XIII JORNADA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO – JEPEX 2013 – UFRPE: Recife, 09 a 13 de dezembro. A DANÇA „DA‟ ESCOLA: A CULTURA HIP HOP COMO FERRAMENTA PEDAGÓGICA NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA Rayanne Vieira de Lima1, Maria Helena Câmara Lira2 Introdução O presente trabalho trata-se de um relato de experiência referente ao Programa Institucional de Bolsa e Iniciação à Docência (PIBID) na Escola Estadual Joaquim Xavier de Brito, tendo como área de intervenção às aulas de Educação Física. Segundo o Coletivo de Autores (1992, p. 58) “considera-se a dança uma expressão representativa de vários aspectos da vida do homem. Pode ser considerada como linguagem social que permite a transmissão de sentimentos, emoções da afetividade vivida nas esferas da religiosidade, trabalho e etc.” Por sua vez, a cultura do Hip Hop é um movimento que teve origem nos Estados Unidos, entre os anos de 1960 e 1970, e, até os dias de hoje, prolifera uma grande discussão sobre direitos humanos. É indispensável que consideremos o Hip-Hop como um instrumento de aprendizagem e formação de valores que contribui para o desenvolvimento de sujeitos críticos, conscientes e participativos, possibilitando uma interferência no espaço de forma autônoma. A dança, por si mesma, já carrega consigo desafios que por muitas vezes tem como consequência a sua ausência dentro do espaço escolar. Numa pesquisa realizada em escolas do Estado de Pernambuco, Brasileiro (2003) verifica que “a dança é minimamente tratada como componente folclórico e cultural no interior das escolas”. Nesse contexto, um projeto que vise trabalhar com o conteúdo dança na escola, assume a importante tarefa de promover discursões que tragam a tona às relações que se processam entre dança, cultura e sociedade, rompendo com a lógica do movimentar-se destituído de reflexão e estimulando os alunos a criarem uma postura crítica em relação ao que está posto. É preciso entender a dança como parte de uma cultura construída historicamente e que revela diversos aspectos da vida do homem, porém é imprescindível que o aluno se reconheça como parte dessa cultura e como sujeito transformador dela. Material e métodos Esse projeto de intervenção é resultado de uma revisão de literatura e uma pesquisa de campo. Primeiramente, tínhamos como objetivo trabalhar com as danças populares do Estado de Pernambuco, contudo, ao nos deparamos com a realidade social da Escola Joaquim Xavier de Brito, precisou-se readaptar o plano de trabalho. Foi feito uma avaliação diagnóstica das turmas que seriam o alvo das intervenções, a partir disso, foram selecionadas algumas modalidades de dança para serem abordadas durante as aulas. Como técnicas de ensino utilizamos aulas expositivas e oficinas temáticas, conforme as Orientações TeóricoMetodológicas (2008), criando situações que auxiliaram a formação dos educandos, entendendo-os enquanto sujeitos históricos que necessitam apreender através da escola e fora dela, os conhecimentos historicamente construídos, a fim de desenvolver uma lógica de pensamento que o leve a leitura crítica da realidade Resultados e Discussão No primeiro momento, o plano de trabalho que fundamentou essa proposta tinha como alvo das intervenções as danças populares do Estado de Pernambuco. Ao nos depararmos com a realidade da Escola Joaquim Xavier de Brito, tivemos que adaptar e reorganizar as propostas. Foi feito uma análise diagnóstica, e a partir disso pudemos perceber que em outrora outras PIBIDIANAS já tinham abordado o conteúdo danças populares na escola. Por sua vez, os alunos disseram estar saturados e se mostraram desinteressados pela estrutura do antigo plano de trabalho. Levando esses fatores em consideração, foram feitos questionários com as turmas para que a proposta fosse reelaborada e atendesse a conjuntura encontrada. Com os resultados obtidos, notou-se que Hip Hop foi citado como algo desconhecido e que despertava o interesse dos alunos consultados, então ele foi eleito para ser o “ponta pé" inicial dessa jornada. É preciso reconhecer que a abordagem do conteúdo dança, deve levar em consideração um determinado contexto, e partir de uma perspectiva de ser humano concreto, que tem o papel de intervir em sua cultura para transforma-la. Quando tomamos como princípio a dança „da‟ e não „na‟ escola, fazemos a opção de adaptar esse conteúdo ao ambiente escolar. Ressalto aqui a importância de termos consciência do papel da escola em estimular seus educandos a sentir, 1 Primeira Autora é Discente do Curso de Licenciatura em Educação Física da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Rua Dom Manuel de Medeiros, s/n , Dois Irmãos, Recife, PE. CEP: 52171-900. E-mail: [email protected] 2 Segunda Autora é Professora efetiva do Departamento de Educação da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Rua Dom Manuel de Medeiros, s/n, Dois Irmãos, Recife, PE. CEP: 52171-900.. E-mail: [email protected] XIII JORNADA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO – JEPEX 2013 – UFRPE: Recife, 09 a 13 de dezembro. pensar e agir comprometendo-se como sujeito crítico a questionar sobre as maneiras que as relações (socias, econômicas, culturais e etc) estão postas. A forte influência das empresas midiáticas faz com que a dança se torne um produto a ser consumido, incorporando assim, formas próprias e especificas para sua prática. Ou seja, criam-se regras