ÍNDICE
PREFÁCIO
ARQUITECTURA E REGENERAÇÃO URBANA: CONCEITOS E EXTRACTOS REFLEXIVOS
INTRODUÇÃO
EXTRACTOS REFLEXIVOS
CONCEITOS
ARRUMOS DE IDEIAS
A ESCALA ENQUANTO CONCEITO TRANSVERSAL
EXTRACTO I
A REVALORIZAÇÃO DE ESTRUTURAS PRÉ-EXISTENTES COMO ELEMENTO DE REVITALIZAÇÃO URBANA
1. A OBSOLESCÊNCIA NO EDIFICADO URBANO
2. CIDADES E SEUS RUMOS - PROCESSOS E ESTRATÉGIAS
3. CASO DE ESTUDO I . HIGH LINE, NOVA IORQUE
4. CASO DE ESTUDO II . PALAST DER REPUBLIK, BERLIM
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
5.1 OBSOLESCÊNCIA; EXEMPLOS DE REFLEXÃO
5.2 DAS ENVIRONMENTAL UNITS ÀS UNIDADES ECOSSISTÉMICAS
EXTRACTO II
O SENTIDO DA ARQUITECTURA: A NECESSIDADE DE ENTENDER
1. A ATRIBUIÇÃO DE SENTIDO NA OBRA DE ARQUITECTURA
2. A ORIGEM DA OBRA DE ARQUITECTURA
3. CASO DE ESTUDO . PARK HILL, SHEFFIELD
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
PREFÁCIO
ARQUITECTURA E REGENERAÇÃO URBANA:
CONCEITOS E EXTRACTOS REFLEXIVOS
Fátima Silva
A
academia, Lugar onde o pensar e o saber fazer, se reúnem
na experimentação que este espaço, comprometido apenas
com a essência do conhecimento, lhe permite ser, um contributo
para o desenvolvimento da comunidade onde se insere. O
espaço de uma universidade deve ser o lugar onde da reflexão e
do conhecimento nasce a luz.
Os trabalhos de dissertação académica, são na sua essência
exercícios de reflexão que relatam na primeira pessoa do
plural ideias adquiridas e desenvolvidas ao longo de um
período de aprendizagem, constituindo-se no conjunto um
banco de informação e de formação, propriedade intelectual da
universidade onde se produzem, como tal, têm o dever de servir
em primeira instancia essa comunidade académica, constituindose como matéria de registo do conhecimento nela produzido.
Para além deste aspecto, este é também um momento no
desenvolvimento de conhecimento onde se produz um trabalho
de cumplicidade entre o professor ou professores (Orientador e
coorientador) e o aluno, (daqui a ideia de ser um trabalho na
1ª pessoa do plural). Este é o tempo letivo no qual é exercido
um acompanhamento pedagógico de maior proximidade e
cumplicidade ideológica.
Com este trabalho de Dissertação encerra-se um segundo ciclo
de estudos, o qual antecede um seguinte, ou, apenas o completa
de maneira reflexiva e crítica, com base numa aprendizagem
adquirida no decurso de cinco anos de estudos. A diversidade
temática que este tipo de trabalho deve permitir, assim como o
grau de desenvolvimento, abre um leque de perspectivas a um
estudo mais aprofundado numa diversidade de matérias que
permitem um direccionamento de continuidade.
A universidade Lusíada, e em particular a sua Faculdade de
Arquitectura e Artes, conta neste momento com um número
significativo de trabalhos de dissertações originais que, pela
reconhecida qualidade e diversidade temática se constituem
como um significativo arquivo de in-formação1.
O grau de qualidade, reconhecido, de muitos dos trabalhos é,
para além de, um contributo de excelência enquanto património
científico produzido pela academia podendo servir como
matéria de apoio ao estudo como pode igualmente servir para
o desenvolvimento das áreas de investigação integrando-se
no Centro de Investigação do Instituto Lusíada Investigação e
Desenvolvimento, ILID/CITAD.
A pertinência de alguns dos temas abordados nestas dissertações
assim como algumas das ideias subjacentes, criaram em nós,
enquanto docentes desta Faculdade, a vontade de lhes dar
visibilidade, e pô-las ao serviço da formação, com esse propósito,
constrói-se este documento a partir de algumas das principais
ideias, subjacentes a cada tema por nós acompanhado.
É de sublinhar ainda o valor acrescentado de uma orientação
partilhada entre; orientador e co orientador, de áreas disciplinares
diferentes, pela particularidade de reunir em torno de uma
reflexão que se pretende crítica, uma discussão pluridisciplinar,
integrando na abordagem do arquitecto e da arquitectura, neste
caso concreto, uma área humanística fundamental a Geografia
humana e social. A construção de complementaridade destas
perspectivas disciplinares veio enriquecer a fundamentação
destas reflexões e torna-las mais sustentadas.
Este primeiro “extracto académico”, o primeiro de uma
colectânea que se deseja continuar, apresenta-se como uma
síntese da ideia que esteve na base do desenvolvimento
de duas dessas dissertações que se debruçaram sobre o
problema da Regeneração do espaço urbano, corporizado
pelas suas arquitecturas e pelos seus arquitectos. Reúnemse assim neste primeiro “Extracto” dois trabalhos de um bloco
de três dissertações, cujas reflexões revelaram as mesmas
preocupações e terminaram por se complementar na abordagem.
Conduzido por este entendimento, o presente documento ao qual
chamamos significativamente de “Extractos reflexivos” reúne
assim partes seleccionadas, dos dois trabalhos que se cruzaram
nas mesmas preocupações sobre o papel do arquitecto,
da arquitectura e da própria comunidade, no processo de
regeneração do espaço urbano, sublinhando as ideias principais
extraídas destes trabalhos.
Os trabalhos focados, dos agora Mestres em Arquitectura,
Nor-Angelos Afendras e Daniella Maria, desenvolveram uma
reflexão crítica apoiada em casos de estudo estudados enquanto
referências capazes de identificar os valores salvaguardados em
cada um, assim como os processos de implementação no terreno,
a par dos critérios que conduziram essas acções regenerativas,
colocando em questão, tanto os modelos aplicados, como os
processos metodológicos assim como os resultados finais.
Estes dois extractos complementam-se na abordagem sobre
a regeneração urbana do espaço físico enquanto processo
participado, refletindo ao mesmo tempo sobre o papel central
desempenhado pelo arquitecto nas várias etapas do processo,
cruzando-se com o papel da comunidade e o papel da própria
arquitectura.
A dissertação do Mestre Nor-Angelos Afrendas permite começar
por fazer um primeiro sublinhado sobre o valor posto em
evidência nesta abordagem relativamente ao edificado préexistente em estado obsoleto, reconhecendo-o como um foco
potencial para a regeneração do tecido urbano. Este edificado
embora obsoleto na sua função e estado de conservação,
ocupa um lugar no tempo capaz de servir a revitalização do
INTRODUÇÃO
lugar urbano numa logica de continuidade, permanecendo como
registo de identidade dos lugares, fundamental para a ideia de
pertença e afinidade entre os indivíduos e os lugares; (sendo
esta ideia aplicada à regeneração do tecido urbano consolidado
e não a tecidos novos).
EXTRACTOS REFLEXIVOS
Álvaro Cidrais
O papel do arquitecto e da sua postura diante de um programa
de intervenção pública num lugar e ao mesmo tempo para um
utilizador alvo, questionado pela Mestre Daniella Maria, leva-nos
a reflectir sobre a responsabilidade do arquitecto e ao mesmo
tempo, sobre a sua limitação na acção ao longo do processo de
construção da obra de arquitectura e do espaço urbano, pela
complexidade que os envolve.
Da validade do programa preliminar à adequação do desenho
do espaço físico à função, à oportunidade potencializada por
uma pré-existência em estado de obsolescência, até à avaliação
de sentido da arquitectura e do papel do arquitecto, são aqui
analisados a partir do grau de adequação e de conformação,
desses espaços à escala do utilizador e das dinâmicas
socioeconómicas e culturais enquadradas pela acção exercida
pelo espaço urbano. Questiona-se o sentido da arquitectura,
enquadrada numa acção estruturada de regeneração urbana
sustentável.
Associada a esta ideia regenerativa sublinham-se as ideias de
flexibilidade funcional e programática, na requalificação de préexistências com base na ideia de reciclagem e de revalorização,
reconhecendo como um dos aspectos fundamentais de
caracterização e de qualidade o seu caracter de identidade,
podendo passar por uma adequação em continuidade que
reconhece, na construção e na manipulação da imagem dos
espaços, uma importância fundamental na relação de percepção
entre Homem e o seu meio.
O caracter de sustentabilidade, inerente ao conceito de
Regeneração, no caso de tecidos urbanos deve congregar ainda
uma ideia de flexibilidade tanto programática como do próprio
desenho do espaço e deve ser sempre que possível um processo
participado no qual o arquitecto deve ter um papel central na
adequação de “…sentido da arquitectura”.
E
xtractos reflexivos é uma abordagem que junta num mesmo
espaço intelectual um conjunto de pessoas que mobilizam
as suas experiências e pensares para desenvolverem um
processo de «cumplicidade reflexiva». Neste caso, nesta edição,
para reflectir sobre a (Re)Generação Urbana, que pode ser
Sustentável.
Compilámos ideias que reflectem uma abordagem multifocal,
muito comum nesta sociedade hipertexto (ou hipermédia) em
que vivemos, para criar novas portas e novas pontes para a
intervenção urbana, numa ótica que articula o redesenho com
a regeneração sustentável, remetendo-nos para novos modos
de observar, interpretar, decidir, agir (apropriando-nos) e de
comunicar os espaços e as vidas da cidade.
Se o tema central é a regeneração urbana, abordada por
diferentes prismas, a partir das dissertações de mestrado da
Daniella1 e do Nor2 orientadas pela Fátima (Arquiteta) e pelo
Álvaro (Geógrafo), o objecto de estudo é a cidade ou, antes,
alguns espaços da cidade e do sentido que lhe damos através
da arquitetura.
Assim, justifica-se primeiro que tudo, que se defina o modo
como o autor deste texto entende a cidade. Como se afirma
em «Um breve discurso sobre o valor da cidade»3 : As cidades
são constelações de lugares, com limites muito para além das
representações físicas que encontramos nos objectos edificados.
Por dentro de uma cidade construída existe uma malha bastante
dinâmica de relações e de interacções que são o seu cimento
agregador.
Um conceito de cidade
A cidade é muito mais do que o que edificamos. Para além de
ocupar um espaço geográfico natural que a marca através do
relevo, do clima, da hidrologia e dos ecossistemas de suporte,
tem uma dimensão concretizada de uma cidade imaginada
por cada indivíduo, desenhada (em pequenas partes) por
alguns arquitectos, construída por inúmeros construtores civis,
apropriada por diferentes actores territoriais, em diferentes
dinâmicas e contextos, e numa malha topológica de lugares
e de relações que se estendem numa rede internacional de
interacções, cada vez mais dinâmica, mais intensa e com maior
informação disponível.
As cidades são, muitas vezes, conjuntos de cidades ligadas
entre si ou, mais concretamente, conjuntos de lugares,
interconectados, vividos de modos muito diferente, a partir de
lógicas muito diversas que ora se complementam ora conflituam
nos usos e abusos dos seus espaços.
As cidades são muito mais do que formas fixas. São dinâmicas
caóticas onde vivem pessoas, que transformam os espaços
físicos, as edificações e as «naturezas», dando-lhes e
tirando-lhes sentidos e valor, num jogo vivo, num sistema tão
complexo como o cérebro humano que, apenas conseguimos
compreender e apreender em partes e através de aproximações
limitadas, eventualmente, com o recurso a esquemas concetuais
e ferramentas digitais multidimensionais.
As cidades são assentamentos humanos, espaços de produção
e consumo, de encontro, de vida, de troca, de partilhas e de
Introdução
9 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
relações que, na Sociedade Hipertexto de François Ascher presas à edificação e às lógicas, aos discursos, às linguagens
modernistas e pós-modernistas – permitem concretizar um novo
paradigma de civilização.
As cidades são o reflexo presente de vários passados históricos,
atravessados por diferentes civilizações, tecnologias e filosofias,
e de diferentes futuros imaginados, sempre presente nas
ambições dos seus «construtores». São conjuntos de paisagens
(cruzamentos de culturas, acções edificadoras e acções naturais),
de imagens, de serviços, de relações que ganham coerência
pelo espaço geográfico que ocupam e pelo território (conjunto
complexo de interacções entre pessoas e sítios geográficos) que
representam. São sistemas, por vezes coerentes e harmoniosos,
de espaços com História, Identidade e Alma.
As cidades podem ser encaradas como organismos vivos e
dinâmicos que se transformam diariamente através do jogo
complexo de interacções e intenções dos seus diferentes
actores.
As cidades não são. Vão sendo! Numa interacção criativa
de diferentes «lugares», carregados de histórias (por vezes
colectivas) e de emoção.
O valor da cidade
As cidades têm valor (um sentido pessoal e íntimo, integrado
numa cultura ou contexto), um valor que pode ser alterado
pelo redesenho urbano. Efetivamente, a cidade pode ser
«melhorada», valorizada através de intervenções integradas que,
aproveitando a sua identidade, a história e a alma dos lugares,
podem incidir sobre as suas formas, as suas imagens ou as suas
funções. Este processo tem tudo que ver com ordenamento
e (re)desenho urbano, espaço privilegiado de actuação dos
arquitectos e urbanistas ao longo dos tempos.
O (re)desenho urbano, esse acto de influenciar a concretização
da cidade através da expressão, em documentos gráficos de
diversos tipos, de ideologias e filosofias que impregnam os
espaços e as relações humanas, pode ser a síntese de um
conjunto de pensamentos e sentimentos que promovem a subida
do valor (emocional) dos diferentes lugares da cidade.
O valor oculto da cidade tem que ver com a adequação e qualidade
das suas infra-estruturas e equipamentos às necessidades,
desejos, expectativas e motivações dos seus utilizadores,
quer sejam públicos internos (habitantes, autarcas, lojistas ou
membros dos órgãos de comunicação local) ou aqueles que são
predominantemente externos (investidores, turistas e visitantes
que se apropriam temporariamente dos recursos locais).
Tem que ver também com a cultura do local, com o nível
de hospitalidade e de acolhimento que o espaço consegue
garantir aos indivíduos e às organizações, com a qualidade e
adequabilidade dos serviços, bens e vivências que a cidade
oferece.
Por outro lado, o valor oculto da cidade pode ter que ver com
os espaços segregados, com as interacções inesperadas,
com o nível, o tipo e a qualidade das funções urbanas, com as
aprendizagens e trocas informais que estabelecemos na cidade.
Mas, para além do valor oculto da cidade, existe um valor
evidente que é conferido pelo prestígio, pelas suas centralidades
e espaços de atracção, pelo tipo de serviços que os seus
equipamentos oferecem, pelas vivências públicas existentes,
pelos eventos, pelos momentos de encontro e celebração de
carácter público.
Este valor tem que ver com a capacidade de atracção e fixação
das pessoas e organizações. Tem que ver também com a criação
de momentos e situações de bem-estar, com a optimização dos
benefícios mútuos e múltiplos, com a sustentabilidade (em todas
as dimensões que possamos considerar) que a cidade possa ter.
São estes os quatro vectores da construção de uma cidade de
elevado valor. Portanto, de uma cidade carregada de Sentido!
O valor da cidade é, deste modo, um elemento que o arquitecto
pode trabalhar através do (re)desenho urbano, numa perspectiva
de facilitar a obtenção dos pontos apresentados no parágrafo
anterior. No fundo, o sentido do Desenho Urbano deve ser
encontrado algures entre a arte de pensar e desenhar cidade e
o compromisso de o fazer na perspectiva de conseguir apoiar os
outros «produtores» da cidade na concretização de um espaço
composto e complexo de muitos lugares carregados de valor,
com estética, sentido e emoção.
Mas neste acto nobre de propor, o arquitecto nunca se pode
imaginar só, nem capaz de deliberar o que deve e não deve
acontecer. O arquitecto – bem como qualquer outro «criador» de
espaço e de relações (paisagens) – deve assumir a humildade
simples de propor, para o bem comum e não apenas para o seu
umbigo, num diálogo constante com os seus congéneres!
Uma nova sociedade
Mas, numa nova sociedade (rural, urbana e virtual), as redes, o
hipertexto, a flexibilidade, a tolerância, o talento, a criatividade
difusa e a tecnologia, sobrepõem-se numa intensa interacção
que nos dificulta a leitura e a narrativa sobre a cidade, do
presente e do futuro, localizada e dispersa, neste e em todos os
lugares do mundo a que se encontra fortemente conectada pelas
redes de transmissão de dados, que também criam e recriam,
constantemente, sensações e emoções.
Hoje, a cidade reflecte e expressa toda a complexa rede
de interacções e dinâmicas que ocorrem na sociedade. A
Sociedade Hipertexto de François Ascher é complexa, num
intenso «folhado social» e económico-cultural que se suporta
essencialmente na comunicação, na informação e na imagem,
naquilo que deveríamos, inclusivamente, apelidar de Sociedade
Hipermédia, ou seja, da imagem em movimento num contexto
marcado por formas e materializações arquitectónicas e por
relações mutantes e efémeras.
É nesta sociedade carregada de complexidade, intensidade,
automatização, sobreposição, mobilidade, agilidade e pelo
efémero, que se cruza cada vez mais com o rural e as múltiplas
ruralidades/urbanidades que nascem, todos os dias, em
diferentes lugares, que se cria o caldo cultural e socioeconómico
que origina a arquitectura, o urbanismo e as vivências de todos
nós.
Nesta nova sociedade, a cidade assume uma posição ambígua
de maior e menor relevância nas trocas (materiais e imateriais)
sendo mais um ponto de encontro das redes globais. Mas, acaba
por, em certos casos, concentrar os principais pólos de articulação
de um espaço global, ramificando-se de forma evidente numa
rede de lugares que unem partes segregadas das cidades,
criando-se uma nova cidade de partes das outras cidades, uma
cidade global multilocalizada em muitas outras cidades. O melhor
exemplo desta realidade é a ligação internacional das múltiplas
bolsas e bairros de negócios do sistema financeiro mundial.
10
Esta nova sociedade é, muito provavelmente, o maior desafio
intelectual que a nossa era coloca em termos de interpretação.
Efetivamente, nesta sociedade, é possível e natural ser rural e
viver a urbanidade, ser urbano e viver a ruralidade e, mais do
que isso, ser virtual e, ao mesmo tempo, viver em espaço rural
com uma urbanidade excepcional durante esta semana e, logo
de seguida, durante 3 meses, viver uma ruralidade urbana. Ou
seja, hoje, rural e urbano, cidade e território não são realidades
soltas e separadas. Muito menos, são fixas ou consolidadas.
São intensamente dinâmicas e devem ser pensadas como tal.
Por este motivo, quando queremos interpretar a cidade e a
sociedade para construir um sentido para o lugar, tudo parece
tão estranho, com tantas diferenças e incertezas.
Efetivamente, precisamos agora de arrumar ideias para a sua
compreensão com recurso a outros conceitos e esquemas
concetuais, sendo, muito conveniente utilizar a expressão
gráfica e dinâmica, as representações em 3D, para interpretar,
compreender e expressar tudo aquilo que poderemos imaginar
sobre este incrivelmente complexo objeto. É por isso que,
hoje, necessitamos de olhar, questionar e sentir diferente, de
preferência com a visão dos outros, este objecto magnífico que
é a cidade.
Uma «nova» geração (de abordagem)
Tal como a vida e o universo, as cidades transcendem os nossos
limites da imaginação e serão sempre o resultado da inteligência
colectiva que nasce nos processos de acção, de ordenamento,
de gestão, de liderança e de comunicação (dos e) sobre os
territórios.
Mas, independentemente do que são nas suas componentes
materiais e edificadas, as cidades são as emoções que
estabelecemos com os seus diferentes sítios (transformados
em «lugares» através de diversos processos de apropriação
emocional). As cidades são constelações dinâmicas de lugares
com diferentes significados e valores para cada um de nós.
É neste contexto, de um «organismo vivo», a cidade numa
sociedade hipertexto que nasce e se fortifica a «irreverência das
novas gerações», capaz de nos levar a novos modos de pensar
e sentir a regeneração e o redesenho urbano sustentável (como
Introdução
11 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
propõe o Nor Afendras), preservando e criando sentidos (como
sistematiza a Daniella Cunha) na arquitectura, no espaço urbano
e nas cidades, essa estrutura estranha que hoje se transforma,
desafiando a nossa criatividade compreensiva e de intervenção.
Assim, se lhes queremos tocar (às cidades) de modo a preparálas para que os seus utilizadores lhes confiram sentidos
específicos e positivos, temos de as trabalhar na perspectiva
da criação de Comunidades Sustentáveis (na abordagem da
conferências de Bristol 20054) e da construção de espaços
adaptados, acolhedores, capazes de construir o bem-estar de
quem os usa, em abordagens como as que Jan Gehl5 propõe.
Neste entendimento, as novas mobilidades, a escala humana e
a saúde andam de braço dado, associados a processos ativos
e evolutivos de participação, partilha e aprendizagem (em
processos de governação enriquecidos por diversos movimentos
alternativos e experiências que se fazem e interligam em diversas
partes do globo, alimentadas pela rede de conexões que é a
Internet) que constroem Cidade.
Mas… e este é o mas mais importante deste discurso, esta
abordagem terá de ser feita por cérebros muito diferentes,
nascidos antes e depois dos Ipads e Iphones, de arquitectos,
urbanistas, geógrafos e economistas, entre outros, que
desenham, produzem e usam a cidade a partir de experiências,
redes e ligações neuronais muito diferentes, cada vez mais
criativas, se comunicarem entre si, ou mais conflituosas, se não
o conseguirem fazer!
NOTAS
PREFÁCIO
palavra in-formação é aplicada no sentido de formar e informar a
comunidade interna (in).
1A
INTRODUÇÃO
1 Filha
de pais portugueses, nascida na África do Sul, procurou estudar
o sentido da arquitectura.
2 Nascido na Grécia, mas com origem familiar asiática, procurou estudar
o reaproveitamento de estruturas arquitetónicas obsoletas para regenerar a vida nas cidades.
3 Texto reflexivo escrito pelo autor em 2010, de modo a apoiar os alunos
no seu processo de aprendizagem na unidade curricular de Cidade e
Território, ainda não publicado.
4 Na
perspectiva de Bristol 2005, as Comunidades Sustentáveis devem
ser: Bem equipadas (infraestruturadas), com bons serviços, amigas do
ambiente, bem desenhadas e construídas, criativas e inovadoras, justas
para todos, activas, inclusivas e seguras, participadas e bem lideradas.
5
Jan Gehl (1936-) como arquiteto e urbanista defende a premissa de
que deveria melhorar a qualidade de vida urbana através da reorientação do planejamento urbano em benefício de pedestres e ciclistas.
12
CONCEITOS
ARRUMADOR DE IDEIAS
Álvaro Cidrais
T
odos adoramos ouvir um discurso fluente, que nos arrebate
a alma, ver explicado em poucas palavras uma ideia que nos
deslumbra.
Há mais de vinte anos, na disciplina de História e Teoria da
Geografia, um «velho mestre», João Ferrão, fazia milagres.
Durante duas horas seguidas, dissertava estruturadamente, com
uma clarividência espantosa, sobre os temas da Epistemologia
e da Teoria da Geografia, que outros professores tinham já
aflorado, sem eficácia e sem sentido, num emaranhado de ideias
que tínhamos de fixar.
O sucesso das exposições de João Ferrão, sobre temas tão
complexos, baseava-se apenas em dois factores: a utilização
de esquemas concetuais (mapas desenhados no quadro,
compostos por conceitos e ligações que assumíamos como
arrumadores de ideias) como instrumento de expressão de
ideias e, ao mesmo tempo, a existência de um pensamento
fluido e simples (estruturado) que, anos mais tarde, percebi ser
o resultado da utilização intuitiva dos «esquemas concetuais»
como ferramentas de organização do pensamento.
É isso mesmo. De facto, as magníficas aulas e os brilhantes
pensamentos daquele mestre têm a sua origem nestas
ferramentas que criaram uma rede de suporte extraordinária para
agregar, com significado e sentido, em qualquer momento, as
ideias que lhe chegam. Funcionam como mapas de orientação
para caminhos de uma floresta desconhecida.
Por esse motivo, anos mais tarde, impelido pelo Nuno Pena,
licenciado em filosofia e doutorado em «Aprendizagem
com meios digitais», explorei essa ferramenta, aplicando-a
experimentalmente
nas
disciplinas
que
lecciono,
designadamente, em Cidade e Território, onde a complexidade
dinâmica da cidade (na Sociedade Hipertexto) nos exige uma
grande disciplina intelectual para libertar a criatividade, ousando
«novas abordagens».
O resultado não poderia ser melhor! Mas, para perceber, em
certa medida a relevância dos esquemas concetuais como
arrumadores de ideias e o que está na base do sucesso,
precisamos de entender como funciona o cérebro!
Ao que parece, os nossos pensamentos constroem-se através
de nós (pólos) e ligações, baseados nas trocas químicas e
energéticas que ocorrem entre artes do cérebro. São fortemente
marcados pelo desenho das redes neuronais pré-existentes,
construídas nas primeiras etapas da vida e constantemente
reformuladas ao longo do tempo, por experiências marcantes,
encontros significativos com artífices (mestres) relevantes
e através de processos estruturados que raramente são
conscientes.
Comparando o funcionamento do cérebro com o de uma cidade,
poderemos imaginar que os padrões neuronais que criam os
hábitos e as ideias estruturantes de uma pessoa são as vias, as
praças mais marcantes e as avenidas de circulação rápida que
estruturam uma rede de estradas, ruas, praças e vielas onde
Conceitos
15 Estractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
deambulam pessoas, carros, carroças, camiões, bicicletas, etc.,
numa imensa e quase caótica interacção, que cria a vida da
cidade e dos seus habitantes.
A rede neuronal do cérebro transporta inúmeras sensações e
percepções que nos permitem sentir, interpretar, pensar e agir,
comunicando aos outros aquilo que pensamos e somos (ou
estamos) num dado momento. Esta é a rede de apropriação
pessoal das paisagens. É ela que estrutura a história de vida
que cada um de nós é capaz de inventar, vivendo e construindo
narrativas próprias, idealizando, concetualizando, expressando
o que lhe vai na alma. É desta base que nasce a Arte, a Ciência
e a Criação!
É nesta rede complexa de nós e ligações (composta por neurónios,
sinapses e dendrites, trocando, intensa e continuamente, uma
enorme pluralidade de compostos e soluções químicas) que
nasce grande parte da criatividade e, ao mesmo tempo, a
tendência para a criação de pensamento divergente e inovador
ou estruturado e organizador.
É o «desenho» desta rede neuronal que nos torna mais criativos,
mais estrategas, mais racionalistas, filósofos, engenheiros,
contabilistas, artistas, etc., num padrão que parece funcionar
entre dois eixos cruzados de processos cerebrais, um que
coloca em polos opostos a emoção e a razão, outro que separa
a focalização e a divergência (base da criatividade).
Este «desenho estruturante» predispõe-nos para certos padrões
de pensamento, de atitude e de comportamento que, muitas
vezes, não são racionalizados, por isso, mais difíceis de partilhar
com os outros e de controlar em nosso proveito.
É este padrão que, sem darmos por isso, vamos construindo
e reforçando no quotidiano, nas nossas interacções diárias,
especializando o cérebro num conjunto de cadeias de
pensamento e de emoção/sentimento que, eventualmente, nas
escolas, vamos treinando, com os inúmeros desafios e exercícios
que fazemos, com sentido e significado.
As cadeias de pensamento estruturante funcionam como os
pilares de uma edificação que permitem criar compartimentos
diferentes, separados por paredes de vidro, de gesso acartonado,
de tijolo, de pedra ou de betão.
A posição relativa, a quantidade, a solidez e a consistência dos
pilares (que formam conjuntos mais complexos, mais rígidos ou
mais flexíveis) permitirá acondicionar maior ou menor quantidade
de informação nesses compartimentos. A rede de caminhos dessa
edificação (composto por aberturas – eventualmente portas – e
corredores) permitirá aceder e recombinar a informação que lá
se guarda.
Todavia, esta rede neuronal é intensamente interactiva, complexa
e dinâmica, tendencialmente divergente, sendo capaz de acolher
a imensa informação que aparece a todo o momento, perante
uma pluralidade de estímulos que surgem nesta sociedade
altamente conectada, mediatizada e intensa em que vivemos.
Tão dinâmica que se pode tornar desestruturante e caótica,
retendo no edifício todo o estímulo que vai aparecendo, sem
o conseguir acondicionar de forma útil e funcional, resultando
numa enorme perda de capacidade de encontrar ideias, soluções
e propostas para melhorar a vida.
É esta rede neuronal (os pilares do edifício) que cria um padrão
cerebral que precisa de ser arrumado com o recurso a técnicas
e metodologias de organização de pensamento, utilizando os
instrumentos como as teorias, os conceitos e as suas ligações.
Este processo de arrumação deve ser treinado nas escolas,
desde muito pequenos, prolongando este trabalho até às
universidades.
