Dança/Educação: potencializando práticas educativas na infância Resumo A pesquisa ora apresentada visa destacar algumas das ações do Projeto Social do Instituto Ademar César (ICAC), que tem a dança/educação como vertente estética, artística e cultural na reintegração e inclusão de crianças, de jovens e de adultos portadores de necessidades especiais. Vivenciar a dança em seus movimentos corporais, mentais e emocionais pode contribuir para o processo de expressão, de comunicação, de interação e de construção de identidades para um público aberto a novas experiências e aprendizagens. Especialmente para a categoria infantil, a dança tem contribuído como potencializadora no processo de integração social e construção identitária e humanística estabelecendo um canal de comunicação efetivo e afetivo com os participantes do projeto. Esse texto apresenta um recorte da pesquisa em desenvolvimento na universidade, tendo dança/educação como imprescindível no processo de formação humana e na construção de conhecimentos e identidades da criança. Por meio da dança a criança se manifesta interagindo com o espaço e outros sujeitos, aprendendo a conviver com o outro e iniciando um processo de autoconhecimento. Palavras‐chave: práticas educativas, dança/educação, infância, formação. Daniela Cristina Viana Universidade da Região de Joinville [email protected] X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.1 X Anped Sul Dança/Educação: potencializando práticas educativas na infância Daniela Cristina Viana Introdução A educação é concebida por meio de processos de ensinar e aprender, de desenvolver aspectos cognitivos e sensíveis na construção e formação do sujeito ao longo da vida. É um processo contínuo, dinâmico e em transformação. Para Freire (1996) um projeto de libertação do sujeito para o mundo. O autor quando discorre sobre a presença do sujeito no mundo, refuta a ideia de um sujeito que apenas existe, e acredita na formação de um sujeito que "[...] intervém, que transforma, que fala do que faz mas também do que sonha, que constata, compara, avalia, valora, que decide, que rompe." (FREIRE: 1996, p. 18) Esse princípio ampliado de sujeito corrobora com o ideal de educação que buscamos, pois, quando refletimos sobre um projeto, de qualquer temática, esperamos que este, obtenha significado, que seja significativo, que retorne frutos, que transcenda. A educação é um projeto/processo que aspira estas condições, porém, apresenta avanços muito tímidos. E por meio de temáticas múltiplas, em especial as que envolvem a dança/educação, debruçamo‐nos em campos subjetivos da formação humana, complexos, mas, inerentes ao principal objeto de discussão, nós mesmos. E, neste impulso, as contribuições para o campo da educação transcendem o cenário atual, que tomamos por falho e, por vezes repetitivo. Nesse âmbito, de contribuir positivamente com a educação e a formação dos sujeitos, a pesquisa que estamos desenvolvendo e apresentando um breve recorte nesse texto, visa discorrer sobre a expressão da dança como intervenção na formação humana e na construção do ser e do seu conhecimento. Este mesmo ser, hoje incompleto (desintegrado), porém, dotado de incalculáveis propensões se constituindo sujeito. Além disso, trás a dança e seus desdobramentos como fonte inesgotável de expressão e fundamental na infância. A criança, um ser em construção, mas, sujeito com identidades, ideias e vontades, necessita construir e expressar seus movimentos em espaços múltiplos, interagindo com outros sujeitos. Esse processo mobiliza o ato de aprender a conviver com o outro, desenvolvendo aprendizagens outras e outros sentidos. X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.2 X Anped Sul Dança/Educação: potencializando práticas educativas na infância Daniela Cristina Viana O Projeto Social do Instituto Ademar César (ICAC), campo de nossa pesquisa compreende a dança/educação como vertente estética, artística e cultural, potencializando a integração e convívio compartilhado das crianças. A dança/educação atua como mobilizadora nos processos de aprendizagem e na ampliação constante de um ser crítico e, sobretudo, sensível. A dança como expressão Segundo Freire (1996:85) é o exercício da curiosidade que move a construção do conhecimento, "[...] sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino". Porém, o