e padrões que se tornam primordiais para a realização do fenômeno. Um exemplo prático disso foi visto no diagnóstico das turmas da Escola Joaquim Xavier de Brito. O que os alunos conheciam do Hip Hop, estava relacionado a grandes marcas do mercado esportivo e a campeonatos nacionais e internacionais, onde os dançarinos competiam para ganharem prêmios em dinheiro. Daí a escolha pela a adaptação desse conteúdo ao ambiente escolar. A dança „da‟ escola, traz consigo reflexões e desafios. Segundo Marques (1997, p. 23) “A escola pode, sim, dar parâmetros para sistematização e apropriação crítica, consciente e transformadora dos conteúdos específicos da dança e, portanto, da sociedade. A escola teria, assim, o papel não de reproduzir, mas de instrumentalizar e de construir conhecimento em/através da dança com seus alunos (as), pois ela é forma de conhecimento, elemento essencial para a educação do ser social”. Tendo com base as ideias de Isabel Marques e seguindo as Orientações Teórico-Metodológicas da Educação Física do nosso Estado, demos início a aplicação do plano de trabalho. . As intervenções aconteceram com as turmas dos 7º anos A, B e C, com o 8º ano A e com os 1º anos A e B do ensino médio. Nas primeiras aulas foram abordadas as questões históricas e sociais da cultura Hip Hop. Partindo dessa compreensão histórica, nas aulas seguintes foram feitas explanações e discussões sobre as questões de gênero, enfatizando a respeito da participação de homens e mulheres no Break, e sobre a mercantilização do fenômeno Hip Hop, onde debatemos sobre como esse fenômeno se transformou para poder sobreviver até os dias atuais. Para as oficinas práticas contamos com a participação de uma B-girl (dançarina de Break), que contribuiu com a parte técnica da dança, porém, os movimentos foram adaptados para que os alunos pudessem executa-los. Como resultado das aulas e das oficinas, formamos o grupo de dança da Escola Joaquim Xavier de Brito. Esse grupo formado por alunos do ensino fundamental e médio participou do I Festival de Cultura Corporal de Pernambuco, que foi promovido pelo PIBID/EDUCAÇÃO FÍSICA e aconteceu na UFRPE no dia 15 de junho do corrente ano. Além disso, também foram construídos trabalhos para apresentação em eventos. Um deles foi o Simpósio de Iniciação a Docência que também aconteceu na UFRPE no dias 17 e 18 de outubro. É fundamental estimular os alunos a refletirem sobre o sentido e o significado das suas práticas, permitindo assim o estabelecimento de múltiplas relações com outras áreas do conhecimento, analisando e discutindo o seu papel na contemporaneidade, além de levar experiências que os permitam não só a compreensão cultural, mas façam com que eles se reconheçam como sujeitos produtores dessa cultura e intervenham de maneira consciente na sociedade em que vivem. Não podemos ignorar/negar o papel social, político e cultural do nosso corpo, pois através do movimento aprendemos conceito e regras sem ao menos percebermos o que estamos reproduzindo ou construindo. Nessa perspectiva, “o trato da dança assume o potencial de contribuir para uma mudança de paradigma, ajudando o indivíduo a perceber o mundo como uma multípla „teia de relações‟ dinâmicas entre arte, ciência, sociedade, cultura, homem e vida”. (BARRETO, 1995 p.2). Em suma, podemos dizer que uso desse fenômeno numa proposta que inseriu o Hip Hop dentro de um contexto, possibilitou experiências que contribuíram (e ainda estão contribuindo) tanto para a minha formação como docente, quanto para a desenvolvimento de sujeitos críticos. O processo só está no começo, mas espero continuar propondo formas significativas para o trato do conhecimento dança, colaborando cada vez mais com a concretização dessa temática na área da Educação Física escolar. Agradecimentos Agradeço a Universidade Federal Rural de Pernambuco e a CAPES pelo incentivo e apoio a esse projeto de pesquisa. A Escola Estadual Joaquim Xavier de Brito, em especial a Professora Luciana, por se dispor e receber a proposta. A professora Maria Helena Câmara Lira pela disposição e colaboração com a construção desse projeto. A professora e supervisora do PIBID, Cynthia, pela troca de experiências e pelo apoio dado nas intervenções. Referências BRASILEIRO, Lívia. O Conteúdo “DANÇA” em aulas de Educação Física: Temos o que ensinar? Revista Pensar a Prática, Vol. 6, 2003. p.3 Disponível em: http://www.revistas.ufg.br/index.php/fef/article/view/56/2646 PERNAMBUCO. Governo do Estado. Secretaria de Educação. Orientações teórico-metodológicas – Ensino Fundamental e Ensino Médio: Educação Física. Recife: SEDE-PE, 2008. Disponível em: http://www.educacao.pe.gov.br/diretorio/ otm_educacao_fisica.pdf COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino da Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992. p. 58 XIII JORNADA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO – JEPEX 2013 – UFRPE: Recife, 09 a 13 de dezembro. BARRETO, Débora. Porque dançar na escola em uma época de crise? Nuances - vol. 1 - n° 1 - setembro de 1995, p. 2 Disponível em: http://revista.fct.unesp.br/index.php/Nuances/article/view/26/18 . MARQUES, Isabel A. Dançando na Escola. Revista MOTRIZ - Volume 3, Número 1, Junho de 1997, p. 23. Disponível em http://www.rc.unesp.br/ib/efisica/motriz/03n1/artigo3.pdf Figuras . Figura. Apresentação do grupo de dança da Escola Joaquim Xavier de Brito no I Festival de Cultura Corporal de Pernambuco