Democracia no Brasil e participação das mulheres na política: algumas barreiras para o desenvolvimento democrático Juliana Macedo de Lima1 Resumo A participação feminina no processo democrático brasileiro tem sido considerada importante para o desenvolvimento da mesma, porém encontramos alguns obstáculos para a efetiva participação feminina no campo político. A criação de estereótipos reforçados através da mídia são algumas das dificuldades para uma maior inserção das mulheres na política, a cultura política e cultura de gênero também são entraves para maior discussão e mudanças reais na participação da mulher na esfera pública. Este trabalho tem como objetivo principal fazer uma discussão teórica sobre como se tem encaminhado e quais os vieses sobre a participação das mulheres na política brasileira. Como metodologia, é realizada uma revisão bibliográfica, teórica e de estudos de casos, sendo feita uma análise detalhada sobre os principais aspectos entorno da temática. Palavras-chave: política; mulher; participação; Brasil. Introdução Participação, democracia e mulher, estes três temas geram debates acirrados, principalmente quando presentes no mesmo momento. A participação feminina no processo democrático tem sido considerada importante para o desenvolvimento da mesma, porém encontramos alguns obstáculos para a efetiva participação feminina no campo político. As mulheres representam 51% do total da população brasileira e os homens 49%, segundo o Censo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) 2010, o crescimento da população feminina no Brasil é crescente, de acordo com os censos realizados desde a década de 1980, mas esses números não refletem proporcionalmente no campo político. Nas eleições de 2010, conforme dados apresentados pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), disputaram para deputados federais 4.904 candidatos, destes apenas 945 (19,06%) candidaturas eram de mulheres, e eleitas apenas 45 (4,07%) candidatas ao cargo de deputada federal. Enquanto as candidaturas masculinas houveram 3.969 (80,93%) e eleitos 468 (11,79%) candidatos a deputados federais. Portanto, num comparativo, dos 513 eleitos ao cargo, 91,22% eram homens e apenas 8,77% eram mulheres. Segundo a análise de Simone Bohn (2008) sobre dados do Survey LAPOP – Brasil 2007, há uma boa aceitação da população brasileira de votar em mulher para presidência, 88,7% das eleitoras votariam em uma candidata a presidência e 87,0% dos eleitores votaria 1 Titulação e filiação Institucional. E-mail. Agência de Fomento. I Seminário Internacional de Ciência Política Universidade Federal do Rio Grande do Sul | Porto Alegre | Set. 2015 em uma mulher para o cargo de presidente, levando-se em consideração gênero, raça e classe social, não havendo interferência estatisticamente significativa destas variáveis na análise dos resultados da pesquisa, o que foi possível apenas apurar de que idosos e pessoas com baixa escolaridade possuem menor tendência de votar em uma mulher para presidência, Consonante ás teorias sobre os efeitos geracionais do processo de modernização que afirmam que o processo de socialização em sociedades tradicionais torna as pessoas da terceira idade menos receptivas ao princípio da igualdade de gênero -, constatamos que quanto mais jovens os indivíduos, mais tendem a esposar visões igualitárias sobre a questão da participação da mulher na política. (p. 363). Estes dois grupos (idosos e pessoas com baixa escolaridade – que não votariam em uma mulher) contrastam significativamente sobre os motivos que as levam a essa decisão, pois, enquanto em quem votaria em uma mulher para o cargo de Presidente da República os principais argumentos são competência (96,5%); o gênero não é relevante para o processo de decisão eleitoral (97,6%); caráter (91,5%) e programa do candidato (87,3%), para os que não votariam o principal argumento é de que a política é um espaço adequado para mulheres (73,2%). Participação Feminina e o campo político Há uma problemática entorno da sub-representação feminina no campo político, o que aumenta o debate sobre a importância do equilíbrio da participação feminina na democracia, uma vez que, segundo Almeida; Lüchmann e Ribeiro (2012) a