ao grande número de combinações de estrutura, material e parâmetros de carga. O problema fica ainda mais complicado devido às incertezas relacionadas às imperfeições de fabricação. Assim, é muito importante o total entendimento destas imperfeições para a prática de projeto, pois um dos principais tipos de carregamentos presentes no ciclo de vida destas estruturas é compressivo e estes induzem a falha por flambagem. As distorções, além de reduzir a resistência ao colapso das estruturas oceânicas, afetam o processo de fabricação, aumentando o tempo e o custo de produção, devido, principalmente, às necessidades de correção. Atualmente, os navios ou mesmo plataformas semi-submersíveis são construídas pelo método de produção por blocos, no qual, grandes blocos são formados por blocos menores, montagens, sub-montagens e elementos produzidos em várias áreas de fabricação. Os grandes blocos são transportados ao dique para a edificação final. A Figura 2 ilustra o método de produção por blocos. Figura 2: Método de produção por blocos [1]. 3 Os painéis enrijecidos são considerados produtos intermediários, ou seja, produtos com características de projeto e construção bastante similares, podendo, deste modo, obter as vantagens de uma fabricação em série. Conforme já citado, as estruturas oceânicas são formadas em maior parte por esses painéis, que são utilizados em quase todos os estágios de produção. Esse elemento estrutural é o primeiro a sofrer a influência dos processos de fabricação desenvolvendo as indesejáveis distorções de fabricação. O processo de soldagem é utilizado em todos os estágios de produção, mas esses painéis são demasiadamente afetados pela inexistência de restrições à deformação quando comparados com a soldagem aplicada a outros estágios de produção, como os de montagens e sub-montagens que possuem maiores restrições à deformação devido ao maior número de elementos presentes na estrutura. Quando os produtos intermediários possuem altos níveis de distorções e as submontagens e montagens são montadas de forma irregular, o processo de fabricação é atrasado devido à necessidade de correção, principalmente considerando-se a complexidade das estruturas envolvidas na construção naval, conforme se pode observar na Figura 3. Figura 3: Exemplo da complexidade estrutural encontrada na construção naval [1]. Assim, é necessário um considerável investimento em uma fabricação precisa desde a construção de painéis até a montagem de grandes blocos. Consequentemente existe a necessidade de um sistema de controle de precisão em todos os estágios de construção. Um aspecto importante do controle de precisão está na dificuldade normalmente encontrada na união de blocos durante a edificação do casco. As variações encontradas na fase de edificação que não estão dentro dos limites de tolerância, devem ser corrigidas. 4 Aplicar um controle de precisão em todos os processos de fabricação é mais produtivo do que ter que lidar com o processo de correção. A Figura 4 demonstra a complexidade da fase de edificação de grandes blocos. Figura 4: Complexidade da fase de edificação de grandes blocos. A correção e o ajuste de elementos estruturais com altos níveis de distorções é um dos processos que mais consomem o tempo de produção, mas é extremamente difícil estimar o percentual de trabalho relacionado a este problema. Estima-se que o processo de correção envolvido com as distorções de fabricação consuma 30% do trabalho total, Andersen [1]. Outro problema está relacionado à dificuldade encontrada pelos estaleiros em automatizar os processos de fabricação. Desde os anos 80, a automação tem sido considerada a tecnologia crucial. Os estaleiros mais modernos estão investindo muito nos processos automatizados para aumentar a eficiência de produção. Um exemplo claro que pode ser mencionado são os processos automáticos de soldagem que podem aumentar em cinco vezes a eficiência de soldagem quando comparada com a soldagem manual. Para 5 obter o aumento de produção esperado com a automatização em todos os estágios de fabricação deve existir uma alta precisão dos elementos estruturais. O quesito básico para alcançar esta fase é a implantação de um controle total dos processos de fabricação dos diferentes produtos intermediários envolvidos na construção das estruturas, visto que o processo automatizado requer uma programação muito complexa, baseada nas dimensões e parâmetros, com margens mínimas de variação em relação aos dados programados, tornando as distorções o principal empecilho a este avanço tecnológico. Outra questão que também deve ser lembrada, é que através dos anos, os projetos de construção naval e offshore têm maximizado o espaço de carga disponível e otimizado o gasto com combustível, reduzindo o peso de aço por unidade de volume. Essas medidas só são possíveis com a utilização de aços de maior resistência e conseqüente diminuição da espessura das chapas e das dimensões dos enrijecedores. Em recente publicação, Huang et al. [2] relataram o aumento do uso de chapas finas em embarcações militares e comerciais nos últimos dez anos nos Estados Unidos. Um estaleiro citado na pesquisa utiliza chapas finas com espessuras menores que 10mm na proporção de 90%. Bruce et al. [3] citaram que uma tendência similar tem ocorrido na Europa onde fragatas estão usando significante proporção de chapas de aço com 4 e 5mm. Essa tendência de redução da espessura torna ainda mais significante a influência das distorções e das tensões residuais na integridade estrutural. Embora as distorções e as tensões residuais estejam intimamente relacionadas, preferiu-se conceituá-las separadamente para o melhor entendimento teórico do leitor. 6 1.2 Distorções As distorções geradas pelo processo de fabricação, denominadas imperfeições geométricas iniciais, são deformações dimensionais permanentes que ocorrem na estrutura e representam quantitativamente o afastamento da superfície real em relação à superfície idealizada durante a etapa de concepção da estrutura. Esse tipo de imperfeição, caracterizado pela forma e magnitude de sua distribuição, é a principal causa da obtenção de cargas de colapso distintas, em componentes laminares nominalmente idênticos. Conseqüentemente, os códigos de projeto procuram garantir a integridade de painéis sob compressão, associando as recomendações de projeto às tolerâncias admissíveis durante a fabricação. Existem muitos fatores que podem gerar distorções, entre eles a forma como o produto é fabricado, transportado e estocado, mas o principal fator está associado aos processos térmicos de fabricação, sendo que, dentre esses, o processo de soldagem é o principal. A Figura 5 mostra distorções impostas após processos de soldagem. Figura 5: Distorções impostas após processos de soldagem. 7 As distorções são bem caracterizadas em relação a seu tipo. Em 1980, Masubuchi [4] classificou as distorções em seis tipos: • Contração transversal • Distorção angular • Distorção rotacional • Contração longitudinal • Distorção de flambagem • Distorção de flexão A Figura 6 ilustra os tipo de distorções. Contração transversal Distorção Angular Contração Longitudinal Distorção de flambagem Distorção Rotacional Distorção de flexão Figura 6: Tipos de distorções. Para determinar o método de prevenção mais efetivo, é necessário identificar o tipo de distorção que geralmente está induzido em uma determinada estrutura. Em ordem de importância, as principais distorções presentes na construção naval e offshore são as de flambagem e as angulares, Dydo et al. [5]. 8 Essas distorções resultam em vários problemas na construção naval e offshore. Embora os principais já tenham sido relacionados na seção de definição do problema, os principais efeitos podem ser citados de forma mais direta: • Desalinhamento de componentes estruturais; • Dificuldade de automação dos processos de fabricação; • Grande quantidade de trabalho manual; • Aumento de tempos e custos de produção; • Redução de eficiência dos processos de fabricação; • Imprecisão do produto final; • Perda de resistência estrutural. 9 1.3 Tensões Residuais Tensões residuais são aquelas que estão presentes na estrutura mesmo quando não existe forças ou momentos externos atuando na mesma. Assim, é muito importante avaliar ou prever a formação de tensões residuais para preservar a integridade dos projetos de engenharia contra o colapso estrutural. Uma das principais causas para o seu surgimento é a ocorrência de deformações plásticas não uniformes. A Figura 7 ilustra a formação de tensões residuais longitudinais durante o processo de soldagem de placas de aço. Figura 7: Representação das mudanças de temperatura e tensão durante o processo de soldagem de placas de aço. a) Processo de soldagem; b) Distribuição das tensões longitudinais; c) Distribuição de temperaturas na placa. Como as tensões residuais são esforços internos auto-equilibrados, e observadas sem nenhum carregamento externo, as forças e momentos atuantes devido a essas tensões em uma determinada seção da estrutura devem ser nulos: → → ∫σd A = 0 A ∫ dM = 0 A 10 Apesar da importância tecnológica, em muitos casos, a presença de tensões residuais não é claramente avaliada. Isso acontece devido às dificuldades conceituais, informações metalúrgicas insuficientes, ausências de um conveniente balizamento dos parâmetros durante os processos de fabricação e limitações nas técnicas para sua medição. Além disso, dificuldades advêm de diferentes fenômenos mecânico-metalúrgicos, alguns deles não claramente entendidos, que isolados ou conjuntamente podem ocorrer na sua formação. As tensões residuais podem ser caracterizadas de três modos diferentes, em conseqüência de como se apresentam nos materiais. Ribeiro [6] definiu os três tipos: - Tensões Residuais do Modo I: São quase homogeneamente distribuídas numa grande região do material, ou seja, distribuídas em vários grãos. Em uma superfície de corte através de todo o corpo, as forças internas relativas às tensões residuais do modo I estão em equilíbrio. Do mesmo modo se anula o somatório dos momentos das forças relativas a qualquer eixo. Com a alteração do equilíbrio das forças e dos momentos de um corpo contendo tensões residuais do modo I, ocorrem alterações macroscópicas nas dimensões do corpo. - Tensões Residuais do Modo II: São quase homogeneamente distribuídas numa pequena região do material, ou seja, num grão, ou região da ordem de grandeza do tamanho de grão. As forças e momentos internos relativos às tensões residuais do modo II estão em equilíbrio, considerando-se apenas um número pequeno de grãos. Com alteração deste equilíbrio, podem se apresentar, não necessariamente, alterações macroscópicas nas dimensões do corpo. - Tensões Residuais do Modo III: São heterogeneamente distribuídas através de pequenas regiões do material, ou seja, da ordem de algumas distâncias interatômicas. As forças e momentos internos relativos a tensões residuais do modo III estão em equilíbrio, considerando-se apenas parte de um grão. Com alteração deste equilíbrio, não se apresentam modificações macroscópicas nas dimensões do corpo. 