que desperta a curiosidade? O que provoca o sujeito em seus sentidos inatos? A curiosidade pode ser entendida como uma capacidade humana inata, instintiva e justificada no sujeito ontologicamente para que este busque o conhecimento do universo ao seu redor para a sobrevivência. Por que então sentimos tanta dificuldade em despertá‐la? Essa pesquisa sugere pelo menos um fenômeno e não somente uma ferramenta para a curiosidade, a dança/educação, questionando alguns aspectos, como: ‐ a expressão da dança está inserida nos projetos pedagógicos nas instituições formais de educação? ‐ Se está, de que forma? Se não está, por que não é incluída? E por fim, quais as contribuições da dança/educação para o contexto da infância tendo como foco a formação cidadã? De acordo com o artigo 1º da Lei 9.394 de 20 de dezembro 1996, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional no Brasil: “A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.” A partir deste primeiro artigo, compreende‐se a importância de entender o sujeito como ser ontologicamente histórico e cultural, em que a formação artística e estética independe do seu meio. Meira (2014:57) sobre essa questão afirma que: X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.3 X Anped Sul Dança/Educação: potencializando práticas educativas na infância Daniela Cristina Viana É possível que a experiência estética desperte em cada um de nós protótipos mentais concretos e que variam em termos de ordem e desordem, que se liguem a nossa história pessoal, a nosso nível de escolarização, à cultura que tivemos em casa, na rua, no trabalho. Ela permanece constante no que se liga ao corpo com suas necessidades e desejos, ao campo de estesias que o lugar em que vivemos oferece. (MEIRA, 2014:57). É a partir das experiências humanas que nos constituímos enquanto sujeitos, em uma relação dialética de formação não só cultural ou artística, mas também, humanística. Para os princípios e fins da Educação Nacional, (id. art. 2º) esta é descrita como: [...] dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho, com base em princípios diversos, dentre eles encontra‐se no parágrafo II, o princípio da liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber. (BRASIL, 1996:art. 2º). E o mais importante, firma‐se a obrigatoriedade do ensino da arte na escola. (id. art. 26º: parágrafo 2º). “O ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos”. No Referencial Curricular Nacional Brasileiro – RCN (2006) encontram‐se alguns tópicos interessantes com relação à inserção das artes, em específico da dança no contexto infantil. Um fator notável no documento é a definição da importância do movimento, da relação da criança com o espaço e da dança/educação como meio de interação e compartilhamento de experiências no âmbito da estética. Segundo o Referencial Curricular Nacional – RCN para a Educação Infantil (Brasil, 2006:19). “Os jogos, as brincadeiras, a dança e as práticas esportivas revelam, por seu lado, a cultura corporal de cada grupo social, constituindo‐se em atividades privilegiadas nas quais o movimento é aprendido e significado”. A dança é compreendida como relevante, ativa e conspiratória a favor dos processos de significação das coisas do X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.4 X Anped Sul Dança/Educação: potencializando práticas educativas na infância Daniela Cristina Viana mundo, ou o mundo das coisas. Além dos sentidos e das vivências culturais e históricas, a dança participa deste contexto engenhosamente. Os RCNs recomendam a reflexão da importância do movimento a partir do zero ano, dando alcance as questões motoras da criança, sugerindo trabalhar o movimento em várias dimensões sempre corroborando o movimento com as significações do mundo e a expressividade própria da criança. “A organização dos conteúdos para o trabalho com movimento deverá respeitar as diferentes capacidades das crianças em cada faixa etária, bem como as diversas culturas corporais presentes nas muitas regiões do país”. (BRASIL: 2006:28). Neste âmbito, o documento norteador não refuta a importância das manifestações culturais reveladas a partir da história do sujeito. Sendo assim, para os RCNs, (Brasil, 2006:30) “a dimensão expressiva do movimento engloba tanto as expressões e comunicação de ideias, sensações e sentimentos pessoais