ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA
Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo– Julho/2012
DANÇA DO CAOS : PESQUISA EM HIP HOP E DESFIGURAÇÃO EM ARTE
Elisa Schmidt (UDESC)
Elisa Schmidt, aluna do Mestrado em Teatro - PPGT - da UDESC.
Resumo
Este ensaio desenvolve algumasreflexões acerca da performance « Dansa do caos »,
apresentada no festival « Rencontres Improbables 6 », no Conservatório Maurice Ravel
de Bayonne, em França, trabalho no qual pude acompanhar o processo e
apresentação. « Dansa do caos » foi resultado da colaboração entre Ghel Nikaido,
bailarino brasileiro, e Olivier De Sagazan, artista plástico francês, que desenvolveram
juntos a pesquisa em Hip-Hop - pooping, looking, breaking e house dance - e
desfiguração em arte. Problematiza-se as interfaces entre desfiguração do rosto e a
dança como possibilidade de desenvolvimento de um « anticorpo » aos dispositivos de
biopoder.
Palavras-chave: Interfaces, Dança, Anticorpo, Desfiguração.
DANCE OF CHAOS: RESEARCH ON HIP HOP AND ART DISFIGUREMENT
Abstract
This essay develops some reflections on the performance "Dance of chaos”, presented
at the festival" Rencontres Improbables, Maurice Ravel, conservatory in Bayonne,
France, work on which could follow the process and presentation. "Dance of chaos" was
the result of collaboration between Ghel Nikaido, a Brazilian dancer, and Olivier De
Sagazan, a French artist, who jointly developed the research on Hip-Hop -pooping,
looking, housebreaking and dance-and disfigurement in art. It problematizes the
interfaces between facial disfigurement and dance as the possibility of developing an"
antibody" to devices of the bio-power.
Keywords: Interfaces, Dance, Antibody, Disfigurement.
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Introdução
A pesquisa teorico-prática para a composição da performance « Dança do
caos », apelidada de PDHH, propõe interfaces entre a desfiguração e dança (hip-hop 1).
Embora a pesquisa aindaencontre-se em um estado embrionário, neste ensaio
pretende-se apontar algumas possiblidades de reflexão que surgiram durante o
processo de montagem de « Dança do caos »e sua estréia no festival « Rencontres
Improbables 6 » em novembro de 2011, no Conservatório Maurice Ravel de Bayonne,
em França. Os criadores, Ghel Nikaido - bailarino brasileiro - e Olivier De Sagazan artista plástico francês - experimentaram a utilização da argila como ferramenta
desfigurativa do sujeito.Em 13 breves minutos de performance, observa-se que existia
uma pesquisa de interfaces entre dança - loocking 2, pooping 3, breaking 4, house
dance 5, com o diferencial do estiloparticular do bailarino- e desfiguração em artes
plásticas - ferramenta expressiva de deformação da figura.
A apresentação da performance « Dansa do caos » inicia com o bailarino já em
cena, deitado no chão, coberto com argila sobre o rosto. Os espectadores de diferentes
idades entram na sala do Conservatório e sentam-se em cadeiras com seu formato
tradicional de igreja. Ao começar a música, o bailarino inicia movimentos de contração
acelerados, trazendo a tona o contorno esfumaçado da poeira do chão. A composição
coreográfica da performance segue, alternando tempos, níveis e fragmentações de
articulações, misturando leveza-lentidão com velocidade-fragmentação. Passados
cinco minutos, inicia-se o som da voz gravada com um texto vigoroso sobre
desfiguração narrado por De Sagazan. O texto narra o esforço inconformista que De
Sagazan exerce para descrever a si, numa tentativa infindável de compreender-se. Nas
palavras de De Sagazan “Por que me obrigar a esta farsa? (...) Eu me faço Deus, eu
me faço sexy, eu me faço errado (...) eu me imagino todas estas máscaras e eu me
1
Estima-se que o movimento hip-hop tenha se desenvolvido a partir da década de 1970, nos subúrbios
negros de Nova York. A cultura hip-hop envolve diferentes expressões artísticas, tais como a dança, a
música, o grafite. A dança relacionada ao movimento cultural e música hip-hop possui vários estilos, com
desdobramentos relativos às adaptações de cada local e particularidades do executor. Em geral são
danças sociais improvisadas ou coreografadas. Informações disponíveis em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Hip_hop
2
O looking possui movimentos geralmente amplos e dinâmicos das pernas -mais relaxadas - e dos
braços. Ambos são alternados em intervalos de bloqueios.
