O DEBATE SOBRE O ENSINO DAS CIÊNCIAS NA CRIAÇÃO DA ESCOLA
PÚBLICA NO BRASIL
Maria Angélica Olivo Francisco Lucas1
Maria Cristina Gomes Machado2
Universidade Estadual de Maringá
O século XIX iniciou o debate sobre o conteúdo que a escola, então pública, laica,
gratuita e obrigatória, deveria transmitir aos seus alunos. Rui Barbosa (1849 – 1923)
participou ativamente deste debate, no Brasil, contribuindo para divulgar as idéias sobre a
necessidade de dar primazia ao ensino de ciências no interior do processo educativo. Este
intelectual deixou transparecer o seu entusiasmo pelo ensino das ciências nos seus famosos
pareceres: Reforma do Ensino Secundário e Superior – 1882 (Barbosa, 1942) e a Reforma do
Ensino Primário e Várias Instituições Complementares da Instrução Pública – 1883 (Idem,
1947), documentos estes que, pela sua importância, consistem na memória viva do
pensamento deste autor sobre os problemas educacionais de seu tempo. Nestes textos, Rui
Barbosa, escreveu que o princípio vital da organização do sistema educacional seria a
introdução do ensino das ciências, desde o jardim de infância até o ensino superior. As
ciências consistiam no eixo fundamental da reforma defendida por Rui, pois este considerava
o aprendizado desta matéria primordial para o homem desfrutar dos progressos da sociedade.
Para preparar este homem para a vida moderna fazia-se necessário um ensino totalmente
diferente do ministrado nas escolas de então, pois estas se preocupavam apenas com o
catecismo, com a memorização e com a retórica.
Para Rui Barbosa era preciso privilegiar novos conteúdos, como ginástica, música,
canto e, principalmente, o ensino das ciências. Esses novos conteúdos, associados aos
conteúdos tradicionais, deveriam ser ministrados de forma a desenvolver no aluno o gosto pelo
estudo e sua aplicação. Para tanto, o método que guiaria este aprendizado basear-se-ia na
1
Professora do Departamento de Teoria e Prática da Educação da Universidade Estadual de Maringá.
Endereço para correspondência: Av. Maria Gaspar Pedrosa Moleirinho, 334, Jardim Novo Horizonte,
Maringá, Pr., Brasil, Cep. 87005-280. E maill: [email protected].
2
Professora do Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Estadual de Maringá. Endereço
para correspondência: Rua São João, 117, apto. 902, Vila Sete, Maringá, Pr., Brasil, Cep. 87030-200. E maill:
[email protected].
observação e na experimentação, procurando cultivar os sentidos e o entendimento.
Recomendava, portanto, a adoção do método intuitivo. Para o autor em estudo, essas
mudanças no sistema de ensino eram fundamentais para tornar o Brasil uma nação civilizada.
Neste sentido, a escola a ser difundida deveria estar voltada para a vida e carregada de
conteúdos científicos visando a formação do trabalhador e do cidadão.
A introdução de novos conteúdos escolares exigiu uma ampla defesa das ciências
frente à sociedade, uma vez que nenhuma reforma se faz naturalmente. Neste sentido, Rui
Barbosa criticou enfaticamente a valorização de conhecimentos considerados inúteis para as
novas necessidades sociais. Para ele, os conteúdos ofertados pela escola apenas adornavam o
aluno com informações a serem repetidas nos salões. Ignorava-se que a educação e a
disseminação das ciências poderiam trazer muitos benefícios para a sociedade. Na defesa
desse ensino utiliza-se de autores consagrados para reforçar seus argumentos, como, por
exemplo, de Herbert Spencer. Pela influência que este autor exerceu no pensamento de Rui
Barbosa apresentar-se-á, na primeira parte desse texto, suas idéias principais. Na segunda
parte, apresentar-se-á a defesa de Rui Barbosa para a organização dos Sistemas Nacionais de
Ensino e a supremacia do ensino das ciências como conteúdo escolar.
