II SIMPÓSIO SOBRE A BIODIVERSIDADE DA MATA ATLÂNTICA. 2013 115 Levantamento das plantas medicinais comercializadas nas feiras livres do município de Vila Velha, Espírito Santo. Jéssika Lima Cruz1 ; Emmyly Alves Toffolo2; Vinícius Cavattii Cancelieri3 ; Renderson Albino Silva3 ; Glória Maria de Farias Viégas Aquije4. 1 Aluna do Curso de Licenciatura em Química (IFES-V); 2Aluna do Curso Técnico em Química (IFES-VV); 3Técnico Administrativo (IFES-VV); 4Docente (IFES-VV). Endereço eletrônico: [email protected] Introdução A Organização Mundial da Saúde (OMS) define planta medicinal como sendo “todo e qualquer vegetal que possui, em um ou mais órgãos, substâncias que podem ser utilizadas com fins terapêuticos ou que sejam precursores de fármacos semissintéticos” (WHO, 2002). O Brasil com a maior diversidade vegetal genética do mundo, contando com mais de 55.000 espécies catalogadas de um total estimado entre 350.000 e 550.000 (Myers et al., 2000; Alves, 2001), e ampla sociodiversidade, vinculado ao conhecimento tradicional e tecnologia para validar cientificamente este conhecimento, possui inúmeras vantagens e oportunidades para o uso de plantas medicinais (Brasil, 2009). Tendo em vista a importância de sanar, ou pelo menos de amenizar os problemas socioeconômicos da população brasileira, é crescente a preocupação em se estabelecer espécies de plantas medicinais para pesquisas, suas potencialidades, usos e meios de conservação desses recursos genéticos (Rodrigues, 1998 apud Alves et al., 2008). Mesmo porque, o conhecimento sobre plantas medicinais simboliza muitas vezes o único recurso terapêutico de muitas comunidades e grupos étnicos (Maciel; Veiga Jr., 2002), lembrando também que esses dados vêm a contribuir para o conhecimento etnobotânico de uma comunidade. O levantamento das plantas medicinais comercializadas nas feiras livres, no caso, o município de Vila Velha, representa não só o estudo das plantas medicinais, mas uma contribuição à etnobotânica da comunidade em questão. Além do mais, o estudo irá contribuir para o acervo do herbário de plantas medicinais do Ifes – Campus Vila Velha. Assim, este trabalho tem por objetivo de realizar o levantamento das plantas medicinais comercializadas nas feiras livres do distrito Vila Velha, município de Vila Velha. Materiais e Métodos Área de Estudo: As análises foram realizadas nas feiras livres do distrito de Vila Velha, município de Vila Velha, Estado do Espírito Santo. O município de Vila Velha encontra-se situado nas coordenadas geográficas de Latitude -20° 19' 47'' Longitude -40° 17' 33'', com uma área de 212 Km2 e 414.586 habitantes (IBGE, 2012). Para a realização deste trabalho o termo Feira foi definido, segundo o conceito apresentado por Lima, Coelho-Ferreira e Oliveira (2011), onde: [...] feira refere-se à nomeação local atribuída a espaços específicos destinados à comercialização de produtos agroextrativistas e da pesca. As feiras podem 116 CRUZ ET AL: PLANTAS MEDICINAIS COMERCIALIZADAS NAS FEIRAS LIVRES apresentar estrutura física permanente ou temporária, podendo funcionar diariamente ou uma vez por semana. Entrevistas: A obtenção de dados fornecidos pelos feirantes, sobre o material comercializado, foi realizada por entrevistas estruturadas, conforme descrito por Albuquerque e Lucena (2004), que consiste levar o entrevistador a responder perguntas previamente estabelecidas. Os dados foram registrados com o uso de formulários (dados coletados por meio de entrevistas diretas e pessoais), e por questões abertas, permitindo ao entrevistador maior liberdade na obtenção dos dados. Material Botânico: O material coletado, nas feiras, foi preparado de acordo com a sua natureza: planta fresca ou seca, conforme as técnicas