ÍNDICE PREFÁCIO ARQUITECTURA E REGENERAÇÃO URBANA: CONCEITOS E EXTRACTOS REFLEXIVOS INTRODUÇÃO EXTRACTOS REFLEXIVOS CONCEITOS ARRUMOS DE IDEIAS A ESCALA ENQUANTO CONCEITO TRANSVERSAL EXTRACTO I A REVALORIZAÇÃO DE ESTRUTURAS PRÉ-EXISTENTES COMO ELEMENTO DE REVITALIZAÇÃO URBANA 1. A OBSOLESCÊNCIA NO EDIFICADO URBANO 2. CIDADES E SEUS RUMOS - PROCESSOS E ESTRATÉGIAS 3. CASO DE ESTUDO I . HIGH LINE, NOVA IORQUE 4. CASO DE ESTUDO II . PALAST DER REPUBLIK, BERLIM 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 5.1 OBSOLESCÊNCIA; EXEMPLOS DE REFLEXÃO 5.2 DAS ENVIRONMENTAL UNITS ÀS UNIDADES ECOSSISTÉMICAS EXTRACTO II O SENTIDO DA ARQUITECTURA: A NECESSIDADE DE ENTENDER 1. A ATRIBUIÇÃO DE SENTIDO NA OBRA DE ARQUITECTURA 2. A ORIGEM DA OBRA DE ARQUITECTURA 3. CASO DE ESTUDO . PARK HILL, SHEFFIELD 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS PREFÁCIO ARQUITECTURA E REGENERAÇÃO URBANA: CONCEITOS E EXTRACTOS REFLEXIVOS Fátima Silva A academia, Lugar onde o pensar e o saber fazer, se reúnem na experimentação que este espaço, comprometido apenas com a essência do conhecimento, lhe permite ser, um contributo para o desenvolvimento da comunidade onde se insere. O espaço de uma universidade deve ser o lugar onde da reflexão e do conhecimento nasce a luz. Os trabalhos de dissertação académica, são na sua essência exercícios de reflexão que relatam na primeira pessoa do plural ideias adquiridas e desenvolvidas ao longo de um período de aprendizagem, constituindo-se no conjunto um banco de informação e de formação, propriedade intelectual da universidade onde se produzem, como tal, têm o dever de servir em primeira instancia essa comunidade académica, constituindose como matéria de registo do conhecimento nela produzido. Para além deste aspecto, este é também um momento no desenvolvimento de conhecimento onde se produz um trabalho de cumplicidade entre o professor ou professores (Orientador e coorientador) e o aluno, (daqui a ideia de ser um trabalho na 1ª pessoa do plural). Este é o tempo letivo no qual é exercido um acompanhamento pedagógico de maior proximidade e cumplicidade ideológica. Com este trabalho de Dissertação encerra-se um segundo ciclo de estudos, o qual antecede um seguinte, ou, apenas o completa de maneira reflexiva e crítica, com base numa aprendizagem adquirida no decurso de cinco anos de estudos. A diversidade temática que este tipo de trabalho deve permitir, assim como o grau de desenvolvimento, abre um leque de perspectivas a um estudo mais aprofundado numa diversidade de matérias que permitem um direccionamento de continuidade. A universidade Lusíada, e em particular a sua Faculdade de Arquitectura e Artes, conta neste momento com um número significativo de trabalhos de dissertações originais que, pela reconhecida qualidade e diversidade temática se constituem como um significativo arquivo de in-formação1. O grau de qualidade, reconhecido, de muitos dos trabalhos é, para além de, um contributo de excelência enquanto património científico produzido pela academia podendo servir como matéria de apoio ao estudo como pode igualmente servir para o desenvolvimento das áreas de investigação integrando-se no Centro de Investigação do Instituto Lusíada Investigação e Desenvolvimento, ILID/CITAD. A pertinência de alguns dos temas abordados nestas dissertações assim como algumas das ideias subjacentes, criaram em nós, enquanto docentes desta Faculdade, a vontade de lhes dar visibilidade, e pô-las ao serviço da formação, com esse propósito, constrói-se este documento a partir de algumas das principais ideias, subjacentes a cada tema por nós acompanhado. É de sublinhar ainda o valor acrescentado de uma orientação partilhada entre; orientador e co orientador, de áreas disciplinares diferentes, pela particularidade de reunir em torno de uma reflexão que se pretende crítica, uma discussão pluridisciplinar, integrando na abordagem do arquitecto e da arquitectura, neste caso concreto, uma área humanística fundamental a Geografia humana e social. A construção de complementaridade destas perspectivas disciplinares veio enriquecer a fundamentação destas reflexões e torna-las mais sustentadas. Este primeiro “extracto académico”, o primeiro de uma colectânea que se deseja continuar, apresenta-se como uma síntese da ideia que esteve na base do desenvolvimento de duas dessas dissertações que se debruçaram sobre o problema da Regeneração do espaço urbano, corporizado pelas suas arquitecturas e pelos seus arquitectos. Reúnemse assim neste primeiro “Extracto” dois trabalhos de um bloco de três dissertações, cujas reflexões revelaram as mesmas preocupações e terminaram por se complementar na abordagem. Conduzido por este entendimento, o presente documento ao qual chamamos significativamente de “Extractos reflexivos” reúne assim partes seleccionadas, dos dois trabalhos que se cruzaram nas mesmas preocupações sobre o papel do arquitecto, da arquitectura e da própria comunidade, no processo de regeneração do espaço urbano, sublinhando as ideias principais extraídas destes trabalhos. Os trabalhos focados, dos agora Mestres em Arquitectura, Nor-Angelos Afendras e Daniella Maria, desenvolveram uma reflexão crítica apoiada em casos de estudo estudados enquanto referências capazes de identificar os valores salvaguardados em cada um, assim como os processos de implementação no terreno, a par dos critérios que conduziram essas acções regenerativas, colocando em questão, tanto os modelos aplicados, como os processos metodológicos assim como os resultados finais. Estes dois extractos complementam-se na abordagem sobre a regeneração urbana do espaço físico enquanto processo participado, refletindo ao mesmo tempo sobre o papel central desempenhado pelo arquitecto nas várias etapas do processo, cruzando-se com o papel da comunidade e o papel da própria arquitectura. A dissertação do Mestre Nor-Angelos Afrendas permite começar por fazer um primeiro sublinhado sobre o valor posto em evidência nesta abordagem relativamente ao edificado préexistente em estado obsoleto, reconhecendo-o como um foco potencial para a regeneração do tecido urbano. Este edificado embora obsoleto na sua função e estado de conservação, ocupa um lugar no tempo capaz de servir a revitalização do INTRODUÇÃO lugar urbano numa logica de continuidade, permanecendo como registo de identidade dos lugares, fundamental para a ideia de pertença e afinidade entre os indivíduos e os lugares; (sendo esta ideia aplicada à regeneração do tecido urbano consolidado e não a tecidos novos). EXTRACTOS REFLEXIVOS Álvaro Cidrais O papel do arquitecto e da sua postura diante de um programa de intervenção pública num lugar e ao mesmo tempo para um utilizador alvo, questionado pela Mestre Daniella Maria, leva-nos a reflectir sobre a responsabilidade do arquitecto e ao mesmo tempo, sobre a sua limitação na acção ao longo do processo de construção da obra de arquitectura e do espaço urbano, pela complexidade que os envolve. Da validade do programa preliminar à adequação do desenho do espaço físico à função, à oportunidade potencializada por uma pré-existência em estado de obsolescência, até à avaliação de sentido da arquitectura e do papel do arquitecto, são aqui analisados a partir do grau de adequação e de conformação, desses espaços à escala do utilizador e das dinâmicas socioeconómicas e culturais enquadradas pela acção exercida pelo espaço urbano. Questiona-se o sentido da arquitectura, enquadrada numa acção estruturada de regeneração urbana sustentável. Associada a esta ideia regenerativa sublinham-se as ideias de flexibilidade funcional e programática, na requalificação de préexistências com base na ideia de reciclagem e de revalorização, reconhecendo como um dos aspectos fundamentais de caracterização e de qualidade o seu caracter de identidade, podendo passar por uma adequação em continuidade que reconhece, na construção e na manipulação da imagem dos espaços, uma importância fundamental na relação de percepção entre Homem e o seu meio. O caracter de sustentabilidade, inerente ao conceito de Regeneração, no caso de tecidos urbanos deve congregar ainda uma ideia de flexibilidade tanto programática como do próprio desenho do espaço e deve ser sempre que possível um processo participado no qual o arquitecto deve ter um papel central na adequação de “…sentido da arquitectura”. E xtractos reflexivos é uma abordagem que junta num mesmo espaço intelectual um conjunto de pessoas que mobilizam as suas experiências e pensares para desenvolverem um processo de «cumplicidade reflexiva». Neste caso, nesta edição, para reflectir sobre a (Re)Generação Urbana, que pode ser Sustentável. Compilámos ideias que reflectem uma abordagem multifocal, muito comum nesta sociedade hipertexto (ou hipermédia) em que vivemos, para criar novas portas e novas pontes para a intervenção urbana, numa ótica que articula o redesenho com a regeneração sustentável, remetendo-nos para novos modos de observar, interpretar, decidir, agir (apropriando-nos) e de comunicar os espaços e as vidas da cidade. Se o tema central é a regeneração urbana, abordada por diferentes prismas, a partir das dissertações de mestrado da Daniella1 e do Nor2 orientadas pela Fátima (Arquiteta) e pelo Álvaro (Geógrafo), o objecto de estudo é a cidade ou, antes, alguns espaços da cidade e do sentido que lhe damos através da arquitetura. Assim, justifica-se primeiro que tudo, que se defina o modo como o autor deste texto entende a cidade. Como se afirma em «Um breve discurso sobre o valor da cidade»3 : As cidades são constelações de lugares, com limites muito para além das representações físicas que encontramos nos objectos edificados. Por dentro de uma cidade construída existe uma malha bastante dinâmica de relações e de interacções que são o seu cimento agregador. Um conceito de cidade A cidade é muito mais do que o que edificamos. Para além de ocupar um espaço geográfico natural que a marca através do relevo, do clima, da hidrologia e dos ecossistemas de suporte, tem uma dimensão concretizada de uma cidade imaginada por cada indivíduo, desenhada (em pequenas partes) por alguns arquitectos, construída por inúmeros construtores civis, apropriada por diferentes actores territoriais, em diferentes dinâmicas e contextos, e numa malha topológica de lugares e de relações que se estendem numa rede internacional de interacções, cada vez mais dinâmica, mais intensa e com maior informação disponível. As cidades são, muitas vezes, conjuntos de cidades ligadas entre si ou, mais concretamente, conjuntos de lugares, interconectados, vividos de modos muito diferente, a partir de lógicas muito diversas que ora se complementam ora conflituam nos usos e abusos dos seus espaços. As cidades são muito mais do que formas fixas. São dinâmicas caóticas onde vivem pessoas, que transformam os espaços físicos, as edificações e as «naturezas», dando-lhes e tirando-lhes sentidos e valor, num jogo vivo, num sistema tão complexo como o cérebro humano que, apenas conseguimos compreender e apreender em partes e através de aproximações limitadas, eventualmente, com o recurso a esquemas concetuais e ferramentas digitais multidimensionais. As cidades são assentamentos humanos, espaços de produção e consumo, de encontro, de vida, de troca, de partilhas e de Introdução 9 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana relações que, na Sociedade Hipertexto de François Ascher presas à edificação e às lógicas, aos discursos, às linguagens modernistas e pós-modernistas – permitem concretizar um novo paradigma de civilização. As cidades são o reflexo presente de vários passados históricos, atravessados por diferentes civilizações, tecnologias e filosofias, e de diferentes futuros imaginados, sempre presente nas ambições dos seus «construtores». São conjuntos de paisagens (cruzamentos de culturas, acções edificadoras e acções naturais), de imagens, de serviços, de relações que ganham coerência pelo espaço geográfico que ocupam e pelo território (conjunto complexo de interacções entre pessoas e sítios geográficos) que representam. São sistemas, por vezes coerentes e harmoniosos, de espaços com História, Identidade e Alma. As cidades podem ser encaradas como organismos vivos e dinâmicos que se transformam diariamente através do jogo complexo de interacções e intenções dos seus diferentes actores. As cidades não são. Vão sendo! Numa interacção criativa de diferentes «lugares», carregados de histórias (por vezes colectivas) e de emoção. O valor da cidade As cidades têm valor (um sentido pessoal e íntimo, integrado numa cultura ou contexto), um valor que pode ser alterado pelo redesenho urbano. Efetivamente, a cidade pode ser «melhorada», valorizada através de intervenções integradas que, aproveitando a sua identidade, a história e a alma dos lugares, podem incidir sobre as suas formas, as suas imagens ou as suas funções. Este processo tem tudo que ver com ordenamento e (re)desenho urbano, espaço privilegiado de actuação dos arquitectos e urbanistas ao longo dos tempos. O (re)desenho urbano, esse acto de influenciar a concretização da cidade através da expressão, em documentos gráficos de diversos tipos, de ideologias e filosofias que impregnam os espaços e as relações humanas, pode ser a síntese de um conjunto de pensamentos e sentimentos que promovem a subida do valor (emocional) dos diferentes lugares da cidade. O valor oculto da cidade tem que ver com a adequação e qualidade das suas infra-estruturas e equipamentos às necessidades, desejos, expectativas e motivações dos seus utilizadores, quer sejam públicos internos (habitantes, autarcas, lojistas ou membros dos órgãos de comunicação local) ou aqueles que são predominantemente externos (investidores, turistas e visitantes que se apropriam temporariamente dos recursos locais). Tem que ver também com a cultura do local, com o nível de hospitalidade e de acolhimento que o espaço consegue garantir aos indivíduos e às organizações, com a qualidade e adequabilidade dos serviços, bens e vivências que a cidade oferece. Por outro lado, o valor oculto da cidade pode ter que ver com os espaços segregados, com as interacções inesperadas, com o nível, o tipo e a qualidade das funções urbanas, com as aprendizagens e trocas informais que estabelecemos na cidade. Mas, para além do valor oculto da cidade, existe um valor evidente que é conferido pelo prestígio, pelas suas centralidades e espaços de atracção, pelo tipo de serviços que os seus equipamentos oferecem, pelas vivências públicas existentes, pelos eventos, pelos momentos de encontro e celebração de carácter público. Este valor tem que ver com a capacidade de atracção e fixação das pessoas e organizações. Tem que ver também com a criação de momentos e situações de bem-estar, com a optimização dos benefícios mútuos e múltiplos, com a sustentabilidade (em todas as dimensões que possamos considerar) que a cidade possa ter. São estes os quatro vectores da construção de uma cidade de elevado valor. Portanto, de uma cidade carregada de Sentido! O valor da cidade é, deste modo, um elemento que o arquitecto pode trabalhar através do (re)desenho urbano, numa perspectiva de facilitar a obtenção dos pontos apresentados no parágrafo anterior. No fundo, o sentido do Desenho Urbano deve ser encontrado algures entre a arte de pensar e desenhar cidade e o compromisso de o fazer na perspectiva de conseguir apoiar os outros «produtores» da cidade na concretização de um espaço composto e complexo de muitos lugares carregados de valor, com estética, sentido e emoção. Mas neste acto nobre de propor, o arquitecto nunca se pode imaginar só, nem capaz de deliberar o que deve e não deve acontecer. O arquitecto – bem como qualquer outro «criador» de espaço e de relações (paisagens) – deve assumir a humildade simples de propor, para o bem comum e não apenas para o seu umbigo, num diálogo constante com os seus congéneres! Uma nova sociedade Mas, numa nova sociedade (rural, urbana e virtual), as redes, o hipertexto, a flexibilidade, a tolerância, o talento, a criatividade difusa e a tecnologia, sobrepõem-se numa intensa interacção que nos dificulta a leitura e a narrativa sobre a cidade, do presente e do futuro, localizada e dispersa, neste e em todos os lugares do mundo a que se encontra fortemente conectada pelas redes de transmissão de dados, que também criam e recriam, constantemente, sensações e emoções. Hoje, a cidade reflecte e expressa toda a complexa rede de interacções e dinâmicas que ocorrem na sociedade. A Sociedade Hipertexto de François Ascher é complexa, num intenso «folhado social» e económico-cultural que se suporta essencialmente na comunicação, na informação e na imagem, naquilo que deveríamos, inclusivamente, apelidar de Sociedade Hipermédia, ou seja, da imagem em movimento num contexto marcado por formas e materializações arquitectónicas e por relações mutantes e efémeras. É nesta sociedade carregada de complexidade, intensidade, automatização, sobreposição, mobilidade, agilidade e pelo efémero, que se cruza cada vez mais com o rural e as múltiplas ruralidades/urbanidades que nascem, todos os dias, em diferentes lugares, que se cria o caldo cultural e socioeconómico que origina a arquitectura, o urbanismo e as vivências de todos nós. Nesta nova sociedade, a cidade assume uma posição ambígua de maior e menor relevância nas trocas (materiais e imateriais) sendo mais um ponto de encontro das redes globais. Mas, acaba por, em certos casos, concentrar os principais pólos de articulação de um espaço global, ramificando-se de forma evidente numa rede de lugares que unem partes segregadas das cidades, criando-se uma nova cidade de partes das outras cidades, uma cidade global multilocalizada em muitas outras cidades. O melhor exemplo desta realidade é a ligação internacional das múltiplas bolsas e bairros de negócios do sistema financeiro mundial. 10 Esta nova sociedade é, muito provavelmente, o maior desafio intelectual que a nossa era coloca em termos de interpretação. Efetivamente, nesta sociedade, é possível e natural ser rural e viver a urbanidade, ser urbano e viver a ruralidade e, mais do que isso, ser virtual e, ao mesmo tempo, viver em espaço rural com uma urbanidade excepcional durante esta semana e, logo de seguida, durante 3 meses, viver uma ruralidade urbana. Ou seja, hoje, rural e urbano, cidade e território não são realidades soltas e separadas. Muito menos, são fixas ou consolidadas. São intensamente dinâmicas e devem ser pensadas como tal. Por este motivo, quando queremos interpretar a cidade e a sociedade para construir um sentido para o lugar, tudo parece tão estranho, com tantas diferenças e incertezas. Efetivamente, precisamos agora de arrumar ideias para a sua compreensão com recurso a outros conceitos e esquemas concetuais, sendo, muito conveniente utilizar a expressão gráfica e dinâmica, as representações em 3D, para interpretar, compreender e expressar tudo aquilo que poderemos imaginar sobre este incrivelmente complexo objeto. É por isso que, hoje, necessitamos de olhar, questionar e sentir diferente, de preferência com a visão dos outros, este objecto magnífico que é a cidade. Uma «nova» geração (de abordagem) Tal como a vida e o universo, as cidades transcendem os nossos limites da imaginação e serão sempre o resultado da inteligência colectiva que nasce nos processos de acção, de ordenamento, de gestão, de liderança e de comunicação (dos e) sobre os territórios. Mas, independentemente do que são nas suas componentes materiais e edificadas, as cidades são as emoções que estabelecemos com os seus diferentes sítios (transformados em «lugares» através de diversos processos de apropriação emocional). As cidades são constelações dinâmicas de lugares com diferentes significados e valores para cada um de nós. É neste contexto, de um «organismo vivo», a cidade numa sociedade hipertexto que nasce e se fortifica a «irreverência das novas gerações», capaz de nos levar a novos modos de pensar e sentir a regeneração e o redesenho urbano sustentável (como Introdução 11 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana propõe o Nor Afendras), preservando e criando sentidos (como sistematiza a Daniella Cunha) na arquitectura, no espaço urbano e nas cidades, essa estrutura estranha que hoje se transforma, desafiando a nossa criatividade compreensiva e de intervenção. Assim, se lhes queremos tocar (às cidades) de modo a preparálas para que os seus utilizadores lhes confiram sentidos específicos e positivos, temos de as trabalhar na perspectiva da criação de Comunidades Sustentáveis (na abordagem da conferências de Bristol 20054) e da construção de espaços adaptados, acolhedores, capazes de construir o bem-estar de quem os usa, em abordagens como as que Jan Gehl5 propõe. Neste entendimento, as novas mobilidades, a escala humana e a saúde andam de braço dado, associados a processos ativos e evolutivos de participação, partilha e aprendizagem (em processos de governação enriquecidos por diversos movimentos alternativos e experiências que se fazem e interligam em diversas partes do globo, alimentadas pela rede de conexões que é a Internet) que constroem Cidade. Mas… e este é o mas mais importante deste discurso, esta abordagem terá de ser feita por cérebros muito diferentes, nascidos antes e depois dos Ipads e Iphones, de arquitectos, urbanistas, geógrafos e economistas, entre outros, que desenham, produzem e usam a cidade a partir de experiências, redes e ligações neuronais muito diferentes, cada vez mais criativas, se comunicarem entre si, ou mais conflituosas, se não o conseguirem fazer! NOTAS PREFÁCIO palavra in-formação é aplicada no sentido de formar e informar a comunidade interna (in). 1A INTRODUÇÃO 1 Filha de pais portugueses, nascida na África do Sul, procurou estudar o sentido da arquitectura. 2 Nascido na Grécia, mas com origem familiar asiática, procurou estudar o reaproveitamento de estruturas arquitetónicas obsoletas para regenerar a vida nas cidades. 3 Texto reflexivo escrito pelo autor em 2010, de modo a apoiar os alunos no seu processo de aprendizagem na unidade curricular de Cidade e Território, ainda não publicado. 4 Na perspectiva de Bristol 2005, as Comunidades Sustentáveis devem ser: Bem equipadas (infraestruturadas), com bons serviços, amigas do ambiente, bem desenhadas e construídas, criativas e inovadoras, justas para todos, activas, inclusivas e seguras, participadas e bem lideradas. 5 Jan Gehl (1936-) como arquiteto e urbanista defende a premissa de que deveria melhorar a qualidade de vida urbana através da reorientação do planejamento urbano em benefício de pedestres e ciclistas. 12 CONCEITOS ARRUMADOR DE IDEIAS Álvaro Cidrais T odos adoramos ouvir um discurso fluente, que nos arrebate a alma, ver explicado em poucas palavras uma ideia que nos deslumbra. Há mais de vinte anos, na disciplina de História e Teoria da Geografia, um «velho mestre», João Ferrão, fazia milagres. Durante duas horas seguidas, dissertava estruturadamente, com uma clarividência espantosa, sobre os temas da Epistemologia e da Teoria da Geografia, que outros professores tinham já aflorado, sem eficácia e sem sentido, num emaranhado de ideias que tínhamos de fixar. O sucesso das exposições de João Ferrão, sobre temas tão complexos, baseava-se apenas em dois factores: a utilização de esquemas concetuais (mapas desenhados no quadro, compostos por conceitos e ligações que assumíamos como arrumadores de ideias) como instrumento de expressão de ideias e, ao mesmo tempo, a existência de um pensamento fluido e simples (estruturado) que, anos mais tarde, percebi ser o resultado da utilização intuitiva dos «esquemas concetuais» como ferramentas de organização do pensamento. É isso mesmo. De facto, as magníficas aulas e os brilhantes pensamentos daquele mestre têm a sua origem nestas ferramentas que criaram uma rede de suporte extraordinária para agregar, com significado e sentido, em qualquer momento, as ideias que lhe chegam. Funcionam como mapas de orientação para caminhos de uma floresta desconhecida. Por esse motivo, anos mais tarde, impelido pelo Nuno Pena, licenciado em filosofia e doutorado em «Aprendizagem com meios digitais», explorei essa ferramenta, aplicando-a experimentalmente nas disciplinas que lecciono, designadamente, em Cidade e Território, onde a complexidade dinâmica da cidade (na Sociedade Hipertexto) nos exige uma grande disciplina intelectual para libertar a criatividade, ousando «novas abordagens». O resultado não poderia ser melhor! Mas, para perceber, em certa medida a relevância dos esquemas concetuais como arrumadores de ideias e o que está na base do sucesso, precisamos de entender como funciona o cérebro! Ao que parece, os nossos pensamentos constroem-se através de nós (pólos) e ligações, baseados nas trocas químicas e energéticas que ocorrem entre artes do cérebro. São fortemente marcados pelo desenho das redes neuronais pré-existentes, construídas nas primeiras etapas da vida e constantemente reformuladas ao longo do tempo, por experiências marcantes, encontros significativos com artífices (mestres) relevantes e através de processos estruturados que raramente são conscientes. Comparando o funcionamento do cérebro com o de uma cidade, poderemos imaginar que os padrões neuronais que criam os hábitos e as ideias estruturantes de uma pessoa são as vias, as praças mais marcantes e as avenidas de circulação rápida que estruturam uma rede de estradas, ruas, praças e vielas onde Conceitos 15 Estractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana deambulam pessoas, carros, carroças, camiões, bicicletas, etc., numa imensa e quase caótica interacção, que cria a vida da cidade e dos seus habitantes. A rede neuronal do cérebro transporta inúmeras sensações e percepções que nos permitem sentir, interpretar, pensar e agir, comunicando aos outros aquilo que pensamos e somos (ou estamos) num dado momento. Esta é a rede de apropriação pessoal das paisagens. É ela que estrutura a história de vida que cada um de nós é capaz de inventar, vivendo e construindo narrativas próprias, idealizando, concetualizando, expressando o que lhe vai na alma. É desta base que nasce a Arte, a Ciência e a Criação! É nesta rede complexa de nós e ligações (composta por neurónios, sinapses e dendrites, trocando, intensa e continuamente, uma enorme pluralidade de compostos e soluções químicas) que nasce grande parte da criatividade e, ao mesmo tempo, a tendência para a criação de pensamento divergente e inovador ou estruturado e organizador. É o «desenho» desta rede neuronal que nos torna mais criativos, mais estrategas, mais racionalistas, filósofos, engenheiros, contabilistas, artistas, etc., num padrão que parece funcionar entre dois eixos cruzados de processos cerebrais, um que coloca em polos opostos a emoção e a razão, outro que separa a focalização e a divergência (base da criatividade). Este «desenho estruturante» predispõe-nos para certos padrões de pensamento, de atitude e de comportamento que, muitas vezes, não são racionalizados, por isso, mais difíceis de partilhar com os outros e de controlar em nosso proveito. É este padrão que, sem darmos por isso, vamos construindo e reforçando no quotidiano, nas nossas interacções diárias, especializando o cérebro num conjunto de cadeias de pensamento e de emoção/sentimento que, eventualmente, nas escolas, vamos treinando, com os inúmeros desafios e exercícios que fazemos, com sentido e significado. As cadeias de pensamento estruturante funcionam como os pilares de uma edificação que permitem criar compartimentos diferentes, separados por paredes de vidro, de gesso acartonado, de tijolo, de pedra ou de betão. A posição relativa, a quantidade, a solidez e a consistência dos pilares (que formam conjuntos mais complexos, mais rígidos ou mais flexíveis) permitirá acondicionar maior ou menor quantidade de informação nesses compartimentos. A rede de caminhos dessa edificação (composto por aberturas – eventualmente portas – e corredores) permitirá aceder e recombinar a informação que lá se guarda. Todavia, esta rede neuronal é intensamente interactiva, complexa e dinâmica, tendencialmente divergente, sendo capaz de acolher a imensa informação que aparece a todo o momento, perante uma pluralidade de estímulos que surgem nesta sociedade altamente conectada, mediatizada e intensa em que vivemos. Tão dinâmica que se pode tornar desestruturante e caótica, retendo no edifício todo o estímulo que vai aparecendo, sem o conseguir acondicionar de forma útil e funcional, resultando numa enorme perda de capacidade de encontrar ideias, soluções e propostas para melhorar a vida. É esta rede neuronal (os pilares do edifício) que cria um padrão cerebral que precisa de ser arrumado com o recurso a técnicas e metodologias de organização de pensamento, utilizando os instrumentos como as teorias, os conceitos e as suas ligações. Este processo de arrumação deve ser treinado nas escolas, desde muito pequenos, prolongando este trabalho até às universidades. Quanto mais consistente e «arrumado» estiver o edifício e a cidade intelectual que possuímos num determinado momento, maior capacidade terá de acondicionar os estímulos e as novas informações que chegam, criando, caso seja necessário, novos compartimentos para os «estacionar», temporariamente, com bons acessos para os mobilizar como recursos de edificação/conhecimento, estruturantes e fundamentais para o desenvolvimento da criatividade. Até porque a criatividade não tem de ser apenas um processo divergente e meramente intuitivo, descontrolado e caótico, pode funcionar num sistema organizado e planeado para a flexibilidade mental organizada, gerando ainda maior capacidade individual e colectiva de criar, recriar e memorizar novas soluções e configurações concetuais ou físicas. É por isso que se considera que os esquemas conceptuais são arrumadores de ideias essenciais na Arquitetura, no Urbanismo e no Planeamento, treinando-se, desde há alguns anos, a sua utilização prática na apropriação e construção de conhecimento nas unidades curriculares de Cidade e Território e de Geografia Humana. Os esquemas conceptuais, metodologia e técnica muito utilizada desde os anos 60 e reforçada por Novak nos anos 70 do século 20, permitem dar significado (emocional relevante) aos conceitos da Geografia Humana no contexto da Arquitetura e explicitar o sentido (de utilidade) desta informação para o desenvolvimento das competências dos arquitectos. Criam aprendizagem significativa e situada, como define Ausubel e liberta as múltiplas inteligências de Howard Gardner. Nestes Estractos Reflexivos, os trabalhos da Daniella e do Nor são já uma evidência do valor desta abordagem! Os resultados são visíveis nas estruturas conceptuais que apresentam e na relevância que tiveram para o desenvolvimento dos seus trabalhos. Prova-se assim que: os esquemas conceptuais são uma ferramenta magistral de estruturação do pensamento, de arrumação e estabilização de ideias, um instrumento essencial para a concepção do projecto. Constituem-se como a base estruturante do pensamento e da criatividade, o suporte de um enorme edifício flexível e dinâmico de desenvolvimento pessoal e profissional. Neste período de transição para uma sociedade hipertexto (hipermédia) cada vez mais complexa, interligada e efémera, mutante, os esquemas conceptuais ganham ainda mais relevância, porque ajudam, num dado momento de forte incerteza e indefinição, a mapear os caminhos do edifício mental, identificar os conceitos e as ligações que dão consistência a um pensamento (racionalizado), permitindo, ao mesmo tempo, criar memória explícita partilhável com os outros, que, quando complementada com um discurso narrativo, facilita a apropriação e a construção de novas ideias por qualquer tipo de cérebro. 16 CONCEITOS A ESCALA ENQUANTO CONCEITO TRANSVERSAL: REGENERAÇÃO URBANA Fátima Silva O estado de obsolescência a que alguns espaços urbanos e o seu edificado atinge é revelador de uma desadequação dessas estruturas aos novos sistemas de organização funcional das sociedades urbanas às novas necessidades e desejos. Sintetizando, essa desadequação não será mais do que um problema de escala. Essa escala de cidade onde o modelo tradicional, foi ultrapassada faz muito, (como se pode ver por estatísticas mundiais; 50% da população mundial já reside em estruturas urbanas muito em breve 2/3 dessa população será urbana) em número de almas de área, de mobilidade e de sustentabilidade económica e física. Esta parece ser a realidade sobre a qual teremos que refazer todo o sistema organizacional das comunidades humanas e fundamentalmente os critérios que constroem o conceito de escala, isto se quisermos devolver a “beleza” aos lugares, espaços de vida, e mantê-los saudáveis, sustentáveis, entendase beleza aqui como ideal de qualidade e harmonia. Então, essa desadequação dimensional poderá ser entendida como um problema de escala? Estas perguntas, entre outras poderão abrir um caminho à discussão teórica, necessária e até urgente, no actual contexto de rápida transformação que o nosso “mundo” está a enfrentar. Não que sejam inéditos na história da civilização humana, estes períodos de transformação mas, é por certo um dos mais acelerados em tempo útil à escala humana, facto que torna mais urgente este tipo de reflexões que ajudam a procurar re- estabelecer uma continuidade no desenvolvimento da sociedade humana sem descontinuidades, de modo a nos permitir participar na construção dessa “espessura” ou camadas que alicerça as que se seguirão. A procura de novos critérios para uma redefinição do conceito de escala que em tempos de transformação emerge significativamente, entende-se fundamental para o desenvolvimento do pensamento arquitectónico, determinando novos limites estruturais e funcionais que se venham a readequar ao desenvolvimento da escala humana. As novas relações dimensionais estabelecidas no espaço físico deverão ser repensadas de maneira integrada, relembrando-se o facto de que, - o todo é mais que a simples soma das partes mas, estas não podem ser tratadas isoladamente sem para isso se compreender a sua posição relativa e identidade dentro dessa totalidade. Se estas entidades físicas não respeitarem os limites determinados para a sua sustentabilidade, poderemos observar aquilo que se pode designar como – fenómeno de escala – que tem como resultado a “morte” funcional do espaço que em consequência o conduzirá ao abandono e degradação física ou a uma utilização negativa, a maior parte das vezes marginal, igualmente degradante. Outra das ideias associadas prende-se com a sustentabilidade que emerge deste contexto, ligado intimamente a este Conceitos 19 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana conceito de escala, tanto aplicado ao sector económico como no da salvaguarda dos recursos naturais, suporte da vida no planeta. No campo da arquitectura este conceito é basilar, pela relação directa que estabelece entre a dimensão do espaço e a do Homem. A procura da medida adequada ao desempenho funcional do espaço promove a sua durabilidade e qualidade. O conceito de escala aponta assim para a existência de um qualquer intervalo de valores concretos ou abstractos, prédeterminados pela natureza própria de cada coisa em causa, implícitos ou explícitos, a partir dos quais cada sistema funcional se dimensiona. As relações dimensionais adequadas à dimensão humana, em cada situação, balizam-se por meio de critérios de desempenho funcional, ergonómico/físico, socioeconómico, cultural, educacional, entre outros. O estado de degradação por via da desadequação do espaço urbano aos novos parâmetros dimensionais das sociedades humanas; novos ritmos e ritos de vida (já sublinhados anteriormente) colocaram as cidades, referências da civilização Ocidental, num estado de obsolescência visível pelo tecido edificado. Se por uma parte se enfrenta um acelerado ritmo da transformação nos sistemas económicos e sociais, de uma sociedade pós-industrial, por outro deparamo-nos com a pressão das exigências de uma sociedade na Era das comunicações e dos serviços, no sentido da adequação necessária ao nível do desenho e das funções. A Regeneração Urbana enquanto conceito de intervenção, nasce em resposta a uma desadequação dessa dimensão urbana, consequência de uma mudança radical na escala urbana. Programática e significativa a Regeneração urbana sustentável é em si uma acção que promove um sentido de maior consciência sobre a maneira como o território deve ser tratado. É este então problema sobre o qual se foca este primeiro sublinhado; sobre a transformação radical, da paisagem, em geral, na sua identidade e escala, e o estado de degradação física visível, em grande parte do território que até aí se edificou. A ocupação exponencialmente dos espaços livres com o crescimento das cidades, fez surgir um novo tipo de território; os territórios periurbanos, espaços híbridos desqualificados onde o critério de escala se divide entre a escala da cidade tradicional a da cidade modernista e o espaço rural. Os edifícios de habitação, antes de acompanhamento, ganham a dimensão da mancha de bairro, os arruamentos deixam de ser estruturantes e passam a serventes, constituindo-se como linhas descontínuas cruzadas por vias de circulação rápida, onde o contraste nítido entre escalas se faz sentir como barreiras intransponíveis às quais se juntam um caracter desqualificado da nova paisagem humanizada sobre a qual o Geografo Álvaro Cidrais apelida significativamente de “cacofonias”. A ideia que se sublinha de que o planeta está cada vez mais à nossa escala e as cidades cada vez menos, foca ao mesmo tempo o problema e a sua resolução numa questão de dimensão relativa - escala, conceito basilar para um entendimento da dimensão do espaço construído pelo Homem. O conceito de escala encontra na produção tanto da estrutura como da forma, ordem, programa funcional e da imagem, (no sentido arquitectónico), elementos de manipulação da sua percepção. A consciencialização daquilo que se entende como “o sentido da arquitectura ” questionado pela Daniella Maria, não será mais do que uma reflecção sobre o que é a arquitectura e o papel do arquitecto como aquele que adequa a dimensão do espaço contínuo à escala cultural do Homem, cujo sucesso ou insucesso estará na dependência do entendimento completo do “destino da obra” da dimensão humana e paisagísticas, envolvidas ou ambicionadas. O caso do Bairro Pruitt Igoe em St. Louis abordado pela Daniella, e o caso da High Line em Nova Iorque elogiado pelo Nor-Angelos Afendras, colocam no programa e no modelo funcional o factor decisivo para a sua adequação à dimensão social e humana, colocando o factor participativo como metodologia de acção para essa adequação de escala, e a figura do arquitecto como agente catalisador e “adequador” do espaço a essa escala humana. Por outro lado, a equação programática nas suas linhas socioeconómicas e culturais encontram nos espaços obsoletos um potencial foco de regeneração de partes do tecido urbano onde se integram. A reconversão de infra-estruturas, como é exemplo o projecto de reconversão da linha de comboio aérea em Nova Iorque; High Line é um exemplo de uma acção integrada regeneradora. A outra ideia inerente a estas reflexões‚ é o da flexibilização programática dos espaços, como maneira de evitar a obsolescência a que ficam sujeitos devido ao acelerado ritmo de transformação dos modelos económicos que os promoveram, implicando uma transformação impossível de sustentar. Esse grau de efemeridade e de desperdício é cada vez menos sustentável. A inclusão do cidadão na construção do seu espaço permite uma retoma da escala comunitária e da ideia de pertença perdida. O enfoque sobre o valor da imagem como um produto de desenho e da matéria construtiva reconhece num nível do conjunto uma comunicação significante. No conjunto todas estas reflexões temáticas se canalizam numa única direcção, a procura de respostas que consigam encontrar uma nova adequação de escala a partir de novos critérios da dimensão humana e do espaço. 