11 Na soldagem existem tensões residuais macroscópicas e microscópicas com complicadas superposições dos modos I, II, III de tensões residuais. Entretanto, geralmente quando se fala de tensões residuais, são implicitamente consideradas apenas tensões residuais macroscópicas. 12 1.4 Surgimento das Imperfeições de Fabricação no Processo de Soldagem O processo de soldagem é realizado com o aquecimento de uma região específica da estrutura, permanecendo as outras regiões com temperaturas muito inferiores. Obedecendo à dilatação térmica, as regiões aquecidas tendem a dilatar, mas as regiões com menores temperaturas dificultam essa dilatação. Este processo gera deformações elásticas e plásticas na estrutura aquecida. A conseqüência destas deformações é observada ao final do processo de soldagem com o surgimento de tensões residuais e distorções. O calor proveniente do processo de soldagem gera um aumento das dimensões da estrutura proporcional à variação de temperatura (∆T = T − T0 ) , obedecendo à seguinte relação: ∆l = l 0 .α .∆T Onde: (∆l ) é a variação dimensional; α é o coeficiente de dilatação térmica; l o é o comprimento inicial. Quando uma estrutura recebe calor uniformemente e não existiem restrições às suas variações dimensionais, não se observam efeitos mecânicos importantes, mas se o calor fornecido à estrutura não for uniforme ou se existirem restrições à contração/expansão da estrutura durante o ciclo térmico, tensões residuais e distorções podem ser desenvolvidas. O desenvolvimento das imperfeições de fabricação pode ser melhor entendido com o exemplo dado em Modenesi [7] em que se consideram três barras metálicas de mesmo comprimento e seções presas a bases comuns, conforme indica a Figura 8. Com o fornecimento de calor à barra central, esta tende a dilatar, mas as outras restringem essa dilatação, resultando no final do processo, em tensões de tração na barra central e tensões de compressão nas barras externas. 13 Barra que recebe calor Condição inicial Aquecimento Condição Final Figura 8: Aquecimento da barra central. No início do aquecimento (até o ponto 2) pode-se observar na Figura 9 que as tensões e deformações na barra central são elásticas. 5 1 4 2 3 Figura 9: Curva tensão por temperatura na barra central. Estas barras se mantêm no mesmo comprimento, assim a dilatação térmica deve ser compensada por deformações elásticas obedecendo à seguinte relação: 14 σc Et + α∆T + σl E =0 Onde: E é o módulo de elasticidade do material à temperatura ambiente. Et é o módulo de elasticidade do material à temperatura da barra central. σc é a tensão na barra central. σl é a tensão nas barras laterais. Como as barras possuem a mesma seção, σl = 0.5σc e assim: σ c = −α∆T 2E 1 + 2 E Et Quando a tensão compressiva na região aquecida atinge o limite de escoamento (ponto 2), essa região passa a ter deformações plásticas. A temperatura em que a barra passa a ter deformações plásticas pode ser estimada através da equação acima. Mas o calor continua sendo fornecido e a temperatura continua aumentando, assim a região aquecida se deforma plasticamente. Outro fator que deve ser notado é a diminuição do limite de escoamento com o aumento da temperatura, assim podemos notar que do ponto 2 ao ponto 3 o valor da tensão compressiva cai à medida que a temperatura aumenta e ao mesmo tempo ocorrem deformações plásticas. Quando o fornecimento de calor é retirado no ponto 3, a barra central começa a contrair com a diminuição da temperatura, mas as barras com menores temperaturas restringem essa contração, ocasionando o aparecimento de tensões de tração que passam a atuar na barra central até que o limite de escoamento seja atingido no ponto 4. Quando a barra central atingir a temperatura ambiente, em função das deformações plásticas, as três barras possuirão um comprimento menor, conforme indica a Figura 9 na condição final. Assim, como as barras estão unidas, haverá tensões residuais de tração com amplitude semelhante ao limite de escoamento do material na barra central (Ponto 5) e para manter o equilíbrio de forças, existem tensões residuais compressivas nas barras externas com magnitude igual à metade da tensão observada na barra central. 15 Com base neste exemplo, torna-se mais fácil o entendimento do desenvolvimento das tensões residuais e distorções devido ao processo de solda das placas de aço que formam os painéis enrijecidos. A barra central pode ser comparada à região que recebe o calor diretamente na solda e as regiões das placas a serem soldadas que se encontram mais distantes da região na qual o calor é fornecido possuem um comportamento semelhante às barras externas. A Figura 10 ilustra a soldagem de placas de aço com algumas seções que são comentadas na Figura 11 que demonstra o desenvolvimento de tensões em cada seção. Na seção 1, distante da poça de fusão e ainda não aquecida pela fonte de calor, não existem variações de temperatura e assim o material ainda não desenvolveu tensões. No ponto 2, junto à poça de fusão, o material aquecido tende a se expandir, mas é restringido pelas regiões mais frias da placa, gerando, assim, tensões de compressão em regiões próximas à zona afetada pelo calor e tensões de tração nas regiões um pouco mais afastadas. Quando o seu limite de escoamento é atingido, o material aquecido deforma-se plasticamente em compressão. Na poça de fusão, como o material está líquido, as tensões são nulas. Com o resfriamento e após a solidificação da solda, o material passa a se contrair, sendo novamente impedido pelas regiões mais frias e afastadas da solda. Assim, no ponto 3 surgem tensões de tração junto ao cordão e de compressão nas regiões mais afastadas. Estas tensões aumentam de intensidade levando ao escoamento da região aquecida. Após o resfriamento completo, no ponto 4, as tensões residuais no centro da solda chegam a níveis próximos ao limite de escoamento do material e existe uma distribuição de tensão similar à mostrada na seção 4 da Figura 11. 16 z x 4 3 2 1 Figura 10: Desenvolvimento de tensões no processo de soldagem de placas de aço. Figura 11: Tensões residuais longitudinais em cada seção. 17 Capítulo 2 Influência das distorções na integridade estrutural 2.1 Introdução As distorções introduzidas nos elementos estruturais devido aos processos de fabricação presentes na construção naval e offshore têm efeito negativo em relação à resistência limite das estruturas oceânicas. Estas distorções aumentam as chances de falha por flambagem dessas estruturas. A falha por flambagem ocorre por instabilidade estrutural quando é alcançada uma carga crítica em compressão axial. A tensão crítica que caracteriza a falha por flambagem é inferior à tensão de escoamento do material, conforme pode ser observado nas considerações estruturais de projetos baseados no estado limite último, na Figura 12. Figura 12: Considerações estruturais de projeto baseado no estado limite último. 18 Embarcações e colunas de plataformas semi-submersíveis são constituídas de painéis que suportam grandes cargas compressivas e estão sujeitas a este tipo de falha. Deste modo uma análise numérica com a incorporação das distorções de fabricação é de grande importância para a prática de projeto das estruturas oceânicas. A Figura 13 ilustra uma típica distorção pós-soldagem onde o modo de distribuição de flambagem é dominante. Figura 13: Típica distorção pós-soldagem onde o modo de flambagem é dominante. A influência das distorções na integridade estrutural de placas já foi estudada por métodos numéricos e experimentais por diversos autores. Carlsen e Czujko [8] citaram que a ação das distorções pode ser benéfica ou degradante conforme a sua forma e o modo dominante. Entretanto, Mansour et al. [9] salientaram que o aumento de resistência é muito sensível a qualquer deformação local da placa e assim não deve ser incorporado ao projeto. Pasqualino et al. [10] concluíram que em um painel isolado, diferentes níveis de carga, condições de contorno e magnitude das distorções possuem forte influência na resistência à flambagem. Mas, Gordo e Guedes Soares [11] demonstraram que o modo de distribuição das distorções assume uma importância maior que a amplitude máxima. O objetivo deste capítulo é analisar a influência das distorções na integridade estrutural relativa à carga crítica de flambagem de placas sob compressão, realizando um estudo paramétrico do colapso estrutural de placas de aço quando sujeitas a variação da razão de aspecto, condição de contorno e amplitude máxima de distorção. O modo de distribuição das distorções também é observado. As análises numéricas foram realizadas utilizando o programa de elementos finitos ABAQUS 6.3 de Hibbit et al. [13] em simulações do comportamento do colapso estrutural de placas sob compressão. 19 2.2 Modelo Numérico Os programas de modelagem numérica com elementos finitos estão evoluindo através dos anos e são cada vez mais utilizados à medida que geram resultados muito confiáveis. Esta evolução junto com o aumento da capacidade computacional vem substituindo a forma de projeto de painéis baseada em dados experimentais por análises numéricas. Os modelos numéricos oferecem um método prático para analisar a sensibilidade da placa quanto à variação da razão de aspecto, condição de contorno e amplitude máxima de distorção. A curva do material foi obtida através de testes de tração uniaxial de amostras do material. As propriedades mecânicas do aço empregado se encontram na Tabela 1. A curva de tensão verdadeira por deformação plástica logarítmica é fornecida ao programa e se encontra na Figura 14. Tabela 1: Propriedades mecânicas do material. Tensão de escoamento 365 MPa Módulo de Elasticidade 2,07E05 N/mm2 Coeficiente de Poisson 0,3 Tensão verdadeira (MPa) 700 600 500 400 300 200 100 0 0 0.05 0.1 0.15 0.2 0.25 0.3 Deformação plástica logarítmica Figura 14: Gráfico de tensão verdadeira por deformação plástica logarítmica do material. 