UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO – DOUTORADO
PARTILHANDO SABERES NA ILHA DE ITAOCA:
A RODA DE SIRI - ENTRE O MUNDO DO TRABALHO E
AS MEMÓRIAS DE INFÂNCIA.
Maria Cristina Martins
Niterói, Outubro de 2005.
2
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO – DOUTORADO
PARTILHANDO SABERES NA ILHA DE ITAOCA:
A RODA DE SIRI - ENTRE O MUNDO DO TRABALHO E
AS MEMÓRIAS DE INFÂNCIA.
Elaborado por: Maria Cristina Martins
Orientado por: Professora Dr.ª Vera Maria
Ramos de Vasconcellos
Tese submetida como requisito parcial para a
obtenção do título de Doutora em Educação.
Niterói, outubro de 2005.
3
MARIA CRISTINA MARTINS
A Tese: “Partilhando saberes na ilha de Itaoca: A roda de siri - entre o mundo do trabalho e as
memórias
de
infância”,
foi aceita e aprovada pelo Programa de Pós-Graduação da
Universidade Federal Fluminense como requisito parcial para obtenção do Título de Doutor
em Educação.
Aprovada em outubro de 2005.
Presidente
________________________________________
Profª Drª Vera Maria Ramos de Vasconcellos
UERJ
_________________________________________
Prof. Dr. Antônio Carlos Sant’Ana Diegues
USP
_________________________________________
Prof. Dr. Gaudêncio Frigotto
UERJ
_________________________________________
Profª Drª Liana Sodré
UEBA
___________________________________________
Profª Drª Eunice Shilling Trein
UFF
4
DEDICATÓRIA
Às mulheres descarnadeiras da Ilha de Itaoca, especialmente aquelas que partilharam comigo
suas histórias de vida, trabalho, filhos, amor, assombrações do mar, do mangue...
Lilith Balangandã
(...) uma mulher é uma espécie de alma com
enfeite
Chega diante do espelho adorna-se
como uma árvore de natal
Nem é natal
Mas ela vai dar bola
Às vezes não varre o quintal
Mas pinta as maçãs
Blushes ruges
Às vezes não costura
Mas realça as cortinas
Cílios rímel lápis
Às vezes não conserta as portas
Mas pinta a bordas das janelas
Pálpebras delineadoras sombras
Mulher é uma Eva de espalhar-se por fora em
paraíso
(...)
(Elisa Lucinda)
5
AGRADECIMENTOS
À professora e orientadora Vera Vasconcellos,
pela presença solidária e a aposta nos meus
projetos
À
Universidade
Federal
de
Sergipe,
à
Universidade Federal Fluminense e ao CNPQ,
que viabilizaram a pesquisa.
Aos
companheiros
do
Departamento
de
Educação da UFS e da nossa primeira
comissão de direitos humanos.
Aos
professores
Graduação
e
do
Programa
Educação
da
de
Pós-
Universidade
Federal Fluminense, especialmente: Gaudêncio
Frigotto, Maria Ciavatta, Cecília Goulart, Lea
Paixão, Osmar Fávero, Giovani Semenaro.
Ao
professor
Antônio
Diegues,
pelas
contribuições teóricas que alimentaram esse
estudo.
Aos pescadores que me ajudaram a trilhar os
caminhos dos povos do mar, especialmente:
Cícero, Ruan, André, Mizael,Soares.
Às mulheres de Itaoca, minhas queridas
personagens: Semirami, Zenil, Anaraí, Jane,
Iara, Maisa, Alzinira, Penha, Glória, Benedita,
Carmem, Marilene, Selma, Mauricéia, Neusa,
Glória Rosa, Lizete.
Aos pescadores de Itaoca, especialmente: sr.
Alcino, Cláudio Edson, Paulinho.
À Alessandra, professora do CIEP de Itaoca,
pela ajuda fundamental na pesquisa.
À Rosilda Moura e Tereza Goudard, pelas
sugestões.
6
A todos os amigos das minhas duas cidades,
Rio e Aracaju
Aos amigos “dinossauros” da SMDS.
Aos que ofereceram um floral, um lexotan, um
ombro amigo, uma pinga... Tânia, Jandira,
Jussara, Jatobá, Cynthia, Tânia Vasconcelos,
Dilma, Gilda, Márcia, Rita, Lígia, Ana Lea,
Jader, Eleni, Elzi, Paulo Gomes, Gabriela e
Julinha.
À Gênesis e Silmara pela dedidação, amizade e
partilha teórica.
Ao Joel, com quem aprendi e partilhei as
descobertas sobre os pescadores.
Às minhas filhas Daniele e Morena, cujo amor
e dedicação alimentam meus sonhos.
Aos meus irmãos, sobrinhos, tias e tios, grande
família.
À minha mãe, pelo aprendizado pela força
feminina.
Ao sr. Ricardo e à Cristiane, pela realização
gráfica e revisão do trabalho.
À Mônica, pelas transcrições valiosas.
À Banca Examinadora.
À lembrança saudosa de meu pai.
À memória de Lívio
7
RESUMO
A pesquisa desenvolveu-se numa colônia de pescadores situada no município de São Gonçalo,
denominado Ilha de Itaoca. A Ilha de Itaoca possui uma população de aproximadamente
quatro mil habitantes. Esta população ocupa-se basicamente de atividades ligadas à pesca
artesanal, pequena agricultura e serviços gerais. O estudo focou os aspectos ligados ao
trabalho na pesca, especialmente na atividade de extração de carne de siri, que é realizado por
mulheres em sua própria residência. Essas mulheres desenvolvem tradicionalmente há mais
cinqüenta anos esse trabalho em unidade familiar. Utilizam-se de técnicas rudimentares de
trabalho e integram a rede de comercialização do crustáceo, junto com os pescadores que
capturam o produto. Essa técnica patrimonial é transmitida aos mais jovens através de seus
familiares, encontrando-se hoje ameaçada pelas questões estruturais da pesca artesanal e pelos
processos de degradação ambiental que experimentam as populações que vivem no entorno da
Baía. O estudo empregou metodologia etnográfica e buscou reconstruir os itinerários e
sentidos do trabalho na pesca, refletindo sobre os saberes e práticas construídos e partilhados
na relação com territórios de vida e trabalho e com os ecossistemas naturais.
8
ABSTRACT
The research was developed in fishing colony located in the city of Sao Goncalo, called Island
of Itaoca. The Island of Itaoca possess a population of approximately four thousand
inhabitants. This population occupies basically on activities of artisan fishing, small
agriculture and general services. The study focoses on the aspects of the work with fishes,
especially in the activity of extration of meat of "siri" (sea-crab), that it is carried through by
women on their own houses. These women have developed traditionally for more than fifty
years this work in a family way. They use rudimentary techniques of work and integrate the
net of commercialization of the crustacean, working together with the fishers that capture the
product. This patrimonial technique is transmitted to the youngers through its relatives, and
nowadays is threatened by the structural questions of it artisan fishing and for the processes of
ambient degradation that harms the populations that live in the surrounding of the Bay. The
study employed the etnographic methodology and searched to reconstruct the itineraries and
senses of the work in the fishing, reflecting on the knowledge and the experience constructed
and shared by these people in their relation with territories of life and work and natural
ecosystems.
9
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO .................................................................................................................. 3
CAPÍTULO I – A TRAJETÓRIA DA PESQUISA................................................................ 17
1.1
A escolha do lugar e a definição do recorte temático.................................................. 21
1.2
O Pesquisador e o Outro: “os daqui de dentro e os lá de fora”.................................... 23
1.3
A Metodologia: Um olhar etnográfico........................................................................ 29
1.4
As categorias de análise - caminhos para dialogar com os “sujeitos” ......................... 32
1.5
Estratégias e instrumentos .......................................................................................... 34
1.5.1 Escolha dos entrevistados e suas famílias ................................................................... 35
1.5.2 Contexto e organização das entrevistas....................................................................... 35
1.5.3 Formas de registro ...................................................................................................... 36
1.6
Processo de trabalho ................................................................................................... 37
1.6.1 Os sentidos da roda..................................................................................................... 37
1.6.2 O salão: um espaço de encontros ................................................................................ 42
1.6.3 As entrevistas e outros registros ................................................................................. 45
1.6.4 Diário de campo ou o "meu caderninho" .................................................................... 56
1.6.5 As fotos – as imagens do trabalho .............................................................................. 58
1.7
Perfil e história dos entrevistados ............................................................................... 59
1.7.1 Família 1 .................................................................................................................. 59
1.7.2 Família 2 .................................................................................................................. 60
1.7.3 Família 3 .................................................................................................................. 61
1.7.4 Família 4 .................................................................................................................. 61
1.7.5 Lideranças locais ........................................................................................................ 62
10
CAPÍTULO II – A PESCA E SEUS SUJEITOS: A LUTA PELO PEIXE DE CADA DIA...64
2.1
Reflexões iniciais sobre o trabalho ............................................................................. 65
2.2
Capitalismo/tecnologia/conhecimento ........................................................................ 69
2.3
Trabalho/tradição........................................................................................................ 70
2.4
A pesca no Brasil – Breve trajetória ........................................................................... 72
2.5
Produção e modalidades de pesca............................................................................... 75
2.6
O trabalhador da pesca – sustentabilidade e dignidade ............................................... 77
2.7
Mulheres na Pesca – A busca de uma visibilidade social............................................ 82
2.8
Identidade profissional ............................................................................................... 85
2.9
Participação política e registro profissional ................................................................ 86
CAPÍTULO III – O LUGAR – TERRITÓRIO DE VIDA E TRABALHO............................ 93
3.1
Topofilia e homem/natureza/cultura ..................................................................... 94140
3.9
Populações tradicionais – Saberes patrimoniais........................................................ 144
3.10
Os 'daqui de dentro' e 'os lá de fora': São Gonçalo, um lugar nas Bandas d’Além .... 149
3.11
São Gonçalo d'Amarante ........................................................................................ 1534
CAPÍTULO IV – CONVERSAS NA RODA DE SIRI: SENTIDOS DO
TRABALHO – MEMÓRIAS DE INFÂNCIA ..................................................................... 163
4.1
Práticas de trabalho e gênero .................................................................................... 167
4.2
Pescador/Pescadora – Casa/Família – Mar/Terra...................................................... 170
4.3
Extração da carne do siri – Uma história de trabalho na pesca em Itaoca ................. 173
4.4
O siri na roda do atravessamento .............................................................................. 176
4.5
Trabalho precário – Qualidade do produto / Imagem profissional ............................ 178
4.5.1 O primeiro espaço coletivo de "trabalho contratado fora da unidade familiar" ......... 181
11
4.5.2 Trabalho/Saberes ...................................................................................................... 182
4.6
Tecendo outras redes de sobrevivência..................................................................... 187
4.6.1 O tempo das pessoas "malocadas" ............................................................................ 188
4.7
O trabalho morto – buscando romper com o ciclo transgeracional da pobreza ......... 191
4.8
Trabalho doméstico – Trabalho no siri – O dia-a-dia das mulheres .......................... 196
4.8.1 Trabalho/emprego/direitos........................................................................................ 198
4.8.2 O trabalho como processo de socialização................................................................ 201
4.8.3 Criança não quer mais ajudar em casa ...................................................................... 204
4.8.4 Trabalho como responsabilidade precoce atrapalha a escola e a infância ................. 208
4.9
Memórias de infância / trabalho / escola................................................................... 212
4.10
Escola e trabalho – lugares de aprender.................................................................... 217
4.11
Petrechos de pesca – saberes de trabalho em Itaoca.................................................. 219
Considerações finais na dinâmica da roda..............................................................................222
Bibliografia.............................................................................................................................237
Anexo I – Quadros e mapa da região
Anexo II – Imagens da pesquisa
12
APRESENTAÇÃO
A proposta desta pesquisa é uma reflexão sobre as relações entre trabalho, vida e
infância e a produção de saberes, numa comunidade de pescadores artesanais situada no
município de São Gonçalo, denominada Ilha de Itaoca. Através das memórias inclusas nos
relatos dos pescadores e descarnadeiras de siri, busca-se levantar seus itinerários de trabalho
desde a infância, tentando relacioná-los às questões do lugar e das transformações nele
ocorridas em conseqüência do processo de urbanização e degradação ambiental.
Apoiando-se numa abordagem etnográfica, busca-se entender a complexidade do
trabalho de um grupo de mulheres e homens que tem na pesca seu modo de vida e sustento,
numa relação intensa com os ecossistemas naturais.
O fio condutor da narrativa foi a “roda de siri”, espaço onde as mulheres se encontram
para realizarem a tarefa que a elas compete. Neste espaço também circulam a vizinhança, as
crianças e os homens, na busca pela reprodução material e cultural de suas vidas.
A pretensão foi de pensar os modos de vida e trabalho dos pescadores e descarnadeiras
enquanto produção de saberes e práticas que se atualizam através da transmissão oral e das
13
ações de trabalho. Essas que formam o quadro de valores e atitudes e são mantidas pelos
grupos familiares locais.
A intensa relação com os ecossistemas naturais que circundam o espaço físico e a
condição de pertencimento a uma APA (área de proteção ambiental) torna a vida da
população de Itaoca um desafio constante. O processo de urbanização da cidade de São
Gonçalo e a degradação da Baía de Guanabara são os principais fatores apontados como
causas das dificuldades que atingem especialmente aqueles que vivem da pesca artesanal.
Suas discussões são trazidas à luz dos autores e documentos consultados e das falas
dos informantes, especificamente as descarnadeiras de siri, que formam o grupo aglutinador
do trabalho de homens e mulheres na pesca. Essas mulheres constituem-se um dos grupos
mais tradicionais nessa modalidade de trabalho no Estado do Rio de Janeiro e que, pelas
questões ambientais de degradação da Baia de Guanabara - mais especificamente, os
acidentes de derrame de dejetos químicos -, encontram-se ameaçados na possibilidade de
transmissão dessa prática de trabalho e subsistência, aos mais jovens. Desse modo
interferindo na manutemção de saberes conceituados aqui como patrimoniais e considerados
importantes aos grupos e cultura local
Compreendendo o setor da pesca artesanal como a rede produtiva que constitui as
formas de trabalho do grupo pesquisado, é dado um destaque às principais questões que
envolvem a história e o contexto social dos trabalhadores, especialmente mulheres.
O desafio de trazer uma temática relacionada aos trabalhadores na pesca, pouco
explorada no campo do saber educacional e as adversidades concernentes ao trabalho de
campo e seus limites de tempo, foram dificuldades e prazeres vividos pelo pesquisador. Num
trabalho com tal desenho, onde uma infinidade de dados emerge no próprio processo, há
sempre coisas de mais ou de menos, pontos que não foram tocados e outros demasiadamente
explorados. A questão entre a técnica e arte do fazer da pesquisa pressupõe habilidades nem
14
sempre disponíveis no pesquisador. O processo de trabalho de campo sem dúvida foi mais
rico e abrangente que os recortes e o desenho final do texto.
No primeiro capítulo, procura-se detalhar a metodologia utilizada, além de traçar o
histórico e o contexto de campo, incluindo também algumas descobertas iniciais, como a roda
de siri, pensada na sua dinâmica inclusiva e lúdica. Apresento as categorias de análise, perfil e
história dos informantes, que considerei como personagens do texto.
No segundo capítulo refleti sobre as questões concernentes à categoria trabalho, numa
perspectiva de sua ontologia e das especificidades relativas ao setor da pesca artesanal.
Apresenta-se um breve panorama das questões que envolvem a pesca no Brasil e a condição
social de seus trabalhadores e trabalhadoras.
O terceiro capítulo trata da categoria lugar. Nele encontram-se as discussões sobre os
sistemas de objetos e sistemas de ações, topofilia e saberes patrimoniais. O perfil sóciohistórico da Ilha é apresentado, inserindo também o histórico da cidade de São Gonçalo e da
Baía de Guanabara e seus processos de degradação. As discussões alimentam-se das vivencias
e memórias dos moradores e dos informantes, em suas relações familiares e afetivas com o
lugar desde a infância.
O quarto capítulo traz as reflexões sobre os sentidos do trabalho, infância, vida e
escola, através das memórias das descarnadeiras e de seus familiares, na dinâmica das
conversas na roda. Através dos relatos das descarnadeiras e pescadores levantamos a história
da técnica de extração da carne do siri na Ilha e a situação de precariedade do trabalho que
essa modalidade de pesca vem sofrendo. O cotidiano das mulheres é refletido a partir das
práticas de gênero reproduzidas no universo familiar e de trabalho .
Nas conclusões busco tecer os fios que alinhavaram as conversas na roda e as análises
de alguns dados e questões vistas no estudo. As imagens foram inicialmente recursos de
15
aproximação com os informantes, constituindo-se posteriormente em mais uma estratégia de
registro.
Para tecer os fios do conhecimento é necessário a companhia do outro. Das palavras,
dos gestos e das reflexões em grupo, que explicitam diferenças e alimentam as buscas.
A vida dos pescadores e das pescadoras quase sempre não permite que a escola exista
ou se conclua para eles. Entretanto seus espaços de saber são diversos, contendo sempre uma
parceria, em terra ou no mar. Um acréscimo das mãos e da força do outro. São modos de
aprender e construir conhecimentos que facilitam encontros, histórias. Talvez seja isso que
explique a marca da narrativa, a tal história de pescador, que sempre nos deixa entre o
fantástico maravilhoso e o cordel.
16
CAPÍTULO I
A TRAJETÓRIA DA PESQUISA
O trabalho na pesca gera uma relação intensa entre o pescador e os ecossistemas
naturais, numa temporalidade diferente daquela experimentada em formas de trabalhos menos
artesanais. O desenvolvimento tecnológico (qualidade das embarcações, técnicas mais
precisas de detecção, captura e processamento) que se verificam nas atividades de pesca em
todo mundo, não eliminou, contudo, as técnicas mais rudimentares de trabalho, nem as formas
tradicionais de aprendizagem. O conhecimento do pescador sobre os fenômenos da natureza
e o manejo de seus petrechos são exigências constantes para o trabalho no mar. Observar o
ritmo das marés, dos ciclos naturais de reprodução dos peixes, das variações do tempo, são
aprendizados incorporados desde a infância.
É na infância que se dão os primeiros contatos com a pesca. As crianças vão brincar
na beira do rio, do mangue, da praia. Vão esperar os pais que chegam da pescaria, ajudar a
puxar a rede e mais tarde são introduzidas nas práticas de pesca, transmitidas por familiares
ou companheiros.
17
Apesar da relação intensa com o mar e da presença constante dos elementos da
natureza na vida dos pescadores e de suas famílias, não se pode afirmar que seus modos de
vida sejam determinados pela natureza. Como nos sinaliza Silva (2001, p: 9):
É no mundo social, nas configurações que historicamente entrelaçam
comunidades marítimas e litorâneas com a sociedade mais ampla e
circundante, que se deve buscar o nexo das formas de relação com o mundo
natural. Nas suas representações e concepções sobre os fenômenos da
natureza, o mar, o mangue, os peixes, o vento, as marés...
O mar, por exemplo, é sempre mencionado como um ambiente temível, arriscado, de
grande mobilidade. Como nos coloca um pescador, ao relatar sua experiência, tecendo um
paralelo com meu ofício de pesquisadora:
_ Com o mar não se brinca, professora! A gente sabe tudo e não sabe nada
dele.
É como a senhora aí nesse trabalho.
Sabe tudo, tá tudo lido.
Quando chega aqui, dá de cara com nós, com nossas histórias.... E ai? Aí é
tudo novo, é pra aprender e ter respeito, né?1
Foi dessa forma que resolvi lidar com o cotidiano do trabalho de campo. Seguir as
pistas dos pescadores e pescadoras, observando e refletindo sobre o cotidiano de estudo, vida
e trabalho que a mim se apresentava, dando de cara com os sujeitos da pesquisa.
Antes de entrar nas questões da pesquisa de campo, gostaria de historiar, de forma
breve, o surgimento do objeto de estudo e minhas primeiras interrogações relativas do mesmo.
No ano 2000, realizei um projeto com alunos da disciplina “História Social da
Infância”, que eu ministrava no Curso de Pedagogia da Universidade Federal do Sergipe. O
objetivo deste trabalho era o estudo das condições de vida, infância e trabalho das crianças de
1
Pescador da Praia da Luz, que entrou no meio da entrevista que eu realizava com uma descarnadeira de siri
(mulheres que trabalham no beneficiamento da carne desse crustáceo). Sr. Paulo.
18
camadas populares, na cidade de Aracaju2. A metodologia utilizada incluía entrevistas e
registro fotográfico. Um dos locais de realização do projeto foi o entreposto de pesca
municipal. Naquele momento, entrei em contato com as famílias e as crianças que
trabalhavam na cata de camarão (atividade de retirada da casca para preparação do filé).
No desenvolvimento deste projeto surgiram algumas indagações que, mais tarde, já no
Rio de Janeiro, me levaram a buscar o trabalho em comunidades de pescadores e a escolher
como tema o trabalho e a infância na vida dessas comunidades.
Fez-se necessária uma incursão teórica pelo universo do trabalho na pesca, suas
principais questões e leituras e a história da constituição desses trabalhadores. Fui buscar
leituras e teses, em geral no campo da antropologia e da historiografia da pesca (quase
inexistentes). Num segundo momento, visitei algumas instituições representativas dos
pescadores, entrando em contato com as comunidades e suas lideranças, ligadas à pesca em
Niterói e São Gonçalo. Visitei as áreas de pesca da Ilha da Conceição, Jurujuba, Itaipu e Rua
da Lama (Barcas). Em seguida, fui conhecer a comunidade do Gradim, na cidade de São
Gonçalo, que possui um grande número de pescadores.
O contato com a Associação dos Pescadores Livres do Gradim e Adjacências
(APELGA) me permitir obter informações importantes sobre a realidade da pesca em São
Gonçalo. Através dessa entidade, fui apresentada ao Presidente da Associação de Pescadores
da Ilha de Itaoca, que me convidou a conhecer o local onde as mulheres trabalham no
beneficiamento da carne do siri.
Nesses contatos fui auxiliada por representantes do Grupo Executivo de Política
Pesqueira (GEPP), responsável pelo relacionamento com o setor pesqueiro e suas entidades
representativas em Niterói e São Gonçalo. Posteriormente, as minhas participações na I
Conferência Estadual de Aqüicultura e Pesca em Niterói e também em uma das atividades dos
2
Estudo publicado no resumo do Seminário Internacional sobre a Criança e o Jovem na América Latina.
“Estudos e imagens sobre vida, trabalho e escola de criança e adolescentes em Sergipe”. UNESP, SP, 2001.
19
pescadores de Jurujuba – a procissão de São Pedro – forneceram-me elementos fundamentais
para uma aproximação com os trabalhadores e um melhor conhecimento das principais
questões que envolvem o setor.
A participação na referida Conferência e em seus grupos temáticos possibilitou-me
uma compreensão mais abrangente da política para o setor pesqueiro e das relações e conflitos
entre os grupos das diferentes instituições representativas (colônias, associações,
cooperativas). Em alguns momentos me eram sinalizados, pelos próprios pescadores que ia
conhecendo na Conferência, os desafios que encontraria para perceber e entender o universo
de trabalho deles. Num dos momentos da referida Conferência em que eu presenciava uma
acalorada discussão entre os pescadores, um deles3 me diz observando meu espanto e
preocupação com o desenrolar da discussão:
_ É, professora... tá pensando que ser pescador é só um barquinho
na água e peixe no anzol? A senhora tá assustada com a disposição
da rapaziada? Isso não é briga não, é só disputa.
Só mais tarde, na convivência com esses grupos, pude perceber que as brigas
realmente existem. Algumas sérias, outras nem tanto. Foi necessário entender os momentos de
disputas e seus significados. Naquele momento, o principal que me estava sendo sinalizado
era o meu próprio lugar de pesquisadora.
O contato com as poucas mulheres que participavam da Conferência me fez entender
também as dificuldades da participação feminina nesse setor, e de como esta participação
ainda é tutelada pelos homens. Através desta constatação pude avaliar a importância do
espaço de fala dessas mulheres e da valorização do seu trabalho como profissionais de pesca.
3
Fala de um antigo pescador, pertencente à diretoria da ALMARJ (Associação de Maricultores de Jurujuba),
por ocasião da participação da I Conferência de Pesca e Aqüicultura, realizada em 2002, na cidade de Niterói.
20
Estes contatos me fizeram chegar aos primeiros informantes: pescadores e pescadoras,
contadores de histórias sobre a pesca, suas associações, suas vidas no mar desde criança.
Mantive por um certo período a participação em encontros e reuniões promovidas pelo setor
pesqueiro e suas entidades. Um dos momentos que destaco deu-se com a minha participação
como coordenadora de grupo, no I Encontro Estadual de Mulheres Trabalhadoras na Pesca e
Aqüicultura4.
Este evento constituía-se em uma das estratégias de organização do Seminário
Nacional de Trabalhadoras na Pesca, que realizou-se em Brasília, em dezembro de 2004. As
discussões do seminário e as conversas que mantive com as mulheres pescadoras e
maricultoras de todo o estado proporcionaram-me uma visão ampliada do universo de
trabalho, dos problemas e conflitos que enfrentam as mulheres no setor, tanto no âmbito das
suas representações (associações e colônias) como no espaço familiar. Segundo seus relatos, o
trabalho das mulheres na pesca ainda é entendido como uma tarefa de “ajuda” aos homens e à
família. Entre as questões apontadas para essa frágil identidade profissional estão aquelas que
dizem respeito à construção histórico-social da profissão e as questões de gênero em relação
ao papel da mulher na sociedade brasileira.
1.1 A escolha do lugar e a definição do recorte temático
Ao visitar a Ilha de Itaoca5, localizada no município de São Gonçalo, ao fundo da Baía
de Guanabara, encontrei uma população semelhante àquela que vive nas regiões de captura do
caranguejo e siri no Nordeste do Brasil, onde havia iniciado meu contato com mulheres e
4
5
I Encontro Estadual dos Trabalhadores na Aqüicultura e Pesca. Novembro de 2004, Miguel Pereira - RJ –
Organizado pela Secretaria Especial da Aqüicultura e Pesca da presidência de República – Escritório (Rio de
Janeiro).
A Ilha de Itaoca pertence à APA (Área de Proteção Ambiental de Guapimirim). Possui uma extensa área de
manguezais que enfrentam problemas em relação à ocupação não ordenada do solo. Além disso, possui um
vazadouro público, o Lixão, que agrava os problemas ambientais.
21
crianças que trabalham na pesca. Algumas questões idênticas em relação à preservação dos
ecossistemas de manguezais também se faziam presentes.
Tanto as condições de vida e de trabalho da população, que vive da pesca e da
maricultura6 , como a própria geografia local me reportavam às questões já vistas no Sergipe:
o mar e o mangue, definindo o espaço de moradia e subsistência dos trabalhadores e suas
famílias.
Desse modo, decidi que, de todas as comunidades que visitei, a Ilha de Itaoca
constituía-se no espaço que mais se adequava às minhas questões, visto possuir um universo
significativo de trabalhadores na pesca artesanal.
Uma paisagem e um lugar que me encantou, entre outras coisas pela sua singularidade
de “ilha” e pela contradição de ser, ao mesmo tempo, um espaço de passeio e lazer para a
população de São Gonçalo, como também um espaço de periferia7 dentro da cidade. A
existência de um vazadouro público – o Lixão de Itaoca8, situado bem na entrada da Ilha,
produz uma imagem estigmatizante do lugar, especialmente aos olhos dos “lá de fora”,
segundo a expressão usada pelos moradores ao se referirem aos não moradores da Ilha.
Em princípio, como pretendia trabalhar o tema no contexto de vida das crianças e
mulheres, minhas indagações iniciais se dirigiam a esses dois grupos. Mais tarde o processo
de amadurecimento do trabalho de campo levou-me a definir melhor o universo dos sujeitos e
o meu recorte temático, além dos limites do tempo da pesquisa, apontados no processo de
qualificação.
6
Maricultura – cultivo de organismos do mar, como crustáceos e moluscos. Os(as) trabalhadores(as) nessa
atividade são chamados(as) maricultores.
7
Aqui usamos o termo periferia segundo a lógica da segregação espacial que constitui os processos de
urbanização no capitalismo, espaços esses destinados à moradia das camadas mais pobres. Segundo Caldeira,
(1984): “ a palavra é usada para designar os limites, as franjas da cidade. (...) Mas sua referência não é apenas
geográfica: alem de indicar distância, aponta para aquilo que é precário, carente, desprivilegiado em termos de
serviços públicos e infra-estrutura urbana.
8
Lixão: vazadouro público localizado na entrada da Ilha de Itaoca. Constitui-se num dos problemas ambientais
mais graves da Ilha. A esse respeito indicamos o vídeo “Boca de Lixo”. O lixo como trabalho e como
estigma. CECIPE, 1992, dir. Eduardo Coutinho. Ver também texto de Lea Pinheiro Paixão: Catadores de
dignidade: assimetrias e tensões em pesquisa no lixão. In: Itinerários de Pesquisa. Vilella, Rita A.T. (org). RJ
DPA, 2003.
22
As observações na roda (como sinalizo no item 1.6) fizeram-me incluir também a voz
dos pescadores, especificamente aqueles que fazem parte das famílias pesquisadas e/ou
representam entidades locais.
Posteriormente outras direções foram tomadas, a partir da emergência dos dados de
campo. A categoria lugar e saberes patrimoniais, pensadas em princípio como sub-categorias,
tomaram força no texto de pesquisa. Desse modo, nosso estudo definiu-se por: reconstruir os
itinerários e sentidos do trabalho na pesca artesanal em Itaoca, especificamente no
beneficiamento do siri. Refletindo sobre os saberes e práticas construídos desde a infância e
partilhados na relação com o território de vida e trabalho e com os ecossistemas naturais.
1.2 O Pesquisador e o Outro: “os daqui de dentro e os lá de fora”
Em minha trajetória de vida e profissional, o trabalho em comunidades de baixa renda
constituiu-se sempre em uma opção. Durante alguns anos fui professora, assessora pedagógica
e coordenadora de projetos nas favelas do Rio de Janeiro e, posteriormente, em espaços
semelhantes na cidade de Aracaju, onde moro e trabalho, participando de projetos de extensão
da Universidade Federal de Sergipe. Ao mesmo tempo me sentia atraída e à vontade para lidar
com a pesquisa de campo junto a populações com semelhante perfil.
No entanto o atual campo de pesquisa, embora guardasse semelhança em relação ao
perfil das populações das favelas e outras periferias do país, me apresentava algo novo,
marcado pelas condições geográficas da Ilha e pela atividade na pesca artesanal. Precisava
adentrar aquele espaço. Viajar até os “lá de dentro” – os moradores da Ilha.
Minha experiência e meu investimento teórico pareciam me colocar em segurança
neste conhecido e movediço terreno que caracteriza a posição de pesquisadora – o de estar
próximo pela situação de pesquisa, que produz uma convivência, uma familiaridade com os
23
grupos e seus processos de sociabilidade, e ao mesmo tempo um distanciamento – por não
fazer parte daquele grupo social
Embora seja fácil conversar com as populações mais pobres que, como nos coloca
Sarti (2003), “são pródigos em conversa”, ainda assim em alguns momentos os confrontos
lingüísticos e culturais deixavam evidentes os diferentes lugares. Nestes momentos, a
experiência me tranqüilizava por saber que é assim, mas não me poupava de viver as
situações com angústia, como novos desafios diante da realidade.
O tempo de envolvimento e o convívio do pesquisador com seus informantes é que
vão aos poucos dirimindo distâncias e tornando a presença do pesquisador menos “intrusa”.
A relação vai ficando menos tensa e formal. As pessoas começam a partilhar os objetivos da
pesquisa e a depositar nela expectativas e desejos. Tais expectativas passam na maioria das
vezes pelo lugar de “saber” e de "poder" do pesquisador, o que pode implicar em algum tipo
de ajuda na resolução de problemas locais e pessoais. As teias de relações pessoais e
institucionais do pesquisador são possibilidades identificadas pelos informantes e geram
expectativas e/ou estratégias de troca, de busca de ajuda, mas também de manipulações.
As expectativas são às vezes explicitadas através de solicitações pessoais ou de grupo.
Outras vezes só são reveladas em situações em que a frustração já se instalou. São as frases
irônicas: “eu vou ganhar o que com isso?”, e as caras de “zanga” percebidas, que denunciam
“desejos” não realizados pela pesquisadora, por mim.
A conversa e a continuidade do contato podem estreitar os laços, dirimir dúvidas e
mesmo produzir um afastamento.
No caso do universo da pesquisa, a realidade dos trabalhadores na pesca e a natureza
das demandas, especialmente pela falta de informações sobre direitos trabalhistas, gerou
expectativas com relação à resolução desses problemas. Por mais que eu explicasse meus
limites pessoais e a direção da pesquisa, isso sabidamente não era compreendido, já que eles
24
entendiam que minhas teias de relações com as entidades de pescadores poderiam gerar
ganhos pessoais e coletivos. Por vezes me vi envolvida de tal forma, especialmente quando se
tratava de questões ligadas às condições de saúde e miserabilidade do trabalhador, que
acabava tentando encaminhar um pedido ou tentando uma visita das entidades representativas
à Ilha. Outras vezes tentava incluir nas discussões do setor em que participava como ouvinte,
as questões de Itaoca. Parecia-me uma implicação impossível de não acontecer, e uma troca
legítima, já que aqueles sujeitos me proporcionavam “ganhos” acadêmicos. Apoiando-me em
Zaluar (1985): “como para mim a atividade de pesquisa não era mera técnica de obtenção de
dados, vivemos uma relação em que ambas as partes aprenderam a se conhecer”. Este
conhecer implicava também em considerar-me uma pessoa aliada das lutas dos pescadores.
Logo, endereçar a mim suas demandas, era também me reconhecer como alguém presente.
Esse lugar de depositário e porta-voz das demandas dos trabalhadores também
sinalizava uma posição de crítica ao lugar do pesquisador e ao papel social da pesquisa. Em
alguns momentos, em conversas, principalmente com a informante que me acompanhava nos
contatos iniciais, suas desconfianças quanto à validade prática do que fazia era explicitada:
_ ... vem cá, Cristina, o que é mesmo que essa sua pesquisa pode
assim melhorar a vida do pessoal, das escarnadeiras daqui da Ilha?
Eu tenho visto tanta gente vim aqui pesquisa, pesquisa e não muda
nada9...
Não me eximia de levantar uma discussão sobre o tema, nem de discordar das
posições, se necessário, mas sempre procurava entender a legitimidade daquela questão para
eles. Afinal é um contexto de vida onde tudo é urgente.
Pensar que eu era o outro naquele lugar, entre outras coisas era um exercício
permanente de respeito para com as pessoas que me recebiam em suas casas ou que se
9
Liderança local – registro no diário de campo
25
dispunham a conversar comigo, falar de suas vidas, responder as minhas indagações. Foi nas
conversas com as mulheres descarnadeiras que aprendi a terminologia usada para diferenciar
os “conhecidos” dos “não conhecidos” – os “daqui de dentro” e os “lá de fora”. Também
demarcava a relação de trabalho na pesca. Os "estabelecidos" (as famílias tradicionais que se
dedicam à pesca) e os forasteiros (ou "outsiders")10 , que vêm de fora buscar o peixe de forma
temporária. Esta terminologia também os diferenciava enquanto habitantes de um lugar
singular – a Ilha. Um espaço caracterizado pelo isolamento do continente, pelo cerco do mar,
com uma simbologia própria, uma situação geográfica que produz uma identidade particular,
embora articulada ao contexto sócio-econômico global.
Segundo Diegues (1998, p. 107) em seu estudo sobre o simbolismo e o imaginário das
ilhas e mares:
A ilha tem suas representações simbólicas que remontam ao início da vida
humana na terra, é também uma porção de território, onde se exercem
práticas sociais e simbólicas e, portanto, é sempre um território particular,
construído.
Ao se referirem às suas idas à cidade de São Gonçalo ou a Niterói, diziam que iam “lá
fora”. O pertencimento ao grupo e ao território eram designados pelo “dentro” e “fora”.
Dentro como aconchego, como o conhecido e fora como desconhecido, como desejo de
conhecer, como movimento da cidade, do urbano.
Eu também só me dava conta de estar transitando entre essas diferenças espaciais e
perceptivas quando me deparava com situações viscerais, limites, do "estar numa ilha". Certa
vez chovia muito, já era tarde e o ônibus, em virtude das condições da estrada, não havia
entrado no centro de Itaoca, estava passando por fora. Meu celular ali não pegava. Deparei-me
10
Elias, Norbert e Scotson. Os estabelecidos e os outsiders. Sociologia das relações de poder a partir de uma
pequena comunidade. Rio de Janeiro, Zahar Editora. A pesquisa dos autores em uma cidade da Inglaterra
desenvolve esses conceitos a partir do estudo de relações entre os forasteiros - outsiders, considerados como
aqueles que não partilham os valores e os modos de vida local, e os estabelecidos, ou seja, os membros
nativos daquela comunidade.
26
com a situação de incerteza experimentada no cotidiano daquelas pessoas que ali vivem e que
dependem de um único sistema (precário) de transporte para saírem de lá. Naquele dia, meu
campo de pesquisa se revelou como um lugar que eu via, mas ainda não havia sentido na sua
totalidade. Eu estava numa ilha. Os “aqui de dentro” certamente me acolheriam, mas eu teria
dificuldades para avisar aos “lá de fora”. Minha situação não era entendida como questão
relevante, nem problema para os que esperavam o ônibus comigo. Para eles a solução era
simples – agora não se pode ir lá fora.
Tuan (1980, p. 31), através do conceito de topofilia, realça a função simbólica do
espaço e sua carga emotiva, dando ao sujeito o sentimento de ligação com o lugar:
O espaço aberto significa liberdade, a promessa de aventura, luz, o domínio
público, a beleza formal e imutável.
O espaço fechado significa a
segurança aconchegante do útero, privacidade, escuridão, vida biológica.
Na ilha, essas categorias espaciais de aberto e fechado se entrecruzam, se surperpõem e
constituem os sujeitos.
As observações sobre o lugar e as minhas vivências sugeriram novas categorias de
estudo que fui incorporando aos processos de entrevista e conversa com os moradores.
Os espaços vazios do mangue, completamente desertos, também me chamavam a
atenção. Também existiam lá dentro espaços interditados, onde não se devia circular depois
de certa hora. No passado, segundo os relatos, eram espaços de histórias de “assombração”;
hoje, espaços perigosos à segurança pessoal. São as assombrações da violência urbana e da
degradação do espaço de vida e moradia das pessoas locais.
Em uma de nossas conversas na “roda de siri”11 surgiram às histórias de
assombrações, figuras que assombravam a Ilha, como a noiva que andava perto da ponte e do
11
Roda de siri: como denominei a forma de encontro das mulheres para realizarem as atividades de retirada da
carne de siri. Sentam-se em roda, em geral em caixotes de madeira, tendo como instrumento de trabalho uma
pequena faca, para retirada da carne do crustáceo.
27
cavaleiro que percorria as estradas escuras. Também surgiram os temores atuais. A mulher
que foi vítima de seqüestro no Rio, aparecendo carbonizada junto à ponte e que a partir daí
passou a assombrar os moradores.
Junto com as histórias no campo do realismo fantástico, e que se passavam em tempos
antigos, vinham lembranças atuais de assaltos, mortes, desmontes de carro – que marcavam o
tempo mais recente, da invasão dos “lá de fora”. Essas histórias, não construíram os
conteúdos do texto da pesquisa, mas auxiliaram as análises.
Nesses momentos de conversa, a referência ao espaço perdia sua característica familiar
fechada, da vizinhança e proximidade e transformava-se em um espaço aberto, menos
conhecido.
Na trajetória do trabalho de campo fui entendendo que, embora o meu objeto de estudo
não fosse pesca, ela constitui-se no universo de trabalho e vida dos sujeitos da pesquisa. Desse
modo, não hesitei em reservar um tempo de mergulho nesta realidade, delimitando os espaços
cotidianos de trabalho e vida das mulheres e da comunidade, como os lugares privilegiados
para a observação participantes e a coleta de dados.
Além da “roda de siri” no processo de pesquisa emergiu o “salão de cabeleireiro” que
desenvolverei mais detalhadamente no capítulo sobre metodologia.
A opção pela pesquisa etnográfica deu-me sustentação teórica para o trabalho com a
análise dos dados de forma mais qualitativa, ampliando e entrelaçando com as categorias
trabalho e lugar.
Os informantes da pesquisa foram as mulheres que trabalham com o beneficiamento
do siri – as descarnadeiras, e alguns pescadores, suas famílias e as crianças locais. Alguns
registros feitos no diário de campo trazem a fala de moradores sem, contudo, especificá-los
como sujeitos de pesquisa ou informantes.
28
1.3 A Metodologia: Um olhar etnográfico
Buscou-se trabalhar com a abordagem da pesquisa etnográfica, considerada como
metodologia que facilita o diálogo entre o pesquisador e seu objeto de estudo, propiciando
uma análise qualitativa da realidade.
Como problematiza FONSECA (1999, p. 19), ao tratar das questões metodológicas e
dos equívocos na pesquisa antropológica com metodologia etnográfica: “essa não é uma
abordagem salvacionista. Ela por si só não dá conta dos dilemas do pesquisador com seu
objeto de estudo nem garante vantagens a uma abordagem qualitativa em oposição à
quantitativa”. Segundo a mesma autora, o método etnográfico é um instrumento que pode
enriquecer a intervenção educativa e favorecer o diálogo, atividades estas presentes não só nas
relações pedagógicas, mas também nas situações de pesquisa. Partilhamos destas
preocupações, entre outras coisas, por entender que a relação entre o pesquisador e os sujeitos
da pesquisa possui um universo de complexidade que se explicita nos planos do simbólico,
nas práticas culturais e lingüísticas; desse modo, o diálogo com o outro é uma preocupação
constante para o pesquisador.
Assim, o método etnográfico não pode ser aplicado como uma solução para resolver o
dilema comum aos pesquisadores na área humana – a lacuna entre teoria e realidade. Se
entendido dessa forma, o equívoco seria torná-lo o protótipo do qualitativo, com ênfase na
análise do cotidiano e do subjetivo, parecendo ser uma técnica ao alcance de todos (Fonseca,
1999).
No trabalho de campo o interesse do pesquisador é entender aquilo que esta sendo dito
pelos interlocutores; logo o estabelecimento de um diálogo, o esforço de comunicação com o
outro é uma busca constante. Neste sentido os estudos no campo da linguagem e da
29
semiótica12 formam aportes teóricos importantes. São esses estudos que esclarecem as
dificuldades no processo comunicativo e seu caráter não linear.
Existem diferenças nos universos comunicativos e simbólicos capazes de produzir
dificuldades na comunicação com o outro. Amorim (2002, p. 2), discutindo a questão do
trabalho de pesquisa no campo das ciências humanas e seu interlocutor – o outro, nos coloca:
O objeto específico das ciências humanas é o discurso ou num sentido mais
amplo, a matéria significante. O objeto eu é produtor de discurso e é com
seu discurso que lida o pesquisador. Discurso sobre discursos, as ciências
humanas têm portanto essa especificidade de ter um objeto não apenas
falado, como em outras disciplinas, mas também um objeto falante.
Assim sendo, penso que é necessário considerar o trabalho de campo como um eterno
diálogo com o outro, através de um olhar mutante sobre a realidade e o contexto de vida dos
interlocutores.
Nas situações de campo, o contato com os informantes ou sujeitos da pesquisa trouxeme desafios diários, situações imprevisíveis ao tentar entender seus códigos – palavras,
gestos, interdições, silêncios. Em alguns momentos o não pertencimento àquele lugar me
impedia de entender situações e interpretações feitas pelos informantes. Outras vezes, só o
tempo e uma maior convivência com o grupo me possibilitou maior clareza nas análises.
Nesse sentido, os estudos de Clifford Geertz (2003, p. 89) ligados à antropologia
semiótica foram importantes para nós, entre outras coisas, por questionar nossas pretensões:
(...) o etnógrafo não percebe – principalmente não é capaz de perceber
aquilo que seus informantes percebem. O que ele percebe, e mesmo assim
com bastante insegurança, é o que, ou por meio de que, ou através de que
(ou seja, lá qual for a expressão) os outros percebem.
12
Um dos autores que dá origem a esses estudos é M.Bakhtin “Trabalhando os Conceitos de Dialogismo e
Polifonia”, em uma de suas obras: Marxismo e Filosofia da Linguagem. Hucitec, São Paulo, 1992.
30
Em alguns momentos, de forma equivocada, tentamos ser um deles – “estar na pele do
nativo” –, o que acarreta confusões de ordem prática e conceitual, e nem sempre nos aproxima
dos informantes. Como diz Geertz (1989): nossa tentativas de ser o outro não encobrem para
o outro a nossa natureza. Nossos valores (ethos) e nossa visão de mundo são o nosso quadro
de elaboração das coisas, nossas formas de entender e acreditar. Nesse sentido, estar com o
outro é colocar-se nesse campo de confronto.
Geertz (2003, p. 89), ao analisar suas experiências de pesquisa junto às sociedades
javanesa, balinesa e marroquina, responde parte de nossas dúvidas acerca da postura do
pesquisador diante da interpretação da realidade dos informantes:
E, em cada um dos casos, tentei chegar a esta noção tão profundamente
íntima, não imaginando ser uma outra pessoa – um camponês no arrozal, ou
um sheik tribal – para depois descobrir o que este pensaria, mas sim
procurando e, depois analisando as formas simbólicas – palavras, imagens,
instituições, comportamentos – em cujos termos as pessoas realmente se
representam para si mesmas e para os outros, em cada um desses lugares.
Penso que esta postura metodológica deve acompanhar o pesquisador mesmo em seus
momentos de rotina, na coleta de dados ou em contato informal, momentos esses em que o
universo do outro pode se revelar de forma mais espontânea para ele, sem, contudo haver uma
exigência de verdade sobre o outro.
Nesse sentido, a escolha dos instrumentos e as formas de registro não devem ser
negligenciadas num estudo etnográfico e precisam estar cuidadosamente entrelaçadas no
processo de análise e escrita do texto.
Esse foi, na verdade, um dos meus grandes desafios, quando me vi diante de uma
quantidade de dados, falas, registros de campo, entrevistas, todos produzidos no dia-a-dia da
pesquisa, e que necessitaram de um trabalho atento de leituras e cruzamento dos conteúdos
das diferentes formas de registro. Era necessário um olhar e uma escuta sensível, para que
31
detalhes importantes não fossem esquecidos e não fossem apresentados detalhes em
abundância, já que tudo é significativo.
Por outro lado, a presença dos sujeitos não poderia ser uma “aparição cênica no texto”,
onde, em alguns momentos necessários, suas falas aparecessem para ilustrar as afirmações.
Minha tentativa foi no sentido de trabalhar com os sujeitos “falantes” – as mulheres
descarnadeiras e os pescadores e seus fragmentos de textos - sem contudo deixar de incluir
outros sujeitos, que surgiam nos processos de registro do diário de campo, através das
conversas informais com a comunidade.
Ou seja, o relato das mulheres e de alguns
pescadores constrói toda a análise do estudo, mas inclui todos os outros sujeitos que falavam
no processo de pesquisa de campo. Desse modo me ative bastante à análise do material de
registro – diário e relatórios de campo, além das entrevistas.
1.4
As categorias de análise - caminhos para dialogar com os “sujeitos”
No presente estudo destacamos duas categorias de análise: Trabalho e Lugar, e uma
sub-categoria: Saberes Patrimoniais. A definição deu-se a partir da temática e da emergência
no trabalho de campo. Para análise das questões relacionadas ao trabalho, escolhi concebê-lo
em duas dimensões: aquela que o define no seu sentido ontológico – a dimensão criadora da
vida humana, entendida como fonte originária de realização do ser social; desse modo,
pensado como uma atividade importante e criadora da vida, necessária a todos os seres
humanos, constituindo-se num modo de socialização e num direito a ser aprendido desde a
infância, destacando, desse modo, a dimensão educativa do trabalho. Numa outra dimensão
está aquela que o analisa na sociedade capitalista, em relação a sua dimensão
histórico/concreta. Essa que se traduz na forma assalariada, fetichizada, na produção de
32
valores de troca e na reprodução do capital, tendo como resultado a exploração de mais-valia
e a submissão aos processos de alienação e reprodução das desigualdades.
Os autores com quem dialoguei nesse percurso teórico, para entender os diversos
sentidos do trabalho pelos sujeitos da pesquisa, aparecem ao longo das discussões, nos relatos
dos informantes das minhas análises no decorrer do texto, em especial no quarto capitulo.
Destacamos como principais autores para as discussões estruturais do tema: Marx
(1983), Antunes (2003), Frigoto & Ciavatta (2002) e Enguita (1989), Diegues (1983). A
reconstrução das trajetórias de trabalho das mulheres, que emergiram no processo de pesquisa
de campo, direcionaram a construção dos sentidos atribuídos pelos sujeitos ao trabalho na Ilha
de Itaoca.
No trabalho com a categoria lugar, destacamos as análises que o definem como
constituidor dos sujeitos, de sua memória, do seu olhar e de seus afetos. Aquelas análises que
entendem lugar nas suas relações políticas e estruturais, aliadas com o modo capitalista de
gestão do espaço urbano. Assim, buscamos trabalhar as questões relacionadas ao uso e gestão
dos espaços e suas conseqüências na vida dos sujeitos e na relação com os ecossistemas
naturais.
Os principais autores com quem trabalhamos foram: Milton Santos (1997) e Yfu-Tuan
(1980).
Nas análises que falam da relação do homem com os ecossistemas naturais, a subcategoria que emergiu no processo de campo foi Saberes Patrimoniais, relacionada aos
conhecimentos e práticas das populações tradicionais - como os pescadores artesanais que, em
contato com os ecossistemas naturais, acumulam conhecimento sobre as regiões, seus ciclos
naturais, a reprodução e migração das espécies. Conhecimentos esses desqualificados em
relação a um predomínio do saber tecnológico em detrimento de práticas tradicionais e de
33
poder de gestão dessas populações. Os autores referenciados no trabalho com esta categoria
foram: Diegues (1983) e Cunha (2004), Abreu e Chagas (2003).
1.5 Estratégias e instrumentos
A pesquisa combina dados oriundos das seguintes fontes: estatísticas oficiais,
documentos e relatórios de instituições de pesquisas e seminários, notícias em periódicos,
fontes bibliográficas e principalmente entrevistas e registro etnográfico. Para organizar
melhor os momentos da pesquisa e os processos de coleta de dados e análise dos materiais,
estabeleci as seguintes etapas:
Etapa I
Mergulho no tema – que se constituiu em leituras de documentos e
bibliografia sobre a pesca e trabalho; visita às comunidades e entidades
representativas; conversas com a liderança e representantes de instituições
públicas ligadas à política de pesca; participação em eventos culturais com
os pescadores, leituras teóricas e análise documental referentes à história
de São Gonçalo e à situação ambiental da Baía de Guanabara.
Etapa II13
Escolha do lugar – definição do local da pesquisa e contato com os
primeiros informantes; escolha das famílias e realização das primeiras
entrevistas; levantamento bibliográfico sobre a história de São Gonçalo,
através de pesquisa de fontes primárias, periódicos e jornais locais, além de
teses e dissertações. Aqui também estão as conversas com os moradores
mais antigos sobre a história local.
Etapa III
Perfil da Ilha – para montagem do perfil sócio-econômico da Ilha, foram
feitas consultas em secretarias municipais de São Gonçalo, Prefeituras,
IBGE, FEEMA, Fundação Getúlio Vargas – (CIDS).
Intensificação das visitas de campo e trabalho de registro.
13
Nesta fase fui auxiliada por uma aluna do Curso de História da UFF, moradora de Itaoca: Alexandra Lima da
Silva.
34
1.5.1 Escolha dos entrevistados e suas famílias14
Passei a percorrer as praias e locais da Ilha, acompanhada do meu primeiro
informante, que me apresentou a algumas mulheres que trabalhavam com o descarno do siri e
alguns pescadores.
A escolha das mulheres a serem entrevistadas deu-se a partir desses contatos, ocasião
em que estabeleci os seguintes critérios:
š
as mais antigas moradoras da Ilha, que trabalhassem como descarnadeiras;
š
mulheres pertencentes aos grupos familiares de pescadores artesanais mais antigos e que
já realizaram trabalho como descarnadeiras.
A princípio selecionei cinco famílias moradoras da região (centro de Itaoca e Praia da
Luz), indicadas por uma liderança do grupo de mulheres.
Além das entrevistas com as famílias, também foram realizadas entrevistas com as
lideranças das instituições locais e pescadores da região.
Cabe ressaltar que no processo de trabalho com os dados da pesquisa não optei em
centrar a análise a partir das famílias; considero este aspecto, no entanto, um assunto
importante, merecedor de estudos posteriores. O que fiz na organização do capítulo IV foi
organizar as falas por grupos familiares, em alguns momentos do texto, respeitando o
contexto original das entrevistas na roda.
1.5.2 Contexto e organização das entrevistas
As entrevistas eram gravadas obedecendo a um breve roteiro de questões, em caráter
de conversa coletiva ou individual. Foram realizadas nos espaços de trabalho e moradia
14
Na escolha das famílias fui auxiliada por um membro da liderança local que possui um registro nominal das
descarnadeiras de Itaoca e que fez parte da diretoria da Associação de Pescadores da Praia de São Gabriel.