1- A defesa de Herbert Spencer acerca do ensino das ciências
A preocupação com a introdução do ensino das ciências nos currículos escolares não
é uma opinião particular de Rui Barbosa. As conquistas obtidas no processo produtivo, a
partir da revolução tecnológica que permitiu a automação do trabalho, revelavam que a
ciência tornava-se palavra de ordem para a modernização, por isso, muitos autores fizeram a
sua defesa. Pode-se destacar aqui a contribuição de Herbert Spencer (1820 – 1893) por
difundir a necessidade do ensino das ciências por vários pontos do globo terrestre. Seus
textos ecoaram no Brasil tendo encontrado em Rui Barbosa um de seus mais vorazes
divulgadores. Em seu mais conhecido livro, Educação Intellectual, Moral e Physica,
publicado em 1861, além de fazer sérias críticas ao ensino clássico, Spencer faz a defesa
intransigente dos conhecimentos úteis, como aqueles que formam o homem de negócios e
produzem o bem estar pessoal. Nele Spencer define qual conteúdo a escola deveria veicular:
as ciências. Elas constituem-se em, segundo Spencer, uma categoria de conhecimentos que
permite a realização das atividades que torna possível a vida civilizada.3
Para esse autor inglês, como não é possível estudar tudo o que a humanidade já
conheceu, torna-se necessário estabelecer quais são os conhecimentos mais valiosos, uma vez
que o homem não pode perder tempo com estudos inúteis, diz ele. Assim, revela sua face
utilitarista ao destacar o valor do conhecimento científico como guia de vida, respondendo à
pergunta que inicia o livro aqui referido: Quais são os conhecimentos de maior valor?
Para a directa conservação própria, para a conservação da vida e da
saúde o conhecimento mais importante é a Sciencia. Para a indirecta
conservação própria, o que se chama ganhar a vida, o conhecimento de
maior valor é a Sciencia. Para o justo desempenho das funções de familia
o guia mais proprio só se encontra na - Sciencia. Para a interpretação da
vida nacional, no passado e no presente, sem a qual o cidadão não póde
justamente regularizar o seu procedimento, a chave indispensável é a
Sciencia, e para os fins da disciplina intellectual, moral e religiosa - o
estudo mais efficaz é, ainda uma vez, a Sciencia.. (Spencer, 1927, p. 67)
Para Spencer, por exemplo, é útil conhecer as verdades gerais sobre a saúde humana e
sua aplicação na vida diária, para assim evitar acidentes, costumes desregrados e até a morte.
São úteis, também, os conhecimentos necessários para o homem desempenhar suas funções de
cidadão. Para tanto, deve receber um ensino que tenha valor prático, considerando-se as
generalizações da Biologia e da Psicologia. O conhecimento dos princípios gerais destas duas
ciências é também considerado indispensável para a educação das crianças por parte dos pais e
da escola.
São muitos os argumentos utilizados por Spencer para mostrar como a ciência é
também necessária para o bom êxito das atividades industriais. Eis alguns: a Matemática
preside todas as atividades industriais; o carpinteiro, o construtor de pontes, o agrimensor, o
arquiteto, o pedreiro precisam da Geometria; da Mecânica depende o sucesso das manufaturas
modernas; a Física ajuda a poupar combustível nas indústrias e aumentar a produção; a
Química tem inúmeras aplicações; a Astronomia é necessária na navegação; a Biologia está
3
Para maior compreensão do pensamento desse autor recomenda-se a leitura da dissertação “O debate entre
utilitaristas e humanistas sobre o conteúdo da escola pública no final do século XIX”. (Lucas, 1999).
ligada à indústria da alimentação; a Sociologia auxilia no conhecimento das leis que regulam
as atividades comerciais.