Quanto mais consistente e «arrumado» estiver o edifício e a
cidade intelectual que possuímos num determinado momento,
maior capacidade terá de acondicionar os estímulos e as
novas informações que chegam, criando, caso seja necessário,
novos compartimentos para os «estacionar», temporariamente,
com bons acessos para os mobilizar como recursos de
edificação/conhecimento, estruturantes e fundamentais para o
desenvolvimento da criatividade.
Até porque a criatividade não tem de ser apenas um processo
divergente e meramente intuitivo, descontrolado e caótico, pode
funcionar num sistema organizado e planeado para a flexibilidade
mental organizada, gerando ainda maior capacidade individual
e colectiva de criar, recriar e memorizar novas soluções e
configurações concetuais ou físicas.
É por isso que se considera que os esquemas conceptuais são
arrumadores de ideias essenciais na Arquitetura, no Urbanismo
e no Planeamento, treinando-se, desde há alguns anos, a sua
utilização prática na apropriação e construção de conhecimento
nas unidades curriculares de Cidade e Território e de Geografia
Humana.
Os esquemas conceptuais, metodologia e técnica muito utilizada
desde os anos 60 e reforçada por Novak nos anos 70 do século
20, permitem dar significado (emocional relevante) aos conceitos
da Geografia Humana no contexto da Arquitetura e explicitar o
sentido (de utilidade) desta informação para o desenvolvimento
das competências dos arquitectos. Criam aprendizagem
significativa e situada, como define Ausubel e liberta as múltiplas
inteligências de Howard Gardner.
Nestes Estractos Reflexivos, os trabalhos da Daniella e do Nor
são já uma evidência do valor desta abordagem! Os resultados
são visíveis nas estruturas conceptuais que apresentam e
na relevância que tiveram para o desenvolvimento dos seus
trabalhos. Prova-se assim que: os esquemas conceptuais são
uma ferramenta magistral de estruturação do pensamento, de
arrumação e estabilização de ideias, um instrumento essencial
para a concepção do projecto. Constituem-se como a base
estruturante do pensamento e da criatividade, o suporte de um
enorme edifício flexível e dinâmico de desenvolvimento pessoal
e profissional.
Neste período de transição para uma sociedade hipertexto
(hipermédia) cada vez mais complexa, interligada e efémera,
mutante, os esquemas conceptuais ganham ainda mais
relevância, porque ajudam, num dado momento de forte
incerteza e indefinição, a mapear os caminhos do edifício mental,
identificar os conceitos e as ligações que dão consistência a
um pensamento (racionalizado), permitindo, ao mesmo tempo,
criar memória explícita partilhável com os outros, que, quando
complementada com um discurso narrativo, facilita a apropriação
e a construção de novas ideias por qualquer tipo de cérebro.
16
CONCEITOS
A ESCALA ENQUANTO CONCEITO TRANSVERSAL:
REGENERAÇÃO URBANA
Fátima Silva
O
estado de obsolescência a que alguns espaços urbanos e
o seu edificado atinge é revelador de uma desadequação
dessas estruturas aos novos sistemas de organização funcional
das sociedades urbanas às novas necessidades e desejos.
Sintetizando, essa desadequação não será mais do que um
problema de escala.
Essa escala de cidade onde o modelo tradicional, foi ultrapassada
faz muito, (como se pode ver por estatísticas mundiais; 50% da
população mundial já reside em estruturas urbanas muito em
breve 2/3 dessa população será urbana) em número de almas
de área, de mobilidade e de sustentabilidade económica e física.
Esta parece ser a realidade sobre a qual teremos que refazer
todo o sistema organizacional das comunidades humanas
e fundamentalmente os critérios que constroem o conceito
de escala, isto se quisermos devolver a “beleza” aos lugares,
espaços de vida, e mantê-los saudáveis, sustentáveis, entendase beleza aqui como ideal de qualidade e harmonia. Então,
essa desadequação dimensional poderá ser entendida como
um problema de escala? Estas perguntas, entre outras poderão
abrir um caminho à discussão teórica, necessária e até urgente,
no actual contexto de rápida transformação que o nosso “mundo”
está a enfrentar.
Não que sejam inéditos na história da civilização humana,
estes períodos de transformação mas, é por certo um dos mais
acelerados em tempo útil à escala humana, facto que torna
mais urgente este tipo de reflexões que ajudam a procurar re-
estabelecer uma continuidade no desenvolvimento da sociedade
humana sem descontinuidades, de modo a nos permitir participar
na construção dessa “espessura” ou camadas que alicerça as
que se seguirão.
A procura de novos critérios para uma redefinição do
conceito de escala que em tempos de transformação
emerge significativamente, entende-se fundamental para o
desenvolvimento do pensamento arquitectónico, determinando
novos limites estruturais e funcionais que se venham a readequar ao desenvolvimento da escala humana.
As novas relações dimensionais estabelecidas no espaço físico
deverão ser repensadas de maneira integrada, relembrando-se
o facto de que, - o todo é mais que a simples soma das partes
mas, estas não podem ser tratadas isoladamente sem para isso
se compreender a sua posição relativa e identidade dentro dessa
totalidade.
Se estas entidades físicas não respeitarem os limites
determinados para a sua sustentabilidade, poderemos observar
aquilo que se pode designar como – fenómeno de escala –
que tem como resultado a “morte” funcional do espaço que em
consequência o conduzirá ao abandono e degradação física ou
a uma utilização negativa, a maior parte das vezes marginal,
igualmente degradante.
Outra das ideias associadas prende-se com a sustentabilidade
que emerge deste contexto, ligado intimamente a este
Conceitos
19 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
conceito de escala, tanto aplicado ao sector económico como
no da salvaguarda dos recursos naturais, suporte da vida no
planeta. No campo da arquitectura este conceito é basilar, pela
relação directa que estabelece entre a dimensão do espaço e
a do Homem. A procura da medida adequada ao desempenho
funcional do espaço promove a sua durabilidade e qualidade.
O conceito de escala aponta assim para a existência de um
qualquer intervalo de valores concretos ou abstractos, prédeterminados pela natureza própria de cada coisa em causa,
implícitos ou explícitos, a partir dos quais cada sistema funcional
se dimensiona.
As relações dimensionais adequadas à dimensão humana, em
cada situação, balizam-se por meio de critérios de desempenho
funcional, ergonómico/físico, socioeconómico, cultural,
educacional, entre outros.
O estado de degradação por via da desadequação do espaço
urbano aos novos parâmetros dimensionais das sociedades
humanas; novos ritmos e ritos de vida (já sublinhados
anteriormente) colocaram as cidades, referências da civilização
Ocidental, num estado de obsolescência visível pelo tecido
edificado.
Se por uma parte se enfrenta um acelerado ritmo da
transformação nos sistemas económicos e sociais, de uma
sociedade pós-industrial, por outro deparamo-nos com a pressão
das exigências de uma sociedade na Era das comunicações e
dos serviços, no sentido da adequação necessária ao nível do
desenho e das funções.
A Regeneração Urbana enquanto conceito de intervenção, nasce
em resposta a uma desadequação dessa dimensão urbana,
consequência de uma mudança radical na escala urbana.
Programática e significativa a Regeneração urbana sustentável é
em si uma acção que promove um sentido de maior consciência
sobre a maneira como o território deve ser tratado. É este então
problema sobre o qual se foca este primeiro sublinhado; sobre a
transformação radical, da paisagem, em geral, na sua identidade
e escala, e o estado de degradação física visível, em grande
parte do território que até aí se edificou.
A ocupação exponencialmente dos espaços livres com o
crescimento das cidades, fez surgir um novo tipo de território; os
territórios periurbanos, espaços híbridos desqualificados onde o
critério de escala se divide entre a escala da cidade tradicional
a da cidade modernista e o espaço rural. Os edifícios de
habitação, antes de acompanhamento, ganham a dimensão da
mancha de bairro, os arruamentos deixam de ser estruturantes e
passam a serventes, constituindo-se como linhas descontínuas
cruzadas por vias de circulação rápida, onde o contraste nítido
entre escalas se faz sentir como barreiras intransponíveis às
quais se juntam um caracter desqualificado da nova paisagem
humanizada sobre a qual o Geografo Álvaro Cidrais apelida
significativamente de “cacofonias”.
A ideia que se sublinha de que o planeta está cada vez mais
à nossa escala e as cidades cada vez menos, foca ao mesmo
tempo o problema e a sua resolução numa questão de dimensão
relativa - escala, conceito basilar para um entendimento da
dimensão do espaço construído pelo Homem.
O conceito de escala encontra na produção tanto da estrutura
como da forma, ordem, programa funcional e da imagem, (no
sentido arquitectónico), elementos de manipulação da sua
percepção.
A consciencialização daquilo que se entende como “o sentido
da arquitectura ” questionado pela Daniella Maria, não será mais
do que uma reflecção sobre o que é a arquitectura e o papel
do arquitecto como aquele que adequa a dimensão do espaço
contínuo à escala cultural do Homem, cujo sucesso ou insucesso
estará na dependência do entendimento completo do “destino
da obra” da dimensão humana e paisagísticas, envolvidas ou
ambicionadas.
O caso do Bairro Pruitt Igoe em St. Louis abordado pela Daniella,
e o caso da High Line em Nova Iorque elogiado pelo Nor-Angelos
Afendras, colocam no programa e no modelo funcional o factor
decisivo para a sua adequação à dimensão social e humana,
colocando o factor participativo como metodologia de acção para
essa adequação de escala, e a figura do arquitecto como agente
catalisador e “adequador” do espaço a essa escala humana.
Por outro lado, a equação programática nas suas linhas
socioeconómicas e culturais encontram nos espaços obsoletos
um potencial foco de regeneração de partes do tecido urbano
onde se integram. A reconversão de infra-estruturas, como
é exemplo o projecto de reconversão da linha de comboio
aérea em Nova Iorque; High Line é um exemplo de uma acção
integrada regeneradora.
A outra ideia inerente a estas reflexões‚ é o da flexibilização
programática dos espaços, como maneira de evitar a
obsolescência a que ficam sujeitos devido ao acelerado ritmo
de transformação dos modelos económicos que os promoveram,
implicando uma transformação impossível de sustentar. Esse
grau de efemeridade e de desperdício é cada vez menos
sustentável.
A inclusão do cidadão na construção do seu espaço permite uma
retoma da escala comunitária e da ideia de pertença perdida.
O enfoque sobre o valor da imagem como um produto de desenho
e da matéria construtiva reconhece num nível do conjunto uma
comunicação significante.
No conjunto todas estas reflexões temáticas se canalizam numa
única direcção, a procura de respostas que consigam encontrar
uma nova adequação de escala a partir de novos critérios da
dimensão humana e do espaço.
20
EXTRACTO I
A REVALORIZAÇÃO DE ESTRUTURAS PRÉ-EXISTENTES
COMO ELEMENTO DE REVITALIZAÇÃO URBANA
Nor-Angelos Evangelos Afendras
1. A OBSOLESCÊNCIA NO EDIFICADO URBANO
Enquanto certos aspectos da vida urbana permanecem
inalterados ao longo do tempo, outros atravessam fases
de prosperidade e de declínio. Muitas cidades antigas não
sobreviveram até aos nossos dias, e as que o fizeram, só o
conseguiram pela capacidade de se adaptarem, por si só, às
constantes alterações nas dinâmicas da sociedade e da vida
urbana. De facto, as áreas urbanas permanecem relevantes na
medida em que consigam oferecer aos seus habitantes (novos
e antigos), qualidades espaciais e funcionais, assim como
actividades nas quais possam participar, e que dificilmente
possam ser encontradas noutro local.
A um nível prático, o bom funcionamento de um ambiente urbano
implica, entre outros factores, uma governação eficiente, um
fornecimento ininterrupto de recursos essenciais e de um sistema
de transportes eficaz. Assim sendo, e tendo em conta que as
necessidades específicas das sociedades estão em constante
mutação, também as estruturas criadas para resolver estas
necessidades deverão obedecer a estas alterações, levando a
que, quando tal não aconteça, estas se tornem obsoletas.
Contudo, certas estruturas podem ter a tendência de se imporem
negativamente num território urbano, criando barreiras e
grandes vazios desprovidos de actividades, contribuindo desse
modo para uma degradação urbana. Assim sendo, os espaços
problemáticos criados por estas estruturas, podem vir a ser
adaptados como áreas híbridas, que misturem actividades de
modo a assegurar uma continuidade no espaço urbano, tendo,
neste sentido, grande potencial para a criação de ambientes
sociais vigorosos.
Uma bem concebida readaptação de estruturas urbanas
obsoletas pode, de um modo eficaz, fazer frente a diversas
questões contemporâneas, tais como: a sustentabilidade, as
variações económicas, a continuidade histórica e a coesão
social. Estas questões combinadas podem, desse modo, servir
de catalisador para uma regeneração urbana das áreas das
quais fazem parte.
A revalorização das estruturas pré-existentes nomeadamente
através das funções e actividades introduzidas, da integração
com a envolvente (a nível funcional e espacial), do grau de
alteração física e do tipo de readaptação estrutural escolhido,
consiste na componente arquitectónica. Numa outra dimensão,
a questão da revitalização consiste na componente urbana,
assumindo-se como fundamentais factores as políticas urbanas,
a economia, a demografia, a sociologia, o desenvolvimento
sustentável, a dimensão e o declínio ou crescimento das cidades.
O estudo destes factores permite uma abordagem de intervenção
interdisciplinar, constituindo bases para impactos de revitalização
genuínos e efectivos.
Extracto I
23 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
As cidades com os seus ambientes urbanos existem há milhares
de anos, sendo um dos elementos basilares das civilizações
humanas. Mais do que em qualquer outro período histórico as
questões urbanas condicionam a sociedade contemporânea,
por serem as cidades os lugares com maior concentração
populacional, nos países desenvolvidos, e o virão a ser nos
países em vias de desenvolvimento, ambos marcados por fortes
tendências de crescente urbanização.
Alguns centros urbanos, geralmente os mais antigos e
consolidados, evidenciam-se pela degradação e pela perda de
população. Em alguns países a implementação de políticas de
revitalização urbana têm conseguido abrandar ou até reverter
estes processos, mas não existe, nem seria possível existir,
uma fórmula genérica, aplicável a qualquer dessas realidades
urbanas.
Os elementos delimitáveis na dimensão arquitectónica, que
como objectos físicos têm maiores capacidades de influenciar
realidades à escala urbana, são evidentemente aquelas
estruturas com maior presença física, com uma localização
nevrálgica e uma capacidade de se relacionar com as áreas
envolventes a vários níveis. Nos contextos urbanos degradados,
dinâmicas, particularmente de matriz socioeconómica, têm tido
consequências significativas para algumas destas estruturas,
tornando-as obsoletas. Abandonadas, estas estruturas
pré-existentes podem apresentar-se como problemáticas
e contribuírem para a percepção de degradação de um
determinado contexto urbano.
Neste entendimento, a ‘revitalização urbana’1 abrange questões
urbanas, sociais, demográficas políticas e económicas,
relacionando-as com uma determinada realidade de modo a
abordar e intervir nesta. Se por um lado o significado de “produzir
qualidade”2 é ambíguo, a definição de “revitalização urbana” é
mais clara, referindo-se a condições de atractividade para as
populações e ao investimento económico.
Em 2008, pela primeira vez na história, mais de 50% da
população mundial vivia em zonas urbanas, e estima-se que
em 2050 vá alcançar os 70% (ONU, 2009, p. 8). Estimativas
do Banco Mundial feitas em 1996 previam que em 2025, mais
de 88% do crescimento da população mundial seria em áreas
urbanas, e 90% deste crescimento se ia verificar nos países
em desenvolvimento. Mais recentemente esta última estimativa
foi aumentada para 95%, e no ano de 2025 4 mil milhões de
pessoas vão ser habitantes urbanos, dos quais 1,5 mil milhões de
bairros pobres/favelas. Atrás destes números estão numerosos
contextos a várias escalas e dinâmicas que vão desde a escala
de inteiras regiões urbanizadas, até à pequena escala, e às suas
infinitas realidades.
Enquanto por um lado, se assiste a um crescimento contínuo
da população em regiões como a Ásia, através da expansão de
zonas peri-urbanas e da transformação de grandes cidades em
megacidades, por outro, (em outras zonas do mundo) verifica-se
um declínio. Cidades nos países Bálticos e na região do Mar
Negro3 têm perdido entre 17% e 22,5% das suas populações
urbanas. Nos Estados Unidos, 39 cidades tiveram uma perda de
população, entre os anos 1990 e 2000 (ONU, 2009, p. 8). Este
fenómeno é principalmente Ocidental, sendo um resultado das
emigrações de populações de economias regionais em declínio,
ou de cidades satélites ou subúrbios que vêm retirar a população
de um núcleo histórico.
Consequência do drástico crescimento da população urbana
global e dos casos contrários de decrescimento noutras regiões,
são a vasta gama de situações e contextos urbanos, não
facilmente reduzíveis a um número fixo de tipologias urbanas,
assim como afirma Thorns:
[...] cities contain enormous diversity. Crucial in creating these
differences have been the pace at which the cities have grown,
their historical roots and the layers of physical and social
structure that have given rise to the present social and physical
infrastructures and practises. (Thorns, 2002, p.1)
Esta diversidade resulta das combinações de vários factores, e a
partir das especificidades e relações entre estes, fazendo assim
surgir diferentes realidades.
Segundo as Nações Unidas (ONU, 2009), um desses factores,
o planeamento urbano, tem falhado em muitos países, devido
a uma visão errada dos problemas urbanos, tratados como se
fossem uniformes em qualquer parte do mundo, resultando
nas tentativas de criar modelos universais de abordagem ao
planeamento urbano. Os sistemas de análise e os estudos
académicos sobre o urbanismo têm sido dominados pela América
do Norte e pela Europa Ocidental, com a consequência de serem
demasiado concentrados nas situações e características destas
partes do mundo (Thorns, 2002, p. 2).
A crescente escala e importância das dinâmicas urbanas de outras
regiões do mundo requer novos estudos e modos de abordagem.
Assim sendo, percebe-se a importância do conhecimento e
compreensão da diversidade dos contextos urbanos. Como já
avançado, estes variam segundo uma combinação de factores
históricos e contemporâneos, como: o nível e tipo de economia,
os equilíbrios sociais, a escala do espaço construído e da
população urbana, as estruturas espaciais das malhas urbanas,
as dinâmicas demográficas e a cultura local.
Nesta matriz, é possível deduzirem-se relações entre questões
socioeconómicas e urbanas, chegando possivelmente até ao nível
arquitectónico. Talvez sendo ainda, possível encontrar algumas
abordagens para a escala arquitectónica que, relacionando-se
com dinâmicas urbanas, pudessem afrontar, sem expectativas
desproporcionadas, questões socioeconómicas.
De acordo com Sánchez, até a participação do estado é limitada
a ideologias consumistas:
Estados capitalistas modernos investem em obras monumentais
justificadas pela ideologia da criação de locais públicos.
Funcionam, contudo, como grandes vitrinas publicitárias
(Arantes, 1995), como exemplificam os casos de Bilbao,
Barcelona, ou Paris. (Sánchez, 2009, p. 181)
No caso de Barcelona Sánchez vai mais longe, falando da
reciclagem de espaços para estes fins, onde se tenta aproveitar
do que foi construído no sentido físico e de imagem para os jogos
olímpicos, para fazer o Forum 2004, e outros grandes eventos
direccionados à indústria consumista do turismo (Sánchez,
2009, p. 184-185). Assim sendo, Moura vê nisto um processo em
que um espírito empresarial se apropria da política e da gestão
urbana:
Tanto Curitiba, quanto Barcelona, numa atuação corporativa,
deixam que as parcerias com a iniciativa privada definam
a maneira de tratar os problemas da cidade na prática do
empresariamento urbano, relegando a um plano secundário os
programas e projectos de cunho social” (Moura, 1999, p. 244)
24
2. CIDADES E SEUS RUMOS - PROCESSOS E ESTRATÉGIAS
The structure and form of the city has become much more highly
differentiated. The growth of new forms of wealth generation,
have led to the restructuring of the spatial structures, within the
former industrial and administrative cities. Manufacturing has
declined as the key engine of growth to be replaced by a new
set of activities more centred around information and leisure,
recreation and tourism. Consumption landscapes have become
the new focus of much western scholarship. Consumerism
is seen as one of the driving forces of economic, political and
social life. The global nature of the world requires us to see urban
change as an interrelated process. Industrial activity has been
relocated to new regions and cities, growth and decline has
occurred, the demographic and social structures have changed.
(Thorns, 2002, p. 69)
Esta passagem de Thorns resume de modo eficaz o carácter
mutável e maleável das cidades, referindo-se a muitos dos
factores identificados no capítulo anterior. Se as transformações
urbanas podem ser consideradas como componentes de
um processo com interligações a nível global, será possível
interpretar o declínio de um contexto urbano, localizado numa
região do mundo, relacionando-se com o crescimento de outro.
Esta não é, necessariamente, a dinâmica prevalecente, sendo
que o crescimento e o declínio podem acontecer à escala global.
Os aglomerados urbanos, desde o nível de certas zonas urbanas
situadas no interior das cidades, passando por cidades inteiras
e chegando até grandes regiões urbanizadas e transnacionais,
atravessam inevitavelmente diferentes tipos de ciclos, não
apenas em termos de prosperidade ou empobrecimento
económico.
Londres é um exemplo de uma cidade que atravessou muitos
ciclos, sejam económicos, políticos e culturais, com base
em critérios exclusivamente urbanos/territoriais. Desde a
sua fundação, com importância regional no império romano,
passando por períodos de relativo declínio e depois tornandose capital e centro do Império Britânico, Londres continua a
ser uma cidade flexível, em contínua mutação, ganhando a
sua importância actual como centro financeiro global, após um
declínio industrial.
Apesar de não ser um método exaustivo, mas potencialmente
redutor, é possível identificar vários processos num ciclo de
transformações urbanas atravessadas por uma cidade. Dois
Extracto I
25 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
processos, o declínio e o crescimento, são contrários e absolutos,
pelo menos em termos quantitativos, ao mesmo tempo que os
outros processos, a preservação, a renovação e a revitalização,
são possivelmente mais subjectivos. Estes últimos três processos
podem ser reconduzíveis a uma consciente intervenção política/
administrativa para a metamorfose urbana, acabando em muitos
casos por ficar como ideais, tendo pouco êxito como políticas
concretas, e por isso aqui considerados apenas ‘tentativas’.
Aceitando que cada processo não é definitivo e em alguns
exemplos, só parcialmente aplicável e simplificador, este tipo
de categorização é útil para chegar a uma melhor compreensão
das realidades urbanas, colocando-as dentro de uma lógica
de continuidade e não as isolando como se fossem realidades
imutáveis.
Através do estudo dos processos e estratégias de evolução
das cidades será possível planear intervenções urbanas mais
sensíveis aos contextos específicos, pontuais ou alargadas, com
maiores probabilidades de alcançar êxito no desenvolvimento
urbano. Podemos identificar, e, posteriormente definir, os
seguintes processos de evolução das cidades:
- Declínio
- Preservação vs Renovação
- Revitalização
- Crescimento
Declínio
Entre os factores referidos por Thorns, abordados no início
do capítulo, com o fim de perceber o estado em que se
encontra uma cidade, torna-se mais fácil observar e realçar as
componentes económicas e demográficas, que em grande parte
são quantificáveis, do que outros aspectos menos fáceis de
materializar. O declínio de um contexto urbano pode medir-se,
portanto, analisando dados económicos, dados demográficos
como a perda de população, e outros dados, como por exemplo
a taxa de ocupação dos edifícios ou os fluxos de visitantes
turísticos.
Outros factores, por exemplo os sociais e políticos, são
mais subjectivos. Aqui o objectivo é perceber estes factores,
procurando as relações destes com o espaço urbano.
No passado, o declínio de algumas cidades resultou no seu
desaparecimento físico, enquanto hoje isto pode parecer
improvável. O declínio pode manifestar-se prolongado
e aparentemente irreversível. Alguns dos exemplos
contemporâneos mais emblemáticos encontram-se no ocidente,
e mais especificamente nos Estados Unidos, em centros urbanos
desindustrializados.
O rápido crescimento e a expansão de tais centros urbanos
eram, em muitos casos, dependentes de um único sector
industrial. Regiões inteiras industrializadas, chamadas de
industrial belts, entraram em declínio económico quando esses
sectores industriais deixaram de ser sustentáveis, sofrendo, em
consequência, uma degradação a nível urbano. Um exemplo
claro encontra-se nos centros urbanos das cidades americanas
de Cleveland, Pittsburg e Detroit, as quais perderam entre 48%
e 51% da sua população máxima no período entre 1970 e 2000,
sendo que a última destas, Detroit, havia tido uma explosão
populacional entre os anos de 1910 e 1950 (Feagin e Hill, 2006,
p. 156).
De acordo com um estudo de Richard Child Hill e Joe R. Feagin4,
o centro de Detroit sofreu um declínio, em primeiro lugar, por
causa de processos de suburbanização e, só a seguir, pela
incapacidade da sua indústria automobilística de competir com
outras regiões. Já em 1972 um estudo identificava como parte
do problema as infra- estruturas públicas inadequadas (Feagin e
Hill, 2006, p. 155). Como resultado: até hoje, cerca de 200.000
habitações foram demolidas, e tantas outras demolições estão
previstas (Gaillard, 2009, p. 70).
O mesmo estudo compara Detroit com a cidade de Houston,
ambas cidades Norte- americanas industrializadas, colocandoas dentro de uma perspectiva global, analisando a dependência
mútua, as dinâmicas e as tendências à escala mundial. Para a
presente dissertação, esta observação é útil para demonstrar
que alguns factores estão fora do controlo das administrações
de gestão urbana, que agem dentro de áreas delimitadas. De
acordo com Hill e Feagin “Cities are spatial locations in a globally
interdependent system of production and exchange” (Feagin
e Hill, 2006, p. 155). Esta perspectiva pode explicar o que
aconteceu às duas cidades durante e depois da década de 1970.
Na década de 1970, cada uma das duas cidades tinha adoptado
diferentes modelos políticos de legislação económica. No caso
de Detroit um modelo welfare 5, com mercados controlados por
instituições estatais e sindicatos com considerável influência na
política. Houston, por outro lado, tinha adoptado um modelo neoliberal, um modelo de mercado capitalista que privilegiava as
empresas, e um sistema legislativo que beneficiava a acumulação
de capitais. A primeira cidade pertence à área geográfica de
zonas industrializadas denominada Snowbelt/Rustbelt, enquanto
a segunda faz parte de outra zona industrializada, a Sunbelt.
As observações feitas por Hill e Feagin neste estudo muito
específico são ainda úteis, sendo um exemplo comparativo de
cidades e das diferentes dinâmicas que podem contribuir para
o seu declínio.
Ambas as cidades, como muitas outras Norte-americanas,
tinham como características a suburbanização residencial, a
descentralização industrial e um racismo institucionalizado.
Segundo os autores, estes eram factores importantes para
a forma e o desenvolvimento urbano, factores abordados no
capítulo anterior, sendo o último relacionado com as questões de
exclusão social e de segregação espacial.
Tendo em conta as semelhanças e as diferenças entre as duas
cidades, Detroit entrou em declínio prolongado, incapaz de se
adaptar a novas realidades e à competição externa, enquanto
Houston, dependente da indústria petroquímica, ‘sobreviveu’.
Isto durante algum tempo podia ter dado a percepção da
superioridade do modelo político e urbano adoptado por Houston,
até que um declínio na procura e no preço do petróleo, nos anos
1980, demonstrou o contrário, afectando fortemente a cidade.
Hoje em dia, Detroit continua sofrer de um estado de
estagnação6, dependente de apoios governamentais para a
sua sobrevivência, enquanto Houston, devido à retoma dos
preços do petróleo, retomou a prosperidade. O estudo de Hill
e Feagin destaca o facto de que o futuro económico e político
de uma entidade urbana é sujeito a eventos e forças externos,
até transnacionais. Evidencia o declínio prolongado e incerto
de muitas cidades americanas, dando alguns indícios sobre os
factores e as relações que determinam o declínio, ou não, de
aglomerados urbanos em qualquer região do mundo.
Em geral, as cidades Norte-americanas não sofreram um declínio
total, facto explicável pelo seguinte:
26
The exodus from cities, in significant numbers, did not result in
a corresponding decline in North America’s urban population
as there were enough immigrants to replace departing urban
residents. However, the exodus resulted in the erosion of the tax
base of many cities, given that immigrant incomes are generally
low (ONU, 2009, p. 24).
Se por um lado, as cidades industriais sofreram em grande parte
períodos de declínio prolongado, o mesmo não se verificou
em cidades com uma maior diferenciação nos seus ambientes
urbanos. O município de Los Angeles, apesar de ter sofrido na
primeira metade dos anos de 1990 um êxodo de 1,2 milhões
de pessoas na população dos seus limites urbanos, teve um
crescimento populacional de 960.000 pessoas, na maioria
imigrantes internacionais (ONU, 2009, p. 24). Por seu lado, a
cidade de Nova Iorque reinventou-se, reduzindo problemas
identificáveis com o declínio, como por exemplo a criminalidade
e a sua dependência no sector industrial. Nova Iorque, contexto
urbano de um dos casos de estudo da presente dissertação,
evitou o declínio, reforçando-se como centro financeiro global
e adaptando-se noutros sectores, com consequências e
políticas paralelas a nível urbano, revitalizando zonas urbanas,
promovendo, por vezes, a gentrificação.