3
O pooping possui como característica marcante o movimento de contração e relaxamento dos
músculos.
4
O breaking possui como diferencial os movimentos de força, agilidade e equilíbrio executados em nível
próximo ou rente no chão.
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House dance possui como característica o acento apontado para cima.
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farei de máscaras (...)” (DE SAGAZAN, 2011) 6. A tensão criada entre o movimento
dançado por Nikaido e a voz de De Sagazan culminam em um rock denso e acelerado:
Imagem de caos.
Os movimentos de Nikaido são resultado do processo de pesquisa de quatro
anos, desenvolvido com o desejo de ganhar identidade própria e autonomia frente a
experiência adquirida com a Companhia de Dança de Rua de Niterói. Está no contexto
de criação da Companhia GRN, a fonte de reconstrução de dança de rua (hip-hop)
adaptada para o palco com particularidades brasileiras inconfundíveis chamada
carinhosamente pelos bailarinos de características « GRNianas ». Esta identidade
vivida por Nikaido durante muitos anos toma outra dimensão na pesquisa em
desfiguração e hip-hop - PDHH. Trata-se de movimentos autênticos, com o rosto
coberto de argila, que emoldura os traços da face, comumente esquecida na dança.
A pesquisa - PDHH - mistura movimentos de diferentes estilos de hip-hop num
esforço minimalista de animar o corpo de uma maneira autêntica. A agitação dos
movimentos beiram a aparência de um descontrole do sistema nervoso central.
Paradoxalmente, os movimentos fragmentados exigem extremo controle articular. Jáa
pele de argila destaca a face de um rosto de uma cabeça que é prolongamento de um
corpo experienciado por um sujeito que observa seus movimentos concentrado na
execução tão contínua e sem vírgulas quanto a descrição desta frase.Pontua-se
algumas curiosidades : De que forma a argila reestabelece a percepção sobre o rosto
daquele que dança e daquele que observa a dança? Seria o tato da argila sobre a pele
o condutor sensível dodiálogo entre o bailarino e sua interioridade ? Qual a crítica que
a pele de argila poderia estabelecer, além da beleza estranha de uma face que escorre
e perde a si para o chão?
Em « Dança do caos » a argila desfigura a face e borra os traços marcados
como um molde viscoso. Não são criados novos rostos e seres tal como ocorre na
performance « Transfiguração » de Olivier De Sagazan. Mantem-se um sujeito fixo que
explora a biomecânica do corpo ao tentar articular expressões esculturais da
desfiguração de De Sagazan. Como relata Nikaido 7, as esculturas e imagens da
desfiguração de De Sagazan foram utilizadas como inspirações para os primeiros
6
Fala de Olivier De Sagazan em “Transfiguração”. Voz de arquivo gravado cedido por Ghel Nikaido.
Arquivo pessoal da autora. Tradução também da autora.
7
Relato ocorrido em conversa via Skype, em outubro de 2011.
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ensaios e aos poucos foram deixadas como pano de fundo dissolvido pelos
movimentos da pesquisa em dança. Entre os estímulos sugeridos pela experiência
desfigurativa de De Sagazan constata-se a utilização da imagem do anjo e do pássaro,
como um elemento harmônico que alicerça e contrasta com a agitação do movimento.
Trata-se de um anjo que olha-se no espelho e, inconformado com sua aparência,
começa a desfigurar-se.