como as manifestações corporais que estão relacionadas com a cultura”. Este mesmo documento determina que o ato de coreografar não deve constar obrigatoriamente no plano de ensino. No RCN, a aprendizagem da dança pelas crianças “não pode estar determinada pela marcação e definição de coreografias pelos adultos”. (Brasil, 2006:30). Esta recomendação é devidamente decorrente do que se observa em questão do uso da dança na escola, que, geralmente acontece em eventos comemorativos onde as crianças executam movimentos demarcatórios, criados ou copiados pelo (a) professor (a). O RCN refuta a concepção da dança na escola como adorno e a ideia da dança como evento em ocasiões comemorativas. É importante refletirmos que muitas dessas ações, autoritárias e repetitivas, pode ser um limitador para o processo de criação da criança, pois nessa fase a criança precisa estar liberta de amarras e modelos pré‐estabelecidos. Ela precisa apenas manifestar‐se, do seu jeito de ser criança. X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.5 X Anped Sul Dança/Educação: potencializando práticas educativas na infância Daniela Cristina Viana O corpo que fala e aprende, me constrói No apelo incessante de firmar o corpo como integrador não desconexo do sujeito, se faz necessário então, desconectá‐lo para entender a sua completude. Vejamos que, fora do corpo, caso pudéssemos, poderíamos descrever a dimensão dos espaços teoricamente, porém, não teríamos o entendimento completo do sentir a dimensão dos espaços, e talvez, isso se confirme, pois na infância somos taxionomicamente formados por meio dos sentidos coletados de estranhamentos do mundo que nos rodeia. O entendimento completo do sentir nos possibilita percepções diferentes do que é o descrever e o sentir. Com o corpo materializamos o que pensamos, entendemos e sentimos, e esse cenário se repete para tudo que o corpo conversa. Para Ferreira e Falkembach (2012:60) “assim como, em cada tempo, se configuram visões de mundo, de sujeito, de educação, cada um apresenta suas ideasforma de dança” e “por trás de cada ideiasforma de dança há uma concepção de corpo”. Embasada em Rudolf Laban 1, Ferreira e Falkembach (2012) fazem uma alusão a ideia dicotômica que concebemos desde a infância, em que, a mente é o contrário do corpo, e a razão sempre está na contramão do sentimento. Conceber mente e corpo como unidade é um viés de entendimento ainda muito novo de reflexão. Segundo Meira (2014:60) “uma boa imagem é inesquecível e dispensa explicações. Uma palavra oportuna carrega consigo um desejo de cercá‐la de cuidadosas imagens, para que seja retomada. Ferramentas existem para ajudar o corpo a se ver melhor com suas práticas”. Este apelo se faz pelo fato de que, cada sujeito, entende as coisas do mundo com ideias e formas diferentes, por isso, ideiasforma. O que transfere para a expressão da dança, o desafio de firmar‐se no contexto educacional com engenho reconhecido, com ideia e forma condizente e justa, firmar‐se em um terreno gelatinoso de conceitos ainda desarranjados para o ensino da dança educação. Este conceito de ideiasforma também corrobora com a dança/educação para que os sujeitos por meio da expressão da dança construam outras ideiasforma de mundo, suas significações e sentidos ampliados desde a infância. Segundo Nanni (2008:153): X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.6 X Anped Sul Dança/Educação: potencializando práticas educativas na infância Daniela Cristina Viana A Dança/Educação, ao explorar a noção de espaço deverá facultar a liberdade de exploração do espaço à volta da criança de forma espontânea e lúdica. As noções fundamentais, dos contrastes alto‐baixo, longe‐perto, presença‐ausência, grande‐pequeno, etc., oportunizarão à criança observar, perceber, explorar o espaço em sua volta pelo movimento. O movimento abre possibilidades de entender o interior. Ao explorar livremente os espaços a criança transforma o ambiente explorado. (NANNI: 2008:153). Analisando o sujeito a partir da infância, nota‐se que este foi desintegrado, destituído da sua forma integral para o estudo das partes como formação do todo. Tomamos a mente como peça principal da educação e nos esquecemos do corpo, desvinculamos a mente do todo, e principalmente, desvinculamos o corpo da importância no processo de construção do entendimento do