Se os exemplos americanos de declínio urbano além de muitas
semelhanças têm muitas diferenças, o caso da Europa é ainda
mais ambíguo:
There is no single clear-cut pattern by which a city loses population
in favour of the conurbation first and the city-region second...
many cities in Europe have continued to grow, particularly in
France and in Scandinavia, and over the past 80 years some that
lost ground are on the rise again, for instance in the UK. Some
are also in decline, in Spain and Italy for example [...] to look at
European cities though American eyes- obsessed by the decline
of cities and the rise of the suburbs is not appropriate, and in fact
may be less so for the USA, too. It could be that European cities
are trying to exist both as cities and as metropolises, but that
their strength and dynamism still lie in their centres. (Le Galès,
2002, p. 27)
Enquanto nos Estados Unidos a classe média tende a ter o
objectivo de habitar em unidades independentes, colocadas
em subúrbios, na Europa, até dentro de sociedades com esta
preferência (Reader, 2004, p. 279), diferentes factores limitam
a manifestação física deste tipo de desenvolvimento urbano.
Extracto I
27 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
Entre estes factores, podem incluir-se a escasse de terrenos,
diferenças nas políticas urbanas, e uma cultura historicamente
mais inclinada para a habitação em apartamentos (Nivola, 2007,
p. 315).
Todavia, assim como algumas cidades americanas, os centros
urbanos de cidades industriais europeias sofreram um declínio.
Milão, que durante as ultimas três décadas do século XX sofreu um
decréscimo e uma fuga da sua população para zonas periféricas,
manifestando-se um fenómeno de urban sprawl, na última década
está a tentar inverter esta tendência. A transformação urbana de
Milão tem sido feita por fases, através de operações urbanísticas
de grande escala, mas com abordagens diferentes. Dentro
destas abordagens podem incluir-se a introdução de novos pólos
universitários nas zonas degradadas ou antigamente periféricas
de Biccoca (O pólo universitário da Università degli Studi di
Milano-Biccoca, com o aproveitamento de estruturas industriais
pré-existentes, reconvertendo fabricas e armazéns) e Bovisa
(o novo pólo do Politecnico di Milano, que também aproveitou
algumas estruturas industriais pré-existentes), a revitalização da
zona de Porta Génova (readaptada ao longo de anos em pólo de
desenho industrial e de moda) e de grandes projectos de parceria
público-privada, como no caso da zona Garibaldi Reppublica,
(uma mistura de edifícios destinados à administração pública e
outros com o fim de criar uma ‘cidade de moda’).
Milão é uma cidade europeia histórica, nunca tendo sido
exclusivamente dependente do sector industrial como as
cidades americanas referidas. Conseguiu diversificar e valorizar
outros sectores, ultrapassando a fase industrial para se manter
sede bancária e financeira importante, centro mundial de moda
e destino de feiras internacionais. Nesta fase de transição, o
centro urbano encontrou-se com zonas industriais obsoletas
e abandonadas e, beneficiando da presença e importância de
outras actividades, conseguiu reaproveitar os elementos préexistentes espalhados no seu espaço urbano.
Para evitar a degradação prolongada do seu espaço urbano,
causado só em parte pelo declínio de um único sector económico,
Milão recorreu a grandes operações de renovação urbana,
preservando o seu centro urbano. Este exemplo demonstra então
duas possíveis direcções para um centro urbano; a tentativa de
preservar o que se acredita ter um valor superior, quando intacto,
e a renovação urbana, um tipo de operação por vezes escolhido
para enfrentar situações de declínio.
Preservação vs Renovação
Há muitas cidades que ao longo da história renasceram ou
ultrapassaram crises e períodos de declínio. Podem surgir uma
infinidade de factores imprevisíveis, entre outros os económicos
e sociais, à escala global ou menos extensa, os quais podem
jogar um papel decisivo no rumo de uma cidade. Mas assim
como as cidades têm evoluído, as autoridades locais têm tentado
controlar e orientar os seus destinos através ou com a criação
de instrumentos diversos de política para o desenvolvimento
urbano, que integram novos sistemas de governação local.
É possível identificar dois tipos de acção, ocupando
extremidades opostas, de como se pode agir no tecido
urbano, sendo estes: a tentativa de Preservação e a tentativa
de Renovação. Paradoxalmente, no caso da China é possível
encontrar situações que se podem considerar uma combinação
das duas acções, onde bairros históricos, chamados hutong, são
‘preservados’ através da sua demolição e reconstrução mímica
(Koolhaas, 2007, p. 38).
A tentativa de preservar centros históricos tem como origem
as ideias elaboradas por teóricos como Camillo Sitte, William
Morris, Violet Le-Duc e John Ruskin. Legislações com este fim
começaram a ser introduzidas em países europeus, existindo em
França, desde 1790, e em Inglaterra, desde 1877. A tentativa
de proteger elementos históricos da cidade ganhou importância
ao lado da ascendência do modernismo, em cidades de rápido
crescimento, nas quais havia o perigo da destruição do passado.
As políticas de preservação têm um lugar importante na Europa.
Na Inglaterra existem mais de 8.000 Conservation Areas7,
incluindo não só uma parte limitada do centro urbano, mas
até cidades inteiras. Itália tem muitas cidades de dimensões
significativas, entre as quais Florença, Roma e Veneza, nas quais
se preserva o centro histórico. Através da Unesco8, a valorização
de centros históricos e dos seus elementos arquitectónicos temse espalhado para outras regiões geográficas. O acto de atribuir
um elevado valor a uma zona urbana histórica, designando o
seu tecido urbano como área a preservar, consiste na intenção
de realçar a importância e visibilidade de tal zona, aumentando
o seu interesse. Se, por um lado, se tenta preservar estruturas
sociais e culturais, por outro lado, desejam-se resultados no
turismo e na economia.
A perspectiva de renovação urbana tenta fazer uma avaliação
das pré-existências contrária à abordagem da preservação.
Neste caso, considera-se indesejável manter o tecido urbano,
preferindo-se avançar com o redesenho e a introdução de novas
estruturas no espaço urbano, demolindo e dando nova forma e
ímpeto, social e económico, às dinâmicas urbanas do espaço,
possivelmente para evitar ou recuperar uma situação de declínio
e consequente degradação urbana.
Segundo o Dictionnaire de l’urbanisme et de l’aménagement
(Amiot e Merlin, 1988, p. 579), a renovação urbana consiste na:
Démolition, en vue d’une construction nouvelle, d’un secteur
urbain occupé par de logements, des activités ou de façon mixte.
Cette définition montre que le terme, consacre par l’usage et par
le réglementation, est impropre: on devrait parler de démolitionreconstruction et réserver l’expression de rénovation a la
réhabilitation.
A renovação urbana é portanto um termo que implica
transformações, muito mais pesadas do que a palavra
‘renovação’ poderia sugerir. O Dictionnaire de l’urbanisme et
de l’aménagement considera também algumas das possíveis
causas pelas quais se avança com a renovação urbana:
La rénovation urbaine est une opération d’ensemble qui
concerne la totalité, ou l’essentiel, du bâti d’un secteur. Elle peut
être motivée :
- par la mauvaise qualité des bâtiments : l’insalubrité de certains
quartiers anciens a été à l’origine des opérations massives de
rénovation urbaine des ânées 1960 et 1970 ; la délinquance qui y
trouvait parfois refuge a également été évoquée;
- par leur inadaptation : on rénove ainsi des quartiers d’usines
ou d’entrepôts pour construire des logements ; des secteurs
d’habitat vétuste pour construire des ensembles de bureau ou
des logements modernes, le voisinage d’une opération de voirie,
etc.;
- par leur insuffisante occupation du sol (c’est souvent le cas dans
les centres urbains, en particulier dans les quartiers d’affaires ou
susceptibles de le devenir) ou par leur inadaptation à la circulation
automobile. (Amiot e Merlin, 1988, p. 579)
Esta definição serve para realçar a existência de renovações
urbanas em todas as épocas, destacando todavia as operações
urbanas efectuadas por Haussman em Paris. O Dicionário
do Imobiliário : Habitação : Construção : Urbanismo tem uma
28
definição mais analítica, considerando alguns dos efeitos
históricos da renovação urbana, e segundo o qual esta é:
Operação urbanística de remoção, ou demolição, de espaços
urbanos degradados, seguida da reconstrução desses espaços,
através de novas edificações. As políticas de renovação urbana
implicaram nas décadas de sessenta e setenta, em algumas
situações ocorridas nas grandes cidades alvo de um processo
de terciarização*, a expulsão da população local, sem atenção
ao património urbano e aos quadros de vida social aí enraizados
e às respectivas identidades. A população residente nas zonas
antigas e mais ou menos degradadas do centro das metrópoles
foi, também devido a essas operações de renovação urbana,
engrossar as periferias urbanas das metrópoles. (Antunes, 1996,
p. 430)
Assim parece que a renovação consiste mais na eliminação
total dos traços históricos de um lugar, substituindo esses por
reconstruções espaciais de efeitos negativos, alienando a
população local.
Um dos exemplos mais extremos de renovação urbana foi a
proposta provocatória de Le Corbusier9 no Plan Voisin, publicado
em 1925. Nesta proposta a geometria, as exigências de higiene
e os conceitos racionalistas dominam e eliminam quase todas
as pré-existências. Nela, edifícios de 60 pisos e com capacidade
para até 1.200 habitantes ocupam um terreno central de Paris
criado através da demolição de edificações históricas. A área do
projecto consistia em grandes espaços verdes apenas com 5 por
cento de superfície do solo edificada.
Anos depois, na década de 1960, a influente escritora
Jane Jacobs10 criticava as políticas urbanas de renovação
frequentemente adoptadas nos Estados Unidos, (em particular
as iniciativas do burocrata Robert Moses11), sendo os seus
escritos um “frontal attack on the planning establishment,
especially on the massive urban renewal projects that were being
carried out by powerful redevelopment bureaucrats [...] derided
urban renewal as a process that only served to create instant
slums” (LeGates e Stout, 2007, p. 98).
Estes projectos de renovação urbana consistiam na substituição
de bairros pobres através da demolição do tecido urbano préexistente e do redesenho e construção de grandes blocos de
apartamentos, sendo disto exemplo a operação urbana de PruittIgoe12.
Extracto I
29 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
Berlim é um exemplo mais recente, útil para perceber o carácter
e as possíveis consequências da renovação urbana. Esta foi
uma cidade que ao longo da história renasceu em mais do que
uma ocasião, ultrapassando períodos de forte declínio e crise.
Em 1989, a queda do muro que dividia a cidade marcou o fim de
um destes períodos e deu oportunidade a Berlim para planear
uma fase promissora de revitalização urbana.
A renovação urbana pode ser um instrumento manipulador para
o redesenho não simplesmente do espaço urbano, mas também
da imagem, da história e da identidade mais profunda de um
determinado contexto urbano. Esta realidade ficou evidente no
caso de Berlim, que foi comprometido por vários interesses,
acabando em operações urbanísticas de renovação que
desvirtuam o sentido da cidade.
Após a reunificação da Alemanha, os grupos políticos e
empresariais de Berlim viam a oportunidade da cidade ganhar
o seu lugar no mundo da globalização, e começaram a construir
imagens próprias do futuro desta (Lehrer, 2006, p. 332 e 337).
Fazia parte de uma ideia de identificar Berlim como futura cidade
‘Global’, fundada em previsões demográficas que indicavam um
crescimento da população de 3,46 milhões de habitantes para
cerca de 6 milhões em apenas duas gerações. Berlim tem uma
localização vantajosa, no centro, entre a Europa ocidental e
oriental. Por esse motivo, houve a tentativa, com a criação da
entidade Partner für Berlin em 1994, de atrair grandes empresas
às quais o posicionamento geográfico e político de Berlim podiam
ser vendidos como vantagens favoráveis para o investimento na
cidade.
O Partner für Berlin era uma agência público-privada na qual
colaboravam 120 empresas e o Senado da cidade. Fazia parte
de uma estratégia que também incluía uma componente cultural,
pela qual foram organizados grandes eventos, incluindo concertos
musicais e eventos como a Love Parade, na qual chegaram a
participar mais de um milhão de pessoas, e o revestimento do
Reichstag pelos artistas Christo e Jean-Claude13.
A arquitectura foi um dos principais elementos utilizados para
ajudar Berlim a renascer e a criar a identidade de ‘cidade
global’. Foram realizados vários projectos no centro urbano, de
autoria de arquitectos famosos, sendo o maior e mais ambicioso
desses a Potzdamer Platz, apresentada como “Europe’s largest
construction site”. Este projecto, no qual participaram arquitectos
30
como Renzo Piano e Álvaro Siza, ignorou o seu contexto, criando
uma mistura irracional de arquitecturas e eliminando elementos e
traços históricos ‘negativos’, que faziam lembrar a Guerra Fria ou
o regime Nazi (Lehrer, 2006, p. 337).
A câmara municipal, apesar de ter grandes ambições para a
cidade, estava fortemente endividada e dependia dos actores
económicos envolvidos nos processos urbanos para a realização
das intervenções. Como resultado, o projecto para a Potzdamer
Platz tem características que podem ser consideradas de uma
operação de renovação urbana, incluindo certas conotações
negativas. O projecto final teve que acomodar dinâmicas
urbanas, e pressões sobre estas, que iam além das fronteiras
administrativas; “Urban development, organised with foreign
investors and with the support of the Senat during a period of
financial upheaval, has generated an explosion in the property
market” (Le Galès, 1996, p. 219). Portanto, o desenvolvimento
urbano era fortemente condicionado pela presença de
investidores internacionais e por um mercado imobiliário
incontrolável.
A componente pública do projecto para a Potzdamer Platz,
espaço nevrálgico, histórico e central, foi condicionada por fortes
interesses políticos e económicos, para os quais foi importante
a negação de partes do passado (“history-less”), eliminando
para este fim os traços do muro e de alguns edifícios ligados ao
Nazismo, pensando- se em como atingir os maiores rendimentos
possíveis (Lehrer, 2006, p. 337). O planeamento urbano acabou
por ser utilizado como instrumento de estímulo, programando
um crescimento económico que valorizava economicamente
as propriedades municipais e reduzia as dívidas. Os eventuais
compromissos do projecto para satisfazer os actores económicos
chegaram a estimular comparações entre a maneira de fazer e
os valores ‘Europeus’, e os supostamente ‘Americanos’14.
1. Planta do Plan Voisin (Paris, França), Le Corbusier, 1925 (De Gracia, 1992, p. 46)
3. A Potsdamer Platz antes do muro (Berlim, Alemanha), 1931. 4. A Potsdamer Platz com o muro (Berlim, Alemanha),
(Reader, 2004, p. 201)
1963 (Reader, 2004, p. 201)
Hoje em dia, Berlim tem conseguido difundir a sua imagem pela
Europa e o resto do mundo, mas o desenvolvimento económico
e a expansão demográfica não se realizaram segundo as
esperanças das previsões iniciais. Os objectivos de atingir um
papel de ‘Cidade Global’ recuaram para a escala de cidade
capital da Alemanha reunificada, função oficial desde 1998.
O caso de Berlim ajuda a perceber o que pode acontecer quando
ideais de revitalização urbana cedem espaço a interesses mais
2. Maqueta do Plan Voisin (Paris, França), Le Corbusier, 1925 (Sandler,
1999, p. 24)
6. Renovação urbana falida - a demolição de Pruitt-Igoe (s.n., s.d.)
5. A Potsdamer Platz após sua renovação urbana
(Berlim, Alemanha), 2004 (Reader, 2004, p. 201)
Extracto I
31 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
fortes, resultando neste caso em operações de renovação
urbana descontextualizada, onde a experiência do espaço
urbano é reduzida ao consumo de imagens. O caso específico
da Potzdamer Platz pode ser considerado exemplo no qual o
processo da obra em construção faz parte de uma estratégia de
marketing (Lehrer, 2006, p.334).
Na reedificação desta zona, segundo Lehrer, houve a
spectacularisation (‘espectacularização’) do processo construtivo
e a projecção de Berlim como cidade global e centro cultural foi
feita através uma apresentação histórica manipulada e selectiva
(Lehrer, 2006, p.334). Neste caso é evidente o papel atribuído
ao planeamento urbano para a criação e demarcação de lugares
urbanos em que o contexto global acaba por prejudicar as
considerações do contexto na escala local. A competitividade de
uma grande cidade histórica baseou-se fortemente na edificação
e imagem dessa, de uma zona urbana, banalizando o resto.
Todavia, na mesma época, houve outras experiências urbanas
que, apesar de não sobreviverem, foram processos nos quais
surgiram novos conceitos, subsequentemente discutidos no
último caso de estudo desta dissertação, o Palast der Republik.
Revitalização
Tentou-se definir a revitalização urbana no início da presente
dissertação. Portanto, aqui pretende-se complementar essa
informação com alguns exemplos e críticas. É essencial perceber
que a revitalização pode consistir em acções muito variáveis,
implicando assim transformações urbanas de diversos tipos.
Uma evidente diferença entre este processo e o de renovação
urbana é a possibilidade de instigar mudanças significativas
na urbanidade de um lugar, sem necessariamente recorrer a
reconstruções físicas desestabilizadoras.
A revitalização, quando comparada com a renovação urbana,
pode promover mudanças mais subtis no edificado, nem sempre
visíveis no ambiente urbano. Este aspecto pode atribuir-se a
outra diferença vital entre as duas – a revitalização nem sempre
é planeada, por vezes acontece de modo espontâneo, sem a
intervenção das administrações públicas. Porém, considerando
o envolvimento destas últimas na criação de alguns lugares
públicos, Fernanda Sánchez utiliza três termos: a ‘sociabilidade
fictícia’, a ‘estetização das relações sociais’, e a ‘cidade-
espectáculo’ (Sánchez, 2009, p. 181), os quais reflectem uma
opinião desconfiada em relação aos efeitos da revitalização
urbana planeada. Segundo Sánchez, considerando situações
com forte envolvimento e planeamento por parte de autoridades
administrativas:
Por trás desses novos conjuntos urbanísticos apresentados
como capazes de recuperar a identidade local, assiste-se ao
surgimento de paisagens urbanas com resultados repetitivos
que, surpreendentemente, provocam a sensação de descolagem
com a identidade do lugar, muito embora sua justificativa
projetual se dê em nome de um diálogo com a cidade existente.
(Sánchez, 2009, p. 182)
De acordo com Sánchez, projectos políticos de cidade e a
consequente reorganização económica e espacial, na qual “o
urbanismo é instrumental à nova ordem”, causam dinâmicas
transformadoras que “reiteram a fragmentação espacial”
(Sánchez, 2009, p. 182). Assim parece que, segundo Sánchez,
as políticas de revitalização urbana, tentativas conscientes de
intervenção, têm resultados contrários às intenções. Em certos
casos, em vez de criarem projectos que se integram com a
cidade, manifestam- se em conflito com a identidade original da
cidade.
O fenómeno de gentrificação, evidentemente importante para a
compreensão de um contexto de revitalização urbana, está interrelacionado com a iniquidade e exclusão social.
Existem duas correntes de pensamento em relação aos
habitantes locais afectados negativamente pela gentrificação.
A primeira corrente atribui a responsabilidade ao indivíduo,
quando este não consegue aproveitar e adaptar-se às novas
realidades. A segunda corrente tem a opinião de que se trata
de uma questão estrutural de factores económicos e sociais, os
quais se podem e devem alterar, porque condicionam a geração
de riqueza e causam a exclusão social (Thorns, 2002, p. 175).
Sánchez, utilizando a definição da gentrificação de Neil Smith15,
faz parte do segundo grupo:
O processo dito de “gentrificação” designa as práticas de
reapropriação de espaços pelo mercado por intermédio de
operações urbanas que lhes conferem novo valor económico
e simbólico, geralmente orientando-os para o consumo –
residencial ou de serviços – das camadas médias. Apresentados,
para fins mercadológicos, como espaços “revitalizados”, neles,
porém, a população original vivencia a “revitalização” como
mecanismo gerador de expulsão e segregação social. (Neil
Smith apud Sánchez, 2009, p. 179)
Esta definição vê uma interligação entre operações urbanas, o
mercado imobiliário, a expulsão e segregação social, os quais,
de acordo com Sánchez, acontecem da seguinte maneira:
Em nome da sustentabilidade e da competitividade, muitos
desses projetos “revitalizadores” de regiões da cidade demarcam
novas fronteiras urbanas (Smith, 1996) e desencadeiam
processos de expulsão social e de gentrificação, de conversão
de segmentos da cidade às exigências e aos padrões de uma
nova geografia, uma nova recodificação das relações sociais ao
mesmo tempo inclusiva e excludente. (Sánchez, 2001, p. 179)
O projecto para a suposta revitalização do Transvaal, Haia,
um dos bairros mais pobres da Holanda, com uma população
de 17.000 habitantes, composta por 75% de estrangeiros, é
praticamente uma operação de renovação urbana de planeada
gentrificação, assim como entendida por Sanchez: 3.000 casas
de famílias com baixo rendimento vão ser substituídas por 1.600
novas unidades de luxo (Haydn e Temel , 2006, p. 89).
Entre as justificações para esta intervenção, incluem-se a
necessidade de reduzir uma densidade edificada muito alta,
criando, assim, mais espaços abertos, que também permitirão a
inclusão de uma maior variedade de elementos urbanos.
Um ponto a favor desta operação poderia ser o facto de que,
anualmente, 30% das habitações da zona mudam de residentes.
Algumas das situações de degradação urbana mais evidente
encontram-se em zonas que, tendo um passado industrial, têm
dificuldades na adaptação pós-industrial, marcadas por uma
falta de novas actividades que substituam as antigas.
Muitas políticas urbanas concentram-se na reabilitação de
edifícios habitacionais, ou como no caso do Traansval, na
reconversão de um bairro residencial numa área de nível mais
elevado e exclusivo. Pode-se assim supor que a forma urbana
de bairros industriais, com as suas diferentes estruturas préexistentes, poderá conter um elevado potencial para uma
revalorização e revitalização profunda e rica.
32
Crescimento
A preservação, renovação e revitalização são processos que por
vezes se constituem em acções e estratégias de política urbana,
sendo possível que a última destas surja de modo espontâneo
e não planeado. Se por um lado a primeira destas intervenções
consiste na protecção de um ambiente urbano, as outras tentam
impulsionar transformações a fim de evitar ou afrontar uma
situação de estagnação e declínio.
“Crescimento” aqui não implica apenas a expansão física, mas
a intensificação de actividades, da urbanidade e vivacidade
dos contextos urbanos. Neste sentido, pode ser considerado
o crescimento económico e (o retorno) populacional. Se estes
dois factores são elementos essenciais nos processos e
rumos previamente abordados, influenciando as dinâmicas e a
evolução dos centros urbanos, principalmente ocidentais, em
muitas regiões do mundo criam problemas com manifestações
contrárias.
Em contraste com algumas cidades ocidentais que, aproveitando
com êxito a revitalização e a regeneração urbana, voltaram a
crescer, e outras cidades que conseguiram ultrapassar períodos
de crise externa sem serem afectadas, as cidades dos países
em desenvolvimento apresentam tipos de ‘crescimento’ muito
diferentes. Sofrem de crescimento em termos físicos (expansão
urbana e crescimento populacional) e económicos. Em alguns
casos, o crescimento urbano não é acompanhado por um
ritmo de crescimento económico equivalente, e portanto não é
acompanhado por um melhoramento das condições de vida dos
(novos) habitantes locais.
De facto, muitos centros urbanos Asiáticos caracterizam-se por
altos ritmos de crescimento e migração, resultando numa grande
dificuldade em definir os limites urbanos, e a dialéctica periferiacentro. Ao mesmo tempo, nesta região, são identificáveis
sistemas espaciais pré-existentes, incluindo malhas urbanas
habitacionais e estruturas com as características estudadas. Mas
o planeamento urbano tem-se concentrado, predominantemente,
no novo, enquanto o que é antigo sofre intervenções de
renovação, como, por exemplo, nas cidades de Singapura e
Pequim.
Nestas cidades, a ênfase é virada para a construção de certas
tipologias, assim como afirma Sánchez (2009, p. 181): “A
Extracto I
33 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
construção de áreas dotadas de tecnologia de última geração,
recorrendo a escolha de torres a fim de enfatizar este aspecto,
autorreferentes em sua linguagem arquitectónica”. Todavia, em
contraponto, agora, em alguns casos, já se começa a perceber,
apreciar e a proteger o património, mesmo em Singapura e na
China, com seus bairros históricos a serem alvo de recuperação
e requalificação. Estas intervenções, em alguns casos, tendem a
subjugar-se a estratégias de marketing de cidades, enfatizando
contextos históricos específicos e não consistindo em tentativas
autênticas de preservação/regeneração.
Se por um lado, nos países desenvolvidos, o declínio urbano
está relacionado com o decréscimo populacional e a degradação
social e económica, por outro, seria importante perceber o que
vai eventualmente acontecer no Sul e no Oriente. Será o mesmo
que se tem assistido no Ocidente? Como? Quando? Quais
poderão ser as lições e experiências úteis do Ocidente? O que
se poderá aprender a partir do Ocidente em termos de erros e
experiências? No caso de centros urbanos que saltaram a fase
industrial, assiste-se actualmente à construção de estruturas de
mobilidade sem precedentes de escala. Verificam-se processos
de completa transformação.
As intervenções no espaço urbano consistem, em primeiro
lugar, na identificação e abordagem de factores críticos de
evolução, decisivos quando se pretende modificar o ambiente
urbano. Estudar e tentar colocar um contexto urbano específico
dentro das fases cíclicas urbanas pode ajudar a esclarecer
as circunstâncias que o definem, permitindo valorizar as
intervenções, de modo a haver fundamentos válidos e profundos,
que inserem a intervenção no sentido do lugar.
Além da compreensão de factores relacionados com os ciclos
urbanos, são identificáveis factores que podem ser considerados
independentemente das fases cíclicas, sendo mais relacionáveis
e com maior influência para o projecto de intervenção específico,
na escala arquitectónica de intervenção.
Factores fundamentais para a revitalização
Quando a leitura de um território conclui pela necessidade de se
efectuar operações revitalizadoras, essa constatação deve-se,
normalmente, à falta de elementos que o animam e lhe conferem
vitalidade no presente, alguns dos quais, possivelmente, teriam
existido no passado. Uma intervenção urbana poderia apontar
para o regresso destes elementos, tendo em conta que realçar
demais alguns factores, e subvalorizar outros, pode criar situações
de revitalização em que o resultado poderá manifestar-se como
parcial, aparente, superficial ou exclusivamente imagético,
servindo grupos sociais específicos e não necessariamente as
populações locais.
A revitalização urbana passa pelo investimento na requalificação
“em termos urbanísticos, económicos e sociais e pela criação
de condições de atractividade para o retorno de população e de
investimento económico aos espaços desvitalizados” (Antunes,
1996, p. 434). Identificam-se portanto três principais campos de
acção: o económico, o social e o urbanístico.
É difícil isolar completamente cada campo de acção,
relacionando-o com a revitalização, sem se referir as suas
relações com outros factores. Por exemplo, se num centro urbano
específico as actividades económicas habituais se considerassem
como não sustentáveis ou proíbidas, as actividades culturais,
convencionais e alternativas, poderiam, indirectamente, assumir
o papel do elemento económico, considerando que o sucesso
destas teria inevitáveis consequências a esse nível. Pode-se
supor que o campo social é o mais visivelmente relacionável
com a vivacidade de um ambiente urbano, sendo a vivacidade
efectivamente objectivo principal da revitalização.
O campo de acção urbanístico tem efeitos directos para, e
deveria ser considerado em função de, factores sociais e
económicos. As acções específicas no campo urbanístico (como
por exemplo incrementar zonas pedonais), podendo também ter
efeitos evidentes mas indirectos para os outros dois campos, só
podem ser consideradas bem-sucedidas quando resultam na
melhoria global e não discriminatória dos outros dois campos de
acção.
A revitalização efectiva de um contexto urbano implica a
criação e permanência de certas condições, que estimulam o
aparecimento de diferentes usos e uma variedade de funções,
proporcionando características que tornam os espaços urbanos
“vivos”. As dinâmicas de controlo, as políticas urbanas e o papel
do privado, em conjunto com a participação do público e a
utilização espontânea, são outros factores fundamentais para a
(dimensão urbana da) revitalização.
Usos e variedade de funções
A qualidade da urbanidade de um lugar deve-se à variedade
das funções presentes, funções desfrutáveis por vários grupos
sociais.
Desde a antiguidade que é apreciado o contributo dos espaços
públicos, facto não só visível nos vestígios de cidades antigas,
mas também nas palavras de Pausanias16, segundo o qual não
se pode chamar cidade a espaços onde não existem edifícios
públicos e praças. Por outro lado, Aristóteles17 considerou a
importância da diversidade dos habitantes de uma cidade,
sustentando que “A city is composed of different kinds of men;
similar people cannot bring a city into existence” (Madanipour,
2007, p. 161). Somando as duas afirmações, uma cidade, para se
considerar como tal, necessita de edifícios e espaços exteriores
públicos, em conjunto com uma variedade de pessoas.