participação feminina impacta diretamente na formação de “agendas temáticas decisórias”, onde através de análises de pesquisas realizadas nos Estados Unidos, no Brasil e em outros países latino-americanos apontam que a participação das mulheres nos processos decisórios, em comparação com a participação masculina, tende a dar maior atenção a grupos mais socialmente vulneráveis, como idosos, crianças, deficientes e as próprias mulheres, os autores alegam que a subrepresentação feminina alicerça as injustiças de duas maneiras, primeiro a desproporcionalidade entre a população feminina e o grupo político feminino, nos dando um claro exemplo de que nem toda minoria política significa uma minoria social. A segunda é a tomadas de decisões sobre determinados grupos em detrimentos de outros, visto que sua participação é geralmente em temas secundários do sistema político, I Seminário Internacional de Ciência Política Universidade Federal do Rio Grande do Sul | Porto Alegre | Set. 2015 Esse fenômeno evidencia as interdependências entre a representação descritiva, geralmente associada a perguntas sobre “quem representa?”, e a representação substantiva, que nos leva a perguntas sobre “o quê representa”, tornando particularmente importante o diagnóstico das barreiras que as mulheres enfrentam para entrar no sistema político, como o próprio diagnóstico do perfil daquelas que obtém sucesso em tal empreitada. (p. 238). É importante destacar que Almeida; Lüchmann e Ribeiro (2012) apontam uma relação das candidatas eleitas no legislativo brasileiro com o associativismo semelhante apontada por Araújo (2010), os primeiros autores apontam que as mulheres não possuem ou é de baixo grau o vínculo com associações referentes aos grupos que defendem nos processos decisórios (idosos, crianças, deficientes), principalmente ao movimento de mulheres. A segunda autora apresenta que no padrão brasileiro, esse tipo de atuação é bem pequeno, especialmente comparado com a atuação feminina na Argentina, sobretudo em movimentos de mulheres. Demonstrando por fim, que o perfil parlamentar brasileiro não mantém ligação direta à suas bases associativas. Isso nos remete ao problema gerado devido ao afastamento do eleito de seu eleitorado apresentado por Iris Young (2006), afirmando que “o principal problema normativo da representação é a ameaça de desconexão entre o representante único e os muitos que ele ou ela representa.” (p.156), a autora reforça que o afastamento faz com que o eleitorado perca a percepção de influência da produção de políticas públicas voltadas aos grupos que compõe o mesmo, assim podendo gerar, concomitantemente, o desafeiçoamento e a abstenção da participação. E também obstáculos quanto à representação e o accountability, argumentando que O processo de autorização e responsabilização que constitui a prática representativa não deve enfim ser confinado aos organismos públicos oficiais. Já assinalei aqui que a livre associação da sociedade civil contribui para a formação e a expressão de interesses e opiniões. A sociedade civil também é uma importante instância de consolidação e expressão de perspectivas sociais. Ademais, a organização e a mobilização nas esferas públicas da sociedade civil estão entre os meios mais efetivos de se manter as conexões entre representantes e eleitores, e de se efetivar a prestação de contas dos representantes. Aprofundamos a democracia quando encorajamos o florescimento das associações que as pessoas formam de acordo com os interesses, opiniões e perspectivas que consideram importantes. As atividades autônomas e plurais das associações civis propiciam aos indivíduos e aos grupos sociais, em sua própria diversidade, uma inestimável oportunidade de serem representados na vida pública. (p. 187). O que se pode observar sobre o associativismo e a participação das mulheres é que este é o meio mais comum de recrutamento. A forma de associativismo que mais tem tido I Seminário Internacional de Ciência Política Universidade Federal do Rio Grande do Sul | Porto Alegre | Set. 2015 destaque na participação feminina levando à eleição de candidatas foi o sindical, neste espaço, conforme Almeida; Lüchmann e Ribeiro (2012), “segue o aumento no