LISBOA DENTRO DE MIM | 1993 1. CANÇÃO DO ENCOBERTO Anrique Paço D’Arcos (1926) Ernesto de Mello e Castro (1926) Dom Sebastião de mim próprio A mim próprio ando a guardar E em manhã de nevoeiro A mim próprio hei-de voltar Eu sou aquele encoberto Que numa tarde sem fim Nas areias dum deserto Me perdi dentro de mim Quando virás, madrugada Em que eu hei-de ressurgir Dessa tarde desgraçada Do meu Alcácer-Quibir? 2. CANTAR António Botto (1941) Wagner Tiso (1992) Cantar! Não há ninguém que não cante Mesmo em silêncio – ninguém! E às vezes a gente canta Sem vontade, sem prazer, Apenas para mostrar Que a vida sem esse além Não tem uma razão de ser. Cantar para dissuadir Os venenos do ciúme Ou para ficarmos sós Com a nossa consciência. É sempre som que se espalha E fica na eternidade Desse momento vivido. Nas sombras de uma saudade Há sempre a visão amarga De um coração iludido. Cantar! Resumo liberto De tudo que anda a viver, E o mundo cabe inteirinho Numa nota musical Que se escapoa da garganta De quem canta o que souber. 7. NOITE SEM LUAR Godofredo Guedes Vi, no horizonte azul A tarde desmaiar, e a noite aproximar Enchendo de tristeza a solidão do mar Roubando à Natureza A luz crepuscular, E a sós no meu jardim Cismava divisar Na noite sem luar A vela que singrando No oceano imenso Levava para além o meu querido bem Foi que então veio a saudade e eu chorei, Depois com lágrimas nos olhos eu jurei Jamais Prender-me por amor No cárcere cruel da dor. 8. O CERCO Eugénia Melo e Castro (1987) Wagner Tiso Um lado meu erra o salto Um lado meu eera o alvo Um lado meu fica ao alto Outra metade está solta, Aperto o cerco à minha volta Outra metade adormece, Fico em silêncio e ao meu lado Lisboa desaparece Dois corações me controlam Um por dentro, outro por fora, Partes de mim vão-se embora Quando outras chegam, agora, Um lado meu ri de tudo Quando o outro lado chora. 9. O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL Cesário Verde (1855-1886) António Pinho Vargas (1992) Nas nossas ruas, ao anoitecer, Há tal soturnidade, há tal melancolia Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia Despertam-me um desejo absurdo de sofrer. Evoco então as crónicas navais: 3. FADO LISBOA Raúl Ferrão/Álvaro Leal (1934) Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado! Luta Camões no sul, salvando um livro a nado, Singram soberbas naus que eu não verei jamais. Lisboa casta princesa Que o manto da realeza Abres com pejo No casto beijo Domingos Caldas Barbosa (1740-1800) Pedro Caldeira Cabral (1992) Lisboa tão linda és Que tens de rasto aos pés A magestade Do Tejo Dos meus tristes olhos Corra o triste pranto Sem cessar enquanto Não vejo o meu bem Lisbos das Descobertas De tantas terras desertas Que deram brado No seu passado Dos meus tristes olhos Triste pranto corra Ninguém me socorra Não chamo ninguém De Lisboa tens a coroa Velha Lisboa da Madragoa Quantos heróis Tens criado Pois da minha amada Tão distante eu vivo Do pranto o motivo A minha alma tem Sete colinas tem teu colo de cetim Onde as casas são boninas Espalhadas em jardim Dos meus olhos tristes A torrente amarga Faça ainda mais larga A que o Tejo tem E no teu seio, certo diz que foi gerado E cantado pelo povo Sonhador o nosso fado 10. SAUDADES, NO TEJO 11. SONETO Luís de Camões Wagner Tiso (1992) 4. LISBOA DENTRO DE MIM Eugénia Melo e Castro (1992) Frederico Valério (1988) Lisboa dentro de mim Passo os dias a pensar O que seria de nós. De tudo o que sou e sei Do seu olhar transparente Vou contra luz, noite dentro. Lisboa dentro de mim Eu sei dos meus desencontros Guiada pelos seus tons. Lisboa dentro de mim Sente o que eu sinto em silêncio. Dentro de nós, Somos sons. Sente o que eu sinto e invento Dentro de nós somos sons De sonhos em movimento. Que dias há que n’alma me têm posto Um não sei quê, que nasce não sei de onde, Vem não sei como, e dói não sei porquê. 12. ULISSES Fernando Pessoa (1888-1935) Mário Laginha (1992) O mito é o nada que é tudo O mesmo sol que abre os céus é Um mito brilhante e mudo O corpo morto de Deus Vivo e desnudo. Este que aqui aportou Foi por não ser existindo Sem existir nos bastou Por não ter vindo foi vindo E nos criou. Assima lenda se escorre A entrar na realidade 5. LOUCA DE AMOR José Galhardo (1926) Se é louco aquele que sente ao sol a arder, prazer, se é louco aquele que adora a cor do mar, luar, aos céus só peço uma ventura, um fim, Meu Deus, conserva esta loucura em mim. Se é louca para os mais, uma mulher que quer gozar toda a alegria de existir, a rir, sou louca então, como afinal de mim se diz, mas não me importo e a razão é que assim louca eu sou feliz, Louca de amor se diz que eu sou Louca serei talvez pois sim Louca de amor à vida eu estou que é ter razão ser louca assim 6. MODINHA Heitor Villa-Lobos (1926) “Ingrata, porque me foges, porque me fazes sofrer? Hei-de morrer por amar-te hei-de amar-te até morrer. É inútil me fugires. Hei-de amar-te hei-de amar-te até morrer!” A solidão da minha vida morrerei, querida do te desamor muito embora me desprezes te amarei constante sem que a ti distante chegue a longe e triste voz do trovador Feliz te quero mas se um dia toda essa aledria se mudasse em dor, ouvirias do passado a voz do meu carinho repetir baixinho a meiga e triste confissão do meu amor. E a fecundá-la recorre, Em baixo, a vida, Metade de nada, Morre 13. UM HOMEM QUE CANTA E VÊ E. M. de Melo e Castro (1963) Mário Laginha (1991) Um homem que canta Um canto na cidade Acalenta um sonho Que se vê Um homem que se vê Cantando No meio do sonho Um homem que se sonha No meio do que canta Um homem que canta E vê