20 Parâmetros como o módulo de elasticidade, o coeficiente de Poisson e a curva de tensão verdadeira por deformação plástica logarítmica serviram como dados de entrada ao programa. As placas foram modeladas em 3D com o elemento de casca com quatro nós e seis graus de liberdade S4. Este elemento permite deformações de membrana finita e rotações finitas e é capaz de analisar cascas finas e espessas. Foram considerados 5 pontos de integração ao longo da espessura da casca. Foi adotada a hipótese de não-linearidade geométrica, uma vez que, durante o carregamento, a geometria da placa é alterada, pois se admitiram grandes deslocamentos e rotações dos nós. Todas as placas analisadas apresentam a mesma dimensão transversal(b) de 625mm e mesma espessura(t) de 11,1mm. Algumas dimensões longitudinais(a) foram consideradas para a variação da razão de aspecto(a/b). As placas foram analisadas com condições de contorno de apoio e engaste. Foram consideradas a simetria longitudinal e transversal para a otimização do tempo de processamento nas análises. A carga de compressão foi imposta através de deslocamentos prescritos nos nós da extremidade transversal. A Tabela 2 e a Figura 15 ilustram as condições relevantes de contorno e de carregamento. Tabela 2: Condições de contorno aplicadas. Bordo da Placa Condição de Contorno Bordo de carga, x = 0 Uz = 0, θx = θy = θz = 0 Bordo apoiado Uy = Uz = 0, θy = θz = 0 Bordo engastado Uy = Uz = 0, θx = θy = θz = 0 21 Simetria longitudinal b a Simetria transversal Engaste ou Apoio Deslocamentos prescritos Figura 15: Visualização das condições impostas no modelo. Foi feito um estudo com diversas densidades de malha para a definição da malha a ser utilizada. As malhas adotadas foram geradas a partir de uma rotina em FORTRAN. Para este estudo foi considerada uma placa com dimensões de 1200 mm de comprimento por 625 mm de largura e 11,1 mm de espessura em condição de contorno apoiada. Foi levado em consideração o resultado de tensão crítica de flambagem obtido em cada análise em relação à densidade da malha. O objetivo é a escolha de uma malha com a menor densidade possível, mas que gere resultados confiáveis, economizando assim, o tempo de processamento das análises. A malha escolhida conta com quinze elementos na direção longitudinal e cinco elementos na direção transversal e apresenta uma diferença de apenas 1,76% em relação ao resultado de tensão crítica de flambagem obtido pela malha analisada com maior densidade. A malha com maior densidade possui cinqüenta elementos na longitudinal e dezesseis elementos na transversal. Na Figura 16 encontram-se a malha utilizada e a mais refinada. Figura 16: Malha utilizada comparada com a malha mais refinada. 22 2.3. Influência da Amplitude das Distorções Em 1975 Faulkner [13] concluiu que a amplitude das distorções normalizada pela espessura, (w), é proporcional ao quadrado do coeficiente de esbeltez da placa (β). Este coeficiente é obtido em função da geometria da placa e das propriedades do material, sendo estimado através da seguinte equação: β= b σo t E Onde: b é a largura da placa; t é a espessura da placa; σo é a tensão de escoamento do aço; E é o módulo de elasticidade do aço. Em 1991, Chapman [14] classificou a amplitude máxima de distorção (Wmáx) em três categorias: leve, média e severa. As equações referentes a cada categoria podem ser observadas na Tabela 3. Tabela 3: Categorias de amplitude máxima de distorção. Imperfeição Wmáx/t Leve 0.025β2 Média 0.1β2 Severa 0.3β2 23 Neste estudo as distorções estão distribuídas em forma de onda senoidal e introduzidas no modelo numérico através das coordenadas nodais da malha pelos componentes da série dupla de Fourier conforme a equação abaixo. W ( x, y ) = W sen(πx / a ) sen(πy / b) máx Esta primeira análise tem como objetivo a observação da influência da amplitude das distorções no colapso das placas. Para este estudo as comparações entre os resultados são feitas apenas relacionando a categoria de amplitude de distorção, pois cada análise é realizada com as mesmas condições de contorno e razão de aspecto. Nestas análises utilizam-se as equações propostas por Chapman para as categorias de amplitudes leve e severa. Para uma categoria de amplitude média, optou-se pela utilização da média entre as duas categorias extremas. A primeira placa analisada possui as dimensões de 1200 mm de comprimento por 625 mm de largura e 11,1 mm de espessura. Esta placa se encontra em condição de contorno apoiado. Na Tabela 4 estão as respectivas amplitudes máximas de distorção para cada categoria. Tabela 4: Amplitudes máximas de distorção. Imperfeição Wmáx (mm) Leve 1,54 Média 10,04 Severa 18,54 24 As placas após o colapso encontram-se na Figura 17. As curvas de tensão/deformação para as três condições podem ser observadas na Figura 18. As tensões encontradas nas curvas representam a tensão compressiva longitudinal média dividida pela tensão de escoamento (σcr/σo). A deformação representa a deformação compressiva longitudinal média dividida pela deformação de escoamento (εcr/εo). Amplitude leve Amplitude média Amplitude severa Figura 17: Colapso das placas em ordem de amplitude máxima de distorção. 25 Tensão compressiva long.média / tensão de escoamento 0,9 0,8 0,7 0,6 0,5 0,4 0,3 Amplitude leve 0,2 Amplitude média 0,1 Amplitude severa 0 0 0,5 1 1,5 2 Deformação compressiva long. média / def. de escoamento Figura 18: Comparação entre as curvas de colapso obtidas para as três categorias. Os resultados obtidos indicam que o aumento da amplitude das distorções diminui a resistência ao colapso. As tensões longitudinais médias compressivas normalizadas pela tensão de escoamento do aço resultaram respectivamente em 0,76, 0,74 e 0,68. Assim a diferença entre os valores obtidos para a tensão de colapso entre as categorias extremas foi de 11,7%, demostrando a grande influência da amplitude máxima de distorção. A segunda placa analisada possui dimensões de 1800 mm de comprimento por 625 mm de largura e 11,1 mm de espessura. Esta placa se encontra em condição de contorno apoiado. Na Tabela 5 estão as respectivas amplitudes máximas de distorção para cada categoria. Tabela 5: Amplitudes máximas de distorção. Imperfeição Wmáx (mm) Leve 1,54 Média 10,04 Severa 18,54 26 As placas após o colapso encontram-se na Figura 19. As curvas de tensão/deformação para as três condições podem ser observadas na Figura 20. Amplitude leve Amplitude média Amplitude severa Tensão compressiva long.média / tensão de escoamento Figura 19: Colapso das placas em ordem de amplitude máxima de distorção. 0,9 0,8 0,7 0,6 0,5 0,4 0,3 Amplitude leve 0,2 Amplitude média 0,1 Amplitude severa 0 0 0,5 1 1,5 Deformação compressiva long. média / def. de escoamento Figura 20: Comparação entre as curvas de colapso obtidas para as três categorias. Pode-se observar o inverso do que aconteceu com a primeira placa analisada nos resultados obtidos para esta geometria, ou seja, o aumento da amplitude das distorções aumenta a resistência ao colapso por flambagem. As tensões de colapso normalizadas pela tensão de escoamento do aço foram respectivamente de 0,71, 0,80 e 0,81. Assim a 27 diferença entre os valores obtidos para a tensão de colapso entre as categorias extremas foi de 14,1%, demostrando a grande influência da amplitude máxima de distorção. Apesar do aumento de capacidade de carga obtido pela placa com maiores níveis de distorção, esta prática não deve ser incorporada ao projeto, pois o aumento de resistência é muito sensível a qualquer deformação local da placa, Mansour et al. [9]. A razão deste aumento de capacidade está relacionada ao modo natural de flambagem da placa analisada e comenta-se melhor este fato na seção 2.5. 28 2.4 Estudo Paramétrico Para um melhor entendimento do comportamento estrutural de placas planas foi desenvolvido um estudo paramétrico das placas quando sujeitas a variações de condição de contorno, razão de aspecto (a/b) e amplitude máxima de distorção. Foram consideradas as condições de contorno de bordo apoiado e bordo engastado. Pasqualino et al. [10] concluíram que a condição de engaste é a condição que mais se aproxima de um painel enrijecido. A condição de bordo apoiado proporciona resultados mais conservadores. Neste estudo, a espessura e a largura de cada placa foram mantidas constantes com 11,1mm e 625mm respectivamente. Foram consideradas seis variações do comprimento da placa, resultando nas razões de aspecto encontradas na Tabela 6: Tabela 6: Razões de aspecto para cada comprimento de placa. Comprimento Razão de aspecto (α) 1200 mm 1.92 1350 mm 2.16 1500 mm 2.40 1800 mm 2.88 2400 mm 3.84 3000 mm 4.80 Foram utilizadas as amplitudes máximas de distorção das três categorias já citadas, leve, média e severa. 29 Para a condição de contorno apoiada, os resultados podem ser observados na Figura tensão longitudinal média compressiva / tensão de escoamento 21, onde cada cor representa uma razão de aspecto. 0.86 0.83 0.8 0.77 0.74 0.71 0.68 0 0.2 0.4 0.6 0.8 1 1.2 1.4 1.6 1.8 Wmax / t 4,80 3,84 2,88 2,40 2,16 1,92 Figura 21: Tensão média por amplitude máxima de distorção na condição de apoio. Os resultados obtidos mostram que para o nível de distorção leve, o aumento da razão de aspecto representa a queda da resistência à flambagem. Para o nível de distorção severo, observamos o resultado oposto. Neste nível o aumento da razão de aspecto representa o aumento da resistência à flambagem. A única exceção acontece para a placa com razão de aspecto 4.8 que apresenta menor resistência que a placa com 3,84. Devido a essa alternância, na resistência à flambagem nas condições de amplitude leve e severa, encontra-se um resultado que não segue um padrão, quando se observam os resultados obtidos para o nível médio de distorção. Em relação à variação dos níveis de distorção, três resultados foram observados. As placas com menores razões de aspecto (1.92 e 2.16) apresentaram uma queda de resistência com o aumento das amplitudes das distorções. A placa com razão de aspecto 2.4 apresenta um aumento na resistência quando o nível passa de leve para médio, mas quando passa de médio para severo esta placa apresenta uma queda de resistência. As placas com maiores razões de aspecto (2.88, 3.84 e 4.80) apresentam um aumento da capacidade de carga com o aumento das amplitudes das distorções. Deve ser lembrado que este aumento de resistência está relacionado ao modo de distribuição das distorções. 