É também a ciência o conhecimento mais apropriado para a arte, a cultura e o lazer,
atividades humanas consideradas, por ele, como as últimas em grau de importância para a vida
do homem. Salienta que a ciência é tão necessária para a produção, quanto para a apreciação
das belas artes. Enfim, a ciência é a categoria de conhecimentos que permite a realização das
atividades que torna possível a vida civilizada. É ela que vai salvar o ensino pois pressupõe
disciplina intelectual, moral e também religiosa. Enquanto disciplina intelectual, a ciência
exercita a memória e desenvolve o juízo através do hábito de tirar conclusões via observação e
experiência. Enquanto disciplina moral, a ciência permite o desenvolvimento de um caráter
independente, da perseverança, da sinceridade, já que apela para a razão individual, dando
liberdade de análise e permitindo a formulação de conclusões próprias. A ciência desenvolve
ainda a religiosidade, devido ao respeito e à fé necessária na ligação entre causa e efeito.
Esta posição assumida por Spencer em defesa do ensino das ciências tendo como
perspectiva preparar cada indivíduo para a difícil concorrência com os demais, não está
desconectada do restante de sua produção científica, bem como está atrelada aos problemas
sociais e econômicos que os homens do final do século XIX enfrentaram. A crença no
progresso pela seleção dos mais aptos, ou para usar uma linguagem mais usual entre os
liberais, a crença no livre jogo das forças individuais, fez com que Spencer se posicionasse
contra a tendência do Estado, no século XIX, de se responsabilizar pela educação do povo e
defendesse até as últimas conseqüências os estudos práticos e úteis.
Neste momento em que a objetivação do trabalho pela incorporação da ciência à
produção tornava o trabalho humano desnecessário, em que a luta de classes estava mais do
que nunca exposta, em que os homens estavam divididos, em que um ideário precisava ser
produzido para dar unidade à sociedade, Spencer, fundamentado principalmente na Biologia,
explicou tais problemas tendo como referência os princípios do liberalismo clássico. Em seu
sistema, conhecido como Evolucionismo spenceriano ou Darwinismo social, pensou a
sociedade sob o modelo de funcionamento de um organismo individual, havendo, para ele,
uma relação íntima entre o biológico e o sociológico.
Spencer crê que o problema da sociedade está na natureza defeituosa dos indivíduos,
que não conseguem se adaptar aos problemas enfrentados. Portanto, de nada adianta
reorganizar as instituições. Acompanhando seu raciocínio, é possível antecipar a solução que
ele aponta para os males da época: se o defeito está no homem, é preciso corrigi-lo agindo
moralmente sobre o seu caráter.
A solução para Spencer não estaria apenas nas ciências como conteúdo escolar, mas
em um novo e verdadeiro método, assim por ele denominado, que, urgentemente, precisava
ser encontrado, em função da instrução formal de então pouco ter a ver com as leis de
desenvolvimento das faculdades mentais. Quando os alunos terminam os exames, os livros são
deixados de lado e, segundo Spencer, por falta de método, os conhecimentos são esquecidos.
O problema não estaria na ciência, mas na forma como ela era ensinada.
Assim, em fins do século XIX, quando se tratava de preservar a nova sociedade e suas
instituições, a ciência ensinada passa a ser enfatizada pelo valor moral que se acreditava existir
em seu método. É importante ressaltar que é a necessidade de extrair um conteúdo moralizante
e unificador da ciência que coloca a necessidade de um novo método. A ciência por si só não
seria moralizante, mas um método que a ensinasse pautando-se na prática, sim.
2 – A criação dos Sistemas Nacionais de Ensino e o ensino das Ciências
Herbert Spencer, citado anteriormente, concorda que a instituição escolar, responsável
pela formação humana, e principalmente o conteúdo por ela veiculado, precisava,
urgentemente, ser repensada. No entanto, não concordava com o caminho que vinha sendo
tomado no sentido do Estado se responsabilizar pela escola tornando-a obrigatória e gratuita.
Entretanto, vários países procuravam oferecer um ensino público criando seus Sistemas
Nacionais de Ensino, gratuito, laico e obrigatório, sob a responsabilidade do Estado.