35
(quintais das casas e na “roda de siri”). Também foram realizadas entrevistas com técnicos de
instituições públicas, associações de pescadores e lideranças locais de mulheres.
Realizei um total de 20 entrevistas, num universo de 12 mulheres e 4 homens,
membros de seis famílias locais.
No corpo do trabalho o conteúdo das entrevistas e dos registros aparece das seguintes
formas:
š
Trechos das entrevistas, apresentadas individualmente no decorrer do texto de pesquisa.
š
Organizadas na forma de diálogos, respeitando o contexto de realização das mesmas (na
roda), nominadas de forma coletiva, sem identificação de falante.
As falas anotadas do diário de campo aparecem em diversos momentos do texto junto
com as entrevistas, sinalizadas pelo destaque: "diário".
Os informantes ou sujeitos da pesquisa receberam as seguintes caracterizações:
š
Descarnadeiras: mulheres que trabalham diretamente com a extração de carne do siri ou
que já trabalharam e pertencem as famílias entrevistadas.
š
LideranÁas: representantes do grupo de mulheres e de pescadores.
š
Pescadores: integrantes dos grupos familiares entrevistados e/ou do grupo de pescadores
local.
A identificação dos nomes deu-se pela escolha dos próprios entrevistados, mantendo-
se o nome verdadeiro para aqueles que fizeram questão de não utilizarem outros nomes.
1.5.3 Formas de registro
O registro era feito através do diário de campo e fotos do trabalho das mulheres e dos
lugares da Ilha. As visitas de campo eram mais para esses registros e/ou entrevistas, e o tempo
36
despendido de acordo com os encontros estabelecidos ou com as necessidades que surgiam.
Houve idas aleatórias, para participar de eventos culturais e de lazer dos pescadores.
Através das entrevistas com as mulheres busquei reconstruir os itinerários sociais e
experiências dessas mulheres, entre a infância e a vida adulta, mediados pelo trabalho na
pesca.
Desse modo tentei construir, pelo que revelavam através das memórias, a história da
infância e do trabalho na Ilha de Itaoca (passando também pela história do próprio município
de São Gonçalo).
1.6
Processo de trabalho
Ao iniciar o trabalho de entrevista com as mulheres, depois de um tempo de visita à
comunidade, eu não tinha ainda calculado a complexidade do processo e todos os momentos
que percorreria; havia uma certa previsibilidade não assegurada.
Defini a priori que trabalharia com as entrevistas e observações, aproveitando os
espaços de vida e trabalho das mulheres descarnadeiras e dos pescadores. Acabamos por
incluir também outros sujeitos além das descarnadeiras, por entender a importância desses
para uma compreensão mais ampliada do contexto de vida e trabalho na Ilha. Além disso, o
trabalho no beneficiamento do siri envolve homens e mulheres, o que só constatamos no
decorrer da pesquisa. Neste processo emergiram a “roda de siri” e o “salão de cabeleireiro”.
1.6.1 Os sentidos da roda
A roda lembra um lugar de aproximação, de aconchego; lugar onde se juntam para
trocar algo, trabalhar, contar histórias, contar um segredo, jogar, brincar. Na riqueza de nossa
37
língua, diversos são os sentidos da roda. Para nós a definição de maior importância foi aquela
que conceitua a roda como sendo um grupo de pessoas que mantêm relações de amizade,
reunidas em torno de alguma coisa (COSTA, 1967).
O hábito de sentar em roda vem de nossa ancestralidade, do homem primitivo, que se
reunia em volta da fogueira para se aquecer e alimentar-se. Incorporam-se também as
memórias de infância na espacialidade das ruas e dos quintais. Em nossa pesquisa a
denominação roda de siri surge da experiência do pesquisador e incorpora-se aos poucos à
linguagem dos grupos, no desenvolvimento do trabalho de campo. Não era comum na Ilha a
denominação de "roda de siri" para referir-se ao trabalho das mulheres na extração da carne
de crustáceo. Logo que cheguei na Ilha de Itaoca, percebi que aquela era a forma das
mulheres se reunirem para trabalhar, na maior parte dos grupos. Sentadas em pequenos
caixotes, bancos ou cadeiras, nos quintais, por vezes acompanhadas dos filhos, e munidas de
pequenas facas e de caixas de plástico, onde armazenam o siri cozido para o descarno, elas
passavam horas de seus dias trabalhando.
Quando o trabalho é abundante (tem muito siri) é comum solicitarem a ajuda de
vizinhos ou parentes para dar conta da caixa. Essa ajuda pode ser ou não remunerada. Nessas
ocasiões, o termo utilizado pelas descarnadeiras para designação da tarefa é de se “estar
tirando siri para...”. Ao contrário de quando estão trabalhando em sua própria tarefa – “tirando
o meu siri”.
Embora o trabalho seja realizado de forma coletiva, a tarefa é individualizada, assim
como a remuneração. Cada roda de siri tem suas caixas com quantidades de crustáceo
especificadas para cada mulher. Desse modo, quando há mais abundância do produto uma
descarnadeira mais ágil pode assumir mais caixas para “tirar siri”, ou solicita ajuda para
aumentar a sua produção, ou ainda pode dar uma quantidade de siri da sua caixa para outra
companheira. O trabalho dos homens consiste em pescar (“apanhar”) o siri, cozinhá-lo e
38
distribuí-lo para “suas” descarnadeiras. Cada mulher, segundo a terminologia local, “tira” siri
para um pescador.
Algumas rodas são compostas por famílias que trabalham na pesca, outras por
vizinhos. A roda de siri é uma forma de reunião basicamente para exercer atividades de
trabalho coletivo, mas também funciona como forma permanente de encontro de
determinados grupos.
Percebi isso quando, em dado momento da pesquisa, andava pela comunidade
acompanhada de minha informante, buscando conhecer algumas famílias de pescadores mais
antigas da Ilha. Ela me levou a conhecer uma das famílias mais antigas que trabalhavam com
pesca, a família de Dona Idalina. Hoje nome de rua, em homenagem a essa senhora que
faleceu aos cem anos e que também foi descarnadeira.
Ao enxergar de longe as mulheres em roda, fiquei entusiasmada, pois sabia que ali
havia siri e elas estavam trabalhando. Fomos saudadas de longe e nos convidaram a entrar.
Qual não foi a minha surpresa? Ao ser apresentada pela minha informante, uma das mulheres
me disse um pouco constrangida:
_ Que pena, hoje não estamos trabalhando. Não tem siri! Quando não tem
siri a gente se reuni pra jogar “víspora” valendo cerveja. Assim passamos
o tempo e mantemos a roda.15
Entendi que as rodas que via nos quintais, sempre que passava a pé ou de ônibus, iam
além de uma forma de reunir as mulheres para o trabalho de descarno do siri: era também uma
forma de alguns grupos se reunirem nos quintais para conversar, jogar, dividir a vida.
Sinalizava também ausência ou existência de trabalho. Quando o siri sumia (conforme o
termo usado por elas) então me era sinalizado que não havia trabalho e as “rodas de siri” iam
sumindo. Ficava então mais difícil de encontrar as pessoas nos quintais, as possibilidades de
15
Descarnadeira – registro diário
39
novas entrevistas minguavam. A Ilha ficava mais silenciosa e triste. Perguntei então à minha
informante porque então as mulheres não mantinham a roda na época em que o siri sumia, ao
que ela me respondeu:
_ Ah! Não .... sem trabalho o povo fica triste. Uma coisa é um dia ou outro
sem siri. Elas precisam trabalhar em outra coisa pra ganhar dinheiro.
(Valentina)
O tempo da pesquisa de campo (quase dois anos na Ilha) me permitiu vivenciar os
momentos em que as rodas de siri existiam (havia trabalho) e deixavam de existir (não havia
trabalho). Desse modo as descarnadeiras buscavam alternativas de trabalho, como serviços
domésticos, de acompanhantes, vendedores ambulantes, faxineiras, etc., fora da Ilha.
A roda trazia também outras pessoas para as conversas, além das entrevistadas. Trazia
as crianças, os vizinhos, os parentes. As transcrições das fitas às vezes eram difíceis, já que
muitas falavam ao mesmo tempo (vizinhos, familiares, crianças). Todos participavam das
entrevistas, o que eu não inibia, afinal aquela era a dinâmica da roda: inclusiva, lúdica,
coletiva. No espaço da roda as entrevistas fluíam com mais facilidade, auxiliadas também
pelo próprio movimento do trabalho.
_ ... e outra coisa, quando a gente tá catando siri a gente não fica
prestando atenção no gravador. A gente continua catando e vai falando o
que vem, entendeu?16
(Chana)
Na praia da Luz, por exemplo, a roda de siri não era no quintal de uma casa, mas no
espaço externo de uma espécie de vila de casas junto a um bar. Ali, diferente do que eu
encontrava no centro de Itaoca, a participação dos homens na conversa e no processo da
entrevista era maior. Algumas vezes a própria entrevistada solicitava a participação de um
16
Descarnadeira – trecho da entrevista
40
pescador ou vizinho por considerá-los detentores de informações importantes para a pesquisa,
no que se referia a pesca. Foi assim que o Sr. Paulinho entrou na entrevista que realizava com
Telma.
_ Chega aí ....essa menina tá fazendo uma pesquisa sobre a pesca aqui e
quer saber sobre os peixes ... a pesca daqui.17
(Telma)
Assim as próprias entrevistadas iam selecionando outras pessoas que julgavam
necessárias para o tema da pesquisa e chamando pra roda.
Iam me apresentando como a “professora que vai contar a história do trabalho com siri
aqui na Ilha”. Eu também aprendi a entrar na roda, com ou sem gravador, para conversar com
as mulheres. Eu também sentava no caixote a contar minhas histórias, ouvir a delas, anotar no
diário.
Havia rodas difíceis de entrar, onde penetrava quase como intrusa. Era um tipo de
roda onde o vínculo era uma espécie de contrato de trabalho entre um pescador, um
atravessador18 e as mulheres. A relação entre elas era de vizinhança, menos familiar. Uma das
entrevistadas participava dessa roda e eu ia lá para encontrá-la, já que as outras mulheres não
concordaram em participar da entrevista, por mais que insistisse. Aproveitava para brincar de
fotografia, quando elas gostavam mais. No entanto algumas nem ficavam na roda quando eu
chegava. Fiz três tentativas e nada...
Como não havia conseguido entrevistar essa mulher na roda de siri e sim em sua casa,
queria conversar com ela na sua roda de trabalho, solicitei então retomar alguns pontos da
entrevista. Ao que ela num gesto de segredo e intimidade me disse:
17
18
Descarnadeira – trecho da entrevista
Atravessador – refere-se àquele que compra a carne de siri na Ilha de um pescador para comercializá-la no
mercado.
41
_ ... Olha Cristina, eu prefiro que você não vá lá não....eu não me sinto a
vontade; a dona da casa não gosta...19
(Ivonete)
Era um outro tipo de vínculo na montagem da roda, onde as relações de trabalho não
se estabeleciam na unidade familiar, mas entre grupos de vizinhança contratados para o
trabalho, sob uma encomenda determinada. Cada uma tinha que dar contar da sua caixa de siri
para ganhar seu dinheiro.
As rodas também demarcavam territórios de trabalho. Embora não fosse vedado aos
homens o trabalho de extração da carne de siri, a tarefa na roda era basicamente das mulheres
– a tarefa de terra. A tarefa do mar – pegar siri – era dos homens. Entretanto nossa observação
e o desenvolvimento da pesquisa nos fez entender que os homens também entravam na roda.
Seu movimento, no entanto não era o de permanência, mas o de girar na roda. Passar na roda
trazendo o siri e ir embora levando o produto. Nossa opção foi pensar a roda e deixá-la na
pesquisa, compreendida na sua própria dinâmica: um espaço de vida e de trabalho de
mulheres e homens.
Assim percebi que as rodas eram também espaços de diversidades, de diferentes
formas de sociabilidade pelo trabalho.
1.6.2 O salão: um espaço de encontros
Outro espaço de encontro na comunidade que elegi como importante referência para
ampliar os espaços de conversas e registro foi o salão20 de cabeleireiro, situado num local
privilegiado de passagem, em frente ao CIEP, no centro de Itaoca.
19
20
Descarnadeira – registro no diário
O salão pertencia a uma das mulheres entrevistadas, que em sua infância trabalhou com siri. É filha de
pescador e de uma das antigas descarnadeiras, que também faz parte das entrevistas.
42
Em todas as visitas que realizava à Ilha eu parava antes no salão para conversar,
encontrar novas pessoas e saber das novidades. Ali passou também a ser o espaço onde eu era
apresentada a diferentes pessoas, o que me tornava também conhecida na comunidade. Muitos
ao serem apresentados sinalizavam que já haviam ouvido falar de uma professora que está
escrevendo a história da pesca na Ilha. Muitas das pessoas a quem eu era apresentada
voltavam a me encontrar em outros espaços e sugeriam nomes de pessoas da comunidade que
eles consideravam importantes para entrevistar. Outras vezes era nesse espaço que surgiam
discussões sobre as minhas descobertas, sobre as histórias contadas por alguns moradores, que
outros confirmavam ou desmentiam, como a polêmica sobre a ponte que liga a Ilha ao
continente – a Ponte do Rodízio:
_ Ah! Mais contaram a história errada pra senhora... essa ponte
nunca foi assim não. Esse nome é inventado; eu tô aqui há muito
tempo e sei.21
(morador)
Outras vezes a polêmica era sobre quem começou primeiro com o negócio de siri na
Ilha.
_ ... Foi seu Renato, o primeiro que eu ouvi falar.
(moradora)
_ ... Não, o primeiro foi o Sr. Juca pescador, pai daquelas meninas
ali que tira siri até hoje...
(moradora)
Minha informante também por vezes me aguardava no salão, para me acompanhar nos
passeios pela Ilha. Por um período eu andei na Ilha para conversar com as mulheres
acompanhada desta senhora. Abri mão desta estratégia ao perceber que sua presença interferia
21
Registro no diário – morador.
43
no processo de entrevista, já que as outras mulheres se constrangiam em falar de suas vidas na
presença de uma vizinha e que não estava na roda trabalhando. Por vezes precisei repetir
entrevistas sem a presença dela, para que as falas fluíssem com menos interferência. Fui
conduzindo aos poucos o meu processo de independência, tentando não magoar a minha
informante, já que ela havia sido bastante gentil e disponível para me acompanhar e indicar as
descarnadeiras para entrevista.
Aos poucos fui sinalizando que já podia andar sozinha na Ilha, e que as pessoas já me
recebiam em suas casas sem maiores apresentações. Ela também era a pessoa que mais
cobrava a minha presença e uma definição clara sobre os fins e os benefícios da pesquisa para
os moradores da Ilha, segundo uma visão com a qual eu dizia não concordar. Às vezes me
ausentava para escrever ou porque em períodos de chuva chegar a Ilha de ônibus era quase
impossível. Quando retornava, percebia o quanto isso a aborrecia. Eram necessárias novas
explicações, novos momentos de aproximação e conversa para que ela se desarmasse. Sua
insistência na devolução de um resultado concreto para a comunidade era uma conversa que
aos poucos também me contagiava. Passei a partilhar com ela do sonho de um dia ajudar na
criação da cooperativa de mulheres e a pôr os dados do meu trabalho à disposição disso. No
desenvolvimento do trabalho de campo e na percepção de complexidade das análises sobre o
lugar, a informante passou a compor o grupo de entrevistadas, pelo próprio papel que exercia
na liderança local. Desse modo surgiu um novo grupo no universo das entrevistas a que
denominei de lideranças locais. Estas situações de campo faziam-me refletir sobre as
estratégias de trabalho e o papel do pesquisador na relação com o outro. Nenhuma estratégia
de trabalho, menos ou mais participativa, dá conta de minimizar e transpor as questões em
relação ao lugar do pesquisador e do informante - do “nativo” e do “não nativo”. Das
expectativas sobre a produção acadêmica e sua função social.
As demandas daquela
comunidade em relação à melhoria das suas condições de vida são muitas e, desse modo,
44
todos que chegam de fora são vistos como possíveis aliados dessa luta ou como possibilidade
de conquistas, de ganhos coletivos e individuais.
Portanto, as desconfianças sobre as minhas intenções eram proporcionais à confiança
que depositavam na minha capacidade de poder dar conta de seus problemas.
No salão, as conversas constantes me ampliavam a visão sobre a comunidade e seus
moradores e dava-me suporte para novas conversas na roda de siri.
Mesmo após o término do trabalho de campo, o espaço do salão ainda permaneceu
como meu ponto de encontro com os sujeitos da pesquisa.
1.6.3 As entrevistas e outros registros
Entrevistar as mulheres, ainda que em espaços coletivos e informais, não constituiu-se
em tarefa simples. Lidar com a delicadeza dos depoimentos sobre vida, trabalho, família,
infância e política pesqueira. Tudo isso circunscrito a um espaço ao mesmo tempo coletivo e
familiar, íntimo.
Em alguns momentos, a emoção dos depoimentos de vida contagiava tanto o grupo,
que a entrevista não prosseguia. Outras vezes a informação era tão íntima que exigia que o
gravador fosse desligado ou que aquilo não fosse transcrito posteriormente.
Ainda que eu não tenha como proposta discutir a questão de gênero, de forma
profunda, meu estudo lida com o universo feminino e isso atravessa as entrevistas. A vida
daquelas mulheres por vezes se “escancarava” na roda de siri.
Percebi que certos detalhes eram escondidos nas entrevistas, tais como: situação da
união conjugal, baixa escolaridade, analfabetismo, abandono do companheiro. Desse modo eu
precisava perguntar sobre esses detalhes em momentos mais informais ou fora da roda.
45
As entrevistas com os pescadores e lideranças, embora fossem feitas às vezes na roda,
fluíam sem maiores interferências ou pausas.
Algumas entrevistas foram concedidas depois de um processo de conquista e
estabelecimento de confiança, outras foram no primeiro contato. As conversas informais com
anotações no diário eram os recursos permitidos para que se aproveitassem todos os
momentos. Algumas vezes simplesmente escutar e participar do momento da conversa era
mais fundamental que escrever no diário ou gravar.
Eu ia me surpreendendo com minha própria memória. Das lembranças de textos
inteiros, registrados em momentos posteriores, nos meus relatórios de campo.
Pelas características da pesquisa etnográfica, a emergência de dados significativos não
surge de forma relevante apenas no processo da entrevista, mas também nos momentos de
interação e vivência do pesquisador com o grupo, nas andanças pela comunidade, nas
observações participantes. Na própria escolha de condições, de escuta do outro.
Na verdade, a entrevista apóia-se também em outros recursos, além da fala do
entrevistado, para obter dados complementares, checar outros dados e ampliar assim o quadro
de análise (ZAGO, 2003). A escolha do local para a realização das entrevistas pode facilitar
ou produzir constrangimentos, ou ainda, auxiliar nas observações que não precisariam, assim,
de perguntas. Como exemplo, as análises das condições sócio-econômicas das famílias, suas
condições de moradia, hábitos etc., e que são muitas vezes mascaradas nas falas no processo
da entrevista.
Refletindo sobre essas questões, decidi que conhecer a comunidade, as casas das
mulheres entrevistadas e suas famílias, e realizar algumas entrevistas nessas residências, além
da roda de siri, também auxiliaria no processo de análise da vida dos sujeitos e de suas
representações. Foi interessante observar em algumas entrevistas o modo como se referiam a
46
sua condição de moradia, ressaltando e, às vezes, exagerando qualidades que para mim seriam
percebidas como precariedade ou ausência, se eu não tivesse conhecido suas casas:
_ Minha casa é essa aqui. Olhando bem a minha casa é a melhor que tem.22
(Telma)
Cheguei a perceber um tom de “fantasia”, de projeto, que não correspondia à
realidade vista.
Em outras, um certo constrangimento pelas condições precárias das
habitações.
Ao entrar na casa de uma das entrevistadas para ir ao banheiro, por exemplo, percebi o
quanto sua descrição na entrevista sobre suas condições de morada não correspondiam à
realidade, na verdade era um projeto, uma fantasia. Ela, no entanto, não queria me revelar sua
intimidade de vida, que a meu ver poderia ser entendida como precariedade de condições.
Rapidamente arrancou-me da casa e me arrastando pela mão, conduziu-me ao banheiro da
vizinha, sob o argumento de que o seu banheiro, naquele dia, não estava em condições de uso.
Não era somente uma questão de limpeza ou desarrumação; me pareceu, apesar da rapidez do
meu olhar, interrompido pela intervenção da entrevistada, que não havia propriamente um
banheiro, com limites de parede e porta. Fingi não perceber nada e nunca mais a porta esteve
aberta quando eu estava ali. Nosso espaço de convivência era somente do lado de fora, na
roda de siri, embora nossa relação e intimidade tivessem se estreitado eu não senti espaço para
tocar no assunto.
Segundo Sarti (2003, p:13) :
Na pesquisa etnográfica, o contexto no qual se busca situar o fenômeno
estudado é o mundo de significado do sujeito pesquisado, o ponto de vista
do nativo (...).Trata-se de se abrir para a maior aproximação possível, na
22
Descarnadeira – trecho da entrevista
47
busca do ponto de vista do outro, que dá significado ao fenômeno por ele
vivido.
Minhas anotações no diário de campo, os relatórios de visitas, as conversas não
gravadas na roda de siri, as conversas no salão de cabeleireiro (ponto de encontro das
mulheres e dos homens), as andanças na comunidade, fazendo fotos constituíam-se em
elementos fornecedores de dados e pistas importantes, além das entrevistas. Eram eles que
sinalizavam os avanços, os recuos, as mudanças de rota e os sentidos atribuídos às coisas
daquele lugar.
Esse processo permitiu um melhor entendimento sobre o universo cultural daquela
comunidade e do trabalho na pesca, principal atividade da Ilha. Como eles costumam dizer
aos de fora: “pescador é desconfiado, não fala a qualquer um”. Desse modo eu precisava de
um tempo de apresentação para o estabelecimento de laços de “afeto e confiança”. Passei a
ser reconhecida e apresentada como a professora que vai contar a história da Ilha e do
trabalho no siri. A entrada nas casa com tranqüilidade, quando a roda de siri estava montada,
sinalizava uma aprovação, uma confiança do grupo, uma permissão para a entrevista.
As entrevistas gravadas fluíam melhor e percebi que elas se prolongavam e incluíam
outras pessoas. Outras vezes, mesmo com todas as apresentações e recomendações, eu era
friamente recebida, ou então eles forneciam as informações que eu queria, mas não assumiam
participar da pesquisa. Indicavam outros ou saíam de “fininho”. As entrevistas gravadas
pareciam uma ameaça, uma exposição; eu não insistia, optava por conversas informais e
anotações no diário.
O processo de construção da pesquisa implica uma interdependência dos diversos
procedimentos associados para obtenção e análise dos dados, passando pelo entendimento da
realidade e pela análise dos resultados. Zago (2003) nos chama a atenção para o fato de a
48
entrevista se inscrever em um quadro conceitual específico, que a enquadra sem, porém,
amordaçá-la como uma técnica destituída de princípios, fundamentos e reflexões.
Na verdade, a construção dos dados e a realidade das próprias análises passam, sim,
pelos instrumentos e estratégias metodológicas, mas se efetivam na prática da pesquisa e no
trabalho do pesquisador diante da realidade cultural, social e lingüística dos informantes.
Comecei a vivenciar alguns momentos com as mulheres em espaços da comunidade,
inteiramente à vontade e sem a preocupação de ligar o gravador ou anotar no caderno. A
entrar na roda de siri para conversar, sem um propósito de entrevista. Estar no salão
conversando com as mulheres da comunidade sobre suas vidas e histórias; parar nos bares
para fazer um lanche e travar uma conversa e conhecer novos moradores, falar da pesquisa.
Busquei esta estratégia ao perceber que nossa relação precisava amadurecer para que
elas tivessem confiança em me conceder um depoimento gravado. O diário de campo também
era uma ameaça, uma curiosidade que por vezes suscitava perguntas:
_ Cristina o que você tanto escreve nesse caderninho? Olha, não vai dizer
que eu falei essa besteira tá?... 23
(Valentina)
Somente quando já havíamos estabelecido um maior contato pude entrevistar alguns
grupos e anotar no diário na frente das pessoas. Em outras ocasiões as situações pegavam-me
de surpresa e eu tinha que encontrar uma forma de não perder o depoimento, mas ao mesmo
tempo não constranger as pessoas.
Em uma das muitas ocasiões, a situação de saúde de uma das entrevistadas não
permitia que ela se emocionasse. Seu depoimento era importante e ela estava mobilizada,
tensa, preocupada em não me decepcionar. Já havíamos iniciado uma entrevista interrompida
por problemas na fita. Sua disponibilidade era tanta que me entregou uma entrevista
concedida a outros pesquisadores.
23
Moradora – registro no diário
49
Sua família então me sinalizou que não permitiria que ligasse o gravador, já que isso a
deixaria tensa. Afinal ela concedia entrevistas toda semana, diziam eles.
Aos poucos a entrevistada já havia se acalmado e falava tranqüilamente sobre a
história do lugar, sua profissão. Então combinei que prestaria muita atenção e depois faria o
registro. Ao retornar no outro dia, conferimos seu depoimento para ver se havia esquecido
algum detalhe de sua fala. Sua avaliação foi de que eu estava mesmo muito interessada no
"papo" dela, já que não perdi nada, “lembrei de tudo”.
Este episódio me aproximou da senhora e de seu grupo familiar. Tais momentos me
faziam avaliar a relação entre pesquisador e informante. Existe uma interferência dos mais
variados elementos, além das trocas que se estabelecem entre as pessoas. Cada entrevista é
uma experiência diferente, não se repetem momentos. O que é dito numa entrevista não
existia antes, não estava pronto, elaborado, foi produzido no momento, naquela relação. O
conteúdo vai além do texto escrito, está nos gestos, nas produções de sentidos, nos acordos,
nos turnos do diálogo.
Desse modo, a informação nunca era produzida duas vezes da mesma maneira, mesmo
durante a mesma entrevista. Uma nova fala, uma nova lembrança, um novo detalhe, podiam
provocar outras produções de dados e conversas. São momentos únicos. Embora falem de
coisas, de percepções pessoais, de trabalho, de vida cotidiana, ali estavam presentes os
elementos do grupo, do coletivo, do lugar Itaoca. Aquilo que me era dito numa entrevista
poderia ser dito a outros pesquisadores, a outras pessoas de suas relações. O que diferenciava
essas falas não era o conteúdo, mas os momentos de sua produção. Como me disse uma das
descarnadeiras, ao iniciarmos uma conversa sobre marcação de entrevista:
50
(...) _ a gente fala disso todo dia, conversa com os outros, com os vizinhos
mas não pára prá pensar. Quando você pergunta aí .... Sei lá, é diferente.24
(Tauana - diário)
Outro momento eu perguntava o porquê de se sentarem em caixotes para descarnar o
siri, ao que uma das escarnadeiras na roda respondeu:
_ Ah, sei lá menina! Agente senta nisso há tanto tempo que eu nem sei. Taí
um negócio pra eu pesquisar e te responder.25
(Chana - diário)
Embora se fale do cotidiano, das relações conhecidas, seja no universo de trabalho ou
de vida, o que se fala no momento da entrevista é elaborado, atravessado pela presença do
pesquisador. A entrevista permitia arrancar as pessoas do seu cotidiano, do aparentemente
conhecido, repetitivo, mas que pode ser pensando e visto de outro modo. Nesses momentos, a
mim também eram revelados ângulos, matizes da realidade e dos possíveis caminhos
interpretativos.
Como o trabalho tocava nas memórias da infância, o exercício de procurar, recordar
fatos vividos de forma coletiva ou individual acabava por organizar um processo de análise e
interpretação dos fatos de maneira diferente de momentos anteriores na vida daquelas
mulheres. Em outros momentos, a presença de outros atores, nas entrevistas coletivas,
produzia processos de organização coletiva dos fatos, de reordenamento das idéias e da
memória do grupo.
Em algumas ocasiões produzia-se uma discussão no grupo sobre algum fato. Nestes
momentos eu podia perceber a preocupação do grupo com a veracidade que deveria ser
24
25
Descarnadeira – registro no diário
Anotações diário
51
apresentada, ou a possível revelação de “zona de segredo”. Era necessário um consenso para
que elas se sentissem seguras em me passar aquela informação. Isso acontecia sempre que iam
falar de fatos relacionados às histórias da Ilha e das famílias. Certa vez, no processo de
escolha das famílias, fui acompanhada de minha informante até a casa de uma das famílias
indicadas. Fomos carinhosamente recebidas e começamos uma conversa muito informal.
Dessa conversa surgiu a história da morte de Luz del Fuego (freqüentadora da Ilha), e que,
segundo contam, o acusado do crime era um pescador morador de Itaoca. Conforme a
informante insistia no assunto eu ia percebendo o constrangimento das mulheres. Até a frase
reveladora de uma delas: “Isso não é assunto pra entrevistas”. A conversa não continuou no
mesmo tom e pouco depois foi encerrada.
Não consegui mais me aproximar dessa família. Foi quando também avaliei que a
presença da informante era algo em que eu deveria pensar e cuidar melhor.
Outras vezes, os fragmentos da memória de cada uma acabavam por tecer uma história
completa, mais rica em detalhes. Os nomes dos personagens das histórias da comunidade
davam origem a “teimas” constantes. Uma perguntava a outra, que perguntava a outra. A
história ia passando na roda, até dá-se por completada.
Numa das “rodas de siri” surgiu à história de um “porco que comia gente”. Gente que
segundo elas, “morriam de morte matada”. A história foi contada em pedaços durante muitas
conversas. Só depois de muito repeti-la e de passar um bom tempo (quase seis meses), a
história se completou; produziu-se um contexto e lembrou-se até do nome do porco. Era na
verdade uma “zona de segredos”, tocava num tempo e em situações ainda proibidas.
_ Mãe, como é que mesmo o nome do porco? Mãe lembra?
_ Não lembro não... essa história não presta pra contar.
(Chana, Tauana)
52
_ Tupã. Era Tupã. Que quando o bicho morreu ninguém pôdi cumê da
carne. O bicho apodreceu em poucos minutos...era um mau cheiro, menina.
26
(Tauana)
Segundo Caldeira (1984, p. 144) num dos trechos do seu trabalho, quando discutia a
relação do pesquisador com o informante e a busca por processos de estruturação e análise das
entrevistas:
É justamente neste procurar, e na articulação dos elementos encontrados,
que se constrói uma interpretação que é, em geral, uma ordenação original
de coisas velhas, de pedaços de imagens, experiências, opiniões, etc., que a
memória guardou. Esta interpretação, produto de um momento especial,
apresenta-se como um discurso organizado e é uma visão mais global do
que se pode ter do cotidiano.
A mesma autora nos chama a atenção para o processo de trabalho com as entrevistas e
com outras formas de registro. É necessário, segundo ela, não só a análise minuciosa de cada
entrevista, mas também o cruzamento com outras fontes interpretativas, que possam auxiliar
na compreensão do universo social, político e cultural da comunidade e de seus sujeitos.
Vivências nos grupos, participação em eventos, conversas informais produzem informações
importantes e constroem análises significativas, dependendo do suporte teórico e da
capacidade de observação e interpretação do pesquisador.
São escolhas feitas a priori, na definição da metodologia, mas que só se efetivam no
processo de trabalho do pesquisador com os informantes e com os dados.
É necessário
ver a realidade do campo como um conjunto de pistas metodológicas que precisam ser
exploradas e partilhadas com os informantes. Ao querer entender, por exemplo, sobre o
universo de trabalho e relações na pesca, me foi necessário um tempo de leitura de outras
26
Descarnadeiras – Trechos das entrevistas
53
realidades, conversas com lideranças do setor e, principalmente, amadurecimento no processo
de entrevista e relação com as mulheres de Itaoca.
Existiam sutilezas, silêncios, omissões, difíceis de serem percebidas na análise das
entrevistas, no que tange ao discurso. Eram as situações variadas, que iam me dando pistas.
Algo dito numa conversa informal, mas não confirmado no processo de entrevista com o
gravador ligado. Algo que se dizia sobre uma prática, não se revelando nomes, embora se
afirmasse que não seria difícil eu descobrir de quem se estava falando. “Com o tempo você
saberá, pode se acalmar” (diziam). Na verdade com o tempo eu fui entendendo aquelas
“zonas de segredo”, aprendendo a estabelecer também as minhas zonas de segredo, revelando
só o necessário, o seguro.
Eram as mulheres que no processo de trabalho nas entrevistas iam me sinalizando:
“Cristina toma cuidado, que nem sempre o que se vê é. E às vezes você pode ver o que não
deve”. Balizar essas informações e fazer o processo de seleção necessário para analisar a
realidade foi um dos meus maiores desafios e aprendizagem. Com elas e com os pescadores
que conhecia, inclusive fora do contexto local.
Como nos coloca Geertz (1988), “distinguir um tique nervoso de uma piscadela” é
necessário para entendermos o universo cultural e simbólico dos grupos com quem
trabalhamos. Nosso entendimento era de que o universo da entrevista não é fechado. Nesse
sentido os dados de interpretação, a ampliação dos recursos de coleta de dados e registro
podem nos oferecer diferentes pistas para o entendimento de um fato. Entendia desse modo
que as entrevistas gravadas eram uma estratégia que facilitava o registro das histórias do
grupo e das análises das categorias, mas não era o único instrumento possível de trazer tais
informações.
54
O registro no diário, as conversas informais, os encontros casuais, uma interferência
ou participação no cotidiano da comunidade, muitas vezes me foram reveladores. Desse modo
tratei todas as formas de registro como fundamentais ao processo de análise.
Em um certo momento da pesquisa me deparei com a questão do “defeso”, e as
implicações disso para a vida dos pescadores e das pescadoras. Assunto que vinha tentando
entender durante as minhas participações nos encontros e reuniões sobre a política da pesca
em Niterói e São Gonçalo. A polêmica sobre a regionalização do defeso e o papel do IBAMA
frente ao tema. Nada me foi mais esclarecedor do que uma inesperada conversa com um
antigo pescador. Parei na padaria de sempre, pedi um sanduíche e um refrigerante. Iniciou-se
a conversa, puxada pelo pescador. Ele me contava da situação difícil por que passam os
homens que vivem da pesca. "Quando o peixe some, o jeito é arrumar um biscate".
Começamos a falar das questões ambientais da Ilha e chegamos ao assunto do defeso. Sua
fala foi esclarecedora.
O IBAMA vem e proíbe a pesca porque tá no defeso, é lei, tá certo. Aí eu
não pesco pra não arrumar encrenca. Aí depois eles liberam, aí eu vejo o
camarão pequenininho, dá dó. Eu não tenho coragem de pegar que eu não
sou contra a natureza. Aí eu me aperto, não ganho pra viver. O defeso do
IBAMA é igual em todo o lugar, mas a natureza não é igual em todo o
lugar. Se eu sei disso os técnicos não sabem? 27
Era em momentos como esse que o registro da situação e o contexto do diálogo eram
tarefas inadiáveis, sob o risco de não serem mais reproduzidas. Na verdade os pescadores
eram muito resistentes a concederem entrevistas individuais, formais; gostavam de, como
diziam eles – “falar assim pra ajudar a senhora a entender nossas vidas, a dureza do mar”.
Solicitar uma entrevista e pedir a gravar, aí era outra história. Eu precisava passar pelo
autorizo do espaço doméstico, ou dos outros “companheiros”. Era na verdade, antes, a
27
Pescador – registro no diário
55
entrevistada. Outras vezes, alguns vinham me contar um fato que julgavam importante, logo
que me viam passando. Davam-me novos nomes de pessoas que, segundo eles eram “boas
para senhora entrevistar”. Muitas vezes me encontrei vivendo uma das cenas do filme “Os
Narradores de Javé” e o texto de um dos personagens, ao discutir sobre a tal “verdade” dos
fatos e de sua cientificidade.
_ Uma coisa é o fato acontecido; outra coisa é o fato escrito. O acontecido
tem que ser melhorado na forma escrita, para que o povo creia no
acontecido...
Desse modo, percebi que a riqueza do processo de trabalho do campo era bem maior
do que os enquadres do texto e que o tempo me permitiriam.
1.6.4 Diário de campo ou o “meu caderninho”
O registro dava-se desde a minha viagem de ônibus até a Ilha, em um complicado
trajeto por uma estrada de terra, por vezes bastante esburacada pelas chuvas, o que me
auxiliava na análise e observação da vida daquela população. Afinal, de Niterói a Itaoca eram
quase três horas, entre trajeto e espera do ônibus.
Essas viagens me faziam experimentar as peripécias e sofrimentos que aquela
população vivencia diariamente, vítima de um precário sistema de transporte. Também
registrava as conversas que tinha com as mulheres e crianças no caminho da escola ou do
trabalho. A vida da comunidade, os locais de encontro, o cotidiano de violência e o
desrespeito dos serviços públicos, em especial os de transporte coletivo e urbanização, me
forneceram dados da realidade bastante importantes.
56
Aos poucos o meu “caderninho” (era assim que as mulheres o chamavam) passou a ser
também utilizado por elas e por outras pessoas com quem conversava, para registrarem suas
questões.
_ Cristina, anota isso aí no seu caderninho... Anota isso aí porque é
importante pra saberem o que a gente passa com esse ônibus.
As anotações estavam relacionadas à urbanização, à melhoria no sistema de
transportes. À melhoria nas condições de trabalho e renda. À falta de pavimentação, que
dificulta o trajeto a pé ou de ônibus, ou às dificuldades na pesca. Sentia-me como porta-voz
daquele grupo “para os lá de fora”:
_ Agora você vê menina ... eu com a mão toda cortada de siri. Não sei
quantos anos tirando siri. Vou na colônia e o .... fala que eu tenho que
apresentar comprovante de escarnadeira de siri pra tirar carteira. Eu
disse: comprovante é a mão cortada em 20 anos de trabalho.
(Descarnadeira)
A descarnadeira fala de sua tentativa de registro na colônia Z-8. Ela não fez parte do
nosso grupo de entrevistadas, entretanto achei importante o registro de sua fala.
No início, tentei esconder o caderno para que não intimidasse ou ameaçasse com a
falta de sigilo que um instrumento escrito representa. Aos poucos percebi a inutilidade e o
equívoco de meu gesto. Percebiam que quando eu não estava com o gravador ligado era a
caneta que registrava as falas.
_ Olha, tem uma senhora aí que você devia entrevistar. Sabe tudo da
história da Ilha e do siri, anota o nome dela.
(morador - diário)
Os relatórios posteriores às visitas também foram fundamentais para a análise dos
dados.
57
1.6.5 As fotos – as imagens do trabalho
Logo que comecei a trabalhar com as entrevistas fui fotografando as mulheres.
Primeiro como recurso de aproximação (ao retornar no próximo encontro eu trazia as fotos).
Depois, como estratégia de registro, tentando em alguns momentos me manter atenta àquilo
que considerava a imagem da pesquisa – as mãos de trabalho e o ambiente de vida e morada –
o lugar. Embora a qualidade do meu trabalho fotográfico fosse precária, optei por não utilizar
um profissional, já que a intenção era produzir um registro do trabalho e estreitar os laços
afetivos com as minhas informantes. Elas gostavam de ver suas fotos; ainda que emitissem
comentários críticos sobre si mesmas, acabavam gostando de ver sua foto como uma das
“eleitas” da pesquisa - com direito a registro de imagem. Ou seja, sentiam-se prestigiadas,
escolhidas. As fotos também serviam para registrar o mapa das famílias.
A “modelo” mais exigente era Dona Semirami, uma senhora de 92 anos28, muito
lúcida e vaidosa, a mais antiga moradora da Ilha. Ao receber suas fotos ela olha e franze a
testa, usando sua comum expressão e falando na terceira pessoa:
_ Uh! Uh! Pois não é... ela tá gorda. Tá muito velha a coitada... Uh! Uh!
Da próxima ela vai trocar de roupa.
As fotos sobre a Ilha me aproximavam das pessoas, já que algumas pediam cópias,
como as da Capela da Luz, por exemplo. Outras eram consideradas imagens das situações
problemas da comunidade, como as que registravam as grandes poças de água que formavam
o lamaçal, que dificultavam o trajeto a pé e de ônibus.
28
Semirami tem 93 anos mas pediu-me para botar na entrevista que tem 92. Segundo ela se vai estar escrito ela
quer ficar mais nova. "Por mim um ano faz diferença, então bota aí".
58
_ Cristina, cê qué fotografar lama? Vai lá perto da minha casa que você vai
ver o que é lama minha filha... é até arriscado cair com a máquina.
Aliás hoje vai ter uma reunião aí no CIEP pra discutir isso.”29
(moradora - diário)
Ou aquelas que registravam as pixações nas paredes definindo o “comando” do grupo naquela
área:
_ Hum...a foto tá legal mas esse cv aí pixa o nosso lugar cê não acha?30
(Valentina)
1.7 Perfil e história dos entrevistados
1.7.1 Família 1
Semirami - 93 anos. Viúva, filha de pescadores, casada com pescador. Realizou atividades de
pesca, e no mangue desde criança. É mãe de Bené e Carla. Avó de Cláudio, que é casado com
Alice. É uma das mais antigas moradoras da Ilha, sedo sua família uma das mais antigas na
pesca artesanal. Foi à escola (explicadora) onde aprendeu a ler, mas declara não saber
escrever, por falta de prática. É aposentada pelo INSS. Nasceu na Ilha.
Bené - 54 anos. Filha de pescador. É descarnadeira e artesã de rede. Cursou até a 7ª série.
Possui registro profissional. Exerce atividades na pesca desde criança. Hoje, dedica-se mais a
confecção de redes, Nasceu na Ilha.
29
30
Moradora – registro no diário
Liderança – registro no diário – Esta foto registra um grupo de clóvis no carnaval.
59
Carla - 58 anos. Filha de pescador. É aposentada pelo INSS. Exerceu atividades de descarne
desde a infância, mas empregou-se na área de saúde. Cursou até a 5ª série. Nasceu na Ilha.
Alice - 37 anos. Esposa de pescador (Cláudio). É descarnadeira e tecelã de rede. Cursou até a
5ª série. Possui registro profissional. Nasceu na Ilha.
Cláudio - 38 anos. Filho de pescador, neto de Semirami e marido de Alice. É pescador
profissional, trabalha desde criança na pesca artesanal. Já exerceu a profissão de torneiro
mecânico. Possui registro profissional. É vice-presidente da Associação de Pescadores da
Praia de São Gabriel. Possui 2º grau completo. Nasceu na Ilha. Gosta de contar histórias de
assombrações, de causos. Quer um dia escrever essas histórias. A avó Semirami proíbe, pois
tem medo de assombração.
1.7.2 Família 2
Ivonete - 53 anos. Filha de pescadores. É descarnadeira. Trabalha com pesca desde criança.
Possui registro profissional. Cursou até a 4 ª séria. Exerceu atividade informal em serviços
domésticos. É mãe de Juliana.
Juliana - 34 anos. Filha de pescadores. Foi descarnadeira quando criança e trabalhou como
babá. Hoje exerce a profissão de cabeleireira. Possui 2º grau completo. Não possui vínculo
empregatício nem registro de autônomo. Gosta de desenhar e pintar as paisagens da Ilha. Seus
trabalhos participam de exposições no CIEP de Itaoca e em São Gonçalo.
60
1.7.3 Família 3
Tauana - 68 anos. Descarnadeira. Filha de pescador. Trabalha desde criança. É mãe de Chana
e irmã de Iara. Não possui registro profissional. Cursou a 1ª série, mas não lê nem escreve.
Trabalha como acompanhante, de forma temporária. Nasceu na Ilha.
Chana - 34 anos. Descarnadeira. Trabalha desde criança. Já trabalhou como empregada
doméstica. Cursou até a 7ª série. Possui registro profissional. Gosta de participar de encontros
e discussões sobre a política de pesca em São Gonçalo.
Iara - 50 anos. Irmã de Tauana. É descarnadeira. Trabalha desde criança na pesca e em
atividades domésticas. Cursou a 1ªsérie, mas não lê nem escreve. Possui registro profissional.
1.7.4 Família 4
Elis - 49 anos. Filha e irmã de pescadores. Exerce atividades de pesca desde criança. Foi
descarnadeira de siri por muitos anos. Atualmente não trabalha. É irmã de Edileuza, Maura,
Rosa e Edson. Não possui registro profissional. Cursou até a 4ª série. Nasceu na Ilha.
Rosa - 43 anos. Filha de pescadores. Descarnadeira desde a infância. Cursou até a 4ª série.
Não possui registro profissional. Nasceu na Ilha.
Edileuza - 40 anos. Filha de pescadores. Descarnadeira, trabalha desde a infância em
atividades na pesca. Cursou até a 4ª série. Não possui registro. Nasceu na Ilha.
61
Maura - 36 anos. Filha de pescadores. Descarnadeira. Trabalha na pesca desde a infância.
Cursou até a 4 ª série. Não possui registro profissional. Nasceu na Ilha.
Edson - 54 anos. Filho de pescadores . Exerce atividades na pesca desde criança, mas
vinculou-se temporariamente a outras profissões. Hoje, voltou a exercer atividades na pesca.
Não possui registro profissional. Não lê, nem escreve. Nasceu na Ilha.
Telma31 – 41 anos. Filha e esposa de pescador. Trabalha desde a infância em atividades de
pesca, serviços domésticos e cozinheira. Além das atividades de tirar siri, hoje trabalha como
cozinheira em São Gonçalo. Cursou até a 5ª série. Possui registro profissional. É membro de
diretoria da Sirirluz (Associação de Pescadores da Praia da Luz). Nasceu na Ilha. Gosta de
participar de discussões sobre política de pesca e dos projetos da Associação.
1.7.5 Lideranças locais
Zenil - 78 anos. Primeira professora da Ilha. Filha de pescadores. Seus familiares exercem
atividades na pesca e na extração de carne de siri. Cursou o primário. Nasceu na Ilha. É uma
figura muito respeitada pelos moradores. Alfabetizou muitos pescadores e pescadoras.
Valentina - 50 anos. Doméstica. Pertence ao Movimento de Mulheres de São Gonçalo. Foi
diretora da Associação de Pescadores de Itaoca. Esteve no grupo de discussão da Cooperativa
de Mulheres de Itaoca. Cursou o primário. Mora na Ilha há mais de 10 anos.
31
A família de Telma seria composta por ela e sua filha que trabalha como descarnadeira. Ela, porém, não
aceitou ser entrevistada, segundo Telma por ser muito tímida.
62
Selma - 45 anos. Professora. Presidente do Movimento de Mulheres de São Gonçalo. Foi
diretora da Associação de Moradores de Itaoca. Mora na comunidade há mais de 20 anos.
Possui 2º grau completo.
Paulinho - 60 anos. Pescador da Praia da Luz. Possui registro profissional. Além das
atividades de pesca, conserta barcos. Cursou o primário. Nasceu na Ilha.
63
CAPÍTULO II
A PESCA E SEUS SUJEITOS: A LUTA PELO PEIXE DE CADA DIA
A responsabilidade de discutirmos a categoria trabalho dentro do Universo da pesca
não é simples, entre outras coisas pelo imaginário social que envolve a profissão de pescador,
vista sob a marca do romantismo ingênuo ou da indolência caiçara.
Apesar do grande número de trabalhadores no setor, do predomínio da informalidade e
da ausência de um censo pesqueiro, a visibilidade profissional desse segmento é pouca.
Por outro lado, o acesso ao trabalho na pesca sem uma exigência prévia de
qualificação ou certificação formal, produz e alimenta a idéia de que para ser pescador basta
ter disposição de enfrentar o mar, anzol e peixe.
Em outro extremo, concentra-se a idéia de que a relação direta com a natureza produz
um cotidiano idílico, destituído do tempo veloz da fábrica ou da cidade. Por vezes
esquecemos que o setor pesqueiro é um ramo de produção sujeito às leis do capitalismo atual
e às regras dos sistemas econômicos. É necessário que pensemos o sistema produtivo não
como um simples conjunto de procedimentos e técnicas, mas como constituição de táticas de
64
vida, que se reproduzem na estrutura macro do sistema e nas micro-relações no campo social
e cultural.
Sendo assim, iniciamos esse capítulo apresentando de forma breve as discussões sobre
as reações e os sentidos do trabalho no plano da humanidade e no contexto da sociedade
capitalista. Em seguida, buscamos, sem pretensões de abarcar todas as discussões,
contextualizar o setor pesqueiro, destacando os trabalhadores na pesca artesanal, na sua luta
pelo peixe de cada dia.
2.1 Reflexões sobre o trabalho
O sentido dado ao trabalho pelo capital é diferente daquele que a humanidade confere
na sua construção histórica (ANTUNES, 2003). O trabalho para o homem constitui-se numa
fonte de produção da vida e está presente em toda a história da humanidade. No momento em
que a ação do homem sobre a natureza, em busca da sua sobrevivência, torna-se consciente,
intencional, o homem começa a constituir-se na sua humanidade, diferindo, pois, do animal
que responde instintivamente ao meio. Isso significa dizer que o trabalho do homem depende
de uma construção prévia do objeto na mente do indivíduo.
Segundo Marx (1983), antes de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e a
natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu
metabolismo com a natureza. Segundo ele:
(...) Pressupomos o trabalho numa forma em que pertence exclusivamente
ao homem. A aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a
abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção dos
favos de sua colméia. Mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da
melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construílo em cera. (1983, p. 51)
65
No fim do processo de trabalho, obtém-se um resultado que desde o início existiu na
imaginação do trabalhador e, portanto, idealmente. Desse modo, existe uma subordinação da
vontade, o produto surge da subordinação de um sistema mecânico a um fim determinado.
Essa discussão é bem mais ampla; aqui o que nos interessa sinalizar é a importância
dada por Marx à determinação do trabalho na sua forma humana, intencional, que constitui o
homem e o faz diferenciar-se do animal. Quando o reflexo da ação de atender às necessidades
vitais torna-se consciente, dá-se início à humanidade e o trabalho traduz-se em atividade
imprescindível. Segundo Antunes (2003, p. 69):
O trabalho é, portanto, um momento efetivo de colocação de finalidades
humanas dotado de intrínseca dimensão teleológica. E, como tal, mostra-se
como uma experiência elementar da vida cotidiana, nas respostas que
oferece aos carecimentos e necessidades sociais. Reconhecer o papel
fundante do trabalho na gênese e no fazer-se do ser social nos remete
diretamente à dimensão decisiva dada pela esfera da vida cotidiana, como
ponto de partida para a genericidade para si dos homens.
Sobre esta dimensão, voltemos às idéias de Marx (1983) quando o autor nos remete ao
conceito ontológico de propriedade, entendida como intercâmbio entre o ser humano e a
natureza, com a finalidade de manter a vida humana. Nesse sentido, o homem adquiriu o
direito, mediante um acordo solidário com os demais, de apropriar-se, transformar, criar e
recriar, mediado pelo conhecimento - ciência e tecnologia - da natureza e dos bens que
produz, para reproduzir sua existência física e biológica e também cultural, social, estética,
simbólica e afetiva (FRIGOTTO E CIAVATA, 2002).
Para Marx (op. cit., 1983) a ação transformadora do homem através do trabalho é que
dá sentido à natureza. A matéria separada do homem não significa nada para o homem. Esse
intercâmbio entre o homem e a natureza, mediado pelo trabalho é que Marx (op. cit.) vai
chamar de metabolismo, significando também a troca de elementos que se opera através dos
66
elementos naturais. Entretanto esse metabolismo sujeita-se às leis naturais e ao
desenvolvimento das forças produtivas. Em atividades como a pesca, por exemplo, que
baseia-se nos ciclos naturais, é que as forças produtivas da natureza ganham maior relevância.
Isso quer dizer que enquanto os objetos estão na natureza, estes só possuem valor potencial; o
trabalho humano é que transforma esse objeto, passando de matéria em meio de subsistência
de valor de uso. Segundo Diegues (1983, p. 91):
(...) no mar estão as condições naturais de produção; os recursos marinhos
que nele existem antes da captura são recursos potenciais. Na medida em
que através do trabalho, o pescado é capturado, ele se transforma em objeto
de trabalho, em meio de subsistência (objeto separado de suas condições
naturais de subsistência). O peixe, na medida em que é processado, seja no
barco-fábrica, seja na indústria de terra, transforma-se em matéria-prima.
O pescado entendido como objeto de meio de trabalho pode sinalizar, de acordo com
sua importância, o desenvolvimento das forças produtivas e o grau de organização social de
produção.
No trabalho na pesca artesanal no Brasil mais voltado para a pequena produção
mercantil ou de subsistência, as relações entre o homem e seu trabalho se confundem com as
condições naturais da produção; a tecnologia com a extensão do próprio corpo humano. Deste
modo, o homem se beneficia da "tecnologia natural", ou dos processos próprios da natureza,
para a produção da vida.
Esse viver depende dos ciclos naturais que submetem todo o tempo útil voltado para a
produção dos meios de subsistência para si e para a família, não produzindo assim um
excedente. De acordo com as análises de Diegues (1983), baseadas em Marx, sem um certo
grau de produtividade do trabalho ou de desenvolvimento das forças produtivas não há
produção de excedentes, conseqüentemente a divisão do trabalho é baixa, não havendo
67
diferenciação social. "A esse nível técnico de produtividade social a solidariedade de grupo é
uma condição indispensável para a sobrevivência física do grupo". (DIEGUES, op. cit. p. 94).
