79 RUA DOS PRETOS: TERRITORIALIZAÇÃO, IDENTIDADE MARANHENSES NO BAIRRO DO GUAMÁ, BELEM/PA EM MIGRANTES Profa. Dra. Ivone Maria Xavier de Amorim Almeida – Universidade da Amazônia / PPGCLC José Miguel Nunes Alves Universidade da Amazônia / Mestrando -PPGCLC RESUMO : Este artigo é resultado da pesquisa de campo, ainda em execução sobre migração em Belém do Pará e objetiva refletir sobre o processo de migração de maranhenses para a cidade de Belém, bairro do Guamá, mas especificamente para a Passagem Bom Jesus 1, conhecida no entorno como Rua dos Pretos. A análise preliminar sobre migração é impulsionada pelas discussões de redes sociais, amparada nas categorias territorialização, desterritorialização e reterritorialização. Ainda objetiva discutir acerca do processo de construção e (re)significação das identidades culturais dos sujeitos sociais envolvidos na pesquisa de campo. PALAVRAS-CHAVE: Migração. Territorialização. Identidades Culturais Considerações iniciais Este artigo é resultante da pesquisa, ainda em execução, cujo tema é a existência de migrantes maranhenses na cidade de Belém, mais particularmente no bairro do Guamá 1. Tal pesquisa se constitui em exigência acadêmica para elaboração de dissertação no programa de mestrado em Comunicação, Linguagens e Cultura da Universidade da Amazônia – Unama e está inserida na linha de pesquisa Comunicação, Linguagem e Arte no contexto social da Amazônia cuja temática é Cultura, Identidade e Imaginário. Neste sentido, as análises reflexivas contidas no corpo textual deste artigo partem do cotejo dos dados empíricos preliminares coletados nas primeiras incursões a campo, com teóricos que estudam migração, redes sociais, territorialização e identidade social. Os dados empíricos aqui apresentados foram coletados na visita exploratória realizada no dia 08 de maio de 2012. Nesta visita, foi mantido contato com quatro moradores, sendo dois homens e duas mulheres. Desses sujeitos contactados, três são migrantes maranhenses residentes na Rua Bom Jesus 1, a Rua dos Pretos) e uma é migrante de São Caetano de Odivelas e moradora no final da Rua dos Mundurucus, local de acesso à Rua dos Pretos. O estudo sobre migração vem ganhando destaque nos meios acadêmicos, devido ao crescente deslocamento de pessoas pelo planeta, resultando em crises econômicas, problemas de ordem religiosa e políticos, que, por sua vez geram conflitos, preconceitos, perseguições e guerras. Na mesma proporção, estudos sobre identidades culturais também se constitui um movimento crescente nos meios acadêmicos, sobretudo nas sociedades modernas, pautadas pela mudança constante, rápida e permanente, cujas práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz das informações recebidas sobre aquelas próprias práticas, alterando assim, constitutivamente, seu caráter. De acordo com Giddens (1990), os modos de vida colocados em ação pela modernidade nos livraram, de forma bastante inédita, de todos os tipos tradicionais de ordem social. Tanto em extensão, quanto em intensidade, as transformações envolvidas na modernidade são mais profundas do que a maioria das mudanças características dos períodos anteriores. Ainda para este autor, no plano da extensão, elas serviram para estabelecer formas de interconexão social que cobrem o globo; em termos de intensidade, elas alteraram algumas das características mais íntimas e pessoais de nossa existência cotidiana. No plano da extensão, a migração pode ser pensada, dentre outras coisas, como um fenômeno impulsionado por redes sociais, redes de solidariedade entre indivíduos da mesma família e comunidade. O bairro do Guamá, localizado na periferia da cidade de Belém, capital do estado do Pará, é um dos mais populosos. Segundo o Anuário Estatístico do Município de Belém (2011), possui uma população de 94.610 mil habitantes, tendo sua origem relacionada ao processo migratório. 1 Revista Movendo Ideias ISSN: 1517-199x Vol. 17, Nº 2 – julho a dezembro de 2012 80 No plano da intensidade, é possível compreender como, através dessas interconexões, as identidades culturais desses migrantes são mantidas, ressignificadas e reconstruídas. A estrutura organizacional deste artigo compreende, além das considerações iniciais e considerações finais, três partes distintas. Na primeira parte intitulada As teorias sobre o processo migratório, são apresentadas as principais teorias contemporâneas mais comumente utilizadas nos estudos sobre migração. A segunda parte Os migrantes maranhenses em Belém e seus territórios híbridos, estabelece breves reflexões históricas acerca do fenômeno de migração dos negros para as Américas, como subsídio investigativo para compreender a migração de maranhenses para o bairro do Guamá, localizado na cidade de Belém do Pará. Na sequência, a terceira parte A Rua dos Pretos e o jogo de identidades, pretende compreender como são elaboradas as identidades culturais dos maranhenses no locus desta pesquisa, a Rua Bom Jesus 1, mais conhecida como Rua dos Pretos. 