Assim, no final do século XIX, a escola assumiu a complexa tarefa de aglutinar as
classes sociais que estavam em luta. Neste momento o conteúdo a ser veiculado assumiu
grande importância para a educação do povo, considerado o mais novo soberano, tendo em
vista a instituição do voto universal. A definição do conteúdo escolar que formasse um homem
capaz de garantir a sua sobrevivência e, concomitantemente, apesar das adversidades, fosse
solidário para com o próximo – o cidadão, produziu um debate onde se revelam muitos autores
com maior ou menor expressão dentro da historiografia da educação.
O debate acerca da definição do conteúdo e do método a ser adotado pela escola
pública não se mostrou tranqüilo como já apresentado anteriormente. Como produzir um
homem virtuoso, capaz de, ao mesmo tempo, pensar em si e no próximo? Que conteúdo e
método dariam conta de tão contraditória tarefa? Muitos autores neste sentido se posicionaram
e defenderam o privilégio de um ou outro conteúdo. Neste debate, o ensino de ciências foi
amplamente abordado por diferentes autores que o defenderam veementemente. Os
argumentos utilizados em prol de tal defesa são de que somente as ciências seriam capazes de
preparar este homem idealizado.
Rui Barbosa deixou transparecer o seu entusiasmo pelo ensino das ciências nos seus
famosos pareceres.4 Nesses pareceres defendeu a necessidade de organização dos Sistemas
Nacionais de Ensino, destacando a importância do ensino das ciências, pois o novo homem
carecia de um ensino totalmente diferente do ministrado nas escolas de seu tempo, um ensino
livresco e catequético, que se utilizava da memória como único recurso didático. Rui Barbosa
defendia que o ensino deveria utilizar-se da observação e experimentação, procurando
estimular a utilização dos sentidos e o entendimento. Para tanto, o método intuitivo deveria ser
adotado. Assim, inspirando-se nas idéias de Spencer, procurava não só alterar a forma de
transmissão de conhecimento predominante no Brasil, como também pretendia difundir um
novo método.
Para o autor em estudo, mudanças referentes ao método e conteúdo a serem
implementadas no nosso sistema de ensino, eram fundamentais para tornar o Brasil uma nação
civilizada. A produção neste país estava marcada pela agricultura monocultora realizada em
latifúndios e assentava-se no trabalho escravo em vias de extinção e o trabalhador livre
nacional encontrava-se à margem dessa produção. Assim, fazia-se necessário disciplinar e
formar o indivíduo apto ao trabalho livre. Neste processo, para Rui Barbosa, a educação tinha
um papel importante. Seu objetivo era modernizar a sociedade na direção do seu
desenvolvimento econômico industrial e agrícola. Os sistemas nacionais de ensino criados na
Europa respondiam a outras necessidades colocadas pela contradição do capital. Entretanto,
este se mostrou viável no Brasil à medida que atendia às necessidades específicas postas.
Tendo em vistas as especificidades da educação brasileira marcada pelo apelo à memória e o
4
Esta questão foi amplamente discutida por Machado na tese “O projeto de Rui Barbosa: o papel da educação
na modernização da sociedade” (Machado, 1999)
projeto de sociedade almejado, a educação deveria ser, como defendia Spencer, muitas vezes
citado por Rui Barbosa, um prazer comum – tanto para o professor, quanto para o aluno.
Deveria também se adequar às fases da vida da criança, pois, além da instrução propriamente
dita, era preciso educar os sentidos do homem para ver, ouvir e sentir o mundo que o cercava.
Assim, a escola a ser difundida deveria estar voltada para a vida e carregada de conteúdos
científicos, formando o trabalhador e o cidadão.