A natureza do trabalho na pesca é tal que, embora nos dias atuais ofereça maior
complexidade, pelo próprio desenvolvimento do capitalismo e de técnicas cada vez mais
avançadas de captura e processamento, na pesca artesanal, entretanto, permanecem sistemas
cada vez mais rudimentares de trabalho. A atividade baseia-se na extração de objetos de
trabalho, que têm sua produção disponível de imediato ao fim de cada processo de trabalho. O
próprio sistema de remuneração na pesca (por partes da produção in natura), que ocorre em
geral logo que o barco chega à praia, é ainda o que prevalece na pesca artesanal.
As discussões sobre as relações entre os ecossistemas naturais e as formas de
sociabilidade, pensadas sobre o conceito de reprodução, não podem esgotar-se nas discussões
sobre a reprodução do capital, da força de trabalho e das relações sociais. Segundo Diegues
(1983) a maioria dos autores marxistas analisa sob esse ponto de vista. Entretanto, para o
referido autor, nas sociedades que vivem da exploração direta da natureza, como a pesca e a
agricultura, há uma correlação importante entre a reprodução social e a reprodução material.
Na pesca, por exemplo, há uma correlação entre a reprodução da vida social e a reprodução
dos estoques de pescados. Segundo Diegues (op. cit., p. 95): " A reprodução dos instrumentos
de trabalho, por exemplo, redes - se realiza após a safra de um determinado peixe. Da mesma
forma, as festividades e comemorações se realizam após a salga e a venda de determinados
peixes que aparecem somente em determinado período".
Nesse sistema, os laços entre agentes e a dependência às leis de reprodução biológica
dos peixes influenciam na reprodução social das comunidades ligadas à pesca artesanal.
68
2.2 Capitalismo/tecnologia/conhecimento
O desenvolvimento das relações de produção capitalistas e o avanço tecnológico vão
transformar as formas e os modos de trabalho na pesca. No modo de produção capitalista, a
natureza vai se tornando algo externo ao homem, podendo ser transformado em objeto de
troca e de utilidade para o homem, através de uma intervenção cada vez mais poderosa e
técnica do humano sobre a natureza. Segundo Diegues (1983, p. 97):
O aparecimento de formas capitalistas de produção na pesca significa não
somente a separação do trabalhador direto dos instrumentos de trabalho e
seu conseqüente assalariamento, mas também a expropriação progressiva do
savoir-faire profissional desse conhecer complexo, apanágio de todo
pescador experiente.
Os meios de captura cada vez mais potentes, utilizando-se de embarcações e aparelhos
de grande precisão, dispensam o conhecimento advindo da experiência prática dos
pescadores. As transformações que se operam ao longo da história da pesca alteram o modo
de vida dos pescadores e a sua relação com a natureza, produzindo em algumas regiões um
progressivo aumento na exploração destrutiva da natureza.
O desenvolvimento e utilização de equipamentos mais avançados e de embarcações
mais potentes exigem uma mão-de-obra mais qualificada. A produção mercantil familiar
simples, que caracteriza-se pela utilização do grupo doméstico no trabalho amplia-se, sendo
necessário lançar mão do trabalho de outros companheiros. O trabalho de Diegues (1995)
Povos e mares amplia esta discussão.
69
2.3 Trabalho/tradição
Voltando às discussões iniciais sobre os sentidos do trabalho, Enguita (1989), chamanos a atenção para o sentido que atribuímos hoje ao trabalho calcado mais na cultura do
consumo, submetidos que estamos a uma visão fatalista da concepção de trabalho, produzida
pelas injunções atuais do capital. É como se não tivéssemos outras formas de agir e pensar
sobre o trabalho; ou então, como se essa idéia surgisse de forma natural, e não como fruto de
uma experiência histórica da humanidade.
Segundo Enguita (1989), a idéia do trabalho, na verdade, é produto de construtos
sociais que têm uma história, cujas condições tendem a ser constantemente reproduzidas na
sociedade capitalista atual.
Em relação à sociedade atual, calcada no trabalho abstrato, onde uma massa de
trabalhadores encontra-se expulsa do processo produtivo, a categoria trabalho tem sofrido
uma perda de centralidade do ato laborativo (ANTUNES, 2003). Isto nos coloca desafios para
o entendimento dos processos de mutação por que passam hoje as relações de trabalho e o
próprio trabalhador.
Sem entrarmos aqui nas questões sobre o trabalho e o processo de globalização,
apenas para sinalizar um de seus aspectos que sem dúvida também atinge o trabalhador e suas
famílias: hoje, cada vez mais, uma massa de trabalhadores experimenta diversas formas de
trabalho, ou passa por situações de precarização. Outros passam ainda por grandes períodos
de desemprego, quebrando vínculos anteriormente construídos de profissionalização,
buscando alternativas fora do mercado formal de trabalho.
70
Os problemas estruturais do setor pesqueiro no Brasil trazem uma série de
implicações, tanto para a sobrevivência como para a identidade cultural do trabalhador na
pesca.
A modernização do setor, não acompanhada de um plano de manejo dos recursos
naturais, e a poluição dos territórios de trabalho têm levado as populações que vivem da pesca
no entorno da Baía de Guanabara, por exemplo, a um processo de pauperização, sendo
obrigadas a buscar outras atividades, além da pesca, geralmente no mercado informal. Alguns
se afastam da profissão de pescador por um longo período; isso leva não só a uma perda de
identidade profissional, como também, muitas vezes, à duplicidade de vínculo junto ao INSS.
Por outro lado, a transmissão das práticas de trabalho às gerações mais jovens perde o
sentido, já que não se constitui numa profissão promissora de trabalho e renda.
Em relação ao território de moradia, a degradação ambiental e a perda de tradição
numa atividade econômica, aliada aos processos de urbanização acelerada, transformam o
espaço de moradia dos pescadores em bolsões de pobreza com uma população flutuante cada
vez maior. Antigas áreas de pesca, transformadas em áreas de veraneio, servindo à
especulação imobiliária como "espaços paradisíacos". A esse respeito ver Lima e Pereira
(1997), em seu estudo sobre os pescadores de Itaipu.
O desenvolvimento de equipamentos mais potentes de pesca e a transformação social
e espacial de áreas tradicionais de pesca artesanal afeta as práticas de trabalho mais
rudimentares e a tradição da pescaria com embarcações de pequeno porte, que se utiliza de
práticas menos predatórias.
Aqui não estamos pensando em tradição como algo imutável, como algo não atingido
pelas mudanças socioculturais e econômicas impostas ao mundo do trabalho. Nesse sentido,
as concepções sobre os pescadores e seus modos de trabalho não podem perpetuar uma
71
imagem idílica e romântica, congelada no tempo e em nichos ecológicos e com práticas
rudimentares.
Os chamados povos tradicionais, como os pescadores artesanais não se inscrevem nas
práticas velozes dos tempos modernos, mas também não vivem no mundo romântico e idílico
do passado. A tradição nesse sentido é vista como algo dinâmico, mutável e atravessado pelos
modos de produção econômicos e simbólicos da sociedade atual. Como nos coloca Cunha (In:
DIEGUES [org.], 2004, p. 106):
(...) a tradição é algo dinâmico, algo que transita, que se movimenta,
deslocando-se, assim o sentido convencional que é imputado à palavra
tradição (ou processo histórico-sociais tradicionais). Sem desconhecer que
há tradições e tradições. O que importa marcar aqui é algo que é entregue de
geração a geração para se reproduzir no tempo, ainda que resignificado no
fluxo da história.
2.4 A pesca no Brasil - Breve trajetória
No Brasil, até o início da década de 60 a atividade de pesca era predominantemente
artesanal, sendo a produção voltada para o mercado interno. A indústria do pescado era
bastante incipiente e voltada quase exclusivamente para a industrialização da sardinha.
O implemento dos incentivos governamentais que se deu a partir da década de 60
desenvolveu a pesca industrial, voltada, em parte, para o mercado externo. Até a década de
oitenta o setor pesqueiro tinha como característica a exploração dos recursos pesqueiros em
águas nacionais, com ênfase no emprego de tecnologia intensiva. Acreditava-se numa
disponibilidade infinita dos recursos da pesca, como princípio gerador de desenvolvimento do
setor.
72
A partir da década de 80 esse otimismo será confrontado com a realidade. O rápido
crescimento do esforço de pesca, direcionado para um número reduzido de espécies e para o
superdimensionamento do parque industrial pesqueiro, além da falta de conhecimento
técnico-científico sobre os recursos disponíveis, geraram um comprometimento dos estoques,
provocando, assim, uma diminuição da produção pesqueira, especialmente de algumas
espécies como é o caso da sardinha.
O término dos incentivos fiscais e a política de clientelismo que vinha sendo adotada
nessa época propiciaram o surgimento de insatisfação e desconfiança em relação ao setor
pesqueiro, culminando com a extinção da Superintendência do Desenvolvimento da Pesca SUDEPE; desse modo, desestruturaram-se as instâncias governamentais de apoio e estímulo à
pesca. A pesca artesanal, bastante marginalizada, foi a mais atingida por essa
desestabilização. Na verdade, o setor pesqueiro como um todo atravessou um longo período
de crise.
A acentuada queda no parque industrial superdimensionado, um reduzido
conhecimento científico e tecnológico, aliados a uma legislação inconsciente e incompatível
com a realidade nacional e com um sistema de controle e fiscalização eficiente trouxeram
conseqüências vivenciadas até hoje pelo setor. Hoje, existe um esforço por parte tanto dos
trabalhadores quanto de suas instituições, como reação às propostas governamentais para dar
conta dos problemas do setor e para dar forma a ações que atinjam o setor produtivo,
proporcionando a melhoria da qualidade de vida e de trabalho dos pescadores artesanais, que
compõem em sua maioria a paisagem social do litoral brasileiro.
O setor ainda convive com grandes problemas que necessitam de medidas imediatas e
de longo prazo. A exploração dos intermediários e a centralização dos mercados regionais nos
grandes centros portuários, por exemplo, atingem um número significativo de trabalhadores
na pesca que necessitam de soluções a longo prazo.
73
O trabalhador ainda está nas mãos da indústria pesqueira, seja pela obrigatoriedade de
venda de seus produtos aos atravessadores, pela perda de controle de comercialização de seu
pescado ou pelo assalariamento direto nos barcos das empresas de pesca.
Muitas comunidades voltadas para as atividades de pesca artesanal tentam se adequar à
realidade do setor pesqueiro, buscando formas alternativas de sustentabilidade e geração de
renda, como é o caso das organizações de cooperativas e associações locais de trabalhadores,
ligadas geralmente às entidades representativas de grupos de pescadores(as). Outros
trabalhadores, no entanto, não resistem e migram para outros campos de trabalho, em geral
para o mercado informal.
Outros problemas atingem o setor pesqueiro, como a poluição e a destruição dos
ecossistemas naturais, aumentando, em muitas regiões, o grau de vulnerabilidade dos
pescadores e de suas famílias, atingidos em seus territórios de trabalho e moradia. Um dos
exemplos mais emblemáticos, que trataremos mais adiante, é o das comunidades que vivem
no entorno da Baía de Guanabara, vítimas dos constantes lançamentos de dejetos industriais e
domésticos, como Itaoca.
A criação da Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca da Presidência da República,
em 2002, foi uma das ações e promessas do atual governo para garantir tratamento prioritário
à política para o setor pesqueiro. Programas voltados para a linha de crédito e incentivo à
geração de emprego e renda foram criados como: PROÁGUA, PROPESCA, PESCART
(atuantes na região Nordeste), PRONAF, PESCA e PRODEAGRO (para a região Sudeste).
Alguns desses programas e medidas resultaram de encontros estaduais com os
pescadores(as), durante a preparação da I Conferência Nacional de Aqüicultura e Pesca, que
trataremos mais adiante.
Outro programa também criado pela secretaria é o PROFROTA, destinado ao
financiamento de reconstrução da frota marítima. Além desse programa, existem medidas de
74
subvenção econômica ao preço do óleo diesel e de construção de fábricas de gelo, que
beneficiam a pesca artesanal. Estão previstas também obras de construção de uma rede de
terminais pesqueiros.
Cabe lembrar que estamos aqui apenas listando somente os programas e as ações
previstas pela política governamental e expressas em discursos públicos do Sr. Ministro da
Pesca, José Fritsh. Nosso estudo não se ateve à análise e avaliação da implementação e
eficácia desses programas, nem a seus objetivos.
2.5 Produção e modalidades de pesca
A produção de pescado no ano de 200 atingiu cerca de 843.376,5 toneladas.
Comparando com os dados de 1999, na ordem de 744.597,5, observa-se um incremento na
produção total na ordem de 13,3%, determinado principalmente pelo desempenho da
aqüicultura, que contribui com 20,9% da produção total, alcançando o volume de 176530,5
tons. A produção da pesca extrativa continental apresentou um crescimento de 7,4% em
relação ao ano de 1999. A pesca extrativa marinha teve um crescimento de 11,8% com uma
produção de 467.687 tons.32
O aumento da produção e do consumo de pescado constituiu-se em um dos eixos
importantes dentro da política de desenvolvimento do setor pesqueiro. De acordo com as
metas da SEAP, a produção brasileira de pescados até o final de 2006 pode passar de 9,85 mil
toneladas para 1,5 milhão de toneladas ao ano, criando mais de 150 mil empregos diretos e
400 mil indiretos.
32
Dados retirados do Plano Estratégico de Desenvolvimento Sustentável de Aqüicultura e Pesca. SEAP DF/2003.
75
A FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) recomenda
que, para a preservação da saúde humana, devem ser consumidos no mínimo 12 kg de
pescado por habitante ao ano. No Brasil, o consumo é de apenas 6,8 kg/hab ao ano.
O contingente de trabalhadores(as) mais atingido pelos problemas do setor é o dos
ligados à pesca artesanal.
A pesca artesanal encontra-se descrita no ramo da produção mercantil de caráter
familiar ou de vizinhança, circunscrita às comunidades caracterizadas como tradicionais.
Caracteriza-se no quadro da pequena produção, ou seja: a pequena produção dos pescadores
artesanais, modelos que predominam especialmente na região sudeste do país, litoral de São
Paulo e Rio de Janeiro (DIEGUES, 1983).
Segundo Jablonski e Silva (1996) não existe, no entanto, uma conceituação simples
para definir a pesca artesanal em relação à pesca industrial: a fronteira entre essas duas
concepções está longe de ser precisa e apresenta variações de acordo com o Estado ou região
e com a própria concepção usada.
Os autores também apontam para outras definições mais detalhadas, usando uma
classificação em categorias mais rígidas, tais como: a pesca de subsistência, exercida pelo
pescador para a obtenção do próprio alimento, sem fins comerciais; a pesca artesanal, com
objetivos combinados, podendo corresponder a uma alternativa temporária às atividades
agrícolas; a pesca em pequena escala, mais próxima da definição da pesca artesanal, com
embarcações de pequeno porte e tecnologias limitadas; a pesca industrial costeira e oceânica,
envolvendo grandes embarcações, com autonomia e capacidade de processamento do pescado
a bordo; e a pesca oceânica, que praticamente não existe no Brasil.
Além da classificação por modalidades de pesca, existem também as correspondentes
às especificidades do trabalho, ou seja: captura do produto (pescaria) ou cultivo (maricultores,
piscicultores, aqüicultores e outros).
76
Muitas vezes essas definições são importantes para a construção da identidade
profissional dos trabalhadores, como, por exemplo, os que não trabalham diretamente com a
pescaria e sim com o sistema de beneficiamento do pescado, como as descarnadeiras de siri,
os catadores de camarão e outros.
2.6 O trabalhador da pesca - sustentabilidade e dignidade
As discussões políticas, tanto no âmbito das organizações dos trabalhadores na pesca e
na aqüicultura, como das instâncias estatais apontam para a necessidade de construção e
implementação de um Plano de Desenvolvimento Sustentável para o setor pesqueiro, que vise
melhorar não somente a produção e o consumo, mas também as condições de trabalho e vida
dos pescadores. Para isso, entre outras medidas, é necessário acelerar o ritmo de crescimento
econômico do setor, gerar distribuição de renda, ampliar os postos de trabalho e melhorar a
qualidade de vida dos trabalhadores e de suas famílias, principalmente aqueles que
tradicionalmente vivem de pesca.
Hoje, grande parte dos trabalhadores vinculados ao setor pesqueiro encontra-se fora
das redes de proteção social do Estado. Entre esses trabalhadores, o índice de analfabetismo é
alto33. A maioria dos pescadores/tripulantes, dos diversos tipos de embarcações pesqueiras
nacionais não possui vínculos empregatícios com os proprietários dos barcos, nem possui
qualificação, especialmente os ligados à pesca artesanal e em pequena escala, onde as relações
de trabalho se dão de maneira informal por meio de "parceria".
A legislação trabalhista existente hoje para o setor pesqueiro é precária e desconhecida
por grande parte dos trabalhadores. O setor mais afetado por essa realidade é o artesanal e o
segmento de trabalhadores feminino. Além disso, a precariedade da legislação estimula a
33
Não encontrei nenhum dado sobre o percentual de analfabetismo na pesca. Existe hoje um Programa do
Governo Federal - SEAP/Ministério da Educação - voltado para a alfabetização dos pescadores: "Pescando
letras". Nossa afirmação é baseada nas leituras dos documentos.
77
convivência entre o pescador e o armador no desrespeito à legislação, o que acarreta um
quadro precário de condições de trabalho, com uma ausência de cobertura social e assistencial
aos(às) pescadores(as) e suas famílias.
O seguro-desemprego (Lei n.º 10.7779-11/2003)34 pago ao pescador em períodos de
proibição de pesca - defeso35, passa por uma série de equívocos, confusões e burocracias,
envolvendo as próprias representações desses trabalhadores - as colônias. Muitas vezes o
dinheiro do seguro não chega a tempo na mãos do trabalhador, que passa assim por períodos
como eles mesmos dizem: "Sem poder pescar o peixe e sem poder viver do peixe". A saída é
buscar outras opções de trabalho ou o desemprego. Aqueles que desempenham atividades de
pesca desde a infância como uma prática familiar têm dificuldades e resistência para buscar
outras atividades.
No caso dos pescadores que vivem em regiões tradicionais de pesca, longe dos centros
urbanos, sem acesso à propriedade da terra e a um maior desenvolvimento econômico, as
condições de vida tornam-se ainda mais precárias, e a falta de qualificação e opções no
mercado de trabalho torna o "período do defeso" ainda mais difícil para estes trabalhadores.
A realidade do trabalho em unidade familiar acaba por submeter toda a família a
dificuldades nos momentos de maior crise. No caso das mulheres, há maior migração para as
atividades domésticas remuneradas, especialmente nos grandes centros.
Em termos de direitos previdenciários, a situação do pescador artesanal junto ao INSS
(Instituto Nacional de Seguridade Social) ainda é confusa. Pela legislação vigente, os
pescadores artesanais são considerados "segurados especiais", tendo a mesma classificação
34
Art. 1º. Lei n.º. 10.779 outubro/2004 . O pescador profissional que exerce sua atividade de forma artesanal,
individualmente ou em regime de economia familiar, ainda que com o auxílio eventual de parceiros, fará jus
ao benefício de seguro-desemprego, no valor de um salário mínimo mensal, durante o período de defeso de
atividade pesqueira para a preservação da espécie.
35
A questão do defeso gera polêmica entre os pescadores e o IBAMA. Os pescadores criticam a ação do órgão,
em termos de fiscalização, e a falta de regionalização do defeso, que não respeita a realidade dos ecossistemas
locais, segundo técnico do IBAMA, em palestra no I Encontro Estadual de Trabalhadores na Pesca/2004. O
IBAMA está revendo a questão.
78
dos trabalhadores rurais junto ao INSS. Desse modo, ambos têm direitos a aposentadoria,
seguro por acidente, pensão por morte, auxílio doença, licença maternidade e auxílio reclusão.
Para obter esses direitos, o trabalhador deve possuir registro profissional junto ao
INSS. A maioria dos trabalhadores na pesca artesanal, especialmente as mulheres, desconhece
esses direitos ou não possui nenhum registro, apesar de desenvolver atividades de pesca há
muitos anos. Nos postos do INSS, nem sempre os(as) pescadores(as) conseguem obter a
informação correta. Quando necessitam de uma comprovação (declaração da atividade para
comprovação junto ao INSS para pleitearem os benefícios), recorrem ao órgão oficialmente
reconhecido, que é a colônia de pescadores, referida àquela jurisdição de trabalho. Algumas
vezes, conflitos entre a colônia, os pescadores e as associações dificultam esses trâmites.
As propostas tiradas na última Conferência Nacional dos Trabalhadores na Pesca e
Aqüicultura, realizada em 2003 na cidade de Lusiânia (GO), previa a inserção de cooperativas
e associações como representantes legais dos trabalhadores artesanais junto ao INSS. Tal
proposta viria de encontro a uma antiga polêmica entre os trabalhadores na pesca: o
atrelamento daquilo que deveria ser uma filiação sindical, aos seus direitos de trabalhador.
Por outro lado, a natureza histórica da formação das colônias, surgidas numa
conjuntura autoritária e paternalista e os ranços daí advindos, fazem com que muitos
trabalhadores tenham críticas a essas organizações e, portanto, não desejem estar a elas
filiadas.
A maior presença do Estado, definindo um ordenamento oficial das atividades de
pesca, se dá após a Primeira Guerra. Nesse período, os pescadores tornam-se personagens
importantes, no que concerne à segurança e ao reconhecimento do litoral. Os países com
grandes áreas costeiras, como o Brasil, reconheceram nos pescadores os "guardiões da pátria"
(PEREIRA e LIMA, 1997). A ideologia salvacionista e saneadora do período vê nos
pescadores um segmento que deve sofrer investidas do Estado no âmbito tanto do
79
ordenamento jurídico da atividade como da intervenção nos espaços privados. Algumas
iniciativas constatam esses esforços saneadores. Em 1918 surge a Liga Pró-Saneamento do
Litoral do Brasil. No ano seguinte cria-se a Diretoria de Pesca e Saneamento do Litoral. É
neste período que surge a Missão Vilar, ligada à Marinha de Guerra do Brasil e que consistia
em percorrer todo o litoral brasileiro para promover o saneamento das populações de
pescadores. Em 1921 surge a Confederação dos Trabalhadores do Brasil. A criação das
colônias de pesca (1923) de cunho bastante paternalista tem entre seus objetivos estatutários,
segundo Pereira e Lima (1997, p. 22):
(...) reunir por laços de solidariedade fraternal os pescadores brasileiros
natos e naturalizados, que se dediquem à indústria da pesca, promovendo a
instrução, o auxílio mútuo e a prosperidade de suas famílias.
Em 1934 surge o Código de Caça e Pesca, que regulamenta todas as atividades do
setor pesqueiro. O pescador tem a sua profissão reconhecida desde 1940 pela Marinha
Mercante; a pesca artesanal foi regulamentada em 1967, pelo Decreto-lei 221, definindo-se
como atividade ligada à produção. Esta política de intervenção estatal modelou as atividades
pesqueiras e produziu marcas na história da pesca artesanal no Brasil, influenciando os
modelos de organização, presentes até hoje.
Em relação às atividades econômicas de pesca artesanal, a marca do atravessamento
traz dificuldades aos trabalhadores. A rede de intermediação no processo de distribuição e
comercialização - que vai do atravessador no plano individual, muitas vezes alguém da
própria comunidade que se especializa em compra e venda de pescado, até os representantes
de empresas que compram e financiam a produção - constitui-se, hoje, em um dos grandes
obstáculos para que o pescador se aproprie dos ganhos de seu trabalho, interferindo na
qualidade e no custo dos produtos que chegam ao consumidor.
80
Em nossa pesquisa, que se direciona especificamente para as mulheres que trabalham
com o processamento da carne do siri, a título de exemplo dessa questão pudemos constatar
que: o preço de um quilo de carne já beneficiada e que corresponde a mais ou menos 4,5
quilos de siri in natura, é de um real e oitenta (janeiro de 2005). São necessárias em média
duas horas de trabalho para a retirada de 1 kg de carne de siri, segundo as respostas dadas
pelas descarnadeiras, nas entrevistas. Quando chega ao consumidor, o preço deste produto é
de treze reais (segundo pesquisa nos boxes do Mercado São Pedro em Niterói, em julho de
2005). Se pedirmos um petisco em bares e restaurantes da orla da cidade de Niterói, o preço
de uma casquinha de siri varia entre cinco e sete reais. Os ganhos com a pesca,
beneficiamento e comercialização do siri envolvem geralmente três tipos de trabalhadores (os
pescadores, as descarnadeiras e os pombeiros ou atravessadores).
As condições de higiene e beneficiamento também são bastante precárias. Isso
acontece em quase todas as regiões do país onde ainda não existem formas coletivas e mais
modernas de trabalho e beneficiamento desse crustáceo, afetando, nesse caso, a qualidade do
produto e a implementação do seu consumo.
Nos objetivos propostos na I Conferência Nacional de Aqüicultura e Pesca, realizada
em novembro de 2003 em Lusiânia (GO), as soluções apresentadas para dar conta dessa
questão foram:
š Promover
a
organização
do
setor
de
beneficiamento
e
comercialização pesqueira e aqüícola, por meio da implantação de
programas de desenvolvimento e transferência de tecnologia,
integrando os demais segmentos de cadeia produtiva em ações com
as comunidades, prefeituras e governos estaduais, em locais
estratégicos para o escoamento da produção.
81
š Reestruturar o setor de comercialização do pescado, de modo a
reduzir a extensa cadeia de intermediação na distribuição e
comercialização que encarece os produtos, ampliando a oferta de
pescados de qualidade e mais baratos para a população.
š Criação
do
Programa
Nacional
de
Desenvolvimento
do
Cooperativismo e Associativismo aqüícola e pesqueiro como
instrumento eficaz de inserção do aqüicultor/pescador familiar no
processo sócio-econômico, cultural e político.
2.7 Mulheres na Pesca: A busca de uma visibilidade social
O trabalho das mulheres no setor pesqueiro tem permanecido, em grande medida, sem
visibilidade social, seja pelos problemas políticos e econômicos ligados ao setor ou pelas
práticas culturais e de gênero reproduzidas no âmbito da família e da comunidade.
Embora possamos identificar diferenças em relação à conjuntura local e internacional,
alguns problemas enfrentados pelas mulheres no desempenho das atividades de pesca
permanecem e se assemelham em diferentes regiões do mundo, apesar dos avanços no que
concerne ao papel da mulher em sociedades mais desenvolvidas.
Um relatório da Comissão Européia, por ocasião da Conferência sobre o Papel da
Mulher no Setor de Pesca, realizada em Bruxelas em janeiro de 2003 aponta problemas
semelhantes aos vividos pelas mulheres na realidade brasileira e na América Latina.
Nas questões debatidas no tocante a direitos/acesso/oportunidades para as mulheres, o
referido relatório aponta que:
... parece reinar um consenso geral de que ainda é necessário fazer mais
para defender a igualdade das mulheres no setor de pesca, não dependendo
82
o acesso simplesmente de disponibilização de formação/ensino, assistência
à infância, etc..., mas também de se tomarem medidas relativas às atitudes
sexistas e de lograr a aceitação do princípio do direito das mulheres à
participação plena no setor". (op.cit., p. 4)
O tema da invisibilidade do trabalho feminino, do reconhecimento e da contribuição
das mulheres nas atividades de pesca, bem como da participação na direção e gestão das
organizações profissionais, apresenta semelhanças com a nossa realidade, necessitando ser
debatido em âmbito nacional.
O relatório da referida conferência, comentando o discurso de uma parlamentar36,
confirma nossas análises:
(...) o papel das mulheres nas pescas tem permanecido, em grande medida,
invisível e insistiu que se deve modificar essa situação, defendendo ser
essencial manter a participação das mulheres em todos os níveis do
processo de decisão. Salientou que os Estados-membros detêm uma grande
responsabilidade nesta área, cabendo-lhes tomar a iniciativa, e exortou os
participantes na Conferência a levarem esta mensagem ao poder local, que é
a instância onde tal batalha deve ser travada.
É necessário sinalizar que, no contexto europeu, a pesca oceânica e industrial são
bastante desenvolvidas, oferecendo postos de trabalho a um significativo contingente
feminino, diferindo, assim, da realidade latino-americana onde predomina o setor de pesca
artesanal e de aqüicultura costeira (FAO, 1997).37
36
37
Discurso proferido pela Deputada Rosa Miguez Ramos, Vice-Presidente da Comissão de Pescas do
Parlamento Europeu - Conferência sobre o Papel da Mulher no Setor de Pesca - Comissão Européia/ janeiro
de 2003 - Bruxelas.
Seguridad alimentaria y la mujer rural, la unidad de esfuerzos para la igualdad, para la paz hacia la vida en
la tierra. Articulo editorial. Redes Boletim Informativo de La mujer Rural Latinoamericana, N. 6, Agosto,
1997.
83
São também as mulheres que cultivam mais da metade dos alimentos produzidos no
mundo (FAO, 1996)38. Em muitas comunidades pesqueiras do Brasil, as atividades de pesca e
agricultura são concomitantes, sendo o cultivo da terra tarefa destinada às mulheres
(WORTMANN, 1991). Ainda assim, a visibilidade econômica e social de seu trabalho é
pequena, entre outras coisas por não dispor de poder necessário para ascender aos recursos de
capacitação e financiamento de projetos. A falta de representação social e jurídica e a baixa
escolarização são fatores que dificultam o recebimento dos recursos destinados à mulher
trabalhadora.
Dados indicam que somente 5% desses recursos são acessados pelas mulheres em todo
o mundo (FAO, 1996).
Nas discussões realizadas no I Encontro Estadual de Trabalhadores na Pesca e
Aqüicultura, que ocorreu em 2005 na cidade de Miguel Pereira, um dos temas debatidos pelas
mulheres apontava para a necessidade de criação de projetos específicos para a produção e
acesso ao crédito para os pescadores. Alguns relatos coletados em plenária no referido
encontro, sinalizavam outros pontos que dificultavam o acesso das mulheres ao sistema de
crédito, tais como: desinformação, necessidade de validação do companheiro, falta de
capacitação dos técnicos responsáveis para atendimento das solicitações de crédito pelas
pescadoras, e por fim pouco comprometimento das instituições representativas dos
trabalhadores na orientação das pescadoras em relação à natureza dos projetos e acesso ao
crédito.
38
FAO: (1996). Las mujeres alimentán el mundo. Cumbre Mundial sobre la alimentácion. Boletim
Divulgativo. http://www.fao.org
84
2.8
Identidade profissional
A identidade profissional das mulheres que exercem atividade na pesca artesanal ainda
é muito frágil, vinculada ao homem no interior da família e da comunidade. Suas atividades
são vistas como auxiliares às dos companheiros ou irmãos, e vinculadas às tarefas domésticas.
O trabalho no beneficiamento do pescado é visto como uma extensão das tarefas domésticas,
não computadas a produção e a economia local.
As mulheres que trabalham nessa atividade, como no caso das descarnadeiras de siri,
são vistas como trabalhadoras mal remuneradas e pouco qualificadas. Na cadeia produtiva,
embora desempenhem tarefas importantes, não são valorizadas socialmente, mesmo em suas
próprias comunidades. Salvo os grupos que conseguiram se estabelecer em regime de
Associativismo ou Cooperativas, melhorando assim, suas condições de trabalho,
comercialização do produto e remuneração. A título de exemplo, citamos as mulheres que
trabalham no beneficiamento de mexilhões no projeto coordenado pela ALMARJ39
(Associação Livre de Maricultores de Jurujuba) ou as desfiadeiras de siri da praia das
Caieiras, no litoral do Espírito Santo, que, além de manterem uma cooperativa de extração
desse crustáceo, administram também um restaurante.
Em nossa pesquisa de campo na Ilha de Itaoca, na análise das entrevistas com as
descarnadeiras de siri, pudemos constatar que a forma de organização do trabalho determina
entre outros fatores a visibilidade econômica da atividade e, conseqüentemente , a imagem
profissional.
39
Maiores informações sobre esse assunto, ver: Projeto "Mexilhão Rio" - maricultura e beneficiamento
comunitário de mexilhões. Apoio LIFE/PNUD/ONU/1999 ALMARJ.
85
A atividade ainda é exercida de forma tradicional e bastante rudimentar em espaços
privados (nos quintais das casas), acarretando uma fragilidade econômica e social das
atividades de extração do siri.
No processo de entrevista com as descarnadeiras as análises apontaram alguns dados
importantes para a nossa discussão, que abordaremos no Capítulo IV.
Ao tocarmos nas questões relacionadas às alternativas de melhoria de condições de
trabalho e renda, as soluções apontaram para o trabalho em regime de cooperativa e a
definição da atividade com registro específico - descarnadeiras.
Em entrevista40 com a presidente do Movimento de Mulheres de São Gonçalo e uma
das lideranças das discussões sobre Cooperativas de Mulheres e Descarnadeiras de Itaoca, ela
aponta as vantagens e críticas ao movimento de criação desta cooperativa.
_ Uma cooperativa iria dar uma qualidade muito melhor a esse produto. A
maneira com que elas extraem é muito precária. A cooperativa iria
melhorar muito as condições de higiene e qualidade do produto.
_ Itaoca pode ser um referencial nessa parte de extração de carne do siri...
é preciso organização e conscientização.
_ A idéia da cooperativa precisa ser amadurecida. As pessoas não
entenderam o que era, por isso não deu certo. Não estava incorporado nas
mulheres. Essa cooperativa não cresceu porque não foi feito um trabalho
de conscientização e informação..."
Selma
2.9
Participação política e registro profissional
A insuficiência de dados sobre o trabalho feminino na pesca e o perfil profissional são
apontados como necessidades prementes para a execução de políticas setoriais. A I
Conferência Nacional, já citada, em um dos itens de suas resoluções aponta:
40
Entrevista concedida em junho de 2005 pela Srª Selma, Presidente do Movimento de Mulheres de São
Gonçalo-RJ e participante do Grupo Pró-Melhoramentos de Itaoca.
86
Criar uma comissão conjunta entre SEP/PR e Secretaria Especial de
Direitos da Mulher para desenvolver programas para as trabalhadoras de
pesca e aqüicultura, elaborando um diagnóstico nacional da situação do
trabalho da mulher pescadora e aqüicultora.
Nas discussões sobre o trabalho das mulheres na pesca e a caracterização das
atividades, as resoluções apontam um consenso sobre a questão: É necessário reconhecer o
trabalho da mulher na pesca, contemplando suas especificidades (pescadoras, descarnadoras
de siri, curtideiras de couro, peixe e outras), além de investir em políticas setoriais e projetos
que experimentam a valorização social da profissão e democratização das informações sobre
os direitos trabalhistas e previdenciários.
Em minha participação no Encontro Estadual já citado, no contato que mantive com as
mulheres presentes pude observar, através de seus relatos, que embora aquele fosse um grupo
com características específicas, eram representantes de suas comunidades, logo haviam se
preparado nos encontros regionais e nas discussões temáticas; algumas participavam de
organizações como colônias e associações. Ainda assim, o desconhecimento de seus direitos e
a marca da desqualificação profissional, ficava patente nos relatos em plenária ou nos
momentos de conversas informais.
A relação, por exemplo, com o posto de benefício do INSS é marcado pelo
desencontro de informações e preconceitos. Muitas pescadoras, ao preencherem a ficha, por
ocasião da solicitação de algum benefício, sentem-se confusas, já que muitas desempenham
outras funções, em períodos de trabalho escasso ou muitas vezes por desconhecimento e
confusão sobre a identidade profissional; assim sendo, respondem que são domésticas, sendo
desse modo excluídas do registro de "segurado especial".
Por outro lado, o preconceito ligado ao estereótipo de pescadoras interfere na autoestima da mulher na atividade pesqueira.
87
A idéia de que a mulher pescadora tem que ser uma senhora simples, queimada de sol,
de mãos calejadas e cheirado a maresia, é uma idéia impregnada até mesmo nas instituições
públicas, como o próprio INSS.
No relato de uma pescadora que registrei por ocasião do referido encontro, isso nos foi
colocado assim:
_ (...) Quando fui no posto do INSS ver como fazia pra me registrar,
a mulher do posto olhou pra mim e disse:
_ Você é pescadora mesmo? Nem parece...
_ Só porque eu estava toda arrumada...
Em outras regiões do país, onde as comunidades exercem atividades na agricultura e
na pesca ao mesmo tempo, as confusões em relação ao registro são ainda maiores. A
duplicidade de filiação à colônia e ao sindicato rural dificulta a concessão dos benefícios.
Nesse caso, ações voltadas para uma maior qualificação técnica de profissionais dos
postos previdenciários facilitaria no trato com os direitos trabalhistas das pescadoras.
A participação das mulheres nas instituições e sua representação do setor pesqueiro
também é bastante modesta. Poucas são as associações e colônias que têm em sua presidência
uma mulher. A maioria, quando compõe a diretoria, exerce funções em caráter mais
administrativo. Ao perguntar sobre esta questão a um dos diretores da Associação de
Pescadores da Ilha de Itaoca, ele apontou o descrédito das mulheres e sua dupla jornada como
empecilhos a participação.
As mulheres, se você chamar uma pescadora pra ela fazer parte duma
diretoria, duma associação duma colônia, qualquer entidade, elas não vão,
elas não acreditam, elas ainda não acreditam. As que acreditam, elas não
tem tempo de atuar. Elas têm o siri pra catar, aqueles que pescar, têm que
cuidar da casa e não é o meu caso... o caso de outros pescadores que só
88
eles pescam. Cuidar de casa? São nossas esposas que vão cuidar. Então
fica difícil.
Cláudio
A instância responsável pela política para o setor no município de São Gonçalo Subsecretaria de Agricultura e Pesca busca, através de ações mais concretas, definir a
participação das mulheres que trabalham nas atividades de beneficiamento do pescado, como
as descarnadeiras, reconhecendo, no entanto, as dificuldades ainda presentes na efetivação
dessas ações. Em junho de 2005, a Lei Nº. 19/2005 cria o Conselho Municipal de
Desenvolvimento Rural e Pesqueiro de São Gonçalo - COMDERP. No capítulo II (artigo 3º §
9), que define a estrutura e o funcionamento do Conselho, uma das determinações importantes
que refletem avanços nas reivindicações dos pescadores e pescadoras de São Gonçalo é a
citação de representação das descarnadeiras de siri na composição do Conselho.
Segundo o diretor41 da Subsecretaria de Agricultura e Pesca, essa medida não resolve
de imediato os problemas relativos à pouca participação das mulheres nas instâncias de gestão
e política pesqueira, mas contempla antigos anseios da categoria, dando destaque no texto da
Lei às descarnadeiras de siri.
Sem dúvida que não só as organizações dos trabalhadores na pesca como também as
instâncias responsáveis pelas políticas públicas precisam priorizar em suas ações a inclusão
social, econômica e política das pescadoras e aqüicultoras.
A representação política do setor historicamente foi pensada e formada por homens,
sem a participação das mulheres; sendo assim, a definição do papel das mulheres nas diversas
organizações e entidades do setor deve ser incluída entre as prioridades políticas do setor
pesqueiro. Discutindo sobre a realidade do trabalho na pesca na Comunidade de São Gonçalo
com a presidente do Movimento de Mulheres de São Gonçalo, por ocasião do trabalho de
41
Entrevista concedida em junho de 2005, na Prefeitura de São Gonçalo, pelo Diretor da Subsecretaria de
Agricultura e Pesca, Sr. Juan Manuel Flores.
89
campo, nas diversas questões apontadas pela presidente, nos chamou a atenção a necessidade
de envolver instituições da Sociedade Civil responsáveis pela luta por trabalho e gênero:
O movimento de mulheres não tem um trabalho voltado para as
trabalhadoras da pesca, por falta de estrutura do nosso grupo.
Temos tantas frentes de trabalho e pouca gente. Não dá para abarcar
todas...
Achamos importante ver a questão das mulheres, mas não somos
nunca convidadas para as discussões nem conferências. Nossa
interferência é em Itaoca.
Selma
São necessários estudos e pesquisas para definir o perfil e o quantitativo de
trabalhadoras na pesca em todo o Brasil. Hoje esses dados ainda são precários, o que dificulta
nas análises e propostas para o segmento feminino na pesca.
Embora exista um grande número de mulheres exercendo atividades ligadas
diretamente à pesca, isso não consta dos dados e registros oficiais e nem tem visibilidade
social. A identidade profissional da mulher está, em geral, atrelada à do companheiro ou de
outros familiares. As mulheres que trabalham na maricultura ou no beneficiamento do
pescado, como é o caso das descarnadeiras de siri, elas têm seu registro profissional (quando
têm) como “pescadora".
Por outro lado, o registro profissional dos trabalhadores na pesca passa por diversas
instâncias, órgãos e burocracias, historicamente confusos. São considerados trabalhadores
"especiais" junto ao INSS, assim como os agricultores. Nesse sentido, a legislação que rege
seu sistema de previdência é "especial", sendo de desconhecimento da maioria dos pescadores
artesanais.
90
Na verdade os estudos e estatísticas sobre pesca no Brasil ainda são ineficientes para
permitirem um diagnóstico mais preciso da realidade do setor, em termos quantitativos e de
perfil dos trabalhadores.
A primeira Conferência Nacional de Aqüicultura e Pesca, realizada em novembro de
2003, já citada, apontou questões estruturais do setor, que apresentamos de forma resumida, a
seguir42:
š
Infra-estrutura de apoio deficiente;
š
Carência de mão-de-obra especializada e de tecnologia de pesca e de pescado
nos diversos segmentos da cadeia produtiva;
š
Distribuição e comercialização do pescado in natura, passando por uma longa
cadeia de intermediação, ocasionando um maior preço ao produto e não
gerando maior renda para o pescador;
š
Limitações para o desenvolvimento da aqüicultura, tanto em termos de
investimento, gestão de águas, como de apoio técnico para qualificação de
mão-de-obra e desenvolvimento de pesquisa, organização e comercialização da
produção;
š
Grande número de trabalhadores em situação informal, excluídos da rede de
proteção do Estado;
š
Altos índices de analfabetismo entre os pescadores;
š
Limitações e burocracia na abertura de linhas de crédito para o setor e seus
trabalhadores;
š
Deficiência no setor de pesquisa de emprego e de tecnologia;
š
Frota deficiente para as exigências de modernização da produção/beneficiamento e comercialização/armazenamento (técnicas, petrechos e embarcações);
42
Optamos somente por apresentar pontos. Sua discussão não é objeto de nosso estudo e demandaria relação de
outras questões. Mais informações sobre as resoluções: http://www.presidenciadarepublica.gov.br/SEAP
91
š
Inexistência de uma rede de informações e um cadastro nacional de dados do
setor pesqueiro, gerando problemas na gestão da sustentabilidade pesqueira.
No I Encontro Estadual de Trabalhadoras na Pesca e Aqüicultura, já citado, os temas
de discussão, para encaminhamento à Conferência Nacional foram:
š
Superação das desigualdades sociais;
š
Dificuldades e desafios encontrados pelas trabalhadoras na pesca e aqüicultura;
š
Direitos trabalhistas e previdenciários;
š
Assistência à saúde e questões ambientais e culturais;
š
Projetos específicos para a produção e acesso ao crédito.
O desdobramento dessas deliberações em ações concretas depende da organização dos
trabalhadores e trabalhadoras através de suas associações e colônias e da correlação de força
no interior das comissões e organismos estatais responsáveis pelo setor pesqueiro.
92
CAPÍTULO III
O LUGAR - TERRITÓRIO DE VIDA E TRABALHO
Seus primeiros habitantes - os Tamoios, denominavam "seio do mar". Os portugueses
possivelmente a confundiram com um rio ou um canal. João e Aldir imortalizaram suas
"águas" e Caetano cantou uma "boca banguela".
A Baía de Guanabara é a história da cidade e dos sujeitos. De seus olhares sobre um
cotidiano de beleza natural, mas, contraditoriamente, de degradação da vida. Um lugar que
traz as marcas históricas de um processo de ocupação e urbanização por diversas vezes
predatório e excludente.
A importância econômica, política e cultural da Baía de Guanabara, e os problemas
ambientais que afetam a vida das populações no entorno dela, como no caso dos moradores da
Ilha de Itaoca, são os temas das discussões que tratamos em nosso estudo, visando refletir
sobre a categoria "lugar", contextualizada num território de vida e trabalho na atividade da
pesca artesanal.
Para chegarmos à Ilha de Itaoca, podemos escolher dois caminhos: por terra (São
Gonçalo) ou por mar (Baía de Guanabara). Aqui neste capítulo nós escolhemos chegar pelo
mar. Pegar um barco na Ilha de Paquetá e aportar no atracadouro da Praia das Caiciras. Ao
93
sairmos desse capítulo, iremos de ônibus, sacolejando e "comendo" poeira até São Gonçalo,
que é a referência de cidade para os moradores de Itaoca.
Antes de entrarmos na descrição da Ilha de Itaoca e no contexto sócio-ambiental da
Baía de Guanabara e da cidade de São Gonçalo, vamos situar as discussões teóricas que
nortearam nossas análises, baseadas nas idéias de Milton Santos e Y-Fu-Tuan, sobre sistema
de objetos e sistemas de ações e topofilia. Incluímos também as discussões sobre os saberes
patrimoniais.
Nosso objetivo é refletir as relações entre o ambiente, a configuração espacial e as
práticas de trabalho e vida.
Nesse capítulo, a história do lugar e as questões ambientais são apresentadas e
discutidas pelos relatos e memórias das mulheres descarnadeiras de siri, pescadores,
moradores e lideranças, entremeados com os dados técnicos e documentais.
3.1 Topofilia – homem/natureza/cultura
As relações entre a sociedade e o ambiente natural estiveram marcadas durante um
grande período da história da humanidade por duas visões: num primeiro momento, do
homem primitivo, o temor frente as forças incontroláveis da natureza; num segundo, pela
vontade deliberada de desvendar os mistérios da natureza e, desta forma, vencê-la e dominála.
Os homens de hoje sabem que a relação com a natureza passa por uma gestão
ambiental que tenha como princípio a qualidade de vida do homem na terra.
Apesar do evidente consenso, as estratégias de caráter econômico e as pretensões
tecnocráticas dificultam uma gestão ambiental mais voltada para garantir a vida e a natureza,
94
que rompa com visões equivocadas sob a égide de uma racionalidade cega ou de um
romantismo inocente.
O estudo das percepções, representações, atitudes e valores dos homens em geral
começam a ganhar força a partir da década de 70, com um grupo de pesquisadores e
estudiosos preocupados em romper com as visões economicistas e neo-positivistas,
especialmente no campo da geografia. Os estudos de percepção ambiental passam a ser assim
uma nova alternativa epistemológica, compondo o campo da geografia humanística.
No campo de estudos da geografia humanística, as maiores contribuições vêm das
idéias de Yi-Fu Tuan, que desde a década de 70 tem trazido novos conceitos para o
entendimento do ambiente e das aspirações do homem em relação à qualidade ambiental.
Nesse momento do texto vamos destacar um de seus mais importantes conceitos, que é o de
topofilia e que aqui nos interessa pensar, relacionando-o ao texto da nossa pesquisa. Segundo
Tuan (1980, p.107): "A palavra topofilia é um neologismo, útil quando pode ser definida em
seu sentido amplo, incluindo todos os momentos com o meio ambiente natural."
O conceito de topofilia desenvolvido por esse autor associa sentimento a lugar. Uma
abordagem desenvolvida no campo da percepção e das atitudes e valores que envolvem a
relação do homem com o meio ambiente, com o lugar. Valores que passam pelos conceitos de
homem, natureza, cultura e meio ambiente.
Discutindo os significados das atitudes e valores ambientais no que concerne à cultura,
o autor nos diz que para compreendermos a preferência ambiental de uma pessoa seria
necessário partirmos de uma herança biológica, sua criação, sua educação, a atividade que ela
exerce e seus arredores físicos. Em relação às atitudes e preferências de um grupo, teríamos
que traçar a história cultural e a experiência do grupo no seu contexto social e físico.
Ainda assim, como nos sinaliza o autor, "em nenhum dos casos é possível distinguir
nitidamente entre os fatores culturais e o papel do meio ambiente físico." (op. cit., p. 68). Para
95
esse autor, os conceitos de cultura e meio ambiente, estão superpostos, assim como os
conceitos de homem e natureza.
Nesse sentido, o campo de percepção não está separado das atitudes e valores, e
compõe o caleidoscópio das ações dos homens na relação com seus pares e com o lugar. O
campo da percepção ambiental é todo o tempo atravessado pelos valores e papéis definidos
em cada contexto cultural, produzindo o que ele chama de mapa mental de cada um, onde
estão colocados a sua história cultural e seus papéis sociais.
Quando discutimos, por exemplo, as visões do visitante e do nativo sobre o meio
ambiente, com certeza os aspectos percebidos por um serão diferentes dos percebidos por
outro, sob o mesmo ambiente. Segundo Tuan (1980, p. 72):
Em geral, podemos dizer que somente o visitante (e especialmente o turista)
tem um ponto de vista; sua percepção frequentemente se reduz para usar os
seus olhos para compor quadros. Ao contrário, o nativo tem uma atitude
complexa derivada de sua imersão na totalidade de seu ambiente.
Com toda certeza, a visão do visitante sobre o que se está vendo, visitando, é imediata.
A própria ação em si, pela novidade do momento de estar ali. Ao contrário da visão do nativo,
que só poderia ser explicitada na sua complexidade, no seu comportamento, que traduz a
tradição local, através de seus conhecimentos e mitos.
Nesse caso, a visão do visitante sobre o meio ambiente é essencialmente estética
(TUAN, op. cit.). Um julgamento pela aparência, por critérios formais de beleza ou repulsa.
Para entrar na vida do lugar, dos nativos e no seu cotidiano, é necessário não só viver
uma empatia com a paisagem, mas com o quadro de valores, mitos e tradições do lugar e de
seus habitantes.
96
Segundo o autor, existe um condicionamento pela cultura de percepção e valores
ambientalistas das pessoas; esses fatores também não são imutáveis e podem sofrer
modificações com o tempo, com as mudanças sociais.
Num certo período da história das cidades, as regiões alagadas, como pântanos,
mangues, eram vistas sob a perspectiva da insalubridade, propunha-se medidas radicais de
saneamento ou extinção dessas áreas. Muitas dessas regiões na cidade do Rio de Janeiro
foram aterradas, causando conseqüências futuras no desequilíbrio ambiental da própria Baía
da Guanabara. Sem dúvida que essas percepções faziam parte de um conjunto de idéias do
período histórico, onde as concepções higienistas marcavam os processos de urbanização.
(CORREA, 2001).
Mais tarde, sobre novas idéias, produz-se um novo imaginário social em relação a
esses locais que passam a ser vistos como nichos ecológicos, sendo até mesmo merecedores
de uma legislação para protegê-los.
Evidente que para aqueles que habitam de forma precária essas áreas, como é o caso
dos sujeitos da nossa pesquisa, uma região de manguezais como Itaoca não será percebida da
mesma forma pelos moradores que por ambientalistas, por exemplo. A necessidade de
ocupação, premida pelas condições materiais, certamente muda a percepção sobre aquele
ambiente. Neste caso o que está presente não são somente os valores culturais e estéticos, mas
os valores políticos, sociais e econômicos que envolvem a ocupação do solo urbano.
Segundo Tuan (op. cit.) o lugar do visitante permite perceber méritos e defeitos, em
um ambiente, que não são mais facilmente percebidos pelos residentes. Ainda que essas
percepções sejam superficiais, elas contêm dados novos, que podem ampliar a percepção
sobre o ambiente.
97
3.1.1 A percepção afetiva do lugar e o território
Os estudos de Tuan (op. cit.) faz-nos refletir sobre o papel da emoção e do pensamento
na ligação com o lugar, visto também na perspectiva de território. É necessidade de todo o
animal, incluindo-se aí os seres humanos, ocupar um espaço, delimitar um território.
Entretanto, a territorialidade humana, difere em alguns aspectos da do animal, já que aos
humanos caberia lidar com a emoção e o pensamento simbólico. A gama de significações
dada ao lugar pelo homem é um dos itens que o diferenciam dos outros animais.
A importância dada aos eventos biológicos do nascimento e da morte, por exemplo, é
um comportamento não encontrado em outros animais. Lugares dedicados ao nascimento e à
morte são unicamente humanos (TUAN, 1980).
Os lugares humanos são diversos, variam de forma e de tamanho. Pode ser um
pequeno canto da sala, uma cadeira, ou uma cidade, um país, um território, uma nação. Pode
ser reconhecido pela experiência tátil, olfativa, mas também pela lembrança, pela imagem,
pela experiência não direta, através do meio simbólico.