30 Para a condição de contorno engastada, os resultados são mostrados na Figura 22. tensão compressiva long. média / tensão de escoamento 0,96 0,95 0,94 0,93 0,92 0,91 0,9 0,89 0,88 0 0,2 a = 4,8 0,4 0,6 3,84 0,8 2,88 1 Wmax / t 2,40 1,2 1,4 2,16 1,6 1,8 1,92 Figura 22: Tensão média por amplitude máxima de distorção na condição de engaste. Os resultados obtidos para esta condição indicam que o aumento da razão de aspecto proporciona o aumento da capacidade de carga das placas para quase todas as análises realizadas. Em relação à variação das amplitudes de distorções, as placas com razão de aspecto 4.8, 3.84, 2.88, e 1.92 apresentam um aumento da resistência à flambagem com a mudança da amplitude de distorção leve para média, mas apresentam uma pequena queda na mudança de amplitude média para severa. As placas com razão de aspecto 2.16 e 2.40 apresentaram queda da resistência com o aumento da amplitude das distorções. 31 2.5 Influência do Modo de Distribuição das Distorções Para o estudo da influência do modo de distribuição das distorções na resistência à flambagem de placas utiliza-se o comando Buckle presente no ABAQUS. Este comando determina o modo natural de flambagem de uma placa perfeita. A placa escolhida para este estudo é a de razão de aspecto 2.88 (1800mm x 625mm x 11.1mm) que obteve resultados de aumento da resistência à flambagem com o aumento da amplitude das distorções. A Figura 23 mostra este aumento de resistência. O modo de distribuição das distorções desta placa é formado por uma meia onda e foi fornecido pela fórmula idealizada pela série de Tensão compressiva long.média / tensão de escoamento Fourier já citada neste capítulo. 0,9 0,8 0,7 0,6 0,5 0,4 0,3 Amplitude leve 0,2 Amplitude média 0,1 Amplitude severa 0 0 0,5 1 1,5 Deformação compressiva long. média / def. de escoamento Figura 23: Aumento da resistência à flambagem com o aumento do nível de distorção para a placa com α = 2.88 e com uma meia onda como forma de distribuição. O modo natural de flambagem desta placa possui três meias ondas e pode ser observado na Figura 24. 32 Figura 24: Modo natural de flambagem da placa com α = 2.88. Depois de definido o modo natural de flambagem da placa, observa-se a sua resistência em função dos três níveis de distorções impostos de forma que coincidam com o modo natural de flambagem, ou seja, composto de três meias ondas. A Figura 25 demonstra a perda de resistência desta chapa com o aumento do nível das distorções. Tensão compressiva long.média / tensão de escoamento 0,7 0,6 0,5 0,4 0,3 0,2 amplitude leve amplitude média 0,1 amplitude severa 0 0 0,2 0,4 0,6 0,8 1 1,2 1,4 Deformação compressiva long. média / def. de escoamento Figura 25: Aumento da resistência à flambagem com o aumento do nível de distorção para a placa com α = 2.88 e com uma meia onda como forma de distribuição. Se observa a maior diferença entre a carga crítica de flambagem entre a placa com o modo de distribuição com uma meia onda e a placa com o modo natural (três meias ondas) 33 no nível de distorção severo, conforme a Figura 26. A única diferença nas análises é o modo de distribuição e a diferença entre as tensões médias é de 62% Tensão compressiva long.média / tensão de escoamento 0,9 0,8 0,7 0,6 0,5 0,4 0,3 0,2 1 meia onda 0,1 modo natural 0 0 0,2 0,4 0,6 0,8 1 1,2 1,4 Deformação compressiva long. média / def. de escoamento Figura 26: Diferença entre a tensão de resistência à flambagem relacionada ao modo de distribuição das distorções. Este resultado mostra a grande influência do modo de distribuição das distorções em placas de aço. Demonstrando que é imprescindível determinar com precisão os modos e as amplitudes das distorções presentes em placas reais. Assim, a medição das distorções é recomendável para a obtenção de uma resposta mais precisa quanto à resistência ao colapso de placas de estruturas oceânicas. A medição das distorções é o assunto do próximo capítulo. 34 Capítulo 3 Medição das distorções 3.1 Introdução A forte competição internacional no mercado de construção naval requer novos desenvolvimentos para obter a mais alta eficiência. Assim, para melhorar sua posição em competitividade, os estaleiros ao redor do mundo estão continuamente procurando por novos métodos para alcançar maior qualidade no produto final, junto com a redução de tempo e custos de produção. A tendência de desenvolvimento está voltada para processos precisos que evitem os processos de correção oriundos das distorções de fabricação. Conforme foi demonstrado, as distorções de fabricação constituem um sério problema na construção naval. Muitas pesquisas relacionadas à previsão das distorções e tensões residuais devido aos processos de soldagem têm sido desenvolvidas, mas poucas são utilizadas em projeto. A maior parte destes métodos de cálculo apresenta fórmulas baseadas em medições das distorções e não apresentam resultados precisos, principalmente em relação às distorções nas regiões mais próximas ao cordão de solda. Neste sentido, o uso de equipamentos de medição de grande precisão deve ser incorporado aos estaleiros. A utilização destes equipamentos pode gerar muitos benefícios aos estaleiros modernos. A obtenção precisa da forma e magnitude das distorções possibilita o uso de modelos numéricos para uma estimativa mais precisa da resistência estrutural dos painéis. As etapas mais críticas de fabricação podem ser determinadas para que técnicas de minimização das distorções possam ser desenvolvidas. Estes equipamentos de medição ainda podem ser utilizados com o intuito de comparar métodos ou mesmo equipamentos que desenvolvam menores níveis de distorção. 35 3.2 Tecnologias de medição O levantamento tridimensional de pontos é um problema clássico que pode ser tratado por distintas metodologias. As tecnologias de medição têm sido melhoradas consideravelmente nos últimos anos. Isso tem capacitado os estaleiros a controlar melhor a precisão de fabricação em todas as etapas de construção com uma tolerância severa. Nesse contexto, é importante conhecer a precisão dos equipamentos de medição, o método de medição, os custos do processo e onde se encontram os limites econômicos. Consequentemente, uma relação entre custo e benefício deve ser pesquisada, Redlin [15]. Para a medição de partes fabricadas, sub-montagens, montagens e blocos, técnicas de medição em coordenadas 3D são muito adotadas. Para explorar completamente o potencial das modernas tecnologias de medição, é necessária uma sistemática pesquisa considerando os princípios, as referências e a integração dos sistemas CAD em um estaleiro, Manninen et al. [16]. Deste modo, o objetivo desta pesquisa foi o levantamento de equipamentos com alta precisão de medição para sua utilização na construção naval e offshore. A pesquisa foi realizada nos mercados nacional e internacional e uma avaliação tecnológica dos equipamentos disponíveis mostrou que estes equipamentos podem ser utilizados para realizar medições precisas em estaleiros. A possível utilização destas tecnologias de medição durante todas as etapas de construção quantificaria as amplitudes e modos de distribuição das distorções de fabricação, assim como poderiam ser observados os estágios mais críticos de fabricação para a utilização de técnicas de minimização das distorções. 36 3.3 Tecnologia 3D Laser Scanning Existem dois tipos principais de laser scanners, os que são baseados no princípio da triangulação e os baseados no tempo de retorno do sinal. Os scanners baseados no princípio da triangulação possuem uma fonte laser e, no mínimo, um sensor CCD (Dispositivo de carga acoplada – CCD, sigla formada pelas iniciais de Charge Coupled Device.) que captura a luz laser refletida pelo alvo, como mostrado na Figura 27. A geometria entre o laser e o sensor CCD é conhecida e permite o cálculo das coordenadas 3D dos pontos atingidos pelo laser. Figura 27: Laser Scanning baseado no princípio da triangulação. O Laser Scanning avaliado no Laboratório de Tecnologia Submarina da Coppe foi o S25 da Mensi, que trabalha numa faixa de 2 a 25 metros e capta 100 pontos por segundo, com um desvio padrão de 0,6 mm em 5 metros, podendo atingir uma precisão menor que 1mm em 5 metros se for corretamente calibrado. Este sistema não é adequado para sua utilização em estaleiros devido à sua perda de precisão relacionada à distância do alvo. Nos scanners por triangulação, a exatidão diminui com o quadrado da distância. Para distâncias maiores, outra alternativa é o sistema LIDAR (Light Detection And Ranging) que mede a distância através do tempo de retorno do pulso laser (Time of Flight). Nesse sistema de varredura, o instrumento emite milhares de pulsos laser por segundo. O instrumento mede as distâncias, a intensidade da energia refletida pelo objeto e os 37 parâmetros de atitude do feixe (azimute e elevação), que são coordenadas polares do ponto, em relação ao referencial do laser (Figura 28). A partir destes dados é possível calcular as coordenadas cartesianas 3D dos pontos medidos que podem ser usados para criar uma imagem semelhante à visível. Com este sistema é, teoricamente, possível trabalhar durante a noite, já que não requer luz visível. O resultado final do processo de medição e processamento é uma nuvem de pontos. Figura 28: Azimute e elevação do feixe laser. Este tipo de Laser Scanning já tem sido utilizado na construção naval em projetos de levantamento das distorções de fabricação no estaleiro Northrop Grumman Ship Systems. O equipamento utilizado é o Riegl LPM-25HA-C, indicado na Figura 29. Este laser possui uma precisão de 2mm em 10 metros e capta uma nuvem de 1000 pontos por segundo. Figura 29: Riegl LPM-25HA-C. 38 Em Huang et al. [2] foi desenvolvida uma pesquisa para a melhoria dos processos de fabricação em estaleiros com intuito de minimizar os níveis de distorção. Nesta pesquisa eles compararam vários processos de fabricação através de medições com o Laser Scanning Riegl e chegaram a bons resultados. A Figura 30 indica um dos painéis utilizados na pesquisa e as Figura 31 e 32 representam respectivamente as medições obtidas com o equipamento e com um modelo numérico de previsão das distorções. Figura 30: Painel enrijecido com distorções de soldagem. Figura 31: Medições realizadas com Laser Scanning. Figura 32: Modelo numérico. 