20 EXTRACTO I A REVALORIZAÇÃO DE ESTRUTURAS PRÉ-EXISTENTES COMO ELEMENTO DE REVITALIZAÇÃO URBANA Nor-Angelos Evangelos Afendras 1. A OBSOLESCÊNCIA NO EDIFICADO URBANO Enquanto certos aspectos da vida urbana permanecem inalterados ao longo do tempo, outros atravessam fases de prosperidade e de declínio. Muitas cidades antigas não sobreviveram até aos nossos dias, e as que o fizeram, só o conseguiram pela capacidade de se adaptarem, por si só, às constantes alterações nas dinâmicas da sociedade e da vida urbana. De facto, as áreas urbanas permanecem relevantes na medida em que consigam oferecer aos seus habitantes (novos e antigos), qualidades espaciais e funcionais, assim como actividades nas quais possam participar, e que dificilmente possam ser encontradas noutro local. A um nível prático, o bom funcionamento de um ambiente urbano implica, entre outros factores, uma governação eficiente, um fornecimento ininterrupto de recursos essenciais e de um sistema de transportes eficaz. Assim sendo, e tendo em conta que as necessidades específicas das sociedades estão em constante mutação, também as estruturas criadas para resolver estas necessidades deverão obedecer a estas alterações, levando a que, quando tal não aconteça, estas se tornem obsoletas. Contudo, certas estruturas podem ter a tendência de se imporem negativamente num território urbano, criando barreiras e grandes vazios desprovidos de actividades, contribuindo desse modo para uma degradação urbana. Assim sendo, os espaços problemáticos criados por estas estruturas, podem vir a ser adaptados como áreas híbridas, que misturem actividades de modo a assegurar uma continuidade no espaço urbano, tendo, neste sentido, grande potencial para a criação de ambientes sociais vigorosos. Uma bem concebida readaptação de estruturas urbanas obsoletas pode, de um modo eficaz, fazer frente a diversas questões contemporâneas, tais como: a sustentabilidade, as variações económicas, a continuidade histórica e a coesão social. Estas questões combinadas podem, desse modo, servir de catalisador para uma regeneração urbana das áreas das quais fazem parte. A revalorização das estruturas pré-existentes nomeadamente através das funções e actividades introduzidas, da integração com a envolvente (a nível funcional e espacial), do grau de alteração física e do tipo de readaptação estrutural escolhido, consiste na componente arquitectónica. Numa outra dimensão, a questão da revitalização consiste na componente urbana, assumindo-se como fundamentais factores as políticas urbanas, a economia, a demografia, a sociologia, o desenvolvimento sustentável, a dimensão e o declínio ou crescimento das cidades. O estudo destes factores permite uma abordagem de intervenção interdisciplinar, constituindo bases para impactos de revitalização genuínos e efectivos. Extracto I 23 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana As cidades com os seus ambientes urbanos existem há milhares de anos, sendo um dos elementos basilares das civilizações humanas. Mais do que em qualquer outro período histórico as questões urbanas condicionam a sociedade contemporânea, por serem as cidades os lugares com maior concentração populacional, nos países desenvolvidos, e o virão a ser nos países em vias de desenvolvimento, ambos marcados por fortes tendências de crescente urbanização. Alguns centros urbanos, geralmente os mais antigos e consolidados, evidenciam-se pela degradação e pela perda de população. Em alguns países a implementação de políticas de revitalização urbana têm conseguido abrandar ou até reverter estes processos, mas não existe, nem seria possível existir, uma fórmula genérica, aplicável a qualquer dessas realidades urbanas. Os elementos delimitáveis na dimensão arquitectónica, que como objectos físicos têm maiores capacidades de influenciar realidades à escala urbana, são evidentemente aquelas estruturas com maior presença física, com uma localização nevrálgica e uma capacidade de se relacionar com as áreas envolventes a vários níveis. Nos contextos urbanos degradados, dinâmicas, particularmente de matriz socioeconómica, têm tido consequências significativas para algumas destas estruturas, tornando-as obsoletas. Abandonadas, estas estruturas pré-existentes podem apresentar-se como problemáticas e contribuírem para a percepção de degradação de um determinado contexto urbano. Neste entendimento, a ‘revitalização urbana’1 abrange questões urbanas, sociais, demográficas políticas e económicas, relacionando-as com uma determinada realidade de modo a abordar e intervir nesta. Se por um lado o significado de “produzir qualidade”2 é ambíguo, a definição de “revitalização urbana” é mais clara, referindo-se a condições de atractividade para as populações e ao investimento económico. Em 2008, pela primeira vez na história, mais de 50% da população mundial vivia em zonas urbanas, e estima-se que em 2050 vá alcançar os 70% (ONU, 2009, p. 8). Estimativas do Banco Mundial feitas em 1996 previam que em 2025, mais de 88% do crescimento da população mundial seria em áreas urbanas, e 90% deste crescimento se ia verificar nos países em desenvolvimento. Mais recentemente esta última estimativa foi aumentada para 95%, e no ano de 2025 4 mil milhões de pessoas vão ser habitantes urbanos, dos quais 1,5 mil milhões de bairros pobres/favelas. Atrás destes números estão numerosos contextos a várias escalas e dinâmicas que vão desde a escala de inteiras regiões urbanizadas, até à pequena escala, e às suas infinitas realidades. Enquanto por um lado, se assiste a um crescimento contínuo da população em regiões como a Ásia, através da expansão de zonas peri-urbanas e da transformação de grandes cidades em megacidades, por outro, (em outras zonas do mundo) verifica-se um declínio. Cidades nos países Bálticos e na região do Mar Negro3 têm perdido entre 17% e 22,5% das suas populações urbanas. Nos Estados Unidos, 39 cidades tiveram uma perda de população, entre os anos 1990 e 2000 (ONU, 2009, p. 8). Este fenómeno é principalmente Ocidental, sendo um resultado das emigrações de populações de economias regionais em declínio, ou de cidades satélites ou subúrbios que vêm retirar a população de um núcleo histórico. Consequência do drástico crescimento da população urbana global e dos casos contrários de decrescimento noutras regiões, são a vasta gama de situações e contextos urbanos, não facilmente reduzíveis a um número fixo de tipologias urbanas, assim como afirma Thorns: [...] cities contain enormous diversity. Crucial in creating these differences have been the pace at which the cities have grown, their historical roots and the layers of physical and social structure that have given rise to the present social and physical infrastructures and practises. (Thorns, 2002, p.1) Esta diversidade resulta das combinações de vários factores, e a partir das especificidades e relações entre estes, fazendo assim surgir diferentes realidades. Segundo as Nações Unidas (ONU, 2009), um desses factores, o planeamento urbano, tem falhado em muitos países, devido a uma visão errada dos problemas urbanos, tratados como se fossem uniformes em qualquer parte do mundo, resultando nas tentativas de criar modelos universais de abordagem ao planeamento urbano. Os sistemas de análise e os estudos académicos sobre o urbanismo têm sido dominados pela América do Norte e pela Europa Ocidental, com a consequência de serem demasiado concentrados nas situações e características destas partes do mundo (Thorns, 2002, p. 2). A crescente escala e importância das dinâmicas urbanas de outras regiões do mundo requer novos estudos e modos de abordagem. Assim sendo, percebe-se a importância do conhecimento e compreensão da diversidade dos contextos urbanos. Como já avançado, estes variam segundo uma combinação de factores históricos e contemporâneos, como: o nível e tipo de economia, os equilíbrios sociais, a escala do espaço construído e da população urbana, as estruturas espaciais das malhas urbanas, as dinâmicas demográficas e a cultura local. Nesta matriz, é possível deduzirem-se relações entre questões socioeconómicas e urbanas, chegando possivelmente até ao nível arquitectónico. Talvez sendo ainda, possível encontrar algumas abordagens para a escala arquitectónica que, relacionando-se com dinâmicas urbanas, pudessem afrontar, sem expectativas desproporcionadas, questões socioeconómicas. De acordo com Sánchez, até a participação do estado é limitada a ideologias consumistas: Estados capitalistas modernos investem em obras monumentais justificadas pela ideologia da criação de locais públicos. Funcionam, contudo, como grandes vitrinas publicitárias (Arantes, 1995), como exemplificam os casos de Bilbao, Barcelona, ou Paris. (Sánchez, 2009, p. 181) No caso de Barcelona Sánchez vai mais longe, falando da reciclagem de espaços para estes fins, onde se tenta aproveitar do que foi construído no sentido físico e de imagem para os jogos olímpicos, para fazer o Forum 2004, e outros grandes eventos direccionados à indústria consumista do turismo (Sánchez, 2009, p. 184-185). Assim sendo, Moura vê nisto um processo em que um espírito empresarial se apropria da política e da gestão urbana: Tanto Curitiba, quanto Barcelona, numa atuação corporativa, deixam que as parcerias com a iniciativa privada definam a maneira de tratar os problemas da cidade na prática do empresariamento urbano, relegando a um plano secundário os programas e projectos de cunho social” (Moura, 1999, p. 244) 24 2. CIDADES E SEUS RUMOS - PROCESSOS E ESTRATÉGIAS The structure and form of the city has become much more highly differentiated. The growth of new forms of wealth generation, have led to the restructuring of the spatial structures, within the former industrial and administrative cities. Manufacturing has declined as the key engine of growth to be replaced by a new set of activities more centred around information and leisure, recreation and tourism. Consumption landscapes have become the new focus of much western scholarship. Consumerism is seen as one of the driving forces of economic, political and social life. The global nature of the world requires us to see urban change as an interrelated process. Industrial activity has been relocated to new regions and cities, growth and decline has occurred, the demographic and social structures have changed. (Thorns, 2002, p. 69) Esta passagem de Thorns resume de modo eficaz o carácter mutável e maleável das cidades, referindo-se a muitos dos factores identificados no capítulo anterior. Se as transformações urbanas podem ser consideradas como componentes de um processo com interligações a nível global, será possível interpretar o declínio de um contexto urbano, localizado numa região do mundo, relacionando-se com o crescimento de outro. Esta não é, necessariamente, a dinâmica prevalecente, sendo que o crescimento e o declínio podem acontecer à escala global. Os aglomerados urbanos, desde o nível de certas zonas urbanas situadas no interior das cidades, passando por cidades inteiras e chegando até grandes regiões urbanizadas e transnacionais, atravessam inevitavelmente diferentes tipos de ciclos, não apenas em termos de prosperidade ou empobrecimento económico. Londres é um exemplo de uma cidade que atravessou muitos ciclos, sejam económicos, políticos e culturais, com base em critérios exclusivamente urbanos/territoriais. Desde a sua fundação, com importância regional no império romano, passando por períodos de relativo declínio e depois tornandose capital e centro do Império Britânico, Londres continua a ser uma cidade flexível, em contínua mutação, ganhando a sua importância actual como centro financeiro global, após um declínio industrial. Apesar de não ser um método exaustivo, mas potencialmente redutor, é possível identificar vários processos num ciclo de transformações urbanas atravessadas por uma cidade. Dois Extracto I 25 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana processos, o declínio e o crescimento, são contrários e absolutos, pelo menos em termos quantitativos, ao mesmo tempo que os outros processos, a preservação, a renovação e a revitalização, são possivelmente mais subjectivos. Estes últimos três processos podem ser reconduzíveis a uma consciente intervenção política/ administrativa para a metamorfose urbana, acabando em muitos casos por ficar como ideais, tendo pouco êxito como políticas concretas, e por isso aqui considerados apenas ‘tentativas’. Aceitando que cada processo não é definitivo e em alguns exemplos, só parcialmente aplicável e simplificador, este tipo de categorização é útil para chegar a uma melhor compreensão das realidades urbanas, colocando-as dentro de uma lógica de continuidade e não as isolando como se fossem realidades imutáveis. Através do estudo dos processos e estratégias de evolução das cidades será possível planear intervenções urbanas mais sensíveis aos contextos específicos, pontuais ou alargadas, com maiores probabilidades de alcançar êxito no desenvolvimento urbano. Podemos identificar, e, posteriormente definir, os seguintes processos de evolução das cidades: - Declínio - Preservação vs Renovação - Revitalização - Crescimento Declínio Entre os factores referidos por Thorns, abordados no início do capítulo, com o fim de perceber o estado em que se encontra uma cidade, torna-se mais fácil observar e realçar as componentes económicas e demográficas, que em grande parte são quantificáveis, do que outros aspectos menos fáceis de materializar. O declínio de um contexto urbano pode medir-se, portanto, analisando dados económicos, dados demográficos como a perda de população, e outros dados, como por exemplo a taxa de ocupação dos edifícios ou os fluxos de visitantes turísticos. Outros factores, por exemplo os sociais e políticos, são mais subjectivos. Aqui o objectivo é perceber estes factores, procurando as relações destes com o espaço urbano. No passado, o declínio de algumas cidades resultou no seu desaparecimento físico, enquanto hoje isto pode parecer improvável. O declínio pode manifestar-se prolongado e aparentemente irreversível. Alguns dos exemplos contemporâneos mais emblemáticos encontram-se no ocidente, e mais especificamente nos Estados Unidos, em centros urbanos desindustrializados. O rápido crescimento e a expansão de tais centros urbanos eram, em muitos casos, dependentes de um único sector industrial. Regiões inteiras industrializadas, chamadas de industrial belts, entraram em declínio económico quando esses sectores industriais deixaram de ser sustentáveis, sofrendo, em consequência, uma degradação a nível urbano. Um exemplo claro encontra-se nos centros urbanos das cidades americanas de Cleveland, Pittsburg e Detroit, as quais perderam entre 48% e 51% da sua população máxima no período entre 1970 e 2000, sendo que a última destas, Detroit, havia tido uma explosão populacional entre os anos de 1910 e 1950 (Feagin e Hill, 2006, p. 156). De acordo com um estudo de Richard Child Hill e Joe R. Feagin4, o centro de Detroit sofreu um declínio, em primeiro lugar, por causa de processos de suburbanização e, só a seguir, pela incapacidade da sua indústria automobilística de competir com outras regiões. Já em 1972 um estudo identificava como parte do problema as infra- estruturas públicas inadequadas (Feagin e Hill, 2006, p. 155). Como resultado: até hoje, cerca de 200.000 habitações foram demolidas, e tantas outras demolições estão previstas (Gaillard, 2009, p. 70). O mesmo estudo compara Detroit com a cidade de Houston, ambas cidades Norte- americanas industrializadas, colocandoas dentro de uma perspectiva global, analisando a dependência mútua, as dinâmicas e as tendências à escala mundial. Para a presente dissertação, esta observação é útil para demonstrar que alguns factores estão fora do controlo das administrações de gestão urbana, que agem dentro de áreas delimitadas. De acordo com Hill e Feagin “Cities are spatial locations in a globally interdependent system of production and exchange” (Feagin e Hill, 2006, p. 155). Esta perspectiva pode explicar o que aconteceu às duas cidades durante e depois da década de 1970. Na década de 1970, cada uma das duas cidades tinha adoptado diferentes modelos políticos de legislação económica. No caso de Detroit um modelo welfare 5, com mercados controlados por instituições estatais e sindicatos com considerável influência na política. Houston, por outro lado, tinha adoptado um modelo neoliberal, um modelo de mercado capitalista que privilegiava as empresas, e um sistema legislativo que beneficiava a acumulação de capitais. A primeira cidade pertence à área geográfica de zonas industrializadas denominada Snowbelt/Rustbelt, enquanto a segunda faz parte de outra zona industrializada, a Sunbelt. As observações feitas por Hill e Feagin neste estudo muito específico são ainda úteis, sendo um exemplo comparativo de cidades e das diferentes dinâmicas que podem contribuir para o seu declínio. Ambas as cidades, como muitas outras Norte-americanas, tinham como características a suburbanização residencial, a descentralização industrial e um racismo institucionalizado. Segundo os autores, estes eram factores importantes para a forma e o desenvolvimento urbano, factores abordados no capítulo anterior, sendo o último relacionado com as questões de exclusão social e de segregação espacial. Tendo em conta as semelhanças e as diferenças entre as duas cidades, Detroit entrou em declínio prolongado, incapaz de se adaptar a novas realidades e à competição externa, enquanto Houston, dependente da indústria petroquímica, ‘sobreviveu’. Isto durante algum tempo podia ter dado a percepção da superioridade do modelo político e urbano adoptado por Houston, até que um declínio na procura e no preço do petróleo, nos anos 1980, demonstrou o contrário, afectando fortemente a cidade. Hoje em dia, Detroit continua sofrer de um estado de estagnação6, dependente de apoios governamentais para a sua sobrevivência, enquanto Houston, devido à retoma dos preços do petróleo, retomou a prosperidade. O estudo de Hill e Feagin destaca o facto de que o futuro económico e político de uma entidade urbana é sujeito a eventos e forças externos, até transnacionais. Evidencia o declínio prolongado e incerto de muitas cidades americanas, dando alguns indícios sobre os factores e as relações que determinam o declínio, ou não, de aglomerados urbanos em qualquer região do mundo. Em geral, as cidades Norte-americanas não sofreram um declínio total, facto explicável pelo seguinte: 26 The exodus from cities, in significant numbers, did not result in a corresponding decline in North America’s urban population as there were enough immigrants to replace departing urban residents. However, the exodus resulted in the erosion of the tax base of many cities, given that immigrant incomes are generally low (ONU, 2009, p. 24). Se por um lado, as cidades industriais sofreram em grande parte períodos de declínio prolongado, o mesmo não se verificou em cidades com uma maior diferenciação nos seus ambientes urbanos. O município de Los Angeles, apesar de ter sofrido na primeira metade dos anos de 1990 um êxodo de 1,2 milhões de pessoas na população dos seus limites urbanos, teve um crescimento populacional de 960.000 pessoas, na maioria imigrantes internacionais (ONU, 2009, p. 24). Por seu lado, a cidade de Nova Iorque reinventou-se, reduzindo problemas identificáveis com o declínio, como por exemplo a criminalidade e a sua dependência no sector industrial. Nova Iorque, contexto urbano de um dos casos de estudo da presente dissertação, evitou o declínio, reforçando-se como centro financeiro global e adaptando-se noutros sectores, com consequências e políticas paralelas a nível urbano, revitalizando zonas urbanas, promovendo, por vezes, a gentrificação. Se os exemplos americanos de declínio urbano além de muitas semelhanças têm muitas diferenças, o caso da Europa é ainda mais ambíguo: There is no single clear-cut pattern by which a city loses population in favour of the conurbation first and the city-region second... many cities in Europe have continued to grow, particularly in France and in Scandinavia, and over the past 80 years some that lost ground are on the rise again, for instance in the UK. Some are also in decline, in Spain and Italy for example [...] to look at European cities though American eyes- obsessed by the decline of cities and the rise of the suburbs is not appropriate, and in fact may be less so for the USA, too. It could be that European cities are trying to exist both as cities and as metropolises, but that their strength and dynamism still lie in their centres. (Le Galès, 2002, p. 27) Enquanto nos Estados Unidos a classe média tende a ter o objectivo de habitar em unidades independentes, colocadas em subúrbios, na Europa, até dentro de sociedades com esta preferência (Reader, 2004, p. 279), diferentes factores limitam a manifestação física deste tipo de desenvolvimento urbano. Extracto I 27 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana Entre estes factores, podem incluir-se a escasse de terrenos, diferenças nas políticas urbanas, e uma cultura historicamente mais inclinada para a habitação em apartamentos (Nivola, 2007, p. 315). Todavia, assim como algumas cidades americanas, os centros urbanos de cidades industriais europeias sofreram um declínio. Milão, que durante as ultimas três décadas do século XX sofreu um decréscimo e uma fuga da sua população para zonas periféricas, manifestando-se um fenómeno de urban sprawl, na última década está a tentar inverter esta tendência. A transformação urbana de Milão tem sido feita por fases, através de operações urbanísticas de grande escala, mas com abordagens diferentes. Dentro destas abordagens podem incluir-se a introdução de novos pólos universitários nas zonas degradadas ou antigamente periféricas de Biccoca (O pólo universitário da Università degli Studi di Milano-Biccoca, com o aproveitamento de estruturas industriais pré-existentes, reconvertendo fabricas e armazéns) e Bovisa (o novo pólo do Politecnico di Milano, que também aproveitou algumas estruturas industriais pré-existentes), a revitalização da zona de Porta Génova (readaptada ao longo de anos em pólo de desenho industrial e de moda) e de grandes projectos de parceria público-privada, como no caso da zona Garibaldi Reppublica, (uma mistura de edifícios destinados à administração pública e outros com o fim de criar uma ‘cidade de moda’). Milão é uma cidade europeia histórica, nunca tendo sido exclusivamente dependente do sector industrial como as cidades americanas referidas. Conseguiu diversificar e valorizar outros sectores, ultrapassando a fase industrial para se manter sede bancária e financeira importante, centro mundial de moda e destino de feiras internacionais. Nesta fase de transição, o centro urbano encontrou-se com zonas industriais obsoletas e abandonadas e, beneficiando da presença e importância de outras actividades, conseguiu reaproveitar os elementos préexistentes espalhados no seu espaço urbano. Para evitar a degradação prolongada do seu espaço urbano, causado só em parte pelo declínio de um único sector económico, Milão recorreu a grandes operações de renovação urbana, preservando o seu centro urbano. Este exemplo demonstra então duas possíveis direcções para um centro urbano; a tentativa de preservar o que se acredita ter um valor superior, quando intacto, e a renovação urbana, um tipo de operação por vezes escolhido para enfrentar situações de declínio. Preservação vs Renovação Há muitas cidades que ao longo da história renasceram ou ultrapassaram crises e períodos de declínio. Podem surgir uma infinidade de factores imprevisíveis, entre outros os económicos e sociais, à escala global ou menos extensa, os quais podem jogar um papel decisivo no rumo de uma cidade. Mas assim como as cidades têm evoluído, as autoridades locais têm tentado controlar e orientar os seus destinos através ou com a criação de instrumentos diversos de política para o desenvolvimento urbano, que integram novos sistemas de governação local. É possível identificar dois tipos de acção, ocupando extremidades opostas, de como se pode agir no tecido urbano, sendo estes: a tentativa de Preservação e a tentativa de Renovação. Paradoxalmente, no caso da China é possível encontrar situações que se podem considerar uma combinação das duas acções, onde bairros históricos, chamados hutong, são ‘preservados’ através da sua demolição e reconstrução mímica (Koolhaas, 2007, p. 38). A tentativa de preservar centros históricos tem como origem as ideias elaboradas por teóricos como Camillo Sitte, William Morris, Violet Le-Duc e John Ruskin. Legislações com este fim começaram a ser introduzidas em países europeus, existindo em França, desde 1790, e em Inglaterra, desde 1877. A tentativa de proteger elementos históricos da cidade ganhou importância ao lado da ascendência do modernismo, em cidades de rápido crescimento, nas quais havia o perigo da destruição do passado. As políticas de preservação têm um lugar importante na Europa. Na Inglaterra existem mais de 8.000 Conservation Areas7, incluindo não só uma parte limitada do centro urbano, mas até cidades inteiras. Itália tem muitas cidades de dimensões significativas, entre as quais Florença, Roma e Veneza, nas quais se preserva o centro histórico. Através da Unesco8, a valorização de centros históricos e dos seus elementos arquitectónicos temse espalhado para outras regiões geográficas. O acto de atribuir um elevado valor a uma zona urbana histórica, designando o seu tecido urbano como área a preservar, consiste na intenção de realçar a importância e visibilidade de tal zona, aumentando o seu interesse. Se, por um lado, se tenta preservar estruturas sociais e culturais, por outro lado, desejam-se resultados no turismo e na economia. A perspectiva de renovação urbana tenta fazer uma avaliação das pré-existências contrária à abordagem da preservação. Neste caso, considera-se indesejável manter o tecido urbano, preferindo-se avançar com o redesenho e a introdução de novas estruturas no espaço urbano, demolindo e dando nova forma e ímpeto, social e económico, às dinâmicas urbanas do espaço, possivelmente para evitar ou recuperar uma situação de declínio e consequente degradação urbana. Segundo o Dictionnaire de l’urbanisme et de l’aménagement (Amiot e Merlin, 1988, p. 579), a renovação urbana consiste na: Démolition, en vue d’une construction nouvelle, d’un secteur urbain occupé par de logements, des activités ou de façon mixte. Cette définition montre que le terme, consacre par l’usage et par le réglementation, est impropre: on devrait parler de démolitionreconstruction et réserver l’expression de rénovation a la réhabilitation. A renovação urbana é portanto um termo que implica transformações, muito mais pesadas do que a palavra ‘renovação’ poderia sugerir. O Dictionnaire de l’urbanisme et de l’aménagement considera também algumas das possíveis causas pelas quais se avança com a renovação urbana: La rénovation urbaine est une opération d’ensemble qui concerne la totalité, ou l’essentiel, du bâti d’un secteur. Elle peut être motivée : - par la mauvaise qualité des bâtiments : l’insalubrité de certains quartiers anciens a été à l’origine des opérations massives de rénovation urbaine des ânées 1960 et 1970 ; la délinquance qui y trouvait parfois refuge a également été évoquée; - par leur inadaptation : on rénove ainsi des quartiers d’usines ou d’entrepôts pour construire des logements ; des secteurs d’habitat vétuste pour construire des ensembles de bureau ou des logements modernes, le voisinage d’une opération de voirie, etc.; - par leur insuffisante occupation du sol (c’est souvent le cas dans les centres urbains, en particulier dans les quartiers d’affaires ou susceptibles de le devenir) ou par leur inadaptation à la circulation automobile. (Amiot e Merlin, 1988, p. 579) Esta definição serve para realçar a existência de renovações urbanas em todas as épocas, destacando todavia as operações urbanas efectuadas por Haussman em Paris. O Dicionário do Imobiliário : Habitação : Construção : Urbanismo tem uma 28 definição mais analítica, considerando alguns dos efeitos históricos da renovação urbana, e segundo o qual esta é: Operação urbanística de remoção, ou demolição, de espaços urbanos degradados, seguida da reconstrução desses espaços, através de novas edificações. As políticas de renovação urbana implicaram nas décadas de sessenta e setenta, em algumas situações ocorridas nas grandes cidades alvo de um processo de terciarização*, a expulsão da população local, sem atenção ao património urbano e aos quadros de vida social aí enraizados e às respectivas identidades. A população residente nas zonas antigas e mais ou menos degradadas do centro das metrópoles foi, também devido a essas operações de renovação urbana, engrossar as periferias urbanas das metrópoles. (Antunes, 1996, p. 430) Assim parece que a renovação consiste mais na eliminação total dos traços históricos de um lugar, substituindo esses por reconstruções espaciais de efeitos negativos, alienando a população local. Um dos exemplos mais extremos de renovação urbana foi a proposta provocatória de Le Corbusier9 no Plan Voisin, publicado em 1925. Nesta proposta a geometria, as exigências de higiene e os conceitos racionalistas dominam e eliminam quase todas as pré-existências. Nela, edifícios de 60 pisos e com capacidade para até 1.200 habitantes ocupam um terreno central de Paris criado através da demolição de edificações históricas. A área do projecto consistia em grandes espaços verdes apenas com 5 por cento de superfície do solo edificada. Anos depois, na década de 1960, a influente escritora Jane Jacobs10 criticava as políticas urbanas de renovação frequentemente adoptadas nos Estados Unidos, (em particular as iniciativas do burocrata Robert Moses11), sendo os seus escritos um “frontal attack on the planning establishment, especially on the massive urban renewal projects that were being carried out by powerful redevelopment bureaucrats [...] derided urban renewal as a process that only served to create instant slums” (LeGates e Stout, 2007, p. 98). Estes projectos de renovação urbana consistiam na substituição de bairros pobres através da demolição do tecido urbano préexistente e do redesenho e construção de grandes blocos de apartamentos, sendo disto exemplo a operação urbana de PruittIgoe12. Extracto I 29 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana Berlim é um exemplo mais recente, útil para perceber o carácter e as possíveis consequências da renovação urbana. Esta foi uma cidade que ao longo da história renasceu em mais do que uma ocasião, ultrapassando períodos de forte declínio e crise. Em 1989, a queda do muro que dividia a cidade marcou o fim de um destes períodos e deu oportunidade a Berlim para planear uma fase promissora de revitalização urbana. A renovação urbana pode ser um instrumento manipulador para o redesenho não simplesmente do espaço urbano, mas também da imagem, da história e da identidade mais profunda de um determinado contexto urbano. Esta realidade ficou evidente no caso de Berlim, que foi comprometido por vários interesses, acabando em operações urbanísticas de renovação que desvirtuam o sentido da cidade. Após a reunificação da Alemanha, os grupos políticos e empresariais de Berlim viam a oportunidade da cidade ganhar o seu lugar no mundo da globalização, e começaram a construir imagens próprias do futuro desta (Lehrer, 2006, p. 332 e 337). Fazia parte de uma ideia de identificar Berlim como futura cidade ‘Global’, fundada em previsões demográficas que indicavam um crescimento da população de 3,46 milhões de habitantes para cerca de 6 milhões em apenas duas gerações. Berlim tem uma localização vantajosa, no centro, entre a Europa ocidental e oriental. Por esse motivo, houve a tentativa, com a criação da entidade Partner für Berlin em 1994, de atrair grandes empresas às quais o posicionamento geográfico e político de Berlim podiam ser vendidos como vantagens favoráveis para o investimento na cidade. O Partner für Berlin era uma agência público-privada na qual colaboravam 120 empresas e o Senado da cidade. Fazia parte de uma estratégia que também incluía uma componente cultural, pela qual foram organizados grandes eventos, incluindo concertos musicais e eventos como a Love Parade, na qual chegaram a participar mais de um milhão de pessoas, e o revestimento do Reichstag pelos artistas Christo e Jean-Claude13. A arquitectura foi um dos principais elementos utilizados para ajudar Berlim a renascer e a criar a identidade de ‘cidade global’. Foram realizados vários projectos no centro urbano, de autoria de arquitectos famosos, sendo o maior e mais ambicioso desses a Potzdamer Platz, apresentada como “Europe’s largest construction site”. Este projecto, no qual participaram arquitectos 30 como Renzo Piano e Álvaro Siza, ignorou o seu contexto, criando uma mistura irracional de arquitecturas e eliminando elementos e traços históricos ‘negativos’, que faziam lembrar a Guerra Fria ou o regime Nazi (Lehrer, 2006, p. 337). A câmara municipal, apesar de ter grandes ambições para a cidade, estava fortemente endividada e dependia dos actores económicos envolvidos nos processos urbanos para a realização das intervenções. Como resultado, o projecto para a Potzdamer Platz tem características que podem ser consideradas de uma operação de renovação urbana, incluindo certas conotações negativas. O projecto final teve que acomodar dinâmicas urbanas, e pressões sobre estas, que iam além das fronteiras administrativas; “Urban development, organised with foreign investors and with the support of the Senat during a period of financial upheaval, has generated an explosion in the property market” (Le Galès, 1996, p. 219). Portanto, o desenvolvimento urbano era fortemente condicionado pela presença de investidores internacionais e por um mercado imobiliário incontrolável. A componente pública do projecto para a Potzdamer Platz, espaço nevrálgico, histórico e central, foi condicionada por fortes interesses políticos e económicos, para os quais foi importante a negação de partes do passado (“history-less”), eliminando para este fim os traços do muro e de alguns edifícios ligados ao Nazismo, pensando- se em como atingir os maiores rendimentos possíveis (Lehrer, 2006, p. 337). O planeamento urbano acabou por ser utilizado como instrumento de estímulo, programando um crescimento económico que valorizava economicamente as propriedades municipais e reduzia as dívidas. Os eventuais compromissos do projecto para satisfazer os actores económicos chegaram a estimular comparações entre a maneira de fazer e os valores ‘Europeus’, e os supostamente ‘Americanos’14. 1. Planta do Plan Voisin (Paris, França), Le Corbusier, 1925 (De Gracia, 1992, p. 46) 3. A Potsdamer Platz antes do muro (Berlim, Alemanha), 1931. 4. A Potsdamer Platz com o muro (Berlim, Alemanha), (Reader, 2004, p. 201) 1963 (Reader, 2004, p. 201) Hoje em dia, Berlim tem conseguido difundir a sua imagem pela Europa e o resto do mundo, mas o desenvolvimento económico e a expansão demográfica não se realizaram segundo as esperanças das previsões iniciais. Os objectivos de atingir um papel de ‘Cidade Global’ recuaram para a escala de cidade capital da Alemanha reunificada, função oficial desde 1998. O caso de Berlim ajuda a perceber o que pode acontecer quando ideais de revitalização urbana cedem espaço a interesses mais 2. Maqueta do Plan Voisin (Paris, França), Le Corbusier, 1925 (Sandler, 1999, p. 24) 6. Renovação urbana falida - a demolição de Pruitt-Igoe (s.n., s.d.) 5. A Potsdamer Platz após sua renovação urbana (Berlim, Alemanha), 2004 (Reader, 2004, p. 201) Extracto I 31 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana fortes, resultando neste caso em operações de renovação urbana descontextualizada, onde a experiência do espaço urbano é reduzida ao consumo de imagens. O caso específico da Potzdamer Platz pode ser considerado exemplo no qual o processo da obra em construção faz parte de uma estratégia de marketing (Lehrer, 2006, p.334). Na reedificação desta zona, segundo Lehrer, houve a spectacularisation (‘espectacularização’) do processo construtivo e a projecção de Berlim como cidade global e centro cultural foi feita através uma apresentação histórica manipulada e selectiva (Lehrer, 2006, p.334). Neste caso é evidente o papel atribuído ao planeamento urbano para a criação e demarcação de lugares urbanos em que o contexto global acaba por prejudicar as considerações do contexto na escala local. A competitividade de uma grande cidade histórica baseou-se fortemente na edificação e imagem dessa, de uma zona urbana, banalizando o resto. Todavia, na mesma época, houve outras experiências urbanas que, apesar de não sobreviverem, foram processos nos quais surgiram novos conceitos, subsequentemente discutidos no último caso de estudo desta dissertação, o Palast der Republik. Revitalização Tentou-se definir a revitalização urbana no início da presente dissertação. Portanto, aqui pretende-se complementar essa informação com alguns exemplos e críticas. É essencial perceber que a revitalização pode consistir em acções muito variáveis, implicando assim transformações urbanas de diversos tipos. Uma evidente diferença entre este processo e o de renovação urbana é a possibilidade de instigar mudanças significativas na urbanidade de um lugar, sem necessariamente recorrer a reconstruções físicas desestabilizadoras. A revitalização, quando comparada com a renovação urbana, pode promover mudanças mais subtis no edificado, nem sempre visíveis no ambiente urbano. Este aspecto pode atribuir-se a outra diferença vital entre as duas – a revitalização nem sempre é planeada, por vezes acontece de modo espontâneo, sem a intervenção das administrações públicas. Porém, considerando o envolvimento destas últimas na criação de alguns lugares públicos, Fernanda Sánchez utiliza três termos: a ‘sociabilidade fictícia’, a ‘estetização das relações sociais’, e a ‘cidade- espectáculo’ (Sánchez, 2009, p. 181), os quais reflectem uma opinião desconfiada em relação aos efeitos da revitalização urbana planeada. Segundo Sánchez, considerando situações com forte envolvimento e planeamento por parte de autoridades administrativas: Por trás desses novos conjuntos urbanísticos apresentados como capazes de recuperar a identidade local, assiste-se ao surgimento de paisagens urbanas com resultados repetitivos que, surpreendentemente, provocam a sensação de descolagem com a identidade do lugar, muito embora sua justificativa projetual se dê em nome de um diálogo com a cidade existente. (Sánchez, 2009, p. 182) De acordo com Sánchez, projectos políticos de cidade e a consequente reorganização económica e espacial, na qual “o urbanismo é instrumental à nova ordem”, causam dinâmicas transformadoras que “reiteram a fragmentação espacial” (Sánchez, 2009, p. 182). Assim parece que, segundo Sánchez, as políticas de revitalização urbana, tentativas conscientes de intervenção, têm resultados contrários às intenções. Em certos casos, em vez de criarem projectos que se integram com a cidade, manifestam- se em conflito com a identidade original da cidade. O fenómeno de gentrificação, evidentemente importante para a compreensão de um contexto de revitalização urbana, está interrelacionado com a iniquidade e exclusão social. Existem duas correntes de pensamento em relação aos habitantes locais afectados negativamente pela gentrificação. A primeira corrente atribui a responsabilidade ao indivíduo, quando este não consegue aproveitar e adaptar-se às novas realidades. A segunda corrente tem a opinião de que se trata de uma questão estrutural de factores económicos e sociais, os quais se podem e devem alterar, porque condicionam a geração de riqueza e causam a exclusão social (Thorns, 2002, p. 175). Sánchez, utilizando a definição da gentrificação de Neil Smith15, faz parte do segundo grupo: O processo dito de “gentrificação” designa as práticas de reapropriação de espaços pelo mercado por intermédio de operações urbanas que lhes conferem novo valor económico e simbólico, geralmente orientando-os para o consumo – residencial ou de serviços – das camadas médias. Apresentados, para fins mercadológicos, como espaços “revitalizados”, neles, porém, a população original vivencia a “revitalização” como mecanismo gerador de expulsão e segregação social. (Neil Smith apud Sánchez, 2009, p. 179) Esta definição vê uma interligação entre operações urbanas, o mercado imobiliário, a expulsão e segregação social, os quais, de acordo com Sánchez, acontecem da seguinte maneira: Em nome da sustentabilidade e da competitividade, muitos desses projetos “revitalizadores” de regiões da cidade demarcam novas fronteiras urbanas (Smith, 1996) e desencadeiam processos de expulsão social e de gentrificação, de conversão de segmentos da cidade às exigências e aos padrões de uma nova geografia, uma nova recodificação das relações sociais ao mesmo tempo inclusiva e excludente. (Sánchez, 2001, p. 179) O projecto para a suposta revitalização do Transvaal, Haia, um dos bairros mais pobres da Holanda, com uma população de 17.000 habitantes, composta por 75% de estrangeiros, é praticamente uma operação de renovação urbana de planeada gentrificação, assim como entendida por Sanchez: 3.000 casas de famílias com baixo rendimento vão ser substituídas por 1.600 novas unidades de luxo (Haydn e Temel , 2006, p. 89). Entre as justificações para esta intervenção, incluem-se a necessidade de reduzir uma densidade edificada muito alta, criando, assim, mais espaços abertos, que também permitirão a inclusão de uma maior variedade de elementos urbanos. Um ponto a favor desta operação poderia ser o facto de que, anualmente, 30% das habitações da zona mudam de residentes. Algumas das situações de degradação urbana mais evidente encontram-se em zonas que, tendo um passado industrial, têm dificuldades na adaptação pós-industrial, marcadas por uma falta de novas actividades que substituam as antigas. Muitas políticas urbanas concentram-se na reabilitação de edifícios habitacionais, ou como no caso do Traansval, na reconversão de um bairro residencial numa área de nível mais elevado e exclusivo. Pode-se assim supor que a forma urbana de bairros industriais, com as suas diferentes estruturas préexistentes, poderá conter um elevado potencial para uma revalorização e revitalização profunda e rica. 32 Crescimento A preservação, renovação e revitalização são processos que por vezes se constituem em acções e estratégias de política urbana, sendo possível que a última destas surja de modo espontâneo e não planeado. Se por um lado a primeira destas intervenções consiste na protecção de um ambiente urbano, as outras tentam impulsionar transformações a fim de evitar ou afrontar uma situação de estagnação e declínio. “Crescimento” aqui não implica apenas a expansão física, mas a intensificação de actividades, da urbanidade e vivacidade dos contextos urbanos. Neste sentido, pode ser considerado o crescimento económico e (o retorno) populacional. Se estes dois factores são elementos essenciais nos processos e rumos previamente abordados, influenciando as dinâmicas e a evolução dos centros urbanos, principalmente ocidentais, em muitas regiões do mundo criam problemas com manifestações contrárias. Em contraste com algumas cidades ocidentais que, aproveitando com êxito a revitalização e a regeneração urbana, voltaram a crescer, e outras cidades que conseguiram ultrapassar períodos de crise externa sem serem afectadas, as cidades dos países em desenvolvimento apresentam tipos de ‘crescimento’ muito diferentes. Sofrem de crescimento em termos físicos (expansão urbana e crescimento populacional) e económicos. Em alguns casos, o crescimento urbano não é acompanhado por um ritmo de crescimento económico equivalente, e portanto não é acompanhado por um melhoramento das condições de vida dos (novos) habitantes locais. De facto, muitos centros urbanos Asiáticos caracterizam-se por altos ritmos de crescimento e migração, resultando numa grande dificuldade em definir os limites urbanos, e a dialéctica periferiacentro. Ao mesmo tempo, nesta região, são identificáveis sistemas espaciais pré-existentes, incluindo malhas urbanas habitacionais e estruturas com as características estudadas. Mas o planeamento urbano tem-se concentrado, predominantemente, no novo, enquanto o que é antigo sofre intervenções de renovação, como, por exemplo, nas cidades de Singapura e Pequim. Nestas cidades, a ênfase é virada para a construção de certas tipologias, assim como afirma Sánchez (2009, p. 181): “A Extracto I 33 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana construção de áreas dotadas de tecnologia de última geração, recorrendo a escolha de torres a fim de enfatizar este aspecto, autorreferentes em sua linguagem arquitectónica”. Todavia, em contraponto, agora, em alguns casos, já se começa a perceber, apreciar e a proteger o património, mesmo em Singapura e na China, com seus bairros históricos a serem alvo de recuperação e requalificação. Estas intervenções, em alguns casos, tendem a subjugar-se a estratégias de marketing de cidades, enfatizando contextos históricos específicos e não consistindo em tentativas autênticas de preservação/regeneração. Se por um lado, nos países desenvolvidos, o declínio urbano está relacionado com o decréscimo populacional e a degradação social e económica, por outro, seria importante perceber o que vai eventualmente acontecer no Sul e no Oriente. Será o mesmo que se tem assistido no Ocidente? Como? Quando? Quais poderão ser as lições e experiências úteis do Ocidente? O que se poderá aprender a partir do Ocidente em termos de erros e experiências? No caso de centros urbanos que saltaram a fase industrial, assiste-se actualmente à construção de estruturas de mobilidade sem precedentes de escala. Verificam-se processos de completa transformação. As intervenções no espaço urbano consistem, em primeiro lugar, na identificação e abordagem de factores críticos de evolução, decisivos quando se pretende modificar o ambiente urbano. Estudar e tentar colocar um contexto urbano específico dentro das fases cíclicas urbanas pode ajudar a esclarecer as circunstâncias que o definem, permitindo valorizar as intervenções, de modo a haver fundamentos válidos e profundos, que inserem a intervenção no sentido do lugar. Além da compreensão de factores relacionados com os ciclos urbanos, são identificáveis factores que podem ser considerados independentemente das fases cíclicas, sendo mais relacionáveis e com maior influência para o projecto de intervenção específico, na escala arquitectónica de intervenção. Factores fundamentais para a revitalização Quando a leitura de um território conclui pela necessidade de se efectuar operações revitalizadoras, essa constatação deve-se, normalmente, à falta de elementos que o animam e lhe conferem vitalidade no presente, alguns dos quais, possivelmente, teriam existido no passado. Uma intervenção urbana poderia apontar para o regresso destes elementos, tendo em conta que realçar demais alguns factores, e subvalorizar outros, pode criar situações de revitalização em que o resultado poderá manifestar-se como parcial, aparente, superficial ou exclusivamente imagético, servindo grupos sociais específicos e não necessariamente as populações locais. A revitalização urbana passa pelo investimento na requalificação “em termos urbanísticos, económicos e sociais e pela criação de condições de atractividade para o retorno de população e de investimento económico aos espaços desvitalizados” (Antunes, 1996, p. 434). Identificam-se portanto três principais campos de acção: o económico, o social e o urbanístico. É difícil isolar completamente cada campo de acção, relacionando-o com a revitalização, sem se referir as suas relações com outros factores. Por exemplo, se num centro urbano específico as actividades económicas habituais se considerassem como não sustentáveis ou proíbidas, as actividades culturais, convencionais e alternativas, poderiam, indirectamente, assumir o papel do elemento económico, considerando que o sucesso destas teria inevitáveis consequências a esse nível. Pode-se supor que o campo social é o mais visivelmente relacionável com a vivacidade de um ambiente urbano, sendo a vivacidade efectivamente objectivo principal da revitalização. O campo de acção urbanístico tem efeitos directos para, e deveria ser considerado em função de, factores sociais e económicos. As acções específicas no campo urbanístico (como por exemplo incrementar zonas pedonais), podendo também ter efeitos evidentes mas indirectos para os outros dois campos, só podem ser consideradas bem-sucedidas quando resultam na melhoria global e não discriminatória dos outros dois campos de acção. A revitalização efectiva de um contexto urbano implica a criação e permanência de certas condições, que estimulam o aparecimento de diferentes usos e uma variedade de funções, proporcionando características que tornam os espaços urbanos “vivos”. As dinâmicas de controlo, as políticas urbanas e o papel do privado, em conjunto com a participação do público e a utilização espontânea, são outros factores fundamentais para a (dimensão urbana da) revitalização. Usos e variedade de funções A qualidade da urbanidade de um lugar deve-se à variedade das funções presentes, funções desfrutáveis por vários grupos sociais. Desde a antiguidade que é apreciado o contributo dos espaços públicos, facto não só visível nos vestígios de cidades antigas, mas também nas palavras de Pausanias16, segundo o qual não se pode chamar cidade a espaços onde não existem edifícios públicos e praças. Por outro lado, Aristóteles17 considerou a importância da diversidade dos habitantes de uma cidade, sustentando que “A city is composed of different kinds of men; similar people cannot bring a city into existence” (Madanipour, 2007, p. 161). Somando as duas afirmações, uma cidade, para se considerar como tal, necessita de edifícios e espaços exteriores públicos, em conjunto com uma variedade de pessoas. Assim como previamente avançado, segundo Peter Hall, a grandeza de Atenas na antiguidade não se deveu à sua forma urbana (exceptuando-se a importância dos espaços públicos), que não se revelou muito sofisticada em comparação com outras civilizações antigas. O que se destacava nesta cidade eram as actividades, como o teatro e vários festivais anuais, entre outras, e a participação e interacção dinâmica dos seus cidadãos. Em vez de conter cidadãos a viver vidas isoladas e condicionadas por uma classe social ou profissão especializada e fechada, Atenas oferecia aos seus cidadãos uma cidade aberta e interactiva. Após milhares de anos, a importância da pluralidade de funções e de espaços exteriores públicos é mais evidente que sempre, e por isso estas são fundamentais para a revitalização urbana. De acordo com o relatório Habitat do 2009 das Nações Unidas: “ […] Mixed-use environments and good public open spaces are important, especially as places for small and informal businesses” (ONU, 2009, p. 17). Portanto, ambientes urbanos com a presença de várias utilizações são importantes, assim como a presença de espaços públicos abertos. Segundo as