usuais de herborização de plantas vasculares descrito em Radford et al. (1974). Em seguida foi incorporado ao acervo do Herbário de Plantas Medicinais do Ifes - Campus Vila Velha - ES. Adotou-se o conceito de planta fresca, aquela coletada no momento de uso, e planta seca, a que foi precedida de secagem (Brasil, 2009). Estudo Florístico e Taxonômico: A identificação do material foi realizada com o auxílio de literatura específica e por comparação com exemplares do Herbário VIES (Universidade Federal do Espírito Santo). O sistema de classificação é o mesmo proposto pelo “APG III” (Angiosperm Phylogeny Group), publicado em 2009. A nomenclatura foi conferida e atualizada de acordo com a Lista de Espécies da Flora do Brasil (Flora dDo Brasil, 2013). Resultados e Discussões Para as feiras visitadas foram registradas 32 plantas (Tabela 1). Quanto aos grupos taxonômicos encontrados foram identificadas plantas pertencentes às Samambaias, Licófitas e Angiospermas (Tabela 1). As espécies mais citadas e mencionadas nas feiras foram capim cidreira, erva cidreira e erva doce. A parte aérea da planta, como casca, folhas e flores, foi destacada pelos feirantes como detentora dos valores medicinais. O mesmo é citado em outros trabalhos como em Rodrigues, (2001); Veiga et al., (2005) e Alves et al., (2008) relacionados aos valores medicinais das plantas. Conclusões A listagem apresentada neste trabalho ressalta a importância da informação popular quanto ao valor das plantas, contribuindo não só com a etnobotânica, mas com informações farmacológicas, trazendo orientações valiosas à investigação fitoquímica e farmacológica. Agradecimentos Ao Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) pela concessão bolsa. A Coordenação de Ciências Biológicas e da Saúde (IFES-VV), concedendo carga-horária para a execução do projeto. Ao Herbário VIES (Universidade Federal do Espírito Santo) pelo suporte as consultas. II SIMPÓSIO SOBRE A BIODIVERSIDADE DA MATA ATLÂNTICA. 2013 117 Referências Bibliográficas Albuquerque, U. P. de & Lucena, R. F. P. de. 2004. Métodos e técnicas para coleta de dados. In Albuquerque, U. P. de e Lucena, R. F. P. de, (Org.). Métodos e Técnicas na Pesquisa Etnobotânica. Recife: LivroRápido / NUPPEA, pp. 37-62. Alves, H. de M. 2001. A diversidade química das plantas como fonte de Fitofármacos. Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola. N. 1. 6 p. Alves, E. O., Mota, J. H., Soares, T. S., Vieira, M. do C.; Silva, C. B. 2008. Levantamento etnobotânico e caracterização de plantas medicinais em fragmentos florestais de dourados. Ciênc. Agrotec. 32(2):651-658. APG III. 2009. An update of the Angiosperm Phylogeny Group classification for the orders and families of flowering plants: APG III. Botanical Journal of the Linnean Society, 161:105-121. Brasil. 2009. O SUS de A a Z : Garantindo saúde nos municípios. Ministério da Saúde, Conselho Nacional das Secretarias Municipais de Saúde. – 3. ed. – Brasília : Editora do Ministério da Saúde. 480 pp.: il color + 1 CD-ROM – (Série F. Comunicação e Educação em Saúde). IBGE - Cidades. 2012. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/painel/painel.php?codmun=320520 (26/01/2012). Flora do Brasil. Lista de Espécies da Flora do Brasil. 2013. Disponível em: http://floradobrasil.jbrj.gov.br/ (26/01/2013). Lima, C. G. P., Coelha-Ferreira, M., Oliveira, R. 2011. Plantas medicinais em feiras e mercados públicos do Distrito Florestal Sustentável da BR-163, Acta Botanica Brasilica. 