todo. Corpo é a unidade do organismo vivo. Unidade porque é o organismo entendido sem as dicotomias corpo‐mente, razão‐sentimento. Ainda, corpo, significa algo que é parte interdependente do processo coevolutivo da natureza e da cultura, inserido num campo cultural historicamente datado e constituído por técnicas formativas. (FERREIRA; FALKEMBACH: 2012:60‐61). A partir desta linha de pensamento, podemos refletir sobre o entendimento de corpo como processo de construção “cognitiva” do sujeito, e como processo, caracteriza‐se pela constante transformação e evolução, constituindo‐se na complexa rede de trocas de informações e de relações dinâmicas com o meio. Para Meira (2014:57). “A experiência cognitiva está carregada de afetividade, e esta provoca satisfação ou insatisfação que vai influir na postura estética de cada um, sua abertura ou resistência ao que lhe acontece, a atitude positiva ou negativa ante os estímulos do meio”. O corpo é uma linguagem, e como linguagem comunica, conversa com o mundo, independente do canal de comunicação, por meio da visão, do som, do próprio silêncio, do toque, etc. Fala a linguagem artística e cultural por meio do movimento. Se entendermos o corpo como linguagem, podemos entender também, que o movimento, e em específico a dança e suas diversas manifestações constituem formas de linguagem, como dialetos, ou seja, a dança constitui uma maneira de falar, formas de falar. A partir X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.7 X Anped Sul Dança/Educação: potencializando práticas educativas na infância Daniela Cristina Viana deste entendimento, podemos expressar, renunciar, marcar, transformar o mundo em que vivemos e, principalmente, o mundo subjetivo1 das coisas, aquele mundo que abstraímos a princípio, o mundo de dentro para fora. Como linguagem, o corpo e o movimento, são ferramentas vigorosas a favor da construção dos saberes do sujeito para a educação e para a cidadania. Para Nanni (2008:168) “o corpo tem uma linguagem que lhe é peculiar, predecessora e complementar da linguagem oral”. Por meio do movimento da dança, lemos e pronunciamos o mundo e expressamos a vida articulando a língua do movimento. Assim, a expressão da dança articula a materialidade do corpo e, por fim, conversa. Projeto Social reiterando a linguagem do sentir Quando iniciamos a pesquisa a escolha do Projeto Social do Instituto Ademar César (ICAC) foi fundamental, pois necessitávamos de um espaço que desenvolvesse a dança/educação como forma de construção humana. O ICAC acolhe crianças, jovens e adultos, portadores de necessidades especiais e se apropria da dança/educação também como veículo de interação social, especialmente na infância, etapa em que tudo se inicia, determinando trajetórias de vida. Segundo o decreto nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999, (BRASIL, 1999), artigo 4º, considera pessoa portadora de deficiência a que se enquadra nas categorias: “I ‐ deficiência física [...]; II ‐ deficiência auditiva [...]; III ‐ deficiência visual [...]; IV ‐ deficiência mental [...] e; V ‐ deficiência múltipla – associação de duas ou mais deficiências”. Para a categoria infantil, no ICAC, a dança (Figura 1 e 2) tem atuado como potencializadora no processo de integração social. Para que aconteça a inclusão dos participantes e o processo de construção identitária e humanística por meio da arte, estabelece um canal de comunicação efetivo e afetivo com todos os que integram o projeto e com a comunidade em geral. 1 Segundo Meira (2014:57). "Fala‐se hoje em subjetividade para não cair na armadilha didática de tratar problemas ilusórios ou imagináveis como se fossem materializáveis". X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.8 X Anped Sul Dança/Educação: potencializando práticas educativas na infância Daniela Cristina Viana Figura 1 e 2. Aulas de dança, Instituto Cultural Ademar César. (INSTITUTO, 2014). As ações se desdobram com atividades de desenho, pintura, artesanato, informática, exposições artísticas, e, evidentemente a dança. Todas estas atividades culminam com a dança/educação contribuindo com o desenvolvimento motor fino, principalmente das crianças que decorrem de acidente vascular cerebral ou patologias motoras. Figura 3. Além disso, os pais ou responsáveis podem escolher fazer as atividades enquanto as crianças