Nações Unidas, nesta perspectiva incluem-se pequenas actividades empresariais informais. Este princípio não se deve limitar aos países em desenvolvimento porque aparenta ter grande potencial em países com ambientes urbanos estagnantes, sobrecarregados por leis e restrições, 34 e incapazes de fomentar um clima acolhedor para pequenas iniciativas privadas. É necessário relacionar a cidade directamente com essas actividades para contrariar a dominância no espaço urbano contemporâneo por complexos de edifícios mono- funcionais urbanos e suburbanos, incluindo tipologias como os parques de escritórios do sector terciário, sendo possivelmente o exemplo mais emblemático os centros comerciais. Podemos assim entender que uma grande quantidade de actividades e funções não beneficiam efectivamente o espaço urbano se ficarem fechadas dentro de limites, separando e isolando o privado do público. Eberhard Zeidler18, em 1983, já afirmava que a construção de grandes complexos multifuncionais “[…] swallowed up the varied uses and activities along the street and sealed them into a monotonous indoor environment” (Eberhard, 1983, p. 9). A propensão para planear e construir de tal modo é possivelmente explicável pela herança do modernismo e pela relevância do conceito de zoning. A ideia de zoning aplicada durante o modernismo parcelou funções, ignorando, segundo Eberhard, a importância das interrelações urbanas: Regrettably, the pioneers did not consider interconnectedness within a city to be important. Instead they viewed cities as containers for many separate functions, each one suffocating the others unless they were kept separated [...] Failure of such utopian models as urban renewal, satellite suburbs, office campuses and the like has demonstrated the insensitivity – and futility – a modern planning philosophy which ignored the interdependence of everyday activities (Eberhard, 1983, p. 9). Nesta citação, Eberhard critica o que, no seu entender, são modelos utópicos, que pode concluir-se, eliminam ou evitam a vivacidade do espaço urbano. Características dos espaços urbanos “vivos” A vivacidade do espaço urbano depende dos habitantes locais e, concentrando-se especificamente nos centros, observa-se que são dependentes também dos fluxos de pessoas provenientes de outras zonas, quer sejam de zonas urbanas da mesma cidade ou de locais externos ao próprio aglomerado urbano. No caso Extracto I 35 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana mais extremo vêem-se algumas ‘cidades’ planeadas que não deveriam ter esta designação pela evidente falta de habitantes locais e visitantes externos, sendo um exemplo aparente a cidade chinesa de Ordos, uma cidade ‘morta’ construída com a intenção de acolher uma população de 1,5 milhões de habitantes19. Como foi afirmado, para garantir centros urbanos vivos é essencial uma presença humana que participa ativamente em várias actividades. No estudo de psicologia ambiental, Liveliness in town centres (Coeterier, 1994, p. 297), foram classificados os possíveis objectivos que uma pessoa poderá ter quando visita um centro urbano. O estudo concentrou-se nos aglomerados urbanos holandeses e juntou entrevistas com especialista, entrevistas aprofundadas com cidadãos, inquéritos de opinião, e um estudo da literatura sobre o tema. A primeira observação é a de que as pessoas costumam visitar um centro urbano quando têm mais do que um objectivo. No estudo foram classificados os vários tipos de objectivos possíveis em duas categorias: objectivos implícitos e objectivos explícitos. Os objectivos explícitos são a principal razão para uma visita a um centro urbano. Consistem em actividades específicas como, por exemplo, comprar algo não disponível numa loja de bairro, ir a um concerto ou restaurante, olhar para as vitrinas das lojas ou visitar uma galeria de arte. Um objectivo implícito trata-se de uma actividade ligada a uma experiencia sensorial e psicológica. Nesta categoria, por exemplo, inclui-se a observação e a recolha de informação, porque é nos centros urbanos que se observam pontos cruciais da cultura, e suas últimas manifestações. Observar as pessoas, o que vestem e como se comportam, ou simplesmente a acção de observar ambiências e posters publicitários. De acordo com o estudo, um objectivo implícito é o lazer, o qual consiste num equilíbrio entre relaxar e exercer. Relaxar pode consistir por exemplo em absorver passivamente a paisagem urbana envolvente, observando outras pessoas a trabalhar. Exercer, por outro lado, consiste numa experiência activa, como são por exemplo os actos de se adaptar a níveis elevados de som/barulho/poluição acústica, evitar tráfego, andar pelo meio da multidão, e em geral estar num estado de alerta. Participar na vivacidade é um tipo de lazer, mas as pessoas também visitam os centros urbanos porque “need to belong to, or to feel part of a greater whole; to be among other people” (Coeterier, 1994, p. 304). O estudo Liveliness in town centres também identifica algumas condições externas e ambientais, determinantes para a vivacidade de um centro urbano. Elaborando um factor já avançado, manter a diversidade a nível de funções presentes num centro urbano, e por isso garantir a possibilidade de uma pessoa escolher entre várias soluções para alcançar um objectivo, garante uma diversidade, seja das pessoas seja dos grupos de pessoas presentes. Uma diversidade de funções atrai uma diversidade de pessoas. Mais especificamente, no comércio e retalho, esta ideia orientanos para não limitar a ocupação do espaço a lojas genéricas, mas também encorajar a presença de lojas especializadas. No sector da restauração trata-se do mesmo: deve existir uma variação onde, por exemplo, cafés convivem com restaurantes grandes e pequenos, com diferentes clientelas. Para gerar uma dinâmica urbana relevante, é importante manter um equilíbrio entre os serviços públicos e as entidades privadas. Simultaneamente deverão existir correios, serviços de saúde e bancos, coexistindo com empresas com menor visibilidade e interacção com o domínio público. A diversidade de funções implica a protecção ou pelo menos o apoio às funções frágeis do ponto de vista económico, evitando assim dar uma exagerada importância ao estímulo do crescimento em termos meramente económicos. As ruas devem ser animadas com músicos e mercados, complementados com a cultura e o lazer através de espaços públicos, galerias, livrarias e até actividades desportivas (Coeterier, 1994, p. 305). Entre outras observações feitas pelo estudo Liveliness in town centres podem incluir- se a importância de garantir uma variação nos percursos que o público poderá utilizar, desenhando um layout multifuncional, e a importância da diferenciação espacial, evitando a monotonia, não só nos espaços abertos, mas, também, no desenho exterior dos elementos construídos. Essencial para a vivacidade de um centro urbano é a acessibilidade ao mesmo, um ponto importante que a seguir será relacionado e abordado dentro do contexto da exclusão social e da segregação espacial. Dinâmicas de controlo: as políticas urbanas e o papel do privado Após a consideração de factores e características essenciais para garantir a vivacidade de um contexto urbano, convém abordar alguns factores e características negativas que as políticas urbanas deveriam examinar quando planeiam operações de revitalização urbana. De acordo com Sánchez: A própria noção de “revitalização” é representação carregada de valor: acaso sugere que no espaço “revitalizado” não haveria antes nenhum tipo de vida social, recriada agora mediante o gesto planejador? Também a noção de “renovação” de áreas pretende sinalizar a necessidade impreterível de reconfigurar a geografia e a história social de um lugar cujas características pretéritas não estariam de acordo com os conteúdos desejáveis para o atual projeto de cidade. (Sánchez, 2009, p. 179) Sánchez sugere portanto o possível afastamento das realidades urbanas, nas quais algumas respectivas autoridades agem desrespeitando o passado, e critica a visão limitada na qual se assiste à revitalização urbana planeada a partir do topo, sem tentar perceber e valorizar as situações urbanas pré-existentes. A intervenção no património construído é um importante elemento quando se consideram políticas de revitalização urbana. Focalizando-se nas acções de reconversão, existe por um lado o risco de se criarem espaços culturais ‘mortos’ (Sánchez, 2009, p. 184), entendendo-se, neste âmbito, por exemplo, museus e galerias que servem um público-alvo muito reduzido, com efeitos de ‘revitalização’ limitados. Por outro lado arrisca-se a sobrecarregada ênfase no rendimento de tais espaços, considerando-os como geradores de revitalização económica e prestando excessiva atenção à comercialização, nos piores dos casos destinada a um nível muito exclusivo de consumidores. Um elemento importante, relacionado com o peso excessivo do comércio em alguns centros urbanos revitalizados, é o papel do turismo. Privilegiar alguns grupos, possivelmente com custos para os habitantes locais, os quais deveriam ser mais beneficiados pela revitalização , levanta a questão do acesso. Voltando a um conceito já avançado, de acordo com Madanipour, “The question of social exclusion and integration, it can be argued, largely revolves around access” (Madanipour, 2007, p. 162). 36 A questão do acesso é multifacetada, incluindo temas como o acesso a recursos, processos e poderes de decisão, mas o estudo aqui concentra-se essencialmente no elemento espacial. Em termos espaciais, a questão do acesso manifesta-se de várias formas, onde este é negado ou permitido. De acordo com Madanipour, quem sofre de ‘opções’ sociais limitadas, ao mesmo tempo, é restringido espacialmente, sendo o máximo exemplo a comparação entre o prisioneiro e os executivos do jet-set 20 (Madanipour, 2007, p. 162). O espaço ser considerado como uma sucessão/continuidade de lugares acessíveis e lugares não acessíveis, ou como uma colecção de espaços abertos, fechados ou controlados21. Um factor importante é o papel do sector privado, que se marca pela entrada do sector financeiro na construção e gestão de ambientes urbanos, causando a privatização do espaço. Em alguns casos, a relação entre espaço público e espaço privado é distorcida, resultando em situações onde o espaço público é vigiado contra ‘intrusões’ por interesses privados (Madanipour, 2007, p. 164). Grandes empresas e actores financeiros consideram o ambiente como mercadoria, e estes acabam por construir e gerir ambientes urbanos como se fosse tal, resultando num espaço urbano em que, segundo Madanipour, “ […] increasingly large sections are managed by private companies, as distinctive from those controlled by public authorities” (Madanipour, 2007, p. 164). Assiste-se assim ao controlo social, na forma de forte vigilância privada de lugares como os centros comerciais e os empreendimentos residenciais privados, separados do tecido urbano público através de delimitações espaciais e do controlo de acessos. Por outro lado, o sector privado pode ser um forte elemento vitalizador de espaços abertos e públicos, dando vida a espaços moribundos ou ‘mortos’ quando se tratam, por exemplo, como já referido, de pequenas actividades empresariais com algum factor de informalidade. Alguns exemplos semelhantes são os quiosques de Lisboa, os periptera22 de Atenas e os kiosco de barrio23 de Buenos Aires, os quais, com dimensões muito reduzidas, vendem uma grande variedade de produtos, desde gelados e chocolates, até bebidas, tabaco e jornais. Este conceito tem um interessante potencial de dinamização e vitalização urbana se for aplicado às estruturas pré- existentes Extracto I 37 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana aqui consideradas, onde a participação do privado, controlada, limitada e de pequena escala poderá dar vida a espaços públicos marginais e subutilizados. A participação do público, e a utilização espontânea Evidentemente, nos espaços urbanos revitalizados, a participação do público é uma consideração mais importante para a revitalização urbana do que o tipo e nível de participação do privado. Mais do que simples acesso e participação em actividades nos elementos urbanos de uma zona revitalizada, o termo participação abrange os processos de planeamento urbano e de como o público, especificamente os habitantes locais, poderão participar na vivência, na programação e no desenho urbano. A designação ‘Centro Cultural’ faz pensar num espaço ou grupo restrito de espaços que reagrupam mais actividades, nomeadamente os museus, as galerias de arte, as óperas, as bibliotecas e os teatros. Para revitalizar um centro urbano num modo equitativo e justo, é preciso fazer algumas perguntas. O público geral utiliza estes espaços ou acabam por ser utilizados por grupos sociais específicos, por pessoas provenientes de fora, como os turistas e visitantes específicos, alienando ao mesmo tempo a população local? Quais são as possíveis actividades alternativas, actividades mais abertas e flexíveis no domínio público? Através de que estudos e abordagens será possível definir, planear e implementar programas e usos mais inclusivos? Será possível chegar a soluções actuais superiores através da experimentação de usos temporários? Em 1991, num período caracterizado por mudanças significativas, a cidade reunificada de Berlim instituiu o Stadtforum, o fórum da cidade, numa estratégia de planeamento participativo. O debate sobre o futuro da cidade e a sua reconstrução e desenvolvimento tinha trazido vários especialistas para discutir ideias e formular planos. O objectivo do Stadtforum era consultar e, quando possível, garantir a unanimidade do público. Pretendia-se que funcionasse como plataforma de discussão e intercâmbio de ideias e pareceres entre o público e os outros actores do processo de desenvolvimento urbano, de forma a manter um diálogo e negociação racional (Reader, 2004, p. 289). Através deste meio, urbanistas, arquitectos, construtores, as autoridades municipais e empresários dialogaram com o público Berlinense durante dois anos. O Stadtforum, acção pioneira que prometia muito, acabou por ser impotente perante os interesses económicos da cidade, os objectivos das grandes empresas e um governo com as finanças descontroladas e um alto déficite para reduzir. A ideia da participação colectiva no planeamento urbano não surgiu recentemente, tendo algumas bases nos estudos de Paul Davidoff 24 nos anos 1960, que defendia a importância de, [...] cultivate community networks, listen carefully to the people, involve the less- organized groups, educate the citizens in how to join in, supply information and make sure people know how to get it, develop skills in working with groups in conflict situations, emphasize the need to participate, compensate for external pressures. (Davidoff, 2007, p. 402) Entre muitos pontos, destacam a educação do público em como participar, e a participação do próprio público. Davidoff abordou também o tema da inclusão, afirmando que: “‘Inclusion’ means not only permitting the citizen to be heard. It also means that he be able to become well informed about the underlying reasons for planning proposals, and be able to respond to them in the technical language of professional planners” (Davidoff, 2007, p. 402). Por outras palavras, a inclusão pode considerar-se como tal, quando o público, conhecendo a linguagem dos especialistas, está informado sobre as razões por detrás das propostas das operações de planeamento urbano. Nos anos 60, era norma ter planos urbanos redigidos exclusivamente por administrações públicas, apresentando soluções únicas. Tomando em consideração as ideias manifestadas por Davidoff, a seguinte passagem levanta algumas questões legítimas: Davidoff [...] criticises what might be called a “unitary plan” [...] this is the idea that only one agency in a community should prepare a comprehensive plan; that agency is the city planning commission or department. Why is it that no other organisation within a community prepares a plan? Why is only one agency concerned with establishing both general and specific goals for community development, and with proposing the strategies and costs required to effect the goals? Why are there no plural plans? (LeGates e Stout, 2007, p. 400) A participação do público, inevitavelmente, resulta em varias opiniões e propostas, enquanto os planos unitários reduzem a complexidade dos contextos urbanos. As propostas de Davidoff para o planeamento pluralístico, se por um lado defendiam a pluralidade, por outro lado reconheciam a importância e competência das administrações públicas, enfatizando todavia o risco destas se isolarem, produzindo análises incompletas e pouco aprofundadas das realidades urbanas. David Harvey25 também acrescentou ideias inerentes ao tema aqui abordado. Por referência aos estudos elaborados por Harvey, pode afirmar-se, “What looks like a good solution to urban development to one generation [...] may not look so good to the next generation. This is why Harvey urges planners and policy makers to design flexible, adjustable cities and to encourage fluid social processes that can change over time” (LeGates e Stout, 2007, p. 226). Ao lado da participação, portanto, podem juntar– se a flexibilidade, as mutações das dinâmicas sociais, e como estas se relacionam com o tempo. Em conjunto com factores da dimensão urbana de uma intervenção, torna-se essencial considerar a ponte de ligação com a escala arquitectónica. Relacionando as actividades urbanas com os elementos de delimitação arquitectónica, explorando as maneiras de dar vida aos elementos físicos permanentes, ganham aqui valor as noções da participação, dos usos temporários e da flexibilidade. Participação, usos temporários, flexibilidade O princípio da participação está intrinsecamente ligado aos importantes factores da flexibilidade e do efémero, sendo os grupos sociais mais inclinados à mudança do que as autoridades e os sistemas burocráticos. A participação do público na definição de processos de planeamento naturalmente não se limita a políticas mas pode consistir no envolvimento directo nas decisões e definições específicasde intervenção na escala arquitectónica. Os planos urbanos, instrumentos de ordenamento do território, por vezes são meios rígidos e têm uma certa dificuldade na implementação e criação de zonas multifuncionais e espaços multi-usos. 38 Em alguns casos, esta rigidez dos planos é condicionada pela noção inflexível do tempo, fixando prazos para a alocação de usos predeterminados e não testados. Através de usos temporários, a experimentação na fase de criação e planeamento de programas urbanos ajuda a encontrar ideias e soluções que surgem de maneira espontânea e natural, criando a diversidade e a riqueza de soluções e actividades, essenciais para garantir uma urbanidade vivificada. Uma categoria ulterior e relacionada com usos temporários poderia ser a dos usos múltiplos, a qual se divide em duas subcategorias. A primeira, a dos usos ínterim, consiste no aproveitamento das lacunas nos ciclos de utilização de um espaço específico para introduzir outros usos não necessariamente por motivos/ fins económicos. Assim, um espaço pode ganhar valor social e multiplicar as suas relações com o espaço urbano envolvente em períodos de menor intensidade de uso. Outra subcategoria é a dos usos múltiplos, que visa agregar novos usos aos usos pré- existentes e dominantes (Haydn e Temel, 2006, p. 11 e 12). Depois das considerações sobre planeamento e interpretação do espaço urbano (enquanto um todo e nos seus elementos estruturais da envolvente), é necessária a concentração na escala do elemento arquitectónico construído, nas próprias estruturas pré-existentes e no modo como poderiam ser sensivelmente revalorizadas. Escala arquitectonica Considerando a importância da variedade de funções para a vitalidade do espaço urbano, é natural fazer considerações referentes aos espaços multifuncionais. Eberhard Zeidler (1983) defende a presença das edificações multi-usos nos centros urbanos e a sua relação com o contexto urbano envolvente, delineando algumas regras que um edifício deverá cumprir. Referindo-se directamente à reutilização de edifícios préexistentes, Eberhard dá particular importância à viabilidade económica. Segundo ele, estabelecer o custo inicial de um edifício é uma operação mais fácil em comparação com o cálculo do custo relacionado com a readaptação de um edifício para um novo ciclo de vida funcional, que, em alguns casos específicos, pode ter um custo superior ao custo inicial de construção. Na sua perspectiva, a verdadeira viabilidade económica é alcançável Extracto I 39 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana apenas através da inter-relação de quatro parâmetros: capital, custos operativos, manutenção, e custo de adaptação (Eberhard, 1983, p. 154). O capital de construção, a manutenção e os custos energéticos estão todos estreitamente relacionados. Aqui Eberhard faz uma importante comparação entre os edifícios novos e as possíveis vantagens na adaptação de um edifício existente. De acordo com o autor, há uma lógica paradoxal em alguns casos de edifícios, os quais, premiados pela eficiência energética, acabam por ser utilizados só durante os horários de trabalho, cinco dias por semana, ficando assim vazios e inutilizados durante 70% do tempo. Com a óptica dos méritos de um edifício multifuncional, Eberhard comenta sobre a possibilidade dos trabalhadores chegarem a tais edifícios, teoricamente sustentáveis, por meios privados, carros, que na totalidade gastem mais energia que o edifício onde trabalham. Um edifício multi-usos, com múltiplos ou mais extensos ciclos de utilização diária, pode enfrentar melhor as questões energéticas e económicas, e ter um ciclo de vida útil, com custos reduzidos, também para o sistema urbano, com o qual se encontra interligado. Esta abordagem está de acordo com a ideia dos usos ínterim acima apresentados. Outro factor importante, segundo Eberhard, é a relação de um edifício multi-usos com as actividades urbanas e a sua criação de novas actividades. A remoção de actividades públicas do campo urbano visível, para espaços escondidos privados, reduz a qualidade de vivência de uma cidade. É importante maximizar a visibilidade e a acessibilidade e também encorajar a introdução de actividades que ajudem a promover a vivacidade de uma cidade. Portanto, a visibilidade pode juntar-se ao factor já abordado da acessibilidade. Entre outras considerações propostas por Eberhard, sempre em referência aos edifícios multiusos nos centros urbanos, realçamse as seguintes: - A ligação ao espaço urbano. As edificações multi-usos deveriam manter o papel de ligação visual e funcional dentro da estrutura urbana. - A promoção da diversidade social - Algumas dinâmicas e o crescimento periférico das cidades resultam em condições próximas de gueto, contribuindo para a degradação de certas zonas urbanas (definido por Eberhard como síndrome PruittIgoe). O uso diversificado dos espaços pode equilibrar e manter a coesão e a inserção social. - A relação com a situação histórica e cultural do lugar. - A inter-relação de funções diferentes. - Responder a natureza psicológica do Homem. 3. CASO DE ESTUDO I . HIGH LINE, NOVA IORQUE O projecto da High Line consistiu na readaptação de uma antiga via-férrea elevada. Este caso, que se trata de um projecto de transformação de uma infra-estrutura obsoleta em parque urbano feita por etapas, pode considerar-se emblemático do potencial que advém da conjugação equilibrada da iniciativa pública, espontânea, com as autoridades do planeamento urbano. Em suma, pretende-se compreender a pertinência das estruturas arquitectónicas para a revitalização das cidades. Principalmente de estruturas urbanas específicas, mais significativas e destacadas. Ou seja, as obras dominantes nos seus contextos, com forte presença física no território onde se encontram, e com características espaciais relevantes, que permitam criar soluções inovadoras e multifuncionais. A incerteza sobre o que fazer dela, nas décadas seguintes, fez com que a linha de comboios fosse sendo invadida por uma vegetação selvagem, muito resistente às condições climáticas e à falta de irrigação, resultando numa variedade de plantas e árvores que criaram uma “third landscape” (Ciorra, 2009, p. 24), uma paisagem selvagem que crescia em cima de uma construção humana completamente urbana. A infra-estrutura, construção funcional de estética industrial, não era muito estimada pela população local e durante os anos 90, desde os habitantes dos bairros circunstantes até ao presidente da câmara de Nova Iorque, Rudolph Giuliani, era dominante a opinião de que deveria ser desmantelada. Chelsea, o bairro principal, que atravessava, estava a transformar-se numa área chique através de processos de gentrificação na zona de Lower Village. No entender das autoridades aquele era um “vestígio de uma cidade diferente”, “um peso morto e feio”, que interferia com as potencialidades de um bairro com a presença de galerias de arte, restaurantes e apartamentos caros28. A preocupação com a sustentabilidade tem tido um efeito significativo nas novas construções, e esta preocupação estendese cada vez mais aos edifícios pré- existentes. Considerando que em países como Portugal e Itália o volume já edificado é muito superior às necessidades da população (em declínio), a revalorização ganha ainda mais peso. Em Lisboa estima-se que 21% do edificado da cidade consista em prédios devolutos e que um total de 11 mil edifícios necessitem de obras urgentes26. Se a noção de sustentabilidade, no sentido completo, vai além das questões energéticas, é preciso considerar factores e pensar em soluções económicas e sociais. Completando os três campos de acção, as acções urbanísticas devem concentrar-se na multifuncionalidade e na perspectiva alargada de sustentabilidade. Os números acima reproduzidos, referentes à realidade Lisboeta, realçam a necessidade de coordenar políticas urbanas que poderão ser implementadas activa e rigorosamente, consistindo em acções semelhantes multiplicadas para numerosos elementos arquitectónicos. 40 7. Vista aérea na direcção da zona de Chelsea (Nicolin,2009, p.11) Este tipo de processo, no caso da High Line, resultou num espaço aberto acessível a vários grupos sociais, não sujeito à tendência de apropriação por parte dos interesses políticos ou pressões económicas. Nesta intervenção, passou-se de um lugar em estado de degradação, que imprimia um aspecto negativo ao espaço urbano, para uma solução que valorizou e veio qualificar o espaço desde o bairro até à cidade onde se insere, Nova Iorque. A High Line localiza-se em Manhattan, Nova Iorque, estendendose por cerca de 2,3 quilómetros entre duas zonas27, o Meatpacking District e a 34thStreet. Construída no ano de 1930, servia de ligação entre uma zona de fábricas e armazéns e uma área de distribuição (Central goods yard), isto até ao seu abandono nos anos 80. 8. As linhas férreas antes da intervenção (David, 2007, p. 201). 9. Vista aérea da estrutura abandonada, invadida pela vegetação selvagem, Joel Sternfeld (Sternfeld, s.d.) Extracto I 41 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana A possibilidade de olhar para esta estrutura obsoleta e observá-la com outra perspectiva surgiu graças ao fotógrafo Joel Sternfeld: Durante os anos de abandono, ele obteve imagens impressionantes da High Line, como uma fita de verde serpenteando através de uma paisagem industrial urbana … as suas fotografias desempenharam um importante papel na formação de uma base pública de apoiantes da preservação da linha para uso público. Joel demonstrou que aquele objecto industrial ferrugento podia efectivamente assemelhar-se a um parque. (Goldberger, 2011, p. 62) As imagens do Sternfeld, tiradas do lado superior da estrutura metálica, levantada do solo a uma altura de quase três andares, mostravam o que não podia ter sido possível apreciar (um plano não visível ao público): uma superfície invadida pelo verde que se inseria e contrastava com o tecido urbano. Se a década de 90 foi marcada pelos movimentos a favor da destruição da High Line, nos últimos anos desta década algo mudou e começou a ganhar peso uma opinião a seu favor. Num processo espontâneo e marcado pela evolução de ideais, passou-se de um movimento inicialmente a favor da preservação da infra-estrutura para um movimento que garantiu o êxito da sua transformação em estrutura base sobre a qual se construiu um parque suspenso, pensado ao mesmo tempo como passeio público, praça urbana e jardim botânico, “um dos mais inovadores e convidativos espaços públicos de Nova Iorque” (Goldberger, 2011, p. 60). O processo de transformação só podia ser possível através de uma mudança de mentalidade das pessoas, desde os vizinhos da estrutura até aos funcionários da administração pública. Numa reunião comunitária, no ano de 1999, sobre o futuro da linha, só duas pessoas se encontravam a favor da salvação da linha: Joshua Daniel e Robert Hammond. Nesta mesma reunião, a empresa ferroviária CSX, proprietária da linha, apresentou planos para a revitalização da ferrovia, planos rejeitados pelas pessoas presentes. Joshua Daniel e Robert Hammond, por outro lado, os únicos interessados na possibilidade de realizar esses planos, pediram aos funcionários da empresa que os deixassem visitar a linha, onde o Joshua diz que chegaram a ver “2.500 metros de flores silvestres no meio de Manhattan” (Goldberger, 2011, p. 64). Em 1999, com a intenção inicial de preservar a linha de comboios, os dois homens formaram a associação Amigos da High Line, e entretanto aperceberam-se do potencial da estrutura abandonada, não a vendo apenas meramente como um espaço mal apreciado a proteger da demolição, mas como uma oportunidade para a criação de um novo espaço público qualificado. Com a passagem do tempo, o crescente interesse da comunidade29 na iniciativa dos Amigos da High Line resultou num estudo de viabilidade económica, no qual se reconhecia que a reconversão da High Line ajudaria o bairro. 10. Cortes do projecto de revalorização, James Corner Field Operations (Ciorra, 2009, p. 25) O passo seguinte foi a organização de um concurso de ideias aberto a qualquer cidadão, o qual atraiu a participação de 720 ideias, vindas de 36 países. Uma outra intervenção de referência, que contribuiu para o êxito alcançado pela intervenção da High Line, foi, pela sua semelhança, a Promenade Plantée, uma linha ferroviária localizada em Paris que foi transformada em parque linear após anos de abandono. As autoridades, na altura também convencidas da viabilidade de uma transformação, fizeram um acordo com a associação Amigos da High Line para a definição e construção de um projecto para um novo parque, atribuindo fundos30 e, através da comissária do planeamento Amanda Burden, elaborando normas de ordenamento do território para a zona31. Um concurso de ideias, realizado no ano de 2003, teve como resultado a pré-selecção de quatro grupos de arquitectos, sendo os vencedores finais uma colaboração entre James Corner Field Operations32 e o atelier Diller Scofidio e Renfro33. A proposta vencedora conseguiu equilibrar vários factores: 11. Diferentes tipos de ocupação no High Line, James Corner Field Operations (David, 2007, p. 204) [...] proved straight away to be a perfect combination of Corner’s ability to state and open up the qualities of a hanging garden, and DS+R’s gift for spotting the essence and immediacy of its architecture. This made it, even in times of economic and figurative, crisis, an effective way of getting a community to recognise itself in its own space. (Ciorra, 2009, p. 24) Isto quando as outras propostas poderiam ser consideradas por um lado, excessivamente ligadas a uma “eloquência arquitectónica”, e por outro ligadas a uma retórica “vegetal”34. Agregando a sensibilidade às qualidades arquitectónicas da estrutura pré-existente, os projectistas conseguiram equilibrar outros factores como a escala: 12. Paisagem Típica, James Corner Field Operations (David, 2007, p. 204) 42 Extracto I 43 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana The project has respected the sense of the location & scale of the High Line, holding a refined dialogue with the former railroad based on details and small stratagems: the tracks emerge between the ties of the new paving, the chaise-longues move on steel wheels [...]. (Nicolin, 2009, p. 14) O projecto final consistiu assim na transformação de uma viaférrea em espaço público e, tendo em conta as relações únicas criadas pela altura desta estrutura aérea, na modificação das relações pré-existentes, entre pessoas e elementos urbanos presentes na zona: “de modo a posicionar estrategicamente o corpo em diversas elevações, debaixo, dentro e acima da High Line” (David, 2007, p. 200). Os acessos a esta estrutura foram pensados como passagens onde se prolonga a transição do ritmo frenético da cidade para o mundo suspenso da High Line. Ao longo do percurso estão inseridas algumas intervenções arquitectónicas, mas a estratégia principal, agri-tecture, é uma tentativa de chegar à combinação ideal entre matéria orgânica e materiais de construção. Consiste numa mistura entre o mineral e o vegetal, entre agricultura e arquitectura, dando particular atenção às transições entre os diferentes tipos de superfície35. O objectivo é conseguir combinar o material orgânico com os elementos e materialidades antigos e novos da estrutura, chegando a criar uma experiência espacial na qual “o parque acolhe o selvagem, o cultivado, o íntimo e o social” (David, 2007, p. 200). Noutras palavras, a superfície pavimentada, a vegetação e a “arqueologia industrial” interagem e integram-se de modo a obter espaços contrastantes que ao mesmo tempo fazem parte de uma lógica de coerência e continuidade espacial. Até certo ponto mantém-se a aparência selvagem de quando a estrutura estava abandonada e através da introdução de rampas é permitida a interligação de vários lugares: nichos, zonas de descanso, miradouros, escadas e elevadores que permitem o acesso a partir do nível da rua. O projecto foi dividido em três fases, sendo cada uma um troço de cerca de 800 metros de vias-férreas elevadas. O início de construção do primeiro troço começou na primavera de 2006, aberto no verão de 2009, e a abertura do segundo troço estava prevista para a primavera do ano de 201136, prolongando o parque por mais de dez quarteirões. O terceiro troço, ainda propriedade do operador ferroviário CSX, ainda não tem um plano definitivo, mas espera-se que venha a ser convertido nos próximos anos. No resultado final as pessoas estão “em contacto com a vida da rua mas, ao mesmo tempo, mantêm-se longe dela” (Goldberger, 2011, p. 60), este “desliza sob edifícios distintos” (Goldberger, 2011, p. 66) e “flutua” cerca de oito metros acima do solo, pelo meio de edifícios antigos e recentes, e oferece uma maneira diferente de ver e habitar a cidade, introduzindo novas funções, usos e espaços urbanos. O projecto da High Line deu à cidade de Nova Iorque um parque linear flutuante para passear, que se abre sobre as vistas de Manhattan e do rio Hudson, espaço onde se pode apanhar sol e que modifica a relação da pessoa com o espaço urbano: “Uma das mais impressionantes características da High Line é a forma como, enquanto por ela caminhamos, dez quarteirões passam à velocidade de dois, por não termos de atravessar ruas nem de esperar pela mudança das luzes dos semáforos” (Goldberger, 2011, p. 60). 13. Entrada St. Gansevoort, Diller Scofidio + Renfro (David, 2007, p. 202) Na intervenção da High Line, podem identificar-se dois momentos de vivências diferenciadas. O primeiro, como espaço público, espaço urbano aberto, transforma-se num momento com considerações mais arquitectónicas. Neste caso, uma secção da High Line transforma-se num espaço parecido com um anfiteatro, suspenso por cima da décima Avenida, “permitindo que os visitantes se sentem e observem o trânsito a deslizar sob os seus pés” (Goldberger, 2011, p. 67). A passagem da antiga ferrovia por cima de uma rua movimentada transforma-se num anfiteatro urbano com bancadas de madeira que descem até uma “janela” que enquadra os fluxos do trânsito em baixo, permitindo às pessoas, sentadas, a observação dos fluxos de veículos a partir de uma posição inesperada. O segundo momento é um troço coberto pelo Mercado de Chelsea, destinado a manifestações artísticas públicas e eventos especiais (performances), local que já foi palco de actuações de companhias de dança. Com este exemplo se reforça a ideia de que a transição entre espaços faz parte de uma lógica de continuidade, que evita a forte subdivisão do espaço urbano. No projecto da High Line, a partir de uma infra-estrutura obsoleta e abandonada criou-se um espaço público útil, inspirando-se, com sucesso, num estado adquirido espontaneamente após anos de abandono, chegando a um “equilíbrio entre o requinte e a rudeza industrial” (Goldberger, 2011, p. 65); “The entire project turns on the intrinsic beauty of the relationship between the infrastructure and the life of the plants that grow on it” (Nicolin, 2009, p. 12). 15. Relação com, e integração no edificado urbano (Ciorra, 2009, p. 26) 14. A “janela” que permite a observação do trânsito (Ciorra, 2009, p.28) 44 Extracto I 45 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana A arquitectura, ou melhor, a intervenção arquitectónica não se define como protagonista do espaço. Complementa e integra-se na estrutura industrial pré-existente e permite a introdução de novas funções e actividades, dando mais importância todavia, não ao número e tipo de actividades, mas à variação espacial, estimulando uma experiência mais profunda da cidade. O espaço pode ser considerado como um só ou como uma sucessão fluida de lugares e condições diferentes de estar, sempre integrados através da rigorosamente planeada, e aparentemente casual, transição espacial. Assim como referido por James Corner, “Quisemos preservar a sensação de se tratar de uma linha ferroviária, mas ao mesmo tempo introduzir variações” (Goldberger, 2011, p. 61), onde a criação de diversas paisagens resulta em sensações diferentes. A criação das condições acima apresentadas pode ser directamente relacionada com o grande sucesso o qual é atribuído pelo recurso a várias fontes para o projecto, quando foi aberto ao público: “ [...] uma dessas raras circunstâncias nova-iorquinas em que uma ideia maravilhosa foi concretizada e transformou-se num resultado melhor do que o imaginado”. (Goldberger, 2011, p. 60) “ [...] capacity to put together a project of great integrity and vigorous theoretical impact, in a concrete, feasible proposal that was, not surprisingly, immediately digested”. (Ciorra, 2009, p. 24) “ [...] capacity to convert a leftover strip into a genuinely public space, in which a community can identify itself”. (Ciorra, 2009, p. 24) Este sucesso passa da escala de bairro à escala de cidade: “Quando o ordenamento foi promulgado, a área envolvente transformara-se num dos bairros mais procurados da cidade” (Goldberger, 2011, p. 64). Sendo a High Line em si considerada um dos lugares mais populares de Nova Iorque, frequentada durante todo o ciclo do dia, é, em paralelo, uma das principais atracções turísticas da cidade. O êxito desta intervenção não se pode negar, pois consegue ser ao mesmo tempo um lugar visitado por pessoas vindas do estrangeiro e continuar a servir a população vizinha, como parque de bairro, resultando num espaço urbano “vivo”, devido à sua capacidade para criar condições que incentivam objectivos explícitos para quem a visita/utiliza. À escala urbana, é evidente que em termos urbanísticos, económicos e sociais, tenha sido revalorizado o espaço urbano envolvente. Pese embora que a zona envolvente já estivesse a ser transformada e tivesse também condições de atractividade, a High Line, apesar de contribuir para o processo de gentrificação, está a fazê-lo numa zona industrial que sentia falta de espaço aberto verde, não se podendo negar que esta é para o benefício de qualquer grupo social. O resultado é a abertura à participação do público em várias actividades, principalmente dentro de espaços abertos. Um dos princípios importantes que esta intervenção de revitalização cumpre, é do contributo para a variação de percursos e para a diferenciação espacial, garantindo a máxima acessibilidade a diferentes grupos sociais, minimizando na prática a exclusão espacial. 4. CASO DE ESTUDO II . PALAST DER REPUBLIK, BERLIM O processo de planeamento observado no projecto da High Line não se enquadrou dentro de mecanismos pré-existentes. Pelo contrário, a importância atribuída pelo público e o consequente activismo, resultaram na alteração das políticas de gestão urbana e garantiram, em primeiro lugar, a sua preservação e depois a sua readaptação. Noutras palavras, não existiam mecanismos para um processo de planeamento participativo, mas o interesse e a forte participação do público, bem como as suas exigências, criaram as condições para uma maior inclusão e para a implementação de tais mecanismos. Analisada ao nível intermédio entre escala urbana e arquitectónica, situa-se numa posição singular, destacando-se da superfície urbana circundante e, ao mesmo tempo, mantendo uma forte ligação visual com a mesma, ligação que não se perde ao nível físico pela forte relevância prestada à acessibilidade. A High Line integra com êxito a maior parte das considerações propostas por Eberhard, propondo por exemplo a ideia de espaços de uso variado que para ele incentivam a inclusão e o equilíbrio social. O caso do Palast der Republik, antiga sede do Governo da República Democrática Alemã, edifício multifuncional abandonado após a queda do muro de Berlim, é um exemplo das potencialidades da utilização de um determinado espaço obsoleto como laboratório e espaço de transição em que usos espontâneos, temporários e experimentais podem ser postos à prova. As características espaciais ao nível estrutural do edifício eram ideais para a criação de um lugar multifuncional dinâmico, onde se poderia continuamente introduzir e combinar actividades diferentes entre elas. A falta de fundos das autoridades públicas, proprietárias do palácio, resultou em processos inovadores de apropriação do espaço. Isto deu-se devido à participação de vários actores, de proveniência principalmente cultural, e ao activo interesse e participação do público em geral. Foram as autoridades públicas, todavia, a pôr fim a este projecto experimental, que até à sua destruição estava em contínua construção e imprevisível evolução. Este projecto é essencialmente a reinterpretação e criação de uma realidade mais acessível do que era o estado selvagem que a estrutura pré-existente tinha assumido durante os anos de abandono e, como já foi sublinhado, teve sucesso por ter equilibrado elementos arquitectónicos com os naturais. Portanto, dificilmente poderiam ter sido introduzidos os conceitos de usos temporários por requererem uma adaptação física ao lugar, à flexibilidade e à experimentação efémera. Valorizou-se contudo a urbanidade, introduzindo novos espaços abertos, tanto a nível físico, como em relação à apropriação do espaço. 46 This bare skeleton, which currently permeates only emptiness, represents a unique space; a space that highlights the tension between the past and the future, a space of transition. Thanks to this “open” dimension, the ‘Palace´ shows great potential quite unlike any other location in the Republic, in that it can be transformed into a provisional cultural centre used to host experimental projects that will be highly attractive to the international community. The temporary use of this place, which is full of references to the past and symbolism, will provide new ways to explore the unknown. (Misselwitz e Oswalt, 2004, p. 98). O Palast der Republik localizava-se ao lado da Catedral de Berlim e do reconstruído Lustgarten, numa zona central da cidade, agora definida como a ilha dos museus37. Projecto dos arquitectos Heinz Graffunder e Karl-Ernst Swora38, foi construído em frente da praça Schloßplatz, conhecida como praça Marx Engels no período do governo comunista. O palácio, além de ocupar uma área onde se situava parte das muralhas da cidade medieval, foi construído em cima das antigas fundações do antigo palácio dos imperadores Prussianos, o Stadtschloss ou castelo Hohenzollern, parcialmente destruído durante a segunda guerra mundial e demolido no ano de 1950 pelas autoridades comunistas, que utilizaram como justificações a falta de recursos económicos necessários para uma restauração e pelo palácio ser um indesejável símbolo do Imperialismo Prussiano. 