número de mulheres que exercem o papel de lideranças sindicais, o que potencializa as possibilidades de ascensão política, na medida em que os sindicatos são espaços de participação que apresentam estruturas mais abrangentes e complexas, com diferentes frentes de atuação e de relações. ” (p. 248), uma vez que estes espaços possibilitam o desenvolvimento de habilidades políticas, o que segundo os autores, amplia a base de conhecimento, e estabelecimento de relações políticas e sociais, contribuindo para a formação de lideranças de altos cargos, exercendo influencia de semelhante grau os movimentos estudantis e de mulheres. Da pesquisa apresentada no inicio deste trabalho em conjunto com o que foi apresentado até o momento é perceptível que a dificuldade de inserção da mulher no espaço político não está no eleitorado brasileiro, uma vez que boa parcela do eleitorado, de ambos os sexos, não encontra dificuldade em votar em candidatas mulheres, exceto os casos citados acima. O fato é de que a dificuldade reside no interior do processo político, ou na distinção elaborada por Chantal Mouffe (2005) no que ela se refere ao modelo agonístico de democracia proposta pela autora, à distinção do “político” e da “política”. Para Mouffe (2005), o “político” se refere aos antagonismos das relações humanas, que podem se expressar de diversas formas, inclusive nas relações sociais e a “política”, que compreende ser o conjunto de práticas, discursos e instituições. Nestas diferenciações apresentadas pela autora, a participação feminina encontra dificuldades, no qual no campo político podemos exemplificar a superposição do masculino sobre o feminino, tanto nas relações familiares, quantos nas relações de trabalho. No campo da política, podemos citar como exemplo, o estereótipo criado sobre as mulheres na política, na tentativa de justificar o “desinteresse” das mulheres e os discursos feitos para argumentar a exclusão das mulheres da política e o predomínio dos homens neste campo. Política, gênero e democracia O debate entre política e gênero se acirra quando se observa o estereótipo criado, como afirmam diversos autores, entre eles Carole Paterman (1993) e Flávia Biroli (2010), onde se relaciona a mulher ao espaço privado, com características como emotivas e corporais, desqualificando ao que seria uma postura de comando, para a tomada de decisões e pulso para administrar, segundo Biroli. I Seminário Internacional de Ciência Política Universidade Federal do Rio Grande do Sul | Porto Alegre | Set. 2015 O desinteresse pela política, a falta de habilidade para o exercício de cargos públicos e o não pertencimento à esfera política são, assim, conectados em um conjunto de discursos que atendem a uma regularidade sem que se apresentem de forma homogênea. A oposição entre, de um lado, feminino e espaço privado, e, de outro, masculino e espaço público, [...], está na base desses estereótipos, confirmando divisões e hierarquias que colaboram para a marginalização das mulheres da e na esfera política. (2010, p. 05). Assim como Lourdes Moreira (2009), afirma sobre a presença das mulheres nos espaços de tomada de decisão, a cultura política e cultura de gênero são entraves para maior discussão e mudanças reais na participação da mulher na esfera pública, e a forte presença de políticas voltadas para as mulheres nos discursos de Dilma Rousseff, como bem destaca Moreira “A presença e mobilização das mulheres nas instâncias de representação do poder político, nos partidos políticos ou em entidades da sociedade civil, deve ser loco de fomentação da educação e participação política das mulheres.” (2009, p. 16). Há uma formação de estereótipos em relação à participação das mulheres no campo da política como Biroli (2010), onde a autora afirma que existe uma naturalização quanto à exclusão das mulheres na esfera pública, sendo utilizada como argumento de legitimação para o que a autora chama de “negócio de homens”, ela demonstra que o argumento é levantado da seguinte forma, onde “as mulheres não se interessariam pelos debates políticos e, menos ainda, por participar da política institucional porque estariam ‘naturalmente’, voltadas para o que lhes seria mais caro: a vida privada, a