Assim como previamente avançado, segundo Peter Hall, a
grandeza de Atenas na antiguidade não se deveu à sua forma
urbana (exceptuando-se a importância dos espaços públicos),
que não se revelou muito sofisticada em comparação com outras
civilizações antigas. O que se destacava nesta cidade eram as
actividades, como o teatro e vários festivais anuais, entre outras,
e a participação e interacção dinâmica dos seus cidadãos. Em
vez de conter cidadãos a viver vidas isoladas e condicionadas por
uma classe social ou profissão especializada e fechada, Atenas
oferecia aos seus cidadãos uma cidade aberta e interactiva.
Após milhares de anos, a importância da pluralidade de funções
e de espaços exteriores públicos é mais evidente que sempre,
e por isso estas são fundamentais para a revitalização urbana.
De acordo com o relatório Habitat do 2009 das Nações Unidas:
“ […] Mixed-use environments and good public open spaces are
important, especially as places for small and informal businesses”
(ONU, 2009, p. 17). Portanto, ambientes urbanos com a presença
de várias utilizações são importantes, assim como a presença
de espaços públicos abertos. Segundo as Nações Unidas, nesta
perspectiva incluem-se pequenas actividades empresariais
informais.
Este princípio não se deve limitar aos países em desenvolvimento
porque aparenta ter grande potencial em países com ambientes
urbanos estagnantes, sobrecarregados por leis e restrições,
34
e incapazes de fomentar um clima acolhedor para pequenas
iniciativas privadas.
É necessário relacionar a cidade directamente com essas
actividades para contrariar a dominância no espaço urbano
contemporâneo por complexos de edifícios mono- funcionais
urbanos e suburbanos, incluindo tipologias como os parques de
escritórios do sector terciário, sendo possivelmente o exemplo
mais emblemático os centros comerciais.
Podemos assim entender que uma grande quantidade de
actividades e funções não beneficiam efectivamente o espaço
urbano se ficarem fechadas dentro de limites, separando e
isolando o privado do público. Eberhard Zeidler18, em 1983, já
afirmava que a construção de grandes complexos multifuncionais
“[…] swallowed up the varied uses and activities along the
street and sealed them into a monotonous indoor environment”
(Eberhard, 1983, p. 9). A propensão para planear e construir de tal
modo é possivelmente explicável pela herança do modernismo e
pela relevância do conceito de zoning.
A ideia de zoning aplicada durante o modernismo parcelou
funções, ignorando, segundo Eberhard, a importância das interrelações urbanas:
Regrettably, the pioneers did not consider interconnectedness
within a city to be important. Instead they viewed cities as
containers for many separate functions, each one suffocating the
others unless they were kept separated [...] Failure of such utopian
models as urban renewal, satellite suburbs, office campuses
and the like has demonstrated the insensitivity – and futility – a
modern planning philosophy which ignored the interdependence
of everyday activities (Eberhard, 1983, p. 9).
Nesta citação, Eberhard critica o que, no seu entender, são
modelos utópicos, que pode concluir-se, eliminam ou evitam a
vivacidade do espaço urbano.
Características dos espaços urbanos “vivos”
A vivacidade do espaço urbano depende dos habitantes locais e,
concentrando-se especificamente nos centros, observa-se que
são dependentes também dos fluxos de pessoas provenientes
de outras zonas, quer sejam de zonas urbanas da mesma cidade
ou de locais externos ao próprio aglomerado urbano. No caso
Extracto I
35 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
mais extremo vêem-se algumas ‘cidades’ planeadas que não
deveriam ter esta designação pela evidente falta de habitantes
locais e visitantes externos, sendo um exemplo aparente a cidade
chinesa de Ordos, uma cidade ‘morta’ construída com a intenção
de acolher uma população de 1,5 milhões de habitantes19.
Como foi afirmado, para garantir centros urbanos vivos é
essencial uma presença humana que participa ativamente em
várias actividades. No estudo de psicologia ambiental, Liveliness
in town centres (Coeterier, 1994, p. 297), foram classificados os
possíveis objectivos que uma pessoa poderá ter quando visita
um centro urbano.
O estudo concentrou-se nos aglomerados urbanos holandeses
e juntou entrevistas com especialista, entrevistas aprofundadas
com cidadãos, inquéritos de opinião, e um estudo da literatura
sobre o tema. A primeira observação é a de que as pessoas
costumam visitar um centro urbano quando têm mais do que
um objectivo. No estudo foram classificados os vários tipos de
objectivos possíveis em duas categorias: objectivos implícitos e
objectivos explícitos.
Os objectivos explícitos são a principal razão para uma visita a
um centro urbano. Consistem em actividades específicas como,
por exemplo, comprar algo não disponível numa loja de bairro, ir
a um concerto ou restaurante, olhar para as vitrinas das lojas ou
visitar uma galeria de arte.
Um objectivo implícito trata-se de uma actividade ligada a
uma experiencia sensorial e psicológica. Nesta categoria, por
exemplo, inclui-se a observação e a recolha de informação,
porque é nos centros urbanos que se observam pontos cruciais
da cultura, e suas últimas manifestações. Observar as pessoas,
o que vestem e como se comportam, ou simplesmente a acção
de observar ambiências e posters publicitários.
De acordo com o estudo, um objectivo implícito é o lazer, o qual
consiste num equilíbrio entre relaxar e exercer. Relaxar pode
consistir por exemplo em absorver passivamente a paisagem
urbana envolvente, observando outras pessoas a trabalhar.
Exercer, por outro lado, consiste numa experiência activa, como
são por exemplo os actos de se adaptar a níveis elevados de
som/barulho/poluição acústica, evitar tráfego, andar pelo meio
da multidão, e em geral estar num estado de alerta. Participar na
vivacidade é um tipo de lazer, mas as pessoas também visitam
os centros urbanos porque “need to belong to, or to feel part of
a greater whole; to be among other people” (Coeterier, 1994, p.
304).
O estudo Liveliness in town centres também identifica algumas
condições externas e ambientais, determinantes para a
vivacidade de um centro urbano. Elaborando um factor já
avançado, manter a diversidade a nível de funções presentes
num centro urbano, e por isso garantir a possibilidade de
uma pessoa escolher entre várias soluções para alcançar um
objectivo, garante uma diversidade, seja das pessoas seja dos
grupos de pessoas presentes.
Uma diversidade de funções atrai uma diversidade de pessoas.
Mais especificamente, no comércio e retalho, esta ideia orientanos para não limitar a ocupação do espaço a lojas genéricas,
mas também encorajar a presença de lojas especializadas.
No sector da restauração trata-se do mesmo: deve existir uma
variação onde, por exemplo, cafés convivem com restaurantes
grandes e pequenos, com diferentes clientelas. Para gerar
uma dinâmica urbana relevante, é importante manter um
equilíbrio entre os serviços públicos e as entidades privadas.
Simultaneamente deverão existir correios, serviços de saúde
e bancos, coexistindo com empresas com menor visibilidade e
interacção com o domínio público.
A diversidade de funções implica a protecção ou pelo menos
o apoio às funções frágeis do ponto de vista económico,
evitando assim dar uma exagerada importância ao estímulo do
crescimento em termos meramente económicos. As ruas devem
ser animadas com músicos e mercados, complementados com a
cultura e o lazer através de espaços públicos, galerias, livrarias e
até actividades desportivas (Coeterier, 1994, p. 305).
Entre outras observações feitas pelo estudo Liveliness in town
centres podem incluir- se a importância de garantir uma variação
nos percursos que o público poderá utilizar, desenhando um
layout multifuncional, e a importância da diferenciação espacial,
evitando a monotonia, não só nos espaços abertos, mas,
também, no desenho exterior dos elementos construídos.
Essencial para a vivacidade de um centro urbano é a
acessibilidade ao mesmo, um ponto importante que a seguir será
relacionado e abordado dentro do contexto da exclusão social e
da segregação espacial.
Dinâmicas de controlo: as políticas urbanas e o papel
do privado
Após a consideração de factores e características essenciais para
garantir a vivacidade de um contexto urbano, convém abordar
alguns factores e características negativas que as políticas
urbanas deveriam examinar quando planeiam operações de
revitalização urbana. De acordo com Sánchez:
A própria noção de “revitalização” é representação carregada
de valor: acaso sugere que no espaço “revitalizado” não haveria
antes nenhum tipo de vida social, recriada agora mediante o
gesto planejador? Também a noção de “renovação” de áreas
pretende sinalizar a necessidade impreterível de reconfigurar a
geografia e a história social de um lugar cujas características
pretéritas não estariam de acordo com os conteúdos desejáveis
para o atual projeto de cidade. (Sánchez, 2009, p. 179)
Sánchez sugere portanto o possível afastamento das realidades
urbanas, nas quais algumas respectivas autoridades agem
desrespeitando o passado, e critica a visão limitada na qual se
assiste à revitalização urbana planeada a partir do topo, sem
tentar perceber e valorizar as situações urbanas pré-existentes.
A intervenção no património construído é um importante
elemento quando se consideram políticas de revitalização
urbana. Focalizando-se nas acções de reconversão, existe
por um lado o risco de se criarem espaços culturais ‘mortos’
(Sánchez, 2009, p. 184), entendendo-se, neste âmbito, por
exemplo, museus e galerias que servem um público-alvo muito
reduzido, com efeitos de ‘revitalização’ limitados. Por outro
lado arrisca-se a sobrecarregada ênfase no rendimento de tais
espaços, considerando-os como geradores de revitalização
económica e prestando excessiva atenção à comercialização,
nos piores dos casos destinada a um nível muito exclusivo de
consumidores. Um elemento importante, relacionado com o peso
excessivo do comércio em alguns centros urbanos revitalizados,
é o papel do turismo.
Privilegiar alguns grupos, possivelmente com custos para os
habitantes locais, os quais deveriam ser mais beneficiados
pela revitalização , levanta a questão do acesso. Voltando a um
conceito já avançado, de acordo com Madanipour, “The question
of social exclusion and integration, it can be argued, largely
revolves around access” (Madanipour, 2007, p. 162).
36
A questão do acesso é multifacetada, incluindo temas como
o acesso a recursos, processos e poderes de decisão, mas o
estudo aqui concentra-se essencialmente no elemento espacial.
Em termos espaciais, a questão do acesso manifesta-se de
várias formas, onde este é negado ou permitido. De acordo com
Madanipour, quem sofre de ‘opções’ sociais limitadas, ao mesmo
tempo, é restringido espacialmente, sendo o máximo exemplo
a comparação entre o prisioneiro e os executivos do jet-set 20
(Madanipour, 2007, p. 162).
O espaço ser considerado como uma sucessão/continuidade
de lugares acessíveis e lugares não acessíveis, ou como uma
colecção de espaços abertos, fechados ou controlados21. Um
factor importante é o papel do sector privado, que se marca
pela entrada do sector financeiro na construção e gestão de
ambientes urbanos, causando a privatização do espaço. Em
alguns casos, a relação entre espaço público e espaço privado
é distorcida, resultando em situações onde o espaço público é
vigiado contra ‘intrusões’ por interesses privados (Madanipour,
2007, p. 164).
Grandes empresas e actores financeiros consideram o
ambiente como mercadoria, e estes acabam por construir e gerir
ambientes urbanos como se fosse tal, resultando num espaço
urbano em que, segundo Madanipour, “ […] increasingly large
sections are managed by private companies, as distinctive
from those controlled by public authorities” (Madanipour, 2007,
p. 164). Assiste-se assim ao controlo social, na forma de forte
vigilância privada de lugares como os centros comerciais e os
empreendimentos residenciais privados, separados do tecido
urbano público através de delimitações espaciais e do controlo
de acessos.
Por outro lado, o sector privado pode ser um forte elemento
vitalizador de espaços abertos e públicos, dando vida a espaços
moribundos ou ‘mortos’ quando se tratam, por exemplo, como
já referido, de pequenas actividades empresariais com algum
factor de informalidade. Alguns exemplos semelhantes são
os quiosques de Lisboa, os periptera22 de Atenas e os kiosco
de barrio23 de Buenos Aires, os quais, com dimensões muito
reduzidas, vendem uma grande variedade de produtos, desde
gelados e chocolates, até bebidas, tabaco e jornais. Este
conceito tem um interessante potencial de dinamização e
vitalização urbana se for aplicado às estruturas pré- existentes
Extracto I
37 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
aqui consideradas, onde a participação do privado, controlada,
limitada e de pequena escala poderá dar vida a espaços públicos
marginais e subutilizados.
A participação do público, e a utilização espontânea
Evidentemente, nos espaços urbanos revitalizados, a
participação do público é uma consideração mais importante
para a revitalização urbana do que o tipo e nível de participação
do privado. Mais do que simples acesso e participação em
actividades nos elementos urbanos de uma zona revitalizada,
o termo participação abrange os processos de planeamento
urbano e de como o público, especificamente os habitantes
locais, poderão participar na vivência, na programação e no
desenho urbano.
A designação ‘Centro Cultural’ faz pensar num espaço ou
grupo restrito de espaços que reagrupam mais actividades,
nomeadamente os museus, as galerias de arte, as óperas, as
bibliotecas e os teatros. Para revitalizar um centro urbano num
modo equitativo e justo, é preciso fazer algumas perguntas. O
público geral utiliza estes espaços ou acabam por ser utilizados
por grupos sociais específicos, por pessoas provenientes de
fora, como os turistas e visitantes específicos, alienando ao
mesmo tempo a população local? Quais são as possíveis
actividades alternativas, actividades mais abertas e flexíveis no
domínio público? Através de que estudos e abordagens será
possível definir, planear e implementar programas e usos mais
inclusivos? Será possível chegar a soluções actuais superiores
através da experimentação de usos temporários?
Em 1991, num período caracterizado por mudanças significativas,
a cidade reunificada de Berlim instituiu o Stadtforum, o fórum da
cidade, numa estratégia de planeamento participativo. O debate
sobre o futuro da cidade e a sua reconstrução e desenvolvimento
tinha trazido vários especialistas para discutir ideias e formular
planos.
O objectivo do Stadtforum era consultar e, quando possível,
garantir a unanimidade do público. Pretendia-se que funcionasse
como plataforma de discussão e intercâmbio de ideias e
pareceres entre o público e os outros actores do processo
de desenvolvimento urbano, de forma a manter um diálogo e
negociação racional (Reader, 2004, p. 289).
Através deste meio, urbanistas, arquitectos, construtores, as
autoridades municipais e empresários dialogaram com o público
Berlinense durante dois anos. O Stadtforum, acção pioneira que
prometia muito, acabou por ser impotente perante os interesses
económicos da cidade, os objectivos das grandes empresas e
um governo com as finanças descontroladas e um alto déficite
para reduzir.
A ideia da participação colectiva no planeamento urbano não
surgiu recentemente, tendo algumas bases nos estudos de Paul
Davidoff 24 nos anos 1960, que defendia a importância de,
[...] cultivate community networks, listen carefully to the people,
involve the less- organized groups, educate the citizens in how
to join in, supply information and make sure people know how to
get it, develop skills in working with groups in conflict situations,
emphasize the need to participate, compensate for external
pressures. (Davidoff, 2007, p. 402)
Entre muitos pontos, destacam a educação do público em como
participar, e a participação do próprio público. Davidoff abordou
também o tema da inclusão, afirmando que: “‘Inclusion’ means
not only permitting the citizen to be heard. It also means that he
be able to become well informed about the underlying reasons
for planning proposals, and be able to respond to them in the
technical language of professional planners” (Davidoff, 2007, p.
402). Por outras palavras, a inclusão pode considerar-se como
tal, quando o público, conhecendo a linguagem dos especialistas,
está informado sobre as razões por detrás das propostas das
operações de planeamento urbano.
Nos anos 60, era norma ter planos urbanos redigidos
exclusivamente por administrações públicas, apresentando
soluções únicas. Tomando em consideração as ideias
manifestadas por Davidoff, a seguinte passagem levanta
algumas questões legítimas:
Davidoff [...] criticises what might be called a “unitary plan” [...]
this is the idea that only one agency in a community should
prepare a comprehensive plan; that agency is the city planning
commission or department. Why is it that no other organisation
within a community prepares a plan? Why is only one agency
concerned with establishing both general and specific goals for
community development, and with proposing the strategies and
costs required to effect the goals? Why are there no plural plans?
(LeGates e Stout, 2007, p. 400)
A participação do público, inevitavelmente, resulta em varias
opiniões e propostas, enquanto os planos unitários reduzem a
complexidade dos contextos urbanos. As propostas de Davidoff
para o planeamento pluralístico, se por um lado defendiam
a pluralidade, por outro lado reconheciam a importância e
competência das administrações públicas, enfatizando todavia
o risco destas se isolarem, produzindo análises incompletas e
pouco aprofundadas das realidades urbanas.
David Harvey25 também acrescentou ideias inerentes ao tema
aqui abordado. Por referência aos estudos elaborados por
Harvey, pode afirmar-se, “What looks like a good solution to urban
development to one generation [...] may not look so good to the
next generation. This is why Harvey urges planners and policy
makers to design flexible, adjustable cities and to encourage fluid
social processes that can change over time” (LeGates e Stout,
2007, p. 226). Ao lado da participação, portanto, podem juntar–
se a flexibilidade, as mutações das dinâmicas sociais, e como
estas se relacionam com o tempo.
Em conjunto com factores da dimensão urbana de uma
intervenção, torna-se essencial considerar a ponte de ligação
com a escala arquitectónica. Relacionando as actividades
urbanas com os elementos de delimitação arquitectónica,
explorando as maneiras de dar vida aos elementos físicos
permanentes, ganham aqui valor as noções da participação, dos
usos temporários e da flexibilidade.
Participação, usos temporários, flexibilidade
O princípio da participação está intrinsecamente ligado aos
importantes factores da flexibilidade e do efémero, sendo os
grupos sociais mais inclinados à mudança do que as autoridades
e os sistemas burocráticos. A participação do público na
definição de processos de planeamento naturalmente não se
limita a políticas mas pode consistir no envolvimento directo
nas decisões e definições específicasde intervenção na escala
arquitectónica.
Os planos urbanos, instrumentos de ordenamento do território,
por vezes são meios rígidos e têm uma certa dificuldade na
implementação e criação de zonas multifuncionais e espaços
multi-usos.
38
Em alguns casos, esta rigidez dos planos é condicionada pela
noção inflexível do tempo, fixando prazos para a alocação
de usos predeterminados e não testados. Através de usos
temporários, a experimentação na fase de criação e planeamento
de programas urbanos ajuda a encontrar ideias e soluções que
surgem de maneira espontânea e natural, criando a diversidade
e a riqueza de soluções e actividades, essenciais para garantir
uma urbanidade vivificada.
Uma categoria ulterior e relacionada com usos temporários poderia
ser a dos usos múltiplos, a qual se divide em duas subcategorias.
A primeira, a dos usos ínterim, consiste no aproveitamento
das lacunas nos ciclos de utilização de um espaço específico
para introduzir outros usos não necessariamente por motivos/
fins económicos. Assim, um espaço pode ganhar valor social e
multiplicar as suas relações com o espaço urbano envolvente
em períodos de menor intensidade de uso. Outra subcategoria
é a dos usos múltiplos, que visa agregar novos usos aos usos
pré- existentes e dominantes (Haydn e Temel, 2006, p. 11 e 12).
Depois das considerações sobre planeamento e interpretação
do espaço urbano (enquanto um todo e nos seus elementos
estruturais da envolvente), é necessária a concentração na
escala do elemento arquitectónico construído, nas próprias
estruturas pré-existentes e no modo como poderiam ser
sensivelmente revalorizadas.
Escala arquitectonica
Considerando a importância da variedade de funções para a
vitalidade do espaço urbano, é natural fazer considerações
referentes aos espaços multifuncionais. Eberhard Zeidler (1983)
defende a presença das edificações multi-usos nos centros
urbanos e a sua relação com o contexto urbano envolvente,
delineando algumas regras que um edifício deverá cumprir.
Referindo-se directamente à reutilização de edifícios préexistentes, Eberhard dá particular importância à viabilidade
económica. Segundo ele, estabelecer o custo inicial de um
edifício é uma operação mais fácil em comparação com o cálculo
do custo relacionado com a readaptação de um edifício para um
novo ciclo de vida funcional, que, em alguns casos específicos,
pode ter um custo superior ao custo inicial de construção. Na sua
perspectiva, a verdadeira viabilidade económica é alcançável
Extracto I
39 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
apenas através da inter-relação de quatro parâmetros: capital,
custos operativos, manutenção, e custo de adaptação (Eberhard,
1983, p. 154).
O capital de construção, a manutenção e os custos energéticos
estão todos estreitamente relacionados. Aqui Eberhard faz uma
importante comparação entre os edifícios novos e as possíveis
vantagens na adaptação de um edifício existente. De acordo
com o autor, há uma lógica paradoxal em alguns casos de
edifícios, os quais, premiados pela eficiência energética, acabam
por ser utilizados só durante os horários de trabalho, cinco dias
por semana, ficando assim vazios e inutilizados durante 70% do
tempo.
Com a óptica dos méritos de um edifício multifuncional, Eberhard
comenta sobre a possibilidade dos trabalhadores chegarem a
tais edifícios, teoricamente sustentáveis, por meios privados,
carros, que na totalidade gastem mais energia que o edifício
onde trabalham. Um edifício multi-usos, com múltiplos ou mais
extensos ciclos de utilização diária, pode enfrentar melhor as
questões energéticas e económicas, e ter um ciclo de vida útil,
com custos reduzidos, também para o sistema urbano, com o
qual se encontra interligado. Esta abordagem está de acordo
com a ideia dos usos ínterim acima apresentados.
Outro factor importante, segundo Eberhard, é a relação de um
edifício multi-usos com as actividades urbanas e a sua criação
de novas actividades. A remoção de actividades públicas do
campo urbano visível, para espaços escondidos privados,
reduz a qualidade de vivência de uma cidade. É importante
maximizar a visibilidade e a acessibilidade e também encorajar a
introdução de actividades que ajudem a promover a vivacidade
de uma cidade. Portanto, a visibilidade pode juntar-se ao factor
já abordado da acessibilidade.
Entre outras considerações propostas por Eberhard, sempre em
referência aos edifícios multiusos nos centros urbanos, realçamse as seguintes:
- A ligação ao espaço urbano. As edificações multi-usos deveriam
manter o papel de ligação visual e funcional dentro da estrutura
urbana.
- A promoção da diversidade social - Algumas dinâmicas e o
crescimento periférico das cidades resultam em condições
próximas de gueto, contribuindo para a degradação de certas
zonas urbanas (definido por Eberhard como síndrome PruittIgoe). O uso diversificado dos espaços pode equilibrar e manter
a coesão e a inserção social.
- A relação com a situação histórica e cultural do lugar.
- A inter-relação de funções diferentes.
- Responder a natureza psicológica do Homem.
3. CASO DE ESTUDO I . HIGH LINE, NOVA IORQUE
O projecto da High Line consistiu na readaptação de uma antiga
via-férrea elevada. Este caso, que se trata de um projecto de
transformação de uma infra-estrutura obsoleta em parque urbano
feita por etapas, pode considerar-se emblemático do potencial
que advém da conjugação equilibrada da iniciativa pública,
espontânea, com as autoridades do planeamento urbano.
Em suma, pretende-se compreender a pertinência das estruturas
arquitectónicas para a revitalização das cidades. Principalmente
de estruturas urbanas específicas, mais significativas e
destacadas. Ou seja, as obras dominantes nos seus contextos,
com forte presença física no território onde se encontram, e com
características espaciais relevantes, que permitam criar soluções
inovadoras e multifuncionais.
A incerteza sobre o que fazer dela, nas décadas seguintes, fez
com que a linha de comboios fosse sendo invadida por uma
vegetação selvagem, muito resistente às condições climáticas
e à falta de irrigação, resultando numa variedade de plantas
e árvores que criaram uma “third landscape” (Ciorra, 2009, p.
24), uma paisagem selvagem que crescia em cima de uma
construção humana completamente urbana.
A infra-estrutura, construção funcional de estética industrial, não
era muito estimada pela população local e durante os anos 90,
desde os habitantes dos bairros circunstantes até ao presidente
da câmara de Nova Iorque, Rudolph Giuliani, era dominante
a opinião de que deveria ser desmantelada. Chelsea, o bairro
principal, que atravessava, estava a transformar-se numa área
chique através de processos de gentrificação na zona de Lower
Village. No entender das autoridades aquele era um “vestígio de
uma cidade diferente”, “um peso morto e feio”, que interferia com
as potencialidades de um bairro com a presença de galerias de
arte, restaurantes e apartamentos caros28.
A preocupação com a sustentabilidade tem tido um efeito
significativo nas novas construções, e esta preocupação estendese cada vez mais aos edifícios pré- existentes. Considerando
que em países como Portugal e Itália o volume já edificado é
muito superior às necessidades da população (em declínio), a
revalorização ganha ainda mais peso. Em Lisboa estima-se que
21% do edificado da cidade consista em prédios devolutos e que
um total de 11 mil edifícios necessitem de obras urgentes26.
Se a noção de sustentabilidade, no sentido completo, vai
além das questões energéticas, é preciso considerar factores
e pensar em soluções económicas e sociais. Completando
os três campos de acção, as acções urbanísticas devem
concentrar-se na multifuncionalidade e na perspectiva
alargada de sustentabilidade. Os números acima reproduzidos,
referentes à realidade Lisboeta, realçam a necessidade de
coordenar políticas urbanas que poderão ser implementadas
activa e rigorosamente, consistindo em acções semelhantes
multiplicadas para numerosos elementos arquitectónicos.
40
7. Vista aérea na direcção da zona de Chelsea (Nicolin,2009, p.11)
Este tipo de processo, no caso da High Line, resultou num
espaço aberto acessível a vários grupos sociais, não sujeito
à tendência de apropriação por parte dos interesses políticos
ou pressões económicas. Nesta intervenção, passou-se de
um lugar em estado de degradação, que imprimia um aspecto
negativo ao espaço urbano, para uma solução que valorizou e
veio qualificar o espaço desde o bairro até à cidade onde se
insere, Nova Iorque.
A High Line localiza-se em Manhattan, Nova Iorque, estendendose por cerca de 2,3 quilómetros entre duas zonas27, o Meatpacking
District e a 34thStreet. Construída no ano de 1930, servia de
ligação entre uma zona de fábricas e armazéns e uma área de
distribuição (Central goods yard), isto até ao seu abandono nos
anos 80.
8. As linhas férreas antes da intervenção (David, 2007, p. 201).
9. Vista aérea da estrutura abandonada, invadida pela vegetação selvagem, Joel
Sternfeld (Sternfeld, s.d.)
Extracto I
41 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
A possibilidade de olhar para esta estrutura obsoleta e observá-la
com outra perspectiva surgiu graças ao fotógrafo Joel Sternfeld:
Durante os anos de abandono, ele obteve imagens
impressionantes da High Line, como uma fita de verde
serpenteando através de uma paisagem industrial urbana …
as suas fotografias desempenharam um importante papel na
formação de uma base pública de apoiantes da preservação
da linha para uso público. Joel demonstrou que aquele objecto
industrial ferrugento podia efectivamente assemelhar-se a um
parque. (Goldberger, 2011, p. 62)
As imagens do Sternfeld, tiradas do lado superior da estrutura
metálica, levantada do solo a uma altura de quase três andares,
mostravam o que não podia ter sido possível apreciar (um plano
não visível ao público): uma superfície invadida pelo verde que
se inseria e contrastava com o tecido urbano.
Se a década de 90 foi marcada pelos movimentos a favor da
destruição da High Line, nos últimos anos desta década algo
mudou e começou a ganhar peso uma opinião a seu favor.
Num processo espontâneo e marcado pela evolução de ideais,
passou-se de um movimento inicialmente a favor da preservação
da infra-estrutura para um movimento que garantiu o êxito da
sua transformação em estrutura base sobre a qual se construiu
um parque suspenso, pensado ao mesmo tempo como passeio
público, praça urbana e jardim botânico, “um dos mais inovadores
e convidativos espaços públicos de Nova Iorque” (Goldberger,
2011, p. 60).
O processo de transformação só podia ser possível através de
uma mudança de mentalidade das pessoas, desde os vizinhos
da estrutura até aos funcionários da administração pública.
Numa reunião comunitária, no ano de 1999, sobre o futuro da
linha, só duas pessoas se encontravam a favor da salvação da
linha: Joshua Daniel e Robert Hammond. Nesta mesma reunião,
a empresa ferroviária CSX, proprietária da linha, apresentou
planos para a revitalização da ferrovia, planos rejeitados pelas
pessoas presentes. Joshua Daniel e Robert Hammond, por outro
lado, os únicos interessados na possibilidade de realizar esses
planos, pediram aos funcionários da empresa que os deixassem
visitar a linha, onde o Joshua diz que chegaram a ver “2.500
metros de flores silvestres no meio de Manhattan” (Goldberger,
2011, p. 64). Em 1999, com a intenção inicial de preservar a linha
de comboios, os dois homens formaram a associação Amigos
da High Line, e entretanto aperceberam-se do potencial da
estrutura abandonada, não a vendo apenas meramente como
um espaço mal apreciado a proteger da demolição, mas como
uma oportunidade para a criação de um novo espaço público
qualificado.
Com a passagem do tempo, o crescente interesse da
comunidade29 na iniciativa dos Amigos da High Line resultou num
estudo de viabilidade económica, no qual se reconhecia que a
reconversão da High Line ajudaria o bairro.