16. O Palast der Republik, ao lado da Catedral de Berlim (Ferré et al., 2004, p. 84) No ano de 1973, o conselho dos ministros da República Democrática Alemã decidiu construir um edifício composto por três áreas. Na primeira destas instalava-se o Volkskammer (Congresso do povo), espaço simbólico, sendo supostamente o parlamento, que todavia raramente foi utilizado após a sua construção. A segunda área do palácio consistia em cafés, bares, uma discoteca, um centro de bowling, treze restaurantes e, no quarto andar, um auditório com duzentos lugares, acessíveis através de um foyer e vários halls. Na cave estavam colocados os espaços de arrumação, as cozinhas, e as salas das máquinas. Já no maior espaço do palácio, a terceira área consistia no Großer Saal, ou Grande Salão, um espaço destinado a convenções, concertos e galas, que podia ser adaptado em função do uso específico através de um sistema de paredes e decorações móveis, um sistema mecânico muito avançado para a época em que o Palast foi construído, entre os anos 1973 e 1976. O Palast der Republik era o lugar mais visitado no centro de Berlim Oriental, recendo quinze mil visitantes por dia, era um local público popular. Durante os tempos do regime socialista, os habitantes da cidade tinham dado os apelidos Honekers Lamp Store39 e “Casa de mil janelas”, que dá a ideia da dimensão desta obra. Desde a sua construção até ao ano de 1990, o Palast der Republik só esteve em utilização durante catorze anos. No mês de Agosto deste último ano a Alemanha reunificou-se40, e as consequentes mudanças políticas resultaram no abandono do palácio por um período superior a catorze anos, ou seja, um período maior do que o da sua utilização. A estrutura, por conter uma elevada presença de amianto, foi evacuada41. Extracto I 47 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana no artigo “Willing the Global City: Berlin’s Cultural Strategies of Inter-urban competition after 1989” da Ute Lehrer44. Segundo esta autora, as forças políticas decidiam manipular a história “Ridding Berlin of certain historic elements, while manipulating others and constructing new ones, was the preferred method of re-envisioning history in Berlin” (Lehrer, 2006, p. 336). Lehrer continua, falando do caso específico da reconstruida Potsdamer Platz45: der Republik e pela nova designação do resultante terreno vazio em espaço relvado. Esta acção estimava-se em 20 milhões de euros. O novo edifício que deveria eventualmente surgir, Humboldt Forum, não poderia ser construído por falta de fundos e uma falta dos planos cronológicos e projectos finais necessários para avançar. Perante este plano, inquéritos da época mostravam uma divisão equilibrada entre os Berlinenses (Perry, 2005). 17. Escada central do foyer da estrutura abandonada, Thorsten Klapsch (Klapsch, 1993) While the new Potsdamer Platz can be seen as amnesic in terms of its treatment of history, certain historical details and allusions were used to enhance aspects of the project that were considered key to the reappropriation of space; others were crucially elided. (Lehrer, 2006, p. 337) Em Julho de 2002, o parlamento da Alemanha reunificada votou pela demolição do Palast der Republik e pela construção de um novo edifício, Humboldt Forum42, que iria ser englobado por uma reconstrução das fachadas do Stadtschloss Prussiano. O Palast der Republik representava um passado de conotações negativas, símbolo do antigo regime socialista e do seu poder autoritário, quer seja no controlo que este tinha, através desse edifício, sobre o entretenimento da população, quer no abrigo (simbólico) que dava a uma instituição (o parlamento) no Volkskammer. As novas autoridades preferiam apagar e esquecer. Logo após a reunificação Alemã, a área da Potsdamer Platz era marcada pela presencia de vários elementos históricos e vazios, tendo sido zona atravessada pela muralha que dividia Berlim. Para a reconstrução desta zona, as autoridades adoptaram uma política que eliminava elementos históricos indesejados, especificamente do passado Nazi, e enfatizava outros, como por exemplo no caso do Kaisersaal, um antigo palácio que durante a segunda guerra mundial tinha sofrido danos irreparáveis a três quartos da sua estrutura, mas que apesar disso teve as suas restantes fracções preservadas e exaltadas nos novos projectos para a Potsdamer Platz. Em 2006 foi tomada a decisão final para a demolição do Palast der Republik e em 2007 uma vez mais se votou pela reconstrução do antigo Stastchloss. Com a finalização da demolição em 2008, 35.000 toneladas de aço da estrutura foram enviadas para serem utilizadas na construção do Burj Khalifa, o edifício actualmente mais alto do mundo, localizado nos Emiratos Árabes. No mesmo ano o arquitecto italiano Franco Stella, concorrendo contra outras 85 propostas, ganhou o concurso para o projecto de reconstrução do Stadtschloss. No entendimento do novo sistema político, o edifício pré-existente sofria de falta de identidade, devendo ser substituído. Isto devido à “[…] alleged populist demand for a place that has meaning not only as the centre of Berlin, but also as the centre of the whole nation”43. Por outro lado, os grupos contrários à reconstrução do Stadtschloss criticavam o que entendiam não ser mais do que um projecto sem financiamento, sem cliente ou programa definitivo: “Moreover, the almost ideological fixation with the building’s final image seems to block any sense of realism and appropriateness of the Project and makes a pragmatic discussion of alternatives nearly impossible” (Misselwitz e Oswalt, 2004, p. 91). Como autoridades, queriam eliminar uma estética pouco agradável e traços inconvenientes de um passado com conotações negativas, concentrando-se na construção de uma nova imagem no mesmo lugar. No caso do Palast der Republik, o novo projecto do Humboldt Forum iria criar um vazio semântico, utilizandoum simbolismo questionável no qual um concurso arquitectónico limitado e uma programação de espaços públicos baseados na imagem, contraditória, iam resultar na reconstrução, executada por um governo democrático, de um símbolo da monarquia Prussiana (Bader, 2009, p. 76). Deste ponto de vista era questionável a reconstrução imagética de um Castelo/Palácio antigo, quando o seu interior iria ser condicionado por uma visão e fundos limitados. Activistas ligados ao campo da arquitectura que eram contra a reconstrução do Hohenzollern Schloss (Stadtschloss), principalmente os de idade entre os 30 e 40 anos, tinham como causa, não tanto o rumo de um edifício, mas a ideia da censura histórica que a motivava, contra a qual era preciso tomar uma posição critica46. A construção selectiva da “imagem” nas políticas das autoridades para a reconstrução de Berlim é tema analisado No mês de Novembro de 2003, o Bundestag (parlamento Alemão) votou mais uma vez no sentido da destruição do Palast 48 Experiências antes da demolição O desmantelamento de elementos interiores, necessário para conseguir tirar o amianto existente na construção, revelou os principais elementos estruturais do edifício: a sua ossatura estrutural metálica e os elementos de betão pré-fabricado, deixando quase intacta a fachada, envidraçada com efeito de espelho castanho. Apesar de não cumprir, entre outros, standards mínimos de isolamento térmico, esta estrutura urbana do Palast der Republik tinha um grande potencial para ser adaptada a novas utilizações. Tendo sido um dos mais ambiciosos projectos de edifício público da República Democrática Alemã, contava com 182 metros de comprimento, 90 de largura e 32 de altura, a área bruta deste edifício chegava aos 103.000 metros quadrados. Além da enorme Großer Saal (espaço com uma altura máxima de dez e oito metros, com uma capacidade para acolher cinco mil pessoas), a Volkskammer (35x29x11 metros) continha 780 lugares, dos quais 240 num terraço para espectadores. 18. Projecto para o Humboldt Forum – reconstrução das fachadas do Stadtschloss, Franco Stella (Lunitz, 2009) 19. Vista do pátio do Humboldt Forum – a ala de desenho novo, Franco Stella (Lunitz, 2009) 20 e 21. Vistas do Palast der Republik após a remoção dos revestimentos interiores (s. n., s. d.) Extracto I 49 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana Durante anos de debate parlamentar, o estudo e consequente relatório feitos por uma comissão de especialistas internacionais47 tinham aconselhado a utilização desta estrutura urbana existente, com um fim cultural provisório. As várias iniciativas e esforços feitos por vários grupos nos anos seguintes ao relatório, e anteriores à destruição da estrutura, são um exemplo de como os princípios de uma abordagem desta temática poderiam ser implementados em casos práticos. Essencialmente, para os actores envolvidos nos projectos de aproveitamento e programação de usos, era desnecessário entrar em raciocínios ideológicos, sendo preferível ver que o que restava do edifício “remained what it was physically in the first place: a building shell, open for definition, reprogramming and reuse. It is a sideline of history not to be ignored” (Bader, 2009, p. 77). A ideia para uma utilização temporária da ossatura estrutural do palácio surgiu em 2002. Várias instituições culturais48 mostravam interesse neste sentido, mas como relatado por um participante, o atelier Urban Catalyst49: [...] there was no client, the building was already there and there was no money to pay for its necessary appropriation. In response to this situation we developed a multi-track approach. As a first step, we began to identify and contact initiatives and institutions that had voiced an interest in temporary use and to inform other groups that would likely be interested. Six groups eventually joined us in regular meetings, forming a loose network in which each of the initiatives pursued a different programmatic idea, representing a spectrum that seemed realistic and appropriate to us: concerts, opera, art installations, exhibitions, discotheque, as well as sport and youth culture. (Oswalt e Misselwitz, 93, 2004). Tudo isto se pode resumir como um processo participativo que tinha em vista a criação de um espaço multifuncional, dentro do qual estavam previstas utilizações temporárias. Segundo os Urban Catalyst, a falta de fundos torna-se “terreno fértil” para propostas inovadoras na definição do espaço público. A adaptação a custo baixo e a intervenção física minimizada eram, neste aspecto, meios e objectivos simultaneamente; “In parallel, we began to develop ideas for necessary improvements of the pre-existing structure, guided by the belief that the installation of temporary uses would cost a fraction of the officially published ten million euro estimate” (Oswalt e Misselwitz, 2004, p. 92). Através de encontros com outros actores e entidades interessadas foi possível, após oito meses, desenvolver um conceito: > Only a limited selection of spaces should be appropriated for temporary use in order to reduce costs (two alternative scenarios were considered); > Minimizing the necessary interventions to the structure in accordance with the provisional character of the building, designed for a transitional time-frame of 2-3 years (with the option of extending this period in accordance with the progress of plans for a new building), before the building’s eventual demolition; > Ensuring that implementation costs incurred by the owner of the building (the Federal Republic of Germany) remain little to none – no revenue (e.g. rent) is expected (temporary users take on running costs of the building); > Laboratory: the interventions would ensure a maximum spectrum of possible uses, with the belief that cultural events help to reenergize a public discussion about site’s future while acknowledging the deep attachment to the Palast still felt by many East Germans. (Oswalt e Misselwitz, 2004, p. 93) A eventual proposta para o projecto de utilização da préexistência, beneficiando do contributo de especialistas, chegou a limitar-se a um orçamento de 1,3 milhões de euros, em vez dos consentidos 10 milhões. Apesar disso, o Ministério proprietário da estrutura, tornou-se indisponível para discussões e políticos inicialmente a favor do reaproveitamento da pré-existência, distanciaram-se, evitando fornecer mais apoio. Para conseguir dar mais passos concretos, o conjunto de grupos interessados na revalorização da estrutura chegou à conclusão de que era preciso uma grande atenção e participação do público. Manter o caso do Palast der Republik vivo e pertinente foi possível, graças a duas acções fundamentais. A primeira acção, uma exposição de ideias programáticas, realizada dentro de uma estrutura adjacente, e a segunda, um estudo preliminar, informando e despertando o interesse de centenas de jornalistas e do público geral. O desinteresse do governo em se envolver resultou na constituição de uma organização não governativa e sem fins lucrativos, a ZPN50, para assumir o papel de potencial arrendatário da estrutura, e para gerir as constantes manifestações de interesse para a utilização dos espaços por parte de vários grupos da sociedade. No entanto, as negociações para a utilização temporária pararam e de novo foram necessárias outras acções de uso muito limitado e controlado, dentro do consentido; uma “estratégia de pequenas acções”51 com o fim de gerar um interesse cada vez maior e difícil de ignorar ou rejeitar. O objectivo era convencer o proprietário da estrutura, na altura o Ministério das Finanças, da potencialidade dos usos temporários, de modo a gerar rendimentos suficientes para garantir a segurança e a manutenção; “The building would become an open source project, highly inclusive and nonhierarchical” (Oswalt e Misselwitz, 2004, p. 96). Após três anos de esforços e iniciativas o Palast der Republik reabriu em Agosto do ano de 2004, sob o nome de “Volkspalast”, num formato de espaço multi-usos. Patrocinadores privados ajudaram a cumprir os regulamentos de segurança, permitindo um; [...] diverse program consisting of concerts, art installations, music festivals, theatre performances, club events, sports and leisure events, water city & labyrinth, exhibition space or conferences… a temporary laboratory testing new forms of public space, interaction and communication [...]. (Oswalt, Misselwitz, 96, 2004). Mais de 40.000 pessoas visitaram o Palácio, reconvertido num laboratório temporário para testar novas formas de espaço público, de interacção e comunicação, com a intenção de “generate proximities of different, otherwise segregated social and cultural groups”. (Oswalt e Misselwitz, 2004, p. 97). Noutras palavras, foi considerado e abordado o princípio da acessibilidade por vários grupos sociais, com a intenção de limitar a segregação social. A decisão de planear soluções temporárias foi também condicionada pelo clima: a falta de um sistema de aquecimento e de condições mínimas de conforto, resultaram no encerramento do palácio naquele inverno. Isto levou à renovada insistência do governo a favor da substituição do palácio por um novo, mas indefinido, Humboldt Fórum, apesar da potencialidade do Palast der Republik como espaço pré-existente com capacidade de acolher eventos importantes52. No Verão de 2005 foi dada o que acabou por ser a última oportunidade para a estrutura do Palast der Republik ser abrigo de usos e eventos temporários. O grupo de arquitectos raumlaborberlin fazia parte desta última iniciativa, desta vez conceptualizada como uma grande instalação que ia demonstrar 50 a singularidade da estrutura pré-existente. O objectivo focalizouse mais na definição de fortes declarações e na demonstração da vigorosa e independente produção artística de Berlim, mais uma vez financiado com meios e políticas liberais. De acordo com Markus Bader53, parte deste objectivo incluía “setting up strong temporary statements [...] constructing a very visible and accessible argument to keep a building in the centre of Berlin and to redefine and reload its semantic interpretation” (Bader, 2009, p. 77). O conceito da segunda iniciativa “Volkspalast” foi a criação de uma “montanha”54 no coração de Berlim, construída em redor do Palast com técnicas e materiais comuns e fáceis de compreender e montados por voluntários. A estrutura foi reconvertida num espaço público onde foram convidados artistas, performers e arquitectos, e entre as várias actividades foi instalado o Gasthof Bergkristall, estrutura temporária que podia albergar oito pessoas durante uma noite, tudo isto com a esperança de: [...] interrupt the sequence of events that had led to the demolition by proving that what remained of the building was an excellent platform for contemporary cultural production. We wanted to demonstrate that Berlin had sufficient creative resources to forgo filling the semantic gap with an easy answer, and instead to maintain a process of redefinition with a flow of reprogramming and reuse. (Bader, 2009, p. 77) Mais uma vez, num ciclo de 6 semanas, o palácio foi visitado por mais de 40.000 pessoas, mas isso não foi suficiente para a sua salvação. A estrutura pré-existente, como o apoiado por protestos contra a sua demolição, possuiu um papel importante na história de Berlim, tendo sido nesse lugar onde se decidiu avançar com a reunificação Alemã, entre outros eventos, e afinal foi vítima destas mesmas ligações ao passado. Os vários acontecimentos aqui documentados para o caso do Palast der Republik apontam para uma estrutura urbana préexistente, que foi objecto de experimentações direccionadas a integrá-la dentro e fora das fronteiras da cidade de Berlim, respeitando o seu passado mas, ao mesmo tempo, evitando a sua “musealização”, criando uma unidade ambiental flexível e sensível às mudanças sociais e culturais da cidade. A principal diferença entre este e os outros casos aqui abordados como casos de estudo, foi a experimentação que se evidencia Extracto I 51 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana neste caso, na utilização da estrutura para usos temporários – isto em grande parte devido às decisões das autoridades, que permitiram apenas períodos de utilização de curto prazo: Through the vehicle of a well-known and symbolic building, the discussion of alternative approaches to urban development was given a unique platform that could provide much impetus to future projects and encourage the acceptance of temporary use as na integral part of urban development. For us as architects, the involvement of Studio Urban Catalyst as an agent and facilitator of the temporary use initiative is na experiment of lasting value - a potential model for a new territory of action for architects, acting less as builders and more as urban agents. (Oswalt e Misselwitz, 2004, p. 97) processo que não se deixou concretizar e maximizar no potencial inerente à pré-existência. No que diz respeito aos recursos mínimos, disponibilizados pelos patrocinadores privados, que viabilizaram a realização de intervenções para a reutilização da estrutura pré-existente, poderiam ter crescido e criado um espaço público que no decorrer do tempo continuaria em A partir da experiencia na implementação de usos temporários no Palast der Republik seguiu-se, todavia, a afirmação dos Urban Catalyst de que os arquitectos podem agir como “agentes urbanos”. Noutras palavras, os arquitectos poderão assumir um papel valorizado para guiar e ajudar na programação e implementação de usos temporários (readaptando e revalorizando estruturas pré-existentes). Este caso de estudo surge assim, como um exemplo de envolvimento inclusivo e minimamente hierárquico. Ele aproximase mais das noções de participação colectiva, reunindo vários actores com diferentes interesses e objectivos que criaram a possibilidade de encontrar soluções inesperadas, nas quais o espaço público se torna auto-suficiente em termos económicos e de gestão, (não recorrendo à utilização de recursos das autoridades públicas), tudo isso sem prejudicar a acessibilidade e benefício do público. Na falta de recursos económicos e de apoio das autoridades, “obrigou” outros grupos a tomar iniciativa para a revalorização de uma estrutura pré-existente desprezada. 24. Vista exterior do Palast der Republik durante os tempos soviéticos, Ulrich Kolhs (Bundesarchiv, 1976) Concluindo, o exemplo do Palast der Republik coloca em contraste duas extremidades: por um lado processos participativos, abertos, experimentais, flexíveis e de apropriação pública, e por outro, processos de planeamento urbano em que as autoridades tomam decisões e assumem a responsabilidade total. Por este facto, num único caso de estudo podem mostrarse duas abordagens contrastantes no que diz respeito à tomada de decisão em relação às estruturas pré-existentes no sentido da sua revalorização, ou não. 22. Apropriação do Palast der Republik para os eventos “Volkspalast” (Raumlabor, 2005) 25. Manifestação contra a demolição do Palast der Republick (Denner, 2006) Se as soluções de revalorização documentadas podem parecer rudimentares nas suas intervenções e pouco desenvolvidas, isso deve-se também ao factor tempo. Neste sentido, as consequências dos limites de tempo de utilização determinados pelas autoridades, e a indisponibilidade destas em dedicar recursos e facilitar processos, também devem ser tidas em linha de conta no decurso do processo de revitalização. A realização das duas edições de “Volkspalast” e de outros eventos podem ser vistos como os primeiros passos de um 52 23. Espetáculo dentro da estrutura obsoleta (s. n., 2004) 26. Impressão artística do pátio interior do novo projecto (Lunitz,2009) Excluindo as decisões finais de demolição e substituição tomadas pelas autoridades, e considerando as iniciativas de apropriação pública dos espaços do Palast der Republik, pode dizer-se que foi evidenciada a possibilidade de impulsionar impactos significativos em termos sociais, económicos e culturais. A vivência dos numerosos espaços desta estrutura apresentava uma urbanidade em escala reduzida, flexível e em constante mutação, dando à cidade e aos seus habitantes um lugar onde fosse possível participar ou apenas observar/assistir a inúmeros eventos ou actividades. O Palast der Republik, que se localizava numa zona central com forte atractividade turística, criou as condições para se estabelecerem funções e actividades capazes de atrair os habitantes locais. Integrando-se assim com a cidade, esta estrutura tinha o potencial de aproveitar a sua proximidade aos lugares turísticos para se tornar um centro cultural com reverberações fora dos limites urbanos de Berlim. Extracto I 54 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Fabrica FIX, Atenas, 1957-63 5.1 OBSOLESCÊNCIA; EXEMPLOS DE REFLEXÃO Este exemplo, uma fábrica de grandes dimensões localizada no centro de Atenas, consiste numa reconstrução modernista de uma fábrica de cerveja. O novo edifício, de autoria do arquitecto grego Takis Zenetos (em colaboração com Margaritis Apostolidis), era reconhecido como um dos exemplos mais importantes do estilo Internacional desenvolvidos em Atenas. As estruturas pré-existentes desactivadas e abandonadas podem representar tipologias muito variadas, desenvolvidas em momentos históricos específicos, onde ocorrem mudanças nos modelos de produção industrial e do trabalho, ou resultantes das mutações nos sistemas infraestruturais. Os três exemplos seguidamente apresentados são uma pequena amostra que serve para dar uma ideia geral da variedade de tipos de estruturas que se tornam obsoletas: fábricas (Fábrica FIX), estruturas construídas em tempos de guerra (Culture Bunker) e centrais de produção eléctrica (Battersea Power Station). As diferentes tipologias, em conjunto com as circunstâncias contextuais específicas, permitem notar a infinidade de casos e de possibilidades na adopção e aplicação de vias de abordagem para a revalorização. Como observado por Rem Koolhaas na sua exposição “Cronocaos”55, assiste-se a uma tendência de selecção discriminatória do edificado que se considera digno para ser conservado/preservado. Através de critérios que têm como prioridade o valor estético, ou valores históricos subjectivos (como se verifica em alguns casos, com o desprezo pelo modernismo), procede-se a operações de amnésia histórica, que recriam ou reforçam idealismos utópicos, afastados da realidade. Com 7 pisos e um comprimento que ocupava um quarteirão da cidade, a fábrica FIX dominava a sua envolvente caótica. Ainda assim, o edifício tinha um efeito estruturante, a nível físico e visual, que com ênfase na horizontalidade reduzia seu impacto, entrando numa relação mais harmoniosa com o seu contexto. No seu interior, os espaços tinham sido conceptualizados de modo a permitir a flexibilidade na utilização da fábrica, prevendo mudanças funcionais. O sistema de eixos horizontais e verticais alternava aberturas de ventilação e iluminação com painéis fixos. A reconversão da fábrica FIX, que perdeu quase metade da sua volumetria a fim de libertar espaço para a extensão do metro, vai dar lugar a um centro de arte contemporânea, com as adições habituais de restauração (etc.), e uma fachada que terá pouca relação com a antiga. Em alguns processos de requalificação e preservação verifica-se a perda de autenticidade e respeito pelo passado (Ouroussoff, 2011). Como consequência, o preservado converte-se em elemento artificial (ao serviço de interesses como o turismo); substitui-se a rude vitalidade pelo estéril superficialmente embelezado. Existe uma grande quantidade de estruturas significativas (pela sua localização e pelo modo como ocupam o espaço urbano) obsoletas, que com as suas características intrínsecas se destacam das outras pré-existências da envolvente. A revalorização destas (sem considerar o sector residencial) pode evitar reconversões de matriz “cultural” limitador (museus, galerias), que oferecem espaços auxiliares (restaurantes, lojas de recordações) com pouco peso próprio. 27. A fábrica FIX (s.n., s.d.) Extracto I 55 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana The Culture Bunker, Frankfurt, 2ª Guerra Mundial Battersea Power Station, Londres, 1930 - 1934 Este projecto situa-se nas proximidades de Osthafen, uma zona de docas, dominada por um mercado de frutas e vegetais desactivado, que estava a atravessar uma restruturação urbana. O bunker está localizado numa área degradada e caracterizada por montes de lixo, contentores e produtos de reciclagem à espera de serem transportados para outros destinos. A estrutura pré-existente apresentou-se como lugar ideal para receber uma comunidade artística local em contínua procura de novos espaços para se apropriar. As reparações dispendiosas exigidas pela reparação do telhado, que tinha danos que resultavam em infiltrações, deram origem à ideia de construir por cima da estrutura, sendo também muito alto o custo da sua demolição (Index Architects, 2007, 71). A antiga central de Battersea, com as suas quatro chaminés de quase 100 metros de altura, é um edifício icónico da cidade de Londres. Obra do mesmo arquitecto britânico que desenhou a Bankside Power Station (reconvertida no Tate Modern, um centro de arte moderna), a Battersea Power Station está abandonada desde o ano 1983. O proprietário público da central de Battersea considerou inicialmente a demolição desta estrutura, com o objectivo de construir edifícios habitacionais. Desde o ano de 1987 a central e o seu terreno envolvente pertenciam a diversos proprietários privados, os quais não foram bem sucedidos relativamente à readaptação desta dentro de um novo plano. Um dos principais factores impeditivos dessa readaptação foi o valor patrimonial da central e a difícil conjugação com fortes pressões económicas, que pretendiam a construção de novas estruturas no terreno envolvente. O projecto de revalorização, dos Index Architects, tentou criar um motor que estimulasse a transformação do contexto municipal envolvente. A nova adição de madeira é uma construção relativamente económica que beneficia da estrutura rígida do bunker, e consiste em estúdios de artistas e o Instituto das New Media. Estes espaços estão circundados por uma galeria que funciona simultaneamente como elemento de ligação com a cidade e como saída de emergência. 28. Vista do The Culture Bunker (Index Architects, 2007, p. 74) 29 e 30. O bunker antes da intervenção (Index Architects, 2007, p. 72) 31. Iluminação do The Culture Bunker (Index Architects, 2007, p. 69) Entre as intervenções propostas ao longo dos anos podem assinalar-se as de parque temático, cinemas, hotéis, habitações (até 3.400, principalmente de luxo) e uma estação ferroviária. A última proposta para a área inclui também a readaptação das salas de turbinas da central para acolher conferências, e a reconversão de duas chaminés para a produção de energia sustentável (“verde”), ligadas a um centro de energia biológica. Nos últimos seis anos o proprietário actual não conseguiu avançar com nenhuma proposta concreta, situação exacerbada pelas suas dívidas. O estatuto ambíguo desta estrutura, protegida mas em mãos privadas, faz ressaltar a questão das forças económicas, da complexidade, viabilidade e do balanço entre o carácter desejado e o carácter realístico de algumas revalorizações. 32. Vista nocturna da Battersea Central Station (Smart, s.d.) 56 33. Battersea - localização nas proximidades dos rio Tamisa, infraestruturas rodoviárias (Chung, s.d.) 34. Vista aérea da Battersea Central Station com seus terrenos envolventes (s.n., s.d.) 35. Vista interior da Central Battersea (Livvya, 2008) Extracto I 57 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana 5.2 DAS ENVIRONMENTAL UNITS ÀS UNIDADES ECOSSISTÉMICAS Aqui tentar-se-á apresentar uma lógica sequencial que demonstre, a posteriori de um caso multidimensional (o viaducto Place de la Bastille), exemplos cada vez mais próximos da noção de unidade ecossistémica, noção que consiste numa reinterpretação aplicativa das environmental units. Os exemplos aqui expostos começam por realidades mais “primitivas”, que mostram tipos de aproveitamento espontâneo dos espaços subvalorizados de estruturas pré-existentes. Passarse-á por exemplos de intervenções planeadas, com o objectivo de revalorizarem pré-existências, a fim de chegar a construções de raiz que representam os princípios da abordagem. Quando considerado relevante, será feita uma observação sobre as relações entre estrutura/forma e categoria/função/uso. Avançar-se-á com a seguinte sequência lógica: A) A apropriação espacial atráves da desconstrução das relações entre estrutura/forma e categoria, função/uso. B) Apropriação espontânea informal - ferrovias, autoestradas. C) Estruturas intra-categóricas e estruturas híbridas, as environmental units de Tóquio. D) Intervenções que actuam no pré-existente. E) Construção de raiz – integração de tipologias diferentes e multiplicação dos usos. F) Construção de raiz – aproximação à noção de unidade ecossistémica. Em síntese será realizada uma breve reflexão sobre o trabalho e o papel do arquitecto. A) A apropriação espacial atráves da desconstrução das relações entre estrutura/forma e categoria, função/uso: Viaducto Place de La Bastille, Paris, França. O viaducto Place de la Bastille destaca-se como exemplo demonstrativo de como uma estrutura pré-existente pode superar ciclos de obsolescência e tornar-se, sem alterações físicas notáveis, num sistema espacial estruturante capaz de acomodar funções novas e usos significativamente diferentes. A reinterpretação aberta das relações históricas entre a componente física de estrutura/forma, com a componente imaterial da categoria de função/uso, permite o êxito na reapropriação de estruturas aparentemente obsoletas. Este viaduto, localizado em Paris oriental, consiste numa infraestrutura ferroviária elevada, construída em 1859, que serviu a sua função original até aos anos da década de 70. A revalorização desta estrutura, que na parte superior das linhas férreas inspirou a intervenção da High Line, revela-se também como caso valioso pelo exemplo das ocupações adaptativas na sua parte portante – os arcos estruturais. B) Apropriação espontânea informal - ferrovias, autoestradas. 36. Apropriação dos arcos do viaducto Place de la Bastille antes da sua readaptação no Viaduct des Artes (Hertzberger, 1991, p. 99) Das infraestruturas de mobilidade resultam espaços que nas suas extensões causam cortes nas redes de relações intraurbanas. A apropriação inesperada, espontânea, com o seu modo de maximizar o aproveitamento funcional e espacial de zonas “mortas” e ao mesmo tempo de mostrar as limitações dos processos predefinidos de planeamento, pode ser fonte de novas potencialidades. Apropriação do espaço debaixo de autoestradas elevadas (Pearl River Delta, China). 37 e 38. Apropriação dos arcos do viaducto Place de la Bastille, evidenciando a relação entre pré-existente e novo (Hertzberger, 1991, p. 98-99) Nos anos 1980, após um debate entre demolir ou reconverter o viaduto em passeio pedonal, ganhou a segunda das opções. No ano de 1994, a sua reconversão em jardim/parque elevado, plantado sobre as antigas linhas férreas, abriu ao público. Chamado Promenade Planteé, este percurso verde tem uma extensão de 4,5 quilómetros. 40. Life under the highway: entertainment islands. A roof, support for lighting and electricity (Guiterrez, 2003, p. 71) Simbiose a nível temporal e espacial entre duas funções (as de ferrovia e de mercado aberto) aparentemente sem relação (Bangkok Maeklong Railway Market, Tailândia). Ao longo dos anos, os 72 arcos da mesma estrutura tinham sido apropriados e utilizados para abrigar várias funções de restauração e comércio. Em 1989 estes foram readaptados para acolher actividades de artesãos Parisienses. As autoridades regularizaram esta parte do viaducto, dando-lhe o nome de Viaduc des Arts; o informal foi formalizado. Ao longo dos anos, os 72 arcos da mesma estrutura tinham sido apropriados e utilizados para abrigar várias funções de restauração e comércio. Em 1989 estes foram readaptados para acolher actividades de artesãos Parisienses. As autoridades regularizaram esta parte do viaducto, dando-lhe o nome de Viaduc des Arts; o informal foi formalizado. 58 39. Vista do Viaduc des Arts (s.n., s.d.) 41. Clearing the tracks as the train 42. Market vendors leave just enough space for approaches (Lechua, 2010) the train coming to pass through (Lechua, 2010) Extracto I 59 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana C) Estruturas intra-categóricas e estruturas híbridas: as environmental units de Tóquio (Japão) referenciadas por Yoshiharu Tsukamoto. D) Intervenções que actuam no pré-existente: A8ernA - NL Architects, Koog An de Zaan, Holanda 2003 – 2006. Em comparação com os exemplos anteriores, Tsukamoto identifica exemplos mais complexos de apropriação não convencional do espaço urbano, exemplos que vão além da ocupação de superfícies. Neste caso, o contexto único da megalópolis de Tóquio revela-se como laboratório onde são experimentados os limites da relação entre as ordens de estrutura, categoria (funcional) e uso (específico). O projecto A8ernA é um exemplo que demonstra um passo posterior ao da apropriação informal ou dos exemplos mais formais de Tóquio. Aqui, com o objectivo de melhorar as condições urbanas e reintegrar partes da cidade, a environmental unit foi desenhada por especialistas. 43. Esquema adapatado apartir de “Electric Passage” (Tsukamoto, 2004, p. 224) Electric Passage (Ferrovia elevada – Centro comercial), Sotokanda, Chiyoda-ku. A estrutura portante de uma ferrovia e sua estação tornou-se em elemento estrutural para espaços comerciais. Ao longo de 300 metros foram instalados três andares de lojas electrónicas. Super car School (Hipermercado – Escola de condução), Kanamachi, Katsushika. A pista da escola de condução está assente sobre um supermercado de dois andares. O desenho de implantação foi condicionado pela trajectória curva da ferrovia adjacente. A rampa da entrada do supermercado, ao alterar a altura do telhado, deu lugar à adaptação e criação conveniente da rampa de travagem. Warehouse Court (Estação ferroviária, armazém, centro logístico – Escola de ténis), Iidabashi, Chiyoda-ku. A estrutura tem como função principal a distribuição nacional de produtos de papel. O seu primeiro andar consiste no ponto para a carga/descarga de camiões. No segundo andar estão instaladas plataformas ferroviárias. Do 3º até ao 5º andar estão armazenados os produtos de papel. Neste projecto, uma série de intervenções foram pensadas para recuperar o espaço debaixo de uma autoestrada elevada. Durante mais de 30 anos, este espaço converteu-se numa área desagradável e numa barreira divisória entre duas zonas urbanas. As intervenções para a reintegração deste espaço tentaram aproveitar a autoestrada como cobertura de várias actividades, fechadas e ao ar livre. Criou-se um corredor que integra os espaços distintos das diferentes actividades: campos desportivos, zonas de skate e breakdance, estacionamento, um supermercado, uma florista, uma peixaria, uma paragem de autocarros, uma marina (para desportos aquáticos), e outros espaços abertos que enriquecem a urbanidade do lugar. 47. O florista/peixaria (Nicolin, 2009, p. 42) 48. A marina para desportos aquáticos (Nicolin, 2009, p. 41) 44. Vista da “Super car school” Katsushika, Japão (Tsukamoto, 2003, p. 44) Esta estrutura torna-se numa environmental unit através do aproveitamento do seu telhado, com as suas consideráveis dimensões de 160 por 50 metros. Este telhado foi adaptado para se implantar uma escola de ténis, com vários campos, com acesso directo e independente da estação/centro logístico. Até a iluminação nocturna serve para duas funções: iluminar simultaneamente os campos de ténis e o painel publicitário da escola. 45. Vista da “Warehouse court” (Tsukamoto, 2003, p. 41) 46. Desenho axonométrico do projecto A8ernA (NL Architects, 2007, p. 46) 49. Vista nocturna do supermercado (NL Architects, 2007, p.47) 60 Extracto I 61 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana F) Construção de raiz - aproximação à noção de unidade ecossistémica: Rambla Manguinhos - Jorge Mario Jáuregui, Rio de Janeiro, Brasil, 2009 – 2010. E) Construção de raiz – integração de tipologias diferentes e multiplicação dos usos: The McCormick Tribune Campus Center (IIT) - OMA, Chicago, EUA, 1997 – 2003. Este exemplo, apesar de não se situar num contexto urbano de edificado denso, consiste na tentativa de conjugar tipologias de funções diferentes – um ponto infraestrutural com um centro universitário multifuncional. Nesta construção de raiz, o projectista assumiu uma atitude em que se separam as componentes estruturais das duas funções principais, pouco relacionadas, para criar um efeito visual que reforça a ideia do conflito; duas estruturas com funções diferentes tocam-se, sem se integrarem ao nível das continuações espaciais e da disposição portante. Ainda assim, encontram-se os traços do que poderá consistir numa unidade ecossistémica: a criação de relações com a envolvente, a vários níveis, e a multiplicação das categorias funcionais e dos usos específicos. Na tentativa de dar vida urbana a uma zona do campus universitário esvaziada de actividades, o projecto foi pensado para se assumir como ponto nevrálgico de ligação, redirecionando fluxos entre zonas mais densificadas. Foi assim que se criou um desenho, não de um edifício, mas de uma malha estruturante, focada na criação de ligações em forma de “ruas” e pátios, visando a simulação de um ambiente urbano. O programa funcional inclui salas de aulas, salas informáticas, zonas de comércio e de lazer. 50. Esquema axonométrico do McCormick Tribune Campus Center, OMA (Nicolin, 2009, p. 27) 62 51. O McCormick Tribune Campus Center (Nicolin, 2009, p. 24) O projecto Rambla Manguinhos exprime-se como um bom exemplo de uma estrutura desenhada com princípios que se aproximam da noção de unidade ecossistémica. Através da desconstrução das abordagens convencionais no acto de interrelacionar a estrutura/forma com a categoria e função/uso, foi aberto o leque de possibilidades. Este projecto específico, parte de um vasto plano de regeneração urbana, tinha como critérios a inclusão de diferentes bairros, a acessibilidade e a reorganização das centralidades. A ossatura portante de uma infraestrutura elevada vai servir, simultaneamente, como abrigo para várias actividades ao ar livre; em vez de se tornar numa barreira, torna-se num elemento que estrutura e cria ligações no espaço urbano. Esta nova estrutura substitui linhas férreas que não se elevavam do solo, e que se tinham convertido em fronteiras entre dois bairros, contribuindo para sua degradação e para o crime. Com este novo projecto, a mesma tira de terreno vai tornar-se numa zona unificadora dos dois bairros. Ao mesmo tempo, a função inicial de infraestrutura de mobilidade vai ser valorizada com a concentração de outros sistemas de transporte. 52. Vista da entrada principal (Nicolin, 2009, p. 26) 53. Relação entre o elemento infraestrutural e os espaços internos do centro multifuncional (Nicolin, 2009, p. 31) 54. Perspectiva do projecto (Jáuregui, s.d.) 55. Construção dos elementos portantes da infraestrutura/estruturantes da organização espacial (Jáuregui, s.d.) Extracto I 63 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana Breve reflexão sobre o trabalho do arquitecto As situações de revalorização das estruturas pré-existentes requerem uma adaptação no papel dos profissionais envolvidos nestes processos, nomeadamente os arquitectos. O arquitecto assume a responsabilidade de ser motivador e gestor dos processos de planeamento e de intervenção. A intervenção física passa aqui para um segundo plano – o que interessa é como apropriar o elemento físico já presente: como utilizar, readaptar ou modificar os seus espaços, concentrando-se, em primeiro lugar, na parte programática, que consequentemente poderá exigir alterações físicas (fortes ou não). O arquitecto, trabalhando como agente, pode contribuir com a leitura e compreensão da complexidade e valor do espaço urbano e da estrutura física obsoleta a revalorizar, relacionando os dois. Converte-se assim em orientador, colocando à disposição o seu conhecimento de especialista. A cidade, a área urbana e a estrutura, específicas, podem ter a sua componente imaterial reprogramada, num processo, onde o arquitecto organiza e o público participa nas decisões. Por um lado, o arquitecto, na forma de facilitador ou de gestor do processo de planeamento, entende o lado técnico, podendo comunicar com os especialistas envolvidos, encarregados de fazer as operações de intervenção física (potencialmente, entre os quais, outros arquitectos, selecionados para fazer o desenho arquitectónico final). Por outro lado, tem uma boa base de conhecimentos para dialogar com os outros actores e sectores que se envolvam no processo participativo. A impossibilidade de redigir metodologias definitivas e conclusivas compensa-se com uma atitude projectual aberta e flexível, “[…] inserting new imaginative narratives, like developing new software for the hardware that is the city […] upgrading the existing and reopening it for new appropriation” (Bader;Szymcak, 2009, p. 75). A cidade e as suas estruturas vêem-se como componentes físicos fixos, para os quais o arquitecto ajuda a atribuir novo valor, envolvendo-se na definição dos novos ciclos de apropriação (o componente software imaterial). 56. Esquema - o papel do arquitecto nnos processos de revalorização (Ilustração nossa, 2012) 64 Extracto I NOTAS Segundo o Dicionário do Imobiliário - Habitação - Construção – Urbanismo (Antunes, 1996, p. 434), a expressão ‘revitalização urbana’, “Designa a devolução de vida social e urbana a determinados contextos que se encontram desvitalizados devido à desertificação populacional, ao envelhecimento da sua estrutura etária, à decadência dos espaços construídos e, sobretudo, ao desinvestimento económico e político. A revitalização urbana passa, necessariamente, pelo investimento na requalificação em termos urbanísticos, económicos e sociais e pela criação de condições de atractividade para o retorno de população e de investimento económico aos espaços desvitalizados”. 1 Para a definição de ‘requalificação urbana’, o mesmo dicionário afirma que é um “Conceito que pretende designar políticas urbanas que atribuam uma nova qualidade, ou qualificação urbana e social a determinados espaços que se encontrem desqualificados. Trata-se, no fundo, de encetar políticas urbanas que permitam não apenas reabilitar a “cidade existente” mas qualificar ou “produzir qualidade” onde ela não existe” (Antunes, 1996, p. 431). 2 3 Letónia, Estónia, Arménia, e Geórgia. 4 Richard Child Hill é professor de sociologia na Michigan State University. Joe R. Feagin é professor das artes liberais na universidade Texas A&M foi um dos primeiros a estudar os processos de desenvolvimento das World Cities numa perspectiva histórico-comparativa. 5 Por Welfare State ou Estado Providência, entende-se um Estado como agente da promoção social e que garante os serviços públicos e a protecção da sua população. Entre os anos 2000 e 2010 Detroit sofreu um declínio populacional de 25%, chegando ao mínimo desde o ano de 1910 (Wisely e Spangler, 2011). 6 As primeiras Conservation Areas foram designadas em Inglaterra no ano de 1967, com o objectivo de conservar seu valor arquitectónico e/ ou histórico. Consistem em zonas que, através de diferentes processos administrativos, estão protegidas de alterações sem necessidade de recurso a processos legais. 7 8 A Unesco (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization), através da Convenção sobre a Proteção do Património Cultural e Natural, tem como fim o reconhecimento e conservação de sítios com valor a nível mundial. Criadora da Lista do Património Mundial cuja contagem actual é de 911 sítios, sendo 704 culturais, 180 naturais e 27 mistos, localizados em 151 Estados. Até Julho de 2010, 187 Estados haviam ratificado a Convenção do Património Mundial. 9 Le Corbusier (Charle-Edouard Jeanneret, 1887-1965) foi um arqui 66 tecto, visionário do urbanismo, e um dos protagonistas do movimento modernista. Jane Jacobs (1916 – 2006) de activista comunitária na cidade de Nova Iorque tornou-se em teórica das cidades, que defendia a vida urbana espontânea e criativa, ao mesmo tempo que condenava o planeamento rígido e insensível aos valores humanos. A sua influência teve um grande impacto através da publicação do livro The Death and Life of Great American Cities, publicado em 1961. 