As palavras da crítica francesa e o comentário do público sugeriram algumas
relações da performance com imagens de anjos. Descreve-se que « Dansa do Caos »
revela « uma dansa de anjo que tenta magnificamente transcender em movimentos o
universo escultural de De Sagazan. Uma pequena pérola suspensa neste local mítico
de Bayonne» (2011)8. Confabulando com as palavras da crítica, destaca-se que alguns
momentos da sonoplastia são apelidados como « momento do anjo » por Nikaido, entre
estes momentos está a movimentação alicerçada por um trecho da música « O
trenzinho caipira », de Villa Lobos.Além disso,os artistas estudaram durante a fase de
pesquisa o universo sombrio do bailarino, entendido coloquialmente como uma parte
da interioridade pouco visitada, mas que não se enquadra em nenhum atributo
psicologizado. Este universo sombrio foi visitado como uma potência negativa que
contrasta com a potência positiva harmoniosa do pássaro, ou anjo: Cria-se um anjo
desfigurado.
Contudo, diferente da crítica francesa, neste ensaio « Dansa do caos » ressoa
como imunoglobulina, gamoglobulina, anticorpo: contra ataque ao antígeno. A metáfora
da rede imunitária relacionada com a composição da performance « Danse du Chaos »
consiste na compreensão do sistema ou rede imunitária como agente protetor da
vitalidade do corpo, no intuito de permitir sua sobrevivência em meio ao caos , já que
um anticorpo pode se ligar a um antígeno a fim de interromper a sua ação ou mesmo
avisar o organismo que um invasor precisa ser removido ou neutralizado.Não se trata
de uma metáfora militar, já que Franscisco Varela (1997) descreve que o sistema
imunológico deve ser compreendido como uma “rede cognitiva autônoma”, responsável
pela "identidade molecular" 9 do corpo. Sendo assim compreende-se que tal como a
rede ou sistema imune, aperformance seria uma possibilidade política de resistência,
8
Autor desconhecido. Revista “Rencontres Improbables dezembro de 2011.
Acredita-se que o sistema imune tenha certa inteligência, já que consegue perceber o que é seu e o
que é de outro ao distinguir o que é um antígeno das moléculas do corpo. O sistema imune apresenta
uma adaptabilidade ao seu contexto, portanto primeiramente estabelece o reconhecimento, para depois
realizar a expulsão do corpo estranho: antígeno.
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mas também paradoxalmente um estadode imanência no caos do organismo
contaminado.Estes antígenos aqui referidos remetem a sistemas que despotencializam
o aspecto vital do sujeito, alterando sua força identitária e consumindo-o quase que
inteiramente em uma convensão a que foi subserviente ou dócil.
O corpo dócil para o qual a performance estabelece resistência antígena, faz
referência a proposta de Michel Foucault (2009). O autor alertaquestões sobre a
docilização do corpo, referindo-se ao momento histórico em que as disciplinas são
enfatizadas não somente com intutito de aprofundar as artes do corpo humano e
aumentar sua habilidade. O corpo dócil refere uma política de coerção que instaura
uma « anatomia política » que opera na mesma medida a « mecânica do poder »(2009,
p.133,134). A disciplina no sistema capitalista não se apresenta como um agente de
harmonização e superação do corpo e sim uma técnica de obediência que fabrica
corpos submissos sujeitos aos moldes econômicos de utilidade. Estes corpos
disciplinados para o consumo e a produção seriam para o autor, resultado de um
sistema de controle que manipula o sujeito a ponto de interferir em sua identidade, em
seu ânimo, em seus hábitos cotidianos das questões aparentemente mais banais como comprar uma roupa - até as questões mais profundas politicamente. Nas
palavras do autor : « A disciplina é uma anatomia política do detalhe » (2009,p.134).Um
detalhe ínfimo que confirmao argumento: se aexploração econômica dividea força e o
produto de trabalho, a disciplina acentua a dominação conforme a habilidade
desenvolvida.