10. Cortes do projecto de revalorização, James Corner Field Operations (Ciorra, 2009, p. 25)
O passo seguinte foi a organização de um concurso de ideias
aberto a qualquer cidadão, o qual atraiu a participação de 720
ideias, vindas de 36 países.
Uma outra intervenção de referência, que contribuiu para o
êxito alcançado pela intervenção da High Line, foi, pela sua
semelhança, a Promenade Plantée, uma linha ferroviária
localizada em Paris que foi transformada em parque linear
após anos de abandono. As autoridades, na altura também
convencidas da viabilidade de uma transformação, fizeram um
acordo com a associação Amigos da High Line para a definição
e construção de um projecto para um novo parque, atribuindo
fundos30 e, através da comissária do planeamento Amanda
Burden, elaborando normas de ordenamento do território para a
zona31. Um concurso de ideias, realizado no ano de 2003, teve
como resultado a pré-selecção de quatro grupos de arquitectos,
sendo os vencedores finais uma colaboração entre James
Corner Field Operations32 e o atelier Diller Scofidio e Renfro33.
A proposta vencedora conseguiu equilibrar vários factores:
11. Diferentes tipos de ocupação no High Line, James Corner Field Operations (David, 2007, p. 204)
[...] proved straight away to be a perfect combination of Corner’s
ability to state and open up the qualities of a hanging garden,
and DS+R’s gift for spotting the essence and immediacy of
its architecture. This made it, even in times of economic and
figurative, crisis, an effective way of getting a community to
recognise itself in its own space. (Ciorra, 2009, p. 24)
Isto quando as outras propostas poderiam ser consideradas
por um lado, excessivamente ligadas a uma “eloquência
arquitectónica”, e por outro ligadas a uma retórica “vegetal”34.
Agregando a sensibilidade às qualidades arquitectónicas da
estrutura pré-existente, os projectistas conseguiram equilibrar
outros factores como a escala:
12. Paisagem Típica, James Corner Field Operations (David, 2007, p. 204)
42
Extracto I
43 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
The project has respected the sense of the location & scale of
the High Line, holding a refined dialogue with the former railroad
based on details and small stratagems: the tracks emerge
between the ties of the new paving, the chaise-longues move on
steel wheels [...]. (Nicolin, 2009, p. 14)
O projecto final consistiu assim na transformação de uma viaférrea em espaço público e, tendo em conta as relações únicas
criadas pela altura desta estrutura aérea, na modificação das
relações pré-existentes, entre pessoas e elementos urbanos
presentes na zona: “de modo a posicionar estrategicamente o
corpo em diversas elevações, debaixo, dentro e acima da High
Line” (David, 2007, p. 200). Os acessos a esta estrutura foram
pensados como passagens onde se prolonga a transição do
ritmo frenético da cidade para o mundo suspenso da High Line.
Ao longo do percurso estão inseridas algumas intervenções
arquitectónicas, mas a estratégia principal, agri-tecture, é uma
tentativa de chegar à combinação ideal entre matéria orgânica e
materiais de construção. Consiste numa mistura entre o mineral
e o vegetal, entre agricultura e arquitectura, dando particular
atenção às transições entre os diferentes tipos de superfície35.
O objectivo é conseguir combinar o material orgânico com os
elementos e materialidades antigos e novos da estrutura,
chegando a criar uma experiência espacial na qual “o parque
acolhe o selvagem, o cultivado, o íntimo e o social” (David,
2007, p. 200). Noutras palavras, a superfície pavimentada, a
vegetação e a “arqueologia industrial” interagem e integram-se
de modo a obter espaços contrastantes que ao mesmo tempo
fazem parte de uma lógica de coerência e continuidade espacial.
Até certo ponto mantém-se a aparência selvagem de quando a
estrutura estava abandonada e através da introdução de rampas
é permitida a interligação de vários lugares: nichos, zonas de
descanso, miradouros, escadas e elevadores que permitem o
acesso a partir do nível da rua.
O projecto foi dividido em três fases, sendo cada uma um troço
de cerca de 800 metros de vias-férreas elevadas. O início de
construção do primeiro troço começou na primavera de 2006,
aberto no verão de 2009, e a abertura do segundo troço estava
prevista para a primavera do ano de 201136, prolongando o parque
por mais de dez quarteirões. O terceiro troço, ainda propriedade
do operador ferroviário CSX, ainda não tem um plano definitivo,
mas espera-se que venha a ser convertido nos próximos anos.
No resultado final as pessoas estão “em contacto com a vida da
rua mas, ao mesmo tempo, mantêm-se longe dela” (Goldberger,
2011, p. 60), este “desliza sob edifícios distintos” (Goldberger,
2011, p. 66) e “flutua” cerca de oito metros acima do solo, pelo
meio de edifícios antigos e recentes, e oferece uma maneira
diferente de ver e habitar a cidade, introduzindo novas funções,
usos e espaços urbanos.
O projecto da High Line deu à cidade de Nova Iorque um parque
linear flutuante para passear, que se abre sobre as vistas de
Manhattan e do rio Hudson, espaço onde se pode apanhar sol e
que modifica a relação da pessoa com o espaço urbano: “Uma
das mais impressionantes características da High Line é a forma
como, enquanto por ela caminhamos, dez quarteirões passam à
velocidade de dois, por não termos de atravessar ruas nem de
esperar pela mudança das luzes dos semáforos” (Goldberger,
2011, p. 60).
13. Entrada St. Gansevoort, Diller Scofidio + Renfro (David, 2007, p. 202)
Na intervenção da High Line, podem identificar-se dois
momentos de vivências diferenciadas. O primeiro, como espaço
público, espaço urbano aberto, transforma-se num momento com
considerações mais arquitectónicas. Neste caso, uma secção da
High Line transforma-se num espaço parecido com um anfiteatro,
suspenso por cima da décima Avenida, “permitindo que os
visitantes se sentem e observem o trânsito a deslizar sob os seus
pés” (Goldberger, 2011, p. 67). A passagem da antiga ferrovia
por cima de uma rua movimentada transforma-se num anfiteatro
urbano com bancadas de madeira que descem até uma “janela”
que enquadra os fluxos do trânsito em baixo, permitindo às
pessoas, sentadas, a observação dos fluxos de veículos a partir
de uma posição inesperada. O segundo momento é um troço
coberto pelo Mercado de Chelsea, destinado a manifestações
artísticas públicas e eventos especiais (performances), local que
já foi palco de actuações de companhias de dança. Com este
exemplo se reforça a ideia de que a transição entre espaços faz
parte de uma lógica de continuidade, que evita a forte subdivisão
do espaço urbano.
No projecto da High Line, a partir de uma infra-estrutura obsoleta
e abandonada criou-se um espaço público útil, inspirando-se,
com sucesso, num estado adquirido espontaneamente após
anos de abandono, chegando a um “equilíbrio entre o requinte
e a rudeza industrial” (Goldberger, 2011, p. 65); “The entire
project turns on the intrinsic beauty of the relationship between
the infrastructure and the life of the plants that grow on it” (Nicolin,
2009, p. 12).
15. Relação com, e integração no edificado urbano (Ciorra, 2009, p. 26)
14. A “janela” que permite a observação do trânsito (Ciorra, 2009, p.28)
44
Extracto I
45 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
A arquitectura, ou melhor, a intervenção arquitectónica não se
define como protagonista do espaço. Complementa e integra-se
na estrutura industrial pré-existente e permite a introdução de
novas funções e actividades, dando mais importância todavia,
não ao número e tipo de actividades, mas à variação espacial,
estimulando uma experiência mais profunda da cidade. O espaço
pode ser considerado como um só ou como uma sucessão
fluida de lugares e condições diferentes de estar, sempre
integrados através da rigorosamente planeada, e aparentemente
casual, transição espacial. Assim como referido por James
Corner, “Quisemos preservar a sensação de se tratar de uma
linha ferroviária, mas ao mesmo tempo introduzir variações”
(Goldberger, 2011, p. 61), onde a criação de diversas paisagens
resulta em sensações diferentes. A criação das condições acima
apresentadas pode ser directamente relacionada com o grande
sucesso o qual é atribuído pelo recurso a várias fontes para o
projecto, quando foi aberto ao público:
“ [...] uma dessas raras circunstâncias nova-iorquinas em que
uma ideia maravilhosa foi concretizada e transformou-se num
resultado melhor do que o imaginado”. (Goldberger, 2011, p. 60)
“ [...] capacity to put together a project of great integrity and
vigorous theoretical impact, in a concrete, feasible proposal that
was, not surprisingly, immediately digested”. (Ciorra, 2009, p. 24)
“ [...] capacity to convert a leftover strip into a genuinely public
space, in which a community can identify itself”. (Ciorra, 2009,
p. 24)
Este sucesso passa da escala de bairro à escala de cidade:
“Quando o ordenamento foi promulgado, a área envolvente
transformara-se num dos bairros mais procurados da cidade”
(Goldberger, 2011, p. 64). Sendo a High Line em si considerada
um dos lugares mais populares de Nova Iorque, frequentada
durante todo o ciclo do dia, é, em paralelo, uma das principais
atracções turísticas da cidade. O êxito desta intervenção não
se pode negar, pois consegue ser ao mesmo tempo um lugar
visitado por pessoas vindas do estrangeiro e continuar a servir
a população vizinha, como parque de bairro, resultando num
espaço urbano “vivo”, devido à sua capacidade para criar
condições que incentivam objectivos explícitos para quem a
visita/utiliza.
À escala urbana, é evidente que em termos urbanísticos,
económicos e sociais, tenha sido revalorizado o espaço urbano
envolvente. Pese embora que a zona envolvente já estivesse a
ser transformada e tivesse também condições de atractividade, a
High Line, apesar de contribuir para o processo de gentrificação,
está a fazê-lo numa zona industrial que sentia falta de espaço
aberto verde, não se podendo negar que esta é para o
benefício de qualquer grupo social. O resultado é a abertura à
participação do público em várias actividades, principalmente
dentro de espaços abertos. Um dos princípios importantes
que esta intervenção de revitalização cumpre, é do contributo
para a variação de percursos e para a diferenciação espacial,
garantindo a máxima acessibilidade a diferentes grupos sociais,
minimizando na prática a exclusão espacial.
4. CASO DE ESTUDO II . PALAST DER REPUBLIK, BERLIM
O processo de planeamento observado no projecto da High Line
não se enquadrou dentro de mecanismos pré-existentes. Pelo
contrário, a importância atribuída pelo público e o consequente
activismo, resultaram na alteração das políticas de gestão
urbana e garantiram, em primeiro lugar, a sua preservação
e depois a sua readaptação. Noutras palavras, não existiam
mecanismos para um processo de planeamento participativo,
mas o interesse e a forte participação do público, bem como as
suas exigências, criaram as condições para uma maior inclusão
e para a implementação de tais mecanismos. Analisada ao
nível intermédio entre escala urbana e arquitectónica, situa-se
numa posição singular, destacando-se da superfície urbana
circundante e, ao mesmo tempo, mantendo uma forte ligação
visual com a mesma, ligação que não se perde ao nível físico
pela forte relevância prestada à acessibilidade. A High Line
integra com êxito a maior parte das considerações propostas
por Eberhard, propondo por exemplo a ideia de espaços de uso
variado que para ele incentivam a inclusão e o equilíbrio social.
O caso do Palast der Republik, antiga sede do Governo
da República Democrática Alemã, edifício multifuncional
abandonado após a queda do muro de Berlim, é um exemplo
das potencialidades da utilização de um determinado espaço
obsoleto como laboratório e espaço de transição em que usos
espontâneos, temporários e experimentais podem ser postos à
prova. As características espaciais ao nível estrutural do edifício
eram ideais para a criação de um lugar multifuncional dinâmico,
onde se poderia continuamente introduzir e combinar actividades
diferentes entre elas. A falta de fundos das autoridades públicas,
proprietárias do palácio, resultou em processos inovadores
de apropriação do espaço. Isto deu-se devido à participação
de vários actores, de proveniência principalmente cultural, e
ao activo interesse e participação do público em geral. Foram
as autoridades públicas, todavia, a pôr fim a este projecto
experimental, que até à sua destruição estava em contínua
construção e imprevisível evolução.
Este projecto é essencialmente a reinterpretação e criação de
uma realidade mais acessível do que era o estado selvagem
que a estrutura pré-existente tinha assumido durante os anos
de abandono e, como já foi sublinhado, teve sucesso por ter
equilibrado elementos arquitectónicos com os naturais. Portanto,
dificilmente poderiam ter sido introduzidos os conceitos de usos
temporários por requererem uma adaptação física ao lugar, à
flexibilidade e à experimentação efémera. Valorizou-se contudo
a urbanidade, introduzindo novos espaços abertos, tanto a nível
físico, como em relação à apropriação do espaço.
46
This bare skeleton, which currently permeates only emptiness,
represents a unique space; a space that highlights the tension
between the past and the future, a space of transition.
Thanks to this “open” dimension, the ‘Palace´ shows great
potential quite unlike any other location in the Republic, in that
it can be transformed into a provisional cultural centre used to
host experimental projects that will be highly attractive to the
international community. The temporary use of this place, which
is full of references to the past and symbolism, will provide new
ways to explore the unknown. (Misselwitz e Oswalt, 2004, p. 98).
O Palast der Republik localizava-se ao lado da Catedral de
Berlim e do reconstruído Lustgarten, numa zona central da
cidade, agora definida como a ilha dos museus37. Projecto dos
arquitectos Heinz Graffunder e Karl-Ernst Swora38, foi construído
em frente da praça Schloßplatz, conhecida como praça Marx
Engels no período do governo comunista. O palácio, além de
ocupar uma área onde se situava parte das muralhas da cidade
medieval, foi construído em cima das antigas fundações do
antigo palácio dos imperadores Prussianos, o Stadtschloss ou
castelo Hohenzollern, parcialmente destruído durante a segunda
guerra mundial e demolido no ano de 1950 pelas autoridades
comunistas, que utilizaram como justificações a falta de recursos
económicos necessários para uma restauração e pelo palácio
ser um indesejável símbolo do Imperialismo Prussiano.
16. O Palast der Republik, ao lado da Catedral de Berlim (Ferré et al., 2004, p. 84)
No ano de 1973, o conselho dos ministros da República
Democrática Alemã decidiu construir um edifício composto por
três áreas. Na primeira destas instalava-se o Volkskammer
(Congresso do povo), espaço simbólico, sendo supostamente
o parlamento, que todavia raramente foi utilizado após a sua
construção. A segunda área do palácio consistia em cafés, bares,
uma discoteca, um centro de bowling, treze restaurantes e, no
quarto andar, um auditório com duzentos lugares, acessíveis
através de um foyer e vários halls. Na cave estavam colocados os
espaços de arrumação, as cozinhas, e as salas das máquinas. Já
no maior espaço do palácio, a terceira área consistia no Großer
Saal, ou Grande Salão, um espaço destinado a convenções,
concertos e galas, que podia ser adaptado em função do uso
específico através de um sistema de paredes e decorações
móveis, um sistema mecânico muito avançado para a época em
que o Palast foi construído, entre os anos 1973 e 1976.
O Palast der Republik era o lugar mais visitado no centro de
Berlim Oriental, recendo quinze mil visitantes por dia, era um
local público popular. Durante os tempos do regime socialista, os
habitantes da cidade tinham dado os apelidos Honekers Lamp
Store39 e “Casa de mil janelas”, que dá a ideia da dimensão desta
obra. Desde a sua construção até ao ano de 1990, o Palast der
Republik só esteve em utilização durante catorze anos. No
mês de Agosto deste último ano a Alemanha reunificou-se40, e
as consequentes mudanças políticas resultaram no abandono
do palácio por um período superior a catorze anos, ou seja, um
período maior do que o da sua utilização. A estrutura, por conter
uma elevada presença de amianto, foi evacuada41.
Extracto I
47 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
no artigo “Willing the Global City: Berlin’s Cultural Strategies of
Inter-urban competition after 1989” da Ute Lehrer44. Segundo
esta autora, as forças políticas decidiam manipular a história
“Ridding Berlin of certain historic elements, while manipulating
others and constructing new ones, was the preferred method of
re-envisioning history in Berlin” (Lehrer, 2006, p. 336). Lehrer
continua, falando do caso específico da reconstruida Potsdamer
Platz45:
der Republik e pela nova designação do resultante terreno
vazio em espaço relvado. Esta acção estimava-se em 20
milhões de euros. O novo edifício que deveria eventualmente
surgir, Humboldt Forum, não poderia ser construído por falta de
fundos e uma falta dos planos cronológicos e projectos finais
necessários para avançar. Perante este plano, inquéritos da
época mostravam uma divisão equilibrada entre os Berlinenses
(Perry, 2005).
17. Escada central do foyer da estrutura abandonada, Thorsten Klapsch (Klapsch, 1993)
While the new Potsdamer Platz can be seen as amnesic in terms
of its treatment of history, certain historical details and allusions
were used to enhance aspects of the project that were considered
key to the reappropriation of space; others were crucially elided.
(Lehrer, 2006, p. 337)
Em Julho de 2002, o parlamento da Alemanha reunificada votou
pela demolição do Palast der Republik e pela construção de um
novo edifício, Humboldt Forum42, que iria ser englobado por uma
reconstrução das fachadas do Stadtschloss Prussiano. O Palast
der Republik representava um passado de conotações negativas,
símbolo do antigo regime socialista e do seu poder autoritário,
quer seja no controlo que este tinha, através desse edifício,
sobre o entretenimento da população, quer no abrigo (simbólico)
que dava a uma instituição (o parlamento) no Volkskammer. As
novas autoridades preferiam apagar e esquecer.
Logo após a reunificação Alemã, a área da Potsdamer Platz era
marcada pela presencia de vários elementos históricos e vazios,
tendo sido zona atravessada pela muralha que dividia Berlim.
Para a reconstrução desta zona, as autoridades adoptaram
uma política que eliminava elementos históricos indesejados,
especificamente do passado Nazi, e enfatizava outros, como por
exemplo no caso do Kaisersaal, um antigo palácio que durante
a segunda guerra mundial tinha sofrido danos irreparáveis a três
quartos da sua estrutura, mas que apesar disso teve as suas
restantes fracções preservadas e exaltadas nos novos projectos
para a Potsdamer Platz.
Em 2006 foi tomada a decisão final para a demolição do Palast
der Republik e em 2007 uma vez mais se votou pela reconstrução
do antigo Stastchloss. Com a finalização da demolição em 2008,
35.000 toneladas de aço da estrutura foram enviadas para serem
utilizadas na construção do Burj Khalifa, o edifício actualmente
mais alto do mundo, localizado nos Emiratos Árabes. No mesmo
ano o arquitecto italiano Franco Stella, concorrendo contra
outras 85 propostas, ganhou o concurso para o projecto de
reconstrução do Stadtschloss.
No entendimento do novo sistema político, o edifício pré-existente
sofria de falta de identidade, devendo ser substituído. Isto devido
à “[…] alleged populist demand for a place that has meaning not
only as the centre of Berlin, but also as the centre of the whole
nation”43. Por outro lado, os grupos contrários à reconstrução do
Stadtschloss criticavam o que entendiam não ser mais do que um
projecto sem financiamento, sem cliente ou programa definitivo:
“Moreover, the almost ideological fixation with the building’s final
image seems to block any sense of realism and appropriateness
of the Project and makes a pragmatic discussion of alternatives
nearly impossible” (Misselwitz e Oswalt, 2004, p. 91). Como
autoridades, queriam eliminar uma estética pouco agradável
e traços inconvenientes de um passado com conotações
negativas, concentrando-se na construção de uma nova imagem
no mesmo lugar.
No caso do Palast der Republik, o novo projecto do Humboldt
Forum iria criar um vazio semântico, utilizandoum simbolismo
questionável no qual um concurso arquitectónico limitado e
uma programação de espaços públicos baseados na imagem,
contraditória, iam resultar na reconstrução, executada por um
governo democrático, de um símbolo da monarquia Prussiana
(Bader, 2009, p. 76). Deste ponto de vista era questionável a
reconstrução imagética de um Castelo/Palácio antigo, quando
o seu interior iria ser condicionado por uma visão e fundos
limitados. Activistas ligados ao campo da arquitectura que eram
contra a reconstrução do Hohenzollern Schloss (Stadtschloss),
principalmente os de idade entre os 30 e 40 anos, tinham como
causa, não tanto o rumo de um edifício, mas a ideia da censura
histórica que a motivava, contra a qual era preciso tomar uma
posição critica46.
A construção selectiva da “imagem” nas políticas das
autoridades para a reconstrução de Berlim é tema analisado
No mês de Novembro de 2003, o Bundestag (parlamento
Alemão) votou mais uma vez no sentido da destruição do Palast
48
Experiências antes da demolição
O desmantelamento de elementos interiores, necessário para
conseguir tirar o amianto existente na construção, revelou os
principais elementos estruturais do edifício: a sua ossatura
estrutural metálica e os elementos de betão pré-fabricado,
deixando quase intacta a fachada, envidraçada com efeito de
espelho castanho. Apesar de não cumprir, entre outros, standards
mínimos de isolamento térmico, esta estrutura urbana do Palast
der Republik tinha um grande potencial para ser adaptada a
novas utilizações. Tendo sido um dos mais ambiciosos projectos
de edifício público da República Democrática Alemã, contava
com 182 metros de comprimento, 90 de largura e 32 de altura, a
área bruta deste edifício chegava aos 103.000 metros quadrados.
Além da enorme Großer Saal (espaço com uma altura máxima
de dez e oito metros, com uma capacidade para acolher cinco
mil pessoas), a Volkskammer (35x29x11 metros) continha 780
lugares, dos quais 240 num terraço para espectadores.
18. Projecto para o Humboldt Forum – reconstrução das fachadas do Stadtschloss,
Franco Stella (Lunitz, 2009)
19. Vista do pátio do Humboldt Forum – a ala de desenho novo, Franco Stella (Lunitz,
2009)
20 e 21. Vistas do Palast der Republik após a remoção dos revestimentos interiores
(s. n., s. d.)
Extracto I
49 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
Durante anos de debate parlamentar, o estudo e consequente
relatório feitos por uma comissão de especialistas internacionais47
tinham aconselhado a utilização desta estrutura urbana
existente, com um fim cultural provisório. As várias iniciativas e
esforços feitos por vários grupos nos anos seguintes ao relatório,
e anteriores à destruição da estrutura, são um exemplo de como
os princípios de uma abordagem desta temática poderiam
ser implementados em casos práticos. Essencialmente, para
os actores envolvidos nos projectos de aproveitamento e
programação de usos, era desnecessário entrar em raciocínios
ideológicos, sendo preferível ver que o que restava do edifício
“remained what it was physically in the first place: a building shell,
open for definition, reprogramming and reuse. It is a sideline of
history not to be ignored” (Bader, 2009, p. 77).
A ideia para uma utilização temporária da ossatura estrutural do
palácio surgiu em 2002. Várias instituições culturais48 mostravam
interesse neste sentido, mas como relatado por um participante,
o atelier Urban Catalyst49:
[...] there was no client, the building was already there and there
was no money to pay for its necessary appropriation. In response
to this situation we developed a multi-track approach. As a first
step, we began to identify and contact initiatives and institutions
that had voiced an interest in temporary use and to inform other
groups that would likely be interested. Six groups eventually
joined us in regular meetings, forming a loose network in which
each of the initiatives pursued a different programmatic idea,
representing a spectrum that seemed realistic and appropriate to
us: concerts, opera, art installations, exhibitions, discotheque, as
well as sport and youth culture. (Oswalt e Misselwitz, 93, 2004).
Tudo isto se pode resumir como um processo participativo que
tinha em vista a criação de um espaço multifuncional, dentro do
qual estavam previstas utilizações temporárias.
Segundo os Urban Catalyst, a falta de fundos torna-se “terreno
fértil” para propostas inovadoras na definição do espaço público. A
adaptação a custo baixo e a intervenção física minimizada eram,
neste aspecto, meios e objectivos simultaneamente; “In parallel,
we began to develop ideas for necessary improvements of the
pre-existing structure, guided by the belief that the installation of
temporary uses would cost a fraction of the officially published
ten million euro estimate” (Oswalt e Misselwitz, 2004, p. 92).
Através de encontros com outros actores e entidades interessadas
foi possível, após oito meses, desenvolver um conceito:
> Only a limited selection of spaces should be appropriated for
temporary use in order to reduce costs (two alternative scenarios
were considered);
> Minimizing the necessary interventions to the structure in
accordance with the provisional character of the building,
designed for a transitional time-frame of 2-3 years (with the option
of extending this period in accordance with the progress of plans
for a new building), before the building’s eventual demolition;
> Ensuring that implementation costs incurred by the owner of
the building (the Federal Republic of Germany) remain little to
none – no revenue (e.g. rent) is expected (temporary users take
on running costs of the building);
> Laboratory: the interventions would ensure a maximum
spectrum of possible uses, with the belief that cultural events
help to reenergize a public discussion about site’s future while
acknowledging the deep attachment to the Palast still felt by
many East Germans. (Oswalt e Misselwitz, 2004, p. 93)
A eventual proposta para o projecto de utilização da préexistência, beneficiando do contributo de especialistas, chegou a
limitar-se a um orçamento de 1,3 milhões de euros, em vez dos
consentidos 10 milhões. Apesar disso, o Ministério proprietário
da estrutura, tornou-se indisponível para discussões e políticos
inicialmente a favor do reaproveitamento da pré-existência,
distanciaram-se, evitando fornecer mais apoio. Para conseguir
dar mais passos concretos, o conjunto de grupos interessados
na revalorização da estrutura chegou à conclusão de que era
preciso uma grande atenção e participação do público.
Manter o caso do Palast der Republik vivo e pertinente foi
possível, graças a duas acções fundamentais. A primeira
acção, uma exposição de ideias programáticas, realizada
dentro de uma estrutura adjacente, e a segunda, um estudo
preliminar, informando e despertando o interesse de centenas
de jornalistas e do público geral. O desinteresse do governo em
se envolver resultou na constituição de uma organização não
governativa e sem fins lucrativos, a ZPN50, para assumir o papel
de potencial arrendatário da estrutura, e para gerir as constantes
manifestações de interesse para a utilização dos espaços por
parte de vários grupos da sociedade.
No entanto, as negociações para a utilização temporária pararam
e de novo foram necessárias outras acções de uso muito limitado
e controlado, dentro do consentido; uma “estratégia de pequenas
acções”51 com o fim de gerar um interesse cada vez maior e difícil
de ignorar ou rejeitar. O objectivo era convencer o proprietário da
estrutura, na altura o Ministério das Finanças, da potencialidade
dos usos temporários, de modo a gerar rendimentos suficientes
para garantir a segurança e a manutenção; “The building
would become an open source project, highly inclusive and
nonhierarchical” (Oswalt e Misselwitz, 2004, p. 96).
Após três anos de esforços e iniciativas o Palast der Republik
reabriu em Agosto do ano de 2004, sob o nome de “Volkspalast”,
num formato de espaço multi-usos. Patrocinadores privados
ajudaram a cumprir os regulamentos de segurança, permitindo
um;
[...] diverse program consisting of concerts, art installations,
music festivals, theatre performances, club events, sports
and leisure events, water city & labyrinth, exhibition space or
conferences… a temporary laboratory testing new forms of public
space, interaction and communication [...]. (Oswalt, Misselwitz,
96, 2004).
Mais de 40.000 pessoas visitaram o Palácio, reconvertido num
laboratório temporário para testar novas formas de espaço
público, de interacção e comunicação, com a intenção de
“generate proximities of different, otherwise segregated social
and cultural groups”. (Oswalt e Misselwitz, 2004, p. 97). Noutras
palavras, foi considerado e abordado o princípio da acessibilidade
por vários grupos sociais, com a intenção de limitar a segregação
social.
A decisão de planear soluções temporárias foi também
condicionada pelo clima: a falta de um sistema de aquecimento e
de condições mínimas de conforto, resultaram no encerramento
do palácio naquele inverno. Isto levou à renovada insistência do
governo a favor da substituição do palácio por um novo, mas
indefinido, Humboldt Fórum, apesar da potencialidade do Palast
der Republik como espaço pré-existente com capacidade de
acolher eventos importantes52.
No Verão de 2005 foi dada o que acabou por ser a última
oportunidade para a estrutura do Palast der Republik ser
abrigo de usos e eventos temporários. O grupo de arquitectos
raumlaborberlin fazia parte desta última iniciativa, desta vez
conceptualizada como uma grande instalação que ia demonstrar
50
a singularidade da estrutura pré-existente. O objectivo focalizouse mais na definição de fortes declarações e na demonstração
da vigorosa e independente produção artística de Berlim, mais
uma vez financiado com meios e políticas liberais. De acordo
com Markus Bader53, parte deste objectivo incluía “setting up
strong temporary statements [...] constructing a very visible and
accessible argument to keep a building in the centre of Berlin
and to redefine and reload its semantic interpretation” (Bader,
2009, p. 77). O conceito da segunda iniciativa “Volkspalast” foi a
criação de uma “montanha”54 no coração de Berlim, construída
em redor do Palast com técnicas e materiais comuns e fáceis
de compreender e montados por voluntários. A estrutura foi
reconvertida num espaço público onde foram convidados
artistas, performers e arquitectos, e entre as várias actividades
foi instalado o Gasthof Bergkristall, estrutura temporária que
podia albergar oito pessoas durante uma noite, tudo isto com a
esperança de:
[...] interrupt the sequence of events that had led to the demolition
by proving that what remained of the building was an excellent
platform for contemporary cultural production. We wanted to
demonstrate that Berlin had sufficient creative resources to forgo
filling the semantic gap with an easy answer, and instead to
maintain a process of redefinition with a flow of reprogramming
and reuse. (Bader, 2009, p. 77)
Mais uma vez, num ciclo de 6 semanas, o palácio foi visitado por
mais de 40.000 pessoas, mas isso não foi suficiente para a sua
salvação.