10 Robert Moses (1889-1981) foi um burocrata que assumiu um papel fundamental na forma como se realizou o desenvolvimento urbano do estado de Nova Iorque, chegando a ter uma influência significativa além destas fronteiras. Durante 44 anos sob vários cargos foi promoveu a construção de pontes, autoestradas, centrais eléctricas e o aumento do sistema de parques urbanos. A sua abordagem ao planeamento, marcada por fortes gestos e obras de grande escala, incluiu muitas operações de renovação urbana, substituindo tecidos urbanos históricos por torres habitacionais. 11 12 Pruitt-Igoe foi um projecto do arquitecto Minoru Yamasaki em St. Lou- is, Missouri, Estados Unidos, consistindo na substituição de um tecido urbano antigo por mais de 2.000 habitações colocadas em torres de desenho modernista. Desde a sua construção, nos anos 50, até à sua demolição em 1972, foi um projecto controverso e alvo de duras críticas, visto como exemplo falido e representativo das acções de renovação urbana. No ano de 1995, o Reichstag foi revestido com materiais recicláveis por uma equipa de 210 pessoas. Este evento, que durou 14 dias, foi financiado através da venda de estudos preparatórios, esquiços, maquetas, litografias e outras obras dos artistas, não beneficiando de nenhum patrocínio. 13 Entre os valores discutidos podem incluir-se a altura dos edifícios, que neste caso tinham Milão, um exemplo europeu, como referência, contra o exemplo da rua coberta, supostamente como os dos centros comerciais Americanos. Os materiais também fizeram parte da discussão - a utilização de aço para o edifício da Sony, por exemplo, foi um dos factores que levantou questões sobre os interesses e manipulações dos proprietários (Reader, 2004, p. 290). 14 Neil Smith (1954-) escocês, é professor de Antropologia e Geografia na City University de Nova Iorque. Os seus estudos concentram-se nas políticas económicas, teorias urbano-sociais: espaço, história e geografia. Entre as suas publicações encontram-se The New Urban Frontier: Gentrification and the Revanchist City (1996) e The Politics of Public Space (2006). 15 Extracto I 67 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana Pausânias (activo de 143 a 176 d.C.) foi um viajante e geógrafo grego, do qual a obra Periegesis Hellados (Descrição da Grécia) se tornou um guia para as ruínas antigas da Grécia. 17 Aristóteles (384-322 a.C.) foi um filósofo e cientista grego, considerado um dos fundadores do pensamento ocidental. 16 Eberhard Heinrich Zeidler (1926-) é um arquitecto canadiano de origem alemã, licenciado, após um período de estudo na escola Bauhaus em Weimar, pela Technische Hochschule em Karlsruhe, Alemanha, e doutorado pela Universidade de Toronto, Canadá. Pela sua actividade, tem sido premiado com o “Lifetime Achievement Award” pela Ordem de Arquitectos de Ontário (OAA) e com uma medalha de ouro pela Royal Architectural Institute of Canada. 18 Ordos, construída de raiz por vastas operações urbanas, é uma cidade com uma população actual de alguns milhares de funcionários públicos. As suas redes de infra-estruturas e o restante edificado, que inclui milhares de casas vazias, foram construídos ao lado de uma cidade mais antiga. Esta operação de urbanização foi condicionada por previsões que antecipavam a suposta explosão no crescimento urbano, tendo como justificação o crescimento exponencial da indústria de extracção de carvão na zona envolvente. Esta ‘cidade’ revela-se como exemplo mais extremo do caso de Detroit – uma cidade fortemente dependente de uma única indústria e seus respectivos ciclos económicos. 19 Como ‘jetsetting executive class’ entende-se o grupo social, restrito, dos executivos empresariais, que passam uma grande parte do seu tempo em aviões, entre reuniões de trabalho e outros compromissos. 20 21 Segundo Madanipour (2007, p. 164), um modo de classificar o espaço pode ser feito com a utilização das seguintes categorias: 1. Organização física, topografia (que resultam na diferenciação e na segregação), 2. Espaço mental, percepção do espaço – regulamentos, códigos, sinais e a insegurança, 3. Controlo social – proibições, barreiras formais (fronteiras), factores formalizados e factores informais. O medo e o desejo controlam o comportamento no espaço. Estas categorias realçam as limitações relacionadas com a questão do acesso – e a questão da inclusão ou da exclusão espacial. Estes são semelhantes ao quiosque Português, sendo estruturas isoladas e localizadas em parques urbanos ou dentro dos limites das passadeiras. Nos seus pequenos espaços são vendidos refrigerantes, gelados, jornais, revistas, merendas etc. 22 Funcionalmente semelhantes aos períptera, estes têm uma tipologia diferente, sendo colocados dentro dos perímetros de edifícios com maiores dimensões, com uma fachada virada para a rua. Do lado interior costumam ter ligação directa com as outras actividades comerciais dos edifícios nos quais se encontram inseridos. 23 Paul Davidoff – (1930- 1984) foi um advogado, urbanista, professor, e activista de direitos humanos que como director do Suburban Action 24 Institute se dedicou à integração de diferentes categorias habitacionais, propondo um modelo de planeamento urbano baseado no “advocacy planning”. 25 David Harvey é professor de geografia e engenharia ambiental na Universidade John Hopkins. Escreve sobre o marxismo e a teoria urbana pós-moderna. se fosse relva selvagem. Estes elementos permitem a transição gradual entre os dois tipos de superfície, evitando a criação de percursos fixos e a forte demarcação de zonas distintas. 46 47 Os edifícios devolutos são 4.681, enquanto os que estão em mau estado ou em ruínas são 7.085. A Câmara Municipal de Lisboa estima que até ao ano de 2024 serão necessários 1.500 milhões de euros para reabilitar mais de sete mil edifícios. (Serra, 2011, p. 4) Para evitar que este troço, a secção mais rectilínea da High Line, se convertesse num corredor entre prédios, a solução adoptada foi a criação de um maciço de plantas muito mais denso do que em qualquer momento do primeiro troço, sublinhando assim o “dramatismo” do confinamento (NG 67) durante um par de quarteirões. Esta zona é atravessada por um “passadiço” que sobe em altura e cria outros espaços de descanso, com vistas para a rua. 27 Antigamente 37 26 a via-férrea prolongava-se pela zona baixa de Manhattan, um troço demolido na década de 1960 (Goldberger, 2011, p. 61). Este era um ponto de vista prejudicial e paradoxal, se for considerada a forte presença (apesar de não se encontrarem mais em funcionamento) de armazéns, fábricas e espaços para o embalamento de carnes. Neste período, a administração Giuliani tentou demolir a High Line (Goldberger, 2011, p. 60) 28 Além dos habitantes da zona, Michael Bloomberg, o sucessor do presidente da câmara municipal Rudolph Giuliani, assim como muitas pessoas da alta sociedade nova-iorquina (gestores de fundos e executivos imobiliários), de idade inferior a 40 anos, ficaram a favor da intervenção, o que se tornava visível nas festas de beneficência anuais da Amigos da High Line. 29 36 Entre outros museus, encontra-se nas proximidades o Neues Museum, obra de reconversão efectuada pelo arquitecto inglês David Chipperfield. Heinz Graffunder (1926-1994) e Karl-Ernst Swora (1933-2001) foram arquitectos activos na Alemanha Oriental, sendo o Palast der Republik o projecto mais destacado das suas obras. O primeiro deles, Heinz Graffunder, participou nas campanhas a favor da preservação do Palast der Republik, chegando a organizar um simpósio sobre como a problemática do amianto, presente no edifício, poderia ser neutralizada com fim de evitar a demolição do edifício. 38 39 Apelido referente a grande quantidade de lâmpadas & candeeiros no Hall de entrada principal. No dia 23 de Agosto 1990, a Volkskammer (parlamento da Alemanha Oriental) decidiu neste edifício avançar com a reunificação da Alemanha, depois confirmada pelo Bundestag da Alemanha Ocidental. 30 Em 2004 o Município dedicou 50 milhões de dólares ao projecto que, 40 31 As 41 com a participação de instituições e contributos privados, aumentaram para 150 milhões. normas incluíam regras para as novas construções que estavam a surgir, estando a zona em via de revitalização e gentrificação urbana. James Corner é teórico e arquitecto paisagista, concentrando o seu trabalho no desenvolvimento de abordagens inovadoras que conjugam o desenho arquitectónico paisagista com o urbano. 32 Diller Scofidio + Renfro é um atelier interdisciplinar, integrando a arquitectura com as artes visuais, com sede em Nova Iorque. 33 Segundo Pippo Ciorra (da revista Domus), dos outros três grupos convidados, os grupos liderados pelos arquitectos Steven Holl e Zaha Hadid apresentaram propostas demasiado arquitectónicas, quando o atelier TerraGRAM propôs um projecto demasiado “vegetal”. 34 O sistema de superfície consiste na variação de unidades de pavimentação e de vegetação que variam de 100% de superfície coberta por pavimentação a 100% de superfície vegetal. Este sistema funciona através de elementos pré-fabricados de betão que se encaixam de modo de deixar espaço pelo crescimento natural de vegetação como 35 O custo total da remoção do amianto presente no edifício foi de 70 milhões de euros. Entre 1998 e 2001 foram desmantelados revestimentos interiores para chegar ao amianto, cuja remoção durou até 2004. O projecto do Humboldt Forum, prevê a união de duas bibliotecas Berlinenses, a colecção científica da Universidade Humboldt e a colecção de Arte não-europeia. Naquela altura o orçamento deste projecto rondava os 670 milhões de euros, agora reduzido para 524 milhões de euros. 42 Markus Bader (2009, p. 77), cínico face esta afirmação, “met no one outside Berlin that felt the place has Germany-wide relevance”. 43 Ute Lehrer ensina estudos ambientais na universidade York de Toronto, Canadá, e escreve sobre os temas da história da arquitectura e do planeamento urbano no Ocidente. 44 45 Praça histórica e central da cidade de Berlim, após sua parcial destru- ição na segunda guerra mundial, durante a guerra fria foi dividida (entre as duas potências) e deixada num estado de dilapidação. 68 Outro grupo significativo eram as pessoas que tinham utilizado o edifício nos tempos do regime soviético e mantinham uma ligação sentimental para com este (Ouroussoff, 2006). A “International Commission of Experts ´Historical Centre´” consistia em 15 Alemães, um Austríaco e um Suíço, e foi constituída pelo governo federal no ano 2000, finalizando o relatório no ano de 2001. No mesmo relatório foi aconselhada a demolição do palácio, sendo esta comissão responsável pela recomendação da construção do Humboldt Forum. 48 Entre as quais o teatro Sophiensaele de Berlim e a Opera Staatsoper. A colectiva Urban Catalyst nasceu após um projecto europeu de investigação do mesmo nome. Fundada no ano de 2003, esta colectiva é uma organização interdisciplinar de investigação, projectos, intervenções públicas, exposições e publicações. Segundo o grupo, objectivo principal é incluir o público em discussões relacionadas a questões urbanas contemporâneas e desenvolver conceitos e estratégias para os urbanistas e os arquitectos. 49 ZPN – ZwischenPalastNutzung, ou “Uso-Entre-Lugares” (a colectiva Studio Urban Catalyst foi um dos membros fundadores principais). 50 51 A primeira acção desta estratégia foi a abertura do Edifício/estrutura para visitas guiadas limitadas (garantindo uma maior atenção pública e mediática). Foi contratada uma empresa especializada em projectos de cenários, que ajudou na capacidade de fazer intervenções económicas dentro da estrutura do Palast. Uma outra acção aproveitou as instalações anteres para introduzir “musical walks”, uma iniciativa com o Baudenburg Philharmonics. Já nos tempos de utilização da época da República Democrática Alemã, o Palast der Republik tinha sido local de importantes eventos, sendo o primeiro lugar onde o governo comunista permitiu um concerto de um grupo Ocidental, os Tangerine Dream no ano 1980. Após o seu abandono e a eliminação do amianto, a estrutura do palácio continuou a mostrar a sua capacidade de utilização para eventos. Deu lugar a concertos e exposições como por exemplo uma do exército Terracota em 2004. O palácio foi utilizado para inumeros eventos, nomeadamente para o congresso anual da Associação Federal de Industrias Alemãs (BDI), no ano de 2004 um andar do palácio foi inundado e utilizado para dar voltas em jangada. De referir ainda a proposta não materializada, da estrutura servir de suporte ao campeonato mundial de Volley. 52 53 Um dos fundadores do grupo raumlaborberlin, Markus Bader (1968-), é arquitecto formado em Londres e Berlim e curador de exposições. O seu trabalho concentra-se no interface entre arquitectura, arte e transformação urbana e a criação de meios interactivos. Tem sido professor de conceptualização na Academia de Arte, Arquitectura e Design na VSUP, Praga, e participou nas exposições de várias edições da Biennale de Veneza. Extracto I 69 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana O principal material utilizado na construção da “montanha” foram elementos triangulares de tecido de fibra de vidro, por terem ao mesmo tempo resistência anti-incêndio. Os visitantes podiam fazer um passeio ao redor da base da montanha, subir ao topo através de três percursos com narrativas diferentes, comer na “Pizzeria della Montagna” ou apanhar sol ao lado de uma lagoa artificial. REFERÊNCIAS Exposta na Bienal de Veneza de 2010 e no New Museum de Nova Iorque em 2011. AMIOT, Michel ; MERLIN, Pierre (1988) - Rénovation Urbaine. In CHOAY, Françoise ; MERLIN, Pierre, coord. (1988) - Dictionnaire de l’urbanisme et de l’aménagement. 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O arquitecto já não pode ser apenas um mero desenhador, ele é quem constrói a cidade, é quem edifica o mundo, é quem dá dimensão à “tábua rasa”, e, para tal, é urgente que o mesmo tenha consciência do seu passado e do seu presente, de modo a conseguir responder de maneira coerente e consciente ao seu futuro presente. A arquitectura surge como necessidade de um abrigo, tornase símbolo religioso e de poder, é construída segundo regras padronizadas, adulteráveis e pré-definidas, respondeu à evolução industrial, alimentou o ego, e hoje procura urgentemente ser reflexo e elemento complementar da sociedade, com a “[…] capacidade de ordenar o mundo e por essa acção humanizá-lo” (Rodrigues, 2002, p. 10-11). Por conseguinte, interessa entender até que ponto não nos caberá a nós, arquitectos, o primeiro passo, capaz de responder atempadamente à constante mutação da nossa sociedade. Pretende-se, assim, primariamente, promover uma reflexão sobre as seguintes questões: O que é uma obra de arquitectura com sentido? O que é arquitectura? O que é sentido? O arquitecto como simples agente criador, ou como ser reflexivo e consciente? Construir “para” ou “com” as pessoas? Que valores condicionam ou beneficiam o “destino” da obra arquitectónica? Qual a importância do preservar? Porquê a consciência do reabilitar? O passado como cópia, ou o presente no futuro como símbolo de história? Será o utilizador o elemento fundamental no reconhecimento do sentido da obra de arquitectura? Como refere Alberto Campo Baeza1: “Não compreendo os arquitectos que só pensam exclusivamente em Arquitectura. Acredito que é um erro. Tenho mais livros de Poesia que de Arquitectura, e se tenho livros de Arquitectura!” (Campo Baeza, Extracto II 75 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana 2007, p. 24). Deste modo, é essencial ter a consciência que afinal, são as carências do corpo e da mente que nos fazem viver em sociedade e, acima de tudo, o arquitecto não pode esquecer que, antes de ser um ser criador, é um ser racional consciente, e a consciência está no conhecimento global e numa realidade multidisciplinar. Sintetizando, como a solução para estas inquietações (quem as pensa e cria – arquitecto) e realidades (quem as vive – utilizador) está longe de ter respostas unitárias e unânimes, o sentido que se procura na arquitectura, ou que se pretende que a arquitectura não perca, ou de certa maneira, volte a auferir, é tão genuíno no presente como foi no passado, porque o mesmo, vale igualmente hoje como valia ontem (Augé2,2006, p. 76). O valor do Passado : Adolf Loos form instead of making it depend on ornament is the goal towards which humanity is aspiring”. Em suma, como para Adolf Loos, apud Kenneth Krampton (2003, p. 105), “só uma parte muito pequena da arquitetura pertence à arte: o túmulo e o monumento. Tudo o mais, tudo quanto serve a um fim, deve ser excluído dos domínios da arte”, será que qualquer obra arquitectónica que procure um sentido mais implícito será não-arquitectura, e que por isso, tudo o que se construía com um sentido verdadeiramente explícito, sem ornamento e segundos signos, mais se aproximaria da construção do que da arquitectura? Ou Loos, simplesmente quereria dizer, que o necessário seria apenas uma arquitectura capaz de resolver as necessidades primárias do corpo humano, abdicando, por conseguinte, do seu passado, do sonho, do intelecto e do espírito? O valor da (Re)Interpretação : Friedenseich Hundertwasser Se, para muitos arquitectos, toda a filosofia modernista foi exaustivamente concebida e desenvolvida como uma autêntica “bíblia”, para outros, o ideal funcionalista, o desprezo pela ornamentação e a busca de uma linguagem rectilínea e perfeita, marcada pela indústria e pela simplicidade do tratamento e da aplicação dos materiais, causava grande sentimento de repulsa, procurando freneticamente na arquitectura outros valores e uma nova direcção capaz de se contrapor ao intolerável. Em 1983, numa conferência, o arquitecto austríaco Friedensreich Hundertwasser afirmava: “We are living in great time of upheaval, in time of change. The era of absolute rationalism is nearing its close”7 (1997c, p. 68). Avaliando uma sociedade em que “[…] os problemas sociais se colocam em termos de economia e técnica” (Argan3, 1996, p. 222), o problema que mais incomodava Adolf Loos4 seria o desperdício de obra e de materiais que o ornamento causava; por isso, denunciou a sua aplicação como crime. O arquitecto e artista Friedensreich Hundertwasser (19282000), na década de 50, deu início à sua obra, marcada por uma intensa actividade pictórica, com construções, manifestos anti-racionalistas e acções históricas em defesa de uma visão naturalista do ambiente8, enunciando que o trabalho de um artista, além de embelezar o mundo, deveria melhorá-lo. Para Hundertwasser, cabia ao arquitecto transformar as cidades sem alma, para que os habitantes vivessem de novo em harmonia com a natureza. Naturalmente, será que por ser apologista de uma arquitectura que valoriza as necessidades humanas de valor estético e espiritual, em detrimento da simplicidade funcional, retira à obra de Hundertwasser a denominação de arquitectura, e se restringe simplesmente a um exemplo de peça de arte? Ou o sentido condutor, não estará nem num sentido explícito9 nem num sentido implícito10, mas sim na união dos mesmos como afirmava Maria João Madeira Rodrigues11? Será que tanto os arquitectos Loos, Sullivan12, Meyer13 por defenderem um único sentido plausível, não estariam eles a fazer a sua própria arte? E simplesmente lhe alteraram o nome consoante a sua necessidade pessoal? Contudo, Friedensreich Hundertwasser não foi o único a realizar uma (re)interpretação da arquitectura marcada pela linguagem racionalista do movimento moderno, em que a arquitectura servia modestamente para responder às necessidades físicas da sociedade, e em que a utilização de qualquer elemento mais estético, artístico ou sentimental que pudesse ser atribuído ao espaço arquitectónico seria automaticamente renegado. Nos finais da década de 60, o arquitecto norte-americano Gordon Matta-Clark14 apresentara igualmente uma nova abordagem da arquitectura, visando uma arquitectura feita como uma arte, não para ser admirada, mas para ser experienciada e sentida. Segundo Adolf Loos, apud Kenneth Frampton (2003, p. 104), seria totalmente inadequado que o homem continuasse a insistir em utilizar o ornamento na sociedade moderna, pois, se assim o fizesse, os objectos perderiam sua consciência, impedindo que o homem visse a arquitectura com clareza, não conseguindo dominar o seu todo. Como escreveu Adolf Loos, no seu manifesto Ornament and Crime: 5 O ornamento moderno não tem antepassados ou descendentes, passado ou futuro. É recebido com alegria pelas pessoas incultas, para as quais a verdadeira grandeza de nossa época é um livro fechado que, depois de algum tempo, é jogado fora. (Frampton, 2003, p. 104). Seguir um sentido de valor prático da arquitectura seria, aos olhos de Adolf Loos, a direcção correcta, perante uma arquitectura perdida no Tempo, que, continuando a aplicar às obras arquitectónicas características do passado, nunca alcançaria verdadeiramente o essencial, porque, para Loos, apud Nikolaus Pevsner6 (2005, p. 21), “the lower the standard of a people, the more lavish are its ornaments. To find beauty in 76 O valor da experiência : Gordon Matta-Clark 1. O exemplo do exterior de uma obra de Adolf Loos. Alçado posterior da Müller House (Stresovicka, Prague), 1930 (Schezen e Rosa, 1996, p. 143) 2 e 3. Intervenção de Hundertwasser, Rosenthal Factory (Selb) (1980-182). É evidente a presença dos elementos naturais, coberturas verdes e cores vibrantes. A primeira imagem corresponde ao edifício antes da remodelação (Taschen, 1997, p. 118) Apesar da sua formação em arquitectura, Matta-Clark recusou-se a construir de raiz, defendendo um trabalho de diálogo constante entre a arte e a arquitectura, rejeitando o ideal convencional da arquitectura por esta “[…] estar baseada no estável e no imutável, em contradição direta com a maneira flutuante, multifuncional e mutante como o espaço […] era efectivamente usado” (Schulz-Dornburg15, 2002, p. 15). Entendendo-se, para Matta-Clark, para se conseguir libertar de um ideal de Extracto II 77 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana construção, toda a arquitectura teria de se ligar e de se (re) interpretar, segundo novos valores, segundo a procura de um sentido de características implícitas, que a aproximassem da sua beleza fundamental, da emoção da experiência. Este desejo de alcançar uma arquitectura reactiva e menos permanente, de modo que as construções arquitectónicas não representassem uma ordem sólida, formal e definitiva, mas tivessem a capacidade de responder à realidade, conferindo ao edificado já obsoleto, outro sentido, fez com que Matta-Clark e outros artistas do seu grupo Anarchitecture16 tentassem converter a solidez estática, resultante da arquitectura modernista, num instrumento e objecto capaz de se adaptar a qualquer situação social e cultural, imaginando “[…] uma arquitetura que pudesse se transformar de acordo com a flutuante vida urbana” (SchulzDornburg, 2002, p. 15). Por conseguinte, a motivação de tornar o espaço “inútil”, libertando-o da funcionalidade aprisionante, agregara na obra de Matta-Clark a noção de um espaço visto fundamentalmente como experiência, possuidor de uma qualidade elástica e versátil, já presente na exposição do grupo Anarchitecture, bem como na entrevista intitulada Dilemmas : a radio interview concedida a Liza Bear, em Março de 1976 para a rádio WBAI– FM17 de Nova Iorque, na qual Matta-Clark, tentou descrever a sensação vertiginosa de passear pela sua intervenção Conical Intersect (1975), dizendo: Bem, quando se estava na peça18 em si, conforme você se movia de andar em andar que haviam sido cortados, o seu senso normal de gravidade era subvertido pela experiência. Na verdade, quando você chegava ao andar de cima e olhava para baixo por meio de um corte em forma de elipse no chão que foi cortado, você olharia através de um fragmento de um espaço de um apartamento comum, mas eu nunca tinha visto nada parecido. Parecia quase como se fosse uma piscina. Ou seja, ele tem uma qualidade reflexiva e uma superfície – mas a superfície era somente o acúmulo de imagens dos espaços que estavam embaixo. Havia esta estranha inversão. A maioria das nossas experiências mais profundas em relação ao espaço era como olhar para algo parecido com uma abóbada ou... É quase impossível visualizar... Mas podemos voltar para algumas das contradições... Não há nenhuma razão para que a contradição não seja também um campo fértil. Quer dizer, isso me mantém lutando com novas formas de fazer alguma coisa. (Bortulucce19, 2011, p. 120)20 Nesta perspectiva, os seus building cuts consistiam numa série de intervenções (algumas ilegais) em edifícios abandonados ou prestes a serem demolidos, que se apresentavam como arquitecturas desprezadas, de uma maneira ou de outra, pela cidade, pelo capitalismo e pela sociedade. Esta nova visão do espaço arquitectónico, defendida por Matta-Clark, também conferia uma crítica ao capitalismo modernista, especialmente em relação às propostas urbanas impostas na época em Nova Iorque. Para Matta-Clark a essência da arquitectura residia no espaço e na experiência humana. Ao reciclar-se a matéria existente, pois defendia que a matéria está em constante transformação, reciclava-se a sua significação e reciclava-se o espaço, local de vivências e de identidades, que, a partir das intervenções do artista, se transformava em um novo local, abrangendo outras experiências. 4 e 5. Desenho e vista interior da obra Conical Intersect, Gordon Matta-Clark, 1975 (Santos, 2001, p. 77) O valor do Multissensorial: Juhani Pallasmaa Consciente de que à arquitectura não bastaria a tríade vitruviana (Evers, 2003, p. 6); de que desde o Renascimento, a invenção da perspectiva faz do olho o ponto central do mundo perceptivo; e de que os restantes sentidos foram sendo separados e ordenados como secundários, o arquitecto finlandês, Juhani Uolevi Pallasmaa (1936-) tem desenvolvido ao longo das últimas décadas, uma leitura mais fenomenológica da arquitectura, em que as diferentes dimensões da experiência humana não são provocadas ou invocadas apenas pelo funcionalismo programático ou estético, que simplesmente considerava o sentido da visão, mas por toda a percepção do mundo e do espaço arquitectónico proveniente dos cinco sentidos, apelando a uma arquitectura mais completa e integrada. Alegando que a arquitectura é uma expressão artística, na medida em que transcende a sua esfera puramente utilitária, técnica e racional, e se transforma numa expressão metafórica do mundo vivido e da condição humana, Juhani Pallasmaa tenta transmitir, nos seus projectos arquitectónicos e especialmente na sua obra literária, um apelo à arquitectura contemporânea, para que não se continue a cometer os erros oriundos do passado modernista, tentando suplantar a nossa consciência e avigorar a nossa capacidade de reflexão. Com esse forte ruído de fundo, a obra de Pallasmaa evoca a solidão contemplativa e o empenho, a que ele já chamou, segundo Steven Holl21 (1947-), de “The Architecture of Silence” (Pallasmaa, 2009, p. 8).22 6. A cidade da participação. A cidade de envolvimento sensorial, Peter Bruegel the Elder, Children’s Games, 1560 (Pallasmaa, 2009, p. 43) 7. A cidade da alienação. A cidade de privação sensorial, Fotografia de Juhani Pallasmaa, (Brasília) 1968 (Pallasmaa, 2009, p. 43) 78 Para Pallasmaa a arquitectura não deveria ser um mero instrumento da funcionalidade, do conforto corporal ou de prazer estético, mas que, sobretudo, lhe caberia o papel de activar a nossa imaginação e emoção, Pallasmaa, defende que se torna fundamental a percepção do mundo pelos cinco sentidos, tornando-o acessível, desejado e compreendido por todos, encontrando uma finalidade e um sentido para a arquitectura, dizendo que “existe, hoje, uma idéia muito vaga sobre a finalidade da Arquitetura. Actualmente, os edifícios são como ‘imagens’, que refletem o egocentrismo de um cliente e/ou de um arquitetoartista. E essa não é a finalidade da Arquitetura”, sendo que “a Arquitetura deveria estar social e culturalmente orientada. E isto se perdeu” (Pallasmaa, 2006). Contudo, esta inquietação pelo facto de a actual arquitectura se manter ‘retiniana’, ‘narcisista’ e ‘niilista’ (Pallasmaa, 2006), não se depreende somente da defesa da valorização do tacto ou da audição como sentidos igualmente vitais face ao sentido da visão, ou da tentativa de explicar a desumanidade da arquitectura, mas também de tentar, nomeadamente, acautelar os novos arquitectos para a concepção de uma obra arquitectónica feita para as pessoas23. Na entrevista concedida a Anatxu Zabalbeascoa24 (1966-) em 2006, intitulada La arquitectura de hoy no es para la gente, Pallasmaa explica: A Arquitetura de hoje se descuidou dos sentidos, mas não é só isso que explica sua desumanidade [inhumanidad]. Ela não é feita para as pessoas. Tem outros objetivos, alheios ao uso pelos cidadãos. De tal modo que a Arquitetura se tornou uma arte visual. E, por definição, a visão te exclui do que estás vendo. Vê-se desde fora, enquanto que a audição [el oído] te envolve no mundo acústico. Nesta linha de raciocínio, a Arquitetura deveria envolver através da tridimensionalidade. O tato nos aproxima do tocado. Por isso, uma arquitetura que enfatiza a visão nos deixa ‘fora de campo’. (Pallasmaa, 2006). Sintetizando: se de Adolf Loos retiramos o “medo” do confronto com o passado, na sua tentativa de exclusão do supérfluo como símbolo de uma estagnação e submissão da arquitectura e da sociedade ao mesmo, simultaneamente, se entende com Louis Sullivan, que esse confronto é possível e valoriza-se o equilíbrio entre épocas, bem como o se construir uma nova identidade fundamentada na sua origem. Hannes Meyer procura entender a arquitectura não como uma obra acabada resultante de um único artista, mas como um processo colectivo, que não se esgota Extracto II 79 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana na acção do arquitecto no desenho, mas que se prolonga na execução, defendendo a sua multidisciplinaridade. Friedensreich Hundertwasser, chama a atenção para uma arquitectura que se esconde e subsiste para lá das “janelas”, para a coerência entre o construído e a natureza, assim como para uma (re)interpretação orgânica da mesma, tanto na sua edificação, como na sua utilização. O arquitecto é livre de criar, mas o utilizador também tem a liberdade de a utilizar, e é essa a consciência que falta ao arquitecto, nas suas criações. Tem construído uma obra acabada, pensando que se esgota na sua concepção, mas a arquitectura é um objecto social, é uma acção em constante transformação, sendo igualmente cíclica, na medida em que, nasce, “vive” e se deteriora e, para se conseguir controlar o seu “tempo de vida”, em muito ajudará o sentido, segundo o qual se constrói. Nesta abordagem, se Gordon Matta-Clark vê a arquitectura como uma experiência espacial, juntando a capacidade de nos surpreendermos a cada deambular, com a capacidade criativa e volátil exigida ao arquitecto, explicando que a arquitectura só faz sentido quando é utilizada. Juhani Pallasma destaca a importância da mulltissensorialidade, dos 5 sentidos, da dependência do ocularcentrismo, e da necessidade da criação de uma arquitectura que apela aos valores humanos, ultrapassando a definição base para uma realidade eternamente incompleta, mas que o arquitecto tem o dever de conseguir com a sua acção, completar com mais uma “peça”. Analisadas várias interpretações possíveis de uma plausível construção do sentido da arquitectura, pretende-se, seguidamente, compreender a origem da mesma, na medida em que o arquitecto, o programa e o utilizador são considerados os elementos fundamentais para uma pertinente atribuição de sentido à obra de arquitectura face à sua utilização. Numa entrevista para a revista UPORTO - Revista dos Antigos Alunos da Universidade do Porto, o professor Bernardo Pinto de Almeida25 (1954-) sugeriu ao arquitecto Siza Vieira26 (1933-) uma definição muito sintética do que seria actualmente a arquitectura para ele, e Siza respondeu dizendo: “Se calhar não era capaz…” (Vieira, 2003, p. 31). 2. A ORIGEM DA OBRA DE ARQUITECTURA O primeiro gesto arquitectónico terá sido, para Gregotti27, o da colocação da pedra que significa e reconhece, determina e instaura, um lugar. Aí nascerá o espaço expressivo, aí nascerá a arquitectura. (Almeida, 2004, p. 41) O ser humano habita a terra há mais de 1 milhão de anos28 (Kostof29, 1996, p. 43). Com o Homo Sapiens foram estabelecidas as primeiras comunidades sedentárias e hierarquizadas, reveladoras da preocupação de desenvolver estruturas sólidas e duradouras (Meneses, 2007, p. 46). Ao disseminar-se a partir da África Central pela costa até aos climas europeus, o Homem viu-se obrigado a deixar as cavidades naturais, e teve de construir o seu próprio abrigo30. Se no início, as suas protecções estavam dependentes da natureza, fossem elas grutas ou mesmo árvores, com a evolução da espécie e, mais concretamente, com o desenvolvimento da inteligência e da habilidade para construir ferramentas e para organizar uma rotina diária, surgiu a necessidade de definir aglomerados com abrigos de carácter mais permanente, ou outros com utilizações periódicas de curta duração, adaptandose ao clima e ao seu quotidiano (Meneses, 2007, p. 46). A execução da cabana primitiva e dos restantes artefactos, permitiu ao Homem controlar o ambiente envolvente e adaptá-lo à sua própria conveniência e evolução, afastando definitivamente o lado imediato e obscuro caracterizador do Ser primitivo, do lado inteligente e criativo do Ser humano. 31 Segundo a definição dada por Bruno Zevi32 (1996, p. 1819), em que a obra de arquitectura é toda aquela em que fica explícita a existência de um espaço interno relacionado com as necessidades humanas, tornando-se, esse mesmo espaço, a principal característica de uma arquitectura, poder-se-á considerar, que a origem da arquitectura, estará intimamente associada à ideia de abrigo, funcionando como elemento de limite na organização espacial. Portanto, se considerarmos que a arquitectura começa com as primeiras construções humanas, pela sua capacidade de resposta às necessidades do homem, e que a arquitectura “[…] não provém de um conjunto de larguras, comprimentos e alturas dos elementos construtivos que encerram o espaço, mas precisamente do vazio, do espaço encerrado, do espaço interior em que os homens andam e vivem” (Zevi, 1996, p. 18), poderse-á afirmar que a arquitectura tem início nos primeiros abrigos, na caverna. No entanto, à medida que as comunidades humanas evoluíam e aumentavam, também as necessidades e crenças se alteravam, e desde as primárias habitações do período Paleolítico ao Neolítico, ou das primeiras civilizações mesopotâmicas ao Império Egípcio, Grego ou Romano, o sentido da arquitectura como “arte de edificar” (Rodrigues et al., 2005, p. 45) de essencial necessidade, é ultrapassado e substituído, podendo-se então considerar que a origem da arquitectura como obra de arte, estará mesmo nas simples construções megalíticas, de cariz fúnebre e, posteriormente, nas pirâmides egípcias, nos templos dos deuses gregos, nos aquedutos, na arquitectura religiosa e público-utilitária do Império Romano. Esta permanente analogia entre arquitectura e arte, tem vindo ao longo da história, a criar teorias, face a uma concreta definição da arquitectura. Embora Peter Eisenman33 (1932-), apud Josep Maria Montaner34 (2007, p. 168), afirmasse que a arquitectura não deveria ter significado, a busca de um sentido condutor, tem vindo ao longo da história a tornar-se fulcral. Referindo Henri Lefebvre35 (1901-1991): “se desaparecem o sentido e a finalidade, se não podemos nem mesmo declará-los mais numa práxis, nada tem importância ou interesse” (1991, p. 106). Estabelecer o momento certo no qual a arte surge torna-se uma tarefa complexa e de concretização bastante árdua, uma vez que, se para alguns, a arte nasce no mesmo momento histórico no qual o ser humano é capaz de construir uma casa ou realizar pinturas ou esculturas, então, […] tal como afirma o professor Ernst Gombrich36, “não existe, realmente Arte. Apenas existem artistas”, pois, estes eram “homens que apanhavam terra colorida e desenhavam toscamente as formas de um bisonte sobre as paredes de uma gruta”, enquanto agora “compram as suas cores e traçam cartazes para as estações do metro”. (Navarro, 2006a, p. 9) Entendendo-se, se analisarmos um pouco a respeito, e mencionando as palavras de Bruno Zevi, “[…] o facto de o espaço, o vazio, ser o protagonista da arquitetura […]”, será 80 “[…] no fundo, natural, porque a arquitetura não é apenas arte nem só imagem de vida histórica ou de vida vivida por nós e pelos outros; é também, e sobretudo, o ambiente, a cena onde vivemos a nossa vida” (1996, p. 28), por isso, a solução que se procura como resposta a uma arquitectura com sentido, permanecerá nas preocupações e consequências desse sentido atribuído pelo arquitecto e pelo utilizador, à obra de arquitectura, enquanto reflexo de objecto social, e não mais apenas, como mera obra de valor prático, plástico ou espiritual. Assim, se para Jean-Louis Viel de Saint-Maux37 (1745-1819), apud Pedro Vieira de Almeida (2004, p. 38), “[…] a verdadeira origem da arquitectura não está na natureza mas na arquitectura primitiva dos dólmens e menhires […]”, ou se para Pedro Vieira de Almeida, “todos os lugares referidos a um perceber humano são potencialmente arquitectura. Mas não o são automaticamente”, pois, “são-nos apenas através do sentido poético que os organize, instaure ou leia como tal” (2004, p. 34), o facto é que, como declarou Campo Baeza, “se o homem como animal se refugiou nas cavernas, e como ser racional construiu a cabana, o homem como ser culto, criador, concebeu a casa como morada para habitar. E é neste ponto que nos encontramos” (2004, p. 57). A origem da obra de arquitectura com sentido, surge não como resultado de um “capricho” artístico do arquitecto, mas sim, como uma acção, fruto de uma necessidade diária do seu utilizador, o abrigo, que se metamorfoseará face à sua identidade e imagem, e ao qual, posteriormente, será atribuído um sentido positivo ou negativo. Para Raul Lino38 (1879-1974), desde os tempos pré-históricos até à modernidade nunca o problema da habitação deixou de ser actual e de interessar as criaturas humanas, sendo que, mais ou menos complexa, a existência do Homem não poderá nunca, prescindir da cabana, gruta ou casa que lhe sirva de abrigo, garantindo-lhe, pelo menos, relativa tranquilidade e repouso retemperador (Lino, 1992, p. 9). Por conseguinte, não interessa desenvolver um sentido geral da arquitectura, na medida em que, o lugar é delimitado e instaurado pela colocação de apenas uma pedra (Almeida, 2004, p. 41), bem como na valorização de construções de vivência temporária, como túmulos ou templos, considerados por Bruno Zevi como Extracto II 81 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana “obra não-arquitetônica” (1996, p. 67), porque, o grande desafio do arquitecto, enquanto agente criador, não está em construir espaços que se prolonguem no Tempo, devido à sua utilização e experiência transitória ou contemplativa, mas na execução de espaços habitacionais permanentes, que lidem diariamente com os seus utilizadores, e que sejam capazes de reflectir, satisfazer e (re)educar as necessidades dos mesmos, independentemente da sua personalidade, cultura ou situação social. Como a arquitectura é pela sua natureza uma actividade colectiva e um facto profundamente social, o arquitecto é chamado a interpretar a história do seu Tempo para a transformar em organização do espaço de vida (Botta39, 1998, p. 135). Deste modo, ora aludindo a um valor prático, ora ao valor mais espiritual ou conceptual, considerada arte, ou simplesmente “[…] ciência de projectar e construir edifícios […]” (Dicionário da língua portuguesa, 2002, p. 151), só se conseguirá fazer arquitectura com sentido, quando ao arquitecto couber a capacidade de construir “arte”, primando fundamentalmente a sua consciência social. Não abdicando da história, interessa agora, abordar o contemporâneo, e entender até que ponto o utilizador, mesmo já não sendo o criador do seu abrigo, continua ou não a ser o elemento fundamental em qualquer obra de arquitectura. Deste modo, mesmo continuando a existir arquitectura sem autor, onde a sua beleza e eficácia, não são de todo indiscutíveis (como fora exposto por Bernard Rudofsky42 (1905-1988) em 1964, no The Museum of Modern Art43, com a exposição Architecture Without Architects : An Introduction to Non-Pedigreed Architecture44 (Rudofsky, 2012), questiona-se a postura do arquitecto face à arquitectura actual, pois independentemente das suas crenças e ideais, de valor prático ou de valor mais espiritual, o desafio permanecerá na sua capacidade de execução de uma arquitectura “com sentido e com medida” (Campo Baeza, 2004, p. 11), respondendo com ética45, engenho e, posteriormente, como referiu Andrea Palladio46 (1508-1580), apud Eduardo Côrte-Real47 (2001, p. 51), com “[…] comodidade, perenidade e beleza […]”, a qualquer tipo de cliente, ou posterior utilizador. Se, até à Pré-História o arquitecto era o próprio utilizador, onde a arquitectura surgia como reflexo directo das carências humanas, logo, não era pensada como arte, mas como necessidade, muita da posterior prestação arquitectónica realizada ao longo dos tempos, até à modernidade, como por exemplo a de Gordon MattaClark, anteriormente retratada (que consistia em intervenções temporárias, que não respondiam a necessidades directas de abrigo, mas cujo objectivo presidia puramente na experiência temporal e momentânea, associada a outras necessidades do Homem de cariz artístico ou psicológico), poderá no fundo, ser considerada não-arquitectura, por não apresentar um sentido explícito de necessidade prática e funcional directa, como vem sendo atribuído à mesma. Consequentemente, se se verificar que o sentido da arquitectura permanece na construção realizada pelo homem, de maneira consciente enquanto arte de edificar, muito provavelmente o sentido da arquitectura poder-se-á pensar como tendo o seu início nos cálculos das pirâmides Egípcias, nas características e ordens clássicas, ou simplesmente no Renascimento com a invenção da perspectiva (Conti40, 1999, p. 3), e no, consequente, reconhecimento do mestre-de-canteiro como arquitecto, marcado “[…] pela emancipação do artista: tendo passado do «estatuto» de artesão ao de intelectual […]” (Thoenes41, 2003, p. 8). 