39 3.4 Laser Tracker O Laser Tracker é um equipamento que utiliza um feixe laser para a obtenção de coordenadas 3D. Este equipamento fornece a medição de um alvo que pode ser movido em qualquer posição que encontre a linha do feixe laser oriundo da unidade base. Assim a diferença básica entre o Laser Tracker e o Laser Scanning está no alvo no qual o feixe laser é refletido. Enquanto o alvo do Laser Scanning é a própria estrutura, no Laser Tracker existe um refletor (Figura 33). Apesar desta desvantagem em termos de velocidade de aquisição de dados, este Laser possui uma grande vantagem em termos de precisão, podendo obter uma precisão dimensional de alguns microns em uma faixa de dezenas de metros. Figura 33: Refletor do Laser Tracker. Na Figura 34, pode ser observada a utilização do Laser Tracker para a medição da forma de uma embarcação de competição onde um nível mínimo de distorção é requerido. 40 Figura 34: Utilização do Laser Tracker. As empresas fornecedoras do Laser Tracker, API e Faro, fizeram demonstrações em vídeo do equipamento no Laboratório de Tecnologia Submarina da Coppe. Os lasers observados encontram-se nas Figuras 35 e 36. Figura 35: Laser Tracker da Faro. 41 Figura 36: Laser Tracker da API. A Figura 37 mostra o Laser Tracker da Faro sendo avaliado no Laboratório de Tecnologia Submarina da Coppe. A principal vantagem apresentada em relação ao 3D Laser Scanning foi a maior precisão na medição, 0.025 mm em até 10 metros. Figura 37: Avaliação do Laser Tracker no Laboratório de Tecnologia Submarina da Coppe. 42 Dentre os equipamentos pesquisados, tanto o Laser Tracker quanto o Laser Scanning mostraram-se ferramentas com um futuro promissor dentro da construção naval e offshore. Deve-se realizar uma pesquisa mais detalhada antes da aquisição destes equipamentos, principalmente devido ao alto custo que eles são cotados atualmente no mercado. Deve-se levar em consideração o objetivo principal relacionado à aquisição destes equipamentos, ou seja, se o objetivo final for uma alta precisão na medição (embarcações de competição e análises estruturais precisas com incorporação das medições), o Laser Tracker é o mais indicado. Mas se o objetivo final necessita de uma maior facilidade de medição e de boa precisão, mas não tão alta como a do Tracker, como na análise de métodos de fabricação e medições de comparação a modelos numéricos de previsão das distorções, assim o Laser Scanning pode ser utilizado. 43 3.5 Medição das distorções em um painel em escala reduzida Nesta etapa, foi realizada a medição das distorções de fabricação em um modelo reduzido de um painel com reforços longitudinais. Através desta medição, pode-se estimar a resistência ao colapso do painel com a incorporação dos dados medidos em um modelo numérico de elementos finitos. A Tabela 7 apresenta as dimensões do painel reduzido e a Figura 38 mostra este painel. Tabela 7: Dimensões do painel Chapa Enrijecedor comprimento 153,85 mm comprimento largura 128,20 mm altura espessura 0,77 mm espessura 153,85 mm 7,70 mm 0,77 mm Figura 38: Painel em escala reduzida. 44 A medição das distorções, mostrada na Figura 39 foi realizada usando-se um relógio comparador com 0,01 mm de precisão. Com os recursos apresentados pelos equipamentos já citados neste capítulo pode-se realizar essa medição com sucesso em painéis em escala real. Figura 39: Medição das distorções. Nos valores medidos a maior amplitude de distorções encontrada foi de 0,375 mm. As distorções medidas foram introduzidas em um modelo de elementos finitos, utilizandose o ABAQUS para obtenção da tensão de colapso do painel. O modo de falha do painel está indicado na Figura 40. A tensão de colapso representada pela tensão média longitudinal normalizada pela tensão de escoamento pode ser observada na Figura 41. 45 Figura 40: Representação do modo de falha do painel. 1 0,9 0,8 tensão 0,7 0,6 0,5 0,4 0,3 0,2 0,1 0 0 0,5 1 1,5 def.(mm) 2 2,5 3 Figura 41: Tensão média longitudinal normalizada pela tensão de escoamento. Este resultado obtido para a carga crítica de flambagem destes painéis em escala reduzida possui uma boa correlação com testes experimentais de compressão realizados no Laboratório de Tecnologia Submarina da Coppe. 46 Capítulo 4 Simulação de soldagem 4.1 Introdução Os processos de soldagem são baseados em um aquecimento local da estrutura até sua temperatura de fusão e resfriamento através das condições de contorno térmicas. A distribuição de temperatura é altamente não uniforme no espaço e no tempo, causando distorções e tensões residuais na estrutura. Pesquisas referentes ao maior entendimento da física dos processos de soldagem e para a previsão dos campos de temperatura, tensões e deformações vem sendo desenvolvidos desde 1930, inicialmente através de modelos analíticos, mas atualmente existem complexas simulações com elementos finitos em 3D. Essas técnicas de solução para o problema da soldagem foram mudando através dos anos com o crescimento da capacidade computacional. As primeiras pesquisas relacionadas ao desenvolvimento de modelos analíticos dos processos de soldagem tiveram início em 1930. Bolton et al. [17] em 1936, analisaram as tensões térmicas em uma aresta soldada. Também na década de 30, segundo Sorensen [18], Rosenthal publicou a teoria básica de fluxo de calor relativo ao movimento de uma fonte de calor (linear, pontual e plana). Nessa teoria, uma fonte de calor na origem de um sistema de coordenadas retangular móvel (x’, y’, z’) se desloca a uma velocidade constante relativa ao sistema de coordenadas estacionário (x, y, z). Assim, um observador no sistema estacionário (x, y, z) notaria a mudança no campo de temperatura no contorno da reta em que a fonte de calor passa. Já um observador posicionado no sistema de coordenada móvel (x’, y’, z’), não perceberia a mudança de temperatura. Rosenthal assumiu que a solda era suficientemente longa para atingir esse estado chamado quasi-estacionário. A hipótese de regime quasi- 47 estacionário ainda é um método analítico muito utilizado para o cálculo do histórico térmico de soldas. As primeiras análises térmicas possuíam muitas simplificações. A maioria das pesquisas eram unidimensionais e limitadas, pois existe uma enorme complexidade quando as propriedades mecânicas e térmicas do material são transientes e não lineares. A complexidade da modelagem e simulação do processo de soldagem está relacionada aos diversos fenômenos presentes nas relações entre o fluxo de calor, deformação e a microestrutura do material. Lindgren [19] relacionou os fenômenos que ocorrem durante a soldagem, conforme pode ser observado na Figura 42. Na Tabela 8, encontram-se as relações existentes entre esses fenômenos. Fluxo de calor 3 Deformação 4 5 6 1,2 Microestrutura Figura 42: Fenômenos presentes no processo de soldagem. Tabela 8: Relações entre os fenômenos da soldagem. 1.a) Expansão térmica dependente da microestrutura do material; 1.b) Mudança de volumes devido a mudanças de fase; 2.a) Comportamento plástico do material dependente da microestrutura do material; 2.b) Comportamento elástico do material dependente da microestrutura do material; 3.a) Condutividade térmica e calor específico dependentes da microestrutura do material; 3.b) Calor latente devido à mudanças de fases; 4.a) Deformação muda as condições de contorno térmicas; 4.b) Calor devido à taxa de deformação plástica; 4.c) Calor devido à taxa de deformação térmica; 4.d) Calor devido à taxa de deformação elástica; 5.) Evolução da microestrutura dependente da temperatura; 6.) Evolução da microestrutura dependente da deformação. 48 Para tentar simular esse complexo processo, necessita-se, no mínimo, de um modelo que calcule o fluxo de calor e a resposta mecânica resultante. A introdução de ferramentas computacionais para a solução de modelos matemáticos foi muito importante para o desenvolvimento das análises de tensões residuais e distorções oriundas da soldagem. Isso permitiu a obtenção de resultados mais próximos da realidade. As soluções práticas com a implementação de técnicas numéricas tiveram início na década de 1960. As primeiras pesquisas relacionadas à simulação de soldagem diminuíram o custo computacional do problema com a redução da dimensão do modelo de três para duas ou uma dimensão. A primeira previsão numérica das tensões residuais devido à soldagem provavelmente se encontra na publicação de Tall [20] em 1964. Nessa pesquisa, foi realizada uma análise mecânica unidimensional, porém a solução analítica para as temperaturas foi realizada de forma bidimensional. As primeiras simulações bidimensionais aconteceram na década de 1970. Nesses modelos somente um plano perpendicular à direção de soldagem é considerado. É evidente dentro da literatura, que a modelagem em 2D foi a base para o modelagem em 3D. Os pesquisadores tentaram evitar a modelagem em 3D e assim comparavam seus resultados com medições experimentais. Algumas diferenças foram observadas entre as tensões residuais obtidas com modelos numéricos e medições experimentais. Mas, esses resultados que levaram a acreditar que os modelos em 2D eram inadequados para a quantificação das tensões residuais, não condenaram a simulação em 2D, pois alguns erros se devem ao incompleto entendimento da física da soldagem e da dificuldade de se obterem dados do material em altas temperaturas. Devem ser mencionadas algumas pesquisas desenvolvidas que produziram bons resultados como as de Rybicki et al. [21,22]. Até o final da década de 1980, a simulação de soldagem em 3D não tinha sido implementada. Isso se deve à grande demanda computacional necessária para o seu desenvolvimento. Para se obterem resultados precisos de temperaturas e tensões, devido a altos gradientes de temperatura, necessita-se do desenvolvimento de uma malha muito refinada. O comportamento não linear do material, devido à plasticidade e às propriedades mecânicas e térmicas dependentes da temperatura, requer incrementos muito pequenos para alcançar convergência. Assim, o primeiro modelo em 3D para previsão de tensões residuais 49 em uma solda completa foi desenvolvido apenas em 1988 por Lindgren e Karlsson [23]. Outras complexas simulações em 3D foram desenvolvidas como em Andersen [1]. A simulação de soldagem em 3D ainda continua com uma grande demanda computacional. A questão é saber até onde a modelagem em 2D pode fornecer resultados satisfatórios comparados a modelagem em 3D. Ueda [24], em 1995, afirmou que após uma simulação em 3D validada deveria ser desenvolvido um modelo 2D correspondente. Em 2000, Shahram Sarkani et al. [25] compararam modelos numéricos de simulação de soldagem 2D e 3D em relação aos resultados obtidos em termos do histórico de temperatura e das tensões residuais para uma solda de filete realizada com um passe e com três passes. Nessa pesquisa foi desenvolvida uma técnica para a determinação do histórico de temperatura em uma zona central da junção que é baseada no balanço global de transferência de calor entre a junta soldada, a seção que está sendo analisada e a velocidade de soldagem. Os históricos de temperatura foram obtidos com sucesso pela técnica 2D. As tensões residuais obtidas mostraram cerca de 30% de diferença, mas com valores mais conservadores que o modelo 3D. Em sua tese de PhD, Sorensen [18] desenvolveu um modelo 2D relativamente simples para a soldagem de filete no qual gerou resultados com boa correlação com medições realizadas. O desafio deste capítulo foi a tentativa de reproduzir a análise de Sorensen e obter bons resultados relacionados ao desenvolvimento de tensões residuais longitudinais devido a soldagem. 