A estrutura pré-existente, como o apoiado por protestos contra
a sua demolição, possuiu um papel importante na história de
Berlim, tendo sido nesse lugar onde se decidiu avançar com
a reunificação Alemã, entre outros eventos, e afinal foi vítima
destas mesmas ligações ao passado.
Os vários acontecimentos aqui documentados para o caso do
Palast der Republik apontam para uma estrutura urbana préexistente, que foi objecto de experimentações direccionadas
a integrá-la dentro e fora das fronteiras da cidade de Berlim,
respeitando o seu passado mas, ao mesmo tempo, evitando a
sua “musealização”, criando uma unidade ambiental flexível e
sensível às mudanças sociais e culturais da cidade.
A principal diferença entre este e os outros casos aqui abordados
como casos de estudo, foi a experimentação que se evidencia
Extracto I
51 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
neste caso, na utilização da estrutura para usos temporários –
isto em grande parte devido às decisões das autoridades, que
permitiram apenas períodos de utilização de curto prazo:
Through the vehicle of a well-known and symbolic building, the
discussion of alternative approaches to urban development was
given a unique platform that could provide much impetus to future
projects and encourage the acceptance of temporary use as
na integral part of urban development. For us as architects, the
involvement of Studio Urban Catalyst as an agent and facilitator
of the temporary use initiative is na experiment of lasting value
- a potential model for a new territory of action for architects,
acting less as builders and more as urban agents. (Oswalt e
Misselwitz, 2004, p. 97)
processo que não se deixou concretizar e maximizar no potencial
inerente à pré-existência. No que diz respeito aos recursos
mínimos, disponibilizados pelos patrocinadores privados, que
viabilizaram a realização de intervenções para a reutilização
da estrutura pré-existente, poderiam ter crescido e criado
um espaço público que no decorrer do tempo continuaria em
A partir da experiencia na implementação de usos temporários
no Palast der Republik seguiu-se, todavia, a afirmação dos
Urban Catalyst de que os arquitectos podem agir como “agentes
urbanos”. Noutras palavras, os arquitectos poderão assumir
um papel valorizado para guiar e ajudar na programação
e implementação de usos temporários (readaptando e
revalorizando estruturas pré-existentes).
Este caso de estudo surge assim, como um exemplo de
envolvimento inclusivo e minimamente hierárquico. Ele aproximase mais das noções de participação colectiva, reunindo vários
actores com diferentes interesses e objectivos que criaram a
possibilidade de encontrar soluções inesperadas, nas quais o
espaço público se torna auto-suficiente em termos económicos
e de gestão, (não recorrendo à utilização de recursos das
autoridades públicas), tudo isso sem prejudicar a acessibilidade
e benefício do público. Na falta de recursos económicos e de
apoio das autoridades, “obrigou” outros grupos a tomar iniciativa
para a revalorização de uma estrutura pré-existente desprezada.
24. Vista exterior do Palast der Republik durante os tempos soviéticos, Ulrich Kolhs (Bundesarchiv, 1976)
Concluindo, o exemplo do Palast der Republik coloca
em contraste duas extremidades: por um lado processos
participativos, abertos, experimentais, flexíveis e de apropriação
pública, e por outro, processos de planeamento urbano em que
as autoridades tomam decisões e assumem a responsabilidade
total. Por este facto, num único caso de estudo podem mostrarse duas abordagens contrastantes no que diz respeito à tomada
de decisão em relação às estruturas pré-existentes no sentido da
sua revalorização, ou não.
22. Apropriação do Palast der Republik para os eventos “Volkspalast” (Raumlabor, 2005)
25. Manifestação contra a demolição do Palast der Republick (Denner, 2006)
Se as soluções de revalorização documentadas podem parecer
rudimentares nas suas intervenções e pouco desenvolvidas,
isso deve-se também ao factor tempo. Neste sentido, as
consequências dos limites de tempo de utilização determinados
pelas autoridades, e a indisponibilidade destas em dedicar
recursos e facilitar processos, também devem ser tidas em linha
de conta no decurso do processo de revitalização.
A realização das duas edições de “Volkspalast” e de outros
eventos podem ser vistos como os primeiros passos de um
52
23. Espetáculo dentro da estrutura obsoleta (s. n., 2004)
26. Impressão artística do pátio interior do novo projecto (Lunitz,2009)
Excluindo as decisões finais de demolição e substituição tomadas
pelas autoridades, e considerando as iniciativas de apropriação
pública dos espaços do Palast der Republik, pode dizer-se
que foi evidenciada a possibilidade de impulsionar impactos
significativos em termos sociais, económicos e culturais. A
vivência dos numerosos espaços desta estrutura apresentava
uma urbanidade em escala reduzida, flexível e em constante
mutação, dando à cidade e aos seus habitantes um lugar onde
fosse possível participar ou apenas observar/assistir a inúmeros
eventos ou actividades.
O Palast der Republik, que se localizava numa zona central
com forte atractividade turística, criou as condições para se
estabelecerem funções e actividades capazes de atrair os
habitantes locais. Integrando-se assim com a cidade, esta
estrutura tinha o potencial de aproveitar a sua proximidade
aos lugares turísticos para se tornar um centro cultural com
reverberações fora dos limites urbanos de Berlim.
Extracto I
54
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Fabrica FIX, Atenas, 1957-63
5.1 OBSOLESCÊNCIA; EXEMPLOS DE REFLEXÃO
Este exemplo, uma fábrica de grandes dimensões localizada no
centro de Atenas, consiste numa reconstrução modernista de uma
fábrica de cerveja. O novo edifício, de autoria do arquitecto grego
Takis Zenetos (em colaboração com Margaritis Apostolidis), era
reconhecido como um dos exemplos mais importantes do estilo
Internacional desenvolvidos em Atenas.
As estruturas pré-existentes desactivadas e abandonadas
podem representar tipologias muito variadas, desenvolvidas em
momentos históricos específicos, onde ocorrem mudanças nos
modelos de produção industrial e do trabalho, ou resultantes das
mutações nos sistemas infraestruturais.
Os três exemplos seguidamente apresentados são uma pequena
amostra que serve para dar uma ideia geral da variedade de tipos
de estruturas que se tornam obsoletas: fábricas (Fábrica FIX),
estruturas construídas em tempos de guerra (Culture Bunker)
e centrais de produção eléctrica (Battersea Power Station).
As diferentes tipologias, em conjunto com as circunstâncias
contextuais específicas, permitem notar a infinidade de casos e
de possibilidades na adopção e aplicação de vias de abordagem
para a revalorização.
Como observado por Rem Koolhaas na sua exposição
“Cronocaos”55, assiste-se a uma tendência de selecção
discriminatória do edificado que se considera digno para ser
conservado/preservado. Através de critérios que têm como
prioridade o valor estético, ou valores históricos subjectivos
(como se verifica em alguns casos, com o desprezo pelo
modernismo), procede-se a operações de amnésia histórica, que
recriam ou reforçam idealismos utópicos, afastados da realidade.
Com 7 pisos e um comprimento que ocupava um quarteirão da
cidade, a fábrica FIX dominava a sua envolvente caótica. Ainda
assim, o edifício tinha um efeito estruturante, a nível físico e
visual, que com ênfase na horizontalidade reduzia seu impacto,
entrando numa relação mais harmoniosa com o seu contexto.
No seu interior, os espaços tinham sido conceptualizados de
modo a permitir a flexibilidade na utilização da fábrica, prevendo
mudanças funcionais. O sistema de eixos horizontais e verticais
alternava aberturas de ventilação e iluminação com painéis fixos.
A reconversão da fábrica FIX, que perdeu quase metade da sua
volumetria a fim de libertar espaço para a extensão do metro, vai
dar lugar a um centro de arte contemporânea, com as adições
habituais de restauração (etc.), e uma fachada que terá pouca
relação com a antiga.
Em alguns processos de requalificação e preservação verifica-se
a perda de autenticidade e respeito pelo passado (Ouroussoff,
2011). Como consequência, o preservado converte-se em
elemento artificial (ao serviço de interesses como o turismo);
substitui-se a rude vitalidade pelo estéril superficialmente
embelezado.
Existe uma grande quantidade de estruturas significativas
(pela sua localização e pelo modo como ocupam o espaço
urbano) obsoletas, que com as suas características intrínsecas
se destacam das outras pré-existências da envolvente. A
revalorização destas (sem considerar o sector residencial)
pode evitar reconversões de matriz “cultural” limitador (museus,
galerias), que oferecem espaços auxiliares (restaurantes, lojas
de recordações) com pouco peso próprio.
27. A fábrica FIX (s.n., s.d.)
Extracto I
55 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
The Culture Bunker, Frankfurt, 2ª Guerra Mundial
Battersea Power Station, Londres, 1930 - 1934
Este projecto situa-se nas proximidades de Osthafen, uma
zona de docas, dominada por um mercado de frutas e vegetais
desactivado, que estava a atravessar uma restruturação urbana.
O bunker está localizado numa área degradada e caracterizada
por montes de lixo, contentores e produtos de reciclagem à
espera de serem transportados para outros destinos. A estrutura
pré-existente apresentou-se como lugar ideal para receber
uma comunidade artística local em contínua procura de novos
espaços para se apropriar. As reparações dispendiosas exigidas
pela reparação do telhado, que tinha danos que resultavam
em infiltrações, deram origem à ideia de construir por cima da
estrutura, sendo também muito alto o custo da sua demolição
(Index Architects, 2007, 71).
A antiga central de Battersea, com as suas quatro chaminés de
quase 100 metros de altura, é um edifício icónico da cidade de
Londres. Obra do mesmo arquitecto britânico que desenhou a
Bankside Power Station (reconvertida no Tate Modern, um centro
de arte moderna), a Battersea Power Station está abandonada
desde o ano 1983. O proprietário público da central de Battersea
considerou inicialmente a demolição desta estrutura, com o
objectivo de construir edifícios habitacionais. Desde o ano de
1987 a central e o seu terreno envolvente pertenciam a diversos
proprietários privados, os quais não foram bem sucedidos
relativamente à readaptação desta dentro de um novo plano. Um
dos principais factores impeditivos dessa readaptação foi o valor
patrimonial da central e a difícil conjugação com fortes pressões
económicas, que pretendiam a construção de novas estruturas
no terreno envolvente.
O projecto de revalorização, dos Index Architects, tentou criar um
motor que estimulasse a transformação do contexto municipal
envolvente. A nova adição de madeira é uma construção
relativamente económica que beneficia da estrutura rígida do
bunker, e consiste em estúdios de artistas e o Instituto das New
Media. Estes espaços estão circundados por uma galeria que
funciona simultaneamente como elemento de ligação com a
cidade e como saída de emergência.
28. Vista do The Culture Bunker (Index Architects, 2007, p. 74)
29 e 30. O bunker antes da intervenção (Index Architects, 2007, p. 72)
31. Iluminação do The Culture Bunker (Index Architects, 2007, p. 69)
Entre as intervenções propostas ao longo dos anos podem
assinalar-se as de parque temático, cinemas, hotéis, habitações
(até 3.400, principalmente de luxo) e uma estação ferroviária.
A última proposta para a área inclui também a readaptação
das salas de turbinas da central para acolher conferências, e
a reconversão de duas chaminés para a produção de energia
sustentável (“verde”), ligadas a um centro de energia biológica.
Nos últimos seis anos o proprietário actual não conseguiu
avançar com nenhuma proposta concreta, situação exacerbada
pelas suas dívidas. O estatuto ambíguo desta estrutura,
protegida mas em mãos privadas, faz ressaltar a questão das
forças económicas, da complexidade, viabilidade e do balanço
entre o carácter desejado e o carácter realístico de algumas
revalorizações.
32. Vista nocturna da Battersea Central Station (Smart, s.d.)
56
33. Battersea - localização nas proximidades dos rio Tamisa, infraestruturas rodoviárias
(Chung, s.d.)
34. Vista aérea da Battersea Central Station com seus terrenos envolventes (s.n., s.d.)
35. Vista interior da Central Battersea (Livvya, 2008)
Extracto I
57 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
5.2 DAS ENVIRONMENTAL UNITS ÀS UNIDADES ECOSSISTÉMICAS
Aqui tentar-se-á apresentar uma lógica sequencial que
demonstre, a posteriori de um caso multidimensional (o viaducto
Place de la Bastille), exemplos cada vez mais próximos da
noção de unidade ecossistémica, noção que consiste numa
reinterpretação aplicativa das environmental units.
Os exemplos aqui expostos começam por realidades mais
“primitivas”, que mostram tipos de aproveitamento espontâneo
dos espaços subvalorizados de estruturas pré-existentes. Passarse-á por exemplos de intervenções planeadas, com o objectivo
de revalorizarem pré-existências, a fim de chegar a construções
de raiz que representam os princípios da abordagem.
Quando considerado relevante, será feita uma observação sobre
as relações entre estrutura/forma e categoria/função/uso.
Avançar-se-á com a seguinte sequência lógica:
A) A apropriação espacial atráves da desconstrução das relações
entre estrutura/forma e categoria, função/uso.
B) Apropriação espontânea informal - ferrovias, autoestradas.
C) Estruturas intra-categóricas e estruturas híbridas, as
environmental units de Tóquio.
D) Intervenções que actuam no pré-existente.
E) Construção de raiz – integração de tipologias diferentes e
multiplicação dos usos.
F) Construção de raiz – aproximação à noção de unidade
ecossistémica.
Em síntese será realizada uma breve reflexão sobre o trabalho e
o papel do arquitecto.
A) A apropriação espacial atráves da desconstrução
das relações entre estrutura/forma e categoria, função/uso: Viaducto Place de La Bastille, Paris, França.
O viaducto Place de la Bastille destaca-se como exemplo
demonstrativo de como uma estrutura pré-existente pode
superar ciclos de obsolescência e tornar-se, sem alterações
físicas notáveis, num sistema espacial estruturante capaz de
acomodar funções novas e usos significativamente diferentes.
A reinterpretação aberta das relações históricas entre a
componente física de estrutura/forma, com a componente
imaterial da categoria de função/uso, permite o êxito na
reapropriação de estruturas aparentemente obsoletas.
Este viaduto, localizado em Paris oriental, consiste numa
infraestrutura ferroviária elevada, construída em 1859, que
serviu a sua função original até aos anos da década de 70. A
revalorização desta estrutura, que na parte superior das linhas
férreas inspirou a intervenção da High Line, revela-se também
como caso valioso pelo exemplo das ocupações adaptativas na
sua parte portante – os arcos estruturais.
B) Apropriação espontânea informal - ferrovias, autoestradas.
36. Apropriação dos arcos do viaducto Place de la Bastille antes da sua readaptação
no Viaduct des Artes (Hertzberger, 1991, p. 99)
Das infraestruturas de mobilidade resultam espaços que
nas suas extensões causam cortes nas redes de relações
intraurbanas. A apropriação inesperada, espontânea, com o
seu modo de maximizar o aproveitamento funcional e espacial
de zonas “mortas” e ao mesmo tempo de mostrar as limitações
dos processos predefinidos de planeamento, pode ser fonte de
novas potencialidades.
Apropriação do espaço debaixo de autoestradas elevadas (Pearl
River Delta, China).
37 e 38. Apropriação dos arcos do viaducto Place de la Bastille, evidenciando a relação
entre pré-existente e novo (Hertzberger, 1991, p. 98-99)
Nos anos 1980, após um debate entre demolir ou reconverter
o viaduto em passeio pedonal, ganhou a segunda das opções.
No ano de 1994, a sua reconversão em jardim/parque elevado,
plantado sobre as antigas linhas férreas, abriu ao público.
Chamado Promenade Planteé, este percurso verde tem uma
extensão de 4,5 quilómetros.
40. Life under the highway: entertainment islands. A roof, support for lighting and
electricity (Guiterrez, 2003, p. 71)
Simbiose a nível temporal e espacial entre duas funções (as
de ferrovia e de mercado aberto) aparentemente sem relação
(Bangkok Maeklong Railway Market, Tailândia).
Ao longo dos anos, os 72 arcos da mesma estrutura tinham
sido apropriados e utilizados para abrigar várias funções de
restauração e comércio. Em 1989 estes foram readaptados para
acolher actividades de artesãos Parisienses. As autoridades
regularizaram esta parte do viaducto, dando-lhe o nome de
Viaduc des Arts; o informal foi formalizado.
Ao longo dos anos, os 72 arcos da mesma estrutura tinham
sido apropriados e utilizados para abrigar várias funções de
restauração e comércio. Em 1989 estes foram readaptados para
acolher actividades de artesãos Parisienses. As autoridades
regularizaram esta parte do viaducto, dando-lhe o nome de
Viaduc des Arts; o informal foi formalizado.
58
39. Vista do Viaduc des Arts (s.n., s.d.)
41. Clearing the tracks as the train 42. Market vendors leave just enough space for
approaches (Lechua, 2010)
the train coming to pass through (Lechua, 2010)
Extracto I
59 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
C) Estruturas intra-categóricas e estruturas híbridas:
as environmental units de Tóquio (Japão) referenciadas por Yoshiharu Tsukamoto.
D) Intervenções que actuam no pré-existente: A8ernA
- NL Architects, Koog An de Zaan, Holanda 2003 –
2006.
Em comparação com os exemplos anteriores, Tsukamoto
identifica exemplos mais complexos de apropriação não
convencional do espaço urbano, exemplos que vão além
da ocupação de superfícies. Neste caso, o contexto único
da megalópolis de Tóquio revela-se como laboratório onde
são experimentados os limites da relação entre as ordens de
estrutura, categoria (funcional) e uso (específico).
O projecto A8ernA é um exemplo que demonstra um passo
posterior ao da apropriação informal ou dos exemplos mais
formais de Tóquio. Aqui, com o objectivo de melhorar as
condições urbanas e reintegrar partes da cidade, a environmental
unit foi desenhada por especialistas.
43. Esquema adapatado apartir de “Electric Passage” (Tsukamoto, 2004, p. 224)
Electric Passage (Ferrovia elevada – Centro comercial),
Sotokanda, Chiyoda-ku.
A estrutura portante de uma ferrovia e sua estação tornou-se em
elemento estrutural para espaços comerciais. Ao longo de 300
metros foram instalados três andares de lojas electrónicas.
Super car School (Hipermercado – Escola de condução),
Kanamachi, Katsushika. A pista da escola de condução está
assente sobre um supermercado de dois andares. O desenho
de implantação foi condicionado pela trajectória curva da ferrovia
adjacente. A rampa da entrada do supermercado, ao alterar a
altura do telhado, deu lugar à adaptação e criação conveniente
da rampa de travagem.
Warehouse Court (Estação ferroviária, armazém, centro
logístico – Escola de ténis), Iidabashi, Chiyoda-ku.
A estrutura tem como função principal a distribuição nacional
de produtos de papel. O seu primeiro andar consiste no ponto
para a carga/descarga de camiões. No segundo andar estão
instaladas plataformas ferroviárias. Do 3º até ao 5º andar estão
armazenados os produtos de papel.
Neste projecto, uma série de intervenções foram pensadas
para recuperar o espaço debaixo de uma autoestrada elevada.
Durante mais de 30 anos, este espaço converteu-se numa
área desagradável e numa barreira divisória entre duas zonas
urbanas. As intervenções para a reintegração deste espaço
tentaram aproveitar a autoestrada como cobertura de várias
actividades, fechadas e ao ar livre. Criou-se um corredor que
integra os espaços distintos das diferentes actividades: campos
desportivos, zonas de skate e breakdance, estacionamento,
um supermercado, uma florista, uma peixaria, uma paragem
de autocarros, uma marina (para desportos aquáticos), e outros
espaços abertos que enriquecem a urbanidade do lugar.
47. O florista/peixaria (Nicolin, 2009, p. 42)
48. A marina para desportos aquáticos (Nicolin, 2009, p. 41)
44. Vista da “Super car school” Katsushika, Japão (Tsukamoto, 2003, p. 44)
Esta estrutura torna-se numa environmental unit através do
aproveitamento do seu telhado, com as suas consideráveis
dimensões de 160 por 50 metros. Este telhado foi adaptado
para se implantar uma escola de ténis, com vários campos,
com acesso directo e independente da estação/centro logístico.
Até a iluminação nocturna serve para duas funções: iluminar
simultaneamente os campos de ténis e o painel publicitário da
escola.
45. Vista da “Warehouse court” (Tsukamoto, 2003, p. 41)
46. Desenho axonométrico do projecto A8ernA (NL Architects, 2007, p. 46)
49. Vista nocturna do supermercado (NL Architects, 2007, p.47)
60
Extracto I
61 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
F) Construção de raiz - aproximação à noção de unidade ecossistémica: Rambla Manguinhos - Jorge
Mario Jáuregui, Rio de Janeiro, Brasil, 2009 – 2010.
E) Construção de raiz – integração de tipologias diferentes e multiplicação dos usos: The McCormick Tribune Campus Center (IIT) - OMA, Chicago, EUA, 1997 –
2003.
Este exemplo, apesar de não se situar num contexto urbano
de edificado denso, consiste na tentativa de conjugar tipologias
de funções diferentes – um ponto infraestrutural com um
centro universitário multifuncional. Nesta construção de raiz,
o projectista assumiu uma atitude em que se separam as
componentes estruturais das duas funções principais, pouco
relacionadas, para criar um efeito visual que reforça a ideia
do conflito; duas estruturas com funções diferentes tocam-se,
sem se integrarem ao nível das continuações espaciais e da
disposição portante. Ainda assim, encontram-se os traços do
que poderá consistir numa unidade ecossistémica: a criação de
relações com a envolvente, a vários níveis, e a multiplicação das
categorias funcionais e dos usos específicos.
Na tentativa de dar vida urbana a uma zona do campus universitário
esvaziada de actividades, o projecto foi pensado para se assumir
como ponto nevrálgico de ligação, redirecionando fluxos entre
zonas mais densificadas. Foi assim que se criou um desenho,
não de um edifício, mas de uma malha estruturante, focada
na criação de ligações em forma de “ruas” e pátios, visando a
simulação de um ambiente urbano. O programa funcional inclui
salas de aulas, salas informáticas, zonas de comércio e de lazer.
50. Esquema axonométrico do McCormick Tribune Campus Center, OMA (Nicolin,
2009, p. 27)
62
51. O McCormick Tribune Campus Center (Nicolin, 2009, p. 24)
O projecto Rambla Manguinhos exprime-se como um bom
exemplo de uma estrutura desenhada com princípios que se
aproximam da noção de unidade ecossistémica. Através da
desconstrução das abordagens convencionais no acto de
interrelacionar a estrutura/forma com a categoria e função/uso,
foi aberto o leque de possibilidades. Este projecto específico,
parte de um vasto plano de regeneração urbana, tinha como
critérios a inclusão de diferentes bairros, a acessibilidade e a
reorganização das centralidades.
A ossatura portante de uma infraestrutura elevada vai servir,
simultaneamente, como abrigo para várias actividades ao ar livre;
em vez de se tornar numa barreira, torna-se num elemento que
estrutura e cria ligações no espaço urbano. Esta nova estrutura
substitui linhas férreas que não se elevavam do solo, e que se
tinham convertido em fronteiras entre dois bairros, contribuindo
para sua degradação e para o crime. Com este novo projecto, a
mesma tira de terreno vai tornar-se numa zona unificadora dos
dois bairros. Ao mesmo tempo, a função inicial de infraestrutura
de mobilidade vai ser valorizada com a concentração de outros
sistemas de transporte.
52. Vista da entrada principal (Nicolin, 2009, p. 26)
53. Relação entre o elemento infraestrutural e os espaços internos do centro
multifuncional (Nicolin, 2009, p. 31)
54. Perspectiva do projecto (Jáuregui, s.d.)
55. Construção dos elementos portantes da infraestrutura/estruturantes da organização
espacial (Jáuregui, s.d.)
Extracto I
63 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
Breve reflexão sobre o trabalho do arquitecto
As situações de revalorização das estruturas pré-existentes
requerem uma adaptação no papel dos profissionais envolvidos
nestes processos, nomeadamente os arquitectos.
O arquitecto assume a responsabilidade de ser motivador e gestor
dos processos de planeamento e de intervenção. A intervenção
física passa aqui para um segundo plano – o que interessa é
como apropriar o elemento físico já presente: como utilizar,
readaptar ou modificar os seus espaços, concentrando-se, em
primeiro lugar, na parte programática, que consequentemente
poderá exigir alterações físicas (fortes ou não).
O arquitecto, trabalhando como agente, pode contribuir com
a leitura e compreensão da complexidade e valor do espaço
urbano e da estrutura física obsoleta a revalorizar, relacionando
os dois.
Converte-se assim em orientador, colocando à disposição o
seu conhecimento de especialista. A cidade, a área urbana e
a estrutura, específicas, podem ter a sua componente imaterial
reprogramada, num processo, onde o arquitecto organiza e o
público participa nas decisões. Por um lado, o arquitecto, na
forma de facilitador ou de gestor do processo de planeamento,
entende o lado técnico, podendo comunicar com os especialistas
envolvidos, encarregados de fazer as operações de intervenção
física (potencialmente, entre os quais, outros arquitectos,
selecionados para fazer o desenho arquitectónico final). Por
outro lado, tem uma boa base de conhecimentos para dialogar
com os outros actores e sectores que se envolvam no processo
participativo.
A impossibilidade de redigir metodologias definitivas e
conclusivas compensa-se com uma atitude projectual aberta e
flexível, “[…] inserting new imaginative narratives, like developing
new software for the hardware that is the city […] upgrading the
existing and reopening it for new appropriation” (Bader;Szymcak,
2009, p. 75). A cidade e as suas estruturas vêem-se como
componentes físicos fixos, para os quais o arquitecto ajuda a
atribuir novo valor, envolvendo-se na definição dos novos ciclos
de apropriação (o componente software imaterial).
56. Esquema - o papel do arquitecto nnos processos de revalorização (Ilustração nossa, 2012)
64
Extracto I
NOTAS
Segundo o Dicionário do Imobiliário - Habitação - Construção – Urbanismo (Antunes, 1996, p. 434), a expressão ‘revitalização urbana’,
“Designa a devolução de vida social e urbana a determinados contextos
que se encontram desvitalizados devido à desertificação populacional,
ao envelhecimento da sua estrutura etária, à decadência dos espaços
construídos e, sobretudo, ao desinvestimento económico e político. A
revitalização urbana passa, necessariamente, pelo investimento na requalificação em termos urbanísticos, económicos e sociais e pela criação de condições de atractividade para o retorno de população e de
investimento económico aos espaços desvitalizados”.
1
Para a definição de ‘requalificação urbana’, o mesmo dicionário afirma que é um “Conceito que pretende designar políticas urbanas que
atribuam uma nova qualidade, ou qualificação urbana e social a determinados espaços que se encontrem desqualificados. Trata-se, no
fundo, de encetar políticas urbanas que permitam não apenas reabilitar
a “cidade existente” mas qualificar ou “produzir qualidade” onde ela não
existe” (Antunes, 1996, p. 431).
2
3
Letónia, Estónia, Arménia, e Geórgia.
4 Richard
Child Hill é professor de sociologia na Michigan State University. Joe R. Feagin é professor das artes liberais na universidade Texas
A&M foi um dos primeiros a estudar os processos de desenvolvimento
das World Cities numa perspectiva histórico-comparativa.
5 Por Welfare State ou Estado Providência, entende-se um Estado como
agente da promoção social e que garante os serviços públicos e a protecção da sua população.
Entre os anos 2000 e 2010 Detroit sofreu um declínio populacional de
25%, chegando ao mínimo desde o ano de 1910 (Wisely e Spangler,
2011).
6
As primeiras Conservation Areas foram designadas em Inglaterra no
ano de 1967, com o objectivo de conservar seu valor arquitectónico e/
ou histórico. Consistem em zonas que, através de diferentes processos
administrativos, estão protegidas de alterações sem necessidade de recurso a processos legais.
7
8 A Unesco
(United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization), através da Convenção sobre a Proteção do Património Cultural
e Natural, tem como fim o reconhecimento e conservação de sítios com
valor a nível mundial. Criadora da Lista do Património Mundial cuja contagem actual é de 911 sítios, sendo 704 culturais, 180 naturais e 27
mistos, localizados em 151 Estados. Até Julho de 2010, 187 Estados
haviam ratificado a Convenção do Património Mundial.
9
Le Corbusier (Charle-Edouard Jeanneret, 1887-1965) foi um arqui
66
tecto, visionário do urbanismo, e um dos protagonistas do movimento
modernista.
Jane Jacobs (1916 – 2006) de activista comunitária na cidade de
Nova Iorque tornou-se em teórica das cidades, que defendia a vida urbana espontânea e criativa, ao mesmo tempo que condenava o planeamento rígido e insensível aos valores humanos. A sua influência teve
um grande impacto através da publicação do livro The Death and Life of
Great American Cities, publicado em 1961.