8. Fotografia de um povoado dogom no Sudão, apresentada na exposição de Bernard de Rudosfy,1964 (Montaner, 2007, p. 128). A Virtude moderada da acção, alargada à qualidade técnica baseada no desenho, sintetizava as condições que Alberti tinha preconizado para o arquitecto: “Grande matéria é a arquitectura, nem todos a podem abraçar. Aquele que o faça deverá ter grande habilidade, o mais intenso entusiasmo, a mais elevada educação, a mais vasta experiência, e, acima de tudo, sério, de são julgamento e conselho, se quiser chamar a si próprio arquitecto. (Côrte-Real, 2001, p. 71) 82 a lógica, hoje a arquitectura tem vindo a perder o seu sentido. O que possivelmente terá de ser alterado, não será o engenho, mas os ideais, os valores e os sentidos, segundos os quais os arquitectos insistem em continuar a utilizar como resposta, ao que se julga ser a acção de arquitectar. Resumidamente, o sentido da arquitectura que durante a PréHistória permanecia na execução do abrigo, efectuado com os materiais locais, como a pedra ou a pele dos animais, com a evolução do Homem na Antiguidade, o conhecimento permitia novas direcções. O que até então era toscamente construído, respondia agora, a regras de ouro, sobressaindo a geometria, o cálculo ou a proporção áurea. Actualmente, já não se faz arquitectura como resposta a uma função mãe51, sendo que, a arquitectura simplesmente tem resultado numa manifestação plástica ou numa imagem52, não existindo mais o arquitecto ao serviço da sociedade, sendo a sua preocupação, o seu cunho e satisfação pessoal, acabando muita da obra arquitectónica por resultar, em construções artísticas inúteis, cujo seu “destino”, se propícia na sua alteração, degradação ou demolição, devido à sua incapacidade programática, face às necessidades dos utilizadores. Desde as necessidades físicas às religiosas ou de defesa, do Humanismo ao Iluminismo, ou do exagero dos ideais barrocos e rococós, à linguagem normalizada da Revolução Industrial, como foi exemplo o taylorismo e a estandardização, a sociedade têm-se transformado e com ela, as consequentes respostas de um sentido da arquitectura.48 Desde os últimos séculos que esta perda de sentido e consequente inutilidade de grande parte da construção das obras de arquitectura, tem vindo a preocupar alguns autores. Neste entendimento, hoje mais do que nunca é evidente e pertinente que o papel do arquitecto tem de ser (re)avaliado53 (Augé, 2006, p. 35). Independentemente, do seu Tempo, a grande característica da arquitectura, permanecera na realização de uma arte funcional, que embora, ora refente a uma prática mais construtiva, ora a uma prática mais conceptual, responde a um programa social, e esse facto, tem vindo a constituir a eterna diferença entre a arte puramente artística, de autor singular e plástico, cujos utilizadores são apenas os admiradores momentâneos deste tipo de manifestações, e a arte arquitectónica, que condiciona e altera directamente a vida do seu utilizador, tanto a uma escala habitacional, como à escala da urbe49, sendo que, segundo Adolf Loos, apud Renato Fusco50 (1984, p. 186) “o artista deve estar apenas ao serviço de si mesmo, o arquitecto ao serviço da sociedade”. Contudo, se por um lado é verdade que o arquitecto se tem perdido no Tempo, por outro, também as consecutivas exigências à considerada arquitectura se alteraram até então, porque, autónoma aos castelos ou aos palácios, toda a habitação construída era simplesmente construção. Como afirmou Campo Baeza,“[…] o futuro, está numa arquitectura mais profunda do que superficial, mais sábia do que original, mais lógica do que engenhosa” (2011, p. 32), e que com base na máxima de que tudo é possível, ergue-se o impossível, que durará apenas o que os silicones com que tudo aquilo sustêm sejam capazes de aguentar, prestando-se culto ao arbitrário e ao capricho (2011, p. 33), pelo que, esquecendo-se a razão e Por conseguinte, só mais tarde com a industrialização e com o aumento populacional é que os problemas habitacionais ganharam realmente relevo, e foi desafiado ao arquitecto a construção de novos espaços urbanos, surgindo os primeiros planos das cidades com ideais sociais, que são construídas as primeiras habitações colectivas, como resposta à superpopulação das cidades, apresentando-se como uma alternativa aos problemas urbanos vigentes. Referindo Josep Maria Montaner: A revisão destas obras que nos anos sessenta coloca uma ênfase especial em entender a arquitectura como linguagem, nos permite comprovar como ao longo do século XX a ideia básica do que é a arquitectura mudou de forma muito substancial. (Montaner, 2007, p. 166) Extracto II 83 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana Durante os finais do século XIX e nomeadamente no século XX, por todas as cidades se construíram bairros de habitação colectiva. No entanto, com a evolução da sociedade, e ao contrário do que se esperava, as consequências da vida em comunidade de elevada proximidade, não são por todo o cidadão bem aceites ou respeitadas. Nesta perspectiva, não cabendo mais ao arquitecto a responsabilidade do futuro da sua obra, tornou-se cada vez mais evidente, que a causa de fatalidade da obra de arquitectura, e a sua consequente perda de sentido, poderá não estar muitas vezes na execução do projecto, mas na sua consciente ou inconsciente utilização, sendo o utilizador quem realmente confere sentido à obra de arquitectura.54 Factualmente a arquitectura é assim considerada como o espelho da sua sociedade (Pinheiro55, 1991, p. 14), e como o homem será eternamente um ser livre e indecifrável, torna-se cada vez mais óbvio, que a solução para uma arquitectura sadia, duradoura, e resultante de uma arquitectura com sentido, não estará em respostas arquitectónicas que atendam apenas ao cuidado pretendido por um suposto utilizador, mas na realização de uma arquitectura que ajude a educar e a alterar os seus hábitos: alheia. Se a espécie humana evoluiu? Sim é um facto! Mas o seu instinto “criativo” ou “destrutivo” permanecerá eterno, e futuramente ter-se-á de entender, que a opção de “rótulo” face à sociedade está longe de ser o sentido condutor a seguir, por uma obra de arquitectura vigente. Em suma, o problema arquitectura, como solução, terá de ser muito mais do que uma resposta formal, e verificar-se-á como o Homem, desde a Pré-História até à actualidade, sempre viu na habitação o seu refúgio e a sua imagem, e como será importante ter em consideração essa praxis, face às suas atitudes e comportamentos posteriores, de modo a se conseguir construir uma arquitectura com sentido de reconhecimento mútuo, porque, de que valerá ao arquitecto fazer um obra, se não for compreendida por quem a realmente utiliza? O arquitecto não constrói ele próprio. Pela aplicação concreta das suas ideias, ele é tributário, por um lado, dos artesãos, por outro, de quem encomenda a obra, que despende o dinheiro e que aparece nos títulos e nas epígrafes como o verdadeiro autor da obra. O arquitecto tem que comunicar com eles. É preciso explicar os planos, justificar as decisões que dão origem às despesas, discutir objecções: resumindo, o projecto toma forma pelo diálogo. Por trás de quem encomenda a obra encontrase o público, em cujo espaço, o edifício intervém e que tem de compreender o que o arquitecto quis fazer, por que é que o fez assim e não de outro modo. Além disso, o arquitecto deve ser capaz de formular em termos claros dados arquitectónicos e de os tornar inteligíveis aos não iniciados. Uma pintura ou uma escultura «falam» por si, remetem para significados internos. A obra arquitectónica é muito menos explícita. Uma coluna é uma coluna: ela não diz para que serve nem que sentido pode ter, excepto a sua função enquanto membro de uma ordem arquitectónica (Thoenes, 2003, p. 8-9). Reconhecido como tal, considera-se que, ao arquitecto fora auferida verdadeira importância enquanto artista no período do Renascimento, porque, embora, já na Antiguidade Vitrúvio tivesse dado os primeiros passos, será apenas na Renascença e com Alberti57 e, posteriormente, com Serlio58 (1475-1554) ou com Palladio, que a arte de arquitectar, concebida pelo real arquitecto terá o seu despertar, sendo apreciadas, tanto as suas contribuições teóricas como as práticas (Thoenes, 2003, p. 8). Ao arquitecto é, desde sempre, exigida formação e conhecimento, mas a essência ética, não se adquire simplesmente com a construção do intelecto, mas sobretudo com a consciência, senso comum e carácter próprio. Este aspecto de orientar o uso […] corresponde assim a uma função pedagógica do arquitectar, em que o arquitecto tem de prever a possibilidade de uma utilização livre das arquitecturas que possa criar, mas também, e em simultâneo, fornecer orientações concretas para uma sua utilização conveniente. (Almeida, 2004, p. 51) Por outras palavras poderá-se afirmar que, a arquitectura, enquanto “ideia construída”, compreende mais do que a sua própria definição (eternamente indefinida), e que se prolonga, para lá dos questionados elementos: conceito, forma, espaço, luz, matéria e lugar. Reconsidera-se igualmente pertinente, analisar, a “vida” da obra de arquitectura, e entender a sua acção, como consequência das condutas estabelecidas pelo seu criador arquitecto, pelo programa desenvolvido, e pelo utilizador atribuído.56 Independentemente da adaptação de um sentido mais explícito ou implícito na sua obra, o arquitecto será eternamente confrontado pela (re)adaptação e alteração da mesma. Antes de se tornar arquitecto foi utilizador de necessidade primária, na caverna, e é essa consciência que a muitos arquitectos continua O valor do arquitecto No entanto, e como afirmou Fernando Távora59 (1923-2005), costuma-se dizer que a utilização da profissão do arquitecto exige uma certa cultura, civilidade e sentido social, porque, se se verificar, num olhar mais atento ou crítica, a profissão de arquitecto é uma das mais dispensáveis da sociedade (2003, p. 5). 9. Crónica desenhada. Os desejos e as necessidades do utilizador. As intenções e os interesses do arquitecto. A procura do programa funcional (Burgos, 2009, p. 37) O médico salva-lhe a vida. O advogado salva-lhe a fortuna e a honra. O engenheiro salva-lhe a segurança. O arquitecto que é que lhe salva? Salva-lhe a qualidade. Se você não é exigente com a qualidade, se se preocupa muito com a saúde, a sua fortuna, a sua honra ou com a sua segurança, você vive sem o arquitecto. (Távora, 2003, p. 5) 84 Este “medo” da inutilidade conotado ao arquitecto, foi de certo modo, uma das causas que fez com que, ao longo dos tempos, se tenha acrescentado à profissão de arquitecto, não apenas o conhecimento do desenho e o gosto pela arte, mas principalmente se desenvolveu uma profissão multidisciplinar, onde o conhecimento de várias ciências, filosofias e ofícios se juntaram para conseguir dar resposta a um programa de espaço concreto, e às necessidades dos seus utilizadores de maneira mais completa, adequada e coerente60. Entendendo-se que, se a um artista comum basta saber trabalhar na sua matéria-prima e criar os seus objectos, que serão admirados, rejeitados, guardados ou comprados por alguém, ao arquitecto não basta o desenho, a matéria ou a ergonomia, mas sobretudo o pleno entendimento que “a arquitectura é, primeiramente, um acto de inteligência. E requer, depois, uma clara consciência social” (Távora, 2003, p. 5). Depois das respostas militares e religiosas dos estilos arquitectónicos presentes desde a Antiguidade à Idade Moderna, é na Idade Contemporânea, que a arquitectura reflecte os novos avanços tecnológicos e os paradoxos socioculturais estimulados pelo início da Revolução Industrial. É precisamente no meio desta crise de produção arquitectónica em pleno século XIX, que o papel da arquitectura e, consequentemente, do arquitecto será constantemente questionado, surgindo novos paradigmas, responsabilidades e funções, presentes numa reformulação do urbanismo (Montaner, 2007, p. 82). Ao ritmo da sociedade e dos seus desejos industrializados, mais uma vez a arquitectura muda de direcção, e surge no século XX, representante do movimento moderno, como reflexo de uma “era mecânica”, primando pelos padrões e medidas estandardizadas características do funcionalismo, cuja base se desenvolveu segundo a doutrina moderna, construída nos CIAM61, e que tinha o pensamento de Le Corbusier62 como referência, em que a sua cidade pensada para o Homem ideal, puro e perfeito, se transformara num espaço frio, sem identidade e sem tradição (Montaner, 2007, p. 18). Valorizando o cariz social, surgiu na década de 50 o Team 1063, grupo que se formou ainda nas reuniões dos CIAM, que veio reunir uma terceira geração de arquitectos com um papel dominante na produção da arquitectura e do urbanismo, caminhando no sentido Extracto II 85 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana da liberalização do arquitecto e pretendendo introduzir uma ideologia heterodoxa que permitisse responder aos complexos problemas sociais, culturais e urbanos. Paralelemente a muitas realidades pretendia-se a construção de uma arquitectura consciente de sentido unificador e coerente, que, não era construção nem arte, era um novo sentido arquitectónico, um sentido de comunidade fundamentado na sua origem, feito para o utilizador, e não como obra egocêntrica do seu criador. Esta nova geração voltou-se para os princípios mais básicos das relações humanas, criticando os critérios universalistas da Carta de Atenas64. Acreditava que ao negar-se a história e o contexto só se conseguiria conceber cidades sem alma e descaracterizadas de vida urbana. Cities tend to become more magnetic, and consequently larger and larger, as the web of association is intensified and its range extended. I say it this way and not the other way around because it is important to comprehend the expanding city in the light of man’s basic desire to communicate, i.e., from a positive human need, and not from statistical, economical, and technological inevitability in an impersonal hence negative sense. I believe it is because this quantitative attitude still prevails that the project of urban expansion seems terrifying instead of gratifying, and the solutions ubiquitously proposed so functionally inadequate and contrary to the growing communicative need of the citizen. (Eyck65, 1993, p. 355). Segundo Josep Maria Montaner (2007, p. 30), “[…] tratavase de propor uma utopia do possível, aceitando os gostos e necessidades das pessoas”, uma vez que, estes arquitectos que tinham adoptado a postura do arquitecto liberal, já não projectavam para um Homem genérico e ideal, mas sim, para um Homem concreto, individual, com todas as suas carências, limitações e desejos (Montaner, 2007, p. 18). Foi precisamente depois da Segunda Guerra Mundial (1939 -1945) que estas questões que já vinham sendo estruturadas, adquirem realmente relevo, sendo que, a crise da cidade moderna servira de incentivo para uma profunda revolução dos princípios sociais, políticos, económicos e ideológicos, alterando irreversivelmente a segunda metade do século XX.66 Chamados mais uma vez, “[…] a interpretar a história do seu tempo para a transformar em organização do espaço de vida” (Botta, 1998, p. 135), e desenvolvendo a inteligência e o conhecimento que “a arquitectura é pela sua natureza uma actividade colectiva e um facto profundamente social” (Botta, 1998, p. 135), o papel desta nova geração de arquitectos, não se enraizava simplesmente na evidente consciência que a crise da habitação não se resolvia, com hipóteses universais e manifestos racionalistas, provenientes da cultura modernista, mas evidentemente, com uma actuação específica e adaptada às privações locais, denunciando que os modelos funcionalistas seriam incapazes de resolver os problemas do desenraizamento social, agravados profundamente pela guerra. Distante das pequenas tribos e comunidades, dos impérios egípcio e romano, ou até mesmo das primeiras cidades medievais, onde ainda a sociedade era organizada e deliberada praticamente pelo chefe, faraó ou pelo rei, não apresentando grande liberdade de expressão, o conhecimento dos ideais modernos e, principalmente, a renúncia à Monarquia, fez com que os cidadãos lutassem por novos direitos sociais.67 Estas novas filosofias e realidades mundiais provocaram profundas crises sociais, sendo a já referida falta de habitação nos centros urbanos, uma das principais causas. O alojamento era então um problema mundial, e durante os anos 50 e 70, a produção habitacional foi marcada por um forte nível de experimentação, onde as cidades procuravam incessantemente novos modelos, métodos e resultados arquitectónicos, uma vez que se verificou, que não era suficiente reinventar as premissas modernas, tornando-se urgente a criação de novas soluções plausíveis. As consequências tornavam-se avassaladoras, a experiência moderna com a habitação, em grande parte influenciada pela Segunda Grande Guerra, tinha chegado ao seu limite, sendo que, os edifícios projectados segundo os métodos da arquitectura e do urbanismo moderno, apenas compreendiam a minoria da população, já privilegiada a priori, enquanto a outra parte que não tinha possibilidades (a grande maioria representante da classe operária e emigrante), se começou a fixar nos subúrbios, dando origem aos bairros clandestinos. Surgiram paralelamente as barracas, os guetos e as slums68, que constituem até hoje um dos maiores problemas sociais, sem solução aparente. No meio desta nova realidade da cidade e do apelo ao direito de habitação, assim como “[…] ao surgimento de uma nova cultura do espaço público, que outorga um novo papel ao espaço livre na cidade” (Montaner, 2007, p. 82), apareciam, simultaneamente, várias filosofias e ideais que apresentavam diversas posturas face às novas soluções de habitabilidade da cidade moderna não só por parte de arquitectos e de urbanistas, mas igualmente por parte de sociólogos, historiadores, economistas e geógrafos. Assim, como Henry Lefebvre reivindicou na sua obra intitulada O direito à cidade, propondo no fundo o direito à auto-determinação do utilizador na condução do seu próprio quotidiano e na construção do seu próprio habitat (Montaner, 2007, p. 82), também Aldo van Eyck, membro do Team 10, defendeu o retorno à origem e a ampliação das fontes de legitimação e inspiração, alegando a possível recuperação do significado antropológico elementar da arquitectura, depois de ter desenvolvido um estudo sobre as culturas primitivas dos povoados africanos e as características da arquitectura vernácula. Conforme declarou Aldo van Eyck, apud Josep Maria Montaner: O homem sempre soube fazer a sua morada neste mundo desde mil anos. Durante todo este tempo a sua capacidade natural não aumentou nem diminuiu. É evidente que esta imensa experiência do entorno só poderá ser aproveitada no presente se pudermos «precipitar» todo o passado: o conjunto do esforço humano. (Montaner, 2007, p. 33) Consequentemente, “se a arquitetura contemporânea sabia enfatizar a continuidade histórica da identidade de cada lugar, também poderia dar a entender ao homem da rua que é algo que admite a sua participação” (Montaner, 2007, p. 18). A crítica das ciências sociais à cidade moderna, vinha assim fortalecer o que a cultura arquitectónica denunciava, e ao propor “o direito à cidade”, Lefebvre sugeria o direito à liberdade, à individualização da sociedade e o direito ao habitar e ao habitat. Num período em que os ideólogos discorrem abundantemente sobre as estruturas, a destruturação da cidade manifesta a profundidade dos fenómenos de desintegração (social, cultural). Esta sociedade, considerada globalmente, descobre que é lacunar (Lefebvre, 1991, p. 114). A fragmentação do espaço urbano traduzia assim, a consequente relação privado-público e a correspondente diferenciação social. Neste contexto, Lefebvre defendia “o direito à cidade” (Lefebvre, 1991, p. 116-117) como afirmação da diferença e integração no 86 todo social, isto é, habitar com as já referidas, dimensões de individualização, socialização e liberdade. “O direito à cidade” afirmava-se como um direito à apropriação do espaço com efectiva participação e integração, porque a descontinuidade no espaço urbano traduzia uma falta de inclusão que na opinião de Lefebvre poderia dar origem a sentimentos de insatisfação, de exclusão e de lutas sociais e o excluir do urbano seria discriminar e segregar.69 hInfelizmente sabe-se hoje, que as cidades, pelo estilo de vida que promoveram, enquanto dinamizadoras da modernização social, acabaram por gerar uma série de processos que põem em causa a própria capacidade de promover o sentido de cidadania (Lefebvre, 1991, p. 117). Colocando os arquitectos perante a obrigação ética de construir “para o maior número” (Pereira70, 1996, p. 80), começavam, na segunda metade do século XX, a surgir por todo o mundo propostas para a realização de soluções arquitectónicas para estes aglomerados habitacionais não controlados, uma vez que, segundo Josep Maria Montaner, dentro da sua enorme complexidade, a arquitectura deveria ter como um objectivo primordial, “[…] resolver as necessidades que em cada período formula o usuário” (2007, p. 18). Estas realidades sociais e objectivos arquitectónicos, repercutiamse na época como a necessidade da construção de uma nova dimensão de arquitectura, com tudo o que isso implicava, e à semelhança de outros arquitectos a si contemporâneos, o arquitecto Nuno Teotónio Pereira, questionou: A nova dimensão é assim que deve ser entendida. Quer dizer: para enfrentar o problema da habitação para o maior número, será necessário construir muitas centenas de milhar de casas – aspecto quantitativo; mas, além disto, algo mais será necessário resolver: para quem as construir? onde as construir?; como as construir? E mais ainda: construir, não somatórios exaustivos de habitações, mas conjuntos urbanos equilibradamente organizados e equipados71. (Pereira, 1996, p. 80) É precisamente, perante estas tentativas arquitectónicas e posteriores consequências que, se procura construir o sentido da obra de arquitectura, o sentido participativo e de consciencialização mútua. Não se pretende mais criar e edificar uma obra de arte, mas sim um objecto social. Porém, muitos arquitectos preferem ignorar ou apenas responder a interesses Extracto II 87 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana pessoais, em detrimento de uma postura mais consciente que realmente faça a diferença, optando sem hesitar pelo fácil caminho da acomodação. Entretanto, a consciência comporta-se então como um homem que, ouvindo um ruído suspeito no porão, precipita-se para o sótão para constatar que lá não há ladrões e que, por conseguinte, o ruído era pura imaginação Na realidade, esse homem prudente não ousou aventurar-se no porão (Bachelard72, 1996, p. 37) O utilizador tornou-se, assim, o verdadeiro elemento da arquitectura. Fica a plena consciência que “para responder às necessidades de uma cidade moderna, deve-se desenvolver uma nova forma de cidadania”, como defendiam Richard Rogers e Philip Gumuchdjian, livro Cidades para um pequeno planeta (Rogers73 e Gumuchdjian, 2001, p. 17). Consequentemente, o papel do arquitecto será, de facto, prever as tendências gerais da evolução que a humanidade está a seguir e tentar criar a melhor arquitectura possível para a geração presente e para as gerações futuras. O seu papel deverá assim, “[…] compreender o futuro, prevê-lo tão longe quanto possível e criar o melhor habitat humano para os tipos de pessoas e para os tipos de situação que se estão a desenvolver” (Doxiadis74, 1965, p. 69). Na realidade, o arquitecto tem vindo ao longo da história, a tentar aparentemente responder às necessidades do utilizador, por ser considerado um agente ao serviço da sociedade. Contudo, a sua postura nem sempre corresponde às expectativas, e muitos são os erros, e o desempenho de uma actividade que vangloriando interesses pessoais, acaba em atitudes especificamente egocêntricas, perdendo o sentido, pois: Os arquitectos parecem ter estabelecido e dogmatizado um conjunto de significações, mal explicitado como tal e que aparece através de diversos vocábulos: “função”, “forma”, “estrutura”, ou antes funcionalismo, formalismo, estruturalismo. Elaboram-no não a partir das significações percebidas e vividas por aqueles que habitam, mas a partir do fato de habitar, por eles interpretado (Lefebvre, 1991, p. 109). A arquitectura como arte e técnica tem, também ela, necessidade de uma orientação, uma vez que, embora necessária, não lhe bastaria o arquitecto fixar os seus objectivos e determinar a sua estratégia. Por outras palavras, o futuro da arte não é artístico, mas urbano, porque o futuro do Homem não se encontra nem no cosmos, nem no povo, nem na produção, mas sim na sociedade urbana, pelo que, Cada “objecto” construído será por sua vez submetido ao exame crítico. Na medida do possível, será realizado e submetido à verificação experimental. A ciência da cidade exige um período histórico para se construir e para orientar a prática social. (Lefebvre, 1991, p. 110-111) Desde há muito tempo, que vem sendo urgente uma nova postura para os arquitectos, sendo-lhes exigido cada vez mais, o desempenho de um papel coerente, uma vez que as suas atitudes, projectos e ideais, resultam em obras que lidam directamente com os seus utilizadores, transformando e manipulando constantemente os seus quotidianos. No entanto, apesar das suas posturas e desejos pessoais, verifica-se que embora seja extremamente importante um arquitecto de carácter e consciente, citando Giulio Carlo Argan, apud Nuno Portas75 (2008, p. 159): “implantar… uma arquitectura ideologicamente adiantada sobre o progresso social, não é apenas um episódio insólito pedagogicamente impotente, mas será sobretudo uma prova de que sem diálogo com a vida, as melhores intenções espaciais não podem crescer”. É muito importante também o programa, o seu cliente, que nem sempre cede a opiniões, bem como os utilizadores, elementos intervenientes primários, que irão condicionar e modificar, por vezes, em grande escala e de maneira nefasta ou catalisadora, o que lhes foi dedicadamente “cedido”. Em síntese, o arquitecto: Terá antes de mais, de procurar um sentido para a sua vida, dentro dos quadros duma sociedade que forçosamente também terá de ter um sentido. Mas a sociedade é uma entidade mais ou menos abstracta, e para a resposta que na emergência dela promanar, não é indiferente a posição dos indivíduos. […] O chamamento a uma atitude é o apelo trágico dos destinos futuros, cuja escolha, se bem que de certo modo condicionada, compete ao individuo fazer. (Filgueiras76, 1985, p. 28-29) O valor do utilizador Por conseguinte, se ao arquitecto é exigido a criação de arte, e ao utilizador que seja socialmente consciente, e se até mesmo arquitectos como Friedensreich Hundertwasser ou como John F. Charlewood Turner77 (1972-) defendiam que os utilizadores deviam ter o poder de criar e alterar o seu próprio espaço78, deixando de estar nas mãos do arquitecto a capacidade de perdurar, o respeito concreto pela sua obra, acabaria por nunca existir, porque no fundo, embora, de sua autoria, a obra também não lhe pertence, sendo apenas de quem a utiliza, e como declarou Spiro Kostof (1996, p. 13-14), “así debe ser conocida la arquitectura. Como escenario material de la actividade humana, su verdade está en su uso”. No seu livro Housing by people : towards autonomy in building environments, Turner apresenta alguns princípios ou leis da habitação que resumem a base psicológica, económica e social da sua tese. Deste modo, enuncia que o que é importante acerca da habitação, não é o que ela é em si mesma, mas sim o que faz pela vida das pessoas; por outras palavras, a satisfação dos moradores não está necessariamente relacionada com a imposição de norma: refere que as imperfeições e deficiências que a casa possa ter são infinitamente mais toleradas se forem da responsabilidade dos moradores e não de outra pessoa exterior como é o caso do arquitecto (Turner, 1991, p. 5-6). No fundo, o verdadeiro arquitecto, será constantemente o utilizador, que embora já não crie de raiz o seu abrigo, irá sempre alterar o seu espaço, seja pela decoração ou pelo acrescento de marquises e de anexos, porque, à semelhança das primeiras pinturas rupestres, o homem continuará a intervir e a transformar a sua morada, permanecendo a sua necessidade de identidade, que embora “em grande parte incontrolável, este uso depende grandemente da capacidade cultural dos usuários […]” (Almeida, 2004, p. 50). Analisando, as intervenções realizadas ao longo dos tempos, a arte arquitectónica que se mantem como tal, em que o arquitecto criou realmente a sua obra artística, permanece efectivamente quase inalterada, à excepção da óbvia erosão do tempo, ou manifestações de “povos bárbaros” e guerras, em testemunhos como: os túmulos, os monumentos, os museus ou os edifícios classificados, onde a intervenção do utilizador fora temporária, 88 de lazer ou de contemplação, porque, por outro lado, qualquer outra obra de arquitectura, de cariz habitacional permanente, foi eternamente alterada apresentando grande deterioração. Da antiguidade aos nossos dias, poucos foram os exemplos de construções habitacionais encontrados à excepção dos casos acima referidos, e embora muitos deles não tenham sido realizados para durar, à semelhança dos templos ou das arquitecturas fúnebres, torna-se evidente a capacidade de intervenção do utilizador, sendo o próprio, quem atribui sentido à arquitectura, pela constante acção e alteração de função, que o mesmo proporciona ao seu habitat, à semelhança do que disse Fernando Távora, numa entrevista para a Revista UPORTO: Uma pessoa quando se mexe, ou uma senhora quando escolhe a cor de uma parede está a fazer arquitectura, porque com isso produz um efeito a partir do qual a sala fica maior ou mais pequena, mais alta ou mais baixa … Quando se escolhe o lugar para pôr uma cadeira está a fazer-se arquitectura. (Távora, 2003, p. 5) Consequentemente, como não será tão linear que o arquitecto seja o eterno responsável pelo futuro da sua obra, verifica-se cada vez mais que o trabalho arquitectónico pressupõe vários elementos e factores que podem alterar o sentido de um projecto, pois, sejam eles sistemas políticos ou económicos, de parâmetros urbanísticos ou de edificação, poderão ser sempre bastante restritivos, alterando inclusivamente o sentido inicialmente proposto, tanto a nível de função, de uso ou até mesmo de imagem. Como já foi mencionado, ao longo da história, a arquitectura esteve sempre ligada à representação do poder. Apenas há relativamente pouco tempo e, principalmente, após a Revolução Industrial, é que se iniciou uma procura de uma arquitectura que fosse capaz de reflectir concretamente as necessidades do seu povo. O paradigma do cliente mudou, o projecto que outrora teria de lidar simplesmente com a imagem de um poder, fosse ele religioso ou de chefia, deixa de ser visto como símbolo monumental. De facto, aquele cliente representa o homem do seu tempo, ele é o pretexto «histórico» através do qual o arquitecto exercita o seu trabalho para testemunhar uma ideia sobre o habitar hoje e, assim, o pedido torna-se um instrumento para uma reflexão mais generalizada. (Botta, 1998, p. 34) Extracto II 89 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana Com o aparecimento da arquitectura moderna, a arquitectura destinava-se, assim, ao serviço de todos os cidadãos e não apenas ao das classes privilegiadas. O seu objectivo fulcral seria o de proporcionar habitação e acesso a todos os elementos existentes na nova sociedade, permitindo conciliar os interesses privados com os proveitos públicos. A procura do lucro e a satisfação dos interesses pessoais, não poderia continuar a ser primordial na construção da cidade; a arquitectura tinha de funcionar como o instrumento mediador entre a economia capitalista e a organização urbana, proporcionando um desenvolvimento sustentável, que tentava atenuar a diferença social e económica das populações. Mencionando as palavras de Kenneth Frampton, “a esse respeito, convém recordar que clientes informados e empenhados são absolutamente essenciais para a cultura arquitetônica, e que o grande castigo da arquitetura continua sendo a imposição arbitária da forma pela burocracia” (2003, p. VII). Assim, como o arquitecto tinha de ter como objectivo construir a qualidade do habitar, estando consciente do dinamismo actual da vida social, a sua arquitectura teria também de demonstrar que era capaz de acompanhar a evolução geral da sociedade, tentando responder a diversos factores, nomeadamente os sociais, económicos, políticos, administrativos, tecnológicos e estéticos.79 Factualmente o arquitecto pode ser o criador da sua obra, mas o futuro da mesma depende pura e simplesmente das atitudes e acções do seu utilizador. Não estando mais em causa a responsabilidade social da arquitectura e do seu autor face à concretização material da mesma, tentar-se-á demonstrar até que ponto o utilizador, à semelhança do que disse Fernando Távora (2003, p. 5), será quem realmente atribui sentido à arquitectura, por ser considerado como o elemento principal na “vida” e obra arquitectónica. Embora considerado o elemento fundamental, pois a arquitectura foi desenvolvida e criada com o objectivo de responder aos seus desejos e carências, caberá evidentemente ao utilizador o seu respeito e cuidado. Ao utilizador é exigida uma atitude social capaz de valorizar o espaço envolvente, independentemente de que o mesmo tenha sido pensado e considerado como privado ou como público, porque, embora, como “[…] pensar é sempre a solução, é o que é lógico para o homem”, para o arquitecto estará “[…] na hora de conceber os espaços. Para os utilizadores, na hora de usufruir deles” (Campo Baeza, 2004, p. 58). visitantes das cidades, ignorando e desprezando “[…] o facto de cidade e cidadania terem a mesma origem etimológica” (Ferrão, 2004). Segundo esta análise, se por um lado será verdade que o arquitecto tem por obrigação conceber a melhor obra possível para os seus utilizadores, primando pelo sentido ético e conhecimento, e que “como pão e água, a qualidade do ambiente construído surge como um direito fundamental do homem” (Gravagnuolo80, 1998, p. 14), também será verdade que nem todos os utilizadores são iguais. Abdicando do homem ideal de Le Corbusier, há que ter a consciência da cultura, do carácter e da identidade que cada público específico apresenta, de maneira a que, a própria arquitectura, não resulte ela mesma em mais uma causa de problemas sociais. Estes são exemplos de tipos de espaços onde não vamos, a não ser que sejamos expressamente convidados para o fazer. Não os visitamos por razões diferentes, é certo. Mas a verdade é que não integram por inteiro o conceito de cidade de cidades. Existem. Vêm-se. Mas são mundos à parte, por marginalização ou por auto-exclusão. São fruto de processos de fragmentação, e contribuem para a reforçar. É esta a espiral que deve ser combatida. Porque as cidades devem ser entendidas como espaços públicos de inclusão, de aprendizagem e de oportunidades, territórios democráticos favoráveis aos valores de igualdade e diferenciação, comunidades zeladoras da dignidade humana e estimuladoras de novas capacidades e competências. (Ferrão, 2004) Referindo as palavras de John Berger (1926-), “lo que sabemos o lo que creemos afecta al modo en que vemos las cosas” (2001, p. 13). Neste sequência, embora aos olhos de alguns elementos da sociedade, o senso comum e o sentido de cidadania seja lógico e igualmente premissa do seu quotidiano, não se pode alienar a existência dos muitos mais, que por falta de oportunidade ou que devido a fatalidades não desejadas, não apresentam os supostos “requisitos”, para os quais, que de uma maneira ou de outra, o sentido da arquitectura tem sido desenvolvido. Não se pretendendo alterar o passado, mas tendo a plena consciência que os “[…] fatos ocorrem em função do uso” (Rohe, 2006, p. 24), e que “a sociedade é geradora de arquitectura” (Rodrigues, 2002, p. 33), hoje mais do que nunca, é possível verificar os erros arquitectónicos cometidos, para que, e excluindo possíveis atitudes mais pessoais e egocêntricas, se verifique que: 81 Os problemas sociais sempre existiram e continuarão a existir, é um facto. Como referiu João Ferrão82 (1952-) no seu texto intitulado Visão humanista da cidade, tornar-se cada vez mais visível “[…] que toda a cidade é um conjunto de cidades, isto é, de comunidades relativamente autónomas e específicas”, que resultam fácil e, posteriormente, em “[…] espaços onde não vamos” (2004). Considerada inevitável ou não, o certo é que esta fragmentação dos espaços urbanos tem vindo a salientar as situações mais problemáticas da cidade, como o surgimento e o aumento dos bairros dormitórios dos subúrbios e os bairros de minorias éticas, assim como, os condomínios fechados, sendo que, todos estes ambientes, que foram construídos como representação de afirmação de um certos status, ou apenas por resposta a realidades sociais mal organizadas e solucionadas, culminando em estilos de vida particulares, em cidadelas que fragmentam a urbe, diminuindo o espaço partilhável pelos residentes e Ao cumprir funções práticas, morais e funcionais, ao responder a regras, anseios e desejos presentes na sociedade e adequar a ordem das suas respostas às questões colocadas por essa sociedade, a arquitectura está sujeita às mutações que o grupo social comporta, e é, pois, um objecto social. (Rodrigues, 2002, p. 75) Assim, embora o arquitecto desempenhe um papel inteligente e de consciência social, a atribuição do sentido da arquitectura estará sempre no confronto entre o utilizador e a obra arquitectónica, bem como nas suas atitudes e comportamentos constantemente imprevisíveis, que irão atribuir à arquitectura um sentido positivo ou negativo, e cujo reconhecimento de “fracasso” ou “sucesso” do arquitecto, dependerá indiscutivelmente da sua utilização. Porque, se por um lado, a desculpa destas atitudes que se encontram retratas e patentes nas obras assinaladas para análise, é possível ser encontrada nas palavras de Mario Botta, quando este proclamou que: 90 Num artigo publicado na revista «Micromega», defendo que os pobres, na nossa sociedade, são punidos duas vezes pelos arquitectos: uma primeira vez porque lhes é negada a casa e a segunda vez porque quando lhes é dada é uma casa feia. Infelizmente nós arquitectos aceitamos muitas vezes de maneira acrítica esta maneira de fazer: com uma espécie de cinismo aceitamos o feio como se fosse inelutável, não nos opomos suficientemente ao facto de muitas casas apresentarem uma qualidade ínfima, para onde certamente nenhum arquitecto iria habitar. (Botta, 1998, p. 36) Por outro lado, também se pode dizer, que apesar da realidade social ser um facto por muitos inaceitável, o poder de destruição, é simplesmente punível. Como afirmou Leonardo Benevolo83, apud Renato Fusco (1984, p. 181): A arquitectura não é uma simples arte a exercer com mais ou menos êxito: é uma manifestação social. Se queremos saber a razão porque certas coisas são como são na nossa arquitectura, devemos voltarnos para o povo. Pois que os nossos edifícios no seu conjunto são a imaginação do nosso povo no seu conjunto, se bem que um a um sejam as imagens individuais daquelas aos quais, como classe, o povo delegou ou confiou o seu poder de construir. Por isso, sob este ponto de vista, o estudo crítico da arquitectura torna-se, na realidade, um estudo acerca das condições sociais que a produzem. O valor do programa Dependente do arquitecto e do utilizador, e à margem de outros factores administrativos, figura sem dúvida, como igual elemento fundamental na construção de um consciente sentido arquitectónico o “sujeito” programa, pois: […] o arquitecto não delega, não pode delegar, as responsabilidades de promover e conduzir a caracterização quantitativa e qualitativa de cada sua intervenção, o que significa que é responsável não apenas pelos seus dados físicos mas também pelas incidências sociais; mas reciprocamente, sabe que será partilhado, a sucessivos níveis técnicos, o conteúdo próprio que distinguiremos por conteúdo programático (para distinguir o conteúdo total só identificável na vivência da obra usada). (Portas, 2008, p. 42) O programa funciona como a função mãe do objecto arquitectura. É nele que o arquitecto imprime os seus valores, e é segundo ele Extracto II 91 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana que o utilizador apreende a linguagem do projecto, e o transforma segundo um sentido positivo ou negativo, personalizando-o face à sua identidade e imagem. Surgindo como resposta às necessidades dos utilizadores, o programa é o elemento que deverá permitir ao arquitecto, entender as condições sociais do seu “cliente”, e encontrar segundo a cultura, identidade, carências e necessidades do mesmo, a resposta necessária, que o autor irá construir, segundo as características projectuais por si idealizadas. Salientando algumas palavras de Bruno Munari84 (1907-1998), no seu livro Das coisas nascem coisas, “neste caso o designer não deve deixar-se envolver numa operação que se destina ao lucro exclusivo do industrial e ao prejuízo do consumidor” (2004, p. 40). Neste entendimento, o arquitecto deverá ter como base do programa, as indicações essenciais, para desenvolver uma arquitectura com sentido, primando o utilizador, e apenas posteriormente o seu interesse artístico, como já se frisou anteriormente. Apresentando-se como um problema85, que não se resolve por si só, mas que no entanto, contêm em si, já todos os elementos fundamentais para a sua viável solução (Munari, 2004, p. 41), é necessário ao arquitecto, desenvolver primeiramente o desejo e o interesse de conhecê-los e utilizá-los no projecto de solução, pois, a solução de tais problemas melhorará a qualidade de vida dos seus utilizadores assim como, a vitalidade e o respeito da sua obra. Assim, Qualquer que seja o problema pode-se dividi-lo nas suas componentes. Esta operação facilita o projecto porque tende a pôr em evidência os pequenos problemas singulares que se ocultam nos subproblemas. Uma vez resolvidos os pequenos problemas, um de cada vez (e aqui entra em acção a criatividade e põe-se de parte a ideia de encontrar uma ideia) recompõemse de maneira coerente, de acordo com todas as características funcionais de cada parte e funcionais entre si, de acordo com as características matéricas, psicológicas ergonómicas, estruturais, económicas, e, por último, formais. O belo é a consequência do justo, diz um preceito japonês. (Munari, 2004, p. 46) O programa deverá corresponder a várias vertentes: de solução provisória ou definitiva, fantasiosa ou aproximada, pública ou privada, comercial ou habitacional, entre outras. Assim, como um problema poderá ter várias soluções, é preciso nesse caso decidir por qual optar (Munari, 2004, p.44). Considerando, Edward Osborne Wilson86 (1929-), o facto é que, embora o ser humano, enquanto animal, apresente formas de expressão comportamentais que podem variar entre os povos e segundo a sua cultura, os seus padrões de comportamento apresentar-se-ão supostamente os mesmos. Esta filosofia permitia assim, pré-definir reacções do homem a determinados ambientes, facultando uma mais simples e clara resolução projectual, uma vez que, se poderia de certo modo “rotular” as atitudes humanas, e alargar uma construção de resposta específica para uma maior escala, respondendo adequadamente a todos os utilizadores, que por apresentarem características semelhantes, aparentemente iriam corresponder com as expectativas e imposições do projecto desenvolvido. Feliz ou infelizmente, ir-se-á verificar que, com essa teoria rapidamente se constata com algumas incertezas, e apesar de as necessidades espaciais e conforto sustentável sejam comuns a todo o Homem, a arquitectura terá responsabilidades mais elevadas, que a simples solução material, e a resposta a valores práticos de programa e função, ou de emoção estética, não será de todo o suficiente para lhe conferir o sentido pretendido, e isso tornar-se-á evidente, especificamente na realidade de realojamento, como será demonstrado nas soluções patentes nos projectos que serão seguidamente abordados, como por exemplo os conjuntos de habitação colectiva. 10. Depois de definido o problema é necessário dividi-lo e subdividi-lo nas suas diversas componentes para melhor o conhecer, entender e solucionar, Bruno Munari, 1981 (Munari, 2004, p. 46) Em resumo, embora muitos arquitectos tomem como solução imediata, respostas pragmáticas a supostos utilizadores concretos e de necessidades previamente definidas e julgadas como definitivas, iguais e exactas, o facto é que o ser humano será eternamente um ser singular, e como se apurou, nem mesmo a teoria do “homem ideal” de Le Corbusier se petrificou. Será aqui a teoria de Friedensreich Hundertwasser tão incompreensível? A filosofia de Edward Wilson ajudará a uma leitura global do conjunto “indivíduo”, reciprocamente, também se verifica que dificilmente a mesma se tornará eternamente aceitável, e se para uma habitação privada e unifamiliar, ao “cliente” e ou futuro utilizador é conferido a oportunidade de escolha, porque se banaliza tanto as características dos utilizadores de habitação de baixo rendimento? Até quando permanecerá o equívoco, 11. O programa enquanto problema poderá ter várias soluções, e é necessário decidir por qual optar, face às necessidades do utilizador, e apenas posteriormente, a interesses de valorização pessoal, Adaptado a partir de: Bruno Munari, 1981 (Munari, 2004, p. 44) (Ilustração nossa, 2012) 92 Extracto II 93 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana face ao facto, de os arquitectos se sujeitarem a construir uma arquitectura colectiva, “[…] para onde certamente nenhum arquitecto iria habitar” (Botta, 1998, p. 36)? Não estará nessa opção, a verdadeira culpa pela perda de sentido da arquitectura face a estes programas? Estará o arquitecto a construir o seu próprio problema em vez da pretendida solução? Ao longo de décadas, o acto de realojar fora visto e desenvolvido, como um simples melhoramento do contexto habitacional, baseado na reivindicação do “direito à habitação” e do “direito à cidade”, que se restringia à atribuição de uma nova morada, por parte de uma entidade a uma população mal alojada ou albergada em terrenos de interesse público ou privado. Como mencionado, a arquitectura tem perdido o seu sentido, especialmente em tipologias de habitação, e talvez a muito se deva à ausência de outros valores e de outros sentidos, que deveriam ter sido tomados pelo arquitecto, como igualmente fundamentais, como é exemplo, a essência do construir “com” as pessoas. Nexto contexto, possivelmente, verificar-se-á, que à obra de arquitectura faltará “juntar” um sentido participativo. Este sentido, é sem dúvida o elo de ligação que escasseia entre o criador e o utilizador, entre a arquitectura construída e a arquitectura utilizada. No entanto, este acto de reabilitar, apresentou consecutivamente outras consequências, que se revelavam para além do desempenho construtivo do desenho da habitação, como foi o caso, da permuta das relações de vizinhança e a perda de identidade e da “zona de conforto” aclamada pelos utilizadores, que urgentemente se demonstrou carente de uma nova abordagem. 