1. As Teorias sobre o processo migratório No debate sobre o fenômeno da migração se constitui em destaque as análises de Lee(1980) e Singer (1980) que procuram explicar os fatores determinantes para o fenômeno dos movimentos migratórios. Para o primeiro, os deslocamentos populacionais estão relacionados diretamente às transformações econômicas, onde os indivíduos, de maneira racional, após analisar os custos e benefícios, optam se devem migrar, sendo uma decisão de caráter pessoal. Já Singer (1980) defende que o fenômeno da migração é complexo, não podendo apontar apenas uma motivação para sua realização, assim, defende que ela ocorre como resultado de transformações na sociedade, na economia, na política, no social e no contexto global. Segundo Oliveira (2011) para entender o fenômeno migratório, Lee utiliza um esquema analítico baseado no que ele denominou de fatores do ato migratório, nos quais encontram-se fatores ligados aos locais de origem e destino, os obstáculos e as motivações pessoais. Por sua vez, Singer (1980) destaca que as motivações para o ato de migrar relacionam-se aos fatores de expulsão e atração, em que o problema central reside nas modificações oriundas do próprio capitalismo, que ao gerar desigualdades entre as regiões, estimularia o processo migratório, pois as pessoas buscariam melhores condições de vida em áreas mais prósperas economicamente. Ao buscar compreender o fenômeno da migração a partir de estudos recentes, Oliveira (2011) destaca autores que se ocupam dessa temática e que apontam caminhos para se conhecer melhor os fatores que envolvem os atores no ato de migrar. Para Gorgeau (1990) : i)a primeira trata a migração sob a ótica descritiva, semelhante aos registros censitários, derivando estimativas de taxas de migração; ii) a segunda trata de investigar como a migração pode modificar o comportamento fruto dos indivíduos. Aqui a migração é vista como variável independente, como as demográficas, sociais e econômicas; iii) a terceira considera a migração como uma variável dependente dos fatores que levam o indivíduo a migrar. Há o reconhecimento de que não se pode tratar a migração apenas como se fosse um modelo matemático, com variáveis independentes e/ou dependentes, mas sim como um processo que envolve outras dimensões da vida do ser humano. (GORGEAU (1990) In: OLIVEIRA, 2011, p.13) Neste sentido, é importante utilizar uma abordagem teórica que entenda o fenômeno da migração não apenas como ato isolado, como uma decisão pessoal, mas que envolva um contexto maior, como a sociedade. Assim como, atentar para as limitações de teorias que buscam entender o processo migratório, pois suas reflexões se referem a contextos particulares e a situações conceituais, não sendo possível abarcar a complexidade do fenômeno global da migração, suas diferentes motivações e a possibilidade de enriquecer seu estudo lançando mão das análises de diferentes áreas do conhecimento. Desse modo, é possível perceber que existe uma crise teórica sobre o fenômeno das migrações, pois muitas reflexões foram influenciadas pela industrialização e pelo desenvolvimento econômico, estabelecendo padrões de análises baseados nos deslocamentos populacionais, como urbanização e as migrações internacionais (OLIVEIRA, 2011). Revista Movendo Ideias ISSN: 1517-199x Vol. 17, Nº 2 – julho a dezembro de 2012 81 Com as transformações econômicas contemporâneas, percebe-se que os referenciais anteriores não dão conta dessa nova realidade em que os deslocamentos dão-se a partir de redes amplas construídas, relações interpessoais e diferentes motivações. Neste sentido, analisar os deslocamentos populacionais atuais utilizando-se de abordagens teóricas constituídas em outras realidades econômicas, não permite compreender a complexidade de processos migratórios, pois vivemos outras realidades no movimento de transformação do capitalismo, o que influencia nas decisões do ato de migrar. Para Oliveira: [...] pensar que o espectro dos movimentos populacionais já esteja estabelecido num sistema determinado pela economia mundial deixa escapar uma gama importante dos deslocamentos de população, sobretudo, as movimentações internas verificadas nos países em desenvolvimento, em especial aquelas dos grandes centros urbanos para as médias e pequenas cidades. (OLIVEIRA, 2011, p. 14) Nesta nova realidade da economia mundial, podem-se encontrar motivações novas e antigas para desencadear a migração, percebendo-se assim novas formas do fenômeno, e o uso de ferramentas teóricas atuais para se analisar processos antigos não está descartado, haja vista que estudiosos da área encontram dificuldade em estabelecer um modelo único para se entender tal processo. Neste sentido, a dificuldade de se compreender a complexidade do fenômeno migratório possibilita a pluralidade nas abordagens teóricas, pois as migrações são resultado das transformações da sociedade e suas consequências. Dessa forma, não é possível ter uma única teoria que dê conta de explicar a diversidade dos deslocamentos populacionais. A principal questão a ser levantada é: o que motiva as pessoas a migrarem? Existem diferentes explicações. Por exemplo, os neoclássicos sustentam a tese de que a motivação está relacionada com a busca de melhor condição de vida, sendo uma decisão individual, após uma análise racional dos pós e dos contras (salário, emprego). Na Nova Economia da Migração, a decisão de migrar parte de uma decisão familiar, sendo uma saída para a renda. Outras teorias, como as de mercado dual e sistemas mundiais defendem a ideia de que a migração é uma consequência da globalização (OLIVEIRA 2011). Existe a constatação de que, devido à complexidade do fenômeno migratório e à incapacidade de se formular um modelo explicativo para o fenômeno, muitos