vivenciam a dança ou outras atividades. No ICAC, bimestralmente, temas diversos são abordados no artesanato, na pintura, no desenho, e na dança, e a própria dança é um tema sempre evidente. Além disso, as crianças sempre contam com o auxílio das tecnologias para perceber a dança de outros pontos, assistindo e se comunicado por meio da internet. Figura 3. Aula de pintura com o tema dança (observe que no quadro tem um bailarino), Instituto Cultural Ademar César. (INSTITUTO, 2014). X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.9 X Anped Sul Dança/Educação: potencializando práticas educativas na infância Daniela Cristina Viana No ICAC, também há acompanhamento de uma nutricionista e uma psicóloga. A nutricionista atua em prol de assegurar a melhora da alimentação e à atenção dietética, trabalhando paralelamente as atividades de dança/educação através do atendimento dos participantes no que cerne a qualidade da alimentação, o peso, e os regimes alimentares, para a manutenção e recuperação da saúde e para a prevenção de doenças, o que contribui para a melhoria da qualidade de vida. Vide Figura 4 e 5. Nesse viés, o ICAC também conta com uma psicóloga que atua no comportamento e vivência dos participantes do projeto. Figura 4 e 5. Encontro com a nutricionista, Instituto Cultural Ademar César. (INSTITUTO, 2014). A dança no projeto se realiza com e sem coreografias delimitadas, porém ambas, trabalham a de forma significativa, procurando desenvolver ações sem apelos do mercado consumista. É notável que desde a infância, as crianças entendem e diferenciam os modelos dos corpos que existem, as diferenças corporais das pessoas, e neste caso, as limitações que seus corpos apresentam, e assim, também comparam os modos do corpo se movimentar. É por isso que a dança se realiza pela dança em primeiro ponto, por meio do sentir, do conhecer o outro e do conhecer principalmente a si próprio, e em segundo ponto, com apelo a generosidade ao seu próprio corpo. A dança busca o entendimento do corpo para sentido mais complexo e simples que conhecemos – a vida. Assim corrobora Meira (2014:54) para o entendimento das sutis vivências da arte: X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.10 X Anped Sul Dança/Educação: potencializando práticas educativas na infância Daniela Cristina Viana Hoje estamos expostos a pressões incontroláveis sobre a nossa sensibilidade. Cabe o professor de Arte, muitas vezes, desacelerar processos de ação cujos ritmos são próprios à máquina, mas não a gente. Ouvir o silêncio, por exemplo. Prestar atenção a pequenos detalhes fortuitos, como fazia Da Vinci olhando as manchas de umidade nos muros. Flagrar um raio de luz cortando planos, panos e laços, introduzindo a maravilha dos matizes, das luzes e das sombras no já conhecido. (MEIRA, 2014:54). Quando Meira discorre sobre a sensibilidade dos sentidos, refere‐se tanto aos sentidos internos como externos do sujeito. Sentidos que governam a consciência, a inteligência e o raciocínio, indispensáveis a uma vida em sociedade. Além disso, este discernimento ocorre simultaneamente com a percepção, a atenção, a memória e a imaginação. E quando associado a dança, esse conceito firma a concepção da dança como meio de despertar os sentidos da vida humana, pois trata dos sentidos subjetivos, sentidos do corpo e de sua relação com o meio. É nesse contexto de sentidos e estranhamentos, da descoberta e compreensão do corpo, que o Projeto Social do ICAC desenvolve suas ações. A dança/educação no ICAC prioriza a dança na formação dos sujeitos, contribuindo na ampliação de suas leituras sobre o mundo, leitura que possa superar as limitações corpóreas, transcender expectativas sociais e pessoais, além de incluir, de satisfazer e buscar a melhor convivência dos sujeitos. Segundo Nanni (2008,153) “é pela dança que se inicia o conhecimento dos processos internos; estes estimulam o descobrimento, a compreensão da essência do mundo (o espaço, o outro, o objeto, o mundo e o Universo), o existir é o ver, ver melhor”. Parte da pesquisa aqui apresentada tem buscado a harmonia entre corpo e mente, corpo e espaço, corpo e vida, num constante movimento de ideias, formas e saberes. Defendemos a ideia a dança/educação, não só nos espaços não formais da educação, mas, sobretudo, nas instituições escolares, especialmente no contexto