3. CASO DE ESTUDO . PARK HILL, SHEFFIELD Anteriormente à Segunda Grande Guerra, já as cidades de Inglaterra, à semelhança da realidade vivida noutros países do mundo, reflectiam um sentimento de desordem, cuja necessidade de revitalização de certos bairros e aglomerados habitacionais em terrenos baldios e clandestinos, junto ao centro urbano, era uma constante (Sheffield City Council, 2010, p. 4). Com a destruição provocada pela revolução, o panorama da arquitectura foi alterado, e cidades inteiras, apelavam à premente construção de novas habitações. Para responder a esta necessidade foram desenvolvidos diversos programas habitacionais nos quais os arquitectos se envolveram afincadamente em busca de soluções plausíveis para o agravado problema do habitar. Era essencial desenvolver uma nova maneira de pensar a arquitectura, para criar novas hipóteses de cidade e novas maneiras de as vivenciar (Yorkshire Film Archive, 2011b). Compreendidos entre as décadas de 50 e 70 do século XX, estes projectos foram concebidos como resposta às necessidades da sociedade da época, marcadas pelo êxodo rural, pelo crescente aumento populacional das cidades e pela luta dos direitos dos cidadãos, assim como, pela crescente consciência do que seria uma verdadeira cidade moderna e qual a melhor opção de projectar e organizar o espaço urbano.87 Para além de valores funcionais ou estéticos, muito se insiste numa arquitectura com sentido, não só reflexiva, mas igualmente consciente, não como resposta concreta a cálculos e a escolhas plásticas, adequadamente adaptadas a um lugar, mas como reflexo de uma arquitectura, que deverá ser vista primariamente como objecto social, qualidade que apenas “a arte de todas as artes” poderá verdadeiramente construir e reunir. Após a guerra, face ao cenário de cidades bombardeadas e desalojadas, foi decretada a urgência de planos arquitectónicos que suportassem o realojamento de várias comunidades. O projecto do conjunto Park Hill surge, como resposta a uma realidade do pós-guerra, num esquema de revitalização, constituindo mais um exemplo, entre os vários conjuntos habitacionais, que cresciam em larga escala, nas restantes áreas da cidade de Sheffield88, como Netherthorpe, Woodside e Burngreave, ambos orientados pelo Sheffield city council’s architects’ department (Sheffield City Council, 2010, p. 12). Inaugurado em 1961, Park Hill, foi construído numa zona degradada da cidade, conhecida na década de 1930, como “Little Chicago”, devido à incidência de crimes violentos89. No entanto, para além de beneficiar da sua localização, bastante próxima à área central da cidade de Sheffield, esta colina, iria constituir um enorme desafio no planeamento do projecto, mas cuja topografia se reflectiria posteriormente bastante acessível, e numa leitura mais realista, numa mais-valia conceptual. At Park Hill, the housing occupied the slopes of a steep hill, so that it was possible to bridge from the upper levels of flats straight onto solid ground. This helped to reduce any sense of alienation or exclusive reliance on lifts or stairs, and much was made of the fact that a small electric vehicle, universal at the time for daily milk deliveries, could drive up to the front door of every flat. (Powers90, 2010, p. 32). Inspirados pela Unité d’Habitation de Le Corbusier, e pelos esquemas e temáticas, desenvolvidos pelos Smithson para o possível projecto do Golden Lane91, em Londres, um novo casal de arquitectos, Jack Lynn e Ivor Smith, sob supervisão do arquitecto J. Lewis Womersley92, tentaram desenvolver um programa capaz de sustentar as necessidades dos seus futuros utilizadores, respeitando o sentido de vitalidade e comunidade que se exigia a uma nova arquitectura (Powers, 2010, p. 32). Nesta abordagem, procura-se entender, até que ponto a projecção cuidada tanto do conjunto do bairro como da própria habitação, poderá levar a um realojamento e a uma obra arquitectónica de “sucesso”, nos quais os utilizadores se sentirão mais completos e integrados, ou pelo contrário, ao “fracasso”, à ineficácia e inutilidade do projecto, fundamentada no desinteresse e estigmatização dos próprios habitantes. A personalização do programa, em detrimento do “rótulo” dos seus utilizadores, verifica-se cada vez mais num plausível sentido condutor, porque, poderá ser um “belo” projecto, mas se não responder adequadamente às necessidades e identidade do seu utilizador, certamente, o seu “fracasso” será atribuído, severa e unicamente ao seu arquitecto. 94 12. Esquema de reflexão para um possível método de construção de uma arquitectura com sentido, Adaptado a partir de: Bruno Munari, 1981 (Munari, 2004, p. 66) (Ilustração nossa, 2012) 13. Fotografia referente a um das famílias da classe trabalhadora a realojar, (Houses 4, 5 and 6, Duke Street, Park), 1926, (Sheffield City Council, Sheffield Archives, 2010, p. 7) Confrontados com o que seria realmente a vida nas slums, Lynn e Smith, reconheceram que a par de um ambiente de violência e criminalidade, existia equitativamente nestes espaços, um sentido de comunidade e espírito de união entre os habitantes, que não lhes era indiferente. Segundo David Kynaston93 (1951), no seu livro intitulado Family Britain: 1951-1957, J. Lewis Womersley, depois de afirmar que os arquitectos responsáveis por programas da nova habitação deveriam tentar promover “the Extracto II 95 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana friendliness of the slums”, continuou dizendo que: In it lies the essence of the community spirit which we planners talk about so glibly. These people like to talk to one another without dressing up and making special calls. The women like to sit on their doorsteps and chat on warm summer afternoons and their small children like to play together in a common garden outside their houses where they are safe from traffic. (Kynaston, 2010, p. 344). Pretendendo-se combater a percepção de espaços vazios, isolamento e falta de vida nas ruas, promovidos pelo design moderno, defendiam que, face ao problema que enfrenta qualquer concepção de um programa de alta densidade, como Park Hill, se deveria evitar a vulgar aglomeração de volumes isolados, favoráveis a uma construção de sentido desumano (Sheffield City Council, 2010, p. 16). 14. Planta do projecto para o conjunto Park Hill. Organizado como um elemento único, verificam-se as ligações entre os blocos, bem como as ligações verticais nos extremos correspondentes (Sheffield, England) Hawkins Brown e Studio Egret West, 2011 (Brown e Studio Egret West, 2012) sociais, também Lynn e Smith, quiseram proporcionar aos seus habitantes um sentido de união e conforto na sua nova morada, respeitando o espírito vivido nos seus bairros anteriores, que se materializou com a preocupação de colocar os vizinhos uns ao lado dos outros97, apostando numa estrutura unitária do conjunto, contrapondo a opção de edifícios individuais, proposta por Minoru Yamasaki98 para o conjunto Pruitt-Igoe. Embora, não seja uma ideia original do jovem casal de arquitectos, e tenha sido testada anteriormente no projecto do Golden Lane, dos Smithson, é em Park Hill, que o desejo de unir a rua e a habitação se corporiza, por meio da interacção do habitante com o lugar, porque para eles “[…] morar era mais que possuir uma casa, era pertencer a um lugar, apropriar-se do lugar como parte da cidade. Apreender o lugar e pertencer era Destinado para habitação social, a Park Hill, coube o acolhimento de uma grande parte da classe trabalhadora da cidade industrial, assim como, um próspero sinal de rejuvenescimento. Composto por uma média de 1000 habitações, e possuindo capacidade para mais de 2000 habitantes, o conjunto ocupava todos os 13.3 hectares da colina (Urban Splash, 2011a, p. 131). Se por um lado se respeitavam as características das diferentes famílias, pela criação de várias tipologias, valorizando-se e adaptando-se o dúplex a cada área pretendida94, por outro a decisão de realizar todo um esquema de edifício que atingisse na sua totalidade o sentido de unidade, é visível tanto pela manipulação do lugar, em que o edifício se apropria literalmente da área que domina cercando-a pela projecção de largos braços sobre o terreno, como pela harmonia que existe em todos os pontos dentro do edifício principal, uma vez que o mesmo tipo de quadro estrutural suporta o mesmo tipo de função residencial95. 16. Desenho de uma “street-in-the-sky”, para o projecto Golden Lane, Alison & Peter Smithson, 1951 (Montaner, 2007, p. 32) 96 entendido como uma necessidade básica emocional” (Barone, 2004, p. 1). Por isso, O projecto de Golden Lane foi tão marcante que seria retomado futuramente pelos Smithson em diversos projectos como no concurso para a universidade de Sheffield, ou em 1970, em Robin Hood Gardens, quando finalmente o casal teria a chance de ver construído um projecto seu apoiado nessas noções. Além disso, Golden Lane influenciou os arquitectos de sua geração: um dos mais expressivos projectos brutalistas da Inglaterra, o conjunto de Park Hill e Hide Park, de 1955, não é de sua autoria, mas de Lynn e Smith, ligados aos Smithson principalmente pelo interesse comum por sociologia do comportamento. (Barone, 2002, p. 140) Para vencer os desníveis topográficos e conseguir unificar toda a estrutura num único elemento estrutural, o edifício vai-se aguçando ao desnível do terreno, oscilando entre os 4 e os 13 andares (Urban Splash, 2011a, p. 134), atingindo a parte maior cerca de 30 metros de altura, sendo a comunicação horizontal, realizada pelas “streets-in-the-sky”, plataformas, ou corredoresdeck de rua aéreos, que tornavam possível deambular de um ponto ao outro do edifício, mesmo sem ser necessário descer à terra ou subir novamente99. Estes corredores-decks, colocados de 3 em 3 andares, permitiam o acesso ao complexo em qualquer ponto do mesmo, terminando à cota do terreno, ou num dos 5 núcleos de comunicação The original building was very well designed with the 1,000 plus flats all duplex, having living space, a sun-facing balcony and double aspect views. It’s had its problems, a lack of love, care, attention, but it’s in a great location and will have fantastic gardens. This kind of building and space are hard to find these days. The flat plans are great – more generous than many developers’ modern boxes. (Urban Splash, 2011a, p. 134). 15. Conjunto Park Hill depois de construído. A adaptação do edificado ao lugar, à colina, RIBA Library Photographs Collection, 1961 (Collie et al., 2012, p. 22) Entendendo-se, à semelhança do pretendido para PruittIgoe96, em que se criou um ideal de valorização das relações 17. Fotografia aérea com o desenho do projecto Robin Hood Gardens, realizada pelo casal Smithson, Alison & Peter Smithson (Powers, 2010, p. 47) 18. Fotografia das rampas de acesso e das ligações aéreas “ruas no céu” (Banham, 2011, p. 408) Extracto II 97 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana vertical, constituídos pelas escadas e pelos elevadores, que se encontravam, fazendo a ligação entre as habitações, sempre que a estrutura trocava de direcção (Banham100, 2011, p. 409). Contudo, para além de simples “varandas” de acesso unificador, as “streets-in-the-sky” apresentavam largura suficiente, cerca de 3,56 m, para acomodar jogos infantis, ou até mesmo possibilitar o acesso de pequenos veículos de rodinhas para a entrega ou remoção de móveis ou compras, funcionando as mesmas, como um elemento primordial na socialização e no lazer de todos os habitantes, que pretendia respeitar tanto as necessidades de pessoas mais idosas, como dos membros mais pequenos101, materializando mais uma vez o sentido de comunidade e união, que se elevava correctamente, para além de qualquer valor mais funcional ou estético, que pudesse ser imposto pelo gosto pessoal dos seus autores. 19. Imagem das galerias ou “varandas” de acesso unificador, “street-in-the-sky”, 1988 (Yorkshire Film Archive, Park Hill housing project, 2011a) 20. No piso térreo existiam diversas lojas, bares e equipamentos de apoio aos habitantes do conjunto. (Adaptado a parir de: Yorkshire Film Archive, 2011a) Para além da preocupação formal a nível de volume edificado, este sentido de unidade é igualmente verificado, nos cuidados desenvolvidos aquando da orientação102 dos quartos, uma vez que, todo o complexo apresenta a parte mais privada da habitação virada a sul, não havendo distinções de dúplex para dúplex, assim como, nas fachadas de todo o conjunto, esteticamente tratadas com uma trama de planos de tijolo e de betão armado à vista, aplicado com o conselho do escultor construtivista John Forrester (Banham, 2011, p. 409). Desde a parte estética e estrutural, à delimitação da área pelo próprio edifício, existe sem dúvida uma explícita preocupação com a união do espaço público ao espaço privado. Criaramse espaços destinados à zona comercial, que garantiam a sua independência a nível logístico, e Park Hill apresentava tudo o que era necessário, para proporcionar uma vida digna, confortável e agradável a qualquer cidadão103. Contudo, como defendiam os Smithson, para além dos “elementos da cidade” ou dos “cluster”, existia igualmente o tema da “identidade” (Feliciano, 2009, p. 106). Nem ai pecaram os jovens arquitectos, uma vez que, a sua maior preocupação seria, que o espaço projectado se tornasse à semelhança dos projectos modernistas, numa terra de ninguém, sem vitalidade, sendo simultaneamente, ora incapaz de servir as necessidades do público, ora de oferecer privacidade aos moradores. Deste modo, verifica-se inclusivamente, a preocupação de um tratamento estético diferenciado em cada patamar de distribuição e de acesso vertical, como prova de que a individualidade e a identidade de cada morador, não se encontrava esquecida nem disfarçada por meio do gigantismo104. O espaço jardim, projectado com parques de crianças e área para passeios e lazer, ficara deserto, suando como um terrível eco, no centro e ao redor de todo o conjunto. As “street-in-thesky”, em vez de airosos espaços sociais, serviam de suporte a assaltos e a atitudes depreciáveis provocadas por utilizadores inconscientes e de carácter repreensível. A unidade da fachada, facilmente perdeu o seu brio, e entre a falta de manutenção para os vidros partidos, que eram aleatoriamente substituídos por painéis de aglomerado de madeira, e para o betão danificado, surgia a acumulação de lixo e elementos individuais, que evidenciavam a indesejada diversidade. De acordo com Sheffield Archives106 (Sheffield City Council, 2010, p. 24), de entre vários comentários sobre o estado degradante de Park Hill, podemos retirar: “My last visit to the flats was ten years ago…There were burnt out cars, rubbish, boarded up pubs and shops, graffiti and a nasty smell about the area”. Será que pode a obra arquitectónica ser, mais uma vez, condenada pelo suposto “fracasso” projectual? Ou tornou-se repetida e convenientemente evidente, que o utilizador não consegue, ou simplesmente não quer viver em sociedade, e muito menos sabe respeitar o seu espaço? Embora, se tome como verdade, esta última hipótese, não estará apenas, a ser eternamente utilizada como uma desculpa, para a perda de sentido da obra arquitectónica, referente a um comodismo do seu criador? Assim, embora nas primeiras décadas Park Hill, tenha sido elogiado pelos seus utilizadores e por vários críticos da arquitectura vigente, rapidamente a pobreza, o vandalismo e os constantes assaltos deitavam por terra, todo o sonho de uma nova arquitectura idealmente organicista, que incompreendido, era severamente condenado105. O estudo deste projecto vem demonstrar novamente, o quanto é ingrato ao arquitecto desenvolver uma obra aparentemente consciente, e que acaba em profunda deterioração. Destinado a uma habitação social, reflecte-se repetidamente, numa realidade desumana. Serão os projectos incapazes de responder às necessidades humanas? Ou os próprios utilizadores, sem qualquer tipo de discernimento, não dão qualquer valor ao projecto que lhes foi concedido simplesmente por não o entenderem? Desrespeitado pelos seus utilizadores, o espaço familiar do Park Hill começava a ser gradualmente aniquilado. Apesar dos esforços realizados para o não encerramento da parte das lojas, com a péssima reputação dos quatro bares existentes no complexo, o seu abandono tornou-se inevitável (Yorkshire Film Archive, 2011a). Não se pretendendo uma crítica social, o facto é que a construção de bairros de baixo rendimento tem vindo a constituir um enorme problema desde sempre, tanto pelo custo que implicam, como pela sua consequente má gestão. Sejam de alta ou baixa densidade, a junção de determinadas classes sociais num único ambiente tem suscitado profundos problemas a nível 98 social, culminando em enormes carcinomas nos corações das cidades. Passará a solução pela alienação? Ou competirá ao arquitecto a (re)definição do sentido, ou sentidos segundo os quais os constrói? Independentemente das intenções e dos valores desenvolvidos por Minoru Yamasaki e por Jack & Smith, tanto numa abordagem mais “mecanicista” ou “holista”, o facto é que ambos os projectos poderão ser considerados como soluções de uma arquitectura sem sentido. O utilizador não entendeu o programa, não se identificou com o projecto. As suas acções a mais não levaram do que a um reconhecimento de “fracasso” da obra, cobrado dogmaticamente ao arquitecto. A Pruitt-Igoe foi decretada como única solução (mesmo se considerando a realidade de interesses paralelos), a sua directa demolição e, a Park Hill, plasmou-se uma premente deterioração. Entendendo-se, inicialmente como excelentes projectos, como exemplos de soluções arquitectónicas reconhecidas, poder-seia, numa primeira análise, culpabilizar apenas os utilizadores pela sua incapacidade cultural e, entender, comodamente, mais uma vez, estes casos sociais como consequências normais e inevitáveis. Contudo, não estará na altura de interpretar estas fatalidades como paradigmas construtivos, valorizando a procura de um novo sentido arquitectónico e de uma nova postura do seu criador? Se foram consideradas inicialmente como excelentes estruturas arquitectónicas no fim da sua construção? De facto, não se pode negar! Mas que interesse terá desenvolver um projecto “monumental” se o seu utilizador não o entende? Obviamente que se a arquitectura for desenvolvida apenas “para” as pessoas (sendo no entanto uma mais-valia), e não “com” as pessoas (mesmo se tendo a consciência da possibilidade de manipulação), a sua interpretação e “destino” continuarão a ter consequências incompreensíveis e o culpado será eternamente o arquitecto! Segundo Henry Sanoff107 (2009) : “Los edificios deben satisfacer las necesidades de las personas que lo usen”, de maneira a que, “[…] el edificio tenga sentido para los usuarios”. Extracto II 100 99 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana A obra de arquitectura como objecto social Essa realidade remete a vários pensamentos: que sentido atribuir à obra pré-existente? Será que o sentido que se pretende atribuir à obra pré-existente irá destruir o sentido inicialmente construído por outro arquitecto? Em que medida se considera que a obra resultante desse novo sentido atribuído é julgada como obra com sentido ou sem sentido? Dever-se-á desenvolver um projecto confinado a uma realidade pré-existente como o simples respeito ao passado? Será preferível e mais aceitável a demolição e a constante deterioração a um novo sentido? 24. Fotografia do conjunto grafitado e vandalizado (Collie [et al.], 2012, p. 62) 21. “Street-in-the-sky”, 1961 (Banham, 2011, p. 408) 22. Fotografia do conjunto grafitado e vandalizado (Collie [et al.], 2012, p. 62) Indiscutivelmente tem-se vindo a verificar que a solução não estará na demolição do passado para se construir um novo presente. No entanto, a opção de ruína em prol da revitalização, continua também, a não ser um plausível sentido condutor. A arquitectura tem de ter a capacidade de se ajustar à sociedade do seu Tempo, tem de partir também da sociedade a sua aceitação. Mesmo que o sentido inicial seja alterado, não nos impede de lhe conferir, não digamos um melhor, mas um novo espírito ou um “destino”, que faça sentido hoje, desde que respeite a sua história e a sua identidade. Contudo, Simone Weil108 (19091943), apud Paolo Portoghesi109 (1985, p. 45) afirmou que: Não tem sentido livrarmo-nos do passado para pensar apenas no futuro. Até o facto de nisto se acreditar é já uma ilusão perigosa. A oposição entre o futuro e o passado é absurda. O futuro não nos traz nada, não nos dá nada; somos nós que, para o construir, lhe temos de dar tudo, dar-lhe até a nossa vida. Mas para dar, é necessário possuir, e nós não possuímos outra vida, outro sangue além dos tesouros herdados do passado e dirigidos, assimilados, recriados por nós. Entre todas as exigências da alma humana, nenhuma é mais vital que a do passado. O facto é que, independentemente de vivermos enraizados no passado, é a pensar no futuro e nessa capacidade de recriação, que tudo se desenvolve, que a vida faz sentido. Muitas vezes o ideal de preservação histórico, levado ao extremo, em mais não resulta do que, num espaço obsoleto, que se vai dissipando no Tempo, e se por um lado vai perdendo as suas características físicas, arquitectónicas ou de uma vivência, por outro, não lhe é permitido libertar-se e encontrar no futuro um novo sentido! 23. Imagem de um dos espaços exteriores entre os blocos do conjunto. Verificam-se as ligações aéreas, “ruas no céu”, entre dois elementos edificados, assim como as rampas de acesso a qualquer andar do projecto (Adaptado a partir de: Yorkshire Film Archive, 2011a) 25. Fotografia da fachada destruída, os vidros partido, o lixo no chão, as “lojas” fechadas (Collie [et al.], 2012, p. 52) Esta dicotomia, entre a preservação do passado em detrimento da construção de um futuro, tem vindo a criar imensas indecisões Extracto II 102 101 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana ao longo de séculos, e a realidade é que, os centros da cidade hoje mais não são do que espaços obsoletos, desidratados e desprovidos de qualquer alma, e preferir a lembrança a um novo sentido, é isso sim perverso110. Paralelamente a um sentido espelhado pelas acções dos seus utilizadores, tornou-se igualmente pertinente entender de que modo a atribuição de um novo sentido, poderá ou não alterar o “espírito” da obra de arquitectura face ao seu sentido inicial, e até que ponto essa realidade poderá piorar ou melhorar, a estrutura arquitectónica, enquanto objecto social contemporâneo. Questiona-se assim, se a (re)adaptação das pré-existências a novas realidades programáticas, estruturais, estéticas ou sociais, não será também uma possível e necessária realidade a seguir. A questão da reabilitação, assim como a de atribuir um novo sentido ao pré-existente, nem sempre é culturalmente aceite, como reflexo de um medo de perda de identidade e de história, um medo de perda de vida. Contudo, há que considerar, que a história nunca se repete, e que o presente será passado no futuro, e que mesmo não se pretendendo destruir o passado, não se deverá privar de construir o presente. Após ter sido decretado como uma obra deteriorada e inútil, ao conjunto Park Hill foi atribuída a classificação de listado em Grau II*, constituindo um dos edifícios de maior escala classificados na Europa, em 1998 (Powers, 2010, p. 32). Assim, se muitos entendiam e preferiam a sua demolição, uma vez que, perdera o sentido para o qual havida sido construído inicialmente, o facto é que, as suas qualidades de projecto, tornaram-se uma maisvalia, e a empresa Urban Splash, decidiu reabilitar o edifício111, considerando-o como um excelente exemplar da arquitectura moderna, a valorizar. Contudo, embora cientes, das potencialidades do projecto, e sem desrespeitar os conceitos iniciais, como a busca de um sentido arquitectónico de identidade na unidade, e a sensação orgânica de fazer parte integrante da cidade, foram inevitáveis algumas transformações, tanto a nível técnico como a nível funcional, assim como, se tornou fundamental a manipulação e alteração do público alvo112. Neste contexto, refazer um projecto para voltar a cair em deterioração não seria o ideal pretendido. Apesar de uma pequena parte do conjunto se destinar a habitação social, todo o resto será para utilizadores de classe média ou alta, que procuram uma vida tranquila, desfrutando literalmente da sua paisagem, localização e acesso, que o projecto já apresentava à priori (Sheffield City Council, 2010, p. 22), mas que o seu utilizador, para mais não contribuiu, do que para a atribuição de um sentido negativo, pela sua incompreensão programática. Poderá esta opção projectual ser considerada como um desrespeito ao sentido inicial? Será que, por ter sofrido uma reabilitação tanto a nível estrutural como, principalmente, a nível do utilizador será considerado como um projecto de “fracasso”? Teria sido preferível a deterioração ou a consequente demolição, a este novo sentido atribuído? No fundo, “o arquitecto está, na situação que temos vindo a descrever, «condenado» a trabalhar com as pessoas e, para isso, tem de tornar claro o que é que pode oferecer e evidenciar o seu papel […]” (Croft113, 2001, p. 53), porque, segundo Constantinos A. Doxiadis, temos hoje de ter a consciência que: 26. Desenho gráfico do plano de conservação para o Projecto Park Hill, “Site Plan”, Park Hill, Sheffield, 2011 (Urban Splash, 2011d) Há uma geração atrás tivemos que quebrar os traços do academismo e libertar-nos para criar a arquitectura moderna. Fizemo-lo, mas encontramo-nos agora a viver num pesadelo urbano que se espalha cada vez mais e nos prende no seu centro. Na confusão olhamos à volta para saber o que fazemos com a nossa liberdade duramente conquistada. (1965, p. 20) Por conseguinte, “[…] o que interessa procurar no passado é aquilo que mudou, não nas formas nem sequer nos conteúdos, mas na própria noção de arquitectura e nos seus limites em relação às outras actividades humanas” (Portas, 2008, p. 33). No entanto, poder-se-á constatar, que muitas vezes a realidade social tem um carácter irreversível, e a solução passará consequentemente pela sua drástica manipulação. Este projecto é um exemplo de como a construção do sentido da arquitectura, ora de cariz prático, ora de cariz mais espiritual ou conceptual, está longe de conseguir controlar o seu uso, e de se reflectir numa obra de arquitectura completa, numa obra com sentido capaz de ser entendida e respeitada pelos que a constroem, como e principalmente por aqueles que a habitam e utilizam. 27. Imagem da fachada do conjunto Park Hill. Na esquerda encontra-se a fachada desenvolvida por Jack Lynn e Ivor Smith, e na direita, a proposta de reabilitação da Urban Splash (Sheffield, England) Hawkins Brown e Studio Egret West, 2011 (Adaptado a partir de: Pagliari, 2012) Extracto II 104 103 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana Em suma, não se questiona o quanto é difícil, e muitas vezes, angustiante e interminável o facto de se construir não para uma família, mas para uma comunidade, para “um maior número”. Mas o papel do arquitecto é servir a sociedade, e enquanto não se entender essa sociedade, a arquitectura será eternamente incompreendida por quem a utiliza e, nunca fará sentido, porque ao se continuar a construir só “para” os utilizadores, sem a sua participação no planeamento do projecto, eles serão incapazes de se apropriar desse espaço, logo, não terão nenhuma razão para o defender, caindo consequentemente em deterioração e cultivando a alienação (Carlo, 2005, p. 16). 28. Imagem de uma das “street-in-the-sky” que havia sido vandalizada. Hoje surge como uma marca do novo projecto, como símbolo de uma nova vida que foi ao mesmo atribuída, Park Hill, Sheffield, Junho 20111 (Urban Splash, 2013, p. 12) Giancarlo de Carlo114 (1919-2005), arquitecto italiano membro do Team 10, foi um dos grandes defensores da “arquitectura participativa” e afirmou que, a solução da arquitectura moderna não estava em continuar a construir “para” as pessoas, mas “com” as pessoas (Carlo, 2005, p. 16), defendendo que para se fazer arquitectura, “[…] era necessário criar espaços para a educação, na qual a participação coletiva estivesse na base da produção do conhecimento, implicando uma mudança radical no papel do arquiteto” (Barone, 2004, p. 27). De Carlo traduziu a participação dos usuários no processo de projecto como uma oportunidade tríplice: oferecer ao habitante da cidade uma opção de escolha, ampliar seu repertório arquitectónico e mostrar ao cidadão seus direitos em termos urbanísticos e como reivindicá-los, com base em suas próprias necessidades. O sentido da participação é incluir quem nunca fez parte de processos de decisão, além de garantir respeito ao espaço existente e à sociedade, como história, como cultura. (Barone, 2004, p. 27) 29. Recorte de um jornal onde foi publicado a notícia de reabilitação do Projecto Park Hill, Sheffield Star, Janeiro de 2013 (Urban Splash, 2013, p. 21) Segundo Giancarlo de Carlo o seu processo participativo decompunha-se em três fases distintas: a descoberta das necessidades dos utilizadores, a formulação de hipóteses formais e organizacionais e, a avaliação de resultados na sequência de uma fase de utilização efectiva115. Esta relação cíclica permitia, segundo Giancarlo projectar com os utilizadores, criando nos mesmos um sentimento de pertença e diálogo com o seu habitat. Nesta abordagem, a arquitectura participativa surge como um objecto social e não como uma obra acabada, considerando-se que, “o trabalho interdisciplinar é fundamental para a eliminação dos vícios da arquitectura “de mão-única” que ele procura[va] evitar” (Barone, 2002, p.160-161).Assim, ao serem confrontados com a realidade, dever-se-ia desenvolver não uma arquitectura estandardizada, valorizada pela desculpa económica e administrativa, mas como uma arquitectura que mesmo controlada, possibilite criar maiores opções de escolha (Barone, 2002, p. 161). O seu projecto Vila Matteotti (1964-1974) em Terni, Roma, é um excelente exemplo, de cumprimento das funções de bem-estar social, assim como do processo de diálogo, que se desenvolveu através de discussão e da apresentação de propostas, em encontros com os futuros utilizadores, em que o consenso foi encontrado numa estratégia de equilíbrio. Segundo Giancarlo di Carlo o processo participativo seria um veículo de educação e cultura, e mesmo sabendo que a arquitectura não resolvia o problema social, considerou sempre que ela poderia interferir, pela qualidade ambiental que proporciona, pelo melhor desenho do espaço e o envolvimento dos utilizadores com a sua cidade (Barone, 2004, p. 28 e 30), e é esse o ideal de construção de arquitectura que se pretende como ideal de uma arquitectura com sentido.116 Deste modo, não se pretenderá ver a participação como um livre arbítrio por parte do utilizador, mas sim como uma possibilidade de respeito e reconhecimento do arquitecto para com o mesmo. Neste projecto, Giancarlo começou por propor 5 hipóteses de planeamento aos utilizadores, das quais escolheram uma, assim como as tipologias resultaram em 15 tipologias diferentes (Barone, 2002, p. 166). É óbvio que ele conseguiu fazer a sua arquitectura, mas com diálogo, com entendimento mútuo e com oportunidade de escolha, possibilitando o conhecimento e o sentido de pertença, que se verificou como fundamental em programas de habitação, face ao “destino” da obra. O sentido participativo deve ser visto como um processo de julgamento positivo e construtivo por parte do arquitecto, porque no fundo, ajudará e muito na durabilidade da obra de arquitectura, mesmo que o próprio continue a pensar que mais não é do que uma prisão criativa. 30. Vista de jardins e de algumas estruturas aéreas de acesso e distribuição do conjunto habitacional de Vila Matteoti (Terni) (Barone, 2002, p. 167) Esta (auto)avaliação é o momento de conscientização sobre o processo experimentado, na qual, o uso se torna fundamental como fase de projecto, uma vez que, se considera que, “[…] somente o uso pode revelar os problemas, soluções inadequadas, desencontros entre ideia e execução e os acertos, qualidade e méritos do projecto participativo” (Barone, 2002, p. 161). Possével e evidentemente que, em muitos casos o processo de diálogo poderá não ser política. O próprio Giancarlo reconheceu este facto, mas em muitos, e especialmente em programas de habitação, onde o utilizador se expressa mais evidentemente, é sem dúvida um elemento positivo a considerar, um sentido condutor. 31. Maquetes e cortes explicativos de algumas tipologias desenvolvidas para o projecto Vila Matteoti (Terni, Roma) Giancarlo de Carlo, 1964-1974 (Barone, 2002, p. 165) Extracto II 106 105 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Entendendo-se “a arquitectura não como um feito mas um ir fazendo”, e reconhecendo que, a mesma “[…] nunca está terminada, [sendo] um processo que se prolonga no uso” (Almeida, 2004, p. 34), a mística do sonho e do ideal de ideia construída, deu lugar, consequentemente, a uma definição de arquitectura, não como obra acabada, não como um objecto de arte terminado e de cariz único do seu criador, mas como uma acção, como um elemento vivo em constante transformação e metamorfose, que se reflecte não mais no símbolo ou no desejo pessoal do arquitecto, mas na imagem e na identidade do utilizador e do programa funcional. Questionando-se a frase de Campo Baeza: “Temos de saber fazer Arquitectura. Com sentido e com medida. Com pausa e decisão” (2004, p. 11), e no seguimento da definição dos termos ‘sentido’ e ‘arquitectura’, rapidamente se entendeu que a arquitectura como “arte de todas as artes” não se esgota na “obra edificada”, na “arte de construir”, no conceito ou no desenho, na luz ou na sombra, no cheio ou no vazio, no lugar ou na forma, na materialidade ou na estrutura, mas que se prolonga na experiência vivida, pelo que, mais do que nunca, se tornou evidente que o papel do arquitecto tem de ser (re)avaliado (Augé, 2006, p. 35), bem como o tipo de obra arquitectónica que se deverá continuar a construir: se aquela a que muitos arquitectos preferem não voltar depois de inaugurada, ou aquela que terá a capacidade de emocionar, ser útil e ser entendida por aqueles que a experimentam e habitam hoje, e por aqueles que possivelmente a habitarão na eternidade. O factor Tempo, aliado à obra de arquitectura e ao que se julgaria constituir uma obra com sentido, leva a uma abordagem da mesma não como a simples peça de arte ou construção, resultante de uma harmonia pré-definida entre valores práticos, técnicos e estéticos no acto conceptual, mas como sendo igualmente cíclica, na medida em que nasce, “vive” e se deteriora, e, para se conseguir controlar o seu “tempo de vida”, em muito ajudará o sentido segundo o qual se constrói. Por definição, a arquitectura é, assim, dotada de sentidos, constituindo-se, numa primária “compilação”, de um sentido explícito, ligado à forma e ao programa, e de um sentido implícito, ligado às valorizações espirituais e qualidades sensíveis e à emoção estética. Contudo, a arquitectura surge simplesmente como solução de um criador singular e cujo reconhecimento permanece na simples perspectiva de um possível entendimento do seu utilizador face à obra construída. No entanto, como defendeu John Turner, o que é importante acerca da habitação não é o que ela é em si mesma, mas sim o que faz pela vida das pessoas (1991, p. 3-6), e é essa a capacidade que se pretende que o arquitecto (re)defina como um dos sentidos condutores. Porque, afinal, “o que deve mudar não é a tecnologia, mas o enfoque que os arquitectos utilizam para projectar”, uma vez que “[…] a função da arquitectura não é a de nos alienar de uma relação sensual com o mundo, mas sim de reforçá-la, pois dela necessitamos” (Pallasmaa, 2006). Neste entendimento, como o Homem será eternamente um ser livre e indecifrável, torna-se cada vez mais óbvio que a solução para uma arquitectura sadia, duradoura e resultante de uma obra arquitectónica com sentido não estará em respostas que atendam apenas ao cuidado pretendido por um suposto utilizador, mas na realização de uma solução que ajude a educar e a alterar os seus hábitos, porque, como defendeu Walter Gropius117, “a arquitectura boa e original depende tanto de um público compreensivo quanto de seus criadores” (2004, p. 110), e este aspecto de orientar o uso corresponde, deste modo, a uma função pedagógica do arquitectar, em que o arquitecto tem de prever a possibilidade de uma utilização livre das obras que possa criar, mas também, e em simultâneo, tem de fornecer orientações concretas para uma sua utilização conveniente (Almeida, 2004, p. 51). Assim, se Fernando Távora nos chamou à atenção para a inutilidade da profissão de arquitecto - qualquer dona de casa, quando desloca uma cadeira de sítio, está a fazer arquitectura (2003, p.5) -, será irrisório continuar a insistir numa arquitectura que se nega a enfrentar a realidade e que simplesmente procura a cómoda tarefa de criar como expressão artística e conceptual, e não como resposta às necessidades prementes dos utilizadores. A eterna procura do reconhecimento nunca terá uma solução plausível se o arquitecto não alterar e (re)avaliar o seu papel enquanto agente ao serviço de uma sociedade, enquanto ser inteligente, de conhecimento e de consciência social. Não se pretendendo estabelecer princípios ou uma “receita” para a construção de uma obra arquitectónica com sentido, apenas se Extracto II 108 107 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana procurou delimitar um percurso, fundamentado em experiências concretas, manifestos e críticas, que possibilite realizar um pensamento e um conhecimento, capazes de minimizar ou erradicar erros passados ou previsíveis, pelo que, obviamente, nunca se poderá garantir o “sucesso” da obra, mas em muito ajudará a diminuir o seu “fracasso”. Deste modo, poder-se-á considerar que, para construir uma obra de arquitectura com sentido, será igualmente necessário apreender: A consciência de que a arquitectura não é apenas “arte de construir”, mas uma acção, um objecto social, dotado de sentidos: sentidos explícitos e implícitos, que a proporcionam e condicionam enquanto “forma, espaço e imagem”, e um sentido social, um sentido de cariz participativo, que lhe permite evitar a alienação do utilizador, face a um possível reconhecimento de sentido positivo da obra construída; A consciência de que a participação deverá permanecer não como a experiência que fica (Vieira, 2008a, p. 44), mas como uma plausível realidade futura. O arquitecto terá de (re)avaliar os seus ideais e “medos” e de, abordar o diálogo e a negociação, não apenas como algo que se considera manipulável ou de submissão criativa, mesmo que isso se verifique em alguns casos, mas como um desafio, uma oportunidade de ser julgado, enriquecendo a sua proposta de maneira a minimizar possíveis erros ou rejeições, e beneficiar o entendimento da mesma para quem a irá utilizar; A consciência de que as experiências participativas podem resultar num sentimento de pertença e de “amor” dos utilizadores à obra, o que evitará a consequente alienação, bem como atitudes mais profundas de vandalismo e destruição. Da mesma maneira que os utilizadores terão de respeitar o saber do arquitecto, este também terá de reconhecer, o conhecimento dos utilizadores; A consciência de que, ao desenvolver uma arquitectura que seja capaz de (re)educar a sociedade, o arquitecto não se prende na manipulação do gosto face à obra, mas na possibilidade de demonstrar que a arquitectura não se impõe como incontestável, mas que também tem a capacidade de se adaptar e de responder às necessidades dos seus utilizadores, segundo uma troca de respeito e conhecimento mútuo; A consciência de que cada indivíduo é um ser único, que cada projecto é irrepetível e que, do mesmo modo que existe a necessidade de se adaptar a obra à identidade espacial e cultural de cada lugar, deve-se igualmente tomar essa praxis um dogma incontestável, que não se esgota na experiência da habitação unifamiliar, mas que se eleva a outros programas, evitando uma obsolescência prematura de obras futuras; A consciência de que muitos projectos desenvolvidos hoje só serão habitados no amanhã e que, embora não se podendo prever a sociedade vindoira, talvez o caminho não esteja no rotular ou subentender o indivíduo, mas proporcionar a diversidade da obra, de maneira a conseguir-se responder a um maior número de necessidades, a um maior número de utilizadores, hoje e no futuro; A consciência de que independentemente de ser o arquitecto quem constrói a obra, deverá ser primordialmente desenvolvida para o utilizador, pelo que quem permanecerá como elemento fundamental e interveniente activo será eternamente o utilizador e será segundo as suas acções e condutas que o arquitecto e o sentido construído serão posteriormente julgados, face ao “destino” atribuído pelo mesmo. Por último, a consciência de que, a atribuição de um novo sentido à obra pré-existente, quando realizado “com sentido e com medida. Com pausa e decisão” (Campo Baeza, 2004, p. 11), não deverá ser encarado como a destruição de um passado, mas como a possibilidade de adicionar mais história há já existente. Sintetizando: se, segundo Constantinos A. Doxiadis, “a este respeito devemos reconhecer que o começo dos problemas que descrevemos como relacionados com um período transitório na arquitectura coincide com os diferentes significados que demos à palavra «arquitectura»” (1965, p. 85), enquanto não se delinear o que se entende pela mesma, muito dificilmente se conseguirá construí-la com sentido. Deste modo, esse sentido dependerá da cultura, do conhecimento e da consciência de que, “[…] muitas civilizações do passado foram varridas não por não saberem construir em altura ou por não saberem construir com engenho, mas antes porque confundiram o progresso com um sonho de vaidade e ambição” (Tavares118, 2007, p. 94). Entendendo-se, será que o arquitecto “terá ele realmente uma tal influência que permita deixá-lo desempenhar um papel de primazia na evolução de arquitectura?” (Doxiadis, 1965, p. 70), ou considera-se que, “talvez sejam demasiados os desafios que enfrentam os arquitectos”? (Brandão119, 2006, p. 13). Na realidade, “sentir, cheirar, tocar, saborear, sonhar no escuro – não nos chega. Queremos ver. Mas quanta luz precisa uma pessoa para viver? E quanta escuridão?” (Zumthor120, 2009, p. 90). 32. Reflexão esquemática sobre o sentido da obra de arquitectura. São abordados os possiveis sentidos propostos pelo arquitecto à obra de arquitectura, bem como o papel do programa e o cosnequente sentido atribuido pelo utilizador à mesma. (Ilustração nossa, 2012) Extracto II 110 109 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana NOTAS 1 Alberto Campo Baeza (1946-) é um arquitecto e professor espanhol, catedrático de Projectos na Escola de Arquitectura de Madrid desde 1986. Para além da sua obra arquitectónica destacam-se efectivamente as suas obras literárias, como o seu recente livro intitulado Pensar con las manos, ou La idea construída. Marc Augé (1935-) é um antropólogo francês. No seu ensaio e livro intitulado Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade (1995), Augé expõe a expressão “não-lugar” para se referir a lugares de transitoriedade que não têm significado suficiente para serem considerados como “lugares”. Exemplos de um “não-lugar” seria assim uma auto-estrada, um quarto de hotel, um aeroporto ou um supermercado. 2 3 O historiador e teórico de arte italiano, Giulio Carlo Argan (1909-1992), apud Portoghesi Paolo (2005, p. 140), ao defender a tese da redução estética, afirma que: “Superada enfim a questão da redutibilidade ou não da arquitectura a uma teorização unitária da arte, e com ela a da relação útil e belo, a única investigação legítima é a da especificidade semântica da arquitectura, isto é do tipo de experiência estética que realiza e comunica.” Adolf Loos (1870-1933), arquitecto nascido na República Checa, desenvolveu a sua obra inspirada pelo movimento modernista, e foi até ao extremo do racionalismo, deduzindo a forma arquitectónica a partir de questões funcionais. Denunciou a ornamentação como um crime para a sociedade moderna, devido aos factores sociais e económicos vigentes no seu Tempo. Para Loos, a arquitectura só teria sentido, ao utilizar somente o necessário na construção, como também o “[…] emprego racional do espaço” (Argan, 1996, p. 222). 4 Kenneth Frampton (1930-) é um crítico e arquitecto britânico, crítico, professor de Arquitectura na Graduate School of Architecture and Planning da Universidade de Colúmbia em Nova Iorque. O livro Modern architecture : a critical history, publicado em 1980, é considerado um excelente exemplar para o estudo e teorização da história da arquitectura moderna. O livro Labour : work and architecture, publicado em 2002 contém os textos que Kenneth escreveu durante três décadas. 5 O britânico Sir Nikolaus Pevsner (1902-1983) trabalhou em áreas como a história da arte, a arquitectura e o design. De entre as suas contribuições ficam Pioneiros do desenho moderno e Origens da arquitetura moderna e do design, que ainda hoje são utilizados como referências e base de estudos em muitas universidades. 6 Esta citação faz parte do manifesto Concrete Utopias for the Green City, escrito por Friedensreich Hundertwasser, para a conferência na 7 IGA, realizada a 27 de Julho de 1983, em Munique. Antes que se falasse em sustentabilidade, os seus discursos, manifestos e pinturas já sublinhavam a importância da natureza e antecipavam soluções para o futuro do meio ambiente. 8 Consultar subcapítulo 2.3. Sentido explícito: Arquitectura como contrução da dissertação (Cunha, 2013, p.43-44). 9 Consultar subcapítulo 2.4. Sentido implícito: Arquitectura como arte da dissertação (Cunha, 2013, p.57-58). 10 11 Maria João Madeira Rodrigues é professora catedrática da FAUTL, onde detém a titularidade da área de História da Arquitectura e do Urbanismo. De algumas das suas obras, destaca-se as seguintes publicações: Arquitectura (2002), da colecção «O que é», e Vocabulário técnico e crítico de arquitectura (2005), sendo esta última em co-autoria com Pedro Fialho de Sousa e Horácio Pereira Bonifácio. Arquitectura significa, simultaneamente, duas categorias identificadoras. Chamamos arquitectura a um objecto do mundo que oferece valores práticos e valores espirituais: nos valores práticos são cumpridas funções de protecção e abrigo: os valores espirituais referem essencialmente qualidades que se dirigem à nossa sensibilidade, e motivadoras de uma emoção sui generis, que designamos por emoção estética. (Rodrigues , 2002, p. 75) Louis Henry Sullivan (1856-1924) arquitecto americano conhecido como “the father of skyscraper”, foi um dos interessados em compreender o significado e os efeitos da aplicação da indústria nas relações entre a decoração e a arquitectura, expressando as suas filosofias em vários ensaios sobre o ornamento na arquitectura, dos quais se destaca Ornament in Architecture, escrito em 1892. (Consultar dissertação (Cunha, 2013, p.49-51). 