Não menos inquieto filosoficamante acerca das relações de poder que ocorrem
na sociedade, Giogio Agamben (2009) nos arremesa as preocupações sobre o poder
da « máquina governamental » que atravessa os sujeitos e os bestifica,em marionetes
inertes com sua « dessubjetivação ». Na desembocadura de todo controle, estão os
sujeitos da sociedade contemporânea, subtraídos por « dispositivos » nada acidentais,
até nos pequenos detalhes, vivificados por um terrorismo ideológico implícito ao andar
do homem comum.Estes« dispositivos », tais como os antígenos que contaminam a
vitalidade, não são mais do que saberes « positivos » embutidos na supremacia da
ciência, do poder jurídico, do poder econômico e da religião, nos elucida Agamben
(2009, p.45).Sendo assim, entende-se que qualquer cúpula tendenciosa regulada por
autocratas que envolvem companhias telefônicas e seus slogans poderiam entrar no
hall das suspeitas farças vazias, com a aparência de morangos trangênicos : a primeira
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vista lindos, ao mastigar deliciosos, contudo, a podridão súbita do segundo dia não
esconde que a longo prazo são hipoteticamente cancerosos.
Os « dispositivos » (AGAMBEN, 2009) que regulam o sujeito em alguém
nauseabundo acoado pelo medo, a aparência, os hábitos ditados e o terror virtual,
encontrariam a contrapartida resistente na « profanação », concordaria Agamben. Para
o autor, o « sacrifício » (2009, p. 45) 10 é a secção do humano de uma esfera profana
para uma esfera divina e o representante aglutinador da figura seccionante do sujeito
seria o capitalismo, posto que a sociedade disciplinar capitalista não seja mais do que o
exercício de sua violência e separação. Em contrapartida, a« profanação » (2009, p.45)
devolveria o humano o poder daquilo que lhe foi separado por um sistema, tal como a
secção gerada pelo sacrifício, acusa Agamben (2009).
À luz do pensamento filosófico, poderíamos pensar « Danse du Chaos » como
um manifesto político de « profanação ». Esta seria a situação de uma performance
extemporânea, que estranha seu passado e mergulha na escuridão de seu tempo.
Nela, o sujeito que se move tenta repensar seus hábitos e caminha para libertar o que
foi capturado do sujeito ou ainda, para mostrar a tentativa de liberação -talvez ingênua,
mas inconformista - das amarras do poder.
Numa tentativa imersa na simplicidade de criar uma identidade particular de arte,
a performance « Dança do caos », apresenta movimentos que argumentam contra os
« dispositivos », bem como movimentos febris, de um estado de corpo imerso na
instabilidade causada pelos antígenos. A corporeidade da performance aponta uma
subversão estética da visão tradicional de corpo.Como nos elucida Michel Bernard
(2001), a palavra corpo deriva de uma visão ontológica ordenada de mundo, e de um
projeto técnico e científico marcado por um capitalismo triunfante. A palavra corpo nos
conta a história do mundo com implicações complexas, posto que se apresente como
« auto-fundador de sua referência » (2001, p. 18). O vocábulo corpo é, em efeito, um
signo linguístico que serve de modelo existencial do enunciador e implica na maneira
de perceber, de agir, de pensar, que nos organiza em funções de utilidade
estabelecidas em funções de organização hierárquicas.
10
O sacrifício para Agamben é tudo aquilo que separa os humanos, animais, etc, da esfera comum. Toda
separação estaria imbuída de uma violência sacrificial. Agambem se apropria de uma ideia de Marcel
Mauss acerca do rital sacrificial. Contudo, ressalto que a ideia de religião é um assunto amplo. A própria
palavra deriva de re-ligare, cuja proposta é de união, ou seja, o oposto a crítica atribuída por Agamben.
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Para tanto, a corporeidade de « Dança do Caos » nos incita a um campo de
forças efêmeras que contrasta com as necessidades institucionais. As formas
hierarquisadas e significantes demandam uma visão crítica do estudo de dança, e
exigem um olhar que perturbe os organismos de poder também em sua lógica. Assim,
recusando o conceito tradicional de corpo, Bernard (2001) irá sucitar a reação contrária
a visão filosófica atrelada a palavra corpo e veicular a palavra : « anticorpo » em sua
ambiguidade.