esfera doméstica, a maternidade.” (p. 274), a autora se baseia em Carole Paterman (1993) para explicar esse fenômeno, onde Paterman aponta que o gênero é o principal elemento sobre as definições modernas na oposição público-privado, e que é, portanto o eixo central para o debate. Para tal, a autora argumenta que Para se compreender o patriarcado moderno, inclusive as relações econômicas capitalistas, é necessário ter em mente o contrato entre o patrão e empregado e entre senhor e escravo, além da considerar a relação entre o contrato “personalizado” na esfera privada e o contrato “impessoal” no mundo público do capitalismo. (1993, p. 62). Biroli (2010) afirma, portanto, que a subordinação da mulher seria o elo entre a esfera pública e a esfera privada, se tornando inseparável da “liberdade e da autonomia dos ‘cidadãos’”, para esse argumento a autora utiliza a visão de Iris Young, que desenvolve a questão da perspectiva social2. 2 A perspectiva social é o ponto de vista que os membros de um grupo mantêm sobre os processos sociais em função das posições que neles ocupam. As perspectivas podem ser vivenciadas de um modo mais ou menos autoconsciente. As experiências culturais de povos ou de grupos religiosos diferenciados, bem como de grupos que reagem a uma história de injustiças ou de opressão estrutural, frequentemente lhes conferem interpretações refinadas acerca de suas próprias situações I Seminário Internacional de Ciência Política Universidade Federal do Rio Grande do Sul | Porto Alegre | Set. 2015 Este comportamento pode ser analisado através da ótica sobre o poder do autor Vilas (2013) onde o autor explica que o poder vem de uma relação que, em geral, ocorre de forma desigual, relação de dominante e dominado, em que o poder es esa particular relación social en cuya virtud una persona o un grupo de personas obligan o inducen a otra u otras a ejecutar determinadas acciones o a abstenerse de ellas, usualmente, pero no invariablemente, bajo amenaza de alguna sanción a los renuentes. Quienes ajercen el poder y quienes le brindan obediencia siempre son personas humanas, condicionadas por circunstancias colectivas. El poder implica una asimetría en las relaciones sociales y, en consecuencia, una desigualdad. Las preeminencias y las subordinaciones que sostienes la relación de poder se originan en una multiplicidad de cuestiones: edad, sexo filiación, cualidades personales, posesión de recursos escasos, producción y apropiación de información o conocimientos, desempeño de posiciones institucionales, y otras. (p. 18) Além da assimetria das relações de poder, o processo histórico político também influencia de forma contundente para a manutenção da sobreposição de poderes, da existência de grupos com mais poderes e outros com menos, que de acordo com Vilas, “por su propia naturaleza el poder no puede existir sin un titular real, sin una unidad decisória creada de acuerdo con ciertas condiciones históricas (económicas y sociales, materiales y simbólicas).” (2013, p. 19), ou seja, é necessária a preexistência de condições históricas de governo, do contrário o poder deixa de ter sua referencia sobre a estrutura hierárquica. Quando o autor ressalta as características que existem em todas as relações de poder herdadas desta estrutura preexistente, a intencionalidade e a efetividade podemos compreender como o discurso funciona frente a estas duas características, (1) a intencionalidade: o discurso se apresenta como forma de marcar quem detém o poder, mostrando que os homens está em maioria no campo político não por acaso, e por isso exerce forte influencia na política; (2) a efetividade: com a presença do discurso, se reforça também a ideia nas mulheres de que o lugar delas não é na política, o que por sua vez pode desmotivar a participação das mulheres neste campo. O que se deve ser salientado não é que a participação das mulheres seja maior que a dos homens no campo político, mas ela deve existir de forma equilibrada, tanto na presença e atuação quanto no poder de decisão política. Como afirma Paterman (1992), algumas teorias e de suas relações com outros grupos. A perspectiva pode se revelar em histórias e em canções, em brincadeiras e em jogos de