50 4.1.1 Equações Básicas da Análise Térmica O comportamento fundamental da condução de calor, conhecido como lei de Fourier, está baseado em um fluxo de energia, Q” (W/m2), que flui de uma região quente para regiões mais frias, linearmente dependente do gradiente de temperatura, ∇T. Q”= -k∇T ⎛∂ ∂ ∂⎞ Onde k é a condutividade térmica do material e ∇ = ⎜⎜ , , ⎟⎟ . ⎝ ∂x ∂y ∂z ⎠ A próxima equação representa o princípio de uma análise de transferência de calor em um sólido na qual associa a distribuição de temperatura dependente no espaço e no tempo. Esta equação pode ser facilmente obtida aplicando-se o princípio de conservação de energia e a lei de Fourier. Q& ∂T = α∇ 2T + ρc ∂t Onde Q& é taxa de geração interna da calor e α é a difusidade térmica do material, que é dada por: α = k ρc Onde, k é a condutividade térmica do material, ρ é a densidade do mesmo e c é o calor específico. 51 4.2 Modelo Numérico Para o desenvolvimento do modelo numérico de elementos finitos foi utilizado o programa ABAQUS (versão 6.3), Hibbit et al. [12]. Para a transferência de calor envolvida, foi utilizada uma análise em 2D completamente acoplada que resolve simultaneamente os campos de tensões, deslocamentos e temperaturas. O modelo se refere à soldagem filete entre duas placas de 12mm de espessura. As dimensões utilizadas são as mesmas utilizadas por Sorensen [18]. As dimensões da estrutura podem ser observadas na Figura 43: Figura 43: Dimensões da estrutura [18]. A modelagem da microestrutura do material, ou seja, as propriedades mecânicas e térmicas são baseadas em dados disponíveis do material. Esses dados de material em uma faixa de altas temperaturas são muito difíceis de serem obtidos. As propriedades mecânicas e térmicas do material foram obtidas em Sorensen [18]. Na Tabela 9 estão listadas as propriedades na temperatura ambiente (20º). Na Figura 44 observam-se as propriedades dependentes da temperatura. 52 Tabela 9: Propriedades do material na temperatura ambiente (20º). Propriedade Símbolo Valor Unidade Condutividade Térmica k 41 W/mK Calor específico c 350 J/KgK Densidade ρ 7850 Kg/m3 Coef. de elasticidade E 210000 MPa Poisson ν 0.3 _ Coef. de expansão térmica α 1.2 10-5 1/K Tensão de Escoamento σ 285 MPa Figura 44: Propriedades do material em função da temperatura [18]. 53 Devido à utilização de uma análise mecânica/térmica completamente acoplada, a solução obtida fornece simultaneamente temperaturas e deformações, requerendo assim o uso de elementos que tenham deslocamentos e temperaturas como variáveis nodais. Para esta análise 2D, foi utilizado um elemento sólido de deformação plana (CPE6MT). Este elemento composto por seis nós possui forma triangular arbitrária e um grau de liberdade para temperaturas e dois graus de liberdade de deformações (Ux e Uy) para cada nó. A Figura 45 ilustra o elemento utilizado nas análises. Figura 45: Elemento utilizado nas análises Quando temperatura, tensões e deformações mudam rapidamente perto do cordão de solda devido a altos gradientes de temperatura, torna-se necessário o uso de uma malha bastante refinada para obter convergência e principalmente precisão dos resultados. A malha perto da região de aplicação de calor deve ser muito refinada, já as regiões mais distantes não necessitam desta mesma densidade. Assim, a malha foi elaborada de forma que apresentasse bastante refinamento em toda região que sofre os maiores gradientes de temperatura, diminuindo a sua densidade em função da distância da região de aplicação de calor. A Figura 46 ilustra a malha desenvolvida para as análises. 54 Figura 46: Malha desenvolvida para as análises [18]. Em relação às condições de contorno mecânicas, utiliza-se a condição de simetria para redução da demanda computacional. Um nó da extremidade do flange foi modelado em condição de apoio, estas condições de contorno são observadas na Figura 46. Em relação às condições de contorno térmicas, utiliza-se a transferência de calor por radiação e convecção. Dado um corpo com temperatura T em Kelvin, a radiação nas suas superfícies externas com a temperatura ambiente To segue a lei de Stefan-Boltzmann. Assim, a diferença de temperatura entre a estrutura que recebe o calor e a temperatura ambiente causa um fluxo de perda de calor dado por: 55 ( = σε (T Q"rad = σε T 4 − T04 Q"rad 2 + T02 ) )(T + T )(T − T ) Q"rad = hrad (T − T0 ) 0 0 Onde: ε é a emissividade; σ é a constante de Stefan-Boltzmann; hrad é o coeficiente de radiação. A condição de convecção acontece quando um corpo com temperatura T possui em seu contorno um fluido com a temperatura To. Existe um coeficiente de convecção hcon, que associado à diferença de temperatura (T - To) causa um fluxo de calor Q”con: Q"con = hcon (T − T0 ) Após a definição das propriedades do material, do elemento, da malha e das condições de contorno, define-se a aplicação de calor no modelo. Esta aplicação de calor é feita através de temperaturas prescritas na região de solda. Esta região é aquecida com um gráfico de temperatura variando com o tempo. A Figura 47 representa a variação de temperatura em função do tempo na região de solda. Em um segundo a região de solda é aquecida da temperatura inicial de 20º até 1600º, permanecendo com esta temperatura por mais dois segundos. Após os três segundos de aquecimento, a temperatura prescrita é removida e o modelo resfria através das condições de contorno térmicas. 56 2000 Temperatura (ºC) 1600 1200 800 400 0 0 1 2 3 4 5 6 T empo (s) Figura 47: Temperatura prescrita aplicada na região de solda 57 4.3 Análise Numérica Primeiramente com o intuito de validar o modelo, foram realizadas algumas análises com diferentes temperaturas prescritas em função do tempo. Nestas análises, observou-se o deslocamento vertical da placa flange em relação à linha base inicial, conforme indica a Figura 48. Nas Figuras 49 à 52, são observados os quatro carregamentos de temperaturas prescritas junto com os respectivos deslocamentos residuais da placa. Figura 48: Deslocamento residual da placa. 2000 Temperatura (ºC) 1600 1200 Uy=1.18mm 800 400 0 0 1 2 3 4 5 6 T empo (s) Figura 49: Caso 1 de temperatura prescrita e deslocamento residual. 58 2000 Temperatura (ºC) 1600 1200 Uy= 1.34mm 800 400 0 0 1 2 3 4 5 6 T empo (s) Figura 50: Caso 2 de temperatura prescrita e deslocamento residual. 2000 Temperatura (ºC) 1600 1200 Uy=1.44mm 800 400 0 0 2 4 6 8 10 12 14 T empo (s) Figura 51: Caso 3 de temperatura prescrita e deslocamento residual. Temperatura (ºC) 1200 800 Uy=0.38mm 400 0 0 1 2 3 4 5 6 T empo (s) Figura 52: Caso 4 de temperatura prescrita e deslocamento residual. 59 Nos cinco casos analisados, os resultados obtidos demonstram coerência em relação aos deslocamentos residuais obtidos, pois quanto maior a carga de temperatura aplicada, maior o deslocamento residual obtido. Esse resultado era esperado e foi confirmado validando o modelo desenvolvido. O caso 1 foi a análise na qual Sorensen fez medições para o deslocamento residual e para as tensões residuais longitudinais na placa flange. Deste modo, o caso 1 pode ser melhor analisado com a comparação dos resultados obtidos em relação aos resultados numéricos de Sorensen e as medições também encontradas em sua tese de doutorado. Os resultados obtidos pelo modelo desenvolvido podem ser comentados. Com o início do aquecimento, a placa flange começa a se deformar para baixo, ou seja, na direção negativa do eixo y. As Figuras 53 e 54 mostram a estrutura no final da aplicação da temperatura prescrita. 60 y x Figura 53: Deformações nas placas [m] no final da aplicação do aquecimento. x y x Figura 54: Distribuição de temperaturas [ºC] no final do aquecimento. 61 Com o fim do aquecimento, a estrutura soldada começa a resfriar através das condições de contorno impostas no modelo. Nesta fase, a placa flange começa a deformar na direção inversa à sua deformação na fase de aquecimento, ou seja, deforma na direção positiva do eixo y. A Figura 55 ilustra as deformações residuais no final do resfriamento. Conforme a explicação teórica apresentada no primeiro capítulo, espera-se que no final do resfriamento a estrutura possua tensões residuais de tração na região próxima à solda e tensões de compressão nas regiões mais distantes. A Figura 56 mostra a distribuição final de tensões nas placas, confirmando a distribuição de tensões esperada. y x y Figura 55: Deformações das placas [m] no final do resfriamento. x 62 y x 2 Figura 56: Distribuição de tensões residuais longitudinais [N/m ] nas placas após o resfriamento completo. Para verificar se o modelo desenvolvido reproduziu com sucesso as tensões residuais longitudinais no final da simulação de soldagem, comparam-se os resultados obtidos neste modelo com os resultados obtidos por Sorensen em seu modelo numérico e com os resultados obtidos em suas medições. A Figura 57 mostra os três resultados. 63 400 350 Tenão Longitudinal (MPa) 300 250 200 Medido 150 Numérico de Sorensen 100 Numérico Desenvolvido 50 0 -50 -100 0 20 40 60 80 100 120 140 160 Distância da linha de centro (mm) Figura 57: Comparação entre os resultados obtidos por Sorensen e o modelo desenvolvido. 