A quantidade de ligação emocional ligada aos objetos, aos lugares, cria a identidade e
produz os símbolos, que podem ser coletivos ou compor uma experiência pessoal, singular. A
casa, por exemplo, é um lugar de profunda afetividade. "Em qualquer lugar que haja seres
humanos, haverá o lar de alguém com todo o significado afetivo da palavra". (op. cit. p.130)
Os espaços e os objetos da casa são símbolos de pertencimento a um grupo, a uma
atividade profissional, a um gênero humano. São marcas no espaço do lar e da comunidade,
da cultura de um grupo. A casa dos pescadores e pescadoras possui objetos próprios do
trabalho no mar, no mangue, no beneficiamento do pescado. Em princípio, são apenas
petrechos de pesca. No entanto, ao atribuírem um significado especial, uma marca individual
98
ou de grupo, ao definirem uma disposição espacial daquele objeto na casa, significados
afetivos são construídos e compartilhados e um território é demarcado.
No trabalho com a extração de carne de siri, por exemplo, as pequenas facas utilizadas
são relíquias para as descarnadeiras e não se misturam às outras facas e utensílios domésticos.
Segundo as mulheres:
_ Elas pegam o jeito da mão...a gente se acostuma a tirar com essa
faquinha e outra atrapalha.
No mar também existem os lugares de cada um. De cada barco, de cada curral.
Existem segredos de pesca. São territórios marítimos que definem a sobrevivência do grupo e
a abundância da pescaria, que só devem ser revelados aos companheiros ou familiares. A
topofilia desses lugares está impregnada da prática de trabalho e da relação do homem com os
ecossistemas naturais.
Na verdade, todos os animais, inclusive os humanos, ocupam e usam espaço. A área
como unidade limitada de espaço é também um conceito, dessa forma o território é uma
abstração, uma imagem mental, facultada ao homem pela sua percepção e emoção.
Todos os animais são capazes de escolher um espaço para, por exemplo, satisfazer as
suas necessidades biológicas. Entretanto, só os humanos dão a esse lugar de parada uma gama
de significações, de emoções, inconcebíveis ao mundo animal. Desse modo, um espaço pode
tornar-se ou não essencialmente humano, dependendo dos investimentos, afetos, percepções e
significações nele colocados. Santos (1997) vai discutir sobre outras perspectivas a respeito
do espaço e território.
3.2 Espaço - Sistema de objetos, sistemas de ação
A racionalização do espaço geográfico é fruto de um processo secular, onde a
emergência de um meio técnico-científico torna-se suporte necessário aos processos de
99
globalização. A substituição de um meio natural por um meio cada vez mais artificializado,
produzindo novos arranjos espaciais, é uma marca na configuração histórica entre o homem e
natureza.
O desenvolvimento da técnica com sua penetração por todos os aspectos da vida
cotidiana produz uma ordem técnica. Segundo Santos (1997), essa ordem assenta-se numa
ordem social planetária, da qual é inseparável, criando novas relações entre tempo e espaço,
agora unificados sob bases empíricas.
Do ponto de vista da geografia e das discussões que aqui nos interessam, o espaço
geográfico advindo das transformações que implantaram a nova ordem é considerado como
um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações.
Esses sistemas atuam nos dois planos, global e local, constituindo-se em normas de
uso dos sistemas localizados de objetos. Nesse sentido, o território, com seu caráter local,
funciona como norma para o exercício das ações. De acordo com Santos (1997, p. 267):
A partir dessas duas ordens, se constituem paralelamente, uma razão local
que em cada lugar se superpõe e, num processo dialético, tanto se associam,
quanto se contrariam. E nesse mundo, mas também o confronta, graças a sua
própria ordem. É nesse sentido que o lugar defronta o mundo, mas também,
o confronta, graças a sua própria ordem.
O espaço nessa perspectiva é pensado pelo autor como sendo formado por dois
componentes que interagem continuamente, sendo eles a configuração territorial e a dinâmica
social. O território seria o conjunto dos objetos sociais e dos dados naturais, mais ou menos
modificados pela ação consciente, intencional do homem, através de seus sucessivos sistemas
de engenharia. A dinâmica social seria o conjunto das relações que definem uma sociedade
em dado momento de sua história.
100
No uso ambíguo da palavra espaço, por vezes encontramos as designações de lugar,
território e paisagem. Aqui vamos nos apoiar no seu caráter diferenciado, em seu conteúdo
técnico. Segundo Santos (op. cit. p. 51):
No começo era a natureza selvagem, formada por objetos naturais, que ao
longo da história vão sendo substituídos por objetos fabricados, objetos
técnicos, mecanizados e depois, cibernéticos, fazendo com que a natureza
artificial tenda a funcionar como uma máquina.
Desse modo, o processo histórico marca as mudanças ocorridas sob uma nova
conformação geográfica e de arranjo dos objetos, produzindo novas significações para o
mundo e para as pessoas.
Todo o período histórico se afirma com um elenco correspondente de técnicas que o
caracterizam e com um conjunto de objetos. Ao longo do tempo, corresponderá a um novo
arranjo dos objetos e a novas formas de ação; entretanto, como coloca Santos (op. cit.), como
um lugar se define como um ponto onde se reúnem feixes de relações, o novo padrão espacial
pode dar-se sem que as coisas sejam outras ou mudem de lugar.
Cada padrão espacial não é apenas morfológico, mas também funcional, quando há
mudanças de caráter morfológico, junto a novos objetos, esses criados para atender a novas
funções, os velhos objetos permanecem, mas mudam suas funções.
Como o espaço é produzido e é também produto de processos materiais e de diferentes
significações para os homens, esses elaboram e desfazem os objetos de acordo com seus
interesses e necessidades, ainda que não sejam os precursores das ações, mas por fazerem
parte de uma totalidade de ações.
Relacionando a uma das problemáticas do nosso estudo, podemos inferir, por exemplo,
que a preservação do ambiente natural está sob o controle dos sistemas de objetos e dos
sistemas de ações, quando no ambiente natural são lançados inúmeros artefatos descartáveis,
que alimentam a produção de novos objetos artificiais.
101
No movimento do homem e da sociedade atual, produz-se um número infindável de
artefatos que imaginamos indispensáveis às nossas atividades diárias. Por outro lado, cada vez
mais artificializamos as práticas e associamos novos objetos às nossas aparentes necessidades
e a nossa comodidade imediata. No espaço de nossa pesquisa, localizado no fundo da Baía de
Guanabara, a imagem desses artefatos infindáveis da cidade adentram a Ilha, sendo descrita
muitas vezes como se fosse da própria paisagem local.
A movimentação e o deslocamento do homem no espaço cria cada vez mais uma
modificação no meio, produzindo uma ação que modifica a realidade do espaço físico e do
próprio homem na sua relação com o seu meio e com o outro. Segundo Santos (1997, p. 50):
"Os objetos são esse extenso, essa objetividade, isso se cria fora do homem e se torna
instrumento material de sua vida, em ambos os casos uma extremidade."
Cabe sinalizar que, para a geografia, os objetos são tomados como sistemas e não
como coleções. Nesse sentido se diferenciam das coisas, que seriam dádivas da natureza.
Entretanto, quando as coisas são utilizadas pelos homens a partir de um conjunto de
interações sociais, passam também a ser objetos.
A degradação do espaço e os processos de urbanização geram ações de estruturação do
espaço. Essas ações são combinadas e consolidadas pelos atores sociais. O deslocamento
desses atores no espaço funciona como se fossem eles os condutores de ação. A prática desses
atores modifica o meio e serve de ordenamento ao processo produtivo.
O espaço pensado nessa dimensão reproduz a totalidade social, na medida em que as
transformações ocorridas são determinações sociais, econômicas e políticas. Isso, segundo
Santos (1997), não destitui o homem de sua capacidade de agir e transformar além dos limites
impostos. Entretanto, o que está posto no atual momento histórico é a produção de uma
distinção cada vez maior entre a intenção e propósito, gerando processos de alienação
102
intensos e um menor poder de decisão por grande parte da população, em relação ao espaço e
aos sistemas de ação.
Os chamados centros de comando, hoje, encontram-se alheios às esferas dos territórios
e conseqüentemente às demandas locais. Cada vez mais os processos de alienação são
regionais e locais, definindo aqueles que decidem pelos outros e os que não decidem. O
homem comum decide cada vez menos. A racionalidade das ações é pautada sob uma razão
técnica, e não considera o homem na sua forma racional e simbólica.
A imposição de um agir formal e técnico desqualifica o agir simbólico, cultural.
Entretanto no espaço cotidiano as formas de agir estão superpostas. O triunfo de uma sobre a
outra é aparente e não é capaz de suplantar a capacidade transformadora do homem.
3.3 Espaço - cotidiano e proximidade
Baseando-nos ainda nas idéias de Santos (2002, p.172), em relação ao espaço e ao
viver humano, e nas suas formas de manifestação no cotidiano, com os objetos que compõem
a paisagem, o mesmo nos coloca:
O espaço é a matéria trabalhada por excelência. Nenhum dos objetos sociais
tem tanto domínio sobre o homem, nem está presente de tal forma no
cotidiano dos indivíduos. A casa, o lugar de trabalho, os pontos de encontro,
os caminhos que unem entre si, são elementos passivos que condicionam a
atitude dos homens e comandam sua prática social.
A práxis fundamental na transformação da natureza tem um forte componente
econômico e social, mas é tributária das imposições espaciais.
103
É no espaço que se dão as disputas pelo uso adequado e solidário dos equipamentos e
serviços, definindo o campo de força de cada um. Isso não chega a se dar numa disputa
territorial com esse outro que também compõe o espaço.
Nesse momento a noção de socialidade nos ajuda a entender a questão da relação entre
os homens na configuração do espaço. Santos (1987), trabalhando a partir das idéias de Jean
Paul Sartre, aponta-nos o conceito de prático-inerte que se define como sendo as
cristalizações da experiência passada, do indivíduo e da sociedade, corporificadas em formas
sociais e também em configurações espaciais ou paisagens. A relação do homem, como
prático-inerte inclui uma relação com o espaço e com o outro.
Essa proximidade para os geógrafos não diz respeito à definição das distâncias, mas
tem a ver com a contigüidade física entre as pessoas numa mesma extensão, num mesmo
conjunto de pontos contínuos. Sendo assim, a proximidade pode criar laços de solidariedade,
laços culturais, colaborando para a construção da identidade. A vizinhança atua assim, nessa
perspectiva, como um processo de acumulação em um mesmo espaço de laços afetivos e
paixões, levando a uma mudança e a uma percepção mais global do mundo dos homens.
Desse modo estaria sendo produzida uma consciência de indivíduo e do seu espaço de
pertencimento, na atuação do uno e do múltiplo.
Isso pode ser pensado num plano mais ampliado das cidades e nas suas configurações
como territórios e mercados uno e múltiplo. Segundo Santos (op. cit.):
"A constante renovação, transformação do espaço urbano por meio das
mudanças das formas da cidade produz transformações nos tempos urbanos
da vida cotidiana, das relações de vizinhança, dos modos e tempos de
apropriação/uso dos espaços públicos por exemplo da rua."
104
O intercâmbio entre as pessoas é na verdade a matriz das trocas simbólicas no espaço
da cidade e da multiplicação e renovação dos acontecimentos. Isso acaba por produzir espaços
menos individualizados, e acarretando uma gama de relações entre os indivíduos.
A própria falta de racionalidade na gestão da máquina urbana produz um intercâmbio
no uso e na disputa dos equipamentos e serviços, como também para o acesso ao trabalho e as
regras de sua divisão social. Divisão essa não calcada apenas no econômico, mas no cultural e
simbólico.
A sociabilidade concentrada, por exemplo, no local de moradia, estreita laços de
vizinhança que vão além da família, privilegiando valores compartilhados na vida cotidiana.
Segundo Sarti (2003, p. 116), o que define que um vizinho possa ser mais importante que um
parente é a confiança.
Desse modo, o que Santos (op. cit.) toma como ponto de discussão é essa realidade
geográfica da vizinhança, que impõe-se, não apenas pela interdependência do território
compartido e da demanda pela diferenciação dos papéis de cada um no espaço de convivência
local ou global, mas no plano da sociabilidade dos afetos comuns.
Sendo assim, a formação sócio-espacial está condicionada a essa arena de conflitos e
fluxos econômicos, geográficos e humanos. Segundo Santos, cada lugar é ao mesmo tempo
objeto de uma razão global e de uma razão local, convivendo dialeticamente
3.4
Itaoca: Uma ilha ao fundo da Guanabara
"_ O importante não é onde moramos, mas onde
em nós a casa mora."
(Avô Mariano - Mia Couto).
Nenhum lugar desperta sentimentos tão variados como uma Ilha. Seja pela beleza
natural pelo edênico, pela possibilidade do isolamento, do aconchego. Em nosso estudo, a Ilha
105
era, mais que tudo, o território de morada dos sujeitos, o lugar de vida e trabalho. Segundo
Tuan (op. cit., p. 135):
A ilha parece ter um lugar especial na imaginação do homem. Ao contrário
da floresta tropical ou da praia, ela não pode reivindicar abundância
ecológica - nem como meio ambiente, e teve um grande significância na
evolução do homem.
Para o autor, a importância da ilha reside no reino da imaginação do homem. Em
diversas lendas, aparece como sendo a residência dos mortos ou dos imortais.
Na imaginação do mundo ocidental, a ilha adquiriu uma força, uma história de paixões
e medos, de utopias.
Em meados do século XVIII, as representações que os europeus, em especial os
franceses e ingleses, faziam da praia e do mar, tidos como ambientes impróprios à vida
humana, começa a modificar-se. A praia começa a representar um lugar de cura para o corpo
e para a alma. (ROSANDAHL E CORREA, 2001). Outro autor que destaca o tema é Diegues
(1998, p. 179):
Não somente as praias dos continentes, mas também as ilhas são procuradas
para a cura e para a reverência do mundo natural. As ilhas européias, pelo
seu isolamento e pela sua beleza, começaram a ser buscadas pelos primeiros
turistas e pelos viajantes desejosos de contato com o exótico e o natural.
A ilha da literatura utópica e romântica aparecia como um lugar de vivenciar
sociedades imaginárias e romances paradisíacos. A célebre obra de Thomas More Utopia é
um exemplo clássico de uma proposta de sociedade utópica, implantada num espaço insular,
cujo trabalho era artesanal e agrícola, vivido de forma prazerosa e produtiva. (Diegues, idem,
ibidem)
106
As viagens do descobrimento conferiram outras simbologias às ilhas menos inocentes
e paradisíacas, à medida que os colonizadores avançavam sobre as terras desconhecidas e
enfrentavam naufrágios e o contato com os outros povos. Entretanto, a imagem negativa não
permaneceria.
A idéia de ilha como espaço de fuga e construção de um mundo ideal, ainda
permanece no mundo moderno, segundo Tuan (op. cit., p. 287): "Certos meios ambientes
naturais tem figurado de maneira proeminente nos sonhos da humanidade de um mundo real;
a floresta a praia, o vale, a ilha."
Nas finalidades de vida de nossos informantes, a ilha também marca seu espaço
paradisíaco, materializado nas residências dos veranistas da Praia da Luz. Imagens de uma
arquitetura que traduz um tempo próspero, do passado, onde a Ilha era uma referência de lazer
e férias para os que vinham de outras regiões, especialmente de São Gonçalo.
As casas são, na verdade, marcas de um estilo de vida presente na memória e na autoestima dos moradores. Traduzem percepções mais positivas do morar na Ilha, mas ao mesmo
tempo sinalizam as contradições econômicas e os interditos na localização espacial, definindo
espaços de ricos e pobres.
O lugar nesse aspecto é mencionado através da memória de um estilo de vida que já
passou e foi consumido por um processo de degradação cada vez maior daquele ambiente.
Restaram os símbolos, que ironicamente também são marcas da degradação do espaço. A
história, entretanto, ainda destaca a Ilha de Itaoca.
Diz a história que, logo após a expulsão dos descendentes da dinastia do Valois do Rio
de Janeiro, três homens receberam terras na região da "Aldeia de Itaoca" - Ibirapitinga e
Quarity. Eram eles, José Adorno, Pedro Marins Namorado e Antônio Rodrigues de Almeida.
(CAETANO, 2003, p. 88).
107
Desses três homens, Antônio Rodrigues de Almeida foi legalmente contemplado com
as terras na Aldeia de Itaoca. Segundo o referido autor, este sítio já era dele desde 1549, o que
o caracteriza como um dos primeiros povoadores da Baía de Guanabara.
Assim se iniciava o povoamento dos portugueses nessa região, antes habitada pelos
índios. Porém, outros registros e nomes também aparecem, trazendo histórias. Entre esses
nomes está o de Mem de Sá, Francisco Dias da Luz, que pelas Bandas d'Além aportou,
passando por "maus pedaços" nas águas da Guanabara. Segundo Almeida e Reznik (1999, p.
11):
De sua pequena varanda, ladeada por duas colunas baixas e arredondadas,
avista-se a Ilha de Paquetá. Conta-se que em meados do século XVII, um
náufrago por ali aportou. Devoto de Nossa Senhora da Luz, em graça pela
salvação, ergueu capela para a santa. A capela até hoje abriga a santa e é
desta sua varanda que se avista, por um ângulo acolhedor, o fundo da Baía
de Guanabara.43
Tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional, a Capela da Luz é considerada uma das
mais antigas do Brasil, datada de 1637.
O legado histórico da Ilha de Itaoca é motivo de orgulho para os moradores,
especialmente para os mais antigos, que ali nasceram. Também é memória de um tempo em
que a população era composta basicamente por famílias de pescadores artesanais, as praias
eram limpas, e o pescado abundante. Viviam das atividades da pesca, do mangue e da
pequena agricultura de subsistência em unidade familiar.
Na divisão espacial da Ilha consideramos cinco localidades, conforme a referência dos
moradores (Ponte do Rodízio, Centro de Itaoca, Praça do Jaqueiral, beira da praia, Praia da
Luz).
43
Segundo os autores citados acima, "coincidentemente" a data provável da primeira missa na capela da Luz,
1647, é a mesma da criação da freguesia de São Gonçalo do Amarante.
108
_ As casas eram assim, salteadas. Essa casa aqui não tinha. Aquela
de lá não tinha, só tinha uma ali, que é a da minha mãe, lá embaixo.
A mãe de Tauana, antiga moradora da Ilha e trabalhadora de siri, morreu aos cem
anos; hoje é nome de rua onde moram seus filhos, netos e bisnetos: a Rua D. Idalina.
Para os que vivenciaram um lugar com uma população reduzida, com poucas casas e
muitos espaços vazios, a chegada de outros moradores que requer uma outra organização
espacial causa preocupação. Entre outras coisas, porque rompe com um convívio íntimo, onde
as relações de vizinhança e de parentesco predominavam.
Os grupos mais antigos da Ilha, que habitam Itaoca há mais de cinqüenta anos, são
formados por pescadores artesanais, com relações de parentesco estabelecidas através de
casamentos consangüíneos.
Desse modo a chegada "dos lá de fora", especialmente aqueles que habitam as regiões
de posse em áreas de mangue, perto da Ponte do Rodízio e do "Lixão" e os da Praia do
Focinho de Porco, considerados "bolsões de pobreza", é vista como a causa das mudanças no
perfil populacional da Ilha e da quebra de identidade dos grupos, aconchegados pelas alianças
familiares e de vizinhança. Sentem-se assim, inseguros com as novas "caras" dos "lá de fora".
_ Aqui era só família...Todo mundo parente! Agora não, que esticaram pro
lado de lá, perto da ponte. Aí muita gente de fora veio morar aqui. Foi onde
estragou nosso lugar também... Porque aqui, minha filha, era só
comunidade, isso aqui agora tá uma misturada desgraçada. O lugar tá
perigoso...
(Ivonete)
...a gente brincava carnaval aqui. Era muito bom, melhor do que agora.
Porque naquele tempo você podia sair aqui tudinho que ninguém mexia,
ninguém fazia nada, entendeu?
109
É o progresso. É o preço que a gente paga. Muita gente morando aqui
agora. Tem gente que nóis nem conhece. É muito barraco lá por ali no
mangue.
(Tauana e Chana)
O espaço a que se referem localiza-se na área de manguezal, na região denominada
Praia do Focinho de Porco. Nessa área existe uma favela, cujo processo de formação se deu
por volta dos anos 80.
Para uma das mais antigas moradoras da Ilha, as mudanças no perfil populacional e na
conformação espacial do lugar são objeto de observação diária e de memórias de uma infância
vivida naquele lugar há 93 anos. Como se fosse num filme, que lhe passa aos olhos marejados
de lágrimas e saudade, ela me conta a história da hoje praça do Jaqueiral, um espaço
localizado no centro de Itaoca, perto do CIEP e que ainda conserva árvores centenárias,
plantadas pela mãe de Dona Semirami há mais de cem anos, no quintal de sua casa de então:
_ Não tinha ninguém. Uma casa ali que era um armazém do Pedro Cunha,
lá embaixo outra casa. Essa casa aí... nossa, era muito grande. Essas
jaqueiras quem plantou foi minha mãe. Mamãe plantou aquelas jaqueira
toda. Tinha muita fruta. Foi cortada... mamãe morreu, cada um de nós
casamos. Aí as crianças não quiseram pagar mais coisa nenhuma. Muito
filho, ninguém quis pagar direito do terreno; nós perdemos. Perdemos não,
ficou ali, aquele lugar, ali alguma jaqueira... virou praça.
_ (...) antigamente era todo mundo parente, conhecido. Tem muita gente
diferente, muita gente aí que eu não conheço mais.Só alguns que passam aí
e gritam: Ó Semirami, como vai? Fico sentada aqui, a gente fica conhecida.
Muitos passam e eu não conheço. Tem muita gente diferente aqui.
Segundo Bosi (2003) os bairros não têm apenas fisionomia, mas também uma
biografia. “O bairro tem a sua infância, juventude, velhice. Esta, como a das árvores, é a
quadra mais bela, uma vez que sua memória se constitui."
110
Segundo essa autora, os relatos de vida acompanham as transformações do espaço
urbano e nos dão um perfil dos detalhes dessa mudança, no espaço e no olhar dos moradores.
As casas crescem no chão e vão mudando: canteiros, cercas, muros, escadas,
cores novas, a terra vermelha e depois o verde umbroso. Arbustos e depois
árvores, calçadas, coqueirais... uma casa pintada de azul irradia a luz da
manhã, os terrenos baldios, as ruas sem saída que terminam em praças ermas
inacabadas por dezenas de anos.
(op. cit., p. 73)
Esses detalhes vividos coletivamente no espaço o bairro trazem um sentido de
identidade, de pertencimento aquele cantinho, aquela vizinhança. Nos dá o direito ao retorno,
ao aconchego, ao familiar.
Para os mais velhos, as questões relacionadas aos problemas do lugar são causadas
pela chegada dos "lá de fora".
As mudanças na verdade começaram a ocorrer por volta dos anos 60/70, em
conseqüência de um decreto municipal de 1962 que torna todas as regiões de São Gonçalo
urbanas. Assim, a região de Itaoca, que apresentava características rurais, passa por
transformações bruscas, sendo alvo de loteamentos. (MOURA, 2002)44
A ocupação e propriedade do solo são diversificadas e se dão de forma irregular,
inclusive em regiões de mangue que estão dentro de um área de reserva ambiental. Existe um
número reduzido de sítios, constituído por propriedades maiores não parceladas; os terrenos
são da Marinha e da União.
As casas são, em sua maioria, de alvenaria e edificadas no processo de autoconstrução. Algumas regiões possuem aglomerados de ocupação, com casas de madeira com
ou sem estuque. As condições de saneamento são precárias: coleta de lixo irregular e restrita
(somente na área do CIEP e Praia da Luz). As demais áreas não são atendidas e os dejetos
44
Dados obtidos - Dissertação Moura (2002) e Secretaria Municipal de Planejamento.
111
humanos e domésticos são lançados em terrenos baldios e pequenos vazadouros. Não há rede
de esgotos; as casas possuem fossas assépticas. O abastecimento de água é precário e grande
parte da população utiliza água de poço.
_ (...) até porque tinha...era menos povoado né? Tinha bastante espaço. Às
vezes num quintal enorme só tinha uma casa. Aí o terreno do lado que era
vazio também já tem casa do outro vizinho.
Quem não tem família com quintal... algumas pessoas compram o terreno de
outras e, alguns se apossam mesmo; vê que tá vazio há um tempão. Aí ele
vai lá e cerca o pedacinho dele e faz a casa.
(Juliana)
Outros compram casas em espécies de vilas e vão aos poucos modificando-as ou
projetando ampliações para agregar outros familiares.. Em alguns casos, não há espaço para
ampliação. De qualquer modo, a conquista da casa é motivo de orgulho.
_ Essa casa aí eu comprei com meu dinheiro. Sabe quanto eu comprei
minha casa? Sabe por quanto? Dois mil reais. Dois mil. Não foi fácil para
pagar, mas foi barato. Minha casa é a melhor que tem. Por que é a melhor?
Porque eu posso fazer outra por cima, posso puxar pra trás. Esse lado aqui
não pode fazer nada, tem que ficar do jeito que tá, concorda comigo?
_ Antes eu morava de aluguel. Só que o dono resolveu vender, entendeu? Aí
dei uma entrada e fiquei pagando a prestação. Agora tenho que juntar
dinheiro e fazer obra nela que está toda destruída.
(Telma)
Na Praia da Luz, uma parte das residências é de veraneio, de moradores de São
Gonçalo, Niterói e até do Rio de Janeiro. Alguns pescadores e/ou donos de embarcação de
pesca, que pela beleza da região e facilidade de aquisição de terra, ali se instalaram.
_ (...) Quando eu era jovem, eu vinha passear na Ilha. Nós íamos para Praia
da Luz. Era muito limpa. Vínhamos de caminhão com os vizinhos. Depois
112
meu marido que tinha barco e pescava aqui. Quando a situação piorou, nós
viemos morar aqui. Mas eu sempre gostei desse lugar e sempre trabalhei
com peixe (venda).
(Valentina)
Itaoca localiza-se na franja urbana de São Gonçalo, na parte oriental da Baía de
Guanabara. Parte da população, hoje cerca de 4.00045, chegou por volta dos anos 90. É
composta por pescadores, empregados no setor de serviços, comércio, pedreiros, biscateiros,
professores, empregadas domésticas. A atividade de pesca artesanal ainda é predominante
(descarno de siri, cata do caranguejo, pesca do camarão e de peixe), junto com a confecção de
petrechos de pesca (redes, espinhal, puçás, conserto de barcos). Parte da população também
exerce atividades de reciclagem do lixo.
A entrada de Itaoca é delimitada pela Ponte do Rodízio. Segundo a história que contam
alguns moradores, essa ponte era móvel e usada como espécie de porteira, que delimitava o
espaço de entrada da fazenda que existia na região, daí o nome "do Rodízio".
A Ilha possui extensa área de manguezal. Uma faixa da Ilha pertence à área de
proteção ambiental (APA) de Guapimirim. Possui aproximadamente 9,5 km². É separada do
continente por vários canais de mangue, entre eles: Canal de Imboassu, Canal do Bento, Canal
de Itaoca (ligando a ilha ao continente através da Ponte do Rodízio). A ponte é margeada por
uma faixa de manguezal (noroeste da Ilha); em seu lado oposto está a Baía de Guanabara.
Nas proximidades da Ilha de Itaoca, entrada da Ilha, antes da ponte, encontra-se o
"Lixão", como é denominado o vazadouro público, não estando dentro dos limites da Ilha e,
sim, da região.
É uma marca discriminatória para os moradores, que fazem questão de assinalar que o
lixão não pertence a Itaoca. Quando eu perguntava nas entrevistas ou nas conversas informais
sobre essa demarcação, as respostas eram enfáticas e aborrecidas...
45
Dados obtidos - Prefeitura de São Gonçalo - Secretaria de Habitação (2000).
113
_ É só você olhar a placa que diz Ilha de Itaoca. O lixão é antes ou
depois da placa?... Então não é Itaoca...
(Diário de Campo)
_ O lixo não é a gente que jogava, era o pessoal lá de fora. Só tem um
detalhe, o pessoal diz que é Itaoca; aqui é Ilha de Itaoca...o lixão é na
Central,. A Ilha é depois da ponte, não é? Central é outro bairro né?
(Tauana)
O chamado "Lixão" recebe resíduos de São Gonçalo e de outros municípios. Nele
trabalham adultos e crianças. Ao conversar com a coordenadora do PETI (Programa de
Erradicação do Trabalho Infantil) e professora do CIEP local, ela informou que existem
crianças de Itaoca que trabalham nesse lixão, especialmente quando o peixe e o siri somem.
O acesso a Itaoca é feito por uma estrada de terra, uma vez que não há qualquer tipo de
pavimentação na Ilha. Os moradores sofrem com os transtornos em relação ao transporte. O
sistema de ônibus e kombis é precário é sofre de irregularidade nos horários, além da má
conservação. Em períodos de chuva forte a estrada fica intransitável e se formam grandes
poças dágua, que ao secarem se transformam em buracos de lama. Os ônibus por vezes
mudam o trajeto, obrigando os moradores a andarem a pé. Em períodos de estiagem a poeira
transforma a cor de tudo e de todos.
Itaoca possui poucos serviços públicos e equipamentos urbanos:
š Serviços de atenção à saúde: 2 postos de saúde (só um em funcionamento) para
pequenos atendimentos;
š Serviços de atenção à educação: 1 CIEP - Carlos Mariguela; 1 escola - Escola
Estadual Salgado Filho; 1 creche comunitária em construção; 2 escolas particulares;
š Serviços de abastecimento e esgoto: o abastecimento de água é precário, a
população utiliza água de poços; rede de esgotos inexistente;
114
š Serviços de lazer e esporte: 1 calçadão na Praia da Luz;
š Equipamentos culturais: Não existem.
Os moradores avaliam que é necessária a implementação de mais equipamentos. A
esse respeito, ver Santos (2003), que em seu estudo detalha os problemas relacionados aos
equipamentos culturais e espaços de lazer para a infância na Ilha. Os moradores se ressentem
da falta de alguns serviços.
A gente se tratava lá no hospital de Paquetá, pegava uma barquinha
porque ali não tinha nada...agora também num tem, mais tá melhor né?
Tem um.
(Ivonete)
O uso dos equipamentos e serviços, especialmente o de educação, pelos não moradores
("os lá de fora") é questionado, por razões que vão desde a preferência de vagas até a
preocupação com a clientela dita "desconhecida". No caso do CIEP, sendo uma das grandes
escolas públicas da região, é natural que os bairros próximos recorram a essa escola.
_ É porque vem estudar gente de fora daqui, né?
_ Aqui tinha que ser só o pessoal da Ilha, né? Tanto Brizolão pra lá pra
fora... Vem gente até do Gradim.
_ Muito misturada a gente estuda lá... e vaga fecha cedo. E lá não tem
Brizolão?
(Tauana e Iara)
Nos relatos, a memória de um tempo onde alguns serviços ainda não existiam na Ilha,
como médicos, escolas, ônibus, luz elétrica. A população tratava-se lançando mão de seus
conhecimentos.
_ Nosso dotô era Crisanto. Ela não se lembra. Era Seu Crisanto. A pessoa
ficava doente três dias... dava remédio, homeopatia, dava aquela
homeopatia, a gente tomava, ficava bom. Ia lá no mato panhava essa erva.
115
Eu colhi muita erva, agora eu não vou mais panhá porque não tenho mais
cabeça pra isso. Entrava no mato, tomava banho, ficava bom. Não tinha
dotô não.
Se quisesse ir ao pronto-socorro? Lá em São Gonçalo. Dava um dia todo a
pé.
(Semirami)
Antes da escola pública chegar, as famílias recorriam aos explicadores. Quem queria
colocar os filhos para aprender a ler e escrever tinha que pagar um explicador (alguém da
comunidade que tinha um pouco mais de escolaridade).
A menina, filha de... que sabia mais, então mamãe pagava pra ensinar nóis.
Mamãe pagava cinco mil réis. Não tinha professora. Estudava com Dona
Lúcia. Depois eu fiquei com o Luiz que também entendia qualquer coisa.
Depois veio Feliciano, mamãe pagava cinco mil réis por cabeça. Era uns
quatro ou cinco filho. Mamãe não queria que deixasse de estudá... mamãe
trabalhava no mangue, tirava aquele dinheiro e todo mês pagava.
(Semirami)
Quando chegou a primeira escola na Ilha, alguns moradores como Dona Semirami já
estavam adultos e seus filhos é que freqüentavam a escola. A primeira professora da Ilha foi
Dona Zenil, hoje com 78 anos. Conta quando começou a dar aulas para os pescadores e como
a relação estabelecida entre a escola e a comunidade acompanhava o cotidiano familiar e da
vizinhança.
Era tudo: professora, conselheira, madrinha de casamento, tudo... Era uma
casa aqui...outra ali...Escola era só ela mesmo. Todo mundo estudava ali
comigo. Uma casinha muito pequena mesmo... Eu andava até São Gonçalo
pra entregar a presença dos alunos todo mês. Aproveitava pra receber e
fazer compras. Meu irmão às vezes me acompanhava. A professora que
tinha aqui desistiu quando a ponte caiu. Ela tinha que passar em cima de
dois coqueiros, no canal. Acho que deu medo. Aí me chamaram pra dar
116
aula. Eu era novinha...Hoje passam uns pescadores aí, já velhos e diz: "Oi
professora!" Aí até acho graça né...
O sistema de iluminação da Ilha é considerado satisfatório pelos moradores, em
relação ao atendimento doméstico. A iluminação pública ainda é precária. Alguns pontos da
Ilha não são atingidos, somente a via principal, no entanto, antigamente...
_ Que luz?! A luz aqui era... a gente que plantava algodão, panhava aquele
algodão, fazia torcido, bem torcido, arranjava um vidro, botava uma
bocazinha assim e acendia de noite.
(Semirami, 93 anos)46
Eu fico boba que a gente fazia a rede com essa luz de lamparina, eu tinha
uns oito anos.
(Carla, 53 anos)
Era um breu, mas um breu... quando a lua saía, tinha que vê clareava tudo.
A gente ficava brincando, pra poder aproveitar a luz.
(Chana, 34 anos)
A Ilha possui seis praias, que apesar de poluídas conferem certa beleza ao local: Praia
de São Gabriel, Focinho do Porco, Praia da Beira, Praia da Luz (a mais conhecida) e Praia de
São João.
É na Praia da Luz que se encontra o acervo histórico (a Capela da Luz e a Fazenda da
Luz). É nessa praia que se localiza o chamado calçadão da Praia da Luz, obra de urbanização
realizada pela Prefeitura de São Gonçalo com verba da Petrobrás, após o episódio do
derramamento de óleo na Baía, em 2000, que trataremos a seguir. Faz parte das ações
indenizatórias (compensatórias) por danos ambientais, previstas na Lei (9.6005/98). O projeto
46
Neste item, as idades são citadas como uma referência ao tempo em que não havia ainda sistema de
iluminação na Ilha.
117
sofre críticas, já que, segundo depoimentos, ele descaracteriza a orla e não foi discutido com
os moradores.
Consiste em uma área de lazer, com gramado, quiosques que vendem bebidas, peixes,
salgados e uma padaria. Nessa região se encontra a Capela da Luz, também reformada por
esse projeto de urbanização. Atrás da Capela encontra-se uma área de Mata Atlântica com
ruínas da Fazenda da Luz, hoje propriedade particular.
_ Acho um crime aqueles quiosques que construíram ali... construíram uns
quiosques imensos que tirou toda a visibilidade de Igreja, que é nosso
cartão postal de Itaoca. Antigamente você chegava ali na Praia da Luz e
logo visualizava a Igreja... Hoje? Tem que entrar, passar por dentro dos
quiosques. Aquilo foi verba da Petrobrás. Na época nos tentamos interferir,
consultar como é que estava sendo aquilo... mas... mas o acesso a execução
do projeto foi muito difícil. Não teve como interferir. Naquela época a
Associação de Moradores estava muito fragilizada. Dizem que houve super
faturamento naquilo. Inclusive, outro dia eu estava conversando com um
morador e ele disse que o Ministério Público tá com processo a respeito
daquela obra.
(Selma)
Alguns donos de quiosques não moram em Itaoca; são moradores de bairros de São
Gonçalo. Os moradores de Itaoca encontram nos quiosques uma opção de lazer, e um espaço
de recepção para os "lá de fora".
_ Dia de domingo aquilo lá enche. Tem seresta ali no domingo. O pessoal
dos quiosques às vezes dão pagode. Vem uns candidato pra encher
linguiça, sabe como?
(Telma)
É para o calçadão que se dirige a população de São Gonçalo e Itaoca nos finais de
semana para desfrutarem de lazer.
118
Paquetá é também um dos lugares de passeio preferido, por ser próximo e existir um
sistema fluvial de transporte entre as ilhas. Muitos moradores de Itaoca trabalham em
Paquetá. Pegam o barco pela manhã e retornam à tarde.
O calçadão é também local de realização da maior festa popular da Ilha - A festa de
Nossa Senhora da Luz que acontece todo dia 2 de fevereiro. Um acontecimento que traz muita
gente para o lugar. É um dos raros momentos em que a Capela da Luz é aberta. Para os
moradores, um momento importante de fé, diversão e oportunidades de ganhos extras, com a
venda de comidas, bebidas e peixes em barracas ou isopores.
_ A festa da Luz é um acontecimento em São Gonçalo. Era a melhor festa
aqui de dentro... Eu participo.
_ Eu participo da cerveja, né?
_ Eu acompanho a procissão. Quando termina a procissão eu venho
embora. Sai da igreja, dá a volta, né? Passa em frente ao hotel e volta.
_ O cervejal começa sexta-feira. A festa vira noite: tem pagode... Segundafeira as barracas tão tudo aberta. Agora se prepara minha filha, é tanta
gente. O ano passado, duas horas não tinha mais nada, nem água pra beber.
Se tiver um isoporzinho traz.
(Tauana, Chana e Iara)
119
3.5 A topofilia do lugar
Os elementos que conferem um caráter particular ao espaço da Ilha estão intimamente
ligados ao tipo de sociabilidade e de comunicação que aí existe, marcado pelas relações
familiares e de trabalho na pesca. A visibilidade cotidiana entre os moradores transforma as
pessoas e os espaços conhecidos e coletivos. Os muros e cercas são precários. Os portões, em
sua maioria sem tranca, mesmo não se constituindo em impedimentos de penetração nas
casas, não deixam de delimitar os espaços privados.
A circulação entre as casas é permanente, seja de vizinhos ou familiares. Algumas
casas se comunicam. É comum as famílias morarem todas no mesmo terreno, e à medida que
vão conseguindo sua independência financeira, casando, tendo seus filhos, vão construindo
suas casas no mesmo terreno. A rua também é um espaço doméstico, que se coloca entre o
universo privado da casa e o público, como uma extensão dos quintais.
Nesse terreno que mora minha mãe, tia Yara, meu irmão, é tudo família.
Aqui sempre foi assim: morando, trabalhando tudo junto.
(Chana)
O trabalho na pesca também caracteriza o perfil da Ilha e sua topofilia. Placas
indicando venda de peixe, caranguejo. Petrechos de pesca pendurados, canoas e remos nos
quintais. Redes estendidas. Caixas de plástico para armazenamento do pescado. Casquinhas
de siri secando para serem comercializadas, espinhéis sendo confeccionados.
A convivência com um espaço ainda muito verde e calmo em relação ao ritmo intenso
e ruidoso de outros espaços urbanos é apontando nas suas oposições: bom e ruim.
120
O sossego e a contemplação do verde são bons para se viver, mas também produzem o
tédio, a estagnação. A ausência de serviços obriga a população a "ir lá fora" buscar esses
serviços. Embora essa também seja uma forma de vivenciar outros espaços e outras
realidades.
_ Isso aqui é muito parado. Faz até mal às pessoas. Fica tudo com a mente
parada igual ao lugar, não evolui. A pessoa precisa de sossego, mas nem
tanto.
(Diário - pescador)
_ Essa semana fui lá em Niterói, lá na UFF, ver dentista. Tô fazendo
tratamento lá.
_ Ah!... é muito bom aquilo. O maior agito... Já era noite e chega gente,
chega gente.
_ Todo dia não é bom, mas assim às vezes...
_ Aí é que eu vejo a diferença do nosso lugar, um agito às vezes é bom.
(Diário - Chana)
_ Eu gosto do sossego daqui. Das conversas assim...
_ Quando saio, sinto falta. É bom ir e voltar.
(Tauana)
Valentina e Selma não pertencem a famílias tradicionais da Ilha, ligadas à pesca
artesanal, nem nasceram na Ilha, porém moram lá há mais de 20 anos. Valentina freqüentava
a Ilha desde a infância. Ao casar, voltou a ir sempre na Ilha. Seu marido tinha barco de pesca
na região e ela o ajudava na comercialização do pescado. Selma é oriunda da comunidade de
Jurujuba e como ela diz: "sempre vivi perto dos pescadores". Ambas são envolvidas com as
lutas de comunidades: cooperativas de mulheres, movimento de mulheres de São Gonçalo,
creche comunitária, transporte e educação.
121
O lugar é compreendido com as contradições entre o belo e degradado. Entre o
encantamento da proximidade com a natureza e a dureza do cotidiano atravessado pela
degradação do espaço.
A nossa Ilha; olha, nós passamos muita dificuldade nesse lugar, mas tem
muito amor por esse local e a gente olha com esperança. A coisa mais
gostosa é a gente acordar com o canto dos pássaros. Você vê tudo quanto é
tipo de pássaro.
(Valentina)
Viver perto da natureza é muito gostoso. Meu marido todo dia ele põe milho
pras rolinhas, mas são muitas. Se eu tiver daqui e sair elas levantam todas
juntas. Criamos galinhas, pato.
Nós tivemos agora no início do anos querendo sair porque meu filho mais
velho trabalha no Rio, o outro tá querendo fazer vestibular. É muito
complicado pra eles virem pra casa. Mas não Meu marido relutou, relutou,
até que desistimos. Gostamos daqui.
(Selma)
Entretanto, a natureza do lugar também traz desafios para os moradores. A estrada não
asfaltada é um desses desafios.
Entre as razões do não-asfaltamento da estrada, encontramos desde as explicações
quanto aos processos de segregação e exclusão dos lugares da cidade, as deficiências das
políticas públicas de saneamento e urbanização até as questões ambientais. Penha e Paulinho,
oriundos da Ilha, moradores da Praia da Luz, também questionam as condições de transporte e
pavimentação.
_ Por que não asfaltam?
_ Dizem que porque não pode.
_ Alegam que é por causa do manguezal...então não pode asfaltar.
_ Essa Ilha não pode asfaltar porque é igual a igreja, é tombada. Mais
podia fazer saneamento básico, botar só pó de pedra, isso pode.
122
_ Isso pode, de saibro e bem batido.
_ Pode, mas eles não faz... Em Paquetá não tem? O negócio deles aqui é só
pedir voto, mais nada. Por isso é que eu não voto pra ninguém...
(Penha e Paulinho)
Segundo a avaliação técnica, devido às características geomorfológicas, área de
mangue (solo argiloso), o sistema de pavimentação comum não seria aconselhável e afetaria a
preservação dos manguezais. (MOURA, 2003).
As explicações técnicas, embora consideradas, não escondem para eles as razões
políticas, nem justificam uma falta de resolução por parte das instâncias responsáveis. Hoje
existe um grupo em formação (Movimento Pró-Melhoramento de Itaoca) que se reúne no
CIEP para discutir os problemas e soluções viáveis para a Ilha, especialmente o sistema de
circulação interna e transporte. Selma é uma das integrantes desse grupo.
_ ... O dia em que a estrada melhorar, tudo melhora em Itaoca. O ônibus
surge sempre numa festa, qualquer conversa os moradores falam da
estrada, do transporte.
_ O não-asfaltamento é uma questão política. Uma coisa que a gente ouve
sempre é que não tem eleitores, não tem número de moradores suficiente e
que Itaoca já estaria asfaltada. Quando a gente chega para um secretário
de transporte, um político, um prefeito... é uma desculpa que eles colocam.
A questão de ser reserva. Porque se a estrada tiver boa manutenção, uma
estrada de chão bem conservada com uma boa manutenção, isso não vai ter
dificuldade. Os ônibus vão ter facilidade de percorrer e os carros também.
O problema que a estrada precisa de manutenção. Com o tempo e os
gestores passados, eles só faziam o quê? Passar a máquina para estar
debastando toda a rua. Ali perto da ponte alaga tudo. Estrada de barro
precisa de manutenção. A estrada precisa estar abaulada para que a água
não forme poças e escoe.
_ A estrada não está em condições por razões políticas...
_ Até porque quando você olha no mapa a área que pertence à APA não
pega toda a extensão da Ilha. Pode ser um paralelepípedo, um tipo de barro
misturado com cimento... Há alternativas... Se tiver um prefeito que pense
123
no desenvolvimento de São Gonçalo e pense Itaoca como um local que pode
se desenvolver pelo turismo, aí melhora. Independente do voto, Itaoca
poderia ser um ponto turístico. Um lugar gostoso, agradável, com a
terceira Igreja mais antiga do Brasil.
Os problemas relacionados à preservação ambiental da Ilha e ao saneamento produzem
polêmicas e justificativas técnicas e políticas, dadas pelos órgãos de gestão que não
correspondem às demandas da comunidade. Esses problemas apareceram na totalidade das
entrevistas que realizei. É um sofrimento cotidiano - os buracos, o sacolejo do ônibus. A
poeira em suspensão, a longa espera do ônibus, os atrasos na escola e nos compromissos.
Afeta também a auto-estima dos moradores, que se preocupam com a aparência dos "daqui de
dentro", que se mostram sujos de poeira para os "lá de fora". Sinalizando estratégias para que
ao saírem da Ilha não mostrem as marcas da falta de pavimentação.
_ Ah! Cristina passa um pano no sapato. Vão pensar que você veio da onde
quando chegar em Niterói?
(moradora - Diário de Campo)
3.5.1 Memórias da Infância e Lugar
Nos relatos e nas entrevistas as lembranças do lugar e da infância vivida na Ilha não
demarcam idades, mas tempos, espaços e brincadeiras. Tempos mais tranqüilos, de população
reduzida, onde as relações de vizinhança eram intensas. Os quintais eram espaços coletivos e
amplos, onde as crianças circulavam entre os quintais. Reuniam-se para ouvir histórias ou
trabalharem no siri e na confecção de petrechos de pesca.
No grupo de entrevistados, não foi apontada a praia como um espaço de brincadeiras e
sim os quintais e a rua. Não aprofundamos esta questão. Por nossas observações na
comunidade, percebemos que a conformação geográfica da Ilha oferece um espaço de áreas
124
verdes e de mangue antes de se estar à beira-mar. Em geral as crianças circulam mais nessas
áreas que na beira da praia. A beira da praia é mais um lugar de trabalho, menos ocupado
pelas crianças.
_ Juntava a garotada toda para brincar de roda. Brincava de correr, tinha
espaço bom pra correr.
_ Juntava aquela garotada dos vizinhos. Tudo tinha filho, ia todo mundo lá
pra casa brincar. De roda, de pique. O nome do meu boneco era lindinho.
Era de plástico, não era de pano não. Uma borracha, uma coisa assim. A
gente batizava eles. Cada um tinha um boneco. Era comadre pra qui,
comadre pra ali... Fazia o altar, fazia o doce de goiaba, de abóbora, de
maracujá. Todo plantava aqui e fazia doce.
(Semirami)
_ A gente brincava no quintal dos outros vizinhos. Essa casa aqui não tinha,
aquela ali não tinha, aquela lá já caiu. As casas eram salteadas. Lá no
jaqueiral tinha um casarão grande, que era de uma tia nossa, a gente ia pra
lá brincar. Não tinha aquele armazém.
_ As mães da gente ia pra casa dos poucos vizinhos contar histórias. Ficava
todo mundo sentado aqui no quintal ai, contando aquelas histórias.
(Tauana)
_ Tinha muita história... muita mesmo... de assombração.
_ Ah! De assombração. Eu mesmo vi uma assombração.
_ Eu vi, ali perto de onde minha irmã fez casa. Era um cavaleiro. Ai desceu
do cavalo de arma. O cavaleiro com aquela capa grande, vermelha e preta.
Mas, não era um cavaleiro homem. Era bem bonequinho desse tamanho. Aí
ele disse assim... era quem, era ... ou o diabo? E aí ele voou em cima dele e
bateu muito nele. A voava em cima, mas não acertava, entendeu?
(Chana)
_ A brincadeira era uma boneca de pano, um bocado de lata de sardinha
que a gente encontrava por aí. A gente fazia panela, botava caruru, fazia
foguinho de lenha. A brincadeira era essa. A gente não tinha brinquedo.
125
(Iara)
_ Já a nossa era bandeirinha. Pique lateiro. Passar anel.
_ Quando chegava domingo tomava seus banhos, penteava o cabelinho,
calçava o tamanquinho. A gente tinha o tamanquinho da semana e o de
domingo.
_ Era tão bonitinho esse tamanquinho, eu também usei.
(Tauana, Chana e Valentina)
_ Ah, eu brincava muito de subir em árvores... minha avó batia na gente.
_ É, minha infância quase toda foi ali, na casa de minha avó... brincava
muito com meus primos. A gente corria, brincava de bicicleta, jogava bola
de gude.
_ Era bem diferente. Tinha menos população. Onde eu morava não tinha
nem luz. Tinha alguns lugares aqui que já tinha.
(Iara, Valentina)
Tinha as passagens mais difíceis da infância, lembranças nem sempre agradáveis, mas
que também compunham a paisagem e a realidade local. As precárias condições de vida de
algumas famílias vivenciadas na infância e que impedem que emerjam boas lembranças.
Outras, ligadas às obrigações precoces das tarefas familiares e do trabalho na pesca.
_ Eu não tive infância, nem gosto de falar nisso. Às vezes é muito difícil.
Passei muita dificuldade.
(Telma)
_ Eu não aproveitei minha infância. Não aproveitei nada.
_ Também não. Trabalhei muito...
(Bené)
3.6 Há muito tempo nas águas da Guanabara...
As histórias, os relatos e memórias da população que vive no entorno da Baía de
Guanabara, como as descarnadeiras e os pescadores de Itaoca, falam de um passado recente,
126
onde os alto índices de poluição da Baía não eram tão altos. A pesca oferecia melhores
condições de sobrevivência e o ecossistema local não se encontrava tão degradado:
_ (...) ia pro mangue ali de cima e voltava de tarde com esses sacos de milho
assim... cheio de marisco. Agora, uh! Tem mais nada. Até a praia fede. Eu
não entro mais no mangue.
(Ivonete)
Sinalizando uma trajetória histórica, podemos constatar que a ocupação da Baía de
Guanabara traz não só a história dos trabalhadores na pesca, como a origem de problemas que
permanecem. Num primeiro momento, a Baía foi ocupada para atender aos interesses do
sistema colonial português e, após a independência política do Brasil, aos modelos de
desenvolvimento agrário-exportador e urbano-industrial.
Sobre este assunto, os trabalhos de Ramos (1965) e de Brito Soeiro (1960) trouxeram
contribuições importantes. Nos anos 20, quando a indústria pesqueira foi nacionalizada (antes
os estrangeiros podiam pescar livremente e levar o lucro para seus países), a situação de
trabalho de pescadores portugueses e espanhóis ficou difícil. A lei estabelecia que não menos
de 2/3 do número total de trabalhadores em barcos deveriam ser brasileiros de nascimento,
estando, pois, excluídos os brasileiros naturalizados, uma forma compulsória de
nacionalização.
Assim, a forma que os antigos pescadores encontraram foi a de, apesar de mais
experientes, passar por tripulação nos barcos, em um processo clandestino de trabalho. Alguns
pescavam utilizando um nome tipicamente brasileiro.
Segundo as autoras, a pesca atraiu um grande número de portugueses e espanhóis para
o Rio e São Paulo, apesar das proibições e dificuldades no processo de imigração e de
reconhecimento formal desses trabalhadores.
127
Segundo Brito Soeiro (1960, p. 24) não era permitida a esses trabalhadores a posse
das embarcações, podendo lhes ser vetada a entrada no país, caso mencionassem a atividade
de pesca.
Ainda assim, um contingente de trabalhadores da pesca provenientes do Conselho de
Póvoa da Varzim (distrito da cidade do Porto) região de pesca em Portugal, migrou para a
cidade do Rio e fundou uma das primeiras colônias de pesca no entorno da Baía de Guanabara
- a ponta do Caju.
Esses imigrantes introduziram novas técnicas de pesca na Baía de Guanabara,
especialmente na pesca da sardinha. Segundo Ramos (1965, p. 18):
A maioria das técnicas de pesca usadas atualmente no Rio de Janeiro foi
originalmente introduzida por imigrantes portugueses e espanhóis. Os
primeiros barcos levados ao mar alto eram do mesmo tipo dos que estavam
em uso na mesma época na Póvoa, isto é, barcos à vela.
Segundo a mesma autora, somente após 1930 é que começam a ser usados barcos a
motor na Guanabara, embora isso já fosse bastante comum em outras regiões do mundo,
principalmente na Inglaterra.
Quanto aos petrechos de pesca utilizados, a maioria era de uso tradicional, com
destaque para os currais, então numerosos nas enseadas ocidentais da Guanabara. Mais tarde
foram surgindo outras técnicas, como por exemplo - o cerco, na pesca de traineras, para a
captura de sardinhas. (MOTA, 1999)
Segundo Brito Soeiro (1960), quando a colônia da ponta do Caju começou a sofrer um
processo de mudança, muitas das famílias que ali moravam, buscando áreas mais baratas e de
melhores condições de moradia, migraram para a cidade de São Gonçalo e foram viver no
bairro hoje chamado Camarão. Não sendo esta, porém, uma área de pesca, muitos novos
moradores portugueses mudaram de profissão.