estudiosos estão caminhando de modo a romper as fronteiras que separam as teorias, no sentido de inserir elementos que podem dar conta do processo migratório. Assim, as teorias estariam avançando nos sentido de incorporar uma dimensão maior do ato de migrar, destacando o papel da família, da comunidade e da situação econômica. É possível, então, o diálogo entre, por exemplo, a Teoria Neoclássica e a Nova Economia da Migração, pois não se pode negar o peso dos fatores estruturais no ato de migrar e, assim como não se pode negar a importância do indivíduo nesse processo, pois, segundo Oliveira (2010.p17), há um esforço para unir aportes que tratem os deslocamentos não apenas como sendo problemas de desorganização social, mas também como estratégias para aumentar a renda do domicílio ou da comunidade. Nesta lógica, a decisão de migrar não seria um ato isolado, mas que envolveria a família, a comunidade e as redes sociais em que o migrante estaria inserido, pois ele procura construir formas de fazer do deslocamento algo positivo e, para isso, deve estabelecer relações que lhe permitam facilidade de inserção no mercado de trabalho e na sociedade de destino. Buscando compreender o fenômeno da migração, muitos estudiosos, como Haesbaert (1998) e Santos (2006), afirmam que a mobilidade espacial estaria relacionada diretamente com a interação em rede, interligando migrantes e não-migrantes, envolvendo interesses culturais, econômicos e políticos. O ato de migrar, então, seria motivado por uma variedade de condicionantes e, apenas pela análise das redes que compõem o processo migratório, pode-se entender a complexidade do processo. Os migrantes maranhenses em Belém e seus territórios híbridos A cidade de Belém, com seus milhões de habitantes, exprime na sua textura a complexidade existente nas grandes metrópoles. O espaço urbano é o cenário principal dos eventos da contemporaneidade, pois desde o surgimento dos primeiros conglomerados urbanos percebe-se a confluência de pessoas, ideias, Revista Movendo Ideias ISSN: 1517-199x Vol. 17, Nº 2 – julho a dezembro de 2012 82 objetos, conflitos, continuidades, descontinuidades, memórias, expectativas, produções culturais e construção de identidades. Ítalo Calvino, em sua obra “Cidades Invisíveis” (1999), destaca que o espaço nada significa numa mera exterioridade, ele só existe em relação aos sujeitos que o significam. Assim, a cidade é aquilo que se consegue entender, ver, sentir. Na visão de Carmem Rodrigues (2008), a cidade é uma percepção parcial e fragmentária. Local da multidão e da invisibilidade, mas espaço privilegiado de produção de identidades e um dos alvos dos Estudos Culturais. Para Santos ( 2006, p. 222) : Vir para a cidade grande é, certamente, deixar atrás uma cultura herdada para se encontrar uma outra. Quando o homem se defronta com um espaço que não ajudou a construir, cuja história desconhece, cuja memória lhe é estranha, esse lugar é sede de uma vigorosa alienação. Já Haesbaert (2011) diz que há sempre território, sobretudo aquele de origem que carrega o simbolismo do território deixado que constitui um forte cimento comunitário, sem o qual a rede não pode existir e transportar a sua memória, sem vínculos e contatos. Ainda para este autor, território e territorialidade se constituem e se constroem através da espacialidade humana. Para ele o território é um ato, uma relação, um ritmo, um movimento que se repete e sobre o qual se exerce um controle. O movimento migratório em terras brasileiras quer seja dos próprios nativos, quer seja de estrangeiros deve ser lido e interpretado como processos de deslocamentos de espacialidades humanas, sobretudo porque os migrantes, ao se deslocarem para outros territórios, carregam em suas bagagens, saberes, fazeres, memórias afetivas e subjetividades que passam a interferir na paisagem geográfica do lugar onde se fixam. Tal fenômeno pode ser exemplificado com a chegada de escravos africanos, oriundos de diferentes grupos étnicos, em terras do Novo Mundo e particularmente no Brasil. Sobre isso, Mello e Souza (2002) afirma que a integração ao Novo Mundo exigia o desenvolvimento de relações com os companheiros na mesma condição, africanos ou crioulos, e com os senhores que exploravam seu trabalho e aos quais deviam submissão. Dessa forma, na América colonial, pessoas submetidas a um mesmo sistema de dominação tiveram que lidar com as tensões inerentes às diferenças entre as várias etnias, e com aquelas advindas do sistema escravista. Assim, imersas em múltiplos conflitos, elaboraram formas de organização social que incorporaram contribuições africanas e influências dos senhores de origem europeia. Ao lado da diversidade dessas contribuições, as determinações do sistema escravista foram fundamentais na elaboração das novas formações sociais. Ainda de acordo com Mello e Silva (2002) os africanos, etnicamente heterogêneos e com suas estruturas sociais estraçalhadas pelo tráfico, só se tornaram uma comunidade e começaram a partilhar uma cultura no Novo Mundo quando eles próprios a criaram, a partir das novas condições de vida. Eles trouxeram consigo informações, conhecimentos e crenças, mas não havia condições materiais e humanas para que reconstituíssem as suas sociedades nas Américas. Assim, tiveram que se reorganizar e criar as instituições que respondessem às necessidades da vida cotidiana, sob as limitadas condições