64 Capítulo 5 Minimização das distorções 5.1 Introdução No primeiro capítulo, se observou a grande quantidade de problemas existentes na construção naval e offshore relacionados às distorções de fabricação. Foi demonstrado que, as distorções de fabricação, principal fator de influência no tempo e no custo da produção naval, devem ser reduzidas para que grandes ganhos econômicos e de qualidade possam ser alcançados. No segundo capítulo, foi demonstrada a grande influência das distorções de fabricação no colapso por flambagem de placas de aço. A atual tendência do aumento do uso de chapas finas na construção naval e offshore tem resultado em maiores níveis de distorção de flambagem nos painéis. Devido a estes fatos inúmeras pesquisas têm sido desenvolvidas com o intuito de minimizar e controlar estas distorções. Desde o começo dos anos 90, a fabricação precisa com um maior controle das distorções passou a ter mais importância na construção naval. Esse aumento de importância se deve, resumidamente, em razão de três necessidades: • Correção de imprecisões e distorções; • Aumento da mecanização e do uso de robôs nos estaleiros; • Trabalhadores com experiência e conhecimento para o tratamento das imprecisões e distorções não se encontravam mais disponíveis. O desenvolvimento de técnicas para o controle e minimização das distorções é bastante complexo. Dentro da construção naval e offshore, existem muitos equipamentos diferentes, e isso dificulta a troca de conhecimentos entre os estaleiros. Mas essa não é a única dificuldade, o primeiro obstáculo para a redução das distorções está associado à 65 mentalidade geralmente existente nos estaleiros. Há um paradigma de que as distorções são inevitáveis na prática construtiva e apenas grandes amplitudes de distorções são observadas e corrigidas. Este capítulo fornece as primeiras direções para o desenvolvimento de técnicas de controle e minimização das distorções direcionadas ao aumento da resistência à flambagem dos painéis presentes na construção naval. Antes da utilização de qualquer técnica mencionada nesta pesquisa, devem ser realizados estudos mais profundos com técnicas numéricas e experimentais. Este capítulo é baseado em recentes publicações. 66 5.2 Controle e Minimização das Distorções Existe um grande número de técnicas disponíveis para controlar e minimizar as distorções. Alguns métodos de fabricação e processos de soldagem geram menores níveis de distorções. Esses métodos devem ser analisados, a fim de se buscar o mais apropriado de acordo com o padrão de qualidade e precisão requerido para o produto final. As distorções em alguns painéis podem ser controladas sem alterar as premissas de projeto. Basta uma mudança dos métodos de construção ou apenas um refinamento com melhor controle desses métodos. Em casos especiais, somente a mudança de projeto minimiza as distorções ao nível desejado. Nesta pesquisa, optou-se por distribuir essas técnicas nas três seguintes categorias: 1. Melhoria no controle dos atuais métodos de fabricação; 2. Implementação de novos equipamentos e processos de fabricação; 3. Mudanças de projeto. 67 5.2.1 Melhoria no Controle dos Atuais Métodos de Fabricação As distorções de fabricação podem ser reduzidas sem custos adicionais consideráveis, ou seja, sem a necessidade de mudanças de projeto, sem mudanças nos processos de fabricação ou mesmo sem a implementação de novos equipamentos. Apenas um refinamento e técnicas de controle mais rigorosas nos processos de fabricação, utilizando os equipamentos já existentes nos estaleiros, podem ser suficientes para a minimização das distorções. Em geral, qualquer técnica que minimize o calor induzido nos processos térmicos de fabricação, principalmente os de soldagem, reduz todos os tipos de distorções. No quarto capítulo, nota-se nas análises numéricas desenvolvidas, que à medida que maiores níveis de calor foram aplicados à região de solda através dos gráficos de temperaturas prescritas, maiores amplitudes de deformação residual angular foram geradas. Assim, qualquer medida que minimize este calor induzido na soldagem deve ser utilizada. Uma das maiores contribuições para o aumento das distorções é o aumento do volume de solda, Dydo et al. [5]. Com o aumento do volume de solda e consequentemente do calor imposto, aumentam-se todos os níveis de distorções. Essa solda em excesso deve ser evitada e um dos meios para isso é a modificação das práticas de inspeção atualmente vigentes. As normas de inspeção permitem a solda em excesso sem a necessidade de correção. Essas normas apenas penalizam os soldadores pela solda abaixo da dimensão especificada, incentivando assim a solda em excesso. O soldador quando está soldando uma estrutura e sabe que pode ser penalizado no caso de uma solda pouco espessa, mas não existe uma fiscalização severa quanto à solda em excesso, certamente aplica a solda em excesso que causa a amplificação de todos os níveis de distorção na estrutura. As normas de inspeção de soldagem devem recomendar a obtenção de soldas mais precisas, e até permitir algum nível de solda abaixo da especificação, aumentando, ao mesmo tempo, o rigor em relação à solda em excesso. Outra medida que deve ser conduzida é um maior treinamento dos soldadores. Eles devem ser mais capacitados e ter uma nova filosofia de trabalho com o entendimento da relação do volume de solda com a distorção. Este treinamento pode ser combinado com os novos padrões de inspeção já citados. 68 5.2.1 Implementação de Novos Equipamentos e Processos de Fabricação A modificação de práticas construtivas ou a aquisição de equipamentos mais modernos podem ser utilizadas para a redução dos níveis de distorções quando as práticas convencionais estão gerando níveis de distorções indesejáveis. Alguns equipamentos e práticas de construção são citados a seguir: • Corte a laser O processo de corte de chapas de aço é o passo inicial da construção naval. Assim, qualquer futuro reparo devido à imprecisão de cortes pode ocasionar altas perdas econômicas. O corte a laser é caracterizado por uma menor temperatura de corte em relação ao corte plasma e essa característica torna este sistema vantajoso em relação às distorções. A Figura 58 ilustra o corte a laser. Figura 58: Corte a laser. 69 • Soldagem a Laser A principal vantagem da soldagem a laser é a possibilidade de soldar juntas estreitas, com baixos níveis de distorções, quando comparada com os métodos tradicionais de soldagem. Especialmente quando se trabalha com placas relativamente finas, como em navios de passageiros, as vantagens são grandes. O baixo fornecimento de calor reduz ao mínimo as distorções térmicas e o processo de correção das distorções torna-se obsoleto, gerando economia de tempo e custo no processo. Alguns estaleiros gastam 30% do tempo na fase de processamento do aço com este processo de correção das distorções, Wilckens [26]. Sorensen [18], comparou experimentalmente os processos de soldagem manual, MAG e Laser. Nessa pesquisa os resultados obtidos provaram que a soldagem a laser gera níveis de distorções muito menores que os outros processos de soldagem estudados. • Automatização dos processos de soldagem Os processos de soldagem mecanizados e automatizados geram soldas com maior velocidade, precisão e com menores níveis de distorção com a eliminação do excesso de solda. Uma solda feita com alta velocidade tende a distorcer menos que uma solda feita com baixa velocidade. Isso acontece devido à maior quantidade de calor geralmente fornecida em processos de baixa velocidade. Atualmente a soldagem robotizada está sendo usada em vários estágios de produção e para diferentes membros estruturais. A soldagem robotizada para a união de reforços longitudinais em placas é um exemplo típico. 70 • Tensionamento térmico Este método é baseado na aplicação de gradientes de temperatura para produzir tensões que se opõem ao desenvolvimento de tensões de soldagem que geram a distorção de flambagem, conforme a Figura 59. Muitas pesquisas relacionadas ao assunto têm sido publicadas ou encontram-se em desenvolvimento, Michaleris et al [27] e Conrardy et al. [28] são referências para este assunto. Figura 59: Exemplo do tensionamento térmico. • Soldagem Unilateral Outro método que reduz o nível de distorções é a soldagem de cada lado dos enrijecedores longitudinais separadamente, permitindo o resfriamento da solda entre cada passe, Dydo et al. [5]. Estaleiros modernos soldam ambos os lados usando equipamentos mecanizados aumentando a produtividade, mas concentra-se uma grande quantidade de calor local. Esse aquecimento gera uma grande zona plástica, que resulta em altos níveis de tensões residuais e distorções. • Construção dos painéis com o método caixa de ovo Outro método que reduz as distorções é a construção dos painéis na forma de caixa de ovo. Este tipo de construção tem sido aplicado com sucesso em alguns estaleiros. Essa técnica envolve uma seqüência de fabricação bem diferente da convencional utilizada na maioria dos estaleiros em relação à soldagem dos painéis. Nesta técnica uma estrutura denominada caixa de ovo é construída com a soldagem dos reforços longitudinais e transversais (grelha) antes da soldagem na placa de aço. Essa estrutura formada pelos 71 reforços é posteriormente soldada nas placas de aço, obtendo-se uma comprovada redução de todas as formas de distorções Dydo [5]. • Seqüência de solda do painel Conforme mencionado no primeiro capítulo, as estruturas oceânicas são formadas basicamente de painéis enrijecidos que seguem uma seqüência tradicional de fabricação com a soldagem primeiramente das placas de aço, seguindo o processo com a solda dos reforços longitudinais e por último a soldagem dos reforços transversais. Huang et al. [2] verificaram o impacto desta seqüência em relação ao nível de distorção imposto através de medições realizadas após cada passo de fabricação. Nesta pesquisa concluiram que a seqüência de solda influi na resistência à flambagem. Uma seqüência de soldagem simétrica aumenta a resistência, ou seja, dois enrijecedores devem ser soldados simultaneamente mantendo a simetria em relação ao painel. • Equipamentos de medição A utilização de equipamentos de medição como os citados no terceiro capítulo, além de proporcionar o maior controle dos níveis de distorções, pode demonstrar os caminhos mais críticos de todo o processo de produção. 