128
Segundo Pereira e Lima (1997, p. 22) a conjuntura da época também não favorecia os
imigrantes pescadores: "É conveniente lembrar que o nacionalismo dessa época tinha um
componente antilusitano acentuado, e os portugueses poveiros tornaram-se alvo preferido das
campanhas de nacionalização da pesca”. (p. 22)
3.6.1 E hoje nas águas da Guanabara...
Embora o volume de pesca da Baía de Guanabara seja bastante significativo, as
questões ambientais que envolvem esse ecossistema preocupam e exigem cuidados especiais
por parte dos órgãos públicos e de toda a sociedade. A ocupação irregular, especialmente nas
áreas dos manguezais; a degradação de habitats, além da poluição orgânica e industrial
constituem fatores importantes para a queda de produção e qualidade do pescado. Estima-se
hoje o pescado na Baía em 25 mil toneladas diárias. Antes do acidente com o oleoduto da
Petrobrás em 2000, retiravam-se 50 mil toneladas da Baía47, segundo declaração do presidente
da Federação de Pescadores do Rio de Janeiro, comentando o assunto.
Coexistem na Baía pelo menos seis diferentes sistemas pesqueiros, incluindo a pesca
das sardinhas boca-torta e savelha, com destinação industrial; as diferentes pescarias
artesanais, voltadas para a tainha, corvina, bagre, espada, parati e outros peixes, envolvendo a
maior parte do contingente de barcos e pescadores, e a totalidade dos currais
(IBAMA/FEMAR, 2002, p. 36); a pesca do camarão com sazonalidade bem marcada, entre
setembro e janeiro; a coleta do caranguejo nos manguezais; a pesca do siri, com o auxílio de
puçás, visando ao processamento pelas descarnadeiras e, finalmente, a coleta de mexilhões. A
degradação desse ecossistema produz alterações na composição da fauna e da flora. No caso
dos manguezais, que nos interessam mais de perto, segundo DIDONET (2001, p. 13):
47
Dados registrados pela Federação de Pescadores do Rio de Janeiro, divulgados pelo jornal O Estadão nov/2004.
129
Os manguezais são um ecossistema costeiro, de transição entre os ambientes
terrestres e marinhos, influenciando nos regimes das marés. Estão entre os
mais eficientes sistemas conversores de energia da natureza e são
considerados berçários marinhos. A típica vegetação de manguezal
desempenha um importante papel como fixadora da terra, evitando a
assoreamento de áreas litorâneas, protegendo as margens dos rios, lagos e
zonas costeiras.
Em nossa região de pesquisa (município de São Gonçalo - Itaoca) que pertence à APA
(Área de Proteção Ambiental) de Guapimirim,48com a diminuição da vegetação de
manguezais todos os ambientes adjacentes estão comprometidos, já que servem de abrigo e
alimentação, condições essas necessárias à reprodução e crescimento de inúmeras espécies
(crustáceos, moluscos, aves e peixes) que migram para essa região ou fazem dela seu habitat
permanente.
Além da destruição provocada pela degradação da Baía, a ocupação humana das áreas
de manguezais deve ser planejada e respeitar os princípios do desenvolvimento sustentável, o
que não vem acontecendo. Evidentemente não podemos culpar a população pelas suas
necessidades de moradia. É, no entanto, responsabilidade do poder público e dos órgãos de
gestão ambiental dar conta dessa problemática.
É previsto por lei que, numa área de proteção ambiental, possam existir assentamentos
humanos que se utilizem dos recursos naturais, desde que seja de forma sustentável, abranjam
as comunidades tradicionais, e explorem a área como meio de subsistência, diferindo, neste
aspecto, de uma reserva ou de um parque ecológico. O objetivo da APA é conciliar as
atividades humanas com o meio ambiente. A Lei n. 9.605 de 12/02/98, conhecida como Lei
dos Crimes Ambientais, regula as ações e a ocupação humana, nos espaços da APA. Causar
48
A APA de Guapimirim, na qual estão incluídos os manguezais da orla da Baía está protegida pelo Decreto-Lei
n. 90.225 de 25/09/1984. A criação da APA foi uma das vitórias na luta pela proteção dos últimos manguezais
da Baía.
130
dano direto ou indireto às unidades de conservação (como no caso da APA) é crime constante
do artigo 40 da referida lei.
No que se refere às atividades de pesca e aos mecanismos de proteção ao meio
ambiente, com a coibição das ações predatórias, a legislação atual da pesca diz que as áreas
costeiras estão reservadas para a pesca com linhas, redes, puçás, cercados. Os arrastões são
liberados apenas para áreas com profundidades maiores que cinco metros e a mais de 200
metros de quaisquer aparelhos de pesca fixos ou flutuantes, sendo também proibidos em toda
a região da APA de Guapimirim (MOTA, 1999).
Os currais de pesca também necessitam de uma regulamentação para a sua instalação,
constante na portaria 37 do 06/3/2001 - IBAMA.
Nas conversas com os pescadores da Ilha de Itaoca, em seus relatos sobre o cotidiano
na Baía, eles nos contaram como encontram barcos com calado acima do permitido para a
pesca na região, equipamentos criminosos de captura e utilização de explosivos. Segundo os
pescadores, o IBAMA como órgão fiscalizador não é eficaz nas ações e pune mais facilmente
os pescadores por motivos de pesca no período do "defeso".
As críticas à política de ordenamento, fiscalização e regulação do IBAMA são
constantes entre os pescadores.49
_ Então o pescador não era para ter que pedir permissão a ninguém, era
pelo contrário, as autoridades, outras autoridades, outras profissões que
era pra pedir permissão ao pescador. Ele que é o dono do mar. Antes da
Marinha, antes do IBAMA, de meio ambiente, de qualquer um órgão
municipal, estadual ou federal, já existia o pescador, mas só que hoje o
pescador está praticamente marginalizado.
(Claúdio)
49
Segundo técnico do IBAMA -Núcleo de Gerenciamento Costeiro, o órgão possui poucos fiscais para a
extensão da Baía. (Dados da palestra proferida no I Encontro Estadual de Mulheres na Pesca - Miguel Pereira
- outubro/2004.
131
Quanto aos dados relativos à degradação da Baía de Guanabara e de seu ecossistema,
esses demonstram que houve a destruição de dois terços da Mata Atlântica, hoje reduzida às
unidades de conservação, e mais de dois terços dos manguezais, atualmente concentrados na
APA de Guapimirim e em algumas manchas dispersas no litoral de Duque de Caxias, Ilha do
Governador, Saco do Jequiá, Canal da Maré, Ilha do Fundão (DIDONET, 2001).
O processo de poluição e degradação da Baía de Guanabara tem como marco a década
de 50, momento em que, no Brasil, se consolidou o modelo de desenvolvimento urbanoindustrial. É nesse período que o processo de urbanização da cidade do Rio de Janeiro se dá
de forma acelerada; uma fase de grandes obras, de pontes de aterros e rodovias. Segundo
documento do CIDS (2000)50:
(...) com os aterros que acompanham a abertura da Avenida Brasil,
configurados a expansão das indústrias poluidoras, químicas e farmacêuticas
e refinarias. Ainda o espetacular crescimento populacional e expansão
urbana passou a haver uma mudança radical na qualidade das águas, flora,
fauna, balneabilidade das praias e pesca na Baía.
O entorno da Baía de Guanabara, que compreende os municípios do Rio de Janeiro,
Duque de Caxias, Magé, Guapimirim, Itaboraí, São Gonçalo e Niterói possui o segundo pólo
industrial do país, com cerca de quartorze mil indústrias, das quais 6 mil são potencialmente
poluidoras e 52 são consideradas pela FEEMA (Fundação Estadual do Meio Ambiente) como
responsável por 80% da poluição industrial lançada no espelho dágua (dados do
CIDS/EPAP/FGV, 2000). Os esgotos domésticos produzidos pela população, os efluentes
líquidos das indústrias e o lançamento de óleo e resíduos líquidos das indústrias estão entre os
principais agentes poluidores da Baía.
50
Dossiê sócio-ambiental da Baía de Guanabara - Coordenação David Zee - CIDS/EPAPA/FGV/Agosto, 2000 Seminário Internacional Gestão Sustentável da Baía de Guanabara.
132
A existência de aterros e lixões na orla da Baía (Gramacho e Itaoca) representam um
considerável potencial poluidor. No caso de nossa região de estudo, a existência de um
vazadouro público na Ilha traz sérios problemas ao ambiente e à identidade social dos
moradores, que buscam delimitar o território do vazadouro longe de seu território de morada.
_ O chorume vaza para o rio Salgueiro e é levado para as águas da Baía,
isso polui o mangue também. O lixão não é em Itaoca, ele fica antes da
ponte da entrada da Ilha.
(Valentina)
A perda de profundidade por assoreamento é outro sério problema, com reflexos nos
territórios de pesca. Além disso, os acidentes ambientais são constantes.
A memória da pesca na Baía é atravessada por esses acidentes. Alguns são inclusive
considerados vazamentos crônicos. Segundo o dossiê CIDS (op. cit., p. 12):
Quanto aos despejos crônicos, em 1988 foi estimado que as duas refinarias
da Petrobrás (REDUC e Manguinhos), somadas aos dois pontos comerciais,
16 terminais marítimos, 40 estaleiros navais e 2000 postos de combustíveis,
lançam juntos algo em torno de 9,5t/dia de óleo.
Os trabalhadores do mar fazem parte da população que experimenta no seu cotidiano o
contato permanente com esses acidentes, no espaço de navegação da Baía ou em seus locais
de moradia.
133
3.7 Peixe, mangue... Óleo?
Em 18 de janeiro de 2000 houve um derramamento de óleo de cerca de 1,3 milhão de
litros (segundo a Petrobrás) ou 4,6 milhões (segundos os pescadores)51 resultado do
vazamento de uma tubulação da refinaria de Duque de Caxias da Petrobrás. A empresa foi
multada em R$ 51,05 milhões. Houve a aplicação da multa máxima pelo Ministério do Meio
Ambiente/IBAMA (Jornal Estadão/2004).
Segundo notícia publicada neste jornal, a Federação de Pescadores do Estado do Rio
de Janeiro ganhou, em 2004, uma ação na Justiça contra a Petrobrás, por danos morais,
materiais e ambientais, além dos lucros cessantes nos quatro anos subseqüentes ao acidente tempo que se calcula que a Baía estará recuperada.
Esse acidente causou sérios problemas à população residente em Itaoca, interferindo
em seu território de moradia e trabalho.
Os relatos desse episódio, coletados no processo de entrevista da pesquisa,
demonstram a extensão do problema e sua intensidade para os moradores de Itaoca. Parte das
indenizações pagas aos pescadores pela Petrobrás, como resultado das chamadas "ações
compensatórias dos crimes ambientais" não chegaram a cobrir o salário do mês.52
Alguns pescadores perderam embarcações e petrechos de pesca, ficando meses sem
trabalho. Alguns peixes e crustáceos diminuíram, segundo os depoimentos.
51
52
Há divergências entre a quantidade de material derramado. A Petrobrás sustenta 1,3 milhão de litros. Os
pescadores 4,6 milhões de litros, com base nos estudos da Companhia de Saneamento Básico do Estado de
São Paulo (SABESP).
Houve uma interrupção no pagamento das indenizações aos pescadores, segundo as informações das
associações e de alguns pescadores, por falta de dados precisos sobre o número de trabalhadores na pesca. Há
necessidade de conclusão do censo pesqueiro.
134
_ Depois que o óleo derramou... agora não tem mais siri para escarnar.
Olha só o pouquinho, não dá pra nada. Quer dizer que para sobreviver do
siri não dá. Tem que arranjar um biscate ou fica desempregado. Eu recebi
o dinheiro da Petrobrás, que eu sou registrada. Uma micharia de dinheiro.
(Chana)
Contudo sinalizam que os índices de poluição na região têm sido um processo que se
registra ao longo dos anos, conseqüência de outros setores além do derramamento de óleo.
_ ... Mas era muito siri. Era muita coisa. A gente catava 100 quilos de siri
brincando. Era quatro, cinco, seis sacos, brincando, brincando. Hoje
acabou.
_ O siri começou a fracassar de 80 para cá. De 80 para cá foi que ele
começou a fracassar porque aí começou a poluição.
_ ... Então tinha canal na época. De lá de cima de Magé até aqui em Itaoca
tinha canal refundo. Onde tinha a proporção de siri; tinha como o siri
entrar pro rio e desovar. Lá em cima era o lugar que dava mais siri do Rio,
entendeu?
_ E hoje acabou. O canal fechou, tapou, a lama cresce e a poluição...
(Paulinho)
Os problemas ligados à Baía de Guanabara e às populações do seu entorno geram
debates e reivindicações desde a década de 70. No final dessa década inicia-se os primeiros
movimentos comunitários para a proteção da Baía. A criação da APA de Guapimirim e o
arquivamento do projeto do DNOS que afetou os manguezais, a redução dos aterros do
projeto Rio e a inclusão da Baía no Capítulo sobre o meio ambiente da Constituição Estadual,
foram ações e conquistas importantes. A questão da despoluição da Baía vem se arrastando. A
segunda fase do Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG) já deveria estar
sendo desenvolvida porém a primeira ainda está sendo revisada.
135
O PDGB, em seu projeto original, previa uma série de medidas para gestão e resolução
dos problemas sociais, urbanísticos e ambientais, para o conjunto da Baía de Guanabara
(CIDS, 2000).
Segundo artigo do Presidente da Comissão de Defesa do Meio Ambiente da ALERJ
em julho de 2004, o Programa está quatro anos atrasado. Segundo ele:
Gastamos mal por falta de fiscalização, burocracia, desvios, super
faturamento, falta de articulação com os municípios. Pagamos R$ 21
milhões em multas-atraso. As estações foram inauguradas sem a estrutura da
rede de esgotos, construídas e interligadas. Resultado: as estações funcionam
a 20% ou 30% da sua capacidade e o grosso do esgoto chega pelos rios
fétidos às águas da Guanabara.
(Carlos Minc - JB - 01/07/2004).
O artigo também se refere ao Fórum de Acompanhamento do PDGB (FADEG) criado
em 1995 pela Lei 2.484. Apesar da lei da FADEG ter sido aprovada e regulamentada, ela não
foi cumprida porque os governantes não queriam abrir a caixa preta ou um milhão de reais.
"Cerca de 20% deste total, que pagaremos com juros, foram ralo abaixo, em obras sem
licitação, outras, repassadas a sub-empreiteiras que usaram tubos e cimento de terceira
categoria, hidrômetro, superfaturamento, etc." (MINC, op. cit.)
A questão em relação ao PDBG e ao derramamento de óleo na Baía atinge também a
população de Itaoca - em especial aos pescadores, em seus territórios de trabalho e morada e
na sua qualidade de vida.
Segundo dados da Petrobrás (CIDS, 2000):53
Em paralelo ao estudo de caracterização do derrame, foram tomadas diversas
medidas mitigadoras com relação à sociedade em geral, tais como cestas
básicas, cadastramento e ressarcimento dos prejuízos associados com as
53
Palestra proferida por Elizabete Gaspar .C. Rodrigues, gerente de meio ambiente da Superintendência de
Saúde, Segurança e Meio Ambiente - Seminário Internacional de Gestão Ambiental (op. cit. Relatório CIDS).
136
atividades pesqueiras e comerciais com o auxílio das Colônias e Associações
de pescadores, para que pudessem receber indenizações pelas perdas de
apetrechos de pesca e suspensão das atividades.
As instituições locais de pescadores foram acionadas para organizar e fornecer os
dados sobre a população atingida no universo da pesca artesanal.
_ Isso foi pedido naquele derramamento de 2000, quando a Petrobrás
derramou aquele óleo na Baía, foi pedido a gente, todas as associações, que
documentassem todas as pessoas. E nós da associação, tanto eu quanto o
Alcino, a gente lutamos muito, fomos a várias reuniões, falamos com o
pessoal do Ministério do Trabalho, falamos com o pessoal da SEAP...
(Valentina)
A dificuldade de definir o número real de pescadores na Baía da Guanabara, pela não
existência de estatísticas confiáveis foi um dos entraves apontados para a não-continuidade das
ações indenizatórias.
Outra medida de restauração previa um projeto de repovoamento de caranguejo nos
manguezais, utilizando técnicas de produção e cultivo de larvas de caranguejo em cativeiro,
em larga escala.
Alguns moradores e pescadores de Itaoca participaram dessas ações, de forma
voluntária ou integrada aos projetos.
_ ... Depois eles fizeram um trabalho com a Petrobrás né? Aí veio a limpeza
do mangue, que foi uma coisa muito importante... porque eles aproveitaram
esses caranguejos e botaram pra limpar o mangue, plantar. Teve até
plantação de pé de mangue no CIEP. Isso foi reestruturando o mangue, né?
Eles recebiam um salário pra limpar o mangue. Também surgiu o
Manguezarte.
(Valentina)
137
Um convênio com a Prefeitura de São Gonçalo definiu as linhas de ação: Educação
Ambiental, Geração de renda, recuperação de objetos históricos e arquitetônicos da Ilha.
Segundo dados do CIDS (2000), os recursos destinados a esses projetos são estimados em
R$1.717.642.24. A recuperação da Capela da Luz e a obra de construção do calçadão da Praia
da Luz, que veremos ainda mais adiante, foram resultados desses projetos.
Os relatos de Selma e Valentina trazem a memória do acidente de derramamento de
óleo de 2000, das incertezas e medos em relação à pesca e às agressões ao ecossistema,
importante para a vida da Ilha, trazendo também seus saberes e opiniões.
O mangue filtra, entendeu? Qué dizer aí que toda poluição que vem do mar,
vai pro mangue! É garrafa, é sapato, poltrona, geladeira... é fundo da Baía.
Então vem tudo pra cá pro nosso lado né. Inclusive o vazamento de óleo. O
manguezal ficou muito prejudicado (...). O caranguejo demora muito a
aparecer né? Aí ficamos numa situação terrível. Aí teve um estudo pra ver
o grau de poluição. Aí foi constatado né que o manguezal acabou. Aí,
depois desse levantamento é que a Petrobrás começou a dar apoio,
começou a dar uma verba né? Através da ONG do Pedro Belga. Começou
a trabalhar com os pescadores, com os caranguejos para limpar o mangue,
sabe?
(Valentina)
O relato de Valentina fala das ações emergenciais e das medidas legais concernentes
aos crimes ambientais (ações compensatórias). Após as primeiras ações do plano emergencial
para a contenção do vazamento de óleo, a Petrobrás, empresa causadora do acidente realizou
um estudo preliminar para avaliar o impacto no ecossistema e na qualidade do pescado na
Baía.
Além de equipes especializadas no trabalho com despetrolização de animais, realizouse uma pesquisa para avaliação química e toxicológica de amostras de águas e sedimentos da
Baía. Era necessário avaliar o índice de contaminação por hidrocarbonetos em peixes e
138
crustáceos. Entretanto esse tipo de trabalho necessita de ações contínuas e a longo prazo.
Segundo especialista54:
A contaminação por hidrocarboneto nos peixes e crustáceos e outros
organismos
aquáticos
gera
danos
biológicos
irreversíveis,
como
bioacumulação nos tecidos, danos às moléculas, como proteínas e DNA,
atingindo indiretamente a espécie humana, consumidores desses organismos.
Só o monitoramento e estudos a longo prazo podem detectar os níveis
sublaterais de comprometimento na biota.
Os resultados das análises dos peixes e da qualidade da água permitiram a liberação,
um mês após o acidente, do pescado para o consumo. Para os pescadores que vivem da
comercialização do pescado, a liberação técnica da Petrobrás não foi suficiente para retornar a
credibilidade da população.
_ Só que o povo não queria saber do peixe, ficava com medo. Dizia que o
peixe, o caranguejo cheirava a óleo.
(Pescador - Diário)
As condições do pescado na Baía de Guanabara preocupam os pescadores e suas
famílias, há muito tempo, tanto pelos danos à saúde como pelas questões sociais e de trabalho,
já que atinge um grande número de famílias.
_ O governo ainda não acordou que a Baía de Guanabara está provocando
câncer na população do Rio toda, em virtude do peixe contaminado. Lógico
que tá, o mundo todo fala sobre isso, porque eu vou omitir uma coisa
dessas. Mas também não vai agarrar aí cem mil pessoas que vivem
envolvidas na pesca. Não tem como você fazer isso... A pesca hoje abriga o
maior número de trabalhadores dentro do Rio de Janeiro. Não existe firma,
uma empresa que abriga tanto trabalhador quanto a pesca.
54
Consulta ao Laboratório de Mutagênese - UFU. Profª Silmara de M. Pantaleão, bióloga que atualmente
desenvolve pesquisa sobre os efeitos do despejo de efluentes de indústria petroquímica nas águas do Rio
Japaratuba (SE).
139
Os relatos de Selma e Valentina também confirmam essas preocupações, já que ambas,
pelo trabalho comunitário que desempenham, estão em constante contato com os grupos da
comunidade.
_ De imediato, nós corremos o risco de não ter mais pescaria, de sumir
tudo. Antigamente dava muito peixe. Poxa vida!
_ Camarão, né?
_ Aquele camarão de vinte e cinco, sabe? Cada camarão enorme. Agora a
água tá poluída, tá muito sujo e o pouco que dá acaba rápido porque falta
em outras regiões e aí os pescadores vêm todos pra cá pra poder fazer o
arrasto.
_ E tem essa questão também, Valentina, não só do vazamento do óleo,
daquela época da Petrobrás, mas também tem...
_ Esgoto...
_ Não, tem uma fábrica de..., eu acho que é de produto farmacêutico.
Guaxindiba, Alcântara, por ali, ela joga todo o esgoto no rio Guaxindiba
que deságua aqui perto...
_ E é o local aonde os peixes vão para desovar, entendeu...
3.7.1 E o óleo novamente...
Em abril de 2005, um novo vazamento de óleo atinge a APA de Guapimirim. Os
órgãos ambientais (FEEMA/IBAMA) consideram o vazamento de mais de 60 mil litros de
óleo diesel, causado por um acidente de trem em Itaboraí, um grande desastre ecológico,
como noticiado por O Globo, maio/2005, sob o título: "A Comissão de Meio Ambiente da
ALERJ aciona a Justiça para reparos dos danos ambientais e pagamento de indenização aos
pescadores e catadores de caranguejo".
Segundo as análises do geógrafo Elmo Amador (O Globo, 28/05/2005), o vazamento
de diesel ocorrido, pode contribuir para matar uma vegetação com a possibilidade de morte
das três espécies de mangue da região. Ainda de acordo com o mesmo artigo "a morte da
140
vegetação vai alterar todo o ciclo do siri, do camarão e do caranguejo. Além disso, o mangue
ajuda a segurar os sedimentos, não deixa a baía assorear tanto. Se afetar muito a vegetação, o
vazamento de diesel será fatal para a Baía."
Os pescadores e as descarnadeiras de Itaoca sentem-se novamente atingidos com o
novo acidente, já que grande faixa dos manguezais de Itaoca pertence à APA de Guapimirim.
Nem bem nóis recebeu o dinheiro de um óleo e outro já derramou... Agora
é que some os peixes e o siri. Já tamo indo panhá longe o bicho.
(Pescador-Diário)55
Os pescadores e pescadoras possuem seus saberes e explicações sobre o lugar, a
poluição, o ciclo dos peixes e crustáceos. Explicam a vida e aquilo que aprenderam na sua
relação com o mar e com o mangue. Não são análises técnicas, mas muitas informações são
confirmadas pelos dados dos órgãos ambientais e pelos próprios técnicos de pesquisa e meio
ambiente.
Dados da Federação dos Pescadores do Rio Janeiro estimam em 40% a diminuição do
pescado na Baía, confirmado pela chefe do Departamento de Biologia Marinha da UFRJ, que
atribui isso à sobrepesca e à degradação ambiental:
_ ... Faltam dados sobre a pesca, mas sabemos que o volume de pescado na
região da Baía de Guanabara continua caindo, especialmente o camarão.
Os pescadores e pescadoras falam de um tempo dos sujeitos que viviam da pesca e
observavam cotidianamente o mar e os produtos que dele extraíam para seu sustento e
comercialização.
55
Nesse período eu já tinha encerrado o trabalho de campo. Minhas visitas a Itaoca eram para manter o contato e
desenvolver os registros e entrevistas para a comunidade. Considerei, no entanto, que incluir esse fato era
importante.
141
Os diálogos entre Telma e Paulinho, em um dos processos de entrevista na "roda de
siri", falam desses conhecimentos e observações.
_ E o canal?
_O canal fechou, tapou; se reabrir o canal...
_ Por isso que eu estava naquela reunião que eu fui lá em Charitas,
que você tava Cristina56. Então... foi pra falar sobre esse assunto, os
canal, as desova.
_ Essa aí eu queria vê.
_ O plano era levar pro governo lá em Brasília pra reabrir o canal
todinho.
_Reabrir os canal... se reabrir os canal a pescaria cresce de novo.
Telma e Paulinho têm suas hipóteses e observações sobre a vida, a pesca e a
reprodução dos peixes. Observam as espécies que desapareceram ao longo do tempo. Telma,
mesmo não indo ao mar e desempenhando suas tarefas na extração da carne do siri possui
todo um conhecimento de pesca, partilhado com seus vizinhos e com seu marido, que é
pescador nascido na Ilha. Ela participa também como representante das mulheres nas
discussões políticas sobre a pesca.
_ A tainha desova na beira da praia, na beira do mangue ou dentro do
mangue. A maré subiu ela desova. Quando a maré baixa, os peixinhos já tá
saindo. Robalo em cima do toco. Vamos dizer... tem um pneu velho o robalo
entra dentro e desova.
(Paulinho)
_ Mão branca, que eles pega pra passar espinhel. É o caranguejo que tem a
pele branca. Eles ranca, quebra tudo... e pega o couro pra botar no espinhel
pra pegar bagre, curvina.
(Telma)
56
Telma refere-se à Conferência Estadual de Pesca e Aqüicultura, realizada em Niterói/2003.
142
_ Canhanha tinha bastante, agora não tem mais. Tinha muita, Apesar que
anteontem eu peguei uma.
(Paulinho)
_ Trouxe uma canhanha? Esse foi premiado!
(Telma)
_ Uma só.
(Paulinho)
_ Assada na brasa... uh! O que dá muito agora é parati, sardinha, boca
torta.
(Paulinho)
_ Olha, antigamente, quando meu marido pescava peixe junto com Seu
Valdir, eles trazia cada bagre. Sem mentira, pela felicidade dos meus filhos.
Era assim o bagre que eles trazia. A cabeça era isso... Depois desse
derramamento de óleo, nunca mais teve bagre desse tamanho, teve
Paulinho?
(Telma)
As causas da poluição na Baía são apontadas, entendendo-se que muitas delas
extrapolam a realidade local. São causadas também pelos processos de modernização do
capitalismo, por novos hábitos de consumo e urbanização.
_ O canal fechou devido ao tráfego de lancha, aí fechou, entendeu? Porque
vai crescendo a lama. Aí, inventaram esses plásticos, essa m... aqui. Essas
calcinhas que criança veste. Porque inventaram pra mãe não ir pro tanque
lavar fralda de pano... Ai essa m...; você sabe quanto fica em baixo dágua e
não apodrece? Quarenta anos, setenta anos. É igual garrafa plástica, ponta
de cigarro, cem anos; você imagina?
(Paulinho)
143
3.8 Populações Tradicionais - Saberes Patrimoniais
O trabalho no mar confere uma identidade singular ao sujeito pescador, que o
diferencia daqueles que trabalham presos à terra. As condições objetivas do trabalho
expressam, na verdade, modos de pensar e representar o universo de vida e do conhecimento
sobre os territórios marítimos, que não se ancoram apenas em aparelhos, sonares,
computadores, mas em vivências, observações e crenças.
A pesca hoje possui aparatos tecnológicos e experimenta processos econômicos de
produção em grande escala. O desenvolvimento tecnológico conferiu maior controle do
processo de captura e industrialização do pescado. Entretanto, existe um dado de
imprevisibilidade do qual o domínio tecnológico não dá conta e nem sempre abarca.
No caso dos pescadores artesanais, que em nosso país são a maioria, os componentes
de imprevisibilidade e pouco desenvolvimento tecnológico lhes confere um lugar
diferenciado, ao mesmo tempo em que os submete a condições precárias de trabalho. A
supervalorização dos artifícios tecnológicos e a busca do aumento de produção geram
distorções econômicas e sociais, alimentando práticas predatórias e a desqualificação do
conhecimento acumulado pelas populações que vivem da pesca e/ou agricultura.
Os trabalhadores do mar aprendem pela experiência e pela utilização de petrechos de
trabalho, a lidar com as estratégias de sobrevivência e de preservação do meio ambiente.
_ O curral é um labirinto. Então ao decorrer do tempo ele cria a chamada
craca, então ele não pesca mais, ele perde a função. E fura também, porque
ele é feito de bambu, ele fura, aí furou perde a atividade. Ele não pesca
mais, porque o peixe entra e sai. Então o pescador não consegue pescar
nada nele, ai aquele curral fica ali. Os pescadores de siri, os que pesca,
usam o siri para tirar a carne, aproveitam a lenha, a parte de cima, aquela
madeirada, aqueles paus, eles cortam para cozinhar à lenha. Quando corta
144
aquela madeira fica o toco embaixo, então ali não passa rede, não passa
arrastão, não passa nada, onde protege algumas espécies de peixe,
entendeu? Então o curral se torna até beneficiente para a Baía de
Guanabara.
(Claúdio)
O predomínio de um saber tecnológico que desqualifica as práticas tradicionais e o
conhecimento das populações inscreve-se nas questões relacionadas aos paradigmas da
ciência e à reprodução das estruturas de poder da sociedade.
As populações que vivem da pesca e do contato permanente com os ecossistemas
naturais acumulam conhecimentos sobre as regiões, seus ciclos naturais, a reprodução e
migração das espécies. Este conhecimento deveria ser incorporado às definições técnicas das
políticas ambientais e dos planos de manejo das áreas naturais protegidas.
Na verdade, reconhecer a importância desse conhecimento é implicitamente
reconhecer essas populações como sujeitos históricos, portadores de conhecimentos
importantes e de poder de gestão (DIEGUES, 1999). Produzem também a própria história da
pesca na Baía, traduzida no seu fazer diário. O extenso e detalhado relato do Presidente da
Associação de Pescadores da Ilha de Itaoca constata nossas afirmações. Sendo pescador desde
os 8 anos, ele diz conhecer bem de pesca na Baía.
_ Arrastão de cabo é um arrastão que a gente coloca no barco ou na canoa,
quando era canoa colocava na canoa, amarrado na canoa, e esticava um
cabo enorme, sessenta, cem braça de cabo, botava uma vara, aquele cabo
amarrado numa vara ou num ferro com a fundiação e esticava aquele cabo.
Jogava o arrastão do lado e vinha puxando a canoa do lado. Ele vem
atravessado na canoa, vem no bordo... especificamente no bordo da canoa.
Você vem puxando. A pesca era assim, desse jeito. Era pesca... isso de
camarão, depois passou para tarrafa. A tarrafa era feita de linha dez, na
época era linha dez, linha de cafifa, vinte e quatro, é a mesma linha dez de
soltar cafifa. Dava verniz nela pra ela deslisar e, o pé era de linha ursa e
passava arueira. Dava banho de arueira, da casca de arueira, para ela
145
durar, para demorar a estragar. E a carapuça era de uma linha chamada
tucum. E depois veio a industrialização da linha, monofilamento, essa linha
plástica, resíduo de petróleo e tá até hoje, mas a pesca na Baía de
Guanabara não é mais de tarrafa nem de arrastão, hoje é industrializada. É
rede de malha, arrastão de porta. O único que continua vivo, continua
trabalhando são os currais. Os currais ainda continuam operando e com a
produtividade até boa.
(Cláudio)
O modo de pensar dos chamados povos tradicionais, especificamente os pescadores
artesanais, não está alheio, no entanto, à presença do mundo urbano, que apresenta visões
muitas vezes equivocadas e desqualificantes desses, vistos como indolentes, preguiçosos,
portadores de saberes atrasados e não urbanos. Algumas vezes, os próprios pescadores
identificam-se assim, ou se referem dessa forma aos seus companheiros.
A educação, por outro lado, via escola, reforça uma imagem idílica e romântica do
pescador, presente nos livros didáticos e nos projetos de trabalho, voltados para as discussões
das profissões.
As formas de conhecimento dos povos do mar e suas práticas de transmissão não são
percebidas como aprendizagem ressignificantes no fluxo da história desses grupos. A questão
da tradição não é tida como algo dinâmico, em movimento, de geração para geração, e sim
como algo congelado na história. Autora como Cunha (in DIEGUES, 2004; p.105) discute
essas questões:
(...), além de o pescador artesanal ser destituído de sua condição de
humanidade, os olhares externos desconhecem que esse sujeito social possui
uma forma de ordenação temporal e espacial dissonante do contexto urbanoindustrial e um conjunto de saberes patrimoniais decorrentes de uma
interação secular com a natureza, dos quais a modernidade não pode
prescindir para sua continuidade no tempo. Isso, em que se pesem as
mudanças sociais que se vêm processando no interior das comunidades
146
pesqueiras nas últimas décadas, descaracterizando-as em função da
expansão, do turismo e da especulação imobiliária em seus territórios.
Segundo Diegues (2002, op. cit.), as populações tradicionais ou culturas tradicionais
são na verdade padrões de comportamento transmitidos socialmente. São modos mentais
usados para perceber, relatar e interpretar o mundo, símbolos e significados socialmente
compartilhados, além de seus produtos materiais.
Numa discussão mais ampliada em relação ao saber e à cultura das populações
tradicionais e os novos debates sobre memória e patrimônio, podemos estabelecer algumas
relações.
Segmentos da sociedade civil e intelectuais voltados para a questão dos saberes
tradicionais e locais trazem hoje a defesa de um novo conceito de Patrimônio Cultural. Esse
novo conceito, segundo alguns autores (GONÇALVES, FONSECA, Oliven. In: ABREU &
CHAGAS, 2003) desloca-se do engessamento anterior em que somente os bens de "pedra e
cal" (igrejas, pontes, chafarizes) poderiam ser considerados patrimônios, para construir uma
noção mais ligada ao homem e suas expressões culturais (ABREU & CHAGAS, 2003; p. 13).
Essa nova noção de patrimônio incluiria desde a língua, as festas, os rituais, as danças,
as lendas e mitos, até os fazeres diversificados, criando assim o patrimônio cultural intangível.
Segundo Gonçalves, (in: ABREU & CHAGAS, 2002; p.104):
A ênfase recai menos nos aspectos materiais e mais nos aspectos ideais e
valorativos dessa forma de vida (...) a intenção é no sentido de registrar as
práticas e representações e de fazer um acompanhamento para verificar sua
permanência e suas transformações.
Segundo os autores citados, as novas discussões sobre o patrimônio cultural intangível
desenham um cenário distinto da antiga noção de patrimônio ligada à preservação e
tombamento de bens materiais e tangíveis. "Essa definição passa inclusive pelo campo do
147
'biopatrimônio' genético, propondo novos olhares para a relação entre natureza e cultura,
facilitando a compreensão da noção de patrimônio natural, como uma construção que se faz a
partir do intangível." (ABREU & CHAGAS, op. cit. p. 12)
Essa nova conceituação liga-se à de cultura, incluindo hábitos, costumes, tradições,
crenças, enfim, um acervo de realizações materiais e intelectuais da vida em sociedade,
trazendo a idéia de diversidade e pluralidade (GONÇALVES, op. cit.). As contribuições da
antropologia e da pesquisa etnográfica são fundamentais para ampliar as discussões sobre
patrimônio intangível.
A década de 90, quando se destacam com mais força as discussões sobre a "Convenção
de diversidade biológica", sinalizou a formulação de novas políticas e determinações para as
populações ditas tradicionais, sobre o uso de recursos genéticos, reconhecendo a estreita
relação entre a conservação destes recursos e os conhecimentos, o modo de vida, os costumes
e as tradições dessas populações.
Segundo os termos da Convenção sobre diversidade biológica, as populações
tradicionais interagem com o ambiente natural, conhecendo-o profundamente e conservandoo, uma vez que desenvolveram atitudes de pouco ou nenhum impacto para os ecossistemas
(ABREU & CHAGAS, op. cit).
O que está na verdade em questão em relação às discussões sobre patrimônio e
populações tradicionais é a afirmação da diversidade cultural e do uso coletivo dos bens
materiais. Uma discussão que vai na contramão de uma proposta de caráter jurídico e de
propriedade estatal ou privada desses recursos. Pensa-se hoje numa legislação capaz de
proteger os conhecimentos tradicionais - o saber-fazer, não definindo apenas uma propriedade
(patente), mas sua origem e o uso coletivo. Segundo consta no documento supracitado:
As chamadas sociedades tradicionais, bem como os diferentes grupos sociais
que enriquecem o panorama da sociedade brasileira, já não constituem
148
apenas o óbvio de um discurso acadêmico. Hoje, cada vez mais esses povos
falam o seu próprio nome e reivindicam seus interesses (p. 42).
É esse o caso, por exemplo, das Resex (Reservas extrativistas) de recursos pesqueiros,
que têm sua demanda originada nos movimentos de pescadores, e que somam hoje em torno
de 14 em todo o Brasil. Estão localizadas em oito estados brasileiros, com uma população
superior a 3.000 famílias. No Rio Janeiro existe uma Resex em Arraial do Cabo.57
O esforço tem sido no sentido de envolver as comunidades tradicionais nos sistemas
participativos de manejo de recursos naturais. Os planos de manejo de uso múltiplo deverão
ser construídos em conjunto com essas populações.
As Resex (Decreto n.º 98897, de 1990) são consideradas instrumentos significativos
para a manutenção e reprodução da cultura e das práticas sócio-econômicas de uma grande
parcela das comunidades tradicionais, localizadas em regiões marinhas, costeiras, estuarinas e
ribeirinhas (IBAMA/MMA-CNPT).
Refletir sobre a produção e qualificação desses saberes para gestar as políticas
ambientais e os planos de gestão das cidades constitui-se em metas importantes para uma
relação homem/natureza e espaço urbano, numa perspectiva sustentável.
3.9 Os 'daqui de dentro' e 'os lá de fora': São Gonçalo, um lugar nas Bandas d'Além58
A cidade de São Gonçalo é referência de centro para os moradores de Itaoca; de
espaço de lazer, compras, busca de serviços e empregos. No entanto, existem moradores,
especialmente os mais velhos, que foram poucas vezes a São Gonçalo. Outros nunca foram à
cidade de Niterói ou Rio de Janeiro, como no caso da nossa mais velha informante Semirami. São em geral os mais jovens que mais reclamam da falta de opções de lazer no
57
58
Roteiro Metodológico II - Plano de manejo de uso múltiplo das reservas extrativistas de recursos pesqueiros
IBAMA/MMA-CNPT.
Desde o século XVI, o termo Bandas d'Além se refere às terras situadas do outro lado da Baía de Guanabara
(MOTTA, 1989).
149
bairro, como são eles também os que buscam opções de estudo e lazer em cidades mais
próximas, como Niterói e São Gonçalo, embora sinalizem as dificuldades de acesso, no que
concerne à locomoção e custos.
_ Eu ia ao baile do Célio ali embaixo, acabou... Aqui não tem nada hoje. Já
teve baile, pagode. Hoje não tem nada. Quem quiser se divertir vai pra fora.
São Gonçalo ou Niterói. Também as pessoas têm que ter mais condição.
Hoje tem ônibus, pode vir de táxi, uns que tem carro aí dá pra sair.
(Juliana)
Outros preferem as praias locais, mas tendo como referência também outros lugares.
_ Você chega na praia de São João, você vê barraca do lado de cá e de lá...
lá você pode escolher onde quiser ficar. Se você não quiser ficar do lado de
cima, no bar, fica sentado que eles vem te servir. É tipo assim, vou dizer...
tipo Charitas.
(Telma)
Alguns moradores de Itaoca são oriundos de bairros de São Gonçalo ou viveram
momentos de morar ora lá fora ora aqui dentro, dependendo dos seus momentos de vida e/ou
situação financeira. Para as mulheres, casar-se significa, às vezes, ir "morar lá fora" e depois
retornar, se quiser.
Quando eu casei, fui morar lá fora... fui pra Paquetá. Ih! Meus alunos
falavam assim pro meu marido: olha a responsabilidade de levar nossa
professora, tá? Se ela quiser, ela volta...
(Profª Zenil)
Desse modo a história de São Gonçalo integra a totalidade do lugar - Itaoca, fazendo
parte de sua confirmação sócio-urbanística e da história de vida de seus sujeitos.
150
Minha mãe nasceu aqui. Algumas vezes nós morávamos lá fora. Aí morava
aqui dentro, morava lá fora... Aí depois, com meus 13 anos, que eu vim e
fiquei e fiquei dentro. Mais a vida sempre foi aqui, porque mesmo morando
fora eu vinha toda semana pra casa da minha avó.
(Juliana)
Entender o modo como se processou a formação do município de São Gonçalo é
também poder pensar que a "ilha" se liga a outros territórios de moradia, a outros lugares na
conformação humana da cidade.
_ A gente mora aqui dentro... isso é tão sossegado que a gente esquece que
tem lá fora. Se eu puder num saio.
(Diário - Pescador)
Isso aqui é muito parado... Isso faz mal até. O povo fica assim também:
tudo parado. É bom pra dormir, mas pra viver, às vezes é ruim.
(Diário - Pescador)
Os homens, ao produzirem sua existência, ao construírem e reconstruírem sua história,
produzem continuamente o espaço, dando a este uma dimensão concreta e cambiante. É no
espaço que as práticas sociais se atualizam e informam às novas gerações. O espaço, no
entanto, não se constitui apenas num conceito abstrato circunscrito a um território; ele é antes
uma dinâmica da metrópole (SANTOS, 2002). Desse modo, o uso do espaço provoca não só
mudanças na conformação geográfica, mas impõe também novas funções aos lugares e aos
sujeitos. Segundo Carlos (2001, p. 323):
A constante renovação ─ transformação do espaço urbano por meio
de mudanças das formas da cidade ─ produz transformações nos
tempos urbanos da vida cotidiana, da relação de vizinhança, dos
modos e tempos de apropriação/uso dos espaços públicos, por
exemplo, da rua.
151
As transformações provocadas por modelos de urbanização excludente, pelas quais
parte da população é empurrada para zonas periféricas, em condições precárias de vida,
produzem, entre outras coisas, discursos culpabilizantes por parte dos habitantes dessas áreas
e, conseqüentemente, perda de identidade. Muitas vezes condições precárias de moradia são
atribuídas aos modos de vida das pessoas, às suas práticas coletivas e não às injunções das
políticas públicas e de ocupação do solo urbano.
Ao vivenciarem um aumento desordenado da população em seu local de moradia, os
moradores de pequenas comunidades buscam explicações, entendimentos, que nem sempre
passam por análises técnicas, sociológicas ou que poderíamos corriqueiramente chamar de
"politicamente" corretas. Analisar do ponto de vista de suas afeições, daquilo que lhes dói na
pele e lhes ameaçam o território.
Os pobres que chegam em busca de alternativas de moradia, expulsos em geral de
outros espaços da cidade, são sempre mal-vistos, mal-recebidos pela própria vizinhança, nem
sempre rica, nem sempre oriunda de uma outra história social, mas quase sempre amedrontada
pelo estigma do suposto "invasor perigoso". A relação direta entre pobreza e marginalidade ─
embora no campo da realidade teórica e cotidiana esteja fraturada e inconsistente ─, ainda é
veiculada pelos meios de comunicação de massas e pelas marcas autoritárias de nossa
conformação histórico-social. Alguns espaços das cidades onde habitam as populações de
baixa renda são áreas historicamente segregadas, como no caso das favelas. Segundo Santos
(2003, p.104): "(...) uma favela localizada no manguezal, sofre uma dupla estigmatização,
pois esse ecossistema, apesar de sua importância ecológica e econômica ainda é visto por
muitos como local de sujeira."
No caso de nossa pesquisa, onde localizam-se habitações em área de manguezal, na
região conhecida como Focinho de Porco, a referência é sempre estigmatizante, mencionada
como o lugar onde habita "o pessoal mais pobre". O processo de formação dessa favela deu-se
152
mais ou menos no final da década de 80, mas ela ainda hoje recebe moradores de diferentes
regiões de São Gonçalo.
Em comunidades voltadas para atividades tradicionais, tais como a pesca artesanal, em
que a composição familiar define também as relações de trabalho, a chegada do outro traz,
além da ameaça ao território, interferências nas relações sociais. No caso da Ilha de Itaoca,
embora nosso estudo não tenha se aprofundado nessas conclusões, em relação às entrevistas
de campo nossas observações e registros nos fizeram refletir sobre isso, pensando a partir da
designação dos "aqui de dentro e dos lá de fora", marcadas constantemente nas falas, tanto das
descarnadeiras como de outros moradores.
Também não deixamos de considerar a conformação geográfica da Ilha e da
designação dentro/fora, já apontadas no primeiro capítulo.
O estudo de SANTOS (2003), realizado em Itaoca, desenvolveu outras categorizações
para discutir a problemática dos espaços da cidade e seus processos de urbanização e como
essa é percebida no discurso da população de Itaoca. A autora trabalhou com as designações
de "lugares melhores" e lugares piores", segundo a escolha de moradia. Itaoca está entre as
opções de lugares piores em termos de oferta de serviços, urbanização, saneamento, etc.
Entretanto, para alguns, tudo depende das referências:
_ É pior para os jovens mais melhor para os velhos.
_ É pior pra morar e melhor pra pescar.
(Pescador - Diário)
Contudo, não podemos anular os patamares mínimos e os indicadores que ajudam a
avaliar a qualidade de vida e moradia nos espaços urbanos.
Em tese, a população que reside em áreas urbanas teria maior acessibilidade aos bens
públicos, serviços básicos de infra-estrutura urbana (água tratada, saneamento básico, coleta
de lixo) e serviços sociais (educação e saúde). Entretanto, a realidade dos países
153
subdesenvolvidos não valida esses pressupostos, demonstrando indicadores abaixo do
esperado, no que se refere ao acesso da população.
Na verdade, a oferta de serviços nas áreas urbanas no Brasil é deficitária, agravada
pelas dificuldades de acesso à moradia e emprego.
A cidade de São Gonçalo constitui-se da principal opção de acesso aos serviços
públicos de saúde, educação e lazer da população de Itaoca. Entretanto sua conformação
histórico-social, no conjunto das cidades do Estado do Rio, não se destaca nem em termos de
status, nem em oferta de serviços e qualidade de vida da população. O processo de
urbanização de São Gonçalo deu-se sob a marca da exclusão e da lógica da desagregação
social. Sua história entrelaça-se com a história de Itaoca.
3.9.1 São Gonçalo d'Amarante59
A ocupação das terras das Bandas d'Além que, posteriormente deram origem a São
Gonçalo deu-se no ano de 1567, numa região localizada do lado oriental da Baía de
Guanabara. Essas terras eram ocupadas pelos índios Tamoios (GUIÃO FILHO, 1968).
Segundo os autores consultados, o marco da colonização dá-se em 1578, com o
desembarque de Francisco Dias da Luz, capitão da esquadra de Mem de Sá que tinha como
missão combater os franceses. Esse capitão desembarcou na região que hoje denomina-se Ilha
de Itaoca.
Segundo Caetano (2003), o progresso de ocupação dessas terras não foi preocupação
imediata dos portugueses. Somente após a ocupação dos franceses é que isso se modificou.
59
Além das obras citadas, incluímos consultas a São Gonçalo, cinqüentenário. História, estatística, geografia,
de PALMIER, Luiz. 1940. História de São Gonçalo, FILHO, Homero Guião. 1968. Gonçalves, Marcia de
Almeida (org.) REZNUIK, Luiz. Guia de Fontes para a história de São Gonçalo - UERJ, 1999 - Jornal O São
Gonçalo.
154
Entre 1565-1575 foram concedidas por volta de 111 sesmarias, somente às margens da
Guanabara (op. cit., p. 84).
A fundação de São Gonçalo é, no entanto, atribuída ao fidalgo Gonçalo Gonçalves,
natural de Amarante, que fica na região do Minho, em Portugal. Esse fidalgo recebeu a
doação de uma sesmaria do lado oriental da Baía de Guanabara, denominada Birapitinga.
Segundo os autores consultados, Gonçalo Gonçalves inicia assim o processo de colonização
da área, construindo também a capela dedicada ao santo de sua devoção - São Gonçalo
d'Amarante. A construção dessa capela deu destaque à região, que passou a ser o ponto de
referência das Terras das Bandas d'Além.
Em 1647, São Gonçalo é elevada à condição de freguesia, tornando-se parte integrante
da Vila Real da Praia Grande, que em 1835 passou a denominar-se Niterói. São Gonçalo só se
desmembra de Niterói em 1850, quando passa de freguesia a município.
As freguesias das Bandas d'Além tiveram um desenvolvimento acelerado devido à
proximidade com o Rio de Janeiro. Segundo Motta (1989, p. 42), esta cidade exerceu grande
influência sobre as áreas ao seu redor, tendo papel determinante na expansão e modificação
das atividades produtivas nas regiões circunvizinhas, em especial a Vila Real da Praia Grande
(Niterói) e São Gonçalo. São Gonçalo d'Amarante teve um importante papel na economia
açucareira. Em fins do século XVIII São Gonçalo ocupava o 2º lugar na produção de açúcar
de toda a capitania.
As mudanças que ocorreram na cidade do Rio de Janeiro em conseqüência da
transferência da Corte Portuguesa em 1808 geraram um aumento populacional e conseqüente
demanda por gêneros alimentícios, ocasionando um redirecionamento das atividades
agrícolas. A região das Bandas d'Além se voltaria para a produção de gêneros alimentícios,
destacando-se na produção de laranja (MOTTA, 1989), op. cit.).
155
Segundo a mesma autora as freguesias das Bandas d'Além formaram o primeiro anel
de agricultura da cidade do Rio de Janeiro, no decurso do século XIX (MOTTA, 1989).
A proximidade com o Rio de Janeiro, importante centro da colônia, o desenvolvimento
político e econômico desse centro trouxeram benefícios, que determinaram o crescimento da
freguesia de São Gonçalo.
Além disso, a região contava com muitos portos em sua orla, o que possibilitava o
escoamento e circulação das mercadorias. Desse modo, São Gonçalo tornou-se o principal
mercado abastecedor de produtos. Segundo Motta (1989 p. 168), no princípio do século, após
o processo de autonomia administrativa, São Gonçalo transformou-se no maior município
fruticultor do Brasil.
Em meados do século passado as antigas fazendas de cana-de-açúcar foram
transformadas em sítios produtores de verduras e frutos, principalmente laranjas (GEIGER,
1956)60. Essas fazendas eram parceladas, contribuindo para a expansão dos loteamentos.
Segundo Caio Prado (1974, p.249):61
Um dos mais importantes fatos da moderna fase da economia agrária
brasileira é o processo de retalhamento da propriedade fundiária rural e o
aparecimento, em escala crescente, da pequena propriedade, quase ausente
no passado.
As causas apontadas pelo autor eram: o adensamento da população, a partilha por
sucessão hereditária, a desagregação do regime servil, as crises atravessadas pelo sistema da
grande exploração e sua ruína em diferentes regiões do país.(Idem, ibdem).
A passagem da economia agrário-exportadora para o urbano-industrial no Brasil se
reflete na conformação das cidades. O Rio de Janeiro, dentre outras cidades, transforma-se
60
61
GEIGER .P. Urbanização e industrialização na oral oriental da Baía de Guanabara - Revista Brasileira de
Geografia. Rio de Janeiro, n. 4, 1956.
JUNIOR, Caio Prado. História Econômica e Social do Brasil. Ed. Brasilense, 1974, São Paulo.
156
num pólo atrativo de imigrantes, implicando num aumento populacional desse município e de
outros próximos. A população busca ocupar áreas disponíveis, onde os preços do solo e da
habitação sejam mais compatíveis com sua renda.
Entre as décadas de 20 e 40 registra-se um grande parcelamento nas propriedades em
São Gonçalo, tendo havido loteamento do tipo urbano e para sítios e pomares (GEIGER,
1956, p. 45). A chamada "febre loteadora" ocorre após a 2ª Guerra e no momento em que o
país experimenta um processo acelerado de industrialização. As exportações de laranja sofrem
queda drástica, que atinge certamente as regiões de produção. Os laranjais são substituídos
por loteamentos (MOURA, 2002).
O crescimento populacional do município e os processos de urbanização posteriores
vão acelerar o crescimento das áreas de exclusão e concentrações de bolsões de pobreza.