impostas pela escravidão. Todavia tais questões não serão consideradas relevantes nos primeiros estudos sobre o papel dos negros na história da sociedade brasileira. O médico, jurista e etnólogo brasileiro Nina Rodrigues, imbuído da certeza científica da inferioridade biológica da raça negra, perguntava-se se a inferioridade do negro comprometeria a capacidade de civilização do mestiço. Na mesma proporção, Arthur Ramos, discípulo de Nina Rodrigues, apontou uma variedade de nuances nos processos aculturativos, como aceitação – quando o processo de aculturação resulta na apropriação da maior porção de outra cultura, e perda da maior parte da herança cultural mais velha; adaptação- quando os traços de duas culturas se combinam produzindo um todo novo e harmonioso; reação- que produz movimentos de reação à opressão. Para esse autor, o sincretismo faria parte da adaptação, ocorrendo quando os traços culturais originais e estrangeiros se combinavam tão intimamente que o resultado era um todo cultural novo, produto de uma relação harmônica entre as partes. Todavia, uma das críticas mais recorrentes de sincretismo é justamente a de não levar em conta a relação de dominação presente no contato entre as diferentes culturas. Revista Movendo Ideias ISSN: 1517-199x Vol. 17, Nº 2 – julho a dezembro de 2012 83 Neste sentido, as formações sociais e culturais, criadas nas Américas e particularmente no Brasil, frutos de um sistema de dominação escravista e do contato com culturas europeias, tiveram que lidar não apenas com a diversidade interna aos grupos africanos, mas, sobretudo, com a diversidade radical das culturas europeias dos colonizadores. Desses encontros surgiram as formações sociais e culturais afroamericanas e afro-brasileiras, aglutinando contribuições diversas a partir de processos historicamente definidos. Mesmo após a abolição do sistema escravista no Brasil, o processo de territorialização do negro e mestiço ocorre em áreas periféricas. A respeito da presença de negros em cidades brasileiras, Rolnik (1989, p. 2)afirma que : [...] é comum nas referências que são feitas às posições de pretos e pardos nas cidades, a menção à inexistência de guetos-bairros onde são firmadas certas minorias por imposições econômicas e/ou raciais como sinal de ausência de qualquer tipo de segregação racial. O gueto norte-americano sintetiza a imagem de discriminação racial aberta e a dominação branca. No polo oposto estaria o Brasil, onde pretos e brancos pobres compartilham vilas e favelas, numa espécie de promiscuidade racial sustentada pelo laço comum da miséria e da opressão econômica. Percebe-se que em todas as grandes cidades a presença de migrantes é uma realidade, pois o centro urbano representa realização de projetos, de uma vida melhor, melhor futuro. Os maranhenses que vivem no Pará, segundo número do Censo – IBGE (2009), representam 4,53% da população do estado, formando o principal grupo de migrantes do Pará. O estado do Pará, desde o final do século XIX foi um dos destinos encontrados por muitos brasileiros que originalmente habitavam o vizinho estado do Maranhão. Hoje, são quase quinhentos mil maranhenses espalhados por todo território do Pará, muitos deles vivendo na Região Metropolitana de Belém. A presença da população maranhense no Pará é explicada a partir de dois momentos históricos. O primeiro, relaciona-se ao “boom” da exploração gomífera, na Amazônia no final do século XIX, quando milhares de nordestinos foram atraídos para o trabalho dos seringais; e, num segundo momento, na década de setenta do século XX, quando a política desenvolvimentista dos governos militares para a Amazônia – construção da Transamazônica e projetos de expansão agrícola – que incentivou uma grande onda migratória para o sul e sudeste do Pará. Já a migração de maranhenses para Belém, segundo Santiago (2005), deu-se como resultado das tensões no campo, que forçou o êxodo de milhares de camponeses em busca de uma vida melhor, em um processo de perdas e ganhos e de hibridações em suas identidades culturais. Na região metropolitana de Belém, eles estão no comércio formal e informal, nas casas de família, nos escritórios, escolas, hospitais, na construção civil, portarias de prédios, nas universidades, nas lojas e ajudam a movimentar, transformar a cidade e a vida de Belém. Na periferia de Belém, é comum a utilização do termo “maranhense” para se identificar algum morador. Não é comum ouvir pessoas utilizarem termos designativos de origem, como: “fulano é marajoara”, “marabaense”, “amapaense”, “vigiense”, são-caetanense”. Mas o termo “maranhense” faz parte da linguagem cotidiana de muitos moradores. Neste caso, o uso da expressão “maranhense” agrega a cor da pele. Tal fato é evidenciado nos dados do IBGE(2009) sobre a presença de maranhenses no estado do Pará. Do universo de 4,53% de migrantes maranhenses, 92% se identificam como negros ou mestiços. Os primeiros dados da pesquisa apontam o bairro do Guamá como de maior concentração de migrantes maranhenses negros. Neste bairro existem ruas, vilas e passagens com grande densidade populacional de indivíduos oriundos deste estado. Nesses espaços é possível observar o que Haesbaert (1998) e Santos (2006) afirmam acerca da relação entre mobilidade espacial e interação em rede, interligando migrantes e não migrantes, como revela a fala de José Ribamar Reis, conhecido como Seu