72 5.2.3 Mudanças de projeto Existem alguns casos em que o nível de distorções desejado não é alcançado mesmo com as tentativas anteriores. Assim, em alguns casos, são necessárias mudanças no projeto para prevenir a flambagem de painéis. Com a utilização de métodos numéricos é possível ter uma previsão das distorções relacionadas a fase de projeto. O aumento de espessura é uma mudança eficaz para minimização das distorções, pois um pequeno aumento resulta em significante diminuição das distorções. Mas o aumento da espessura está na direção contrária da atual tendência de redução das espessuras. Bruce et al propuseram a eliminação da solda, quando possível, na fase de projeto, mantendo-se ao mínimo o requerimento por soldagem nos projetos. Outra proposta foi a aplicação da solda da solda no eixo neutro da estrutura. Huang et al. [2] propuseram a soldagem intermitente e a diminuição da soldagem em transições entre diferentes espessuras. A substituição de uma solda contínua por uma solda intermitente reduz a força de contração longitudinal, ainda que o mesmo o volume de metal de solda é depositado. Huang relatou que apesar deste tipo de solda ser permitido em muitos casos, não é muito utilizado. A soldagem em transições entre diferentes espessuras tende a concentrar altos níveis de distorções no material menos espesso. 73 Conclusões As imperfeições de fabricação, apresentadas na forma de distorções e tensões residuais, são os principais fatores que afetam a resistência limite dos painéis das estruturas oceânicas. O surgimento destas imperfeições está relacionado a altos gradientes de temperatura que ocorrem tanto no aquecimento quanto no resfriamento dos processos de soldagem. As distorções merecem uma importância maior que as tensões residuais pois, além de influenciar na resistência estrutural, afetam de forma negativa os princípios mais importantes da moderna construção naval e offshore, que são: qualidade e custo do produto final e o tempo de produção. A simplificação do problema das imperfeições em um problema mecânico, com a utilização de formas idealizadas de distribuição das distorções, consiste em uma poderosa ferramenta para o estudo dos principais parâmetros que afetam a flambagem e o póscolapso em painéis sob compressão axial. Neste estudo modelado com o método dos elementos finitos, as variações impostas aos parâmetros razão de aspecto, condição de contorno e amplitude máxima de distorção mostraram grande influência em relação à carga crítica de flambagem de placas de aço típicas de estruturas oceânicas. Mas, conforme observado, o modo de distribuição das distorções demonstrou que pode assumir importância maior em relação à carga crítica de flambagem. Nota-se que o aumento da amplitude das distorções que não coincidem com o modo natural de flambagem pode aumentar a resistência ao colapso, mas altos níveis de distorção distribuídos de forma que coincidam com o modo natural de flambagem geram os valores mais críticos para a tensão compressiva de flambagem. Equipamentos de medição a laser com alta precisão aparecem como ferramentas promissoras, devido aos benefícios que podem ser alcançados com a sua utilização na construção naval e offshore. Com estes equipamentos, amplitude e o modo de distribuição 74 das distorções podem ser levantados. Assim, os modelos numéricos podem gerar resultados mais precisos da carga crítica de flambagem com a incorporação destas medidas aos modelos numéricos. Outro grande benefício alcançado com a utilização destes equipamentos é a possibilidade do conhecimento dos estágios mais críticos da fabricação. O conhecimento destes estágios facilita o desenvolvimento de técnicas de controle e minimização das distorções. Os métodos de análises termo-mecânicas foram desenvolvidos com o crescimento da capacidade computacional nos últimos 60 anos desde simples soluções analíticas até soluções altamente não lineares com modelos numéricos com elementos finitos em três dimensões. Na presente pesquisa foi desenvolvido um modelo numérico com elementos finitos para a simulação de soldagem de filete entre duas placas aço. Os resultados obtidos foram comparados com os resultados numéricos e experimentais de Sorensen [1] e tiveram boa correlação. Um grande número de técnicas de controle e minimização das distorções de fabricação foi mencionado. Mas, deve ser lembrado que uma pesquisa mais profunda deve ser conduzida para a utilização dessas técnicas. Das técnicas citadas, o uso de equipamentos de medição aliado a simulações numéricas tende a ser a técnica mais promissora. 75 Trabalhos Futuros Algumas recomendações para trabalhos futuros são: • Estudo mais profundo da influência dos modos de distribuição das distorções no colapso de estruturas oceânicas. • Utilização dos equipamentos citados para medição de placas reais com a introdução das amplitudes e modos de distribuição das distorções em modelos numéricos. A utilização de equipamentos para medição das tensões residuais e conseqüente incorporação dessas tensões nos modelos numéricos gerariam resultados mais precisos. • Realizar correlação numérico-experimental para o modelo em 2D de simulação de soldagem. • Desenvolvimento de modelos numéricos de simulação de soldagem em 3D para os painéis típicos de estruturas oceânicas. O desenvolvimento deste modelo com razoável precisão, pode ser utilizado para estimar a resistência ao colapso destas estruturas. • Estudos experimentais dos métodos de minimização das distorções existentes junto a análises numéricas e experimentais. 76 Referências [1] Andersen F.L., Residual Stresses and Deformations in Steel Structures. Technical University of Denmark - Department of Naval Architecture and Offshore Engineering, Phd Thesis (2000). [2] Huang D.T., Dong P., DeDan L., Harwig D., Kumar R., Fabrication and Engineering Technology for Lightweight Ship Structures, Part 1: Distortions and Residual Stresses in Panel Fabrication, J. Ship Prod. 20 (1) (2004) 43–59. [3] M.P. Lightfoot, N.A. McPherson, K. Woods, G.J. Bruce. Artificial Neural Networks as an Aid to Steel Plate Distortion Reduction, in: Journal of Materials Processing Technology, 2005. [4] Masubuchi K., Analysis of Welded Structures. Residual Stress, Distortion, and their Consequences. First Edition, New York, Pergamon Press Ltd., 1980. [5] Dydo R. J., Castner R. H., Koppenhoefer K., Guidelines for Control of Distortions in Thin Ship Structures. Navy Joining Center, Ohio, 1999. [6] D. M. Ribeiro, Tecnologia da Solda - Universidade Federal do Rio de Janeiro - Centro de Tecnologia - Escola de Engenharia - Departamento de Engenharia Naval e Oceânica Última revisão: 27/04/2000 [7] Mondenesi, P. J., Efeitos Mecânicos do Ciclo Térmico. Universidade Federal de Minas Gerais – Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais, 2001. [8] C. A. Carlsen e J. Czujko, (1978) “The specification of tolerances for post welding distortion of stiffened plates in compression”, The Structural Engineer, Vol. 56-A, nº5, pp. 133-141. 77 [9] A. E. Mansour, J. M. Yang e A. K. Thayamballi, (1990) “An experimental investigation of ship hull ultimate strength”, SNAME Meeting, pp.13.1-13.25. [10] Pasqualino, I. P., Estefen, S. F., Netto, F. A. Ultimate strength of ships`panels. Int. Shipbuild. Progr., 48, no. 2, p. 103-116, 2001. [11] J. M Gordo, C Guedes Soares. Efeito das imperfeições geométricas iniciais na resistência de placas. O Mar Fonte de Desenvolvimento Sustentável, 8AS Jornadas Técnicas de Engenharia Naval, p. 385-404, 2002. [12] Hibbitt, Karlsson, Sorensen, Inc. User`s and Theory Manuals. Versão 6.3-5, 2003. [13] Faulkner, D., A review of effective plating for use in the analysis of stiffened plating in bending and compression, journal of Ship Research, Vol 19, pp. 1-17, 1975. [14] Chapman, J. C., Smith, C. S., Davidson, P. C., Dowling, P. J. Recent Developments in Design of Stiffened Plates Structures, Advances in Marines Structures – 2, Elsevier Science Publishers, pp. 529-547, 1991. [15] Redlin, R.J, Development of measuring technologies in ship production, Proceedings Wismarer Fachtagung Maritime Technik, 1995. [16] Manninen, M., Kaisto, I. (1997). An approach to the 3D alignment of box-shaped structures, Proceedings ICCAS 1997, 339-350. [17] N. S. Boulton, H.E. Lance Martin, Residual Stress in Arc-welded Plates, Proc. Inst. Mech. Engrs. 133, 295-347, 1936. 78 [18] Martin Birk Sorensen. Simulation of Welding Distortions in Ship Section. Technical University of Denmark - Department of Naval Architecture and Offshore Engineering, Phd thesis,1999. [19] Lindgren, E. L., Finite Element Modeling and Simulation of Welding – Part 1: Increased Complexity. Journal of Thermal Stresses, 2001. [20] Tall, L., Residual Stresses in Welded Plates – A Theoretical Study. Welding Journal, vol. 43, nº 1, pp. 10-23, 1964. [21] E. F. Rybicki, D. W. Schmueser, R. B. Stonesifer, J. J. Groom and H.W. Mishler, A Finite Element Model for Residual Stresses and Deflections in Girth-butt Welded Pipes, ASME J. Pressure Vessel Technology, vol. 100, 256 - 262, 1978. [22] E. F. Rybicki and R. B. Stonesifer, Computation of Residual Stresses due to Multipass Welds in Piping Systems, ASME J. Pressure Vessel Technology, vol. 101, 149 - 154, 1979. [23] L-E. Lindgren and L. Karlsson, Deformations and stresses in welding of shell structures, Int. J. for Numerical Methods in Engineering, vol. 25, 635 - 655, 1988. [24] Y. Ueda, H. Murakawa, K. Nakacho and N-X. Ma, Establishment of Computational Weld Mechanics, JWRI, vol. 24, 73 - 86, 1995. [25] Sarkani S., Tritchkov V., Michaelov G., An Efficient Approach for Computing Residual Stress in Welded Joints. Finite Elements in Analysis and Design 35 247-268, 2000. [26] Wilckens, H., (2001). Innovation in ship production what can we expect? - Practical Design of Ships and Other Floating Structures. 79 [27] Michaleris P., Finite Element Analysis of Thermal Tensioning Techniques Mitigating Welding Buckling Distortion. The Pennsylvania State University University Park, PA [28] Conrardy, C., Huang, T. D., Harwig, D., Kvidahl, L., Evans, N., Treaster, A., Practical Techniques to Minimize Distortion in Lightweight Ship Structures. Marine Technology Conference & Expo and Ship Production Symposium, Houston, 2005. [29] Bruce, G., Lightfoot, M., Is What you see really what you get? – Managing the Effects of Welding Distortion. 9th Symposium on Practical Design of Ships and Other Floating Structures. 80