palavras, assim como em formas de expressão mais assertivas e analíticas. (Iris Young, 2006, p. 164). I Seminário Internacional de Ciência Política Universidade Federal do Rio Grande do Sul | Porto Alegre | Set. 2015 propõem que o ideal seja a participação de todos os cidadãos na política, mas que para a autora, isso torna inviável a estabilidade democrática, uma vez que a participação de todos tornaria os processos de decisão menos eficazes e eficientes, já que existe o risco dos ‘apáticos’ distorcerem os recursos democráticos. Ela explicita que “[...] a participação limitada e a apatia têm uma função positiva no conjunto do sistema ao amortecer o choque das discordâncias, dos ajustes e das mudanças” (p.16). A autora relembra clássicos da teoria democrática como Schumpeter, Mill e Bentham, onde para esses autores, a participação não era levada tanto em consideração quanto nas teorias contemporâneas, esses autores se debruçaram sob os arranjos institucionais. Para Schumpeter (1984), pressupondo racionalidade dos cidadãos, a democracia era um método para se chegar às decisões políticas, a fim de realizar o bem comum à participação do povo era sobre as escolhas dos representantes, e estes ultimo se reuniria em assembleia para dar cumprimento a vontade do povo. Para Mill e Bentham, o povo deveria escolher os melhores representantes para a promoção do bem comum, e sua escolha seguiria mais a influencia do discurso do que da racionalidade proposta por Schumpeter. Iris Young (2006) nos traz um tema importante que imputa diretamente sobre a participação feminina e a democracia, quando ela nos apresenta a pluralidade existente na sociedade e que se torna essencial ao processo democrático o seu reconhecimento, sendo necessário a representação3 específica dessa pluralidade, conforme a autora “a representação é necessária porque a rede da vida social moderna frequentemente vincula a ação de pessoas e instituições num determinado local a processos que se dão em muitos outros locais e instituições” (2006, p. 144), e ainda conceber a representação sob a idéia de différance significa descrever um relacionamento entre os eleitores e o representante, bem como dos eleitores entre si, no qual a temporalidade do passado e o futuro antecipado deixam vestígios nas ações de cada um deles. Conceber a representação como um relacionamento 3 Iris Young baseia-se em Hanna Pitkin na sua conceptualização de representação “A noção de representação política que apresento a seguir deve muito à de Pitkin. Sigo seus passos, ao teorizar a representação como algo que envolve tanto a autorização como a prestação de contas e ao argumentar que a dicotomia “delegado–fiduciário” é uma falsa polarização. [...] pensar a representação em termos de différance em vez de identidade significa levar em conta a sua temporalidade. A representação é um processo que ocorre ao longo do tempo e tem momentos ou aspectos distintos, relacionados entre si, mas diferentes uns dos outros. A representação consiste num relacionamento mediado entre os membros de um eleitorado, entre este e o representante e entre os representantes num organismo de tomada de decisões. Na qualidade de um relacionamento prolongado entre os eleitores e seus agentes, a representação oscila entre momentos de autorização e de prestação de contas: é um ciclo de antecipação e retomada entre os eleitores e o representante, no qual seus discursos e ações devem carregar vestígios de um momento a outro.” (2006, p. 151). I Seminário Internacional de Ciência Política Universidade Federal do Rio Grande do Sul | Porto Alegre | Set. 2015 diferenciado entre atores plurais dissolve o paradoxo posto pela situação na qual uma só pessoa representa as experiências e opiniões de muitas outras. (p. 149) Desta forma, o papel que as mulheres desempenham diante da representação de grupos que no campo político são “secundarizados” eleva a questão da pluralidade de atores presente nesta esfera sem criar uma identidade em si, pois ter esse espaço político menos vistoso, o apoio das mulheres existe por meio de compreender que não somente as mulheres, mas outros grupos precisam de um fortalecimento de sua participação no processo decisório, ou seja, as mulheres acabam