Na década de 50, em que se cristaliza o modelo de desenvolvimento urbano-industrial
no Brasil, a cidade de São Gonçalo perde sua condição de pólo industrial e se transforma em
cidade-dormitório. Esse período constitui-se em marco importante para o estudo e o
entendimento dos processos de ocupação e construção do imaginário social da população, ou
seja, passar de um status de cidade próspera e desenvolvida, no sentido material e econômico
do termo, a cidade-dormitório, e ir ao longo do tempo se constituindo como um espaço urbano
excludente e desordenado (SANTOS, 2003). Este município experimentou até os anos 60 a
condição de pólo industrial, sendo inclusive considerado nos anos 40, como a Manchester
Fluminense, pela existência de um grande número de indústrias (TAVARES, 2003, p.40). O
distrito de Neves na década de 50 era um pólo industrial com inúmeras fábricas e vilas
operárias, tendo sobrevivido nesta condição até meados de 60, em virtude da política nacional
desenvolvimentista da época, que tinha como um de seus patamares a substituição das
importações, e o conseqüente fortalecimento da indústria nacional. Nesse período era: a
157
Cimento Mauá (Guaxindiba), Siderúrgica Hyme, Aciaria Martins, Cia. Brasileira de Fósforo
Fiat Lux, Tinta Internacional e Cia. Eletroquímica. Segundo Tavares (2003, p. 72):
Paradoxalmente, apesar de uma certa manuteção da ruralidade da cidade
(especialmente em áreas periféricas) e de boa parte da população gonçalense
ainda possuir raízes com a terra (praticando agricultura familiar), todos os
distritos gonçalenses foram considerados urbanos, pela deliberação
municipal n. º 370 de 10/11/1962.
A condição de cidade-dormitório62 fez com que São Gonçalo viesse a constituir-se em
um dos locais de moradia para os novos trabalhadores urbanos que migravam para a cidade,
em conseqüência dos processos de industrialização do país e desestruturação da agricultura.
Dados do IBGE apontam que, em 1940, a população de São Gonçalo, que era de 85.521
habitantes, em 1950 passou para 127.276.
Em período posterior, dois grandes investimentos atraíam um contingente de
trabalhadores para o Rio de Janeiro, em busca de novas oportunidades: a ativação industrial
naval na orla da Baía de Guanabara e as obras de construção da Ponte Rio-Niterói. Esses
contingentes de trabalhadores, vindos em especial na região nordeste do país, migravam para
São Gonçalo, produzindo um aumento da população não-acompanhado de investimento na
infra-estrutura urbana (MOURA, 2002). Em 1970, a população era de 430.271, e em 1980
passou para 615.352 habitantes (Dados do IBGE).
O acesso à moradia nessa região foi viabilizado pela ação do capital imobiliário, pelo
sistema de loteamento de áreas de periferia e facilidades no pagamento, com baixas
prestações, mas sem infra-estrutura urbana, alimentando assim a lógica da segregação
espacial.
62
A denominação cidade-dormitório deve-se ao fato de que em 1995, dos 450 mil trabalhadores da cidade, 300
mil trabalhavam fora do município, segundo levantamento da Prefeitura de São Gonçalo.
158
A partir dos anos setenta esse padrão de ocupação e desagregação espacial recebe uma
população oriunda dos processos de mudança de moradores das favelas da zona sul do Rio de
Janeiro para os conjuntos habitacionais da CEAB (Companhia Estadual de Habitação), que se
localizavam nos bairros do Salgueiro e Palmeiras (TAVARES, 2003).
É nesse período que se registra um grande índice de financiamentos da Caixa
Econômica Federal para a compra de empreendimentos imobiliários localizados em
Alcântara, Brasilândia, Columbandê, Zé Garoto, Rocha e Mutondo. Esses bairros se
instalaram sobre outros padrões de urbanização, diferenciando-se das áreas de loteamento de
baixa renda, já citadas. (MOURA, 2002) Segundo análise de Tavares (2003, p. 141):
Com a crise político-econômica dos anos 70, agudizada pela ditadura
militar, e a recessão econômica dos anos 80, a cidade sofre uma rápida
desindustrialização, fuga de capitais, falências, crise das empresas, enfim,
uma rápida decadência que vai repercutir, material e simbolicamente , na
qualidade de vida, bem como na identidade do gonçalense.
A lógica da urbanização segregacional, que confere diferentes espaços materiais e
simbólicos à população pobre nas cidades, fez com que o solo fosse ocupado de maneira
irregular e sem planejamento, especialmente por aqueles que não podiam ocupar espaços mais
estruturados e próximos aos centros urbanos. Os investimentos públicos de infra-estrutura
urbana alijam essa população, ampliando assim os mecanismos de exclusão social. Em alguns
casos as áreas ocupadas são de proteção ambiental, e esta ocupação causa danos à população e
ao meio ambiente.
Do ponto de vista das questões ambientais e suas implicações nos territórios de
moradia e trabalho dos sujeitos da pesquisa, verifica-se que o processo de urbanização
desordenada da cidade de São Gonçalo e suas formas de ocupação do solo trouxeram
alterações e degradação ambiental aos ecossistemas da região. Moura (2002), em seu estudo
159
sobre a degradação ambiental nos ecossistemas de manguezal de Itaoca em conseqüência da
urbanização de São Gonçalo nos aponta que o manguezal desta região é um importante
ecossistema da Baía de Guanabara. Embora bastante agredido ainda é um dos mais
conservados. Segundo a autora, nessa região muitas áreas de manguezal foram aterradas para
a construção de uma estação de tratamento de água e esgoto da Baía de Guanabara que lança
seus dejetos diretamente sobre os manguezais, além da existência do aterro sanitário (o Lixão
de Itaoca), que agrava ainda mais os problemas dessa região.
A existência de um vazadouro público na região de Itaoca traz, além das questões de
degradação ambiental, um processo de estigmatização da população, como já sinalizamos.
Desse modo, as questões relacionadas ao uso e gestão do espaço urbano não dizem
respeito apenas às instituições públicas, mas tocam e transformam a vida dos sujeitos. Sendo
assim, o espaço urbano atravessa também as questões da cidadania e do viver urbano.
Embora a legislação atual, que se instalou com a Constituição de 1988, preveja uma
série de medidas do ponto de vista legal e de garantia de direitos pela sociedade civil em
relação aos crimes contra o meio ambiente, as mudanças nas práticas lesivas ao mesmo ainda
são intensas.
Consta no capítulo IV da Constituição de 1988 que cabe ao poder público preservar a
diversidade e integridade do patrimônio genético do país, definir espaços protegidos, proteger
a fauna e a flora e promover a educação ambiental. Além disso, vários biomas brasileiros são
considerados "Patrimônio Nacional" segundo o relatório Nacional para a Convenção sobre a
Diversidade Biológica (MMA/1998).
Entretanto, as ações públicas ou por vezes as omissões no campo das políticas básicas
de saúde, habitação, educação e meio ambiente, ferem esses princípios constitucionais,
quando, por exemplo, não atuam na gestão de política urbana, que pressupõe, entre outras
coisas, o planejamento do espaço, considerando os aspectos físicos, humanos e ambientais.
160
Na tentativa de gerir os problemas urbanos, o poder público opta por ordenar a cidade,
segundo a ótica da disciplina do caos e da minimização dos conflitos. Enquanto os planos de
urbanismos são pensados, a cidade não adormece, ela cresce, transforma-se.
Nesse sentido, cada ação do Estado sobre a cidade, especialmente no que concerne a
grandes obras públicas, não se exclui de uma lógica de conseqüências futuras que atinge
diferentes regiões da cidade. Os espaços segregados da cidade, onde os contingentes de
pobreza são maiores, são os primeiros a serem atingidos. O caso da Rodovia Niterói-Manilha,
que corta as cidades de Niterói e de São Gonçalo, pode ser dado como exemplo. Segundo o
relatório do CIDS (2000), a construção da Rodovia Niterói-Manilha sobre aterro da Baía de
Guanabara e manguezais marca a ampliação do processo de degradação do litoral de São
Gonçalo, reproduzindo os efeitos prejudiciais causados pela Avenida Brasil. A expansão das
favelas e indústrias sobre os manguezais e brejos e a crescente poluição que se verifica no
eixo da Rodovia Niterói-Manilha tornam a região o mais recente vetor de degradação da Baía.
Ainda sobre as obras nessa região, a recente construção do Shopping de São Gonçalo é
outro exemplo, quando parte do aterro foi jogado na Ilha de Itaoca.63
A história da cidade de São Gonçalo é, na verdade, um exemplo de formação
urbanística desordenada, construída sob um modelo excludente. Analisando sob essa lógica,
Itaoca não se constitui num nicho de beleza e bem viver, mas ao contrário, em mais um
espaço urbano degradado do município, a despeito de todo o potencial e beleza natural que
possui e que, sem dúvida, poderia caminhar para um projeto de sustentabilidade da região,
melhorando até a renda das famílias, isto é, o ganho de seus moradores.
63
Conforme registro da palestra de ambientalista por ocasião do Encontro Regional sobre Mulheres na Pesca,
realizado na Escola de Pesca - São Gonçalo - 2005.
161
(...) Itaoca poderia se transformar num ponto turístico, ecológico,
caminhando assim para uma outra fonte de renda. Ter hotéis, pousadas, ser
uma referência na comercialização da carne de siri.
(Selma)
162
CAPÍTULO IV
CONVERSAS NA RODA DE SIRI: SENTIDOS DO TRABALHO
MEMÓRIAS DE INFÂNCIA
“A narração, em seu aspecto sensível, não é de
modo algum, o produto exclusivo da voz. Na
verdadeira
narração,
a
mão
intervém
decisivamente com seus gestos, aprendidos na
experiência do trabalho, que sustentam de cem
maneiras o fluxo do que é dito”.
Walter Benjamin 64
As histórias de trabalho na roda de siri eram alimentadas pela narrativa das mulheres,
já que a essas cabe a tarefa de extração da carne do siri. Aos homens cabe pescar o produto,
cozinhá-lo e comercializá-lo. Desse modo, a fala na roda não é exclusiva das mulheres, pois
todos adentram as rodas ou por elas passam quando entram nos quintais de suas casas ou na
de seus vizinhos, para apanhar o produto do trabalho das mulheres. Homens também falam,
entram nas conversas da roda, assim como as crianças. Entretanto, só as mulheres ficam ali,
horas e horas, com suas faquinhas e mãos muito ágeis de trabalho, narrando suas histórias.
Desse modo o turno da fala é delas nesse capítulo. Os homens que falam nessa roda falam do
seu lugar no grupo familiar.
64
BEJAMIM, Walter. Magia e Técnica, arte e política. São Paulo: 1986. Obras escolhidas. v.1
163
A organização das falas em alguns trechos do texto está agrupada por famílias – na
tentativa de seguir a idéia das conversas na roda, já que é assim que o processo de trabalho de
campo foi estruturado.
Refletindo sobre os termos que designam as tarefas do trabalho de extração do siri –
alguns chamam “descarnadeiras”, outros, “escarnadeiras”, percebemos que mais do que a
definição semântica do termo, os dois significados se cruzam e aproximam os ofícios do
pesquisador e dos informantes. Enquanto as mulheres extraíam a carne de siri na roda, eu
investigava, perquiria, cavava as histórias daquele trabalho na roda e assim, eu era a
escarnadeira das histórias do trabalho no siri.
Segundo o dicionário Aurélio, descarnar significa separar da carne os ossos, separar da
casca, escavar. Escarnar seria descobrir o osso, tirando a carne, descarnado, esbugar, raspar a
pele.
No sentido figurado, escarnar significa investigar, esquadrinhar, inquirir. Apesar das
pequenas diferenças de significado, uma semelhança se fazia presente na roda: o sentido da
extração de algo. Algo que saía no movimento da memória coletiva e que circulava na roda;
algo que foi sendo escarafunchado, esquadrinhado pelo pesquisador e pelos informantes, na
busca da diversidade das vozes e dos sentidos.
Embora eu dissesse sempre que meu objeto de pesquisa não era a história, isso era
ignorado, pois não fazia sentido para elas. “Pra que serve falar no siri sem história, né?” Me
dizia Chana. “E se nóis não lembrá, quem vai lembrá de nóis?” Dizia Semirami.
E eu me perguntava: que força tem a memória dessas pessoas? Que força traz aos 92
anos a lembrança do primeiro boneco de D. Semirami, o “Lindinho”, que ainda lhe traz o
brilho nos olhos e o sorriso maroto, acrescido de sua expressão marcante – “apois então...?”
Memórias de uma infância inundada de sonhos, de mangue, de peixe, de água, de vida
de mulher na busca pelo peixe de cada dia.
164
Questionado sobre o movimento de recuperação da memória no campo das ciências
humanas, Bosi (2004) nos aponta reflexões sobre a função social da memória, das origens
mais profundas dessa necessidade de “lembrar-se” para os seres humanos. Seria uma
necessidade de enraizamento? Afirmando, a autora nos diz que: “do vínculo com o passado se
extrai a força para a formação da identidade” (op. cit. p.16). Desse modo a opção pelos relatos
de vida não seria meramente uma “moda acadêmica” nas ciências humanas.
Nesta direção, a autora nos chama a atenção para o equívoco de validarmos como mais
autênticos os depoimentos orais em detrimento de outras fontes mais oficiais. Não é uma
questão de autenticidade dos relatos orais, eles também se dobram à memória institucional e
aos domínios do ideológico, aos clichês da cultura de massa.
O que Bosi (2004) nos sinaliza é o entendimento de memória como movimento de
recordar coletiva e individualmente. Ainda que a memória coletiva pública possa ter um
destaque, produzido pelo próprio processo ideológico, o caráter individual da memória, sua
força e seu movimento compõem também a história oficial. Entretanto, como diz a autora, é
necessário cuidado nos caminhos da análise, pois a fonte oral “sugere mais que afirma”. (op.
cit. p.17)
A versão oficial dos fatos tende a utilizar-se da memória coletiva no interior de uma
classe, com a difusão e reprodução dos fatos segundo uma determinada visão. Para nós o que
é interessante é a substância social da memória e que traz a lembrança de trabalho, de
infância, de vizinhança, ora individual, ora coletiva. Lembranças de famílias, mas também de
vizinhos, do trabalho, da ausência do trabalho e da experiência do temporário, do informal,
que caracteriza a extração do siri e de quase toda a atividade de pesca artesanal.
Escolhi como me disse Cláudio em seu depoimento: “Você começou pelo fim da
pesca”. Quando o siri começa a entrar é porque o peixe já está escasso. Há que buscar
alternativas além da pescaria. Embora não concorde totalmente com a análise, ele não deixa
165
de ter uma certa razão, se considerarmos que o beneficiamento do pescado traz a marca do
atravessamento, não gerando uma renda suficiente para o(a) pescador(a) e sua família.
Portanto é o trabalho precário.
O movimento da memória do trabalho das descarnadeiras de siri aparece como uma
viagem no tempo, uma busca por algo que ao invés de se renovar, de transmutar-se em
trabalho digno, vai se tornando precário, agudizando a crise do emprego na pesca para as
mulheres, restando assim apenas os fragmentos de uma memória de abundância do produto,
jamais de fartura e de dignidade profissional.
No entanto, como nos diz Bosi (2004, p. 10): “O presente entregue às suas incertezas e
voltado apenas para o futuro imediato, seria uma prisão.”
Para Walter Benjamin apud Bosi (2004, p. 20):
“(...) os adivinhos achavam que dentro do tempo existia algo a ser extraído;
o tempo é, não homogêneo e vazio, mas repleto de índices. Os profetas
apelam para as lições de memória porque o passado arrasta consigo um
índice secreto que o remete à salvação”.
No exercício de lembrar o trabalho, as descarnadeiras de Itaoca se impuseram um
lugar profissional que historicamente constitui o perfil da ilha: a pesca artesanal e o
beneficiamento do siri. Um coletivo de mulheres, que estão entre as mais tradicionais do
Estado na extração de carne de siri. Essa memória de trabalho, então, constitui-se numa força,
numa experiência compartilhada nas conversas de roda e nas conversas informais.
Nesse sentido o tempo só tem valor para nós na sua vivacidade cronológica, na sua
intensidade entre o ontem e o hoje. A produção vazia do tempo, alimentada pela sociedade
industrial, que cria os tempos vazios, das filas, da burocracia (Bosi, op. cit.), cria também o
tempo morto, produzido na estratégia cotidiana de “matar o tempo”, fazendo-o passar mais
depressa, já que a tarefa a ser realizada produz um dissabor, uma alienação. Nas rodas de siri,
166
as mulheres mencionavam as conversas como “matar o tempo pro trabalho passar mais
rápido, para não doer tanto”. Nos momentos de nossa pesquisa, o matar o tempo das
descarnadeiras transformou-se também num movimento de extrair algo do tempo. Uma
história da ilha, um caso de trabalho. Nesse movimento de lidar com o tempo memória no
universo de trabalho na pesca, outros sentidos foram emergindo, nos fazendo refletir sobre o
tempo para aqueles sujeitos: a idéia do tempo vinculado ao trabalho e regulado pela
mobilidade da natureza e dos ecossistemas marinhos. A pesca na verdade comanda os
horários do cotidiano, a sucessão, o ordenamento das tarefas, os horários e intervalos; a
ordenação das tarefas no espaço doméstico de cada família.
O trabalho das mulheres, por exemplo, obedece a um tempo duplo – dividido entre o
cuidar da casa e “esperar o peixe”. Não é o relógio que regula a tarefa, e sim a obtenção ou
não do produto. Os astros, os fenômenos da natureza, são relacionados no plano simbólico e
cultural e nos tempos de trabalho. Na sua existência ou ausência.
_ Amanhã você não vem não, porque não tem siri.
_ Olha só o vento... Sente só. Siri some...
(Edileusa)
Ao perguntarmos como ela sabia com tanta certeza que não haveria siri, a resposta se
colocava na experiência de trabalho e na relação de observação dos fenômenos da natureza,
desde a infância. Daquilo que eles chamam de “olhar o tempo”.
4.1 Práticas de trabalho e gênero
Nas práticas de trabalho e no universo cultural e simbólico que envolve a pesca, o
peso do elemento masculino ainda é muito forte e o papel da mulher marcado pela hierarquia
167
mar X terra, definindo as tarefas e o território. Segundo Woortman (1991), “a classificação do
espaço natural é também uma classificação de espaços sociais e de domínios pertinentes a
cada gênero”.
O mar é percebido como domínio do homem, em oposição à terra, domínio da mulher.
O barco, por exemplo, é um espaço masculino onde a presença da mulher não é muito bem
vinda e, às vezes, até impedida. Na verdade, as embarcações não oferecem condições
adequadas ao trabalho feminino.
Em muitas regiões do país, o imaginário simbólico relacionado às crenças e tradições
traduz-se em interditos para as mulheres, consideradas portadoras de má-sorte para a pescaria.
Segundo Diegues (1998, p. 108): “Se o lar é o domínio da mulher e da família, o barco é um
espaço masculino no qual não se admite a presença feminina, de clérigos e também de alguns
animais considerados portadores de má sorte como o coelho, etc.”
As mulheres que desempenham tarefas de captura direta do pescado no mar enfrentam
dificuldades e preconceitos arraigados na cultura popular. Mitos e crenças que se traduzem de
forma naturalizada no cotidiano, como por exemplo, não poder tocar numa rede de pesca
quando se encontram menstruadas ou grávidas. São consideradas “panema”, que significa
pessoa infeliz, que traz má sorte à pescaria.
O universo da pesca artesanal, por exemplo, é movido por simbolismos ligados à
religiosidade e aos mitos da cultura regional. A figura feminina tanto pode representar aquela
que protege, a mãe das águas, Iemanjá, como aquela que atrai e, com seu canto, leva os
pescadores para as profundezas do mar (a Sereia). Aquela que, por estar menstruada, atrai o
boto, que pode afundar o barco. Segundo Line (2004) em seu estudo sobre as mulheres
pescadoras da Baía do Sol:
É interessante que, nessas explicações ou justificativa, a mulher está
presente nos mais variados momentos.
168
(...) Contudo, uma coisa é certa: nenhuma comunidade pesqueira vive sem
suas lendas e explicações mitológicas e a mulher está presente em todas as
águas, seja doce, salobra ou salgada, pois ninguém melhor que ela pra guiar
e proteger os pescadores.
Nos limites de nossa pesquisa não conseguimos levantar nenhuma história que
trouxesse especificamente a figura feminina, nem emergiu nas entrevistas essa questão.
Apenas surgiu numa conversa informal, a história da mulher não poder tocar na rede quando
encontra-se menstruada, pois pode trazer má sorte à pescaria.
Na verdade, essas práticas e mitos não são imutáveis e se diferenciam de acordo com a
realidade local e regional, traduzindo uma intensa relação entre ideais culturais e sistemas
produtivos.
O universo simbólico e de trabalho que envolve o feminino na pesca não pode contudo
ser analisado de forma superficial e sob a tradicional ótica de gênero. É necessário refletir
sobre as práticas diárias e que não envolvem apenas oposições e submissões de gênero, mas
também companheirismo, divisão de tarefas necessárias à reprodução do grupo local familiar.
Estudos atuais discutem essa perspectiva no universo das comunidades que exercem
atividades na pesca e agricultura. Entre eles citamos: Woortmann (1991), Lima (2003).
Em comunidades de tradição agropesqueira, a relação de cooperação nas atividades de
homens e mulheres é menos bipolar. Segundo Woortmann (1991, op. cit.) a hierarquia do
espaço natural em comunidades com estas características é de complementaridade, no
desempenho das tarefas de trabalho e na reprodução social do grupo, segundo a autora (op.
cit. p. 18).
(...) ainda que os espaços físicos fossem pensados como domínios de gênero
separados, havia uma relação de complementaridade onde a ajuda de um
viabiliza o trabalho do outro.
169
Segundo a autora, isso não significa que na hierarquia do trabalho do homem e da
mulher se extinguissem as diferenças de gênero tradicionalmente existentes, mas a relação de
cooperação é bastante mais significativa que oposições de gênero.65
4.2. Pescador/Pescadora - Casa/Família - Mar/Terra
Em nosso universo de pesquisa, ou seja, o grupo de descarnadeiras, as tarefas que
envolvem a extração da carne de siri são entendidas como forma tradicional e complementar
ao grupo de pesca (tarefas dos homens). Cada descarnadeira se referencia a um pescador
(tiram siri para) que pode ser pai, marido, irmão ou outros. É uma atividade de trabalho que
envolve parceria e compromisso, sem vínculo de contrato. Quando alguém não pode tirar siri,
indica outra descarnadeira ou pede ajuda para não falhar com o compromisso assumido.
Isso inclusive reforça as alianças de grupo em torno dos códigos de trabalho. É preciso
se ter certeza que cada um cumpre o seu papel, já que o produto da pesca é imprevisível e
altamente perecível. É comum os homens avisarem quando não vão pescar siri, para que as
mulheres não aguardem o produto. Ou seja, os códigos de trabalho não são estabelecidos
apenas sob a tradicional oposição trabalho de homem x trabalho de mulher, mas sobre as
relações de um grupo específico de homens e mulheres na reprodução de sua vida material e
simbólica.
As mulheres reconhecem que sua função é diferenciada da pescaria, que teria no
imaginário social e do campo da produção uma maior importância. Entretanto identificam
com suas tarefas o “eixo da roda” que movimenta o trabalho na pesca.
65
Aqui estamos utilizando o conceito de gênero na perspectiva dos atuais estudos de gênero e que enfatiza a
dinâmica socialmente construída de relação entre homens e mulheres, ou seja, na sua dimensão nacional e
política, vivida entre gêneros diferentes. Para ampliação da discussão sugerimos o artigo de Matos, Marlize;
Os novos desafios criados pela multiplicação das identidades de gênero: Para onde fomos? In: Revista de
estudos interdisciplinares – UERJ - Pós-Graduação - Consciências sociais. n. 2, ano 4, 2002. Rio de Janeiro,
RJ.
170
Eu não sou pescadora, eu vivo da pesca. Eu faço rede, eu remendo
rede, eu encabeço, entalho, eu tiro siri. Se não entalhar a rede, o
pescador como é que ele vai sair do cais? Vai pescar?
(Bené)
A afirmação de Bené também se confirma nas relações no espaço familiar, onde
muitas mulheres exercem uma espécie de coordenação das atividades de ida sistemática à
pesca ao mar. Especialmente para aqueles como diz Ivonete, “marido muito do preguiçoso”,
que necessita ser incentivado, empurrado para o mar. As mães também exercem uma espécie
de coordenação do trabalho daqueles filhos que, por um motivo ou outro, estejam com
dificuldades de imprimir seu ritmo cotidiano à tarefa de ir ao mar ou para a venda do produto.
Isso define também o papel atribuído ao trabalho em relação ao homem. Segundo Sarti (2003,
p. 88):
O trabalho é muito mais que o instrumento de sobrevivência material, mas
constitui o substrato da identidade masculina, tornando um jeito de ser
homem. É condição de sua autonomia moral, ou seja, de afirmação positiva
de si, que lhe permite dizer: eu sou.
Como a pesca artesanal é exercida na dinâmica da família e da vizinhança, é
necessário um empenho do grupo familiar para manter e preservar a imagem do trabalhador a
todos os membros da família, especialmente aos homens.
Nas atividades do trabalho exercidas na roda, as relações se diferenciam do espaço da
família. Na roda, onde estão trabalhando mães, tias, filhas, irmãs, a relação é de
camaradagem, estabelecendo códigos de ajuda mútua, para finalizarem as tarefas de extração
da carne de siri (terminar a caixa). Os homens passam na roda para entregar ou apanhar o
produto. Se ficam, é por pouco tempo.
171
No espaço doméstico as relações respeitam a hierarquia conferida ao chefe da família
ou às mulheres mais velhas (avós, tias, mães). Os homens são referenciados como
responsáveis pelo sustento de família, mesmo quando isso não é o que acontece de fato.
Cabem as mulheres as decisões cotidianas de organização da casa e cuidado com os
filhos, netos, sobrinhos.
Quando se desfazem as relações conjugais, o filho ou outros familiares ocupam o
lugar de figura masculina no grupo familiar. Sarti (op. Cit, p. 67), ao discutir o deslocamento
das figuras masculina e feminina no interior das famílias pobres, aborda essa questão:
Cumprir o papel masculino de provedor não configura, de fato, um
problema para a mulher, acostumada a trabalhar, sobretudo quando têm
precisão; para ela o problema está em manter a dimensão do respeito,
conferido pela presença masculina.
Nesse sentido, mesmo ocupando o lugar de provedora, a identificação do homem com
a autoridade moral e de respeitabilidade da imagem da família permanece. Isso faz com que
muitas mulheres, mesmo ganhando mais que seus companheiros, se coloquem no discurso
externo como dependentes. Em nossa pesquisa de campo, especialmente nos espaços
informais de conversa, pudemos constatar essas posturas.
Algumas mulheres chegam a vincular sua documentação pessoal à do marido,
achando, por exemplo, que a carteira de pescador que o marido possui é extensiva a elas,
assim como os benefícios.
Nesse sentido ser “dependente” do companheiro ou marido, funcionaria como uma
espécie de legitimação do vínculo conjugal, demonstrando um certo sucesso do “homem
provedor”. Essa dependência não tem um significado econômico, mas simbólico. Integra um
quadro de valores e de práticas que se produzem e reproduzem no interior do grupo familiar e
da comunidade, dadas como naturais na dinâmica do cotidiano. (Bourdieu, 2003)
172
As meninas aprendem cedo a definirem os espaços a elas designados. O espaço da rua
é mais permitido aos meninos. Cada um é educado para enquadrar-se nos moldes
culturalmente pensados como papéis masculinos e femininos. Esses modelos definem os
princípios morais das famílias e os papéis são utilizados como mecanismos de controle e
poder para mulheres e homens, embora em relação às mulheres as pressões sejam mais
específicas no cotidiano.
O trabalho da mulher (menina ou adulta) no espaço doméstico não é apenas uma
função no interior da família e dos papéis sociais, é também parte da identidade feminina e
compões o quadro de valores morais e concepções sobre o trabalho na comunidade. A esse
respeito Sarti (2003, p. 98) declara: “Através do trabalho doméstico, e do esmero com que é
feito, realizam-se valores morais fundamentais dos pobres relacionados ao espaço da casa,
sobretudo a limpeza...”
O espaço da cozinha, no que se relaciona à preparação da comida e distribuição dos
alimentos, segundo a mesma autora, constitui-se no domínio feminino, expressando um valor
fundamental para as famílias de camadas pobres. A comida não é apenas alimento, mas a
expressão da prodigalidade, de alimentar o outro. (SARTI, op. cit) Desse modo, o espaço de
recepção das casas quase sempre é a cozinha; quando isso não acontece é sinal de maior
cerimônia.
4.3 Extração da carne de siri – uma história de trabalho na pesca em Itaoca
Nas entrevistas e conversas sobre o início do trabalho com a extração do siri algumas
polêmicas se mantiveram. Quem introduziu a técnica de extração da carne de siri para
173
comercialização? Foi o Sr. Renato, que veio morar na ilha, ou um antigo pescador de Itaoca,
Sr. Juca? A técnica de extração da carne de siri nasceu em Itaoca ou veio do Gragoatá66?
_ Eu tirava o siri em Imbé, antes do seu Renato, não era Tia Iara? Em
Juca. Nós ia em Juca buscar. Em Imbé... vinha de Niterói. Em Juca. Nós ia
em Juca buscar. Aí nós começou a tirar... aquele dinheiro ali era pra tudo,
era pra ajudar também, dar pra nossa mãe, pra comprar ropinha.
(Chana)
A família do Sr. Juca, já falecido, ainda trabalha na pesca; suas três filhas são
descarnadeiras de siri, enquanto os outros filhos trabalham na pescaria.
_ Sou nascida e criada na ilha. Depois que me casei vim morar aqui na
Praia da Luz. Minha família é toda da pesca. Meu pai foi o primeiro a
trabalhar com siri. Seu Juca. Ele pegava siri com o Francisco Copa. Eu
tinha mais ou menos uns onze anos. Eu casei, parei. Meu pai faleceu, minha
mãe também. Meus irmãos ficaram com a tarefa do meu pai: pescar, pesar,
pegar a carne, catar, tirar os ossos, empacotar e vender.
(Elis)
- É; nós comecemos desde pequena e tamo até hoje. É só disso que a gente
vive.
(Rosa)
- O primeiro pescador de siri era Jurandir, meu sogro. Meu pai trabalhava
com ele. Jurandir cansou, encheu. Meu pai pegou e se virou pra Niterói
conseguiu uma barraca pra trabalhar pra banca do Bola Sete.
Dali consegui esse Copa. Com o Copa nós comecemos com o siri cru.
Levava pra lá., Copacabana cismou de levar cozido lá pro Gragoatá. Aí o
Copa mudou para onde é o Lixão hoje... pra facilitar eles. Aí começou a
66
No Gragoáta, em frente hoje ao Campus da UFF – na pracinha de São Domingos, segundo relato do pescador
Edson, concentravam-se os pescadores para comercializar os produtos: peixes, siri, camarão. Alguns
capturados por ali, já que era beira da Baía de Guanabara.
174
descarnar. Meu pai arrumou em Niterói, correu atrás. Aí depois que veio o
Seu Renato.
(Edson)
Antes de começar a comercialização da carne de siri, esse crustáceo era vendido
inteiro para consumo in natura nos mercados de São Gonçalo, Niterói e Rio. A introdução e o
aprendizado de uma nova técnica, tornou-se uma alternativa de trabalho para os pescadores e
suas famílias, especialmente para as mulheres. Apesar da pouca remuneração, a abundância
do produto e o empenho familiar na atividade podiam auferir uma remuneração a mais (além
da venda do pescado), como também incluir um maior número de familiares, como as
crianças e adolescentes.
Com a entrada da atividade de extração da carne de siri, a contribuição do trabalho das
mulheres, crianças e adolescentes aumentou. Antes, suas atividades estavam voltadas para
tarefas domésticas, cata do caranguejo, retirada de lenha do mangue, conserto e confecção de
redes de pesca. Algumas poucas mulheres pescavam sós, ou com seus maridos e irmãos.
O trabalho de extração do siri sofreu poucas mudanças ao longo do tempo, permanece
ainda com características rudimentares de trabalho. O tempo de existência dessa atividade,
segundo os depoimentos, é de mais ou menos 50 anos, sendo Itaoca considerado um dos
pontos mais tradicionais na utilização dessa técnica no Rio de Janeiro, reunindo um grande
número de mulheres nessa atividade. A estimativa, segundo as associações locais (Sirluz e
Associação de Pescadores da Praia de São Gabriel), é de que existam cerca de 160 mulheres
envolvidas nessa atividade na Ilha, confirmada pelo registro feito informalmente por uma
liderança local, na ocasião do movimento para criação de uma Cooperativa de
Descarnadeiras.
175
4.4 O siri na roda do atravessamento
O trabalho é realizado em suas residências ou na casa de vizinhos, sempre de forma
coletiva, na disposição de círculo, que chamamos de roda. A remuneração é por produtividade
individual; cada mulher recebe pela quantidade de carne extraída e pesada, entregue ao
pescador ou atravessador, chamado também de “pombeiro”.
Segundo as últimas pesquisas de preço que realizei na ilha, os preços pagos às
descarnadeiras são de R$ 1,80 a R$ 2,00/kg e quem vende no mercado entre R$ 5,00 e
R$10,00. O trabalho de pescar é dos homens, que capturam o produto na Baía de Guanabara,
no entorno de Itaoca ou, quando necessário, em regiões mais longínquas e até fora do Estado.
A extração consiste na retirada da carne do crustáceo, previamente cozido, utilizandose uma pequena faca de ponta, usada como espátula, para extrair os filamentos de carne das
patas (quelípodas) e carcaça (abdômen e peças bucais) do siri. O catado é depositado em
recipientes (caixas de plástico ou vasilhas domésticas). Quando o pescador responsável pela
encomenda ou o próprio pombeiro não vem apanhar o produto no mesmo dia, este é
armazenado em geladeiras domésticas. O produto é colocado, então, em sacos plásticos,
pesado e entregue aos pombeiros ou pescadores, que comercializam nos mercados de São
Gonçalo e Niterói.
O processo de extração da carne produz ferimentos perfurocortantes sistemáticos que,
podem até levar à perda das digitais. As mãos das descarnadeiras em períodos de longas
jornadas ficam inchadas e até sangram.
_ Minha mão tá tudo assim, tem calo aqui, aqui.
_ Quando chega sexta-feira que você tem que ver como fica uma beleza...
Parece que ta desfolhando tudo. Chega a sangrar.
(Telma)
176
_ (...) porque vai furando. É tudo grosso, olhe só... vê só o calo.
_ Tem ainda esse e aqui tem... Mas esse dedo aqui é menos sacrificado.
Todo dia fura, mas lava roupa, faz isso aquilo, aí vai cicatrizar. Mas tá
tudo estourado meu dedo. As unhas não têm mais nem jeito; aí fica
horrível.
(Ivonete)
Cada pescador de siri possui seu grupo de descarnadeiras que podem ser as mulheres
da própria família ou vizinhas que são “contratadas” por esse pescador ou por um pombeiro.
A rede de intermediação pode envolver mais ou menos pessoas. Às vezes o pescador que
captura o crustáceo também realiza o cozimento e outras vezes, entrega para o pombeiro local
e esse é que o comercializa. O cozimento do produto é realizado nos quintais das casas, em
geral em pequenas fogueiras improvisadas, utilizando-se latas ou panelas. Geralmente são os
homens que realizam essa tarefa.
_ A gente trabalha pra um pescador. Ele pega o siri, cozinha e bota numa
mesa grande lá pra gente trabalhar. Lá perto do Jaqueiral. A gente não
vende; o pescador pega, cozinha e bota pra gente escarnar pra ele. Ele
paga um e oitenta. É a casa dele; ele mora ali. Aí, quando termina de
cozinhar, a gente tá esperando pra escarnar, todo dia, toda tarde, todo
santo dia.
(Ivonete)
Em momentos de maior abundância do crustáceo, nas rodas de siri entram outros
membros da família, vizinhos ou crianças e adolescentes. Todos precisam ajudar para dar
conta da caixa de siri. Nesses momentos, os homens também podem entrar na roda. Embora
nos depoimentos tenham sido citados os nomes dos homens que escarnam siri, não os vi em
minha pesquisa de campo realizando essa atividade. A atividade é eminentemente tarefa das
mulheres, inclusive em outras regiões do Estado.
Cláudio, entretanto, conhece alguns homens que “tira siri”, embora sinalize como uma
tarefa de ajuda.
177
_ (...) homem que tira carne de siri. Marquinho lá embaixo. Alci é... tem
outros aí. O próprio Lelei mesmo que compra siri, ele tira siri, ele sabe
tirar. Mas eles não fazem isso. Eles não sentam nessa roda que as mulheres
fazem... Não, porque tem outra atividade. Geralmente ele pesca, né? O
próprio Airto, ele tira o siri. Quando tem muito ele vai lá ajudar as
mulheres a tirar. Ele pesca... ele não atua direito, como elas tiram aí doze,
quatorze horas tirando a carne do siri; ele não atua direto porque ele
pesca, ele tem que buscar a produção do siri pra elas tirarem.
_ Eu era pequena, tirava siri; não para mim mesma, mas para ajudar
minha mãe. Tirava a carne e botava na vasilha dela. Ah todo dia de tarde o
pessoal reunia pra tirar o siri e eu tirava junto com a minha mãe também.
(Juliana)
_ A minha avó catava siri. Nós quebrávamos as unhas porque era
separado; as crianças ia aprendendo com as unhas. Veio passando de mãe
para filho e até hoje. Só que reduziu a quase nada, o siri é pouco.
Geralmente tem o que é pescador na família, e ele tem suas catadeiras que
pode ser nóis e outras.
(Chana)
Às vezes o trabalho de ajuda confere uma parte da remuneração ao ajudante, outras
vezes é uma atitude de camaradagem na roda, por parte dos que concluíram sua tarefa
(acabaram a caixa) ou dos que entram na roda pra ajudar, sem compromisso.
4.5 Trabalho precário – Qualidade do produto / Imagem profissional
As mulheres tecem críticas em relação às condições de trabalho e higiene na extração
do produto. Elas reconhecem a precariedade do trabalho, isso acaba contribuindo para uma
178
imagem desqualificante do ofício e qualidade duvidosa do produto. Nas entrevistas, algumas
atestam que não comem o produto, pelas próprias condições de sua extração.
_ Eu não como!
_ Também não!
_ Eu como se eu tirar. Um omelete de siri, uh! Aí eu tiro a carne, eu como.
Eu comprar de terceiro eu não como. Eu acho esse trabalho muito sujo, as
mãos fica cheirando.
_ Numa reunião que eu fui uma vez, eu vi o pessoal falando sobre isso.
Fazer um galpão, uma coisa higiênica, mas eu nunca vi proposta. Dizem
que tem em Jurujuba. As mulheres ficam assim com uma máscara, lenço na
cabeça...
(Carmen, Alice, Bené).
Tanto o sistema de extração como o de armazenamento do produto não se adequam a
padrões básicos de higiene. Entretanto a infra-estrutura necessária para efetivar as mudanças
no processo de beneficiamento é de alto custo para os trabalhadores.
_ Se eu falar pra você que a condição de higiene é adequada estaria
mentindo, porque não tem uma infraestrutura para que isso fosse bem mais
higiênico, né? Logicamente que poderia! Aí você me pergunta a quem você
atribui isso? Ao governo, que dá uma carteira federal, mas não dá os a
infra-estrutura necessária. Isso vai acarretar outros problemas...
_ Acho que uma cooperativa remunera vários grupos de mulheres com uma
higiene maior. Ajudaria muito.
(Cláudio)
As condições precárias de trabalho influem na imagem desqualificante da atividade e
produzem um constrangimento nas próprias mulheres que estão trabalhando nos quintais e
que às vezes evitam se expor aos visitantes.
179
_ Ah! Minha filha né todo mundo que quer dizer que trabalha no siri
não... Tem gente que se esconde nos quintais. Vergonha eu acho”.
(Chana – diário)
Trabalhar no espaço doméstico produz uma imagem de trabalhador menos valorizada
que a daqueles que trabalham fora de casa, no mar, no barco.
Em alguns momentos vivenciados no trabalho de campo pudemos observar como as
próprias mulheres tentam demarcar os limites dos espaços de trabalho e atenção à família,
diferenciando os espaços. Ao serem solicitadas pelos filhos ou vizinhos para atenderem a
outras demandas respondem com negativas as solicitações.
_ ...Não, agora eu não posso resolver isso...
_ Num ta vendo que eu tô tirando siri.
(Chana - diário)
Outras vezes sinalizavam o descontentamento com tais solicitações.
_ ...Pessoal pensa que a gente tá aqui conversando num tá
trabalhando não. Toda hora chega um. Se dé atenção a gente não
acaba a caixa é nunca.
(Tauana – diário)
A relação direta com as atividades no espaço doméstico produz também uma
dificuldade de padronização e mudança nas formas de extração do produto, possíveis somente
em opções de uso de espaços coletivos com infraestrutura de beneficiamento implantada.
Na verdade o uso de espaço coletivo por si só não garante melhores condições de
trabalho e qualidade no beneficiamento: é necessário um projeto mais elaborado e de custo e
relações definidas.
180
4.5.1 O primeiro espaço coletivo de “trabalho contratado” fora da unidade familiar
O primeiro atravessador ou “pombeiro” que veio “lá de fora” foi o Sr. Renato, que
acabou morando em Itaoca. Ele foi o primeiro a contratar as descarnadeiras fora da unidade
familiar para o trabalho com o siri; ele trazia o produto de fora ou comprava dos pescadores
locais. O sistema de remuneração era por produção individual.
Selma, que hoje mora na casa que foi do Sr. Renato, guarda ainda as lembranças dessa
época:
_ Meu sogro comprou a casa de Seu Renato. Depois nós compramos a casa
do meu sogro. Quando nós chegamos, ele já estava levando para as
mulheres tirarem em suas casas. Antes era uma concentração aqui nessa
casa; um espaço que tinha nos fundos, que ele usava pra colocar as
mulheres trabalhando. Uma mesa grande, onde elas tiravam a carne de
siri.
(Selma)
A nova técnica de trabalho com pescado que se instalava na ilha naquele momento
tornou-se uma alternativa de trabalho especialmente para mulheres. Aos poucos, outros
grupos de pescadores também começaram a executar esse trabalho, independente do Sr
Renato; alguns, segundo relatos, até anteriormente, pelas relações externas com outros
atravessadores, conforme já vimos.
_
(...) Todos os pescadores pegavam siri, vendiam pra ele, ele
contratava mulheres, era bastante mulher, teve época de ter cem
mulher trabalhando pra ele, e ele distribuía o siri e pagava as
mulheres. Esse português começou. Depois os próprios pescadores,
as
mulheres
foram
aprendendo,
conhecendo
restaurantes,
conhecendo outros atravessadores para eles poderem comercializar
a carne deles, e daí expandiu a coisa.
181
(Cláudio)
Além do espaço coletivo, no galpão do Sr Renato, as mulheres passaram a extrair a
carne também em suas residências, com a participação de familiares ou vizinhos.
_ Aí a gente ia com uma lata de vinte... na época tinha lata de vinte. Aí
pegava, trazia, tirava em casa. Aí levava o siri pra lá. Agora tem muitas
pessoas; lá tinha um galpão né? E aí todo mundo tirava em Seu Renato.
(Bené)
- Antigamente o trabalho aqui era só esse mesmo. Era fazer rede, escarnar
siri, entendeu? Desde nova eu trabalhava com siri. Tinha um senhor ali; eu
comecei com ele. Só quebrava as patinhas do siri.
(Ivonete)
4.5.2 Trabalho / Saberes
O trabalho nem sempre foi pensado da mesma forma, nem em relação a sua natureza,
nem em relação ao tempo despendido nas tarefas laborais dos grupos sociais. Segundo
Enguita (1989, p. 4): “A organização atual do trabalho e a cadência e seqüências atuais do
tempo de trabalho não existiam em absoluto no século XVI, e apenas começaram a ser
implementadas precisamente ao final do século XVIII.”
Os processos de transformação no campo da produção material e cultural dos homens
não se deram de forma única para toda a humanidade, em todas as regiões do planeta.
Algumas práticas de trabalho foram alteradas no processo de desenvolvimento e
modernização da sociedade capitalista, mas conservaram características próprias, ligadas à
produção voltada para a subsistência. Na economia em caráter de subsistência produz-se para
satisfazer uma gama limitada e pouco cambiante de necessidades. O trabalho é indissociável
de seus fins e, como conseqüência, da vida, mesmo em seu conjunto. (ENGUITA, 1989)
182
As populações descritas como tradicionais, como é o caso dos pescadores artesanais,
dos caiçaras e outros, caracterizam-se neste tipo de produção. Segundo Diegues (2002, p.23):
A forma social de produção dessas populações é a de pequena produção
mercantil. Isto é, ainda que produzam mercadorias para a venda, são
sociedades que garantem sua subsistência por meio de pequena agricultura,
pequena peca, extrativismo, são formas de produção em que o trabalho
assalariado é ocasional e não é uma relação determinante, prevalecendo o
trabalho autônomo ou familiar.
No entanto, como afirma Diegues (op.cit)67 essas comunidades encontram-se
articuladas e dependentes da formação social capitalista.
O pescador não vive num mundo idílico nem é um personagem de aventuras, perdido
numa ilha. Ele se insere na conjuntura local e global e nas esferas da produção. Vender o
peixe ou a carne de siri, por exemplo, é uma atividade econômica que mobiliza pelo menos
três tipos de mão-de-obra: o pescador, as descarnadeiras e o atravessador. Requer a existência
de um mercado consumidor, de petrechos de pesca, armazenamento e transporte. E está
submetida à política do setor pesqueiro, à política ambiental e aos projetos regionais de
geração de emprego e renda. Ao descrever a rota e o cotidiano de trabalho do pescador,
Cláudio nos ilustra as intermediações e os fazeres na pescaria de siri, sinalizando a
importância econômica da atividade no conjunto do setor e o tempo real gasto na tarefa.
_ (...) Porque na verdade o que abriga o maior número de trabalho é o
artesanal. É o pescadorr de fundo de baía, que ele acarreta... aqui mesmo,
tem um pescador que pesca sozinho, pescador de siri, ele pesca sozinho, ele
dá emprego a seis pessoas. Tem pescador que dá emprego a dez pessoa.
67
Diegues (2002) conceitua as populações tradicionais ou culturais tradicionais. Considera que num certo
sentido todas as culturas são tradicionais. São na verdade padrões de comportamento transmitidos
socialmente, modelos mentais usados para perceber, relatar e interpretar o mundo, símbolos e significados
compartilhados, além de seus produtos materiais.
183
- (...) Dão para as escarnadeiras e ele emprega uma pessoa, três, quatro
escarnadeira, são cinco. Tem o vendedor, o cara que panha a carne com
ele, que ele emprega, que vende pra outro, tem o cara que é o dono do
restaurante. Então, você vai vendo, e uma cadeia que está por trás dele. E
atualmente quem ganha menos é o pescador. É o cara que sai duas horas
da manhã, três horas da manhã, vai lá pra fora, volta no outro dia, pára
de trabalhar. O pescador hoje começa a trabalhar uma hora da
manhã, pára meio dia, uma hora.
_ (...) Dentro da Baía. Mas ele não trabalha direto lá pescando, ele vem,
ele traz o siri, vai cozinhar, vai distribuir para as catadeiras, vai pesar
depois, vai fazer a contabilidade. Então ele pára uma, duas horas de tarde
de trabalhar. Ele tem que renovar a isca do puçá, a isca que ele pega o siri.
Ele tem que correr atrás de isca, então, ele começa a trabalhar uma hora a
manhã, ele pára meio dia, uma hora. A hora que ele vai dormir umas
horinhas pra uma hora ele sair de novo.
(Cláudio)
O produto da pesca é extraído diretamente da natureza, obedecendo às leis naturais e
sofrendo também as conseqüências da intervenção humana: poluição, sobrepesca, acidentes
ambientais, políticas locais e do setor pesqueiro. A convivência com tal natureza do trabalho
no mar leva os pescadores artesanais, como os de Itaoca, a buscarem alternativas para os
momentos de diminuição do produto e queda na produção. Às vezes, é necessário migrar para
outras regiões de trabalho do pescado.
Nesses momentos a figura do atravessador, que geralmente possui o capital e os meios
para compra e captura do produto em outras regiões, torna-se preponderante, atrelando a
sobrevivência das famílias que vivem da pesca a essa figura. Obviamente que isso não
aconteceria se a organização do setor pesqueiro artesanal se desse de outro modo.
_ (...) Em todo lugar, em todas as épocas, tem a safra e a entresafra... antes
não existia defeso... A natureza se defendia naturalmente. Ela mesma tirava
a produção, então não compensava o pescador pescar. A produção pra
184
escala comercial era pequena. Então ele tinha que sair pra buscar em
outros Estado... Seu Renato, quando estava na entresafra aqui, ele ia pra
Bahia buscar siri.
(Cláudio)
Buscar o pescado em outras regiões, também aumenta o tempo de trabalho no mar e os
custos. Isso, para os pequenos pescadores, com suas precárias embarcações não é muito
simples.
_ A semana passada e essa semana não tinha nenhum aqui. Eles pra
pescar, pra pegar dois quilos de carne eles está indo lá em Mauá; lá em
Morro Grande. É três horas de viagem a motor. Leva três horas no barco e
o motor pra ir lá pegar... só dois quilos de siri....
(Telma)
Segundo Diegues (op.cit.) essas populações resistem e lutam para reconquistar e
manter sua identidade cultural e seus territórios de trabalho. Algumas vezes, resistindo aos
desafios do mundo globalizado, onde o processo de homogeneização cultural e
desenvolvimento tecnológico são intensos.
As práticas de trabalho que envolve desde o manuseio dos petrechos de pesca, a
relação com os ecossistemas naturais, a forma de transmissão desses saberes são os elementos
que distinguem as populações tradicionais, como os pescadores artesanais, dentro da produção
capitalista atual.
O aprendizado dessas práticas, transmitido aos membros da família desde a infância,
se dá em tempos e formas diferenciados das aprendizagens escolares, que em geral obedecem
a um ritmo dado pela organização de um currículo e de uma determinada jornada escolar, e
também das atividades no mundo de produção fabril, por exemplo, como já sinalizamos.
185
O espaço de vida e trabalho se mistura, um mesmo espaço serve para o
desenvolvimento da vida familiar e das atividades produtivas, tecendo outras redes de
sobrevivência.
A ausência do pescado e a baixa remuneração também obrigam os pescadores e
descarnadeiras a buscarem alternativas de trabalho e interromperem as vezes seus projetos de
vida local. Ocupam-se de atividades temporárias e informais, como biscates, faxinas,
acompanhantes, babás. Essa estratégia sempre esteve presente no cotidiano de trabalho
principalmente das mulheres, já que as essas cabem a menor remuneração no beneficiamento
do siri. De tempos em tempos alguém sai da roda e vai trabalhar “lá fora”.
_ Semana que vem você não me acha aqui. Vou pro Rio tomar conta de
uma senhora lá...
_ Tem que ganhar algum. Só o siri não tá dando.
_ Vou tomar conta enquanto a menina tira férias. É um extra. Quero dois
salários, vou lavar, passar.
_ Ainda vou levar ela ao médico.
(Tauana)
_ Aí quando não dá pra arrumar nada a gente volta pro siri. Os empregos
ta escasso né? Aí volta pro siri. Mamãe sempre cuidou da gente com siri.
Hoje não dá: ontem eu tirei setecentas gramas, quer dizer pra você tira dez
reais, meio quilo, demora muito. Antes tinha era dez caixas. Quatro pessoas
tirando siri, tendo menos de meia caixa, minha mãe já foi fazer um biscate
lá no Rio. Tá um tempão desempregada.
_ (...) Depois que o óleo derramou... Quer dizer, você tem que arranjar um
biscate, fazer alguma coisa, porque só o siri não dá...
(Chana)
186
4.6
Tecendo outras redes de sobrevivência
Algumas famílias buscam outras estratégias de sobrevivência, aproveitando o
aprendizado tradicional de confecção dos petrechos de pesca.
Além das tarefas comuns às mulheres e crianças na unidade familiar, como o
beneficiamento do pescado, por exemplo, a confecção e conserto dos petrechos de pesca
(redes, puçás) são tarefas aprendidas na infância e que geram outras fontes de renda.
A tecelagem das redes para pescaria obedece a técnicas que podem ser aplicadas na
confecção de malhas e telas para outros fins e comercializadas no mercado. As mulheres que
tecem uma rede de pesca também sabem tecer uma tela de proteção utilizada em residências,
quadras esportivas, campos de futebol.
Uma tarefa especializada, que exige uma habilidade manual e o conhecimento dos fins
específicos para tecelagem da trama. Realizam esse trabalho por encomenda, através de
contatos mantidos pelos pescadores, em geral homens e irmãos da família, já que eles são os
que saem cotidianamente de Itaoca para comercializar o peixe, siri, camarão, etc.
Na família de Dona Semirami, este aprendizado vem de longe, tecer e comercializar
redes é mais uma fonte de renda familiar além da pesca ou nos momentos em que o produto
está escasso.
_ Ultimamente agora que não tem nada assim, não tem siri. Esse negócio
de rede de pescaria pra gente fazer, aí o Cláudio, ele corre atrás de outro
serviço pra gente, sabe. Pra não deixar a gente assim sem nada. Vê se tem
rede de campo pra fazer. Como descarnadeira eu ganho muito pouco, mas
a gente fazendo rede a gente ganha muito mais, rede de campo, rede de
pesca. Por exemplo: uma rede de peixe né, tarrafa de peixe, se for grande é
R$ 200,00 se for pequena é R$ 100,00, R$ 80,00. Depende do tamanho. No
siri não tiro isso. Eu não sou pescadora, eu vivo da pesca.