da infância. Se é possível desenvolver a dança/educação a partir de um projeto social não formal, por que as instituições formais de educação relutam com a ideia da dança/educação, alegando falta de espaço, de professor, de materiais adequados e X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.11 X Anped Sul Dança/Educação: potencializando práticas educativas na infância Daniela Cristina Viana tantos outros, quando o mais importante é a vontade coletiva de se movimentar ludicamente. É entender o corpo como elemento que pensa, sente e se desdobra em múltiplas possibilidades de viver. Últimas Considerações A maior contribuição desta pesquisa pode estar na quebra de paradigmas, principalmente, no rompimento de modelo conceitual da expressão da dança no ambiente escolar, tido como adornou complemento para a educação física e sem muita relevância. Além disso, a manutenção destes paradigmas engloba, desde os professores, o ambiente escolar e, até mesmo, a sociedade por meio de uma concepção equivocada do entendimento da dança/educação (suas expressões, suas formas, seu campo de atuação), e também do sujeito formado em completude por meio das artes em geral. Esta pesquisa busca contribuir para o entendimento da formação do sujeito, desmistificando o óbvio, o pensamento comum sobre a expressão da dança, considerado como um pensamento desconexo e nebuloso sobre a expressão da dança/educação. É necessário quebrar alguns paradigmas, como: o entendimento que um corpo não é parte integra o processo de formação; que a dança se reduz a conduzir o comportamento da criança, mantendo‐a imóvel e controlada. Estamos falando sobre a concepção do corpo vazio – de corpo como invólucro (caixa vazia), corpo como caixa que somente se enche e não participa ativamente no processo de construção humana –; de dança que tem como função básica o espetáculo e o entretenimento; da dança que não forma, não transforma, não revela, não conversa, e não constrói nada significativo para o mundo das coisas. É precisa, portanto, que reflitamos sobre as contribuições cognitivas e sensíveis da dança/educação no contexto escolar e não escolar, num caminhar constante, que objetiva romper com muros e territórios conceituais. Enquanto não sobrepujarmos esses estranhamentos, não nos aceitaremos enquanto seres complexos e históricos, refutando os potenciais que a dança/educação pode mobilizar para uma formação humanizadora desde a infância. X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.12 X Anped Sul Dança/Educação: potencializando práticas educativas na infância Daniela Cristina Viana Quando negamos a formação humanizada na infância, negamos a formação integral do sujeito ‐ da infância a maturidade. Constituímos assim, a ideia de incompletude e desintegração. Desta forma reiteramos a ideia de uma formação com foco na alienação. Ainda nos basta a educação parcial e tecnicista, formativa de sentidos obscurizados. Até quando? A partir dessas inquietações a pesquisa tem defendido dança/educação no contexto das escolas, em especial para a infância, pois essa forma de expressão vai muito além do que pensamos saber. Transcende em nosso entendimento, pois somos sujeitos aprendentes e podemos seguir um caminho reflexionante sentindo as potencialidades do nosso corpo. Esse trajeto inicia‐se na infância, quando ainda não estamos formados. Nessa etapa a imaginação dança em movimentos contínuos e criativos, estendendo‐se ou não para o resto de nossos dias e de nossos viveres. Referências BRASIL. Lei n.º 9394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da Republica Federativa do Brasil. Brasília, DF, 23 dez. 1996. ______. Ministério da educação. Secretaria de educação básica. Parâmetros Nacionais de Qualidade para a educação infantil. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica: Brasília, DF: 2006. ______. Senado federal. Política nacional para integração da pessoa com deficiência: decreto nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999. Brasília, DF, 21 dez. 1999. CUNHA, Suzana Rangel Vieira da. Org; Lino, Dulcimarta Lemos. et al. As artes no universo infantil. ed. 3. Porto Alegre, RS: Mediação, 2014. FERREIRA, Taís; Falkembach, Maria Fonseca. Teatro e dança nos anos iniciais. Porto Alegre, RS: Mediação, 2012. FREIRE, Paulo. 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