25(2):422-434. Maciel, M. A. M., Veiga JR., A. C. P. e Valdir, F. 2002. Plantas medicinais: a necessidade de estudos multidisciplinares. Quim. Nova, 25(3):429-438. Myers, N., Mittermeier, R.A., Mittermeier, C. G., Fonseca, G. A. B., Kent, J.2000. Biodiversity hotspots for conservation priorities. Nature, 403:853-858. Radford, A. E., W. C. Dickison, J. R. Massey, & BELL, C. R. 1974. Vascular plant systematics. Harper and Row Publishers, New York. Rodrigues, J. S. C. 2001. Contributo para o Estudo Etnobotânico das Plantas Medicinais e Aromáticas no Parque Natural da Serra de S. Mamede. Relatório de Estágio. ICN – PNSSM, FCUL. 249 p. Veiga, J. R., Valdir F., Pinto, A. C. & Maciel, M. A. M. 2005. Plantas medicinais: cura segura? Quim. Nova, 28(3):519-528. WHO. World Health Organization. 2002. Traditional Medicine Strategy 2002 - 2005. Geneva: World Health Organization, 74 p. 118 CRUZ ET AL: PLANTAS MEDICINAIS COMERCIALIZADAS NAS FEIRAS LIVRES Tabela 1: Lista das espécies obtidas nas Feiras Livres visitadas. Nome Nome Científico Popular Espécie Família Baccharis sp. Alecrim Arnica1 Babosa1 Buta/ Cipó-milhomens Calêndula1 Camomila1 Capim Cidreira Carqueja Cavalinha Chapéu de Couro Confrei1 Cordão de Frade Erva de Bicho Erva Cidreira1 Nome oficial segundo Nome oficial ANVISA segundo Rosmarinus officinalis L. ANVISA Lamiaceae Arnica montana L. Asteraceae Aloe vera (L.) Burm Liliaceae Feira de Produtos Orgânicos; Feira do Centro de VV/ Itapuã; Feira do Centro de VV/ Itapuã Feira da Glória Aristolochia esperanzae Feira do Centro de VV/ Aristolochiacea Kuntze Itapuã e Calendula sp. Asteraceae Feira de Produtos Orgânicos Pela ANVISA como Calendula officinalis L. Matricaria chamomilla L. Asteraceae Feira da Glória Pela ANVISA como Matricaria recutita L. Feira de Produtos Poaceae Orgânicos; Cymbopogon citratus Feira do Centro de VV/ (DC.) Stapf Itapuã; Feira da Glória Asteraceae Baccharis sp. Feira de Produtos Orgânicos Equisetum giganteum L. Equisetaceae Feira de Produtos Orgânicos Echinodorus floribundus Feira de Glória (Seub.) Seub. Alismataceae Symphytum officinale L. Boraginaceae Feira da Glória Leonotis nepetifolia (L.) R. Br. Labiatae Feira do Centro de VV/ Itapuã Polygonum sp. Polygonaceae Feira da Glória Feira de Produtos Orgânicos; Feira do Centro de VV/ Itapuã; Feira da Glória Feira de Produtos Orgânicos; Feira do Centro de VV/ Itapuã; Feira da Glória Labiatae Melissa officinalis L. Pimpinella anisum L. Erva Doce1 Asteraceae Feira Apiaceae II SIMPÓSIO SOBRE A BIODIVERSIDADE DA MATA ATLÂNTICA. 2013 Erva de Passarinho Erva de Santa Maria Struthanthus sp. Loranthaceae Feira da Glória Chenopodium sp. Amaranthaceae Feira da Glória Caesalpiniacea e Fabaceae Myrtaceae Feira do Centro de VV/ Itapuã; Feira da Glória Feira do Centro de VV/ Itapuã Escada de Macaco2 Eucalipto1 Eucalyptus globulus Labill. Funcho de Erva Doce Foeniculum vulgare Mill. Guaco Apiaceae Mikania sp. Asteraceae Mentha sp.1 Lamiaceae 1 Hortelã2 (Obs.Folhas maiores) HortelãMenta2 (Obs.Folhas menores) Jatobá2 Mentha sp.2 Lamiaceae Leonurus sp. Fabaceae Lamiaceae Macaé Macela Medicinal Malva Cheirosa2 Panacéia ou Braço de Mó Quebra Pedra2 Saião2 Samambaia ou Abre Caminho2 Sete Sangrias2 Transsagem 2 1 119 Achyrocline sp. Asteraceae Malvaceae Solanum sp. Solanaceae Euphorbiaceae Crassulaceae Lygodium volubile SW. Lygodiaceae Lythraceae Feira de Produtos Orgânicos Feira de Produtos Orgânicos; Feira do Centro VV/ Itapuã Feira de Produtos Orgânicos; Feira do Centro VV/ Itapuã Feira de Produtos Orgânicos; Feira do Centro VV/ Itapuã Feira do Centro VV/ Itapuã Feira de Produtos Orgânicos; Feira do Centro VV/ Itapuã Feira do Centro VV/ Itapuã Feira da Glória Feira do Centro VV/ Itapuã Feira da Glória Feira da Glória Feira do Centro VV/ Itapuã Feira da Glória Feira da Glória Material presente na lista de medicamentos fitoterápicos de registro simplificado da ANVISA, Instrução Normativa no 5/08. 2Material com informações insuficientes para uma classificação segura.