Fumaça: [...] eu vim pra Belém ainda moleque. Aqui era só mato e igapó. Logo depois veio meus outros irmãos. Eu quando ia pro Maranhão ficava falando para eles que era melhor eles irem pra Belém. Antes deles chegarem, vez ou outra chegava em casa, algum parente. Ficava Revista Movendo Ideias ISSN: 1517-199x Vol. 17, Nº 2 – julho a dezembro de 2012 84 um tempo morando com a gente até poder construir seu barraco. Meus irmãos quando chegaram foram fazendo suas casas tudo perto uma da outra (José Ribamar Reis. Entrevista concedida em 08 de maio de2012) A narrativa de José Ribamar revela que o ato de migrar, pelo menos para ele e seus familiares é motivado, dentre outros fatores, por subjetividades e memórias afetivas. Tais aspectos permitem o movimento contínuo da desterritorialização e, ao mesmo tempo, da reterritorialização, posto que ocorre a retomada de territórios, como a casa, enquanto abrigo dessas memórias afetivas e identidades sociais. Para Botton (2007), a casa proporciona não apenas um refúgio físico, mas também psicológico. É uma guardiã de identidades. No processo de reterritorialização, a rua se constitui o espaço contínuo que liga a casa à cidade. Mas toda cidade se caracteriza pela sobreposição de melodias e harmonias, ruídos e sons, regras e improvisações cuja soma total, simultânea ou fragmentária, comunica o sentido da obra. “Compreender uma cidade significa colher fragmentos. E lançar entre eles estranhas pontes, por intermédio das quais seja possível, encontrar pluralidade de significados”. (CANEVACCI, 1993, p.34) Neste sentido, o próprio processo de construção da cidade de Belém é fruto de improvisações, dentre as quais pode se destacar a ocupação de espacialidades por migrantes maranhenses, marcada pela improvisação – desde a construção das casas até a pavimentação de vilas, vielas, passagens e ruas. Tais espaços podem ser considerados como territórios híbridos, uma vez que os migrantes maranhenses, ao se apropriarem de determinados espaços, acabam por ressignificá-los mesclando elementos de sua cultura de origem com a cultura local. Este fato se revela no cotidiano e, sobretudo, nas manifestações culturais de caráter sagrado e profano vivenciadas por estes migrantes em seus espaços/territórios. A Rua dos Pretos e o jogo de identidades “Rua dos Pretos” é como se designa a Passagem Bom Jesus 1. Esta passagem está localizada no bairro do Guamá, um dos bairros mais populosos da cidade de Belém. A palavra Guamá advém do vocabulário indígena que significa rio que chove. Este bairro é marcado pela pobreza e pela violência sem controle. Sobre a origem do bairro do Guamá, onde se localiza a passagem Bom Jesus 1, Dias Jr. (2009, p. 38) afirma que, [...] alguns indícios apontam o processo de ocupação do bairro como um dos fatores responsáveis pela formação das afinidades sociais de identificação dos moradores com o espaço. A gênese do bairro se deu a partir de duas direções: uma primeira ocupação desencadeada no início do século XX, a partir do bairro de São Braz, e outra intensificada na década de 1950, proveniente do Rio do Guamá. A ocupação das primeiras áreas do Guamá se deu como extensão do bairro de São Braz, onde se encontravam principalmente migrantes nordestinos que chegavam à Belém atraídos pela economia da borracha. A facilidade de ficar em terrenos próximos ao bairro de São Braz, ponto de entrada e saída da cidade, possibilitou a ocupação do espaço por grande número de migrantes, que se embrenhavam nas matas próximas, formando caminhos e passagens por onde foram se fixando as famílias. Já o surgimento da Passagem Bom Jesus 1, relaciona-se a um conhecido problema social das grandes cidades brasileiras, a falta de uma política habitacional que atenda aos setores populacionais. Assim, em 1980, um grupo de pessoas resolveu ocupar uma área de várzea localizada próxima ao canal da Rua Mundurucus, a maior parte desses moradores era originária do vizinho estado do Maranhão, apontando para o entendimento que o processo social da migração passa como sendo organizado por meio de redes e que ela pode formar verdadeiros guetos. Segundo um dos moradores pioneiros da passagem, o informante José Ribamar Reis, as palafitas foram construídas com muito esforço e com ajuda dos conterrâneos. Percebe-se aqui o sentido de rede, como afirma Rasffetin (1995). Relata que o aterramento da área iniciou-se com os entulhos de lixo vindos do forno crematório (hoje desativado) e que, na época, as moscas e insetos proliferavam, inclusive, dificultando as refeições. Revista Movendo Ideias ISSN: 1517-199x Vol. 17, Nº 2 – julho a dezembro de 2012 85 Como a maioria dos moradores da passagem é natural do Maranhão, e muitos são negros, os vizinhos passaram a designá-la de “Rua dos Pretos”. Aí que reside o problema, pois segundo o relato de José Ribamar Reis, o termo é preconceituoso, como ele argumentou em uma de nossas conversas: “todos nós somos iguais, não entendo por que eles falam da nossa cor” 2. O fato do nome da rua estar relacionada com a cor da pele de seus moradores suscita duas reflexões, surgidas a partir das primeiras incursões a campo. A primeira diz respeito à tentativa de ordenação do espaço social e sua paisagem geográfica, já que as ruas e vielas fronteiriças à rua dos pretos possui maior percentual de brancos e pardos, como revela a fala de D. Antônia, moradora antiga do final da Rua dos