que não fazendo a representação somente das mulheres, mas encaram a representação de outros grupos que identitáriamente se diferem. Como Young esclarece, Os indivíduos podem se mover em torno de perspectivas que lhes estão disponíveis conforme as pessoas com as quais interagem ou conforme o aspecto da realidade social ao qual se voltam. As múltiplas perspectivas a partir das quais as pessoas podem ver a sociedade podem reforçar e enriquecer umas às outras ou então pode ser impossível considerar uma sem confundi-la com outra, [...] (2006, p.166). A autora Chantal Mouffe também nos apresenta a importância da pluralidade para a democracia, e faz crítica ao insulamento da pluralidade existente nas teorias de Jüngen Habermas e John Rawls A teoria democrática deveria renunciar a essas formas de escapismo e enfrentar o desafio que decorre do reconhecimento do pluralismo de valores. Isso não significa aceitar um pluralismo total – alguns limites precisam ser estabelecidos com relação ao tipo de confrontação que será vista como legítima na esfera pública. Mas a natureza política dos limites deve ser reconhecida, em lugar da apresentação de tais limites como exigências da moralidade e da racionalidade (2005, p. 17). Em sua teoria do modelo agonístico de democracia, a autora define o pluralismo como sendo a redescrição do auto entendimento básico do regime liberal democrático que enfatiza a importância de reconhecer a sua dimensão conflitiva apontando que o propósito da política neste sentido é de transformar o que seria “uma luta entre inimigos” em uma “luta entre adversários”, tornando esse fato na condição de existência do modelo proposto, portanto, estabelecer um consenso sem exclusão é fundamental para o processo agonístico, a manutenção da contestação democrática, a promoção do dissenso em instituições democráticas, o reconhecimento do conflito e seus limites e a compreensão da natureza hegemônica das ações sociais e das identidades são imprescindíveis para o desenvolvimento democrático. I Seminário Internacional de Ciência Política Universidade Federal do Rio Grande do Sul | Porto Alegre | Set. 2015 Mulher e democracia – algumas conclusões Ao que foi exposto podemos constatar da importância da participação feminina no campo da política, como afirmado no inicio do trabalho, sua participação é importante devido ao equilíbrio democrático que lhe é imputado, uma vez que as mulheres não representam somente as pautas femininas, mas engloba em sua agenda as pautas de outros grupos como, por exemplo, das crianças, idosos, deficientes, entre outros, fomentando a agenda de políticas públicas. A desproporcionalidade da presença das mulheres em cargos eletivo nos indicam duas linhas de pensamento entorno da participação das mulheres na política: a) a atuação da mulher se concentra em setores como movimentos sociais, ONGs entre outras associações; b) apesar da pesquisa indicar que não houve rejeição do voto das mulheres numa candidata para o cargo de presidente da república, o que podemos conferir é a existência de certo conservadorismo do voto feminino quando observamos os resultados das eleições para Deputadas Federais em 2010. Por fim, apesar das teorias contemporâneas de democracia conceder a participação política como fator importantíssimo para o desenvolvimento da democracia, ainda encontramos diversas barreiras que permitam o livre desenvolver democrático, dentre estas barreiras encontram-se a apatia, que diante do reforço do discurso masculino no campo político, aumenta a resistência da participação feminina, a diferença de acesso a recursos financeiros e políticos e o conservadorismo do eleitorado feminino também agravam este cenário. I Seminário Internacional de Ciência Política Universidade Federal do Rio Grande do Sul | Porto Alegre | Set. 2015 Referências bibliográficas ALMEIDA, Carla; LÜCHMANN, Lígia; RIBEIRO, Ednaldo. Associativismo e representação política feminina no Brasil. Revista Brasileira de Ciência Política, nº8. Brasília, maio agosto de 2012, pp. 237-263. ARAÚJO, Clara. Rotas de ingresso, trajetórias e acesso das mulheres ao legislativo – um estudo comparado entre Brasil e Argentina. 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