10
Robert Moses (1889-1981) foi um burocrata que assumiu um papel
fundamental na forma como se realizou o desenvolvimento urbano do
estado de Nova Iorque, chegando a ter uma influência significativa além
destas fronteiras. Durante 44 anos sob vários cargos foi promoveu a
construção de pontes, autoestradas, centrais eléctricas e o aumento do
sistema de parques urbanos. A sua abordagem ao planeamento, marcada por fortes gestos e obras de grande escala, incluiu muitas operações de renovação urbana, substituindo tecidos urbanos históricos por
torres habitacionais.
11
12 Pruitt-Igoe foi um projecto do arquitecto Minoru Yamasaki em St. Lou-
is, Missouri, Estados Unidos, consistindo na substituição de um tecido
urbano antigo por mais de 2.000 habitações colocadas em torres de
desenho modernista. Desde a sua construção, nos anos 50, até à sua
demolição em 1972, foi um projecto controverso e alvo de duras críticas,
visto como exemplo falido e representativo das acções de renovação
urbana.
No ano de 1995, o Reichstag foi revestido com materiais recicláveis
por uma equipa de 210 pessoas. Este evento, que durou 14 dias, foi financiado através da venda de estudos preparatórios, esquiços, maquetas, litografias e outras obras dos artistas, não beneficiando de nenhum
patrocínio.
13
Entre os valores discutidos podem incluir-se a altura dos edifícios,
que neste caso tinham Milão, um exemplo europeu, como referência,
contra o exemplo da rua coberta, supostamente como os dos centros
comerciais Americanos. Os materiais também fizeram parte da discussão - a utilização de aço para o edifício da Sony, por exemplo, foi um
dos factores que levantou questões sobre os interesses e manipulações
dos proprietários (Reader, 2004, p. 290).
14
Neil Smith (1954-) escocês, é professor de Antropologia e Geografia
na City University de Nova Iorque. Os seus estudos concentram-se nas
políticas económicas, teorias urbano-sociais: espaço, história e geografia. Entre as suas publicações encontram-se The New Urban Frontier:
Gentrification and the Revanchist City (1996) e The Politics of Public
Space (2006).
15
Extracto I
67 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
Pausânias (activo de 143 a 176 d.C.) foi um viajante e geógrafo grego, do qual a obra Periegesis Hellados (Descrição da Grécia) se tornou
um guia para as ruínas antigas da Grécia.
17
Aristóteles (384-322 a.C.) foi um filósofo e cientista grego, considerado um dos fundadores do pensamento ocidental.
16
Eberhard Heinrich Zeidler (1926-) é um arquitecto canadiano de
origem alemã, licenciado, após um período de estudo na escola Bauhaus em Weimar, pela Technische Hochschule em Karlsruhe, Alemanha, e doutorado pela Universidade de Toronto, Canadá. Pela sua
actividade, tem sido premiado com o “Lifetime Achievement Award” pela
Ordem de Arquitectos de Ontário (OAA) e com uma medalha de ouro
pela Royal Architectural Institute of Canada.
18
Ordos, construída de raiz por vastas operações urbanas, é uma cidade com uma população actual de alguns milhares de funcionários
públicos. As suas redes de infra-estruturas e o restante edificado, que
inclui milhares de casas vazias, foram construídos ao lado de uma cidade mais antiga. Esta operação de urbanização foi condicionada por
previsões que antecipavam a suposta explosão no crescimento urbano,
tendo como justificação o crescimento exponencial da indústria de extracção de carvão na zona envolvente. Esta ‘cidade’ revela-se como
exemplo mais extremo do caso de Detroit – uma cidade fortemente dependente de uma única indústria e seus respectivos ciclos económicos.
19
Como ‘jetsetting executive class’ entende-se o grupo social, restrito,
dos executivos empresariais, que passam uma grande parte do seu
tempo em aviões, entre reuniões de trabalho e outros compromissos.
20
21 Segundo Madanipour (2007, p. 164), um modo de classificar o espaço
pode ser feito com a utilização das seguintes categorias: 1. Organização
física, topografia (que resultam na diferenciação e na segregação), 2.
Espaço mental, percepção do espaço – regulamentos, códigos, sinais
e a insegurança, 3. Controlo social – proibições, barreiras formais (fronteiras), factores formalizados e factores informais. O medo e o desejo
controlam o comportamento no espaço. Estas categorias realçam as
limitações relacionadas com a questão do acesso – e a questão da inclusão ou da exclusão espacial.
Estes são semelhantes ao quiosque Português, sendo estruturas
isoladas e localizadas em parques urbanos ou dentro dos limites das
passadeiras. Nos seus pequenos espaços são vendidos refrigerantes,
gelados, jornais, revistas, merendas etc.
22
Funcionalmente semelhantes aos períptera, estes têm uma tipologia diferente, sendo colocados dentro dos perímetros de edifícios com
maiores dimensões, com uma fachada virada para a rua. Do lado interior costumam ter ligação directa com as outras actividades comerciais
dos edifícios nos quais se encontram inseridos.
23
Paul Davidoff – (1930- 1984) foi um advogado, urbanista, professor,
e activista de direitos humanos que como director do Suburban Action
24
Institute se dedicou à integração de diferentes categorias habitacionais,
propondo um modelo de planeamento urbano baseado no “advocacy
planning”.
25 David Harvey é professor de geografia e engenharia ambiental na
Universidade John Hopkins. Escreve sobre o marxismo e a teoria urbana pós-moderna.
se fosse relva selvagem. Estes elementos permitem a transição gradual
entre os dois tipos de superfície, evitando a criação de percursos fixos e
a forte demarcação de zonas distintas.
46
47
Os edifícios devolutos são 4.681, enquanto os que estão em mau
estado ou em ruínas são 7.085. A Câmara Municipal de Lisboa estima
que até ao ano de 2024 serão necessários 1.500 milhões de euros para
reabilitar mais de sete mil edifícios. (Serra, 2011, p. 4)
Para evitar que este troço, a secção mais rectilínea da High Line,
se convertesse num corredor entre prédios, a solução adoptada foi a
criação de um maciço de plantas muito mais denso do que em qualquer
momento do primeiro troço, sublinhando assim o “dramatismo” do confinamento (NG 67) durante um par de quarteirões. Esta zona é atravessada por um “passadiço” que sobe em altura e cria outros espaços de
descanso, com vistas para a rua.
27 Antigamente
37
26
a via-férrea prolongava-se pela zona baixa de Manhattan, um troço demolido na década de 1960 (Goldberger, 2011, p. 61).
Este era um ponto de vista prejudicial e paradoxal, se for considerada a forte presença (apesar de não se encontrarem mais em funcionamento) de armazéns, fábricas e espaços para o embalamento de
carnes. Neste período, a administração Giuliani tentou demolir a High
Line (Goldberger, 2011, p. 60)
28
Além dos habitantes da zona, Michael Bloomberg, o sucessor do
presidente da câmara municipal Rudolph Giuliani, assim como muitas
pessoas da alta sociedade nova-iorquina (gestores de fundos e executivos imobiliários), de idade inferior a 40 anos, ficaram a favor da intervenção, o que se tornava visível nas festas de beneficência anuais da
Amigos da High Line.
29
36
Entre outros museus, encontra-se nas proximidades o Neues Museum, obra de reconversão efectuada pelo arquitecto inglês David Chipperfield.
Heinz Graffunder (1926-1994) e Karl-Ernst Swora (1933-2001) foram
arquitectos activos na Alemanha Oriental, sendo o Palast der Republik o projecto mais destacado das suas obras. O primeiro deles, Heinz
Graffunder, participou nas campanhas a favor da preservação do Palast
der Republik, chegando a organizar um simpósio sobre como a problemática do amianto, presente no edifício, poderia ser neutralizada com
fim de evitar a demolição do edifício.
38
39 Apelido
referente a grande quantidade de lâmpadas & candeeiros no
Hall de entrada principal.
No dia 23 de Agosto 1990, a Volkskammer (parlamento da Alemanha
Oriental) decidiu neste edifício avançar com a reunificação da Alemanha, depois confirmada pelo Bundestag da Alemanha Ocidental.
30 Em 2004 o Município dedicou 50 milhões de dólares ao projecto que,
40
31 As
41
com a participação de instituições e contributos privados, aumentaram
para 150 milhões.
normas incluíam regras para as novas construções que estavam
a surgir, estando a zona em via de revitalização e gentrificação urbana.
James Corner é teórico e arquitecto paisagista, concentrando o seu
trabalho no desenvolvimento de abordagens inovadoras que conjugam
o desenho arquitectónico paisagista com o urbano.
32
Diller Scofidio + Renfro é um atelier interdisciplinar, integrando a arquitectura com as artes visuais, com sede em Nova Iorque.
33
Segundo Pippo Ciorra (da revista Domus), dos outros três grupos
convidados, os grupos liderados pelos arquitectos Steven Holl e Zaha
Hadid apresentaram propostas demasiado arquitectónicas, quando o
atelier TerraGRAM propôs um projecto demasiado “vegetal”.
34
O sistema de superfície consiste na variação de unidades de pavimentação e de vegetação que variam de 100% de superfície coberta
por pavimentação a 100% de superfície vegetal. Este sistema funciona
através de elementos pré-fabricados de betão que se encaixam de
modo de deixar espaço pelo crescimento natural de vegetação como
35
O custo total da remoção do amianto presente no edifício foi de 70
milhões de euros. Entre 1998 e 2001 foram desmantelados revestimentos interiores para chegar ao amianto, cuja remoção durou até 2004.
O projecto do Humboldt Forum, prevê a união de duas bibliotecas Berlinenses, a colecção científica da Universidade Humboldt e a
colecção de Arte não-europeia. Naquela altura o orçamento deste projecto rondava os 670 milhões de euros, agora reduzido para 524 milhões de euros.
42
Markus Bader (2009, p. 77), cínico face esta afirmação, “met no one
outside Berlin that felt the place has Germany-wide relevance”.
43
Ute Lehrer ensina estudos ambientais na universidade York de Toronto, Canadá, e escreve sobre os temas da história da arquitectura e
do planeamento urbano no Ocidente.
44
45 Praça histórica e central da cidade de Berlim, após sua parcial destru-
ição na segunda guerra mundial, durante a guerra fria foi dividida (entre
as duas potências) e deixada num estado de dilapidação.
68
Outro grupo significativo eram as pessoas que tinham utilizado o edifício nos tempos do regime soviético e mantinham uma ligação sentimental para com este (Ouroussoff, 2006).
A “International Commission of Experts ´Historical Centre´” consistia
em 15 Alemães, um Austríaco e um Suíço, e foi constituída pelo governo
federal no ano 2000, finalizando o relatório no ano de 2001. No mesmo
relatório foi aconselhada a demolição do palácio, sendo esta comissão
responsável pela recomendação da construção do Humboldt Forum.
48 Entre as quais o teatro Sophiensaele de Berlim e a Opera Staatsoper.
A colectiva Urban Catalyst nasceu após um projecto europeu de investigação do mesmo nome. Fundada no ano de 2003, esta colectiva
é uma organização interdisciplinar de investigação, projectos, intervenções públicas, exposições e publicações. Segundo o grupo, objectivo
principal é incluir o público em discussões relacionadas a questões urbanas contemporâneas e desenvolver conceitos e estratégias para os
urbanistas e os arquitectos.
49
ZPN – ZwischenPalastNutzung, ou “Uso-Entre-Lugares” (a colectiva
Studio Urban Catalyst foi um dos membros fundadores principais).
50
51 A primeira
acção desta estratégia foi a abertura do Edifício/estrutura
para visitas guiadas limitadas (garantindo uma maior atenção pública e
mediática). Foi contratada uma empresa especializada em projectos de
cenários, que ajudou na capacidade de fazer intervenções económicas
dentro da estrutura do Palast. Uma outra acção aproveitou as instalações anteres para introduzir “musical walks”, uma iniciativa com o
Baudenburg Philharmonics.
Já nos tempos de utilização da época da República Democrática
Alemã, o Palast der Republik tinha sido local de importantes eventos,
sendo o primeiro lugar onde o governo comunista permitiu um concerto
de um grupo Ocidental, os Tangerine Dream no ano 1980.
Após o seu abandono e a eliminação do amianto, a estrutura do palácio continuou a mostrar a sua capacidade de utilização para eventos.
Deu lugar a concertos e exposições como por exemplo uma do exército
Terracota em 2004. O palácio foi utilizado para inumeros eventos, nomeadamente para o congresso anual da Associação Federal de Industrias Alemãs (BDI), no ano de 2004 um andar do palácio foi inundado
e utilizado para dar voltas em jangada. De referir ainda a proposta não
materializada, da estrutura servir de suporte ao campeonato mundial
de Volley.
52
53 Um dos fundadores do grupo raumlaborberlin, Markus Bader (1968-),
é arquitecto formado em Londres e Berlim e curador de exposições. O
seu trabalho concentra-se no interface entre arquitectura, arte e transformação urbana e a criação de meios interactivos. Tem sido professor
de conceptualização na Academia de Arte, Arquitectura e Design na
VSUP, Praga, e participou nas exposições de várias edições da Biennale de Veneza.
Extracto I
69 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
O principal material utilizado na construção da “montanha” foram elementos triangulares de tecido de fibra de vidro, por terem ao mesmo
tempo resistência anti-incêndio. Os visitantes podiam fazer um passeio
ao redor da base da montanha, subir ao topo através de três percursos
com narrativas diferentes, comer na “Pizzeria della Montagna” ou apanhar sol ao lado de uma lagoa artificial.
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EXTRACTO II
O SENTIDO DA ARQUITECTURA:
A NECESSIDADE DE ENTENDER
Daniella Maria
1. A ATRIBUIÇÃO DE SENTIDO NA OBRA DE ARQUITECTURA
Voluntária ou involuntariamente, a arquitectura tem sofrido
atribuições e definições que têm alterado a sua relação com o
mundo. Se por um lado, para alguns autores é apenas ciência,
técnica, cálculo, geometria, proporção, perspectiva, escala,
luz, conceito, poder, ego e êxito, para outros, a arquitectura é
mais que a arte de construir e edificar, habitar ou contemplar.
Arquitectura é humanizar, é natureza, é vida, é sentir, é cheiro,
é tacto, é responder às necessidades de uma sociedade, sendo
muito mais do que aquilo que se consegue alcançar com os
olhos do Homem.
É nesta dicotomia que surge a necessidade de respostas
arquitectónicas, capazes de solucionar e melhorar a sociedade
contemporânea. O arquitecto já não pode ser apenas um mero
desenhador, ele é quem constrói a cidade, é quem edifica
o mundo, é quem dá dimensão à “tábua rasa”, e, para tal,
é urgente que o mesmo tenha consciência do seu passado e
do seu presente, de modo a conseguir responder de maneira
coerente e consciente ao seu futuro presente.
A arquitectura surge como necessidade de um abrigo, tornase símbolo religioso e de poder, é construída segundo regras
padronizadas, adulteráveis e pré-definidas, respondeu à
evolução industrial, alimentou o ego, e hoje procura urgentemente
ser reflexo e elemento complementar da sociedade, com a “[…]
capacidade de ordenar o mundo e por essa acção humanizá-lo”
(Rodrigues, 2002, p. 10-11).
Por conseguinte, interessa entender até que ponto não nos
caberá a nós, arquitectos, o primeiro passo, capaz de responder
atempadamente à constante mutação da nossa sociedade.
Pretende-se, assim, primariamente, promover uma reflexão
sobre as seguintes questões:
O que é uma obra de arquitectura com sentido?
O que é arquitectura? O que é sentido?
O arquitecto como simples agente criador, ou como ser reflexivo
e consciente?
Construir “para” ou “com” as pessoas?
Que valores condicionam ou beneficiam o “destino” da obra
arquitectónica?
Qual a importância do preservar? Porquê a consciência do
reabilitar?
O passado como cópia, ou o presente no futuro como símbolo
de história?
Será o utilizador o elemento fundamental no reconhecimento do
sentido da obra de arquitectura?
Como refere Alberto Campo Baeza1: “Não compreendo os
arquitectos que só pensam exclusivamente em Arquitectura.
Acredito que é um erro. Tenho mais livros de Poesia que de
Arquitectura, e se tenho livros de Arquitectura!” (Campo Baeza,
Extracto II
75 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
2007, p. 24). Deste modo, é essencial ter a consciência que
afinal, são as carências do corpo e da mente que nos fazem viver
em sociedade e, acima de tudo, o arquitecto não pode esquecer
que, antes de ser um ser criador, é um ser racional consciente,
e a consciência está no conhecimento global e numa realidade
multidisciplinar.
Sintetizando, como a solução para estas inquietações (quem as
pensa e cria – arquitecto) e realidades (quem as vive – utilizador)
está longe de ter respostas unitárias e unânimes, o sentido que
se procura na arquitectura, ou que se pretende que a arquitectura
não perca, ou de certa maneira, volte a auferir, é tão genuíno no
presente como foi no passado, porque o mesmo, vale igualmente
hoje como valia ontem (Augé2,2006, p. 76).
O valor do Passado : Adolf Loos
form instead of making it depend on ornament is the goal towards
which humanity is aspiring”.
Em suma, como para Adolf Loos, apud Kenneth Krampton
(2003, p. 105), “só uma parte muito pequena da arquitetura
pertence à arte: o túmulo e o monumento. Tudo o mais, tudo
quanto serve a um fim, deve ser excluído dos domínios da arte”,
será que qualquer obra arquitectónica que procure um sentido
mais implícito será não-arquitectura, e que por isso, tudo o
que se construía com um sentido verdadeiramente explícito,
sem ornamento e segundos signos, mais se aproximaria da
construção do que da arquitectura? Ou Loos, simplesmente
quereria dizer, que o necessário seria apenas uma arquitectura
capaz de resolver as necessidades primárias do corpo humano,
abdicando, por conseguinte, do seu passado, do sonho, do
intelecto e do espírito?
O valor da (Re)Interpretação : Friedenseich Hundertwasser
Se, para muitos arquitectos, toda a filosofia modernista foi
exaustivamente concebida e desenvolvida como uma autêntica
“bíblia”, para outros, o ideal funcionalista, o desprezo pela
ornamentação e a busca de uma linguagem rectilínea e perfeita,
marcada pela indústria e pela simplicidade do tratamento e da
aplicação dos materiais, causava grande sentimento de repulsa,
procurando freneticamente na arquitectura outros valores e
uma nova direcção capaz de se contrapor ao intolerável. Em
1983, numa conferência, o arquitecto austríaco Friedensreich
Hundertwasser afirmava: “We are living in great time of upheaval,
in time of change. The era of absolute rationalism is nearing its
close”7 (1997c, p. 68).
Avaliando uma sociedade em que “[…] os problemas sociais
se colocam em termos de economia e técnica” (Argan3, 1996,
p. 222), o problema que mais incomodava Adolf Loos4 seria o
desperdício de obra e de materiais que o ornamento causava;
por isso, denunciou a sua aplicação como crime.
O arquitecto e artista Friedensreich Hundertwasser (19282000), na década de 50, deu início à sua obra, marcada por
uma intensa actividade pictórica, com construções, manifestos
anti-racionalistas e acções históricas em defesa de uma visão
naturalista do ambiente8, enunciando que o trabalho de um
artista, além de embelezar o mundo, deveria melhorá-lo. Para
Hundertwasser, cabia ao arquitecto transformar as cidades sem
alma, para que os habitantes vivessem de novo em harmonia
com a natureza.
Naturalmente, será que por ser apologista de uma arquitectura
que valoriza as necessidades humanas de valor estético e
espiritual, em detrimento da simplicidade funcional, retira à obra
de Hundertwasser a denominação de arquitectura, e se restringe
simplesmente a um exemplo de peça de arte? Ou o sentido
condutor, não estará nem num sentido explícito9 nem num sentido
implícito10, mas sim na união dos mesmos como afirmava Maria
João Madeira Rodrigues11? Será que tanto os arquitectos Loos,
Sullivan12, Meyer13 por defenderem um único sentido plausível,
não estariam eles a fazer a sua própria arte? E simplesmente lhe
alteraram o nome consoante a sua necessidade pessoal?
Contudo, Friedensreich Hundertwasser não foi o único a realizar
uma (re)interpretação da arquitectura marcada pela linguagem
racionalista do movimento moderno, em que a arquitectura
servia modestamente para responder às necessidades físicas
da sociedade, e em que a utilização de qualquer elemento mais
estético, artístico ou sentimental que pudesse ser atribuído ao
espaço arquitectónico seria automaticamente renegado. Nos
finais da década de 60, o arquitecto norte-americano Gordon
Matta-Clark14 apresentara igualmente uma nova abordagem da
arquitectura, visando uma arquitectura feita como uma arte, não
para ser admirada, mas para ser experienciada e sentida.
Segundo Adolf Loos, apud Kenneth Frampton (2003, p. 104),
seria totalmente inadequado que o homem continuasse a insistir
em utilizar o ornamento na sociedade moderna, pois, se assim o
fizesse, os objectos perderiam sua consciência, impedindo que
o homem visse a arquitectura com clareza, não conseguindo
dominar o seu todo. Como escreveu Adolf Loos, no seu manifesto
Ornament and Crime:
5
O ornamento moderno não tem antepassados ou descendentes,
passado ou futuro. É recebido com alegria pelas pessoas
incultas, para as quais a verdadeira grandeza de nossa época
é um livro fechado que, depois de algum tempo, é jogado fora.
(Frampton, 2003, p. 104).
Seguir um sentido de valor prático da arquitectura seria,
aos olhos de Adolf Loos, a direcção correcta, perante uma
arquitectura perdida no Tempo, que, continuando a aplicar
às obras arquitectónicas características do passado, nunca
alcançaria verdadeiramente o essencial, porque, para Loos,
apud Nikolaus Pevsner6 (2005, p. 21), “the lower the standard
of a people, the more lavish are its ornaments. To find beauty in
76
O valor da experiência : Gordon Matta-Clark
1. O exemplo do exterior de uma obra de Adolf Loos. Alçado posterior da Müller House
(Stresovicka, Prague), 1930 (Schezen e Rosa, 1996, p. 143)
2 e 3. Intervenção de Hundertwasser, Rosenthal Factory (Selb) (1980-182). É evidente
a presença dos elementos naturais, coberturas verdes e cores vibrantes. A primeira
imagem corresponde ao edifício antes da remodelação (Taschen, 1997, p. 118)
Apesar da sua formação em arquitectura, Matta-Clark recusou-se
a construir de raiz, defendendo um trabalho de diálogo constante
entre a arte e a arquitectura, rejeitando o ideal convencional
da arquitectura por esta “[…] estar baseada no estável e no
imutável, em contradição direta com a maneira flutuante,
multifuncional e mutante como o espaço […] era efectivamente
usado” (Schulz-Dornburg15, 2002, p. 15). Entendendo-se,
para Matta-Clark, para se conseguir libertar de um ideal de
Extracto II
77 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
construção, toda a arquitectura teria de se ligar e de se (re)
interpretar, segundo novos valores, segundo a procura de um
sentido de características implícitas, que a aproximassem da sua
beleza fundamental, da emoção da experiência.
Este desejo de alcançar uma arquitectura reactiva e menos
permanente, de modo que as construções arquitectónicas não
representassem uma ordem sólida, formal e definitiva, mas
tivessem a capacidade de responder à realidade, conferindo ao
edificado já obsoleto, outro sentido, fez com que Matta-Clark e
outros artistas do seu grupo Anarchitecture16 tentassem converter
a solidez estática, resultante da arquitectura modernista, num
instrumento e objecto capaz de se adaptar a qualquer situação
social e cultural, imaginando “[…] uma arquitetura que pudesse
se transformar de acordo com a flutuante vida urbana” (SchulzDornburg, 2002, p. 15).
Por conseguinte, a motivação de tornar o espaço “inútil”,
libertando-o da funcionalidade aprisionante, agregara na obra
de Matta-Clark a noção de um espaço visto fundamentalmente
como experiência, possuidor de uma qualidade elástica e
versátil, já presente na exposição do grupo Anarchitecture,
bem como na entrevista intitulada Dilemmas : a radio interview
concedida a Liza Bear, em Março de 1976 para a rádio WBAI–
FM17 de Nova Iorque, na qual Matta-Clark, tentou descrever a
sensação vertiginosa de passear pela sua intervenção Conical
Intersect (1975), dizendo:
Bem, quando se estava na peça18 em si, conforme você se
movia de andar em andar que haviam sido cortados, o seu
senso normal de gravidade era subvertido pela experiência.
Na verdade, quando você chegava ao andar de cima e olhava
para baixo por meio de um corte em forma de elipse no chão
que foi cortado, você olharia através de um fragmento de um
espaço de um apartamento comum, mas eu nunca tinha visto
nada parecido. Parecia quase como se fosse uma piscina. Ou
seja, ele tem uma qualidade reflexiva e uma superfície – mas a
superfície era somente o acúmulo de imagens dos espaços que
estavam embaixo. Havia esta estranha inversão. A maioria das
nossas experiências mais profundas em relação ao espaço era
como olhar para algo parecido com uma abóbada ou... É quase
impossível visualizar... Mas podemos voltar para algumas das
contradições... Não há nenhuma razão para que a contradição
não seja também um campo fértil. Quer dizer, isso me mantém
lutando com novas formas de fazer alguma coisa. (Bortulucce19,
2011, p. 120)20
Nesta perspectiva, os seus building cuts consistiam numa série
de intervenções (algumas ilegais) em edifícios abandonados
ou prestes a serem demolidos, que se apresentavam como
arquitecturas desprezadas, de uma maneira ou de outra, pela
cidade, pelo capitalismo e pela sociedade. Esta nova visão do
espaço arquitectónico, defendida por Matta-Clark, também
conferia uma crítica ao capitalismo modernista, especialmente
em relação às propostas urbanas impostas na época em Nova
Iorque.
Para Matta-Clark a essência da arquitectura residia no espaço
e na experiência humana. Ao reciclar-se a matéria existente,
pois defendia que a matéria está em constante transformação,
reciclava-se a sua significação e reciclava-se o espaço, local
de vivências e de identidades, que, a partir das intervenções do
artista, se transformava em um novo local, abrangendo outras
experiências.
4 e 5. Desenho e vista interior da obra Conical Intersect, Gordon Matta-Clark, 1975
(Santos, 2001, p. 77)
O valor do Multissensorial: Juhani Pallasmaa
Consciente de que à arquitectura não bastaria a tríade vitruviana
(Evers, 2003, p. 6); de que desde o Renascimento, a invenção
da perspectiva faz do olho o ponto central do mundo perceptivo;
e de que os restantes sentidos foram sendo separados e
ordenados como secundários, o arquitecto finlandês, Juhani
Uolevi Pallasmaa (1936-) tem desenvolvido ao longo das últimas
décadas, uma leitura mais fenomenológica da arquitectura,
em que as diferentes dimensões da experiência humana não
são provocadas ou invocadas apenas pelo funcionalismo
programático ou estético, que simplesmente considerava o
sentido da visão, mas por toda a percepção do mundo e do
espaço arquitectónico proveniente dos cinco sentidos, apelando
a uma arquitectura mais completa e integrada.
Alegando que a arquitectura é uma expressão artística, na
medida em que transcende a sua esfera puramente utilitária,
técnica e racional, e se transforma numa expressão metafórica
do mundo vivido e da condição humana, Juhani Pallasmaa tenta
transmitir, nos seus projectos arquitectónicos e especialmente na
sua obra literária, um apelo à arquitectura contemporânea, para
que não se continue a cometer os erros oriundos do passado
modernista, tentando suplantar a nossa consciência e avigorar a
nossa capacidade de reflexão. Com esse forte ruído de fundo, a
obra de Pallasmaa evoca a solidão contemplativa e o empenho,
a que ele já chamou, segundo Steven Holl21 (1947-), de “The
Architecture of Silence” (Pallasmaa, 2009, p. 8).22
6. A cidade da participação. A cidade de
envolvimento sensorial, Peter Bruegel
the Elder, Children’s Games, 1560
(Pallasmaa, 2009, p. 43)
7. A cidade da alienação. A cidade de
privação sensorial, Fotografia de Juhani
Pallasmaa, (Brasília) 1968 (Pallasmaa,
2009, p. 43)
78
Para Pallasmaa a arquitectura não deveria ser um mero
instrumento da funcionalidade, do conforto corporal ou de prazer
estético, mas que, sobretudo, lhe caberia o papel de activar a
nossa imaginação e emoção, Pallasmaa, defende que se torna
fundamental a percepção do mundo pelos cinco sentidos,
tornando-o acessível, desejado e compreendido por todos,
encontrando uma finalidade e um sentido para a arquitectura,
dizendo que “existe, hoje, uma idéia muito vaga sobre a finalidade
da Arquitetura. Actualmente, os edifícios são como ‘imagens’,
que refletem o egocentrismo de um cliente e/ou de um arquitetoartista. E essa não é a finalidade da Arquitetura”, sendo que “a
Arquitetura deveria estar social e culturalmente orientada. E isto
se perdeu” (Pallasmaa, 2006).