Mundurucus: [...] eu cresci aqui. Minha família toda veio de São Caetano de Odivelas. Quando chegamos, aqui era só mato, igapó. Muito feio. Meu pai e meu tio foram aterrando tudo isso aqui. Por aqui tem gente de toda parte, de muitos municípios [...] a rua dos pretos fica aqui no final da Mundurucus. O pessoal começou a chamar assim porque é muito maranhense que mora lá. A maioria é parente. Eu acho que só duas casas dessa rua que não tem maranhense. O resto tudo é maranhense. E como são pretos, todos eles, o pessoal começou a chamar de rua dos pretos. Fica mais fácil de localizar. Quando alguém pede informação sobre uma passagem, a São João, é só dizer que fica depois da rua dos pretos. (D. Antônia do Espírito Santo. Moradora da Rua dos Mundurucus, em conversa informal no dia 08 de maio de 2012) Já a segunda, diz respeito ao processo de construção de identidades sociais e de como elas se estabelecem e se ressignificam no movimento de definição e manutenção de territórios. No tempo presente, a Rua dos Pretos compreende uma extensão geográfica de aproximadamente 200 metros. Possui asfaltamento e casas em ambos os lados. Essas casas variam de tamanho e tipo de construção. A maioria é de alvenaria, com dois e três andares. Em algumas, na parte de baixo, funcionam bares e pequenos comércios. Os primeiros dados empíricos coletados pressionam à reflexão de que tais casas comportam mais de uma família nuclear, sinalizando para a preocupação dos migrantes maranhenses em manterem vínculos afetivos, como demonstra o depoimento de D. Elinalda: [...] eu vim pra cá mocinha. Fui a primeira da minha família a vir pra Belém. Vim pra trabalhar em casa de família. Morei vários anos. Juntei um dinheirinho e comprei esse terreno. Era só mato que alagava tudo quando chovia. Primeiro montei uma vendinha. Aí mandei buscar minha mãe e minhas irmãs. Elas me ajudaram no trabalho. Fui construindo a casa de alvenaria, aos poucos. Aí minha irmã casou e eles fizeram a parte de cima. Minhas filhas também foram casando e construindo as casas nos fundos. Minhas três filhas todas moram aqui, mas cada uma na sua parte. (D. Elinalda da Silva. Informação verbal coletada a partir da pesquisa de campo, realizada no dia 08 de maio de 2012) Na Rua dos Pretos todos se conhecem. Os mais antigos vão recebendo os mais novos ao mesmo tempo em que orientam acerca de trabalho. O cotidiano nesse espaço é marcado por uma movimentação constante. Crianças de diferentes idades correm, brincam ou simplesmente sentam às portas em grupinhos em animadas conversas. Nos finais de semana os adultos se dividem entre os três bares existentes no local: o Bar do Fumaça; o Bar do Dico e o Bar da Elinalda. Os bares do Fumaça e do Dico são referência para os migrantes maranhenses, tanto da Rua dos Pretos como de outros espaços, pelo tipo de música que tocam - o Reggae – considerada por muitos maranhenses como ritmo que se constitui na identidade musical do estado do Maranhão. A história do Bar do Fumaça, como espaço de reggae, confunde-se com o início do movimento dessa cultura na cidade, pois Ras Margalho 3 foi um dos precursores da música reggae em Belém do Pará, como 2 Informação verbal coletada a partir da pesquisa de campo, realizada no dia 08 de maio de 2012. 3 Ras Margalho é um dos pioneiros do reggae no Brasil. DJ e colecionador de reggae desde a década de 70. Margalho possui um vasto repertório de vinil que encanta os olhos de qualquer reggeiro. Atualmente apresenta o programa Raízes Revista Movendo Ideias ISSN: 1517-199x Vol. 17, Nº 2 – julho a dezembro de 2012 86 ressalta a internacionalmente conhecida banda maranhense Tribo de Jah, em sua composição denominada “Pioneiros do Reggae” (2003): Eu era apenas um forasteiro quando eu cheguei no Maranhão Nunca fui rastafári, mas eu era regueiro Amante do reggae de coração Foi quando soube que os pioneiros A história de sua abnegada paixão Os primeiros regueiros brasileiros Do Pará e do Maranhão Foram os precursores, mestres dinamitadores Que detonaram a pedreira fazendo rolar as pedras nas terras brasileiras Foram os primeiros a lançar a semente do som e do sonho regueiro no chão deste país continente Roots reggae men, reggae pioneiros, os primeiros regueiros de coração Roots reggae men, reggae pioneiros, os pioneiros do reggae da nação Rasta Alvin, mercador de canções Missionário visionário seguido de Ras Margalho, no coração de Belém do Pará Passando discos e fitas de suas coleções Rolando as primeiras pedras por lá [...]. José Ribamar Reis, dono do Bar do Fumaça, é conhecido no local e fora dele, pelo envolvimento com movimentos culturais, sobretudo com o reggae e hip hop. Neste bar funciona uma espécie de escola informal onde são realizadas oficinas sobre cultura afro. Este espaço e a rua que o abriga, no dia 25 de fevereiro de 2012 foi cenário do 2º Mutirão de Cultura Hip Hop, como demonstra informação postada por “Preto Michel” no blog “DaBaixada”, aqui transcrita na íntegra: Figura 1 – Blog dabaixada Fonte: http://dabaixada2.blogspot.com.br/search?q=25+de+fevereiro+de+2012 DIA DE PRETO Que dia lindo foi esse 25 de fevereiro de 2012. Um sábado com várias nuvens nebulosas com chuvas fortes desde as 02 da madrugada. Eu me acordei às 07 horas e fiquei esperando ela passar, me arrumei e sai ao meu destino: RUA DOS PRETOS, bairro era o mais cabuloso da Radicais na Rádio FM Cabana de Belém do Pará, transmitida