A espreita do pensamento de Bernard (2001), observamos que a desfiguração
ajuda a compor a « Dança do caos » tal como um « anticorpo »
para deslocar o
bailarino de seu lugar comum e voltar ao exercício filosófico prático na dança – quem
sou, como são compostos os motores do movimento, como se estabelece a relação
entre visível e invisível?Com isto, o bailarino pode tentar compreender o que é este
« anticorpo » e o que é o rosto. Assim, pode revelar o estado de seu sistema nervoso.
A desfiguração expõe a ligação íntima da dança como expressão política e permite
aprofundar os labirintos com a ontologia, já que a conexão entre ser e sociedade está
dada pelo corpo, sua pausa ou movimento. Os entrelaçamentos são observados no
movimento que demonstra um sujeito imerso no caos alternado por pausas que
interrogam o mesmo. A relação entre a dança, a ontologia e a política se dá a ver pelo
movimento fragmentado que expressa o caos dos sistemas econômicos que dominam
o sujeito esvaziado pelo bombardeamento de ações publicitárias. Este esvaziamento
hipotético ocorre a medida que o sujeito não vive mais o gesto, mas a necessidade
idealizada de sua aparência.
Os movimentos de « Dança do caos » questionam também a estrutura da dança.
A performance de Nikaido encontra-se nas potências invisíveis articuladas, tais como :
a estranheza que quebra com valores implícitos a um sistema de dança já conhecido
como adequado ; a variabilidade ou pluralidade; a imersão no tempo presente; a
inconciliação ou paradoxo. Sua especificidade está na complexidade de articulação dos
movimentos que expressam a reação de um sujeito aprisionado pela convensão,
borrando-a torcendo-a, queimando-a, transubstanciando-a em seu fluxo de existênca
presente.
A dança permite o paradoxo, posto que desestabilize a estrutura linear de
tempo, para instaurar um tempo particular e possivelmente uma realidade.Este
paradoxo no movimento da dança está composto de sua relação entre o visível,
articulado pela carne, e o invisível que articula e rearticula o impulso vital. Chegar ao
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ponto de rearticular impulsos de energia seria o mais abstrato em dança, no qual os
«agenciamentos » produziriam um « corpo sem órgãos », já nos apontaria José Gil
(2007) a espreita de um pensamento de Deleuze e Gattarri. Assim, a dança constroi-se
e está construída por uma matéria invisível que transborda na pele expondo as forças
afetivas de um dinamismo caótico entre dentro e fora, entre forma e desforma de uma
interface porosa e passageira como adeformidade da água que lateja sobre as pedras.
Em « Dança do Caos » a abertura da percepção para a variabilidade de formas
e diferentes articulações de afetos nos remete a esta busca incessante em refazer as
formas do corpo e rearticular o invisível. Este invisível não é somente um conceito que
está sendo radicalizado em desfiguração, já que o conceito delimita um tempo e o
movimento hip-hop sobrevive sem necessariamente ser descrito e enquadrados em
linhas. Trata-se de um modo de ser específico da arte, quedesmonta os traços
marcadosna cultura, na qual estão inseridas micro-guerras e a vontade de viver
dançadas, tal como a vida que forma a si mesma num processo que avança ao acaso.
Para quebrar com a cultura invisível atravessada no corpo de quem dança hip-hop e
transportar seus resquícios para o palco, Ghel Nikaido trabalha física e psiquicamente.
Não bastam esforços repetitivos de movimento, mas a atenção dobrada sobre uma
cultura para modificar um estado de espírito que contém uma tradição, uma identidade
e um personagem na carne.
«Dança do Caos »rearticula percepções ao propor uma estética, logo, também
movimenta a política, já que rearticula um sensível comum.Partindo deste âmbito,
observa-se que a PDHH configura experiências que inscitam novas possibilidades de
subjetividade política. Este pensamento dialoga com Jaques Rancière (2009), posto
que para o autor, o espaço comum de partilha define o que está em jogo na política do
sensível acerca daquilo que é dado à sentir em um desenho sistemático de formas. A
maneira de fazer arte desloca a percepção sobre o ser de um determinado entorno do
mundo artístico, posto que dê visibilidade a um invisível feito de impulso vital, um ser
compreendido como o ânimo, a latência, o impulso ou a vibração.