Entretanto, o país valorizava o aprendizado dos conhecimentos “inúteis” que apenas
adornavam o aluno com informações a serem repetidas nos salões. Ignorava-se que a
educação e a disseminação da ciência poderiam trazer muitos benefícios. Por isso, Rui
Barbosa empenhou-se em sua defesa:
...lembremo-nos de que uma coisa há que mais pode em favor da lavoura
do que a própria fecundidade do solo e em sustentação da integridade
nacional do que os exércitos numerosos: é a ciência, que faz a guerra, e
distribui a vitória; que ensina a não empobrecer o torrão fértil, e a
converter a esterilidade mais ingrata na mais opulenta
uberdade.(Barbosa, 1947, t. II, p. 16)
O ensino das ciências foi muito enfatizado no século XIX. As conquistas obtidas no
processo produtivo, a partir da revolução tecnológica, que permitiu a automação do
trabalho, revelavam que a ciência tornava-se palavra de ordem da modernização. Muitos
autores faziam a sua defesa, entretanto Spencer se destacou por difundi-la por vários pontos
do globo. Seus textos ecoaram no “novo mundo” tendo encontrado repercussão em Rui
Barbosa. Este porém afastou-se do primeiro ao propor a difusão do conteúdo científico sob
a responsabilidade do Estado:
O Estado tem deveres para com a ciência. Cabe-lhe, na propagação dela,
um papel de primeira ordem; já porque do desenvolvimento da ciência
depende o futuro da nação; já porque a criação de focos científicos de
ensino é de extrema dificuldade aos particulares; já porque entre a ciência
e várias profissões, que entendem com a conservação dos indivíduos, a
segurança material e a ordem jurídica das sociedades, há relações cujo
melindre exige garantias, que só a interferência do Estado será capaz de
oferecer. (Barbosa, 1947, t. I, p. 175)
Assim atrelou a escola e o ensino de ciências ao Estado. Este socorro era
fundamental para se romper com o quadro educacional apresentado. Por isso, propunha a
restauração de um programa científico e literário que se utilizasse amplamente do método
experimental, sem relações com a religião oficial.
O povo americano compreendeu que "a cultura da alma humana" era o primeiro
elemento da vida de um Estado, pois na instrução estava a base estável da prosperidade
pública. Através dela poder-se-ia preparar o homem para o trabalho, seja agrícola ou
industrial. Nessa preparação o conteúdo escolar ocupava um papel importante; no cerne dele
as ciências assumiam uma função fundamental.
A educação poderia desenvolver habilidades necessárias ao trabalho, desde que seus
conteúdos fossem úteis e de caráter prático. O conteúdo científico assumia um papel
primordial, pois podia ser utilizado na vida prática e no trabalho. O ensino de química, por
exemplo, podia ser de muita utilidade, tanto na fábrica como na agricultura.
A escola proporcionaria os conhecimentos mais adequados à vida, seja social ou
individual. As ciências propiciariam o desenvolvimento da memória e do raciocínio, bem
como, disciplinariam a moral e desenvolveriam a independência do caráter. Assim, faria um
importante serviço à cultura dos sentimentos morais. Neste sentido, a ciência para Rui
Barbosa, influenciado por Spencer, era religiosa e moralizante. O objetivo da escola voltava-se
para a formação do cidadão; a ciência, porém, era o seu conteúdo. No método, na forma de
transmiti-la, era possível enfatizar o sentimento e as relações a serem mantidas na sociedade.
A preocupação com o ensino das ciências é maior quando Rui Barbosa trata da
organização do ensino secundário. Nele pode-se constatar a grande preocupação com a
aplicabilidade do conteúdo a ser ensinado. Neste sentido, o ensino das ciências é fundamental,
pois pode ter aplicação direta no trabalho, evidenciando seu caráter utilitário – ao homem
moderno este conhecimento é importante, pois garantiria a sua manutenção. Rui Barbosa
considera importantes os conhecimentos relacionados ao desenvolvimento físico, à vida
familiar e à ordem social e política, dando continuidade aos conteúdos iniciados nos jardins de
criança e no ensino primário. Destacou, contrapondo-se ao verbalismo, a necessidade da
unidade entre ciências e letras, nos cursos que preparariam para o ensino superior, pois este
nível de ensino dedicar-se-ia ao ensino da ciência propriamente dita, através da utilização do
método experimental. Este ensino deveria especializar e fomentar o desenvolvimento
industrial e agrícola no Brasil, propiciando o alcance do progresso e da riqueza material.