diretamente pela Rádio New Roots Extreme, aos sábados, das 10 às 14 h. (Fonte: http://www.radionewrootsextreme.com acessada em 15 de agosto de 2012) Revista Movendo Ideias ISSN: 1517-199x Vol. 17, Nº 2 – julho a dezembro de 2012 87 América Latina: GUMAÁ, ali ia acontecer o 2º Mutirão da Cultura Hip Hop organizado pelos coletivos: COSP TINTA, NRP, CASA PRETA, VEG CASA, TRAUMAS VÌDEOS e outros parceiros, entre eles: DUDU SKATE e CULTURA, ESCOLHINHA DO FUMAÇA e a comunidade em geral que abriu suas portas para a cultura hip hop neste dia. Rua dos Pretos, recanto de famílias oriundas da baixada maranhense em especial o município de CURURUPU, foi o local escolhido para realizarmos mais esse mutirão. Essa rua ganhou esse apelido por dois motivos: 1, por concentrar no seu total mais de 90% de seus moradores negros, e por causa do preconceito e discriminação de outros moradores do local que apelidaram a rua por causa desse grupo de pessoas que se concentraram ali, mas o nome da rua é Passagem Bom Jesus. E o principal objetivo do mutirão da cultura hip hop foi dar outra visibilidade para o local, visto que a mídia local (RBA, LIBERAL, RECORD e SBT) coloca sempre em seus programas sensacionalistas que o bairro e a rua dos Pretos é um local perigoso onde só moram marginais. Então, para dar um outra visibilidade para o local, levamos para lá produções de grafite, oficina de trança de cabelo, batalha free estile, exposições de zines e livretos de literatura marginal, apresentação de DJs tocando muita música negra: RAP, SOUL, FUNK, SAMBA, REGGAE ROOTS E ELETRÔNICO. Foi um dia lindo, todas as famílias interagiram com as produções de grafite liberando as fachadas de suas casas para os grafiteiros, as crianças participaram das produções e as mulheres presentes puderam dar um visual mais preto para os seus cabelos, participando da oficina de tranças afro, todos puderam ser presenteados com o zine: Lado Preto da poesia do escritor Preto Michel, seus contos periféricos: O Catador de Sucata e O Curupira e as ganguas do curió e puderam curtir lindas músicas com os DJs: Lamartine, Dom Perna, DJ KSM, Morcegão. E, por último o público da rua pôde participar julgando os melhores MCs na Batalha de FreeStyle, tendo como vencedor o MC Welliton. O dia terminou com um lido por do sol. Continuando com um lindo reggae na escolinha do Fumaça, berço das primeiras festas de reggae roots na cidade de Belém. (DABAIXADA, 2012, s.p.) “Preto Michel” neste informativo faz referência ao município de Cururupu, como local de origem de muitas famílias de migrantes maranhenses que residem na Rua dos Pretos. Todavia, as primeiras conversas com alguns moradores sinalizam que embora sejam oriundos de tal município, na maioria das vezes pertencem a comunidades diferentes. Seu Fumaça é oriundo da comunidade “Bacuri”, Seu Dico, do lugarejo conhecido como “Portinho” e D. Elinalda, é oriunda da comunidade “Cabanio”. Tais informações permitem refletir acerca do processo de construção de identidades e da noção de pertencimento de migrantes maranhenses da Rua dos Pretos. Observa-se que as identidades culturais desses sujeitos são construídas, a priori, a partir da noção de pertencimento. O lugar de origem condiciona traços linguísticos, religiosos, saberes e fazeres, permitindo distinções entre eles. Ao mesmo tempo, em virtude desses sujeitos se encontrarem na mesma situação de migrantes, suas identidades são deslocadas ou fragmentadas, posto que : [a] identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é preenchida a partir de nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros. (HALL, 2006, p.39) Assim, Seu Fumaça, Seu Dico e D. Elinalda, embora migrantes maranhenses possuem identidades culturais diferentes, forjadas em processos históricos e subjetivos particulares. No jogo de identidades se identificam como maranhenses em momentos distintos de tensão e saudosismo. No primeiro, quando precisam reafirmar-se em situações cotidianas de exclusão ou discriminação imputadas pelos moradores não maranhenses do entorno. Já o saudosismo aparece quando da necessidade de marcar distinções internas, o que significa dizer que, embora todos possuam a mesma naturalidade, são diferentes, por que são oriundos de lugares, comunidades com saberes e fazeres idiossincráticos particulares. Considerações finais Os dados preliminares da pesquisa em execução sobre o processo migratório de maranhenses para a cidade de Belém, particularmente para o bairro do Guamá apontam para a possibilidade de se estudar tal fenômeno através da concepção de rede, como apontam Haesbaert (1998) e Santos (2006), uma vez que estes Revista Movendo Ideias ISSN: 1517-199x Vol. 17, Nº 2 – julho a dezembro de 2012 88 autores afirmam que a mobilidade espacial pode estar relacionada diretamente a uma interação em rede que interligam migrantes e não migrantes, por envolver interesses econômicos, políticos, culturais e, sobretudo, afetivos. As informações coletadas com alguns informantes e que foram transcritas no corpo textual deste artigo, além das fontes que abordam o surgimento da Passagem Bom Jesus 1- Rua dos Pretos são reveladoras de tais questões, embora careçam de maiores aprofundamentos. No aprofundamento das reflexões sobre migração, é fundamental estabelecer um link desta categoria com outras como territorialização, desterritorialização e reterritorialização. A primeira, no sentido