(Bené)
187
_ A gente faz muita rede na parte da noite. A rede é um trabalho solitário,
cada um tem que fazer a sua. Eu vou dormir meia noite e acordo às cinco.
Entralhar rede, fazer a montagem da rede. Montar a parte da bóia e a
parte dos fundos. Eu prefiro a rede, dá mais que o siri.
(Alice)
Além da rede de pesca, as mulheres constroem outros petrechos para apanhar o siri,
como o puçá.
_ Eu fiz um agora, um não, eu acho que faço uns cinco por dia.
_ Essa redinha é pra pegar siri, eu faço de camarão também. A de camarão
dá mais trabalho porque tem que contar malha por malha. Contar
crescente porque se você errar um crescente daquele, você tem que
desmanchar e fazer tudo de novo. Aprendi com minha mãe, quando
criança.
(Telma)
Também é comum, como forma de contornar os períodos em que a produção e a renda
caem, comprar fiado, utilizam-se da troca de serviços e produtos, entre as famílias.
_ Tem época que não dava não. Aí tinha que juntar. Por exemplo, assim
dois meses eu fazia bastante. Aí guardava para quando não tinha nada ele
cobria. Tinha um armazém ali do Antônio Leôncio, que ele comprava.
Quando conseguia alguma coisa ia lá depois e pagava né.
(Bené)
4.6.1 O tempo das Pessoas “malocadas”
As características fisiográficas e sociais da Ilha de Itaoca conferem um ritmo diferente
dos espaços mais urbanos da cidade de São Gonçalo, por exemplo. Esse ritmo é percebido,
logo que passamos a ponte de entrada pra ilha. A percepção mais se assemelha ao rural que o
188
urbano. Somente no que chamo de centro, perto do CIEP é que vemos um maior movimento
de pessoas especificamente crianças e adolescentes.
A maior parte da Ilha é silenciosa. É possível ouvir os barulhos em separado – pessoas
e bichos. Quando tem trabalho, especialmente nas rodas de siri, o clima da ilha é mais
animado. O trânsito das pessoas entre as casas é maior. É possível perceber a diferença em
relação aos períodos de menos trabalho. Quando não tem pescado.
Com a ausência do trabalho, a Ilha se torna mais triste, menos gente na rua. É o tempo
das “pessoas malocadas”. Nesse período a cronologia do tempo é lenta. As horas de ócio e
conversa de vizinhos são mais extensas. Não há pressa nem compromissos imediatos.
É um tempo que se atrela ao ecossistema natural, ao cotidiano do pescador. Não é um
tempo físico, de criação humana, um tempo implicado com os processos sociais do homem,
na relação entre indivíduo, sociedade e natureza. (Elias, 1990)
Você passa na rua tá todo mundo feliz, contente, sorridente. Tem pescaria,
agora... Todo mundo de maloca. Sair pra rua como?
(Bené)
Tá todo mundo alegre na rua, bebendo, tem dinheiro...
Quando não tem ta todo mundo triste, malocado.
(Edileuza)
Essa sazonalidade do trabalho na pesca, definida pela safra do produto, pelo defeso, é
o tempo previsível, esperado na profissão de pescador.
Entretanto, traduz-se na maioria das vezes em tempos de dificuldades, especialmente
para as mulheres descarnadeiras já que não recebem o seguro defeso. Esse direito ainda não
encontra-se regulamentado para a espécie do siri, logo é mais difícil para as descarnadeiras
receberem, mesmo estando registradas na categoria, de pescadoras.
189
O defeso em termos de concepção é uma estratégia de proteção a reprodução das
espécies, já que ele protege os indivíduos
mais jovens para chegarem a idade adulta,
perpetuando assim a espécie. Esse é o paradigma que norteia a lei, desse ponto de vista
inquestionável.
Entretanto, algumas questões são apontadas pelos pescadores e descarnadeiras e que
constituem-se em entraves para o respeito a lei do defeso. A sobrepesca, a fiscalização
ineficiente por parte do IBAMA, as práticas de desrespeito ao período por parte de alguns
pescadores. O desconhecimento por parte da população dos reais prejuízos na mistura e as
condições materiais de vida dos pescadores que alimenta as práticas predatórias. A falta de
agilidade no pagamento do seguro defeso; também é bastante sinalizada.
_ Meu irmão tava pescando em Paraty. Aí prenderam ele trazendo
caranguejo. Ele vai responder processo. Nem ele sabia que tava na época do
defeso. Ele devia saber né?
_ Antigamente o IBAMA não ficava muito em cima.
_ A gente morava aqui nem sabia que era proibido nunca ninguém falou.
_ Nós até devia saber que não pode pegar na desova. Mas... sobrevive
daquilo. Não tem como ganhar dinheiro. Não tem estudo. Tinha que ter
assim sem dinheiro ou outra coisa pra fazer.
(Chana)
Chana fala de sua situação familiar e que atinge também outras famílias. Os que
possuem outras estratégias e alternativas, conseguem atravessar esse período com menos
dificuldades. Como dizem: “comprando fiado pra pagar depois”
190
4.7 O trabalho morto - buscando romper como ciclo transgeracional da pobreza
A desvalorização do profissional da pesca é bastante pontuada nos processos de
entrevista.por conseguinte, as ocupações voltadas para as atividades na pesca artesanal não
são tidas como objetivo para os filhos, e sim um destino que,se puder, deve ser evitado; esse
não parece ser um projeto de vida para os mais jovens. Mesmo as famílias mais tradicionais
de pescadores da ilha, como os informantes, não deixam de apontar o desvalor do trabalho,
ainda que muitas tenham vivido e criado os filhos com o trabalho na pesca.
Pegava, trabalhava no mangue. Nunca nóis se empreguemo; nunca ele
deixou nóis se empregá. Trabalhava todo mundo no mangue com minha
mãe, panhava caranguejo, siri, não, tinha muito, mas só panhava pra
comer. Naquele tempo não tinha que trabalhá. Trabalhava também
barqueando lenha no mangue; casei; meu marido era pescador. Naquele
tempo dava muito camarão. Nóis vivia bem. Depois que deu aquela coisa
no mar... derramou óleo. Então! Foi o que acabou o peixe e o camarão.
Dava; se dava pra viver! Olha que dava. Ele comprou os terreno tudo aí.
Entretanto, as filhas e o neto de D. Semirami não querem que seus filhos sigam essa
profissão, embora tenham crescido e trabalhado nela:
_ Olha, eu saí pro trabalho desde os sete anos. Ganhei espírito de
pescadora; papai botou todo mundo na pescaria. Aí hoje em dia o Mário
aprendeu com ele, eu aprendi, os sobrinhos aprenderam. Todo mundo
aprendeu com ele; seguiram a mesma profissão: tecer rede e pescar. A
gente só saia fora de pescaria quando não tinha nada pra pescar. Tem
época que fica brabo; não tem pescaria e procurava um serviço pra podê
ganhá o sustento da casa. Porque a pescaria ta mudada mesmo... dando um
dinheiro bom a pescaria volta. Aí, caia na pescaria; aí ficava na pescaria
até ficar ruim de novo. Com siri a gente trabalha desde o Seu Renato;
191
quando tem é um bom serviço; quando não tem, não tem nada. É um
serviço difícil de viver. Não dá pra apostar.
(Bené)
A incerteza no ganho faz com que elas não vejam como aposta de trabalho para os
filhos. A sazonalidade da atividade pesqueira,ligada aos períodos de reprodução de espécies
(defeso) também é outro fator que gera instabilidade na renda familiar,como já citamos.
_ Eu não passo pras minhas filhas porque eu vejo a dificuldade que eu
passo. Então eu não quero que elas passem a mesma dificuldade; quero pra
elas uma coisa melhor.
_ A mesma coisa eu também digo. A dificuldade é muito grande. É como
agora. É como agora... Quando tem nóis tamo bem; quando não tem...
_ Não é aquele negócio; se tivesse serviço direto, trabalho direto era bom.
Agora não tem nada, não tem peixe, não tem siri, não tem camarão, não
tem nada. Coisa melhor pros filhos é estudar... é procurar serviço. Serviço
melhor que esse negócio de pescaria.
_ Que ganhe um salário razoável, mais certo todo mês. Que como os pais
né?... Um mês tem X e outro não tem nada.
(Carla, Alice)
_ Se eu puder tirar meus filhos da pescaria eu tiro... a gente atua na Baía
de Guanabara... eu tô vendo, eu tenho certeza que a Baía de Guanabara
daqui a 20 anos não vai ter condição de matar nada, de pescar nada. A
Baía de Guanabara vai ser um rio Tietê lá perto da rodoviária; não ter
nada, nada, nada entendeu? Então, porque eu vou botar meus filhos numa
coisa que já ta morta? É melhor trabalhar de gari, motorista de ônibus, de
táxi, do que ir pra pesca... Eu to na pesca desde os 8 anos. De pai, de mãe,
de avó, de tudo. Só que já tive que sair, trabalhar em outra coisa. Estudei;
sou torneiro mecânico, voltei pra pesca porque é o que gosto.
(Cláudio)
Na família de Ivonete os filhos passaram pela pesca, mas optaram por outras
profissões:
192
_ Meu pai era pescador. Aí essa coisa com a gente começou tudo em casa;
no começo era fazendo rede. Ah! Eu era novinha, eu era criança ainda, uns
nove anos por aí, mas a minha vida sempre foi tumultuada. Siri daqui,
caranguejo dali. Aí me casei; meu marido, muito do preguiçoso, só ia no
mangue se eu fosse junto... aí eu ia lá, cavava buraco pra arrancar o
caranguejo, armava o laço pra pegar o caranguejo. Se não eu não criava
os meus filhos. Aí voltava para o siri de novo. Aí, depois que eu separei
dele, continuei minha vida de siri. Às vezes, largava o siri e ia pra casa de
família, não dá pra viver, eu tenho que fazer bico. Naquela época era mais
fácil. Eu pegava de madrugada e ia o dia todo. Era o dia todo escarnando
siri; o dinheiro é pouco, não dá pra nada.
_ Quando os filhos eram crianças ajudavam. Hoje cada um tem uma
profissão, um trabalho no Rio, outra tem o salão dela. A mais nova ta
fazendo um serviço aí.
Ninguém segue essa profissão; é muito difícil; uma vida muito sacrificada.
Aí cada qual segue seu caminho e vai em frente. Nunca deu pra trabalhar
só no siri. Não... meus filhos não... não quero.
(Ivonete)
A passagem da filha de Ivonete pelo trabalho no siri durou um curto período. Ela
preferiu trabalhar fora da Ilha logo aos 13 anos. Retornava em momentos de crise ao trabalho
no siri, mas não o assume como profissão.
_ Teve essa época aí; eu lembro também. Eu tirava bastante siri, quando eu
engravidei da minha filha, eu tinha 16 anos que eu morava com a minha
mãe, eu tirava bastante siri. Eu trabalhava no siri, lavava roupa, faxina.
Meu pai era pescador também. Eu não quis seguir. Eu acho uma coisa
muito sacrificada. Tem que sair de madrugada pra pescar, um dia tem,
outro não tem. Uma coisa muito instável. E escarnadeira... ficar sentada
ali, presa, tirando siri, a mão fica toda... mau cheiro. Só necessidade
mesmo; é uma profissão muito difícil. Você podendo ser outra coisa é
melhor.
193
Eu não quis. Se for preciso eu até faço... por necessidade, mas não porque
eu quero. Eu trabalhei de babá; eu ficava lá, só vinha no final de semana.
Eu era novinha. Eu fiz curso com 13 anos; eu já cortava o cabelo dos
vizinhos, dos irmãos. As pessoas incentivavam. Aí quando eu casei, eu
comecei a fazer o curso. Ele me ajudou a pagar o curso, pouquinho. Aí
comecei a trabalhar: cortar o cabelo lá na varanda da minha sogra. Aí foi
que eu construí um salão lá onde morei; hoje eu tenho esse aqui.
(Juliana)
Para os filhos ela também deseja outro destino. Em relação a sua mãe considera a sua
profissão mais vantajosa.
_ Eu acho que melhorei; acho que o meu padrão de vida é pouco ainda.
Sozinha, três filhos; eles estudam; é difícil. Queria um emprego fixo, com
um salário certo, carteira. Mas meus filhos não pescam; se precisar, até vai.
Eu não quero.
_ Eu melhorei. Nunca passei fome não. Só passava necessidade. Um dia não
tinha feijão; um dia não tinha arroz, um dia não tinha carne, mas passar
fome não, eu não lembro. Eu tenho esse salão aqui; amanhã pode ser um
comércio. E minha mãe nunca teve nada no siri.
(Juliana)
A diminuição do território de trabalho, em conseqüência da poluição ambiental e das
questões estruturais da pesca no Brasil, tem afastado as populações mais jovens desta
profissão, especialmente nas áreas onde as condições de vida e trabalho encontram-se
degradadas, como Itaoca; a opção de ser pescador é cada vez mais rechaçada pelas famílias,
que optam pela escolarização ou outras ocupações. No caso do trabalho no beneficiamento do
siri, as mães acham que não vale a pena sacrificar a escola por tão pouco.
_ Então pra você viver, botar toda família investindo nisso não dá. Nunca
deu. Eu tirava, na época eu era menor. Eu tirava pra mim, pra comprar
minhas coisas. Eu passei a ajudar em casa depois que eu arranjei esse
marido aí... aí tem que ter outra atividade. Eu trabalhava em casa de
194
família, lá em Laranjeiras, no Rio. Trabalho num restaurante lá em São
Gonçalo. Eu tiro siri de segunda a sexta, até cinco horas; depois disso eu
saio, tomo meu banho e vou pro meu serviço. Eu trabalho num restaurante
à noite de sexta e sábado. Meu marido pesca siri. Tem vez que vai, não
pega quase nada. Eu não deixo eles tirar... siri não. Porque vê minha filha
essa daí... se ele se envolver com esse negócio de siri, isso ´perde muito
tempo. Ela estuda; então, na época de prova, se ele pegar compromisso
com esse negócio não vai estudar. Ela não tem lá grande cabeça; pra tirar
nota boa, tem que estudar, ela não tira nota ruim não, mas também não é
boa. A maior eu deixo; ela adora comprar roupa nova todo mês; então, ela
tem que trabalhar. A vida que eu levo to rica. Já passei muita fome. A gente
comia mamão verde com água e sal; não tinha nem banha. Eu me viro no
avesso hoje, mas consigo o que quero. Mas só o siri?... Só se melhorar!
Depois do derramamento quebrou. Não deu conforme dava.
(Telma)
Na família do Sr Juca, pescador já falecido, um dos primeiros a trazer a extração da
carne de siri para a ilha, a história não é diferente. As filhas tentam viver da extração da carne
e um dos filhos já tentou diferentes alternativas de trabalho, mas pelo desemprego estrutural,
acabou voltando. Embora duas delas não tenham filhos, não acham que o trabalho na pesca
seja um projeto viável. Entretanto não vêem alternativas. Dão um valor ao trabalho no sentido
de uma atividade que deveria gerar uma renda que permitisse uma vida mais digna.
_ Eu trabalho desde os doze anos no siri. Quem começou foi o meu pai, lá
em 61. Ele criou a família assim. Eu me sustento com siri, mas... não ta
dando, ta brabo.
_ Eu também; não queria não, mas só tem isso. Ganhamos pouquíssimo, no
máximo dois reais. Tem dia que a gente vai até escurecer.
_ Quando não tem siri, tem que juntar o dinheiro. Quando ta na época, tem
que juntar pra comê quando não tive. Pra pegar outro trabalho nóis tem que
sair lá fora tem que ter indicação.
_ Meu irmão pesca siri, a carne já é dele. Aí paga só dois reais pra gente. Aí
ele vende em restaurante, mercado de peixe em São Gonçalo ou Niterói.
_ Quando venta três dias, acabou o siri. Aí não tem nada; e o caranguejo e o
siri é a única coisa que tem pra gente se virar; é o caranguejo e siri.
195
_ Não posso parar não; se parar a gente não come. Se não tive aqui vai pegá
em outro lugar: Morro Grande, Paquetá, Naquele barquinho ali, oh!
(Rosa, Maura, Edileuza )
_ Comecei a trabalhar moleque ainda, ai veio o quartel. Do quartel pra lá
arranjei outro serviço. Depois do quartel empreguei de carteira assinada.
Depois
fiquei
desempregado,
voltei
pra
pesca...
porque
fiquei
desempregado. Viver de pesca, que! Olha aí, nada. Essa semana num ganhei
um centavo. Pescador de siri, de peixe, de tudo eu pesco. Tem que correr
atrás. Essa baía aí não tem siri, tem que conseguir em Saquarema. Essa
poluição ta matando a gente aqui. Se a baía não tivesse poluída, dava. Meu
pai viveu só de pesca; criou a família toda...
(Edson)
A valorização da atividade na pesca como tradição de aprendizado familiar é
secundarizada em tempos atuais pela impossibilidade de sobrevivência daqueles que seguem
essa profissão herdada dos pais. Ao mesmo tempo a baixa escolarização e a falta de
habilitação para o exercício de outras funções no mercado de trabalho dificultando o acesso a
outros empregos. O apego a uma prática cultural de trabalho, ligada a família e ao lugar,
embora fraturada pela realidade atual, ainda constitui-se numa estratégia de resistência e
manutenção do grupo de pesca artesanal.
4.8 Trabalho doméstico – trabalho no siri – o dia-a-dia das mulheres
O trabalho exercido no espaço doméstico possibilita às mulheres exercerem também
as atividades de cuidado com a família e com a casa. Isso inclui: lavar, passar, cozinhar,
colher roupas e consertar alguns petrechos de pesca. Acordar cedo para preparar a ida dos
homens ao mar. As mulheres, especialmente aquelas que mantém a “roda de siri” em sua
própria casa, estar tirando siri e ao mesmo tempo cuidar da comida, encaminhar os filhos
menores pra escola, receber um vizinho ou providenciar uma compra pra casa.
196
Entretanto, as mulheres procuram estabelecer um tempo de permanência na roda para
não atrasarem a tarefa, pois isso implica em perda de remuneração. Desse modo a estratégia
utilizada é procurar resolver tudo no “comando”, delegando funções aos filhos ou familiares.
Solicitam também a ajuda de vizinhos para, por exemplo, olhar uma panela no fogo, buscar o
gás, passar o uniforme da escola. As que trabalham nas rodas montadas nas casas das vizinhas
em geral delegam às filhas ou parentes agregados cuidar das tarefas domésticas, enquanto
estão na roda.
As rodas acontecem em geral à tarde, já que dependem da pesca e cozimento do
produto, só depois é que os pescadores entregam as descarnadeiras. Isso facilita a organização
do trabalho doméstico.
As crianças exercem funções nas tarefas domésticas, em geral as meninas, que se
responsabilizam pelas tarefas de cuidados da casa em auxílio à mãe, avó ou tia. Começam
bem cedo, por volta dos oito, nove anos.
Aos meninos em geral são conferidas as tarefas ditas de rua. Realizar uma pequena
compra, levar um recado, apanhar o pescado na praia ou na casa de vizinhos.
“Rafaela faz a parte de arrumar a casa, limpar banheiro; Camila faz
comida, lava louça.
Patrick mais estuda. Só estudo. Porque ele é preguiçoso. Mas às vezes, a
gente pede pra ele ir comprar alguma coisa, pra comprar um pão, pra
guardar um chinelo. Essas coisinhas assim mínimas.”
(Juliana)
Também é comum delegar tarefas a um vizinho ou familiar quando vão “lá fora”, a
cidade de São Gonçalo. Esta funciona como o pólo comercial para a ilha. Como o tempo
gasto na viagem é longo, não pela distância, mas pela espera do ônibus, é comum quem vai
“lá fora” realizar tarefas para várias pessoas. Desde pequenas compras, até marcações de
consultas, entrega de documentos, etc.
197
Trabalhar no espaço doméstico ou em suas proximidades traz vantagens para as
mulheres, segundo as razões apontadas: por conciliar trabalho e tarefas domésticas; pelo
horário flexível de trabalho; pela diminuição dos gastos com passagem e vestuário.
Entretanto, as que viveram outras experiências profissionais, fora do espaço doméstico
e da moradia, avaliam a experiência de forma positiva.
_ Eu aprendi muita coisa trabalhando fora. A gente quando sai, sai pra
outro ambiente, conhece outras pessoas, a gente muda um pouco também.
(Juliana)
_ Trabalhar lá fora é bom, eu me distraio quando vou. Dá muito trabalho
lá a velha... mas eu mudo um pouco, saio disso aqui.
(Tauana)
O cotidiano para as mulheres em tempos passados era muito difícil; segundo elas, as
condições de vida eram precárias e o serviço doméstico mais difícil. Era necessário apanhar
lenha no mangue para cozinhar, puxar água do poço, lavar roupa na tina sem água encanada,
andar a pé até São Gonçalo, pois não havia ônibus. O tempo de estudo era secundarizado, e
todos necessitavam trabalhar na pescaria, dessa forma a jornada de trabalho das mulheres era
maior em termos de horário e tempo gasto nas tarefas. O número de filhos também era maior.
Não levantamos esse dado na ilha, mas em relação às nossas informantes as mais jovens, entre
30 e 40 anos, tem 2 e 3 filhos. As mais velhas, acima de 40, de 4 a 8 filhos.
4.8.1 Trabalho/ emprego/ direitos
Nos vários momentos das entrevistas e das conversas anotadas no diário, a distinção
entre o trabalho e emprego eram feitas pelos nossos informantes. Quando falavam da pesca
referiam-se ao trabalho – no siri, na pescaria, na confecção das redes e petrechos. Ao se
reportarem a outras atividades que exercem alternativas à pesca, chamam de emprego.
198
Emprego seria a situação com vínculo e carteira assinada, em outras profissões. A
pesca é relacionada ao trabalho, e às vezes ao “não emprego”.
_ (...) Aí depois casei, aí meu marido pescava. Eu descarnava siri. Depois
ele parou, arrumou emprego...(ELIS)
_ Depois do quartel, empreguei, com carteira assinada, fiquei dez anos fora
da pesca.(EDSON)
_ Aí fiz até a sétima. Ai quando não dá a gente volta pro siri. Os emprego ta
escasso, volta pro siri, mas na verdade mesmo mãe sempre cuidou da gente
foi do siri. Era o dinheiro do siri, calçava, vestia...
(Chana)
_ Pegava, trabalhava no mangue. Nunca nós se empreguemo. Nunca ela
deixou nós se empregá. Não empregava ninguém. Vamo trabalhar todo
mundo aqui. Nós trabalhava em família.
(Semirami)
_ (...) Tem uma época que fica brabo, não tem pescaria não tem nada. Aí
cada um tinha que ver alguma coisa pra comer né. As pessoas ia, saia de
pescaria e procurava um serviço, um emprego pra poder juntar o sustento da
casa.
(Bené)
Embora a natureza de trabalho na pequena pesca artesanal seja caracterizada pela
produção em unidade familiar, sem relação de vínculo – patrão/ empregado, percebi que a
instabilidade do setor e a impossibilidade de sobrevivência economia individual e coletiva,
traz uma sensação de desemprego, especialmente ao beneficiamento do siri, mesmo para
aquelas mulheres que tiram siri diariamente.
A relação do trabalho sem vínculo, sem patrão é apontada como uma coisa que gera a
liberdade do trabalhador, desse modo vantajoso, ora como algo difícil, especialmente para os
que têm família, gerando muita instabilidade. Desse modo tendem a conferir valor de
199
emprego, serviço ao trabalho fora da pesca. O trabalho no siri e visto como um biscate, um
trabalho temporário.
_ Eu tiro siri de segunda a sexta até cinco horas da tarde. Depois disso eu
saio daqui, tomo banho e vou pro meu serviço. Trabalho num restaurante
em São Gonçalo, sou cozinheira, carteira assinada... não tenho, mas meu
dinheiro vem certinho.
(Telma)
Isto se vincula também a realidade profissional do setor em relação aos direitos. As
mulheres descarnadeiras só percebem que suas carteiras e registro profissional na pesca têm
um significado e um poder de comprovação de direitos e vínculo com a profissão, quando
passam por situações limites. Um acidente que retira as possibilidades de exercício de tarefa,
necessitando de licença, ou uma gravidez, ou morte de um companheiro.
Ao recorrerem ao INSS descobrem que apesar de terem as carteiras de pescadora (da
associação local e colônia Z8 da SEAP /Ministério da agricultura ) não estão registrados junto
ao INSS ou estão com duplicidade de registro, o que confere os trâmites legais da licença,
previsão ou aposentadoria.
Em nossa pesquisa de campo percebemos que a desinformação e as confusões em
relação a validade da documentação é a principal causa das queixas e do não recebimento dos
benefícios devidos por lei. As mulheres costumam pensar que por possuírem carteira das
associações e da colônia – estão automaticamente registradas junto ao órgão de benefício, o
que não acontece.
No processo de trabalho de campo uma de nossas informantes, passar por tal situação.
Ao sofrer um sério acidente, que talvez a impossibilite de continuar exercendo a profissão de
descarnadeira. Ao recorrer à colônia de pescadores percebeu que embora possuindo todas as
carteiras necessárias, não estava registrada no INSS. Por estar em situação irregular com a
200
colônia. Z8 (inadimplente) não conseguiu que a mesma lhe desse a declaração necessária de
agilizar o registro.
Foram necessárias muitas idas ao posto do INSS para tentar resolver a situação.
Enquanto isso ela ficou sem renda, dependendo do auxílio dos filhos. Segundo o desabafo de
seu relato.
Parece que a gente não é trabalhador ta desempregado sempre. Eu
pelo menos tenho os filhos e quem não tem?
(Ivonete – diário)
4.8.2 O trabalho como processo de socialização
Como já sinalizamos, o contato com o mar e o vínculo com o trabalho, dão-se muito
cedo no contexto das comunidades ligadas à pesca artesanal. As crianças experimentam muito
cedo o contato com os ecossistemas naturais. A praia, o mangue, o caranguejo, o peixe, o siri
fazem parte da vida infantil.
O trabalho das crianças e das mulheres e adolescentes é incorporado pela mediação do
vínculo familiar, especialmente ao chefe da família. É visto como uma ajuda complementar ao
sustento da família .
_ Meu pai morreu cedo, minha mãe ficou com 14 filhos, nós tinha que
ajudar né? Era pequena ainda. Ai nos todo tinha que trabalhá. Ainda tinha
duas velha que mamãe, parente dela, cuidava. Minha mãe morreu tremendo
assim de tanto trabalhar. Eu barqueava lenha. Ela pegava caranguejo no
mangue. Casei, meu marido pescador, não deixava eu trabalhar. Ele
pescava, aí os filho foi crescendo. Eu tomando conta deles. Ai botemo tudo
pra pescar, fazer rede. Todo mundo tem que ajudá né?
(Semirami)
201
O aprendizado dá-se pelo exercício das tarefas. A capacidade de realização com
sucesso ou não das tarefas depende não só da idade, mas da capacidade de desprender energia
física; ser capaz de executar a tarefa. Para as mulheres ir ao mar pescar profissionalmente é
menos comum na ilha de Itaoca, embora existam mulheres que pescam. As atividades de cata
de caranguejo e beneficiamento da carne de siri são mais comuns às mulheres. A pesca no
barco é tarefa dos homens, desde crianças meninos e meninas aprendem cedo os ofícios da
pesca e do conserto e confecção dos petrechos. Também é na infância que se entra em contato
com os sistemas de beneficiamento do pescado. Das mulheres entrevistadas, todas iniciaram
as atividades com o beneficiamento do siri entre 8 e 15 anos. A confecção dos petrechos
(redes, puçás, espinhel) antes dos oito anos.
_ Desde a idade de 5 anos que papai pegava... ele ia dormir e dizia assim
pra gente: Oh, tem que consertar a rede. Aí nos tinha... dizia: conta as
malhas dos lados e bota resguardo. Aí a gente contava a malha e ia
pegando, claro né. Ai fazia aquele remendo na rede.
(Carla)
Nos momentos de ausência do pescado, ou períodos do defeso, as mulheres
descarnadeiras buscam alternativas de trabalho fora de Itaoca, ou mesmo em seus domicílios.
Nesse momento é necessária a ajuda de todos, inclusive das crianças.
A incorporação do trabalho na pesca de todos os membros da família, inclusive
crianças e adolescentes era uma prática comum. Hoje isso tem sido uma prática de menor
ocorrência.
Quando a mãe ou avó precisa realizar outras tarefas, para completarem a renda da
família, cabe às outras mulheres da casa assumirem um maior número de tarefas ou prestar
“ajuda” ao “serviço” que está gerando renda para a família, seja o siri, uma faxina, uma
202
costura, uma lavagem de roupa, um entralhe de rede. Nessas ocasiões os meninos também
podem ajudar.
_ (...) Filha dele não podia trabalhar fora. Ninguém trabalhava, era
só negócio de rede junto com ele e mãe. Ele pegava, entralava, e a
gente ajudando. Pegava,remendava. Todo mundo aprendeu com ele
(Bené)
As tarefas domésticas se vinculam ao trabalho no beneficiamento do siri quando este é
realizado na própria residência. A ocorrência do trabalho em unidade familiar em geral
associa mãe e filho, aumentando assim as possibilidades de renda, já que trabalham de forma
coletiva. Essa é a história de Ivonete e Juliana.
_ Eu já tive até oito lavagem de roupa pra fora. Era siri e era roupa
entendeu? Lavava, passava e entregava. Elas ajudavam. Sempre com a mão
né? Hoje tem o tanquinho, mas naquele tempo era na munheca mesmo.
Todo mundo tinha que ajudar, né?
(Ivonete)
_ Eu era pequena. Tirava siri, carregava lenha, pegava água, tudo era
muito difícil, mas a gente fazia na brincadeira. A gente não era revoltada
com essas coisas. A gente tinha que ir pegar lenha, a gente ia rindo.
Carregar água, pegava o balde e ia. A vida era difícil, né?
_ Minha mãe dependia daquele trabalho, né? Ela catava siri, lavava a
roupa pra fora, fazia faxina.
(Juliana)
No beneficiamento do siri, a tarefa conferida muitas vezes às crianças faz parte de um
aprendizado inicial de trabalho.
_ Quando a gente era criança, cuidava de tirar carne das patinhas
que a mão é menor, né! Ia aprendendo com vovó, com mamãe.
203
(Chana)
Em nosso estudo pudemos observar que a ajuda das crianças na roda de siri em tempos
atuais é cada vez mais escassa. Em geral, as mulheres que entrevistei permitem que suas
crianças fiquem nas rodas “ajudando” na extração, mas sem “responsabilidade” desse modo
não se caracterizando como trabalho infantil.
Em seus depoimentos as explicações são diversas e vão desde o discurso sobre a
importância da escola, as questões relacionadas ao direito da infância e proibições do trabalho
infantil. Também aparece a recusa das crianças em relação a realização de tarefas laborais.
Entretanto ao se referirem ao valor do aprendizado pelo trabalho, consideram que deve ser
introduzido desde a infância. Embora não apontam o trabalho na pesca necessário ao
aprendizado infantil.
4.8.3 – Criança não quer mais ajudar em casa
Para as nossas informantes, o trabalho constitui-se num aprendizado importante desde
a infância, vinculado ao compromisso com as necessidades econômicas e com os laços
familiares. É visto também como importante para o aprendizado e manutenção de valores
importantes como: responsabilidade, compromisso, obtenção de sucesso. Sinalizam, no
entanto, que nos dias atuais os filhos não aceitam com tranqüilidade a tarefa de ajudar a
família, nem mesmo nas tarefas domésticas.
Atribuem a isso vários fatores, que vão desde a mudança no comportamento dos
jovens e crianças, mudanças nos padrões de consumo, transformações em relação aos direitos
da infância:
204
_ Hoje não, ninguém trabalha... não querem! São muito preguiçosas.
Minha sobrinha aqui mesmo tem uma filha, ela tá com um corpão.
Onze anos, não bota pra fazer nada, nada. Também os pais que não
ensinaram né?
(Ivonete)
_ Olha, eu acho que tem que trabalhar sim. Não assim explorar o
trabalho do menor, mas tem que dar tarefas pra poder aprender, pra
ter responsabilidade. Porque criança que não tem responsabilidade
quando é pequeno vai crescendo assim, depois não liga pras coisas.
Acha que a gente tem que lutar pra conseguir as coisas... pra gente
poder dar valor.
_ Hoje a gente pede qualquer coisa e eles reclamam, botam
dificuldade em tudo. Há anos atrás era bem mais difícil as coisas, a
gente não tinha nada e era criança feliz. Até mesmo o trabalho era
brincadeira... hoje em dia eu compro lá... é xampu, é biscoito, não
gostam de coisa ruim não. Tem que ser coisa de marca... nunca estão
satisfeitos.
(Juliana)
Sinalizam avanços em relação aos direitos da infância, e ao exercício da escolha e do
acesso a outras tarefas não laborais, voltadas para a formação ou recreação.
_ A infância melhorou bastante, antes não tinha infância, eu não tive. Era
trabalho. Por isso que eu digo a você... a vida que os meus filhos têm agora
eu não tive. Meu filho faz curso, a outra faz inglês. Então eu acho que
agora eles estão muito bem.
_ Foi evolução em geral da família, da criança, com coisa do Estado,
porque o Estado ajudou.
(Telma)
Avaliam que houve uma mudança nos padrões de consumo das famílias,
diversificando as oportunidades de escolha por parte aos filhos. Vivências essas que elas não
205
tiveram em sua infância. Quase todas as observações em relação aos itens de escolha das
crianças e adolescentes referem-se às demandas da chamada cesta básica. Essas observações e
o conteúdo dos relatos apontam para as dificuldades materiais porque passavam as famílias,
ocasionando necessidades na ordem da sobrevivência imediata e de seus próprios valores
culturais.
_ Antes quando você ia no mercado você comprava um biscoito a criança
fazia uma festa, porque era difícil você comprar um biscoito pro seu filho
comer. Agora... eles escolhem o biscoito que gostam.
_ Nem todos podem. Só ta podendo quem tem salário, mas tem escolha.
_ Criança antigamente não comia iogurte, não comia queijo, manteiga, era
só aquela claybon. Vendida em grama. Agora é só qualy. Não querem
qualquer coisa.
_ Por isso que eu digo, as coisas melhorou, apesar de tudo.
_ Galinha era só no almoço de domingo e olhe lá. Quando era criança isso
era festa.
(Telma)
_ No meu tempo a gente não tinha muita coisa não. Minha mãe não
comprava absorvente, xampu essas coisas. Hoje eu dou de tudo e reclamam
de tudo.
(Juliana)
_ Dava pra criar os filhos... trabalhando todo dia né. Não é dizer a você
que tem aquela vida boa, que come do bom e do melhor. Que tem fruta, que
tem leite. Não tem. É feijão, arroz, um pedacinho de carne de vez em
quando. Mais é ovo, lingüiça, coisa barata né... um peixinho que a gente
ganhava na praia... hoje, outra coisa. Hoje eles têm tudo.
(Ivonete)
Apesar de atribuir a um valor às atividades de trabalho relacionadas a um aprendizado
de vida, de incorporação de hábitos e disciplina, valores esses que representam as construções
históricas e ideológicas acerca do trabalho para as populações pobres (RIZZINI, IRMA e
206
HOLANDA, 1996; SARTI, 2000), ainda assim não concordam com o trabalho que interfere
no processo de escolarização, mencionando sempre suas próprias vivências de infância.
A natureza do trabalho na pesca e que pressupõe uma produção em unidade familiar,
incorporando diversos membros da família, inclusive as crianças é cada vez menos comum
para as famílias. Segundo seus relatos, porque os jovens “querem outras coisas”, e porque a
pesca como trabalho não está valendo a pena, como projeto futuro de emprego.
As discussões sobre trabalho/pobreza e estilo de vida das populações jovens, embora
não sejam objetos de aprofundamento em nosso estudo, devem, porém ser sinalizadas.
Segundo MADEIRA (1997) a relação tão direta entre trabalho e pobreza não explica, por
exemplo, os padrões de comportamentos em relação a novos hábitos e padrões de consumo
dos jovens. Esses, muitas vezes, são a causa principal do ingresso no mercado de trabalho, e
não a sobrevivência imediata da família. As oportunidades de trabalho e não simples desejo
ou necessidades de trabalhar também devem ser analisados. O desejo de seguir uma profissão,
e não outra pode passar pelos padrões de consumo e busca de status, mais do que pela
tradição familiar ou pelas dificuldades imediatas de sobrevivência.
E isso na verdade não é um comportamento ou discurso apenas do jovem. As famílias
também incentivam o imaginário simbólico em termos de uma profissão de maior status
social para seus filhos, ligadas a outros universos de trabalho.Além da tradição familiar.
A infância aqui não é sinalizada como uma exata demarcação de período etário. É
vista na relação mãe/filho. Desse modo os filhos adolescentes estão inclusos na categoria de
infância. Quando as mulheres se reportam as suas memórias de infância isso também
acontece. Nas entrevistas muitas vezes ao relatarem um fato de infância, quando eu
perguntava o período de vida, a idade, os fatos podiam ter acontecido aos sete, aos dez ou aos
15/16 anos, era tudo caracterizado como tempo de infância.
207
4.8 trabalho como responsabilidade precoce atrapalha a escola e a infância
Todas as mulheres entrevistadas começaram a trabalhar desde criança ou no início da
adolescência (entre 8 e 15 anos). Algumas no trabalho na unidade familiar, com os pais,
vizinhos, parentes na pescaria ou na confecção de petrechos, cata do caranguejo. Outras como
domésticas, babás, cozinheiras, alternando às vezes com as atividades na pesca.
_ É porque antigamente, na época que eu comecei a tirar siri, nos meus 9
anos, muita criança assim da minha idade, nove, oito anos, tirava muito
siri. Porque tinha um moço lá em Itaoca, seu Renato, sinhô, ele ia lá em
Magé, na Kombi, buscar o siri.
(Telma)
_ Eu tava com treze anos. Meu irmão era cozinheiro de um restaurante lá
em Paquetá e eu trabalhava na casa do pessoal do restaurante tomando
conta de uma criança.
(Tauana)
_ Ah! Eu era novinha, eu era uma criança ainda. Eu tinha uns nove anos,
por aí. Eu trabalhava no mangue. Depois veio o siri. Quando eu largava o
siri trabalhava em casa de família.
(Ivonete)
_ Agora as crianças têm mais oportunidade de brincar. Porque agora a
situação que a gente vive agora dá mais espaço, pelo menos aqui no Estado
do Rio, porque aí pra fora, você vê aí pro Norte, aí pra cima você vê
criança trabalhando em carvoaria, em horta.
(Telma)
O trabalho como aprendizagem socializadora na infância, especialmente no universo
familiar é aceito. Entretanto, com responsabilidade relacionada à necessidade de
sobrevivência da família, é questionado. Especialmente em relação aos prejuízos ao processo
208
de escolarização. É visto como uma situação difícil vivida por elas na infância e que lhes
trouxe uma herança de pouca escolaridade.
A maioria interrompeu o processo de escolarização pelas dificuldades de conciliar
trabalho e escola premidas pelas necessidades materiais, que lhes obrigou a ingressarem cedo
no trabalho. Um trabalho descrito como precarizado e árduo para muitas dessas crianças, hoje
mães, tias, avós.
_ Eu repetia muito sabe por quê? Porque às vezes tinha dia que não dava
para ir não. E o dia que não tinha merenda eu não queria ir, porque eu via
os outros comer, eu não comia, eu não ia, só ia quando tinha merenda.
_ É eu só fui mesmo pra mim aprender a ler e escrever e pronto. Aí não
quis mais nada. Também não dava. Eu tinha que me manter. Eu tinha que
fazer alguma coisa. Porque eu sempre gostei de andar bem vestida, quando
eu saio eu gosto de um perfume, que eu adoro. Então desde pequena que eu
sempre gosto disso. Então, pra mim ter isso eu tinha que trabalhar, porque
a minha família não tinha condições.
_ Esse tipo de coisa. Por isso que eu digo a você, involuiu muito, cara,
muito, muito, muito mesmo cara. O que eu passei eu não quero que meus
filho passa não. Eu não quero de jeito nenhum. Nem meus filhos nem filho
de ninguém. Nem filho de ninguém eu não quero. É muito triste a pessoa
passar fome. Você querer um copo de leite e não ter...
(Telma)
_ Na época não dava não porque aí minha mãe, tava trabalhando e
colocava a gente. Mas depois que a gente chegou a uma idadezinha a gente
começou a trabalhar pra ajudar também. Aí trabalhava em casa de família,
essas coisas. Meu irmão trabalhava como jardineiro pra ajudar entendeu?
_ Aí eu comecei a trabalhar em casa de família, parei os estudos... parei
aqui na terceira. Mas no rio ainda continuei estudando ainda, ate a sétima.
Eu comecei a trabalhar no rio e fui morar com um pessoal no Rio.
(Chana)
Consideram que ter um projeto de vida ligado à busca de maior escolarização e um emprego
fixo é melhor do que trabalhar precocemente na pesca. Entre o trabalho e a escola preferem a escola.
209
Consideram o processo de escolarização desde a infância um projeto mais interessante que o trabalho
precoce ou precarizado. Assumem como responsabilidade e projeto das famílias manterem os filhos na
escola, mesmo que as custas de uma maior jornada de trabalho para os pais ou de “apertos” no
orçamento doméstico.
_ Claro que é a escola. Porque a escola a criança com três anos vai direto
na? Quando chegar a 18 anos, é gente no meio do povo. E o trabalho?
Trabalho se vai hoje, trabalhar, chega lá não dá certo, se volta pra trás. E
a escola não. Escola é escola. E eu não sei lê. Não sei lê, não sei escrever.
Mas minha mãe pagava 5 mil réis, cada uma cabeça de criança pra
estudar.
(Semirami)
_ É estudar... e procurar um serviço. Serviço melhor que esse negócio de
precária. Que ganhe um salário certo todo mês.
(Bené)
_ Enquanto eu puder não vou deixar eles trabalhar. Ele trabalha assim, em
casa. Tirando siri, aquela coisa, mas o resto eu agüento.
_ Porque eu quero que ela termine o estudo. Depois que ela terminar...
porque dinheiro para ela fazer faculdade eu não vou ter. Faculdade hoje é
muita coisa entendeu? Eu não vou ter, mas pelo menos pré-vestibular eu
quero que ela faz, porque fazendo o pré-vestibular já tem mais chance de
arrumar um serviço melhor. Ela já botou muito currículum por aí, só que
não deu sorte ainda de conseguir né. Porque ela é inteligente.
(Telma)
A escola é tomada como uma instituição que preserva a infância, podendo evitar o
destino de dificuldades e baixa escolarização experimentada pelas informantes em sua
infância. Romper com a própria história passa a ser um objetivo de vida para as mulheres em
relação aos seus filhos. Por isso buscam alternativas dentro das suas possibilidades
financeiras, para o estudo dos filhos. A avaliação de que a escola local não está dando conta
de ensinar às crianças os conteúdos que elas julgam necessários, faz com que busquem-na na
210
rede particular ou escolar públicas fora da Ilha, que avaliam melhores, para seus filhos. Isso
aumenta os gastos com educação.
_ Pra mim não presta não. Não prestou mermo. Esse meu de 16 anos, ele
estudou dois anos aqui, no Brizolão, no primário, ele não aprendeu nada.
Eu tirei e botei lá no Tarcísio Bueno.
_ Olha pro primário eu não acho que melhorou não. Primário eu acho que
não melhorou não. Agora, pro ginásio ta bão, pro ginásio é bão, mas pro
primário... pra mim é zero. Porque se o primário fosse bom eu não tava
pagando particular pra minha filha.
_ Por isso que eu digo a você. Eu tiro porque... a vida que os meus filhos
têm agora, eu não tive nada disso. Meus filhos faz curso, ele tá fazendo
agora jiu-jitsu, a outra faz inglês e eu não tive nada disso. Então, eu acho
que agora eles estão muito bem.
(Telma)
Essas avaliações não chegam a questionar a proposta da escola local, mas apontam
para uma preocupação em relação aos métodos e projetos pedagógicos. Não deixam de
sinalizar a importância da existência de uma grande escola na ilha, que não só absorve mais
alunos,mas também possibilita a continuidade dos estudos para que assim desejarem.
_ Parei porque era difícil pra mim, porque ajudava a minha mãe. Era
difícil, aí falei para minha mãe que eu ia sair, ela não se importou muito.
Também pela dificuldade que tinha. Aí eu parei. Quando voltei a estudar já
estava casada, aí acabei o casamento e parei também. Voltei agora há três
anos, com três filhos. Já estou terminando o 2º grau.
_ A escola aqui era difícil. Eu estudava lá em São Gonçalo, esperava
ônibus uma hora e meia, tinha dia que não tinha ônibus. Hoje tá melhor.
(Juliana)
Voltando a tempos anteriores, além das atividades de trabalho, as condições de vida e
oferta de serviços educacionais na Ilha eram muito precários. Há mais ou menos trinta anos
atrás, período de infância de algumas entrevistadas, só existia uma escola na ilha e que não
211
oferecia além de terceira série. Estudar “lá fora” não era muito simples. Esperar o ônibus
muito tempo, ter o dinheiro da passagem. Conciliar os horários do trabalho na pesca com os
da escola não era fácil. Esta, na verdade, é uma questão no processo de escolarização da maior
parte do contingente de trabalhadores na pesca em todo o Brasil. Especialmente aquelas
situadas em regiões de difícil acesso aos centros urbanos, onde existe uma pequena oferta de
serviços educacionais.
A atividade na pesca tem características e horários incompatíveis com o cotidiano das
instituições escolares. Embora esse não seja o impedimento demarcado pelas mulheres, já que
suas atividades não obedecem aos horários da pescaria no mar. Entretanto o cotidiano familiar
obriga as mulheres a acordarem muito cedo pra ajudar nos preparos para a jornada no mar,
café, comida, roupa, conserto de alguns petrechos de pesca, além disso, no período de infância
das informantes as atividades de pesca e pequena agricultura eram atividades que envolviam
todas as famílias, imprimindo ao local um perfil com hábito menos urbanos de vida. Como já
sinalizamos até a década de 60 a região era considerada área rural68. Com uma população
muito reduzida, circunscritas a poucas famílias. Esse perfil menos urbano, não se modificou
tão rapidamente e ainda pode ser percebido em alguns pontos da ilha.
No que concerne à oferta de serviços educacionais, verificamos que, a primeira escola
pública chegou a ilha por volta dos anos 40. As mais antigas moradoras da Ilha lembram
desses tempos.
4.9 Memórias de infância / trabalho / escola
Dona Semirami (hoje com 93 anos) trabalha desde criança começou a estudar antes de
ter uma escola pública na Ilha. Estudava com uma explicadora. Embora sinalize a importância
68
Aqui não estamos conceituando urbano e rural como espaços de oposição, apenas tocamos nos modos de
vida e distribuição espacial.
212
que sua mãe dava a educação dos filhos, as concepções acerca dos processos de escolarização
das crianças, não incorporava o ingresso precoce a escola. O período de infância de Dona
Semirami são os anos 20.69 A corrente higienista era bastante forte no cotidiano escolar.
_ Naquele tempo era de nove anos, se você não tivesse nove anos ninguém
ensinava não tava na hora. Fazia mal, fazia coisa na cabeça. Eles diziam. A
professora não era entendida assim que nem você. Era, mamãe que pagava.
Fazia tudo pó nóis. Segunda, terça, quarta, quinta era estudá. Agora sexta,
sábado, domingo, era limpá as unhas, era limpá o ouvido. Isso no meu
tempo...Eu estudei com Dna Lúcia, Dna Zenil é dos tempo delas...
_ Eu barqueava lenha. Meu pai morreu mãe ficou com 14 filho, tinha que
ajudar né?
_ Eu trabalhava fazendo rede de carapuça. Carapuça é a cabeça de uma
tarrafa, onde fica o camarão. Criava caranguejo dentro da barrica. Botava
folha de goiaba, folha de mangue e lama. Botava dentro da barrica, criava
o ano todo. Vendia um tostão cada caranguejo. Não tinha siri, siri era só
pra gente comê.
(Semirami)
Lembra de como eram os métodos de ensino, centrado na autoridade do professor e no
castigo.
_ (...) Naquele tempo tinha castigo. Eu era que mais ficava de castigo.
Então botava três caroço de milho. Eu chorava. De vez em quando vinha
ela com lápis e batia na cabeça...um lápis desse tamanho preto... ela me
botava no banco dos vadio. Eu era muito levada. Quem foi que mexeu
aqui? Aí disseram: Foi Semirami. Então vai pro banco do vadio.
_ A professora batia. E mamãe dizia: primeiro é a mãe, depois a
professora. O que a professora disser tem que cumprir.
69
No período mencionado (anos 20 a 40) a maior parte da população brasileira ainda vivia nas áreas rurais.
Situação modificada a partir dos anos 50, que experimenta um acelerado processo de urbanização. O modelo
econômico que se implanta a partir da revolução de 30 e posteriormente com o desenvolvimento da
industrialização no Brasil, acarretaria novas demandas educacionais. (ROMANELLI, Otaiza de Oliveira
(1991) História da Educação no Brasil, Petrópolis: Vozes.
213
_ (...) Eu não escrevo. Com essa luta de marido, filho, você imagina! Eu
tive oito filho. Nunca mais pude escrever. Lia eu sempre consegui. Lia pra
ele (o marido). Ele lia pouco eu lia pra ensinar as crianças. Gosto de ler
jornal pra me distrai, revista que fala de televisão. Não gosto de vê
televisão, só o Nascimento70. Você vê Nascimento não? É que ele fala tudo
do INPS, eu gosto de saber.
(Semirami)
Para Dona Semirami ter passado por aqueles momentos de castigo quando criança,
não era considerado bom. Hoje segundo ela avalia que era necessário para o seu processo de
aprendizagem, já que em sua fala valoriza a disciplina e o castigo como estratégias educativas
importantes para a infância. Quanto ao trabalho acha que se deve dar mais tempo a escola,
conforme seu relato em item anterior.
A escola pública chegou na ilha, segundo relatos mais ou menos por volta dos anos 40.
Dona Zenil foi aluna dessa escola, tornando-se depois a primeira professora moradora da
comunidade a dar aula na escola. A escola só ia até a 3ª série. Funcionou direto cerca de 10
anos (1946 a 1957), sofrendo depois uma interrupção, exatamente por ocasião do casamento
de Dona Zenil que foi morar em Paquetá. Por um período a ilha ficou sem professora.
Nesse período (anos 40/50) o sistema educacional em termos distributivo encontravase sob a marca do populismo e que permitiu o estado a um esforço de levar a escola a uma
ampla camada da população. Entretanto sob o comando, em muitas regiões da barganha
política e não do direito. A esse respeito consultar a obra de Cunha (1991) o modelo de escola
da ilha seguia as características educacionais do período. Escolas unidocentes, e que perdurou,
especialmente nas áreas rurais, até a década de 80. O ensino primário e médio vão sofrer nos
períodos entre os anos 20 e 40, uma grande expansão. A taxa de escolarização de faixa etária
de 5 a 19 anos era de 9% em 1920 em 1940 pulou para 21,43%. Antes dos anos vinte mais de
90% da população escolarizável estava fora da escola (Romanelli, 1991).
70
Semirami refere-se ao jornalista Carlos Nascimento.
214
_ Minha infância não foi fácil. Meu pai era pescador minha mãe trabalhava
no mangue, cortando lenha pra vender. Eu ajudava tomando conta dos
meus sete irmãos. Também ia pro mangue fiz até a 3ª série. Fui pra escola
com sete anos. Antes não ia pra escola.
_ A gente ia pro mangue pegava muita lenha, botava nas costas. A metro ou
sardinha, sardinha era uns pedaços assim de lenha lascada. Era lenha pra
forno das padarias. Vinha um caminhão e pegava a lenha na estrada. Eu
também tirava muda de abacaxi lá no morro com minha mãe. Quando não
tinha peixe nem camarão, meu pai não tinha o que pescar, nos tinha que
ajudar.
_ Antes de ser professora eu também tirei diploma de costureira, agora eu
to lembrando...
_ Muita gente velha ai aprendeu comigo. Muito pescador.
(Zenil – diário)
A travessia da ponte, que liga a ilha do continente, na época, feita de tronco de coqueiros,
causava apreensão aos que vinham “lá de fora”, como a professora que trabalhava na escola. Não era
simples conseguir professores pra trabalharem na ilha.
_ Aí depois começaram, a procurar uma pessoa daqui, uns políticos aí...
_ Aí me apresentaram pra eles e me mandaram fazer uns testes. Passei e
fiquei trabalhando. Fiz um curso para dar aula, não me lembro o nome...
_ Era só uma sala, eu tinha que dar aula de manhã, de tarde e d enoite.
Não tinha luz. Era aquele lampião. Não tinha banheiro, era no mato
mesmo. O prédio era pra ser um butequim, sei lá...
_ Depois casei parei. Quando meu marido morreu, voltei de Paquetá,
comecei a dar aula particular. Foi abrindo outra escola e ficou mais fácil.