Considerações finais
Frente a ameaça da classe trabalhadora de fazer a revolução social, em fins do século
XIX, fez-se necessário preservar a sociedade burguesa e suas instituições. Neste momento,
evidenciaram-se as contradições fundamentais desta forma de organização social: o
antagonismo entre burguesia e proletariado, a produção social e a apropriação individual, a
produção de riqueza na mesma proporção do aumento da miséria, entre outras. Neste estado de
crise social, a ciência ensinada na escola passa a ser enfatizada pelo valor moral que se
acreditava existir em seu método. É importante ressaltar que foi preciso extrair um conteúdo
moralizante e unificador da ciência, colocando a necessidade de um novo método para evitar o
acirramento das relações e a destruição da sociedade burguesa. Apesar de no Brasil a luta de
classes não se colocar da mesma forma como na Europa, ela impeliu transformações sociais,
pois o imperialismo e a imigração forçaram este país a modernizar-se. Para tanto, fazia-se
necessário abolir a escravidão, adotar uma nova forma política e reformar diversas
instituições, entre elas, a escola e seu conteúdo.
Estas idéias estão presentes na obra de Rui Barbosa, pois concebia que o ensino das
ciências permitiria preparar o homem para o trabalho, seja agrícola ou industrial. O trabalho
agrícola no Brasil, neste momento, era rudimentar e realizado por escravos. Para reverter este
quadro, a disseminação da escola pública, bem como do conteúdo escolar, ocuparam um papel
importante. Os conhecimentos proporcionados através do ensino das ciências assumiram,
neste contexto, um papel fundamental, mostrando-se necessários para uma sociedade que
pretendia industrializar-se. Assim, a educação poderia desenvolver habilidades necessárias ao
trabalho, desde que seus conteúdos fossem úteis e de caráter prático. O conteúdo científico
assumiu, então, um papel primordial, pois podia ser utilizado na vida prática e no trabalho.
Estas idéias eram compartilhadas por muitos outros autores, dos quais destacou-se o
pensamento de Herbert Spencer. Este autor foi citado por Rui Barbosa muitas vezes para
reforçar seus argumentos em favor do ensino das ciências, que, para ele, não poderia estar
dissociado do cultivo dos sentimentos cívicos e morais. Para tanto, a forma de transmitir as
ciências também precisava ser revista de maneira que fosse possível enfatizar os sentimentos.
Ao olhar-se atentamente para o passado, observou-se quão conflituosa fora a posição
assumida por Rui Barbosa frente a defesa da necessidade de implementação da escola pública
e das ciências, enquanto componente curricular. Neste sentido, o pensamento deste autor não
pode ser desvinculado do próprio movimento que o produziu. Além disso, o conjunto das
proposições defendidas revelou sua compreensão mais ampla dos problemas enfrentados pela
sociedade do que apenas a especificidade de uma proposta de educação. É preciso considerar
que ele se envolveu com questões fundamentais para a sociedade em um momento de
transformação social. É com esta perspectiva que se analisou a posição assumida por Rui
Barbosa, com relação a defesa da necessidade do ensino das ciências.
Referências
BARBOSA, Rui. Reforma do ensino secundário e superior. Obras completas. Vol. IX,
tomo I. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1942.
___________. Reforma do ensino primário e várias instituições complementares da
instrução pública. Obras completas. Vol. X, tomo I ao IV. Rio de Janeiro: Ministério da
Educação e Saúde, 1947.
LUCAS, Maria Angélica Olivo Francisco. O debate entre utilitaristas e humanistas
sobre o conteúdo da escola pública no final do século XIX. Maringá, UEM, 1999.
(Dissertação de mestrado)
MACHADO, Maria Cristina Gomes. O projeto de Rui Barbosa: o papel da educação na
modernização da sociedade. Campinas, Faculdade de Educação, Universidade Estadual de
Campinas, 1999. (Tese de Doutorado)
SPENCER, Herbert. Educação intellectual, moral e physica. Porto, Livraria Chardron, de
Lello & Irmão, 1927.
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