12 Hannes Meyer (1889-1954), director da escola Bauhaus em Dessau no período de 1929-1930, foi um dos arquitectos modernistas que defendeu, à semelhança de Adolf Loos e Louis Sullivan, um sentido de valor mais racionalista da arquitectura. Contudo, mesmo convivendo com os mestres do movimento moderno e desenvolvendo o seu trabalho na fase do apogeu do modernismo, a sua obra era crítica quanto às questões formais adquiridas pela escola, focando como seu paradigma o oposto radical, em que, ao arquitecto competiria o papel de especialista em organização do processo construtivo, e não mais o papel de artista. (Consultar dissertação (Cunha, 2013, p.52-56). 13 14 Gordon Matta-Clark (1943-1978), artista e arquitecto norte-americano, concentrou a grande maioria da sua obra entre 1974 e 1978, com as intervenções, conhecidas por building cuts, nas quais procurava uma reinterpretação da linguagem da arquitectura, apresentando uma leitura Extracto II 112 111 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana diferente do espaço, incentivando à criação e expansão da mitologia do mesmo, e embora não tendo a certeza do que isso significava (O’Neill, 2008, p. 95), ansiava alcançar um novo sentido da obra de arquitectura, que lhe permitisse ir mais além, do que o facultado pelos racionais valores práticos e funcionais que eram contemporaneamente defendidos. 15 Julia Schulz-Dornburg (1962-) é uma arquitecta alemã que se graduou pela Architectural Association de Londres, em 1990. Presentemente, lecciona em várias universidades da cidade de Barcelona, onde tem escritório próprio. Acreditava que, “o planejamento arquitetônico deveria libertar-se para acomodar e dar espaço ao “inesperado”” (2002, p. 15). Anarchitecture é o nome auto-atribuído ao grupo de artistas novaiorquino que se reuniu na década de 1970 e do qual fizeram parte nomes como Laurie Anderson (1947-), Tina Girouard (1946-), Carol Goodden, Suzanne Harris, Jene Highstein (1942-), Bernard Kirschenbaun, Richard Landry, Richard Nonas (1936) e Gordon Matta-Clark. Inventado por Matta-Clark, o termo funde as palavras “anarquia” e “arquitectura”, podendo ser tomado como um conceito síntese do seu trabalho. 16 WBAI-FM, é um membro da cadeia da rede Pacífica de estações de rádio, que sendo não-comercial, fornece uma vasta gama de programação original para os ouvintes da região metropolitana da cidade de Nova Iorque, alegando uma informação progressiva e independente de assuntos de arte, de música e de história. A fundação Pacífica foi lançada pelo pacifista Lew Hill, em 1949, cuja abordagem livre de rádio, apresentava como “A Missão Pacífica: promover a compreensão entre as nações e indivíduos, incentivar a criatividade e promover a distribuição inovadora, sem censura de notícias” (Wbai-fm, 2012). 17 O termo original utilizado por Matta-Clark é piece. É interessante notar que o arquitecto não utiliza a palavra place para descrever as suas intervenções (Bortulucce, 2011, p. 120). 18 Vanessa Beatriz Bortulucce é professora doutorada em História da Arte pela IFCH-UNICAMP. Actualmente lecciona na Academia Brasileira de Arte e é docente do Centro Universitário Assunção em São Paulo. 19 20 Gordon Matta-Clark, apud Vanessa Bortulucce (2011, p. 120). Steven Holl é um arquitecto norte-americano. Nos últimos anos, a sua arquitectura tem sofrido algumas mudanças, apresentando uma linguagem de preocupação mais fenomenológica, influenciada pelo filósofo Maurice Merleau-Ponty e pelo arquitecto teórico Juhani Pallasmaa. 21 Referindo algumas palavras do arquitecto Steven Holl sobre a arquitectura de Juhani Pallasma: “I have experienced the architecture of Juhani Pallasmaa, from his wonderful museum additions at Rovaniemi 22 to his wooden summerhouse on a remarkable little stone island in the Turku Archipelago, in south-western Finland. The way spaces feel, the sound and smell of these places, has equal weight to the way things look. Pallasmaa is not just a theoretician; he is a brilliant architect of phenomenological insight. He practices the unanalyzable architecture of the senses whose phenomenal properties concretise his writings towards a philosophy of architecture” (Holl, 2009, p. 7). Uma das questões que Anataxu Zabalbeascoa colocou a Juhani Pallasmaa, na entrevista realizada a 12 de Agosto de 2006 posteriormente publicada no suplemento Babelia de El País -, sobre o livro The eyes of the skin foi a seguinte: “Neste livro, o Sr. tacha de ‘narcisistas’ e ‘niilistas’ muitos dos ícones arquitetônicos celebrados pela crítica. É isto o que pensa da arquitetura contemporânea?”. Pallasmaa respondeu dizendo: “Sim. A arquitetura atual tende a ser ‘retiniana’, pois se dirige aos olhos; é ‘narcisista’ porque coloca a ênfase no arquiteto, no indivíduo; e é ‘niilista’ porque não fortalece as estruturas culturais; ao contrário, as aniquila. Hoje, um pequeno grupo de arquitetos constrói em todo o mundo, e os mesmos edifícios estão em toda parte. Assim, é difícil que a Arquitetura possa reforçar alguma ou qualquer cultura” (Pallasmaa, 2006). 23 Anatxu Zabalbeascoa é uma jornalista e historiadora especializada em arquitectura que trabalha como crítica para o jornal espanhol El País. Escreve regularmente no blogue “Del tirador a la ciudad” e é autora de vários livros de arquitectura, com destaque para os seguintes: Las casas del siglo (1998), Vidas construídas (1998) e Minimalismos (2001). 24 Bernardo Pinto de Almeida é professor catedrático na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto. No seu currículo já deixou publicadas obras de ensaio e de poesia, entre as quais: Estranho Desenho - O Surrealismo (2001) ou Depois que tudo recebeu o nome de luz ou de noite (2002), respectivamente. 25 Álvaro Joaquim de Melo Siza Vieira, considerado um dos mais conceituados e premiados arquitectos contemporâneos, conquista notoriedade e reconhecimento internacional por meio das suas obras de linguagem ímpar, que inicialmente foram fortemente influenciadas pelos grandes arquitectos modernistas como Adolf Loos (1870-1933), Frank Lloyd Wright (1867-1959) e Alvar Aalto (1898-1976), bem como pelo seu professor e arquitecto Fernando Távora (1923-2005). 26 Vittorio Gregotti (1927-), arquitecto italiano, que projectou vários edifícios importantes, como o Centro Cultural de Belém (1988-1993), em Lisboa. 27 28 “Los seres humanos, ya con su propia forma distintiva, han habitado la Tierra durante más de un millón de años. En la mayor parte de ese tiempo han ignorado la arquitectura como cobijo: una casa en la que vivir «un techo sobre nuestras cabezas», biente separado del orden de la naturaleza. Pero si, como hemos sugerido, la arquitectura describe simplemente el acto de construir lugares para uso ritual, fue una de las primeras necesidades humanas” (Kostof, 1996, p. 43). Com estas palavras Spiro Kostof quis dar a entender, que durante grande parte desse período o homem esteve afastado da arquitectura, se por esse termo entendermos a ambição de criar um ambiente separado da ordem do mundo natural. Dr. Spiro Konstantine Kostof (1936-1991) foi um historiador de arquitectura e professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley. 29 30 “El sentido de refugio es algo instintivo. Parece natural construir para conseguirlo” (Kostof, 1996, p. 43). Segundo Pedro Vieira de Almeida (2004, p. 41), embora Vittorio Gregotti, defende-se que a origem da arquitectura não está na cabana primitiva, mas sim no primeiro momento ou acto de marcar o lugar, uma vez que, antes de colocar pedra sobre pedra, o Homem coloca uma pedra sobre a terra, escolhendo esse mesmo lugar para o transformar, criando assim um diálogo entre o mundo natural e o mundo artificial. Neste trabalho, segue-se a leitura de Bruno Zevi (1996, p.18-19), na sua abordagem de origem da arquitectura, enquanto espaço interior, ou seja de abrigo, na sua total constituição de limite físico espacial coberto, capaz de responder às necessidades humanas. 31 Bruno Zevi (1918-2000), arquitecto italiano, é considerado um dos elementos fundamentais no contexto da arquitectura moderna, tanto pelas suas obras teóricas como práticas. A sua arquitectura apresenta grande influência da arquitectura orgânica de Frank Loyd Wright. De entre os livros a mencionar do autor estão também Saper vedere l’architettura (1948) e Storia dell’architettura moderna (1950). 32 Peter Eisenman, arquitecto e teórico da arquitectura norteamericano, tornou-se um dos principais precursores da arquitectura desconstrutivista, na década de 1980. Das suas principais obras destaca-se o Memorial do Holocausto construído no ano de 2005, em Berlim. 33 Josep Maria Montaner (1954-), arquitecto, escritor e professor da ETSAB, foi professor visitante em diversas universidades da Europa, da América e da Ásia. Autor de livros traduzidos em várias línguas, também realiza regularmente algumas publicações em revistas de arquitectura e jornais espanhóis como El País e La Vanguardia. 34 35 Henri Lefebvre, sociólogo francês, intelectual marxista e filósofo, ficou conhecido pelo seu trabalho desenvolvido sobre o marxismo, a vida quotidiana, as cidades, e o espaço social. Cunhou o slogan “o direito à cidade” e a sua obra literária Critica de la vida cotidiana, publicada primeiramente em 1947, esteve entre as principais matrizes intelectuais da International Situationists (I.S.). Sir Ernst Gombrich (1909-2001) foi professor de história de arte na Universidade de Londres. As suas principais obras incluem: The story of art (1950), Art and illusion: a study in the psychology of pictorial representation (1960) e The preference for the primitive (2002) que terminou de escrever antes da sua morte. 36 37 Jean-Louis Viel de Saint-Maux foi um arquitecto, pintor e advogado do século XVIII. Letters on the architecture of ancients and moderns, obra que contêm uma crítica irónica dos clássicos face à sua submissão à autoridade do passado, foi considerado como o seu principal manifesto. O arquitecto português Raul Lino da Silva, realizou os seus estudos em Inglaterra e na Alemanha, país onde trabalhou no atelier do arquitecto alemão Albrecht Haupt, com uma marcante influência na sua formação estética, arquitectónica e conceptual. Defensor da tradição versus modernismo, projectou ao longo do seu percurso profissional cerca de 700 obras, como são exemplo a Casa dos Patudos, em Alpiarça (1904) e a Casa do Cipreste, em Sintra (1912). Foi ainda autor de numerosas obras teóricas sobre a problemática da arquitectura doméstica popular, como é o caso dos textos A casa portuguesa (1929), Casas portuguesas (1933) e L’évolution de l’architecture domestique au Portugal (1937). 38 39 Mario Botta (1943-), arquitecto suíço, cuja obra possui influências da arquitectura de Le Corbusier, Louis Kahn e Carlo Scarpa, com os quais manteve contacto durante o curso em Veneza Flavio Conti (1943-), professor no Politécnico de Milão, e o principal colaborador de uma empresa especializada em arquitectura, decoração e restauração. 40 Christof Thoenes, professor honorário em Hamburgo, estudou história da arte em Berlim e em Pavia, antes de completar seu doutoramento em Berlim. As suas diversas publicações sobre a arte italiana, principalmente sobre a arquitectura e teoria da arquitectura do século XV ao XVIII, têm sido um contributo muito importante para o estudo da teoria da arte e da arquitectura. 41 42 Bernard Rudofsky, arquitecto austríaco-americano, crítico e designer de exposições, cuja obra integral foi influenciada pelo seu interesse em conceitos sobre o corpo e o uso dos sentidos, tornando-se conhecido pelas suas exposições e catálogos controversos. The Museum of Modern Art (MoMA), ou seja, o Museu de Arte Moderna, foi fundado em 1929, em Manhattan, sendo o primeiro museu devotado à era moderna. Desde sempre, tem desenvolvido um importante papel na recolha de arte modernista, e é frequentemente identificado como o museu mais influente de arte moderna do mundo. 43 Extracto II 114 113 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana “A exposição e catálogo Arquitetura sem arquitectos (1964), de Bernard Rudofsky, demonstra, com fotografias, que a arquitetura dos arquitectos é incapaz de produzir a beleza, sentido comum, adequação e capacidade de permanência das arquitecturas populares de muitas culturas” (Montaner, 2007, p. 128). 44 45 Para Dr. Albert Schweitzer, apud Octávio Lixa Filgueiras (1985, p. 26), “se na vida de cada um de nós prevalecer o ideal da ética, dia virá em que todos farão o mesmo. E será esse o regresso à estrada principal, ao verdadeiro caminho, fora do qual o mundo não conseguirá salvar-se”. Andrea Palladio foi um arquitecto activo na República de Veneza. Palladio, influenciado pela arquitectura romana e grega, e principalmente por Vitrúvio, é considerado uma das personalidades mais influentes na história da arquitectura ocidental. Todos os seus edifícios estão localizados no que foi a República de Veneza, mas foram principalmente os seus ensinamentos, resumidos no seu tratado de arquitectura Os quatro livros de arquitectura, que lhe conferiram notório reconhecimento. A cidade de Vicenza e as Villas de Palladio do Veneto são Patrimônio Mundial da UNESCO. 46 Eduardo Côrte-Real licenciado em Arquitectura, em 1984, concluiu o doutoramento em Comunicação Visual em Arquitectura, em 1999, depois de períodos de estágio em Inglaterra e Itália. Trabalha desde 1999 no Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing (IADE), e de entre algumas obras publicadas destacam-se: Um suave guia para o desenho em viagem e O triunfo do desenho. 47 “Para além deste processo do homem que se refugia na caverna, constrói a cabana e concebe a casa, foram aparecendo novos factores que produziram alterações qualitativas nessa casa criada por ele: factores sociológicos e factores tecnológicos” (Campo Baeza, 2004, p. 59). 48 49 “A responsabilidade inalienável do arquitecto é, pois, não a de servir as novas técnicas, mas o confrontar a sua capacidade de serviço de massa com as necessidades humanas dos utentes de cada célula, dos moradores de cada bairro ou cidade” (Portas, 2008, p. 71). Renato de Fusco (1929-), defensor de ideais próximos da corrente semiótica, é um reconhecido historiador e ensaísta italiano de arquitectura, do qual se destacam obras como Historia de la arquitectura contemporânea (1994) e Historia del diseño (2005). 50 A expressão função mãe é utilizada para caracterizar a função primária ou vital de um projecto. 51 “A arquitectura perde seus atributos básicos e se converte em pura mensagem de imagens, por cima dos espaços, processos, funções, tipologias, estruturas, técnicas ou formas” (Montaner, 2007, p. 166). 52 53 “A produção individual de sentido é portanto mais necessária do que nunca” (Augé, 2006, p. 35). “A arquitectura não pode mais ser uma unidade homogénea que representa um todo, somente pode ser entendida como uma série de fragmentos que são interligados pela pessoa que os experimenta. O apelo por uma arquitectura flexível e interativa restabeleceu no projecto e na construção de edifícios um elemento óbvio, mas há muito tempo esquecido: as pessoas. Se a arquitectura só pode ser compreendida quando é percorrida, então, só pode existir se for usada. Apelar para que o planejamento urbano deixe espaço para o inesperado significa pedir que o terreno seja preparado para a interacção humana espontânea. O usuário é, mais uma vez, o vínculo entre a ideia e a realidade física, o catalisador na criação do espaço” (Schulz-Dornburg, 2002, p. 19). 54 Nuno Santos Pinheiro (1937-), professor e arquitecto português, licenciou-se em arquitectura pela ESBAL e doutorou-se em arquitectura pela FAUTL. Presentemente faz parte do núcleo de professores catedráticos da Universidade Lusíada de Lisboa e é coordenador do Fórum UNESCO para Portugal e para os países do Magreb. Presidente do Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico, no período de 1993/1996, é membro Ordem dos Arquitectos (S.R.S.), assim como, membro da Associação Portuguesa de Urbanistas. 55 “[…] resta aos utentes adaptarem-se ou estragarem a criação ao arquitecto. O problema não é simples, pois é forçoso constatar a existência de um desfasamento, na sociedade de massas, entre a produção dos meios de progresso e a assimilação de cultura que permita dominá-los, afinal o que constituiu precisamente o campo de trabalho da cultura popular no seu sentido mais activo, quer dizer, englobando criação e produção” (Portas, 2008, p. 83). 56 Leon Battista Alberti (1404-1472), foi humanista italiano, arquitecto e teórico de arte defensor do ideal renascentista da arquitectura e do urbanismo. 57 58 Sebastiano Serlio (1475-1554) arquitecto, teórico e pintor italiano. Foi o autor do tratado Sette libri dell’architettura (Sete livros de arquitectura) considerado um exemplar da teorização dos ideais da Renascença, devido às excelentes ilustrações que se faziam acompanhar de uma linguagem moderna. 59 O arquitecto português Fernando Luís Cardoso de Meneses e Tavares de Távora nasceu no Porto, e em 1941 fez o exame de admissão à EBAP. Em 1947 publicou o ensaio O problema da casa portuguesa : Falsa arquitectura : Para uma arquitectura de hoje, documento onde sintetizou a noção de uma arquitectura moderna, mas enraizada na cultura, e onde chamou a atenção para a necessidade de um estudo científico da arquitectura popular portuguesa. Entre 1951 e 1959, participou nos CIAM, nomeadamente na conferências de Veneza, Hoddesdon, Aix- en-Provence, Dubrovnik e Otterlo. Dos seus projectos arquitectónicos construídos, destacam-se o Mercado Municipal de Santa Maria da Feira (1953-59) ou a Ampliação das instalações da Assembleia da República, em Lisboa (1994-1999). “A acção arquitectónica, pela sua natureza, exige um permanente, trânsito entre o plano artístico individual e a satisfação das necessidades sociais. O arquitecto teria então que nortear a sua aprendizagem no sentido de se aperfeiçoar ao máximo para cumprir o seu papel social. Não é de estranhar, como vimos, que Alberti escolha um tratado de arquitectura para fazer passar, para além de toda a sua erudição sobre o mundo antigo uma imagem de um homem com uma profissão que simbolize o início de uma nova idade” (Côrte-Real, 2001, p. 69). 60 Os Congrès Internationaux d’Architecture Moderne, realizados em 1928 e em 1956, consistiram na organização de uma série de conferências internacionais que reuniram alguns dos maiores nomes da arquitectura moderna. Le Corbusier foi um dos seus principais idealizadores. Os CIAM foram responsáveis por discussões e pesquisas inéditas até então, como o Existenzminimum (dimensões mínimas para os padrões de vida do Homem Moderno) e o design para as massas, que revolucionaram o pensamento estético, cultural e social do período. Possivelmente o documento mais influente escrito pelos CIAM foi a Carta de Atenas, em 1933 aquando do IV congresso, era um manifesto por uma cidade nova, um planeamento urbano Funcionalista (Montaner, 2007, p. 28-29). 61 Le Corbusier (1887-1965) foi um dos arquitectos, não só do século XX, mas de toda a história da arquitectura, que propôs uma teoria de proporções e forneceu descrições de como foram aplicadas nos seus projectos. Detentor de um pensamento lógico, racional e disciplinado, encontra a sua plena expressão, em termos de proporções, no seu sistema denominado modulor. Segundo o historiador de arquitectura inglês John Summerson: “ ‘Modulor’ is a word made out of module (that is to say, unit of measurement) and section d’or, or golden section: that is to say, the division of line so that the larger part is to the whole line as the smaller part to the larger. The Modulor is system of space-notation based on this geometrical absolute and constituting a ‘gamut’ of dimensions. A middle phase of the gamut relates to the dimensions of the human body; the other phases extend it to the minutiae of precision instruments on the one hand and to the scale of vast town-planning enterprises on the other” (Summerson, 2002, p. 113). 62 63 É perante um contexto de conflito entre gerações e de uma solicitada revisão crítica no interior dos CIAM, que em Aix-en-Provence, no IX congresso (1953), se formou um grupo de jovens constituído por Alison Smithson (1928-1993), Peter Smithson (1923-2003), Aldo van Eyck (1918-1999), Jaap Bakema (1914-1981), George Candilis (1913-1995), Rolf Gutman, Jill Howell, Jonh Voelcker (1927-1972) e Shadrac Woods (1923-1973). Este grupo de arquitectos, da chamada terceira geração, ficaria responsável pela organização do derradeiro X CIAM, em 1956, na cidade de Dubrovnik (Jugoslávia), e após a dispersão dos CIAM, passariam a denominar-se como Team 10. Este comité criticava “o formalismo da Carta de Atenas, reclamando para resolver o tema do Congresso – o «Habitat humano» – que fosse introduzido o conceito de «identidade» e investigado de acordo com os princípios estruturais do crescimento urbano” (Montaner, 2007, p. 30), para o Team 10: “tratava-se de propor uma utopia do possível, aceitando os gostos e as necessidades das pessoas” (Montaner, 2007, p. 30), contrariamente à doutrina dos CIAM, que defendia a mudança radical do modo de vida das pessoas através duma arquitectura racional. “A Carta de Atenas é a representação teórica dos critérios que, sobretudo em Amsterdão, faziam parte da prática dos gabinetes de planeamento. […] Na vida distinguem-se quatro funções: 1) habitação; 2) tempos livres; 3) trabalho; 4) circulação, e para cada uma se enumeram as exigências deduzidas da pesquisa tipológica até então efectuadas. A função da habitação é colocada no primeiro lugar, mas esta prioridade não se traduz num processo técnico. Os enunciados da Carta de Atenas adquirem, portanto, o carácter de afirmações de princípio, necessários mas não suficientes para orientar as experiências do pós-guerra” (Benevolo et al.,1987, p. 20-21). 64 Aldo van Eyck (1918-1999), arquitecto proveniente da Holanda, é considerado um dos protagonistas mais influentes do movimento estruturalista. Foi um dos membros dos CIAM. Em 1954, tornou-se cofundador do grupo Team 10. 65 “A arquitectura moderna [...] teve de, apressadamente, se revestir dos hábitos mais vulgares e da prepotência dos novos-ricos, dos protagonistas do boom económico, e da especulação selvagem imobiliária e de construção civil” (Portoghesi, 1985, p. 50). 66 “No seio dos efeitos sociais, devidos à pressão das massas, o individual não morre e se afirma. Surgem direitos: estes entram para os costumes ou em prescrições mais ou menos seguidas por atos, e sabe-se bem como esses “direitos” concretos vêm completar os direitos abstractos do homem e do cidadão inscritos no frontão dos edifícios pela democracia quando de seus primórdios revolucionários: direitos das idades e dos sexos (a mulher, a criança, o velho), direitos das condições (o proletário, o camponês), direitos à instrução e à educação, direito ao trabalho, à cultura, ao repouso, à saúde, à habitação. Apesar, ou através das gigantescas destruições, das guerras mundiais, das ameaças, do terror nuclear. A pressão da classe operária foi e continua a ser necessária (mas não suficiente) para o reconhecimento desses direitos, para a sua entrada para os costumes, para a sua inscrição nos códigos, ainda bem incompletos” (Lefebvre, 1991, p. 115-116). 67 68 Nome atribuído aos bairros de lata ou aglomerados de habitação Extracto II 116 115 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana colectiva não controlados e em condições reduzidas, também denominados vulgarmente como favelas. Nesta dissertação, sempre que se utilizar a palavra slums estar-se-á a fazer referência a este tipo de conjunto ou realidade social, à semelhança da denominação utilizada pelo arquitecto Hundertwasser nos seus ensaios. “[…] de todos aqueles que sofrem a ação de uma quotidianeidade bem ordenada, será necessário mostrar aqui a miséria irrisória e sem nada de trágico do habitante, dos suburbanos, das pessoas que moram nos guetos residenciais, nos centros em decomposição das cidades […]” (Lefebvre, 1991, p. 117). 69 Nuno Teotónio Pereira (1922-), arquitecto português, formou-se em arquitectura pela ESBAL. Entre os seus projectos de arquitectura destacam-se: a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, projecto partilhado com Nuno Portas, e o Bloco das Águas livres em Lisboa, em parceria com Bartolomeu Costa Cabral. 70 Estas palavras do arquitecto Nuno Teotónio Pereira, reportam-nos para o manifesto de Aldo van Eyck, escrito em Agosto de 1962 intitulado Steps toward a configurative discipline, onde Eyck, membro do grupo Team 10, também confrontado com a situação habitacional vigente falou sobre a essência da construção para um maior número de pessoas, de modo a valorizar e a respeitar os problemas das mesmas, bem como os novos ideais arquitectónicos que se deveriam seguir. Alegou que se deveria descobrir uma “harmonia no movimento” pela possível standartização dos elementos de construção, e defendeu que se tinha de continuar a busca de princípios básicos de uma nova estética e descobrir o sentido estético e humano de número. Como afirmou Aldo van Eyck: “We must continue the search for the basic principles of a new aesthetic and discover the aesthetic and human meaning of number. We must impart rhythm to repetitive similar and dissimilar form, thereby disclosing the conditions that may lead to the equilibration of the plural, and thus overcome the menace of monotony” (Eyck, 1993, p. 353). 71 Gaston Bachelard (1884-1962) foi um crítico, epistemólogo, poeta e filósofo francês. Em 1927, doutorou-se com a tese Ensaio sobre o conhecimento aproximado e estudo sobre a evolução de um problema da física, a propagação térmica nos sólidos. De entre as suas obras literárias destacam-se: O novo espírito científico (1934), Psicanálise do fogo (1938), A água e os sonhos (1942) e A poética do espaço (1957). 72 73 Richard Rogers (1933-) formado entre a Architectural Association de Londres e a Universidade de Yale estabeleceu o seu próprio escritório em 1978 depois de dissolver a sua sociedade com Renzo Piano (1937-). Sociedade posterior ao efémero TEAM 4 que criou nos anos 60 junto a Norman Foster (1935-), Su Brumwell e Wendy Cheeseman. Com o edifício Georges Pompidou em Paris e o Lloyd’s na cidade de Londres, Rogers consolidou o seu lugar como um dos protagonistas da arquitectura da segunda metade do século XX, sendo uma figura chave do movimento que se denominou high-tech. Constantinos Apóstolos Doxiadis (1913-1975) foi um importante arquitecto e urbanista grego que se formou em arquitectura pela Universidade Técnica de Atenas, em 1935, obtendo o doutoramento na Universidade de Charlottenburg, em Berlim. As suas ideias foram divulgadas por uma constante colaboração nas principais publicações da especialidade de todo o mundo, incluindo a revista portuguesa Binário. 74 Nuno Rodrigo Martins Portas (1934-) diplomou-se em Arquitectura pela Universidade Técnica de Lisboa, em 1959. Em Portugal, fez parte dos governos posteriores ao 25 de Abril, tendo participado na definição das linhas políticas para a habitação, reabilitação urbana e actualização da legislação sobre urbanismo. Ao longo do seu percurso, Nuno Portas foi responsável pelos projectos urbanísticos de diversos bairros da periferia de Lisboa, mas também de várias cidades brasileiras, sendo também, autor de diversos livros, como Cidade como arquitectura e Arquitectura para hoje. 75 Octávio Lixa Filgueiras (1922-1996) destacou-se nas áreas da cultura, arqueologia e marinha, com trabalhos relativos à etnografia naval. Estudou arquitectura na ESBAP, de 1942 a 1949. Interessou-se pela arqueologia naval e foi o mentor da arqueologia subaquática em Portugal. 76 John F. Charlewood Turner é um arquitecto britânico cosmopolita conhecido pelas suas contribuições para a habitação e para o desenvolvimento e planeamento urbano, com destaque para o estudo da habitação em países subdesenvolvidos. Entre os anos de 1957 e 1965, residiu no Peru, onde trabalhou para os gabinetes governamentais de intervenção urbana, efectuando aí as primeiras experiências de assistência à autoconstrução e ao desenvolvimento das comunidades. Durante esses oito anos estudou os povoados situados nas periferias das imensas cidades principais latino-americanas, bairros autoconstruídos onde a maioria dos habitantes procuravam casa, com particular interesse nos processos de ocupação ilegal do solo. 77 Os seus artigos têm sido publicados em várias revistas italianas e estrangeiras, tais como: Bauwelt, Skyline ou 9-H Architectural Magazine, entre outras. Das suas obras destacam-se: Adolf Loos, teoria e opera (1981), Il mito mediterraneo (1994) e Le Corbusier e l’Antico, viaggi nel mediterraneo (1997). John Berger é vulgarmente abordado como a imagem de uma das vozes mais lúcidas, incisivas e inconformistas do panorama intelectual europeu. Romancista, poeta, ensaísta, dramaturgo e crítico de arte, entre as suas obras destacam-se o romance G., Hacia la Boda, Puerca tierra, Una vez en Europa, e El último retrato de Goya. 81 João Ferrão é licenciado em Geografia pela FLUL, e doutorado pela Universidade de Lisboa em Geografia Humana. Publicou, individualmente ou em colaboração, dezenas de artigos em revistas nacionais e estrangeiras e diversos livros sobre temas relacionados com geografia, ordenamento do território e políticas de desenvolvimento local e regional. 82 Leonardo Benevolo (1923-) é um arquitecto e urbanista italiano, considerado um dos mais conceituados historiadores de arquitectura. Entre as suas principais obras constam igualmente: História da arquitectura moderna e História da cidade. 83 Bruno Munari foi um artista, designer, escritor, ilustrador e educador italiano, que criou uma obra de várias vertentes, da qual se destacam contributos nas artes visuais pintura, escultura, cinema, design industrial, gráfico, e também em outros tipos de arte como a literatura, poesia e didáctica, dos quais se destaca o interesse pelo processo criativo bem patente nos seus desenvolvidos jogos educativos. 84 Se para B. Archer, apud Bruno Munari (2004, p. 39), “o problema do design resulta de uma necessidade”, e se para Antonio Rebolini, apud Bruno Munari (2004, p. 39), “[…] quando um problema não se pode resolver, não é um problema. Quando um problema se pode resolver, também não é um problema”. Em casos de habitação colectiva, e perante os actos até então desenvolvidos e aptados, quererá o arquitecto prevalecer pelo problema, ou encontrar a solução? 85 78 Entendendo-se, estes dois arquitectos “[…] partem de uma premissa básica: todo o mundo pode desenvolver a capacidade de ser o arquitecto dos seus próprios espaços” (Montaner, 2007, p. 130). Leonard Bruce Archer (1922-2005), engenheiro mecânico britânico e professor no Royal College of Art, defendeu a pesquisa em design, e ajudou a estabelecer o design como disciplina académica. “E se é evidente que não cabe aos arquitectos o transformarem-se em polícias dos capitais de efectivos ou potenciais clientes, cumpre-lhes o não colaborar levianamente no jogo da maximização da especulação urbana ou na onda da poluição turística, como muitas vezes esquecem, ou fazem por esquecer” (Almeida, 2004, p. 45). 86 Benedetto Gravagnuolo é professor de História de Arquitectura. 87 79 80 Edward Osborne Wilson é um entomologista e biólogo americano conhecido pelo seu trabalho desenvolvido sobre ecologia, evolução e sociobiologia. É autor do livro Sociobiology: The New Synthesis (1975), onde aborda temas sobre o comportamento animal (e por extensão, o ser humano), estudado segundo uma abordagem evolutiva. “I believe that we can understand the current uncertainties of architecture more clearly if we are able to see the cultural conditions that we live in at the end of our millennium” (Pallasmaa, 1994, p. 75). Com estas palavras Pallasmaa quis dizer que, se compreendermos as incertezas da arquitectura vigente, mais claramente seremos capazes de ver as condições de cultura em que vivemos no final do nosso milénio. Sheffield, é um estado da cidade metropolitana de South Yorkshire, Inglaterra. O seu nome deriva do rio Sheaf, que atravessa a cidade. A população da cidade de Sheffield é de cerca de 552.000 habitantes. 88 “The area was known as “Little Chicago” in the 1930s, due to the violent crimes sometimes committed there” (Yorkshire Film Archive, 2011b). 89 90 Alan Powers (1955-) é um professor, pesquisador e escritor britânico, especializado em arquitectura e design. 91 O Golden Lane foi conceptualizado para um concurso de projectos da City of London em 1951. Embora não construído reflectiu-se como um óptimo exemplo da arquitectura brutalista, especialmente do que viria a ser o Novo Brutalismo Inglês (Barone, 2002, p. 132) profundamente enraizado nos ideais corbusianos, aplicados na Unité d’Habitation de Marselha (1947-1952), em que o princípio das suas “ruas” interiores (Frampton, 2003, p. 274) que liga as habitações é convertido pelos Smithson, em espaços abertos pedestres que se prolongavam até à fachada do edifício. Apresentavam uma alternativa em altura às relações proporcionadas pela “rua corredor”, reflectindo-se nas apelidadas “ruas no céu”. J. Lewis Womersley foi o chefe do Sheffield city council’s architects’ department, na década de 1950. Foi o responsável pela contratação do jovem casal de arquitectos Jack Lynn e Ivor Smith, para projectar o conjunto de Park Hill (Sheffield City Council, 2010, p. 16). 92 93 David Kynaston é um historiador inglês e autor de vários livros sobre a história social inglesa. Publicou vários artigos em revistas e jornais, nomeadamente na New Statesman Magazine. “The original architects Jack Lynn and Ivor Smith’s brutalist design created three different types of apartment above, below and adjacent to the deck to suit the full range of home owners from single pensioners to families of six or more” (Urban Splash, 2011b). 94 ”Firstly, there is the unity of place, such as any large construction bestows on the area it dominates, but reinforced by the fact that quite a lot of ground is practically surrounded by the arms of Park Hill. Secondly, there is the unity of performance-at all points within the main building, the same kind of structural frame supports the same kind of residential function” (Banham, 2011, p. 404). 95 Extracto II 118 117 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana Consultar subcapítulo 3.3.1. Caso 1. Pruitt-igoe em S.louis, Missouri (Cunha, 2013, p.118-132). 96 “The local architects who designed Park Hill, Lewis Womersley, Ivor Smith and Jack Lynn – who soon after designed the nearby Hyde Park flats – recognised there was a strong sense of local community and in the design of Park Hill tried to preserve this community spirit. Where possible neighbours were re-housed alongside each other in the new complex, retaining old street names, with each flat opening out onto a 10 foot wide deck” (Yorkshire Film Archive, 2011a). 97 Minoru Yamasaki (1912-1986), arquitecto nipo-americano , mundialmente reconhecido pela autoria do projecto das famosas Torres Gémeas de Nova Iorque . O World Trade Center , construído entre 1966 e 1973, tornou-se indiscutivelmente, um ícone global e o símbolo da sua carreira, da qual fazem parte projectos igualmente interessantes como os aeroportos de Saint Louis Missouri, nos EUA, ou de Dahran, na Arábia Saudita; o pavilhão americano na Feira Agrícola de Nova Deli; o Banco Central Saudita; a Congregação Israelita de North Shore ou as Century Plaza Towers em Los Angels (Tavares, 2007, p. 164). 98 99 “For the ultimate unity of Park Hill depends on the inviolate continuity of horizontal communications; the street-decks make it possible to walk to any other point on the same floor level without ever having to go down to ground and come up again” (Banham, 2011, p. 409). Peter Reyner Banham (1922-1988) foi um crítico e escritor inglês, conhecido pelos seus manifestos sobre teoria da arquitectura. As obras literárias Theory and design in the first machine age (1960), e Los Angeles: the architecture of four ecologies (1971), materializaram-se em fiéis exemplos dos seus ideais. 100 “O elemento mais marcante do projecto são os corredores-deck aéreos de 3,56 m largura, a cada 3 pisos, todos interligados entre si por torres de articulação entre os blocos laminares. Além disso, a disposição dos blocos em desnível permitiu o acesso direto dos corredores-deck à rua. Os corredores são largos e permitem a circulação de muita gente, carrinhos, etc., criando uma sociabilidade rica, como uma extensão natural da rua” (Barone, 2002, 140). 101 “The open spaces between the blocks become progressively larger as the height of the buildings increases towards the north, to ensure the maximum amount of light, air and sunshine” (Sheffield City Council, 2010, p. 17). 102 No documento Sources for the Study of Park Hill and Hyde Park Flats, realizado por Sheffield City Council, no departamento de Sheffield Archives, em 2010, pode-se encontrar alguns testemunhos de antigos moradores de Park Hill: “It was a fantastic place to live and I only have good memories. It was a community [where] everyone knew each other”; 103 “I used to play on the corridors on my roller skates. All the kids were happy and… we never got wet when our mums made us go to the shops” (2010, p. 24). 104 J. Lewis Wormersly, apud Sheffield Archives (2010, p. 20): “In order to give individuality and aesthetic value to the various decks, entrances and lift halls, these elements will require special visual design treatment which it is felt should be integrated in the structure rather than applied in the form of mural decoration. This aspect of the scheme will undoubtedly have an important psychological effect on the inhabitants”. “Park Hill underwent a familiar cycle of critical approbation followed by gradual disillusion, common to many social housing projects of its time” (Powers, 2010, p. 32). 105 Sheffield Archives, são documentos que fazem parte do núcleo de investigação do Sheffield City Council, desenvolvidos em 2010. O arquivo que está a ser utilizado com suporte para esta dissertação, faz parte do departamento Communities: Libraries, Archives and Information, e tem como título Sources for the Study of Park Hill and Hyde Park Flats. 106 107 Henry Sanoff formou-se em Arquitectura em 1957, e recebeu o título de mestre em Arquitectura em 1962, a partir de Pratt Institute, em Nova York. A sua carreira de mais de 40 anos, teve como objectivo primário confirmar e defender a importância da participação das pessoas que usam o espaço, na sua construção ou reconstrução, pois permitia, segundo o arquitecto, que o edifício fizesse sentido para os utilizadores. Simone Adolphine Weil escritora e filósofa francesa, tornouse operária da Renault para escrever sobre o quotidiano dentro das fábricas. 108 Portoghesi Paolo (1931-) é um arquitecto, teórico e historiador italiano, do qual se pode destacar a obra literária Nature and architecture (2000) e o projecto arquitectónico The Mosque of Rome (1994). 109 110 Stephen W. Hawking, apud Anthony Giddens (1998, p. 6): “O tempo imaginário é indistinguível das direções no espaço. Se se pode ir para o norte, pode-se virar e tomar o rumo sul; da mesma forma, se se pode ir para a frente no tempo imaginário, deve-se poder virar e ir para trás. Isto significa que não pode haver diferença importante entre as direções para a frente e para trás do tempo imaginário. Por outro lado, quando se olha para o tempo “real”, há uma diferença muito grande entre as direções para a frente e para trás, como todos sabemos. De onde vem esta diferença entre o passado e o futuro? Por que lembramos o passado e não o futuro?”. Stephen William Hawking (1942-) foi um físico, teórico, cosmólogo e cientista britânico. De sua obra literária destacam-se títulos como: O universo numa casca de noz (2002), George e o segredo do universo (2007), ou Uma breve história do tempo (1988), da qual faz parte a citação referida. Anthony Giddens (1938-) é um sociólogo britânico, cuja obra se debate fundamentalmente sobre as estruturas sociais (os problemas da análise de classes, o impacto dos conflitos internacionais nas relações sociais e a sociologia das emoções), a reflexividade da modernidade e, o que se entende por modernidade, numa critica à chamada pós-modernidade. De entre algumas das obras publicadas pode-se ler: Capitalism and modern social theory (1971), The consequences of modernity (1990), ou Modernity and self-identity (1991). 111 “The team are working to bring love, life and pride back to this iconic project and make it a genuinely vibrant and sustainable community for the 21st Century” (Urban Splash, 2011c). “Our plan revolves around making Park Hill a special place and knitting it in to Sheffield. We think the way to soften its brutality without softening its character is to create a world class landscape, inside and outside its walls” (Urban Splash, 2011b). 112 Vasco Croft foi aluno na ESBAL. Em 1950, trabalhou no atelier do seu irmão, onde deu os primeiros passos em arquitectura com a ajuda do arquitecto João Braula Reis. Ao longo da sua vida profissional manteve contacto com os arquitectos: Nuno Teotónio Pereira, Augusto Brandão, Fernando Távora e com o arquitecto inglês Henry Swain (Croft, 2001, p. 9-11). 113 114 “O arquiteto italiano Giancarlo de Carlo, durante as décadas de 60 e 70, foi um dos pioneiros na reflexão sobre a importância da “Arquitetura Participativa” e na criação de procedimentos de trabalho que incorporassem a participação do usuário no processo de elaboração de projetos. Suas propostas e a maneira de desenvolver projectos foram passos importantes na definição de procedimentos de trabalho para o projecto participativo, exemplificados no projeto de habitação operária, em Vila Matteotti (1964-1974) ou no estudo para o desenvolvimento urbano de Urbino (1958-1976)” (Barone, 2012, p. 18). “As fases da operação a que se refere de Carlo são “a definição do problema, a elaboração da solução e a avaliação dos resultados” (Barone, 2002, p. 160). 115 116 Em suma, é importante ter a consciência que o arquitecto Giancarlo: […] acreditou na participação em arquitetura para trazer de volta a invenção e modificação da realidade vivida pelo homem. Sem menosprezar as dificuldades em identificar e estabelecer vínculos de comunicação com os usuários, Giancarlo defendeu como metas da participação em arquitetura a aquisição de conceitos e valores novos, superando os valores arraigados em repertórios culturais largamente sedimentados, informando o público, ampliando referências e dissipando a alienação. Como em sua própria opção por nem sempre encaminhar o projecto pela via da participação, para ele não existe receita para um processo de projecto. (Barone, 2002, p.167) 117 Walter Gropius considerado um dos principais nomes da arquitectura do século XX, tendo sido fundador da Bauhaus e director do curso de Arquitectura da Universidade de Harvard. Rui Tavares (1972-) é escritor e historiador, além de colunista na imprensa e comentador na televisão. Entre as suas obras publicadas destacam-se Pobre e mal agradecido (2006), O pequeno livro do grande terramoto (2005) e Dom João II (2005). 118 119 Pedro Brandão (1950-) licenciou-se em Arquitectura pela ESBAL em 1977. Actualmente é, entre outros cargos, Secretário-geral da Europan Portugal e Professor Convidado no Curso de Arquitectura do IST. Das suas obras escritas destacam-se O arquitecto e outras imperfeições: ética, identidade e prospectiva da profissão (de onde é retirado este pequeno excerto), ou por exemplo o livro A cidade entre desenhos. Peter Zumthor formou-se arquitecto na Kunstgewerbeschule Basel e no Pratt Institute em Nova Iorque. Tem o seu próprio atelier de arquitectura desde 1979 em Haldenstein na Suiça. Presentemente faz parte do núcleo de professores da Accademia di architecttura, Università della Svizzera Italiana em Mendrisio. O projecto das Termas de Vals, realizado na Suiça, em 1999, e o centro de documentação “Topografia do Terror “ realizado em Berlim, em 1997, constituem umas das suas principais obras. 120 Extracto II 120 119 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana REFERÊNCIAS identidade e prospectiva da profissão. 1.ª ed. Lisboa : Livros Horizonte. (Horizonte de arquitectura). ALMEIDA, Pedro Vieira de (2004) - Apontamentos para uma teoria da arquitectura. 1.ª ed. Lisboa : Livros Horizonte. (Horizonte de arquitectura). BURGOS, Pedro (2009) - Crónica desenhada : graphic cronicle. Jornal Arquitectos. Lisboa. ISSN 0870-1504. 234 (Jan./Mar. 2009) 36-37. EYCK, Aldo van (1993) - Steps toward a configurative discipline. In OCKMAN, Joan - Architecture culture 1943-1968 : a documentary anthology. Collaboration of Edwar Eigen. New York : Rizzoli. p. 347-360. BROWN, Hawkins ; STUDIO Egret West (2012) - Site plan. In ArchDaily - Park Hill : Hawkins Brown with Studio Egret West [Em linha]. 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Fátima Silva e Álvaro Cidrais. – (Extractos reflexivos ; 1) ISBN -------------I - VEIGA, Maria de Fátima Silva Freire e, 1963II - CIDRAIS, Álvaro Jaime Gomes, 1967CDU -------- © 2014, Universidade Lusíada de Lisboa Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida por qualquer processo electrónico, mecânico ou fotográfico incluindo fotocópia, xerocópia ou gravação, sem autorização prévia da Editora. O conteúdo desta obra é da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não vincula a Universidade Lusíada. Toda a obra foi desenvolvida segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1945, uma vez que, as dissertações foram originalmente desenvolvida segundo o mesmo.