Antes a maioria era analfabeta. O que sabia era do trabalho.
(Zenil – diário)
Segundo os relatos da professora Zenil, a maioria de seus alunos eram trabalhadores
em atividades de pesca e pequenas plantações. O ir a escola atravessada era
por esse
cotidiano e por uma concepção de formação inicial apenas para aprender o básico de ler,
215
escrever e contar, que ajudasse na ampliação das opções de trabalho. As perspectivas
escolares eram limitadas.
O trabalho na pesca é algo que se aprende cedo, através de uma aprendizagem prática,
que se transmite através de oralidade e das vivências familiares e de vizinhança. As formas de
aprendizagem do trabalho na pesca não seguem as idades cronológicas do processo de
escolarização formal. As crianças podem aprender a pescar, antes de estarem alfabetizadas, de
acordo com seu lugar na família ou das necessidades de sobrevivência do grupo familiar. Em
alguns momentos as mudanças e ocorrências no espaço familiar definem a entrada ou não no
processo de trabalho precoce, ou na escola.
Em tempo passados, e que aparecem nas memórias de Dona Semirami e Dona Zenil, a
infância não era pensada sobre o discurso e as conquistas atuais, onde o aparato jurídico
institucional proíbe o trabalho infantil,ou fez dele um discurso negado socialmente.
Apesar de no universo cultural da pesca artesanal o trabalho constituir-se num
processo de socialização que se dá desde a infância, misturando-se aos tempos de vida infantil
e da adolescência, ainda assim as famílias sempre demonstraram uma preocupação com o
processo de escolarização dos filhos. Em tempos mais atuais o lugar reservado a escola é mais
valorizado, do que o lugar do trabalho. O valor que se confere à certificação antes da busca
por um trabalho, em relação ao ideal para os filhos é sempre sinalizado nas conversas.
Em todos os relatos pudemos registrar a importância conferida a escola em relação ao
projeto de vida dos filhos. Entendido como uma tentativa de romper com a história vivida
pelos informantes.
Os processos de universalização, democratização da escola e conquistas em relação
aos direitos das crianças e adolescentes, que ocorrem na sociedade brasileira nos últimos anos,
contribuíram para o acesso das populações mais pobres e para a mudança acerca das práticas
216
de trabalho com as crianças das camadas populares. Sem dúvida que os processos de exclusão
étnica e cultural ainda permanecem, aliadas as questões econômicas e sociais.
As redes escolares situadas nos espaços de moradia dessas populações nem sempre
valorizam ou atentam para essas questões. Outras, entretanto, buscam aliar seus conteúdos
disciplinares a situações que as crianças vivenciam no cotidiano de vida e trabalho. Em
Itaoca, a proposta pedagógica do CIEP que oferece o maio atendimento (aproximadamente
1000 alunos) busca valorizar a identidade profissional de tradição na Ilha: a pesca artesanal,
fortalecendo também a questão do espaço como um importante ecossistema.
No entanto, essa é uma proposta que não acontece na sua totalidade, pelas próprias
dificuldades que afeta a educação pública hoje no Estado; falta de professores que interfere no
tempo de aula nos e projetos desenvolvidos pela escola; ausência de recursos materiais e
didáticos para o desenvolvimento das propostas dos professores junto a comunidade.
A história de implantação do CIEP na localidade de Itaoca foi fruto da luta por
educação pública daquela população, que reivindicou através de um movimento junto com a
associação de moradores a implantação da escola.
A implantação desse serviço educacional aumentou as possibilidades de ampliação de
escolarização e de retorno à escola da população jovem e adulta. Aqui estamos falando de
possibilidades, nosso estudo não ateu-se as questões do acesso dos moradores à escola local.
Na verdade a centralidade da instituição escolar e da educação como um projeto de
vida, especialmente para as crianças, são constructos históricos, que definiram também os
modos de conceber a infância e o trabalho em diversos momentos e contextos sócio culturais.
4.10 Escola e trabalho – lugares de aprender
Segundo Enguita (1989) até o início do processo de industrialização, a maioria das
pessoas aprendiam suas tarefas laborais “fazendo-as”. No caso dos camponeses, esse
217
aprendizado dava-se na esfera doméstica, constituída por unidades econômicas quase autosuficientes. Não havia na verdade uma necessidade de recorrer a mecanismos diferentes às
instituições produtivas, embora alguns transcendessem a esfera doméstica como no caso dos
artesãos.
As transformações históricas, políticas e filosóficas, especialmente as reformas
religiosas – que vão reconhecer o poder doutrinador da escola – e a formação dos Estados
Nacionais Modernos, e suas demandas por unificação territorial e cultural, é que vão
desencadear a expansão do ensino (ENGUITA, op.cit).
Em momentos posteriores, o desenvolvimento do capitalismo, gera demandas cada
vez mais urgentes na formação, exigindo um certo domínio de conhecimentos e habilidades,
para o exercício das funções laborais.
A aprendizagem do trabalho e da vida social, cada vez mais passa a não ser aprendida
de forma direta,mas num espaço designado para essa função como a escola, por exemplo.
No que se refere à infância e seus processos de significações, socialização e
aprendizagem, apoiando-nos na pioneira obra de Áries (1985), podemos verificar que: a idéia
de infância não é algo natural, é antes uma produção histórico/social.
Alguns autores relacionam a construção do conceito de infância ao próprio projeto de
modernidade e a configuração do ideário liberal burguês (BUJES, (2002), SARMENTO
(1998), GUIRALDELLI (1997) DEL PRIORI (1999). Somente a partir do século XVI, no
ocidente é que as crianças começaram a configurar-se como objeto de maior relevância social
e política. As transformações porque passaram a família e a escola, também, influenciaram
decisivamente nos modos de conceber e tratar a infância.
A sociedade que vem configurando-se até chegar ao período chamado de modernidade
vai definir novas formas de controle e significação para as crianças e para a família,
consolidando a supremacia da instituição escolar.
218
Os lugares, antes de aprendizagem como a família, a comunidade e o trabalho, nas
suas práticas cotidianas, são aos poucos substituídos por um espaço de aprendizagem,
específico e cada vez mais descapacitado das práticas de vida e cultura dos grupos sociais.
O advento da modernidade e do entrosamento da escola como o lugar de aprender da
criança, traz na verdade uma contradição. O aprender destituído de qualificação laboral, sendo
o tempo despendido nesse fazer diário da criança no espaço escolar, considerado “não
trabalho”. Autores como Sarmento e Pinto (2000) discutem essa questão.
Para as crianças oriundas das camadas mais pobres, esse tempo é duplamente
desqualificado, já que se configura, quando não se obtém um sucesso esperado, como um
tempo perdido, que não serviu nem para o estudo, nem para o ofício.
Desse modo tanto as preocupações com a função da escola para a formação de
crianças e jovens, como a relação do aprendizado escolar com a preparação para o trabalho
são preocupações presentes para as camadas populares, e oferece-nos vários caminhos para
reflexão.
4.11 Petrechos de pesca – saberes de trabalho em Itaoca
Como vimos no decorrer do estudo, confeccionar petrechos de trabalho é uma prática
comum a quase todos os informantes. Eles também conhecem o funcionamento desses
materiais no processo de captura do pescado.
_ Eu faço puçá pro meu marido pegar siri, hoje mesmo fiz uns...
_ É uma pequena rede, uma peneira de malha com uma roda de arame de
madeira na boca. Aí bota pedaços de isopor para ajudar a ficar boiando. A
malha vai pro fundo com a isca.
(Telma)
219
_ Eu sou da pesca antiga na baía de Guanabara... pescaria de tarrafa.
Pegar camarão de tarrafa hoje praticamente não tem mais. Agora é
arrastão de cabo.
_ Arrastão de cabo é um arrastão que a gente coloca no barco ou na
canoa, quando era canoa colocava na canoa, amarrado na canoa, e
esticava um cabo enorme, sessenta, cem braça de cabo, botava uma vara,
aquele cabo amarrado numa vara ou num ferro com a fundiação e esticava
aquele cabo. Jogava o arrastão do lado e vinha puxando a canoa do lado.
Ele vem atravessado na canoa, vem no bordo, especificamente no bordo da
canoa. Você vem puxando. A pesca era assim, desse jeito. Era pesca... isso
de camarão, depois passou para tarrafa. A tarrafa era feita de linha dez, na
época era linha dez, linha de cafifa, vinte e quatro, é a mesma linha dez de
soltar cafifa, essa linha que solta cafifa. Dava verniz nela pra ela se
desligar e, o pé era de linha ursa, o pé, a parte de baixo da tarrafa, linha
ursa e passava arueira. Dava banho de arueira, da casca da arueira, para
ela durar, para demorar a estragar. E a carapuça era de linha chamada
tucum. E depois veio a industrialização da linha, monofilamento, essa linha
plástica, resíduo de petróleo e tá até hoje, mas a pesca na Baía de
Guanabara não é mais de tarrafa nem de arrastão, hoje é industrializada.
É rede de malha, arrastão de porta. O único que continua vivo continua
trabalhando são os currais. Os currais ainda continuam operando e com a
produtividade até boa.
Também têm outros:
š O caíque: barco pequeno que auxilia na pesca.
š O espinhel: confeccionando com linha de nylon, uma bacia de alumínio, bóia e
anzóis (pode ter até dois mil anzóis). Em cada grupo de anzóis (mais ou menos
30) é colocado um peso para ajudar a afundar. É utilizado para capturar uma
maior quantidade de pescado em regiões mais profundas da Baía.
š O curral: É uma espécie de armadilha para captura de peixes. É necessária muita
habilidade para construir esse sistema. Consiste em três partes: espia, sala e o
cercado. É no mercado que o peixe fica encurralado. O curral é instalado nos
220
canais no curso das marés, para que possa receber os peixes que se encaminham
para o mangue. Os pescadores que operam com esse sistema são chamados de
curralistas. Ficam nas partes mais rasas da Baía.
š A redinha: utilizada para a captura do caranguejo. É um apetrecho inventado
pelos pescadores de caranguejo. E confeccionado de sacos de nylon, desfiado,
onde se amarra nas pontas um pedaço de madeira de cada lado. Esse pedaço de
madeira ajuda enterrar a redinha na lama do mangue, na entrada dos buracos de
saída dos caranguejos. Coloca-se num dia e retorna-se no outro. Isso diminui o
tempo de espera do pescador para captura do produto e evita o contato direto com
a lama do mangue. É considerada uma técnica predatória, pois captura espécies
menores. Os pescadores, no entanto disseram que liberam as espécies menores.
Algumas práticas são questionadas, como os próprios currais, entretanto, muitas vezes os
pescadores constroem alternativas de manejo que diminuem as ações predatórias.Outras
práticas foram deixando de serem utilizadas, como, por exemplo, o uso de lenha retirada do
mangue.
221
CONSIDERAÇÕES FINAIS NA DINÂMICA DA RODA
Tendo em vista que o desenho da pesquisa não produziu hipóteses ou dados
conclusivos, tentamos, nesse momento do texto, reconstruir alguns pontos analisados à luz
dos estudos, na prática de campo e nos sentidos dados as falas de nossos informantes e
sujeitos da pesquisa.
Assim, selecionamos alguns pontos para as reflexões finais. Nem todos foram
elaborados a priori, mas emergiram na trajetória da pesquisa, e na dinâmica da roda de siri.
Alguns já vistos no decorrer do texto e que intencionalmente retornamos por considerarmos
importante as reflexões finais, são eles: como os pescadores e descarnadeiras percebem o
trabalho na pesca?
Por que não acham importante ensinarem seus filhos o trabalho na pesca?
Por que valorizam a escola como um projeto de vida mais vantajoso que o trabalho?
Que saberes são produzidos e compartilhados através das práticas de trabalho e na
relação com os ecossistemas naturais?
O que se pode construir de propostas dentro dos limites de degradação dos territórios
de vida e trabalho em Itaoca?
222
Pensamos as atividades na pesca artesanal como um conjunto de modalidades de
trabalho que envolve homens e mulheres na captura, beneficiamento e comercialização do
pescado, e aquelas que destinam-se às atividades complementares ao trabalho, como
confecção e reparo de apetrechos de pesca, manutenção e construção de barcos, e que se
realizam na comunidade de Itaoca.
Elegemos as atividades de extração da carne do siri como uma prática aglutinadora das
tarefas de homens e mulheres na pesca nessa região.
Ao buscarmos pensar o trabalho no seu sentido ontológico, na relação do homem com
a natureza e nas transformações que aí se operam para ambos, tentamos positivar o trabalho
naquilo que pode trazer de educativo, na relação entre os sujeitos no processo de produção e
reprodução da vida social e material.
Esse princípio educativo, entretanto, não se associa às práticas escolares, nem às
relações daí advindas; consideramos a escola como um espaço onde as contradições entre
cultura e conhecimento se produzem, atualizando também os sentidos do trabalho para os
sujeitos.
As práticas do fazer cotidiano, dirigidas às atividades laborais, também não geram a
dimensão educativa que aqui queremos apontar. Nossa direção pressupõe uma maior
abrangência. Segundo Frigotto (s/d):71 “A dimensão educativa deriva de uma dimensão
ontológica, ou seja, de especificidade do ser humano criar historicamente pelo trabalho suas
condições de produção de vida material, biológica, cultural, etc.” Sendo assim, o educativo
estaria focado nas práticas entre os sujeitos, no seu viver cotidiano, num determinado espaço
social e territorial e sob condições desejáveis e satisfatórias aos seres humanos.
Quando o trabalho dá-se sob condições precarizantes e sob a égide de exploração, não
pode ter um sentido educativo, nem socializador. A socialização pelo trabalho, enquanto valor
71
FRIGOTTO, Gaudêncio. (s/d) Trabalho precoce e formação: A questão de incorporação de adolescentes no
mercado de trabalho. Rio de Janeiro.
223
de uso, experimentado desde a infância, no caso de algumas profissões como a pesca, é visto
como educativo, especialmente dentro de uma concepção socialista e igualitária defendida por
teóricos como Marx, Gramsci e outros. Nesse sentido, o trabalho é algo emancipador,
necessário à reprodução da vida social e material. Na relação de partilha e ajuda aos outros
indivíduos. Distante de uma visão capitalista que produz alienação e exploração, calcada não
no valor de uso, mas no valor de troca, de produção de mercadorias.
A atividade laboral que realiza-se, por exemplo, com uma proximidade com os
ecossistemas naturais como a pesca, tem um componente de satisfação e ligação cultural forte,
não observado em profissões mais técnicas ou fabris. Evidente que isso não anula a dinâmica
econômica, política e social a que se submete também o trabalho na pesca. Já dissemos que o
pescador e não tem sua vida determinada apenas pelos ciclos da natureza. Como seres
humanos precisamos trabalhar, comer, interagir com os outros. Aprendemos isso no interior
do nosso grupo familiar, especialmente em realidades onde o fazer coletivo é algo
imprescindível à sobrevivência do grupo, como na pesca. Quando pensamos, entretanto, no
trabalho como emprego, como necessidade de sobrevivência material e obtenção de salário,
tudo se complexifica.
O trabalho na sociedade atual não se associa ao ramo da satisfação, mas da submissão
às leis do capital, às incongruências do mercado, aos modelos globais e locais de urbanização,
políticas de trabalho e renda de um dado setor da economia.
A natureza precária do trabalho na pesca, que produz uma imagem desqualificada no
imaginário social do trabalhador é produzida num contexto excludente de sociedade e não
apenas nas relações locais dos sujeitos com sua produção material de vida. Em outro sentido,
não é o ser pescador que desqualifica o sujeito e reproduz a pobreza material, é antes, um
modelo de sociedade. Uma dada condição histórica e de desenvolvimento produtivo e
tecnológico, que engendra a condição de trabalho precarizado e desqualificado no setor
224
pesqueiro. Que abrange um contingente de trabalhadores flutuantes, não ligados
tradicionalmente à profissão, mas que a ela recorre nos momentos de crise. São os que os
pescadores de Itaoca denominam de “pescadores de ocasião”.
Não se trata de desconsiderar estas questões em relação à construção histórico/social
de profissão de pescador, que entre outras coisas, não se engendra no universo de qualificação
técnica, dos aprendizados escolares, mas num aprender-fazendo, baseado na transmissão oral.
De práticas patrimoniais, menos valorizadas em relação aos conhecimentos mais tecnológicos
e científicos.
Entretanto o que constatamos em nosso estudo é que para além disso estão: a realidade
do setor pesqueiro no Brasil, que sofre pela falta de investimentos e definições políticas, que
atinge especialmente os pescadores artesanais. Um setor que emprega uma grande massa de
trabalhadores com baixa escolarização e pouca qualificação técnica. E as questões ligadas à
urbanização, novos padrões de consumo e degradação ambiental, que cada vez mais interfere
na manutenção e transmissão da cultura de trabalho na pesca.
Na Ilha de Itaoca vive uma população que se ocupa basicamente da pesca artesanal.
Mesmo aqueles que se vinculam ao trabalho formal ocupam-se em alguns momentos de
atividade pesqueiras. Ou seja, a pesca é uma fonte de renda e de alimentação para a maioria
que vive na região, mas também de manutenção de uma cultura de grupo ligado pelas práticas
de trabalho e vida familiar.
No relato de nossos informantes, o que pudemos constatar é que está cada vez mais
difícil sobreviver somente da pesca e fazer disso um projeto familiar e para os filhos. É
necessário sinalizarmos, no entanto, que em relação aos patamares de renda, o trabalho na
pesca em Itaoca nunca gerou uma situação confortável para os trabalhadores. Embora alguns
digam que no passado era melhor, os relatos de infância de alguns não confirmam essa
informação.
225
Como ouvimos diversas vezes, nos relatos informais; os mais antigos resistem por
que não sabem como viver de outra coisa que não seja a pesca. “Sou pescador de pai, de mãe,
de avô, de avó”, dizem.
Alguns passam temporadas longe do trabalho na pesca, buscam outras profissões, mas
retornam. Às vezes pelo desemprego, mas principalmente pela forte ligação de trabalho.
Para as mulheres, essa realidade tem outras nuances e contradições, já que se incluem
de forma menos profissional e sistemática no setor pesqueiro. Ou seja, assumem tarefa na
pesca, especialmente na extração de carne do siri, não como um trabalho, mas como um
“bico”. A precariedade do trabalho e a baixa remuneração auxiliam na produção da autoimagem negativa dessas trabalhadoras.
Mesmo aquelas que trabalham como descarnadeiras há mais de vinte anos não se
sentem vinculadas ao mundo da pesca, ao mundo profissional da pesca. A vinculação se dá
pela tradição familiar, pelo pertencimento a uma família tradicional de pesca da Ilha.
Observamos, entretanto, que as que participam de momentos de discussão, encontros e
reuniões do setor pesqueiro, ou seja, que tiveram alguma inserção política nesse setor
apresentam um outro discurso em relação a sua identidade profissional. Querem um
reconhecimento específico da atividade que exercem, apontam propostas para a melhoria das
condições de trabalho no siri, como uma cooperativa, por exemplo. Das nossas informantes
apenas duas têm uma participação mais sistemática no setor, como representante das
descarnadeiras de Itaoca.
Sem dúvida essa não é apenas uma realidade local, mas liga-se também a outras
questões, algumas tocadas nesse estudo e que relacionam-se às práticas de gênero
reproduzidas nesse setor de trabalho.
Entretanto, é o vínculo com a pesca que constrói a identidade e a história de vida
desses moradores, especialmente os mais antigos. Marca também o olhar sobre a paisagem
226
local e suas transformações. O conhecimento acumulado no “fazer diário”, e a relação de
pertencimento com o lugar é um traço muito forte no perfil de nossos informantes.
Mesmo não conhecendo toda a dinâmica de funcionamento do ecossistema local, seus
conhecimentos muitas vezes se equiparam às avaliações técnicas e aos laudos das pesquisas.
São sujeitos que produzem conhecimentos e proposições sobre o manejo dos recursos naturais
de sua comunidade e disputam espaços políticos nas lutas do setor pesqueiro. Definem valores
e concepções acerca do que consideram positivo e negativo no trabalho na pesca.
O trabalho na pesca
Aspectos positivos
š Contato com a natureza , com o mar
Aspectos negativos
š Não ter uma profissão valorizada socialmente
š Trabalhar perto de casa e junto da família (as š Ser mal remunerado
mulheres)
š Não ter patrão
š O baixo preço e pouco consumo do pescado
pela população
š Poder estar perto dos filhos e cuidar da casa
š Os atravessamentos na comercialização
š Manter a tradição de trabalho famíliar. .
š Falta de reconhecimento e visibilidade do
š Aprendizado desde a infãncia das práticas de
trabalho na pesca.
š A captura do produto (pescar)
trabalho feminino
š Não ter vínculo formal
š aATer dificuldade para estudar em virtude dos
horários incompatíveis escola/ trabalho
na pesca
š Condições
de
trabalho
rudimentares
na
extração da carne de siri.
š Falta de recursos para compra de equipamentos
š Ter trabalhado muito quando criança
Fonte: Dados extraídos dos relatos: entrevistas e diário. 2004/2005
227
Alguns aspectos são vistos de forma ambivalente como, por exemplo, a questão do
vínculo e de sua ausência, o trabalho precoce. Embora saibam que a pesca artesanal tem uma
característica de trabalho mais familiar, sem vínculo, ainda assim sinalizam que gostariam de
ter maiores garantias e amparo social.
Em relação ao espaço, as transformações no ecossistema local são relacionadas a
degradação do território de trabalho. Os processos de urbanização e os níveis de poluição
interferem em suas paisagens de vida e de espaço de trabalho.
As mudanças na paisagem natural da Ilha são sentidas e percebidas por eles como uma
mudança na sua própria história de vida, nas suas lembranças de infância e trabalho.
A paisagem na verdade estrutura-se no campo dos encontros dos sujeitos, do estar com
o outro. É nesse campo de percepções e afetos que se atualiza a nossa história, onde os
encontros acontecem e as coisas são produzidas para os homens estarem no mundo.
Entretanto o que se produz hoje, no espaço, é a intervenção humana, através do
processo produtivo e do desenvolvimento tecnológico, subordinado a uma ordem de
funcionalidade do capital, pouco preocupada com o humano do ambiente. (SANTOS, 2004).
A produção dos objetos artificiais da cidade que povoam as águas das praias do fundo
da baía, como Itaoca, chegam aos olhos dos informantes e inundam as praias e os mangues
dessa região.
O mangue, por exemplo, sempre foi para nossos informantes, especialmente as
mulheres, um local mais habitado por elas desde a infância, menos que a própria praia, já que
a elas cabiam as atividades realizadas nesse ecossistema, como extração de lenha e cata de
caranguejo. Olhar o mangue hoje como uma paisagem habitada por garrafas plásticas, fraldas
descartáveis, latas, etc. é para essas mulheres como olhar a destruição de suas memórias de
meninas, na relação com o ambiente e com suas antigas práticas de trabalho. Antes de irem à
escola, aprendiam sobre o seu lugar nas experiências vividas no trabalho no mangue. As
228
primeiras histórias e mitos da ilha ouvidos nos quintais das casas em geral se passavam no
mangue.
A pouca escolaridade, embora dificulte o acesso a outras profissões, não impede os(as)
pescadores(as) de dominarem seus saberes de trabalho, sobre o lugar, a paisagem, ainda que
esse aprendizado não lhes renda um reconhecimento social e condições mais dignas de
sobrevivência.
O trabalho foi uma prática introduzida desde a infância, traduziu-se num aprendizado
contraditório, que para muitos gerou uma profissão, um conhecimento; para outros, sacrificou
os sonhos de estudo, e de outras oportunidades.
O quadro II em anexo demonstra o perfil de escolaridade dos nossos informantes, que,
relacionado aos depoimentos, nos trouxe o quanto para alguns desses a escola foi um sonho
negado, embora desejado.
A maioria dos nossos informantes não concluiu o ensino fundamental, ficando entre 5ª
e 7ª séries. Apenas 3 chegaram a completar o segundo grau, sendo que dois não encontram-se
hoje desenvolvendo atividades na pesca, migraram para outras atividades que lhes permitiram
maiores ganhos. Um dos nossos informantes chegou a prestar vestibular, mas não prosseguiu
devido às necessidades de "ganhar a vida", segundo ele.
A valorização da escola para os filhos e a busca de um maior grau de escolarização
possível para eles é um projeto de quase todas as famílias. Destacam o aprendizado de
conhecimentos que ampliam o horizonte de vida além do trabalho. Questionam o
conhecimento vindo somente da prática do trabalho, já que isso não lhes rendeu um futuro
mais promissor.
Nos relatos, observamos que a incorporação das vivências e dos efeitos perversos da
pouca escolarização se expressam-se também através da defesa da escola, como um
229
mecanismo que pode impedir que os filhos reproduzam o destino do trabalho precoce e pouco
qualificado.
Foi-nos permitido constatar que, para eles, as crianças menores não devem trabalhar, e
que as maiores (a partir dos 14 anos) é possível como dizem - "tentar ganhar seu dinheirinho",
desde que isso não atrapalhe os estudos. A preferência é tentar que os filhos alcancem graus
mais elevados de escolaridade, mesmo que para isso os pais precisem fazer sacrifícios e
trabalhar mais horas, para garantirem o sustento da família.
Apontam a pouca escolarização e o não acesso a outras qualificações para o trabalho,
como a causa principal da sua baixa remuneração e poucas oportunidades no mundo e no
mercado de trabalho.
A preocupação com a inserção dos jovens no mercado de trabalho de forma mais
qualificada aparece em diversos relatos dos pais, quando explicitam suas peripécias
financeiras para custear a escola, os "cursinhos" profissionalizantes, que contribuem para uma
melhor colocação no mercado de trabalho, entretanto não aprofundemos esta questão.
A idéia, porém, de os filhos alcançarem níveis mais altos de escolaridade direcionados
à universidade, por exemplo, aparece como um limite dos sonhos. Onde aparece esta questão,
nas falas dos informantes, o discurso era de considerar esse limite como uma conseqüência
das condições materiais das famílias. Nesse sentido o arrumar uma colocação melhor no
mercado de trabalho é algo mais palatável para eles, desse modo visto como uma conquista
possível para os filhos que estudaram e se prepararem melhor.
Consideram que em épocas passadas a renda do trabalho na pesca permitia não só
sustentar a família, como a aquisição de novos materiais de pesca, embarcações, construções e
reformas das casas, ou a compra de novos terrenos no local.
Dos nossos entrevistados apenas um possui barco a motor. A maioria quando tem é a
remo, pertencente a outros membros da família.
230
Segundo o que pudemos observar, o perfil de renda de nossos entrevistados não se
encontra entre os mais baixos da ilha em relação àqueles que estão desempregados ou que não
conseguem manter um trabalho permanente na pesca. Isso, entretanto não pode ser
considerado como um dado real, já que não levantamos a fonte, foram apenas observações e
relatos. Elaboramos o quadro III em anexo a partir das declarações fornecidas pelos
entrevistados. Na verdade, declarar a renda e a escolaridade eram coisas que passavam por
dificuldades e constrangimentos. Algumas declarações foram modificadas com o tempo de
aprofundamento da relação pesquisador/informante. Ainda assim considero os dados
estimativos.
Dentre esses, os que recebem a ajuda de outros membros da família, como filhos mais
velhos, companheiros e irmãos, estão em melhores condições de vida. Em alguns casos um
único membro é responsável pelo sustento de um grupo de três a cinco pessoas. Desse modo
precisariam de uma renda maior para o sustento da família. Esse é o caso das mulheres sem
companheiros e responsáveis pelos filhos, ou que possuem pessoas desempregadas no grupo
familiar.
Por outro lado, esses ganhos são temporários, dependem do ciclo do produto. Assim,
quando toda a família se ocupa de uma única modalidade de pesca (como o siri, por exemplo),
em períodos do defeso ou de queda no preço do produto, toda a família passa por
dificuldades. Outras vezes o emprego de um deles no setor formal garante o período de "não
ganho" dos demais.
A falta de recursos e materiais adequados para desenvolver diferentes modalidades de
pesca também é outro fator que desestabiliza o orçamento doméstico.
A perda de alguns postos de trabalho que existiam nas regiões próximas, como São
Gonçalo e Niterói tem contribuído também para o agravamento da crise do trabalho na pesca
e do desemprego em Itaoca, diminuindo ainda mais os níveis de renda da população, como o
231
fechamento de várias fábricas de sardinha que empregavam parte da população de São
Gonçalo e alguns moradores de Itaoca, o término das obras de construção do Shopping Center
de São Gonçalo, entre outros.
Como a pesca é uma atividade que não exige maiores qualificações, podendo também
ser exercida de forma temporária, muitos desempregados se vinculam a esse trabalho,
buscando a região de Itaoca para capturarem o produto. Isso ocasiona um aumento do fluxo
de pescadores no local, sendo que o estoque de pescado não é suficiente, nem o mercado local
absorve tal demanda.
Como se não bastasse, o quadro de degradação da baía de Guanabara e os níveis de
poluição, causados, entre outros, pelo despejo dos dejetos e os acidentes ambientais, atinge
ainda mais o território de trabalho e vida da população da Ilha, como já visto no capítulo III.
Não foi por acaso que, em 97% das entrevistas e registros no diário, o vazamento de
óleo foi citado pelos informantes e moradores. Esse acidente não gerou apenas impactos
ambientais, mas produziu impactos na ordem afetiva, na memória do lugar e do trabalho.
Aumentou o tempo de tristeza das pessoas "malocadas", como tratamos no capítulo IV.
Como nos disse uma de nossas informantes: "Deu medo de que nunca mais tivesse
peixe e trabalho e a gente tivesse que ir embora daqui”.
Para as mulheres que trabalham como descarnadeiras de siri, a incerteza era maior. As
perdas que daí advinham, já que não possuem uma atividade caracterizada pela sua
especificidade, a maioria não tem registro. Algumas dessas pessoas, até o episódio do
derramamento do óleo (2000) não possuíam nenhum registro ou carteira profissional que
comprovasse o desempenho da atividade e assim o direito a possíveis indenizações. As
associações de pescadores locais assumiram o cadastramento e a comprovação do trabalho
das mulheres.
232
As incertezas em relação ao comprometimento da poluição ao ecossistema local e nas
espécies que produzem o próprio alimento para a população trouxeram muitas preocupações,
afetando inclusive a saúde de alguns, causando o que eles denominaram de "problemas de
nervos", de pessoas "malocadas". Afinal alguns perderam seus apetrechos de pesca do dia pra
noite.
O que podemos constatar a partir de nossas análises é que após o episódio do
derramamento de óleo, as dúvidas quanto ao viver da atividade pesqueira aumentaram. A
sensação de fragilidade dos moradores, relatadas por nossos informantes, que diante dos
avanços tecnológicos e de gestão incorreta dos mecanismos de proteção ao meio ambiente
vêm suas vidas e seu lugar de moradia afetados de forma drástica.
Entretanto, a tristeza e as perdas geraram mobilização, busca de caminhos. Outras
formas de pensar o lugar, o trabalho e os próprios direitos de cidadania.
O que constatei em alguns momentos de discussões no espaço da roda e do salão (Cap.
I), é que hoje se discute mais sobre o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável do que
antes. As escolas locais (especialmente o CIEP) implementam sempre discussões e projetos
com as crianças e adolescentes. Algumas iniciativas e projetos consolidaram-se, outras não
avançaram, mas são lembradas e mencionadas como momentos positivos para os moradores.
Desse modo, a produção de saberes e propostas sobre o meio ambiente, educação,
construções de valores de proteção à vida, assumiram uma dinâmica mais concreta para os
moradores. Trouxe novos contatos com os "lá de fora", organizaram-se grupos, gestou-se
projetos. Fez circular na roda o conhecimento sobre os ecossistemas naturais, produzidos
pelos pescadores e trazidos também pelos técnicos das instituições responsáveis. Gerou
disputas e divergências entre os laudos oficiais e as observações da população. O pagamento
de parte das indenizações pela Petrobrás aos pescadores, por exemplo, materializou para
alguns as "leis dos crimes ambientais". Fez emergirem as questões estruturais do setor
233
pesqueiro, quanto às estatísticas e perfil dos trabalhadores, quando por exemplo se
interrompeu o pagamento pela inexistência de dados confiáveis (o censo de pesca ainda está
sendo concluído).
No quadro abaixo relacionamos de forma sucinta algumas das iniciativas e eventos
que aconteceram após o derramamento, relatados pelos informantes.
Como a Ilha fica numa área de proteção ambiental, é freqüente a entrada de projetos
voltados para as questões ambientais e de geração de renda. Alguns resolvem problemas
localizados, de forma temporária, outros não têm continuidade por parte das ONGs
(Organizações Não Governamentais) responsáveis, ou, quando são de instituições públicas,
por essas instituições. Nosso levantamento foi a partir do conhecimento dos informantes e
moradores. Alguns projetos não tiveram continuidade, como o das cooperativas, por exemplo,
de descarnadeiras, outros avançaram como o Manguezarte. O quadro IV em anexo relaciona
algusn dos projetos e ações na ilha.
Nossas reflexões finais apontam assim, para a necessidade de resolução de alguns
problemas que encontram-se na ordem local e global, no campo das políticas de gestão da
crise urbana, geração de emprego e renda, educação e gestão ambiental. Ações que priorizem
as práticas e saberes acumulados pelas populações que vivem da pesca no entorno da baía de
Guanabara, como no caso da ilha de Itaoca.
Os processos de escolarização ainda validam e sustentam um conhecimento
desapartado dos grupos locais e de suas realidades social e cultural. É necessário que a escola
pública tenha condições de incentivar nas crianças as práticas que valorizam seus modos de
vida e trabalho, produzindo um conhecimento crítico e inclusivo, que articule sociedade
/natureza/homem/cultura. Desse modo, a escola em Itaoca precisa não somente de projetos
pedagógicos, mas também de recursos materiais e humanos para funcionar na sua plenitude. É
necessária a gestão de projetos de alfabetização e ensino supletivo para os pescadores com
234
horários adequados. Avaliamos que pelos relatos as tentativas têm surtido efeitos positivos,
mas faltam professores.
A política urbana de habitação, saneamento e transporte não pode negligenciar em
relação ao uso e ocupação do solo, montagem de infra-estrutura básica e destinação do lixo,
manutenção e conservação da via principal da Ilha.
Os programas voltados para a gestão ambiental não podem ter atuações episódicas,
nos momentos de crise; é preciso que sejam permanentes, especialmente na preservação do
ecossistema natural. Prevendo ações dentro de uma visão de sustentabilidade e geração de
renda, voltadas para a tradição local que é a pesca artesanal, mas gerando outras alternativas.
Incentivar o trabalho dos pescadores, catadores de caranguejo e descarnadeiras de siri
não é apenas gerar emprego, mas preservar práticas e saberes importantes para a
sobrevivência cultural desses grupos. Nesse sentido,achamos que o sistema de trabalho em
cooperativa é adequado. Entretanto necessita de uma discussão com os moradores e suas
representações locais. As experiências e iniciativas em relação as discussões e criação de
cooperativa de descarnadeiras ou outros, e que já ocorreram em Itaoca não surtiram efeitos
psotivos, pela própria falta de discussão e clareza quanto aos efeitos dessas iniciativas.
Os pescadores e descarnadeiras de Itaoca nos mostraram que resistem como podem
para viver da pesca, mas que a cada dia se deparam com seu território de vida e trabalho mais
degradado. Conseqüentemente, o trabalho na pesca vai-se tornando uma experiência negada
pelas novas gerações, que não vêem sentido na transmissão e aprendizado de um "trabalho
morto", segundo a expressão de um dos pescadores que entrevistamos.
O registro e manutenção desse saber e a sua transmissão às novas gerações, como um
projeto de vida, trabalho e construção de identidade é o que apontamos como uma das
235
possibilidades de desenvolvimento72 numa perspectiva sustentável para os pescadores e suas
famílias.
“A lua anda devagar mas atravessa o mundo”
( Mia Couto )
72
Estamos trabalhando com a concepção de desenvolvimento sustentável que abrange as dimensões
ecológicas e ambientais, demográficas, culturais, sociais e políticas.
236
BIBLIOGRAFIA
ALMEIDA, Marcia de. (org.) & REZNIK, Luiz (org.). Guia de fontes para a história de São
Gonçalo. São Gonçalo, RJ: UERJ. Laboratório de Pesquisa Histórica, 1999.
AMORIM, Marília. O pesquisador e seu outro bakhtin nas ciências humanas.Editora Musa,
São Paulo, 2001.
ARIÉS, Philippe. História social da criança e da família. Editora Guanabara, Rio de Janeiro,
1978.
ANTUNES, Ricardo. Os Sentidos do Trabalho: Ensaios sobre a afirmação e a negação do
trabalho. Boitempo Editoria. São Paulo, 2003.
ABEU, Regina & CHAGAS, Mário (orgs.). Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos.
DP&A Editora. Rio de Janeiro, 2003.
A Evolução do Trabalho Infantil no Brasil 1999 a 2001. Fórum Nacional de Prevenção e
Erradicação do Trabalho Infantil. UNICEF, Brasília, 2004.
Bases para Discussão da Regulamentação dos Instrumentos da Política de Recursos Hídricos
do Estado do Rio de Janeiro. Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento
Sustentável. Projeto Planágua. SEMAD – GTZ. Rio de Janeiro, 2001.
BICALHO, Maria Fernanda Baptista. A Cidade do Rio de Janeiro na Dinâmica Colonial
Portuguesa nos Séculos XVI e XVII. Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo –
Departamento de História, 1997.
BRITO, Soeiro Raquel de. Agricultores e Pescadores Portugueses na Cidade do Rio de
Janeiro. Ensaios e documentos. Junta de Investigação Ultramar, Lisboa,1960.
BOSI, Ecléa. O Tempo Vivo da Memória: ensaios de Psicologia Social. 2.ed.São Paulo:
Ateliê Editora. P.219, 2004.
BRODY & ARNOLD R. As Sete Maiores Descobertas Científicas da História. Cia das
Letras, São Paulo, 1999.
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina, Betrand Brasil, Rio de Janeiro, 2003.
BUJES, Maia Isabel Edelweiss. Infância e Maquinarias. Paz e Terra, São Paulo, 2000.
CAETANO, Antônio Felipe. Entre a Sombra e o Sol. A Revolta da Cachaça, a Freguesia de
São Gonçalo de Amarante e a Crise Política Fluminense. Tese de mestrado em História.
ICHIF-UFF Niterói, 2003.
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. As políticas dos outros. O cotidiano dos moradores da
periferia e o que pensam do poder e dos poderosos. Editora Brasiliense. S/A, São Paulo, 1984.
237
CARLOS, Ana Fani Alessandri. A Reprodução do Espaço Urbano.EDUSP. São Paulo, 1994.
CONFERÊNCIA SOBRE O PAPEL DA MULHER NO SETOR DA PESCA – Comissão
Européia/Janeiro 2003 – Bruxelas
Disponível em: http: //www.europeu.eu.ins/comm/fisheries
COSTA, Agenor. Dicionário de locuções da língua portuguesa. Editora Fundo de
Cultura.1967.
COUTO, Mia. Um rio chamado tempo na casa chamada terra. Cia. Das Letras, São Paulo,
2003.
CUNHA, Lucia Helena de Oliveira. Saberes patrimoniais pesqueiros. In: DIEGUES, Antônio
Carlos Sant’ana (org) Enciclopédia Caiçara. Vol. I, HUCOTEC-NUPAUB-CEC/USP São
Paulo, 2003.
CUNHA, Luiz Antônio. Educação, Estado e Democracia no Brasil. Editora Cortez: São
Paulo, 1991.
DA SILVA, J. Romão. Denominações indígenas na Toponímia Carioca. Editora Livraria
Brasiliana; Rio de Janeiro.
DEL PRIORE, Mery (org.) História das Crianças no Brasil. Contexto: São Paulo, 1999.
DIDONET, Marcos (org.). Baía de Guanabara: Programa de Revitalização Ambiental. CIMA;
Rio de Janeiro, 2001.
DIEGUES, Antônio Carlos Sant’ana. Pescadores, camoneses e trabalhadores do mar. Ática,
São Paulo, 1983.
______ILHAS E MARES: simbolismo e imaginário. São Paulo: HUCITEC. 272 p.1998.
_______ O Mito Moderno da Natureza Intocada. HUCITE, São Paulo, 2002.
DIEGUES, Antônio Carlos Sant’ana e Paulo José Nogara. O Nosso Lugar Virou Parque.
Estudo Sócio-ambiental do Saco de Mamanguá. NUPAUB/USP, Parati/RJ, 1999.
_______ Pescadores, Camponeses e Trabalhadores do Mar. Ática São Paulo, 1983.
DUARTE, Luiz Fernando Dias. As Redes do Suor – A Reprodução Social dos Trabalhadores
da Produção de Pesca em Jurujuba. EDUFF, Niterói, 1999
DOSSIÊ SÓCIO-AMBIENTA DA BAÍA DE GUANABARA. Coordenação: David Zee.
Centro internacional de desenvolvimento sustentável, escola brasileira de administração
pública. CIDS – FGV – 2000
ELIAS, Norbert (1998). Sobre o tempo. Jorge Zahar Editora, Rio de Janeiro.
238
ELIAS, Norbert e John.L. Scontson. Os Estabelecidos e o outsiders. Editora Jongezahar, Rio
de Janeiro, 2000.
ENGUITA, F. Mariano. A Face Oculta da Escola: Educação e Trabalho no Capitalismo. Artes
Médicas, Porto Alegre, 1989.
______ Seguridad alimentaria y la mujer, la unidad de esfuerzos para la igualdad, para la paz
hacia la lida en la tiera. Artículo editorial. Redes Boletin Informativo de La Mujer Rural
latiniamericana, No 6, Agosto, 1997.
FAO. Las mujeres alimentan el mundo. Cumbre mundial sobre la alimentación- Boletim
Informativo. http://www.fao.org,1996.
Estatística da Pesca 2000. Grandes Regiões e Unidades da Federação. Ministério do Meio
Ambiente/IBAMA/Cepene, Tamandaré/PE, 2002.
FONSECA, Claudia. Quando Cada Caso Não é um Caso. Pesquisa Etnográfica e Educação.
Revista Brasileira de Educação, jan/fev,mar/abr, n/10, 1999.
FRIGOTTO, Gaudênio e CIAVATTA (org.). A Experiência do Trabalho e a Educação
Básica. DP& A, Rio de Janeiro, 2002.
FRIGOTTO, Gaudêncio (s/d) Trabalho precoce e formação: A questão de incorporação de
adolescentes no mercado de trabalho.(mimeo).
______Educação e crise do trabalho: Respectivas final de século. Ed. Vozes, 2002.
FILHO, Homero Thomaz Guião Filho. História de São Gonçalo. 4 Ed. São Gonçalo, RJ.
1979.
GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. LTC, Rio de Janeiro,1989.
_______ O Saber Local. Novos Ensaios em Antropologia Interpretativa. Vozes, Petrópolis,
2003.
Geiger, P. Urbanização e industrialização na orla oriental da Baía de Guanabara. Revista
Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro, n. 04, 1956.
Gonçalves, Maria de Almeida e Reznik, Luiz (org). Guia para fontes de história de São
Gonçalo. UERJ, 1999.
GUIRALDELLI, Paulo (org.). Infância, escola e modernidade. Cortez/UPR/São PauloCuritiba, 1997.
HELLER, Agnes (1970). O Cotidiano e a História. Editora Paz e Terra, São Paulo, 1970.
IBGE. Censo Demográfico Nacional. Ed. IBGE, 1940.
IBGE. Censo Demográfico Nacional. Ed. IBGE, 2000.
239
JABLONSKI, Silvio e Silva. Levantamento de Dados da Atividade Pesqueira na Baía de
Guanabara como Subsídio para a Avaliação de Impactos Ambientais e a Gestão da Pesca.
IBAMA/FEMAR, 2002.
Jornal “O Globo” – Janeiro/março – 2005 – Série Baía de Guanabara – Natureza à Deriva.
Jornal “O São Gonçalo” – Fevereiro 2004, jan/fev/mar, 2004.
Jornal “A Tribuna” – Julho, 1998.
Jornal do Brasil – Junho, 2004.
Jornal “O Globo” - 28/05/2005
LIMA, Josinete Pereira. Pescadora e donas-de-casa: A invisibilidade do trabalho das mulheres
numa comunidade pesqueira – O caso da Baía do Sol. Dissertação de Mestrado –
Universidade Federal do Pará – Mestrado em Sociologia Belém, 2003.
LIMA, Roberto Kant e PEREIRA, Luciana Freitas. Pescadores de Itaipu. Meio Ambiente,
Conflito e Ritual no Litoral do Estado do Rio de Janeiro. EDUFF, Niterói, 1997.
MADEIRA, Felícia Reicher “Quem Mandou Nascer Mulher. Estudo sobre Crianças e
Adolescentes Pobres no Brasil”.Editora Rosa dos Tempos, UNICEFF,1997.
MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política.Apresentação. Jacob Gorender. Abril
Cultural, V. I Tomo 1, São Paulo, 1983.
MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, DOS RECURSOS HÍDRICOS E DA AMAZÔNIA
LEGAL. Primeiro Relatório Nacional para a Convenção sobre Diversidade Biologica.
Brasília, 1998.
MENDES, Emílio Garcia. Infância e Cidadania na América Latina. HUCITEC, Instituto
Ayrton Sena, São Paulo, 1998.
MOTTA, Márcia Maria M. Pelas Bandas d’ Além (Fronteira fechada e arrendatários
escravistas em uma região Policultora 1808-1888). Dissertação de Mestrado. História Instituto
de Ciências Humanas e Filosofia – UFF – Niterói, 1989.
MOTTA, Paulo César Silva da. Degradação Ambiental e Pesca da Sardinha na Baía de
Guanabara. Monografia. Escola Nacional de Ciências Estatísticas da Fundação Instituto de
Geografia e Estatística, Rio de Janeiro, 1999.
MOURA, Rosilda de Oliveira. Ilha de Itaoca: Urbanização, Degradação ou Preservação de
Área de Proteção Ambiental e Ecossistema de Manguezal. Departamento de Geografia/UERJ,
Rio de Janeiro, 2002.
NOGUEIRA, Maria Alice, Romanelli & Zago. Família Escola. Trajetórias de Escolarização
em Camadas Médias e Populares. Vozes, Petrópolis, 2000.
Os Ecossistemas e os Principais Macrovetores de Desenvolvimento. Superintendência de
Pesca para a Gestão Ambiental. Ministério do Meio Ambiente, 1999.
PALMIER, L. São Gonçalo. Cinqüentenário. História, estatística, geografia. IBGE. Rio de
Janeiro, 1940.
240
Plano Estratégico de Desenvolvimento Sustentável de Aqüicultura e Pesca. SEAP/DF, 2003.
Primeira Confêrencia Nacional de Aqüicultura e Pesca. Caderno de Resoluções. Luziânia/GO,
novembro de 2003.
RAMOS, Alcida. Pescadores Portugueses no Rio de Janeiro. Arquivo – Real Gabinete
Português de Leitura, 1958.
REZNIK, Luiz (org.). O Intelectual e a cidade. Luiz Palmier e a São Gonçalo moderna.
EDUERJ, Rio de Janeiro, 2003.
RIZZINI, Irma & Holanda. A Criança e o Adolescente no Mundo do Trabalho. Universidade
Santa Úrsula,1996.
ROMANELLI, Otaiza de Oliveira. História da Educação no Brasil (1930-1937). Editora
Vozes, Petrópolis, RJ, 1991.
SANTOS, Lourdes Brazil. Áreas Urbanas Segregadas e Cidadania da Criança. Uma Proposta
de Empoderamento. Tese de Doutorado em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia
Social – Programa EICOS/UFRJ, CFCH, Rio de Janeiro, 2003.
SANTOS, Milton. Por uma Geografia Nova. EDUSP, São Paulo, 2003.
______ A Natureza do Espaço. EDUSP. SÃO Paulo, 2004.
SARMENTO, Manuel & PINTO (coord.). As Crianças - Contextos e Entidades. Centro de
Estudos de Criança. Universidade do Minho, Sociedade Gráfica S/A, Portugal, 1997.
SARMENTO, Manuel Jacinto. Saberes Sobre as Crianças para uma Bibliografia sobre a
Infância e as Crianças em Portugal. Editora Abel Antônio Bezerra. Braga Portugal – Centro
de Estudos da Criança, 1998.
SILVA, Luiz Geraldo. A Faina, e Festa e o Rito. Uma etnografia histórica sobre as gentes do
mar (séc. XVII ao XIX). Papirus, Campinas/SP, 2001.
SARTI, Cynthia Andersen. A Família como Espelho. Estudo sobre a Moral dos Pobres.
Cortez, São Paulo, 2003.
TAVARES, Maria Tereza Goudard. Os Pequenos e a Cidade: o Papel da Escola na
Construção de uma Alfabetização Cidadã. Tese de Doutorado. Faculdade de Educação/UFRJ,
2003.
TUAN, Y-FU. Topofilia: um estudo da percepcao, atitudes e valores do meio ambiente. Ed.
DIFEL. São Paulo/Rio de Janeiro, 1980.
241
VIANNA, Oliveira. História Social da Economia Capitalista no Brasil. UFF/EDUFF, Rio de
Janeiro, 1987.
WOORTMANN, Ellen .F. Da complementariedade à dependência : a mulher e o ambiente em
comunidades “pesqueiras” do Nordeste. Série Antropologia. Editora Universidade de Brasília,
1991.
ZAGO, Carvalho & Vilela (org.). Itinerários de Pesquisa, Perspectiva em Sociologia da
Educação. DP & A, Rio de Janeiro, 2003.
242
Quadro I
GRAU DE ESCOLARIDADE DOS ENTREVISTADOS
TOTAL
1° segmento do ensino fundamental
06
2° segmento do ensino fundamental incompleto
07
Ensino médio
03
Ensino superior
0
Analfabetos
04
Total
20
Fonte: Dados obtidos através de relatos em 2003/2005
Quadro II
NÌvel de renda dos entrevistados
Até 1 salário
04
De 1 a 2 salários
11
De 2 a 5 salários
03
Desempregado
01
Não declarou
01
Fonte: Relatos e conversas informais 2004/2005
243
Quadro III
AÁı es e projetos
Projeto guardiões do mar
Geração de emprego e renda, educação ambiental
para os catadores de caranguejo
Projeto de urbanização da Praia da Luz
Construção de área de lazer e restauração do
patrimônio histórico (Capela da Luz)
Cooperativa de trabalhadores
Discussão e organização de grupos para criação
de
cooperativa
de
descarnadeira
(ITACOUPER/SIRILUX)
Cooperativa manguezarte
Educação ambiental e desenvolvimento de
trabalhos artesanais com materiais reciclados
para geração de renda (hoje já possui uma sede
local)
Recuperação do mangue "projeto replantio"
Limpeza e replantio da vegetação do mangue
Placas indicativas do patrimônio
Colocação de placas indicativas incentivando o
ecoturismo e o histórico.
Eventos de defesa do meio ambiente
("Abraço à Praia da Luz!”) (“Passeio do peixe
gigante" construído de material recolhido na
região e levado por um caíque a baía de
Guanabara.)
Fonte: Relato dos informantes e moradores - 2004/2005
244
245
Onde as reflexões sobre o tema começaram?
Mulheres, mães, crianças - catadeiras de
camarão no entreposto de pesca em Aracaju.
Foto feita por alunos do curso de pedagogia
UFS/ 2000.
246
Vista das praias
Vista da praia de São João
247
Guardando os petrechos no rancho
Olha o sacolejo... Lá vai o ônibus. Buracos na estrada, lama no caminho
248
Praia de São Gabriel
Embarcação na praia
249
Ruínas da entrada da Fazenda da Luz - patrimônio histórico/cultural
Infância - andar a cavalo na ilha.
250
Capela da Luz antes das obras de restauração
Capela da Luz depois da restauração
251
Calçadão da Praia da Luz
Centro de Itaoca - perto do CIEP- pequena criação de gado de um morador.
252
Tecendo rede de siri (puçá)
Extração da carne do siri
253
Roda de siri. Faquinha, caixote e conversa
Tirando siri na casa de Lodi.
254
Carnaval na ilha - bloco de cloves - fantasias de material reciclado pelas
crianças. “A foto que pixa o lugar”.
Infância - brincando de pegar siri
255
Infância na roda – as mães tiram siri ao fundo, enquanto as crianças
fazem sua roda de conversa
Trabalhando no mangue
256
Tem lixo na praia ... tem lixo no mangue
Um dos primeiros armazéns. “Iá, lá no Antônio Leôncio,comprava e depois
pagava.”
257
Um dos primeiros armazéns. “Iá, lá no Antônio Leôncio,comprava e depois
pagava.”
Entralhando a rede
258
Tecendo outras redes de sobrevivência (rede de campo de futebol)
Mãos de trabalho – cozendo a roupa
259
Vista da praça do jaqueiral.
Pescaria e pôr-do-sol na praia de São Gabriel
260
Voltando da ilha de Paquetá - do trabalho ou das compras.
Estação da barca - Praia das Caieiras.
Embarcações de pescadores
261
Vista da Praia da Luz
Estrada central que corta toda ilha
262
Tecendo apetrechos de pesca - puça
Conversas e trabalho no salão
263
Download

partilhando saberes na ilha de itaoca