de (re)construir o percurso, caminhos, possibilidades e escolhas do espaço para onde se migra. A segunda irá permitir mergulhar nas subjetividades dos sujeitos migrantes, com o intuito de desnudar e/ou comprovar se, de fato, o deslocamento migratório para outros espaços urbanos, força esses sujeitos a deixar para trás uma cultura herdada para se encontrar com outra. De acordo com Santos (2006), quando o homem se defronta com um espaço que não ajudou a construir, cuja história desconhece, cuja memória lhe é estranha, esse lugar é sede de uma vigorosa alienação. Todavia os dados empíricos até aqui coletados, apontam para outra direção, uma vez que os migrantes maranhenses que se deslocaram para Belém, bairro do Guamá, constroem uma rua – a Bom Jesus 1/Rua dos Pretos- um espaço social capaz de agregar memórias e desencadear a noção de pertencimento ao lugar. Por sinal, serão as informações sobre memória, saberes e fazeres e a noção de pertencimento que possibilitarão compreender o processo de reterritorialização vivenciados pelos sujeitos migrantes maranhenses da Rua dos Pretos. Também os dados empíricos até aqui pesquisados, revelam aspectos acerca do processo de construção de identidades culturais. À primeira vista é possível considerar que essas identidades culturais são movediças e cambiantes, como assinala Hall (2006) ao afirmar que mudanças de ordem estrutural estão transformando as sociedades modernas, fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, forneciam sólidas localizações aos indivíduos sociais. Esta perda de um “sentido de si” estável é considerada por este autor como deslocamento ou descentração do sujeito. Neste sentido, o sujeito previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas. Neste sentido, pelo menos preliminarmente é possível afirmar que as identidades culturais dos migrantes maranhenses moradores da Rua dos Pretos são forjadas por múltiplos aspectos: são migrantes, negros, homens, mulheres, umbandistas, evangélicos, trabalhadores do mercado informal, assalariados, regueiros que gostam de hip hop e aparelhagem, que brincam o Boi Bumbá e louvam santos populares. Na continuidade desta pesquisa, torna-se imprescindível aprofundar as questões aqui apontadas. REFERÊNCIAS ANUÁRIO ESTATÍSTICO do Município de Belém, 2011. Disponível em: htpp://www.belem.pa.gov.br . Acesso em: 13 de maio de 2012 BOTTON, Alain de. A Arquitetura da felicidade. Tradução de Talita M. Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 2007. CALVINO, Ítalo. As Cidades Invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. CANEVACCI, Massimo. A Cidade polifônica: ensaio sobre a antropologia da comunicação urbana. São Paulo: Studio Nobel, 1993. COSTA, Gercilene Teixeira da. Na Rota do Camarão: um estudo antropológico sobre a pesca e comércio do camarão em zona costeira. 2000, 133 f. Dissertação(Mestrado em Antropologia), Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Pará, Belém. DABAIXADA2.Belém. Preto Michel. Disponível em: http://Dabaixada2blospot.com.br. Acesso em 28 de abril de 2012. DIAS JR. José do Espírito Santo. Cultura Popular no Guamá: um estudo sobre o boi meu bumbá e outras práticas culturais em um bairro da periferia de Belém. Dissertação de Mestrado. PPGHSA/IFCH/UFPA. Belém, 2009. GIDDENS, Anthony. Modernidade de Identidade. São Paulo: Zahar, 2011. Revista Movendo Ideias ISSN: 1517-199x Vol. 17, Nº 2 – julho a dezembro de 2012 89 HAESBAERT, Rogério. Migração e desterritorialização. In: NETO, Helion Póvoa e FERREIRA, Ademir Pacelli (orgs.) Cruzando fronteiras disciplinares: um panorama dos estudos migratórios. Rio de Janeiro: Revan, 2005. ___________________. A noção de rede regional: reflexões a partir da migração gaúcha no Brasil. Revista Território, ano III, nº 4, Jan/Jun. 1998,pp.55-71. HALL, Stuart. A Identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. LEE, E. S. Uma teoria sobre a migração. In: MOURA, H.A.de (org.) Migração interna: textos selecionados. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil, 1980. OLIVEIRA, Antonio Tadeu Ribeiro de. Algumas abordagens teóricas a respeito do fenômeno migratório. In: OLIVEIRA, Luis Antonio Pinho de (org.) Reflexões sobre deslocamento populacionais no Brasil. Rio de Janeiro:IBGE, 2011. SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo : Edusp, 2006. RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993. RODRIGUES, Carmem Izabel.Vem do bairro do Jurunas: Sociabilidade e construção de identidades no espaço urbano. Belém: NAEA, 2008. ROLNIK, Raquel. Territórios negros nas cidades (etnicidade em São Paulo e Rio de Janeiro). Revista de Estudo Afro-Asiáticos 17-CEAA – Universidade Cândido Mendes, 1989. SILVA, Idelma Santaigo da. Fronteiras culturais: alteridades de migrantes nordestinos e sulistas na região do Marabá. Espaço Plural. Marechal Cândido Rondon, nº 5, p.21-24, 2º Semestre de 2006. SINGER, P. Migrações internas: considerações teóricas sobre seu estudo. In: MOURA, H.A.de (coord.) Migração Interna: textos selecionados. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil – BNB, 1980. SOUZA, Marina de Mello e. Reis Negros no Brasil escravista. História da festa de coroação de Rei Congo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002. TRIBO DE JAH. Pioneiros do Reggae. (CD) Guerreiros da Tribo, 2003. Revista Movendo Ideias ISSN: 1517-199x Vol. 17, Nº 2 – julho a dezembro de 2012