Em efeito, a PDHH revoga uma percepção diferente ao que está inerente na
estética representativa clássica e na era da reprodutibilidade que deixam seus
resquícios. Ao partir da idéia de imitação pictórica ou mimética, a estética
representativa recorta a arte dos interesses vitais entrelaçados na política-social.Jáa
PDHH confronta o regime mimético tradicional e entra numa poética do sensível
compartilhadaque exibe uma crítica a hierarquização das artes - que distinguia outrora
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as maneiras de fazer da arte. Não se trata de uma recusa a figuração e a narrativa
linear dos temas, mas o rompimento com os limites formais do funcionamento de um
sistema de arte e o confronto com a visão de humanidade : A desfiguração mantém-se
como ferramenta expressiva de afetos e latências, incluída nas artes como fio condutor
para o rompimento de padrões.
APDHH contesta a fantasmagoria do verdadeiro nos conceitos positivistas da
história da humanidade e da história da arte. Ela afirma a arte como « forma autônoma
da vida » (2009, p. 37), utilizando um pensamento de Rancière, já que sua
configuração mergulha numa abertura ao afeto que desestabiliza a passividade da
matéria sensível formalizada. A performance « Dança do caos » joga com a potência
de vida latente, para criar uma realidade liberta das aparências massivas dos meios
publicitários que nos moldam em um correto tendêncioso.
A potência de « Dança do caos »recompõe a relação entre o ser, seu fazer, e a
visibilidade de seu invisível,desestabiliza as categorias que demarcam uma evidência e
reconfigura o sensível do espaço comum.Ela abre a cabeça no limite da farça da
identidade formulada com as marcas da sociedade dos « dispositivos » (AGAMBEN,
2009). Os desenhos traçados pela desfiguração e a dança são vias políticas de
desincorporação de padrões demarcados, onde o corpo pode ser « anticorpo »
(BERNARD, 2001).
Imersa na criação poética acerca de uma outra dança, « Dança do caos » reage
aos antígenos, profana um sujeito febril e desejoso que reverbera o conflito de sua
existência caótica, incerta, instável. A performance alcança o simples mas dificilmente
executável na pesquisa teórico-prática, jáque almeja aprofundar a complexidade do
movimento.Forma-se como uma vida própria imersa no paradoxo, inscrevendo por
meio do sensível uma outra política de partilha.Esta partilha reconhece as implicações
da culturano corpo, no ânimo do sujeito, na sua forma e estreita as ligações entre o
visível e o invisível.
Referências
AGAMBEN, G. O que é contemporâneo? e outros ensaios. Argos, Chapecó, SC,
2009.
BERNARD, M. De la création choréographique. Centre nacional de la danse, 2001.
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FOUCAULT, M. Vigiar e Punir. Petrópolis : Vozes. 2009.
MATURANA, H. e VARELA, F. De máquinas e seres vivos: Autopoiese, a
Organização do Vivo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
GIL, J. Movimento Total. Editora Iluminuras, São Paulo, 2007.
NIKAIDO,
G.
Danse
du
Chaos.
[vídeo
da
performance]
<http://www.youtube.com/watch?v=zAaY5cwnWWg&list=UUEzRIgwX61o2ktynZRH2N
Pg&index=1&feature=plcp>. Acesso : janeiro de 2011:
RANCIÈRE, J. A partilha do sensível : Estética e política. São Paulo : Editora 34,
2009.
Autor
desconhecido:
Imunoglobina
cognitiva.
[artigo
científico]
<http://www.neurolab.ufsc.br/ensino/enq3255/anteriores/2005/equipe5/imunologia_cog
nitiva.htm>. Acesso : dezembro de 2011.
Autor desconhecido: Revista RencontresImprobables. [nota de revista]
<http: www.rencontresimprobables6.com> Acesso : dezembro de 2011:
Wikipedia. <http://pt.wikipedia.org/wiki/Hip_hop> Acesso :dezembro de 2011.
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