Contudo, esta inquietação pelo facto de a actual arquitectura se
manter ‘retiniana’, ‘narcisista’ e ‘niilista’ (Pallasmaa, 2006), não
se depreende somente da defesa da valorização do tacto ou da
audição como sentidos igualmente vitais face ao sentido da visão,
ou da tentativa de explicar a desumanidade da arquitectura,
mas também de tentar, nomeadamente, acautelar os novos
arquitectos para a concepção de uma obra arquitectónica
feita para as pessoas23. Na entrevista concedida a Anatxu
Zabalbeascoa24 (1966-) em 2006, intitulada La arquitectura de
hoy no es para la gente, Pallasmaa explica:
A Arquitetura de hoje se descuidou dos sentidos, mas não é
só isso que explica sua desumanidade [inhumanidad]. Ela não
é feita para as pessoas. Tem outros objetivos, alheios ao uso
pelos cidadãos. De tal modo que a Arquitetura se tornou uma
arte visual. E, por definição, a visão te exclui do que estás vendo.
Vê-se desde fora, enquanto que a audição [el oído] te envolve no
mundo acústico. Nesta linha de raciocínio, a Arquitetura deveria
envolver através da tridimensionalidade. O tato nos aproxima do
tocado. Por isso, uma arquitetura que enfatiza a visão nos deixa
‘fora de campo’. (Pallasmaa, 2006).
Sintetizando: se de Adolf Loos retiramos o “medo” do confronto
com o passado, na sua tentativa de exclusão do supérfluo como
símbolo de uma estagnação e submissão da arquitectura e da
sociedade ao mesmo, simultaneamente, se entende com Louis
Sullivan, que esse confronto é possível e valoriza-se o equilíbrio
entre épocas, bem como o se construir uma nova identidade
fundamentada na sua origem. Hannes Meyer procura entender a
arquitectura não como uma obra acabada resultante de um único
artista, mas como um processo colectivo, que não se esgota
Extracto II
79 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
na acção do arquitecto no desenho, mas que se prolonga na
execução, defendendo a sua multidisciplinaridade.
Friedensreich Hundertwasser, chama a atenção para uma
arquitectura que se esconde e subsiste para lá das “janelas”,
para a coerência entre o construído e a natureza, assim como
para uma (re)interpretação orgânica da mesma, tanto na sua
edificação, como na sua utilização. O arquitecto é livre de criar,
mas o utilizador também tem a liberdade de a utilizar, e é essa
a consciência que falta ao arquitecto, nas suas criações. Tem
construído uma obra acabada, pensando que se esgota na
sua concepção, mas a arquitectura é um objecto social, é uma
acção em constante transformação, sendo igualmente cíclica, na
medida em que, nasce, “vive” e se deteriora e, para se conseguir
controlar o seu “tempo de vida”, em muito ajudará o sentido,
segundo o qual se constrói.
Nesta abordagem, se Gordon Matta-Clark vê a arquitectura
como uma experiência espacial, juntando a capacidade de nos
surpreendermos a cada deambular, com a capacidade criativa
e volátil exigida ao arquitecto, explicando que a arquitectura
só faz sentido quando é utilizada. Juhani Pallasma destaca
a importância da mulltissensorialidade, dos 5 sentidos, da
dependência do ocularcentrismo, e da necessidade da criação de
uma arquitectura que apela aos valores humanos, ultrapassando
a definição base para uma realidade eternamente incompleta,
mas que o arquitecto tem o dever de conseguir com a sua acção,
completar com mais uma “peça”.
Analisadas várias interpretações possíveis de uma plausível
construção do sentido da arquitectura, pretende-se,
seguidamente, compreender a origem da mesma, na medida
em que o arquitecto, o programa e o utilizador são considerados
os elementos fundamentais para uma pertinente atribuição de
sentido à obra de arquitectura face à sua utilização.
Numa entrevista para a revista UPORTO - Revista dos Antigos
Alunos da Universidade do Porto, o professor Bernardo Pinto de
Almeida25 (1954-) sugeriu ao arquitecto Siza Vieira26 (1933-) uma
definição muito sintética do que seria actualmente a arquitectura
para ele, e Siza respondeu dizendo: “Se calhar não era capaz…”
(Vieira, 2003, p. 31).
2. A ORIGEM DA OBRA DE ARQUITECTURA
O primeiro gesto arquitectónico terá sido, para Gregotti27, o da
colocação da pedra que significa e reconhece, determina e
instaura, um lugar. Aí nascerá o espaço expressivo, aí nascerá a
arquitectura. (Almeida, 2004, p. 41)
O ser humano habita a terra há mais de 1 milhão de anos28
(Kostof29, 1996, p. 43). Com o Homo Sapiens foram estabelecidas
as primeiras comunidades sedentárias e hierarquizadas,
reveladoras da preocupação de desenvolver estruturas sólidas
e duradouras (Meneses, 2007, p. 46).
Ao disseminar-se a partir da África Central pela costa até aos
climas europeus, o Homem viu-se obrigado a deixar as cavidades
naturais, e teve de construir o seu próprio abrigo30.
Se no início, as suas protecções estavam dependentes da
natureza, fossem elas grutas ou mesmo árvores, com a evolução
da espécie e, mais concretamente, com o desenvolvimento da
inteligência e da habilidade para construir ferramentas e para
organizar uma rotina diária, surgiu a necessidade de definir
aglomerados com abrigos de carácter mais permanente, ou
outros com utilizações periódicas de curta duração, adaptandose ao clima e ao seu quotidiano (Meneses, 2007, p. 46).
A execução da cabana primitiva e dos restantes artefactos,
permitiu ao Homem controlar o ambiente envolvente e adaptá-lo
à sua própria conveniência e evolução, afastando definitivamente
o lado imediato e obscuro caracterizador do Ser primitivo, do
lado inteligente e criativo do Ser humano.
31
Segundo a definição dada por Bruno Zevi32 (1996, p. 1819), em que a obra de arquitectura é toda aquela em que fica
explícita a existência de um espaço interno relacionado com
as necessidades humanas, tornando-se, esse mesmo espaço,
a principal característica de uma arquitectura, poder-se-á
considerar, que a origem da arquitectura, estará intimamente
associada à ideia de abrigo, funcionando como elemento de
limite na organização espacial.
Portanto, se considerarmos que a arquitectura começa com
as primeiras construções humanas, pela sua capacidade de
resposta às necessidades do homem, e que a arquitectura
“[…] não provém de um conjunto de larguras, comprimentos e
alturas dos elementos construtivos que encerram o espaço, mas
precisamente do vazio, do espaço encerrado, do espaço interior
em que os homens andam e vivem” (Zevi, 1996, p. 18), poderse-á afirmar que a arquitectura tem início nos primeiros abrigos,
na caverna.
No entanto, à medida que as comunidades humanas evoluíam e
aumentavam, também as necessidades e crenças se alteravam,
e desde as primárias habitações do período Paleolítico ao
Neolítico, ou das primeiras civilizações mesopotâmicas ao
Império Egípcio, Grego ou Romano, o sentido da arquitectura
como “arte de edificar” (Rodrigues et al., 2005, p. 45) de essencial
necessidade, é ultrapassado e substituído, podendo-se então
considerar que a origem da arquitectura como obra de arte,
estará mesmo nas simples construções megalíticas, de cariz
fúnebre e, posteriormente, nas pirâmides egípcias, nos templos
dos deuses gregos, nos aquedutos, na arquitectura religiosa e
público-utilitária do Império Romano.
Esta permanente analogia entre arquitectura e arte, tem vindo ao
longo da história, a criar teorias, face a uma concreta definição
da arquitectura. Embora Peter Eisenman33 (1932-), apud Josep
Maria Montaner34 (2007, p. 168), afirmasse que a arquitectura
não deveria ter significado, a busca de um sentido condutor,
tem vindo ao longo da história a tornar-se fulcral. Referindo
Henri Lefebvre35 (1901-1991): “se desaparecem o sentido e a
finalidade, se não podemos nem mesmo declará-los mais numa
práxis, nada tem importância ou interesse” (1991, p. 106).
Estabelecer o momento certo no qual a arte surge torna-se uma
tarefa complexa e de concretização bastante árdua, uma vez
que, se para alguns, a arte nasce no mesmo momento histórico
no qual o ser humano é capaz de construir uma casa ou realizar
pinturas ou esculturas, então,
[…] tal como afirma o professor Ernst Gombrich36, “não
existe, realmente Arte. Apenas existem artistas”, pois, estes
eram “homens que apanhavam terra colorida e desenhavam
toscamente as formas de um bisonte sobre as paredes de
uma gruta”, enquanto agora “compram as suas cores e traçam
cartazes para as estações do metro”. (Navarro, 2006a, p. 9)
Entendendo-se, se analisarmos um pouco a respeito, e
mencionando as palavras de Bruno Zevi, “[…] o facto de o
espaço, o vazio, ser o protagonista da arquitetura […]”, será
80
“[…] no fundo, natural, porque a arquitetura não é apenas arte
nem só imagem de vida histórica ou de vida vivida por nós e
pelos outros; é também, e sobretudo, o ambiente, a cena onde
vivemos a nossa vida” (1996, p. 28), por isso, a solução que
se procura como resposta a uma arquitectura com sentido,
permanecerá nas preocupações e consequências desse sentido
atribuído pelo arquitecto e pelo utilizador, à obra de arquitectura,
enquanto reflexo de objecto social, e não mais apenas, como
mera obra de valor prático, plástico ou espiritual.
Assim, se para Jean-Louis Viel de Saint-Maux37 (1745-1819),
apud Pedro Vieira de Almeida (2004, p. 38), “[…] a verdadeira
origem da arquitectura não está na natureza mas na arquitectura
primitiva dos dólmens e menhires […]”, ou se para Pedro Vieira de
Almeida, “todos os lugares referidos a um perceber humano são
potencialmente arquitectura. Mas não o são automaticamente”,
pois, “são-nos apenas através do sentido poético que os
organize, instaure ou leia como tal” (2004, p. 34), o facto é que,
como declarou Campo Baeza, “se o homem como animal se
refugiou nas cavernas, e como ser racional construiu a cabana,
o homem como ser culto, criador, concebeu a casa como morada
para habitar. E é neste ponto que nos encontramos” (2004, p.
57).
A origem da obra de arquitectura com sentido, surge não como
resultado de um “capricho” artístico do arquitecto, mas sim, como
uma acção, fruto de uma necessidade diária do seu utilizador, o
abrigo, que se metamorfoseará face à sua identidade e imagem,
e ao qual, posteriormente, será atribuído um sentido positivo ou
negativo.
Para Raul Lino38 (1879-1974), desde os tempos pré-históricos
até à modernidade nunca o problema da habitação deixou de ser
actual e de interessar as criaturas humanas, sendo que, mais
ou menos complexa, a existência do Homem não poderá nunca,
prescindir da cabana, gruta ou casa que lhe sirva de abrigo,
garantindo-lhe, pelo menos, relativa tranquilidade e repouso
retemperador (Lino, 1992, p. 9).
Por conseguinte, não interessa desenvolver um sentido geral da
arquitectura, na medida em que, o lugar é delimitado e instaurado
pela colocação de apenas uma pedra (Almeida, 2004, p. 41),
bem como na valorização de construções de vivência temporária,
como túmulos ou templos, considerados por Bruno Zevi como
Extracto II
81 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
“obra não-arquitetônica” (1996, p. 67), porque, o grande desafio
do arquitecto, enquanto agente criador, não está em construir
espaços que se prolonguem no Tempo, devido à sua utilização
e experiência transitória ou contemplativa, mas na execução de
espaços habitacionais permanentes, que lidem diariamente com
os seus utilizadores, e que sejam capazes de reflectir, satisfazer
e (re)educar as necessidades dos mesmos, independentemente
da sua personalidade, cultura ou situação social.
Como a arquitectura é pela sua natureza uma actividade colectiva
e um facto profundamente social, o arquitecto é chamado a
interpretar a história do seu Tempo para a transformar em
organização do espaço de vida (Botta39, 1998, p. 135). Deste
modo, ora aludindo a um valor prático, ora ao valor mais espiritual
ou conceptual, considerada arte, ou simplesmente “[…] ciência
de projectar e construir edifícios […]” (Dicionário da língua
portuguesa, 2002, p. 151), só se conseguirá fazer arquitectura
com sentido, quando ao arquitecto couber a capacidade de
construir “arte”, primando fundamentalmente a sua consciência
social.
Não abdicando da história, interessa agora, abordar o
contemporâneo, e entender até que ponto o utilizador, mesmo
já não sendo o criador do seu abrigo, continua ou não a ser o
elemento fundamental em qualquer obra de arquitectura.
Deste modo, mesmo continuando a existir arquitectura sem
autor, onde a sua beleza e eficácia, não são de todo indiscutíveis
(como fora exposto por Bernard Rudofsky42 (1905-1988) em
1964, no The Museum of Modern Art43, com a exposição
Architecture Without Architects : An Introduction to Non-Pedigreed
Architecture44 (Rudofsky, 2012), questiona-se a postura do
arquitecto face à arquitectura actual, pois independentemente
das suas crenças e ideais, de valor prático ou de valor mais
espiritual, o desafio permanecerá na sua capacidade de
execução de uma arquitectura “com sentido e com medida”
(Campo Baeza, 2004, p. 11), respondendo com ética45, engenho
e, posteriormente, como referiu Andrea Palladio46 (1508-1580),
apud Eduardo Côrte-Real47 (2001, p. 51), com “[…] comodidade,
perenidade e beleza […]”, a qualquer tipo de cliente, ou posterior
utilizador.
Se, até à Pré-História o arquitecto era o próprio utilizador, onde a
arquitectura surgia como reflexo directo das carências humanas,
logo, não era pensada como arte, mas como necessidade, muita
da posterior prestação arquitectónica realizada ao longo dos
tempos, até à modernidade, como por exemplo a de Gordon MattaClark, anteriormente retratada (que consistia em intervenções
temporárias, que não respondiam a necessidades directas de
abrigo, mas cujo objectivo presidia puramente na experiência
temporal e momentânea, associada a outras necessidades do
Homem de cariz artístico ou psicológico), poderá no fundo, ser
considerada não-arquitectura, por não apresentar um sentido
explícito de necessidade prática e funcional directa, como vem
sendo atribuído à mesma.
Consequentemente, se se verificar que o sentido da arquitectura
permanece na construção realizada pelo homem, de maneira
consciente enquanto arte de edificar, muito provavelmente o
sentido da arquitectura poder-se-á pensar como tendo o seu
início nos cálculos das pirâmides Egípcias, nas características
e ordens clássicas, ou simplesmente no Renascimento com a
invenção da perspectiva (Conti40, 1999, p. 3), e no, consequente,
reconhecimento do mestre-de-canteiro como arquitecto, marcado
“[…] pela emancipação do artista: tendo passado do «estatuto»
de artesão ao de intelectual […]” (Thoenes41, 2003, p. 8).
8. Fotografia de um povoado dogom no Sudão, apresentada na exposição de Bernard
de Rudosfy,1964 (Montaner, 2007, p. 128).
A Virtude moderada da acção, alargada à qualidade técnica
baseada no desenho, sintetizava as condições que Alberti tinha
preconizado para o arquitecto: “Grande matéria é a arquitectura,
nem todos a podem abraçar. Aquele que o faça deverá ter
grande habilidade, o mais intenso entusiasmo, a mais elevada
educação, a mais vasta experiência, e, acima de tudo, sério,
de são julgamento e conselho, se quiser chamar a si próprio
arquitecto. (Côrte-Real, 2001, p. 71)
82
a lógica, hoje a arquitectura tem vindo a perder o seu sentido.
O que possivelmente terá de ser alterado, não será o engenho,
mas os ideais, os valores e os sentidos, segundos os quais os
arquitectos insistem em continuar a utilizar como resposta, ao
que se julga ser a acção de arquitectar.
Resumidamente, o sentido da arquitectura que durante a PréHistória permanecia na execução do abrigo, efectuado com os
materiais locais, como a pedra ou a pele dos animais, com a
evolução do Homem na Antiguidade, o conhecimento permitia
novas direcções. O que até então era toscamente construído,
respondia agora, a regras de ouro, sobressaindo a geometria, o
cálculo ou a proporção áurea.
Actualmente, já não se faz arquitectura como resposta a uma
função mãe51, sendo que, a arquitectura simplesmente tem
resultado numa manifestação plástica ou numa imagem52, não
existindo mais o arquitecto ao serviço da sociedade, sendo a
sua preocupação, o seu cunho e satisfação pessoal, acabando
muita da obra arquitectónica por resultar, em construções
artísticas inúteis, cujo seu “destino”, se propícia na sua
alteração, degradação ou demolição, devido à sua incapacidade
programática, face às necessidades dos utilizadores.
Desde as necessidades físicas às religiosas ou de defesa, do
Humanismo ao Iluminismo, ou do exagero dos ideais barrocos
e rococós, à linguagem normalizada da Revolução Industrial,
como foi exemplo o taylorismo e a estandardização, a sociedade
têm-se transformado e com ela, as consequentes respostas de
um sentido da arquitectura.48
Desde os últimos séculos que esta perda de sentido e
consequente inutilidade de grande parte da construção das
obras de arquitectura, tem vindo a preocupar alguns autores.
Neste entendimento, hoje mais do que nunca é evidente e
pertinente que o papel do arquitecto tem de ser (re)avaliado53
(Augé, 2006, p. 35).
Independentemente, do seu Tempo, a grande característica da
arquitectura, permanecera na realização de uma arte funcional,
que embora, ora refente a uma prática mais construtiva, ora a
uma prática mais conceptual, responde a um programa social,
e esse facto, tem vindo a constituir a eterna diferença entre a
arte puramente artística, de autor singular e plástico, cujos
utilizadores são apenas os admiradores momentâneos deste
tipo de manifestações, e a arte arquitectónica, que condiciona e
altera directamente a vida do seu utilizador, tanto a uma escala
habitacional, como à escala da urbe49, sendo que, segundo
Adolf Loos, apud Renato Fusco50 (1984, p. 186) “o artista deve
estar apenas ao serviço de si mesmo, o arquitecto ao serviço da
sociedade”.
Contudo, se por um lado é verdade que o arquitecto se tem
perdido no Tempo, por outro, também as consecutivas exigências
à considerada arquitectura se alteraram até então, porque,
autónoma aos castelos ou aos palácios, toda a habitação
construída era simplesmente construção.
Como afirmou Campo Baeza,“[…] o futuro, está numa arquitectura
mais profunda do que superficial, mais sábia do que original,
mais lógica do que engenhosa” (2011, p. 32), e que com base
na máxima de que tudo é possível, ergue-se o impossível, que
durará apenas o que os silicones com que tudo aquilo sustêm
sejam capazes de aguentar, prestando-se culto ao arbitrário e
ao capricho (2011, p. 33), pelo que, esquecendo-se a razão e
Por conseguinte, só mais tarde com a industrialização e com
o aumento populacional é que os problemas habitacionais
ganharam realmente relevo, e foi desafiado ao arquitecto a
construção de novos espaços urbanos, surgindo os primeiros
planos das cidades com ideais sociais, que são construídas as
primeiras habitações colectivas, como resposta à superpopulação
das cidades, apresentando-se como uma alternativa aos
problemas urbanos vigentes. Referindo Josep Maria Montaner:
A revisão destas obras que nos anos sessenta coloca uma
ênfase especial em entender a arquitectura como linguagem, nos
permite comprovar como ao longo do século XX a ideia básica
do que é a arquitectura mudou de forma muito substancial.
(Montaner, 2007, p. 166)
Extracto II
83 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
Durante os finais do século XIX e nomeadamente no século
XX, por todas as cidades se construíram bairros de habitação
colectiva. No entanto, com a evolução da sociedade, e ao
contrário do que se esperava, as consequências da vida em
comunidade de elevada proximidade, não são por todo o cidadão
bem aceites ou respeitadas. Nesta perspectiva, não cabendo
mais ao arquitecto a responsabilidade do futuro da sua obra,
tornou-se cada vez mais evidente, que a causa de fatalidade
da obra de arquitectura, e a sua consequente perda de sentido,
poderá não estar muitas vezes na execução do projecto, mas
na sua consciente ou inconsciente utilização, sendo o utilizador
quem realmente confere sentido à obra de arquitectura.54
Factualmente a arquitectura é assim considerada como o
espelho da sua sociedade (Pinheiro55, 1991, p. 14), e como o
homem será eternamente um ser livre e indecifrável, torna-se
cada vez mais óbvio, que a solução para uma arquitectura sadia,
duradoura, e resultante de uma arquitectura com sentido, não
estará em respostas arquitectónicas que atendam apenas ao
cuidado pretendido por um suposto utilizador, mas na realização
de uma arquitectura que ajude a educar e a alterar os seus
hábitos:
alheia. Se a espécie humana evoluiu? Sim é um facto! Mas o
seu instinto “criativo” ou “destrutivo” permanecerá eterno, e
futuramente ter-se-á de entender, que a opção de “rótulo” face à
sociedade está longe de ser o sentido condutor a seguir, por uma
obra de arquitectura vigente.
Em suma, o problema arquitectura, como solução, terá de ser
muito mais do que uma resposta formal, e verificar-se-á como o
Homem, desde a Pré-História até à actualidade, sempre viu na
habitação o seu refúgio e a sua imagem, e como será importante
ter em consideração essa praxis, face às suas atitudes e
comportamentos posteriores, de modo a se conseguir construir
uma arquitectura com sentido de reconhecimento mútuo,
porque, de que valerá ao arquitecto fazer um obra, se não for
compreendida por quem a realmente utiliza?
O arquitecto não constrói ele próprio. Pela aplicação concreta
das suas ideias, ele é tributário, por um lado, dos artesãos, por
outro, de quem encomenda a obra, que despende o dinheiro e
que aparece nos títulos e nas epígrafes como o verdadeiro autor
da obra. O arquitecto tem que comunicar com eles. É preciso
explicar os planos, justificar as decisões que dão origem às
despesas, discutir objecções: resumindo, o projecto toma forma
pelo diálogo. Por trás de quem encomenda a obra encontrase o público, em cujo espaço, o edifício intervém e que tem de
compreender o que o arquitecto quis fazer, por que é que o fez
assim e não de outro modo. Além disso, o arquitecto deve ser
capaz de formular em termos claros dados arquitectónicos e
de os tornar inteligíveis aos não iniciados. Uma pintura ou uma
escultura «falam» por si, remetem para significados internos.
A obra arquitectónica é muito menos explícita. Uma coluna é
uma coluna: ela não diz para que serve nem que sentido pode
ter, excepto a sua função enquanto membro de uma ordem
arquitectónica (Thoenes, 2003, p. 8-9).
Reconhecido como tal, considera-se que, ao arquitecto fora
auferida verdadeira importância enquanto artista no período
do Renascimento, porque, embora, já na Antiguidade Vitrúvio
tivesse dado os primeiros passos, será apenas na Renascença
e com Alberti57 e, posteriormente, com Serlio58 (1475-1554) ou
com Palladio, que a arte de arquitectar, concebida pelo real
arquitecto terá o seu despertar, sendo apreciadas, tanto as suas
contribuições teóricas como as práticas (Thoenes, 2003, p. 8). Ao
arquitecto é, desde sempre, exigida formação e conhecimento,
mas a essência ética, não se adquire simplesmente com a
construção do intelecto, mas sobretudo com a consciência,
senso comum e carácter próprio.
Este aspecto de orientar o uso […] corresponde assim a uma
função pedagógica do arquitectar, em que o arquitecto tem de
prever a possibilidade de uma utilização livre das arquitecturas
que possa criar, mas também, e em simultâneo, fornecer
orientações concretas para uma sua utilização conveniente.
(Almeida, 2004, p. 51)
Por outras palavras poderá-se afirmar que, a arquitectura,
enquanto “ideia construída”, compreende mais do que a sua
própria definição (eternamente indefinida), e que se prolonga,
para lá dos questionados elementos: conceito, forma, espaço,
luz, matéria e lugar. Reconsidera-se igualmente pertinente,
analisar, a “vida” da obra de arquitectura, e entender a sua
acção, como consequência das condutas estabelecidas pelo seu
criador arquitecto, pelo programa desenvolvido, e pelo utilizador
atribuído.56
Independentemente da adaptação de um sentido mais explícito
ou implícito na sua obra, o arquitecto será eternamente
confrontado pela (re)adaptação e alteração da mesma. Antes
de se tornar arquitecto foi utilizador de necessidade primária, na
caverna, e é essa consciência que a muitos arquitectos continua
O valor do arquitecto
No entanto, e como afirmou Fernando Távora59 (1923-2005),
costuma-se dizer que a utilização da profissão do arquitecto
exige uma certa cultura, civilidade e sentido social, porque, se
se verificar, num olhar mais atento ou crítica, a profissão de
arquitecto é uma das mais dispensáveis da sociedade (2003, p.
5).
9. Crónica desenhada. Os desejos e as necessidades do utilizador. As intenções e
os interesses do arquitecto. A procura do programa funcional (Burgos, 2009, p. 37)
O médico salva-lhe a vida. O advogado salva-lhe a fortuna e a
honra. O engenheiro salva-lhe a segurança. O arquitecto que é
que lhe salva? Salva-lhe a qualidade. Se você não é exigente
com a qualidade, se se preocupa muito com a saúde, a sua
fortuna, a sua honra ou com a sua segurança, você vive sem o
arquitecto. (Távora, 2003, p. 5)
84
Este “medo” da inutilidade conotado ao arquitecto, foi de
certo modo, uma das causas que fez com que, ao longo dos
tempos, se tenha acrescentado à profissão de arquitecto, não
apenas o conhecimento do desenho e o gosto pela arte, mas
principalmente se desenvolveu uma profissão multidisciplinar,
onde o conhecimento de várias ciências, filosofias e ofícios se
juntaram para conseguir dar resposta a um programa de espaço
concreto, e às necessidades dos seus utilizadores de maneira
mais completa, adequada e coerente60.
Entendendo-se que, se a um artista comum basta saber trabalhar
na sua matéria-prima e criar os seus objectos, que serão
admirados, rejeitados, guardados ou comprados por alguém,
ao arquitecto não basta o desenho, a matéria ou a ergonomia,
mas sobretudo o pleno entendimento que “a arquitectura é,
primeiramente, um acto de inteligência. E requer, depois, uma
clara consciência social” (Távora, 2003, p. 5).
Depois das respostas militares e religiosas dos estilos
arquitectónicos presentes desde a Antiguidade à Idade Moderna,
é na Idade Contemporânea, que a arquitectura reflecte os novos
avanços tecnológicos e os paradoxos socioculturais estimulados
pelo início da Revolução Industrial. É precisamente no meio
desta crise de produção arquitectónica em pleno século XIX,
que o papel da arquitectura e, consequentemente, do arquitecto
será constantemente questionado, surgindo novos paradigmas,
responsabilidades e funções, presentes numa reformulação do
urbanismo (Montaner, 2007, p. 82).
Ao ritmo da sociedade e dos seus desejos industrializados, mais
uma vez a arquitectura muda de direcção, e surge no século XX,
representante do movimento moderno, como reflexo de uma “era
mecânica”, primando pelos padrões e medidas estandardizadas
características do funcionalismo, cuja base se desenvolveu
segundo a doutrina moderna, construída nos CIAM61, e que
tinha o pensamento de Le Corbusier62 como referência, em que
a sua cidade pensada para o Homem ideal, puro e perfeito, se
transformara num espaço frio, sem identidade e sem tradição
(Montaner, 2007, p. 18).
Valorizando o cariz social, surgiu na década de 50 o Team 1063,
grupo que se formou ainda nas reuniões dos CIAM, que veio reunir
uma terceira geração de arquitectos com um papel dominante na
produção da arquitectura e do urbanismo, caminhando no sentido
Extracto II
85 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
da liberalização do arquitecto e pretendendo introduzir uma
ideologia heterodoxa que permitisse responder aos complexos
problemas sociais, culturais e urbanos. Paralelemente a muitas
realidades pretendia-se a construção de uma arquitectura
consciente de sentido unificador e coerente, que, não era
construção nem arte, era um novo sentido arquitectónico, um
sentido de comunidade fundamentado na sua origem, feito para
o utilizador, e não como obra egocêntrica do seu criador.
Esta nova geração voltou-se para os princípios mais básicos das
relações humanas, criticando os critérios universalistas da Carta
de Atenas64. Acreditava que ao negar-se a história e o contexto só
se conseguiria conceber cidades sem alma e descaracterizadas
de vida urbana.
Cities tend to become more magnetic, and consequently larger
and larger, as the web of association is intensified and its range
extended. I say it this way and not the other way around because
it is important to comprehend the expanding city in the light of
man’s basic desire to communicate, i.e., from a positive human
need, and not from statistical, economical, and technological
inevitability in an impersonal hence negative sense. I believe it
is because this quantitative attitude still prevails that the project
of urban expansion seems terrifying instead of gratifying, and
the solutions ubiquitously proposed so functionally inadequate
and contrary to the growing communicative need of the citizen.
(Eyck65, 1993, p. 355).
Segundo Josep Maria Montaner (2007, p. 30), “[…] tratavase de propor uma utopia do possível, aceitando os gostos e
necessidades das pessoas”, uma vez que, estes arquitectos
que tinham adoptado a postura do arquitecto liberal, já não
projectavam para um Homem genérico e ideal, mas sim, para
um Homem concreto, individual, com todas as suas carências,
limitações e desejos (Montaner, 2007, p. 18). Foi precisamente
depois da Segunda Guerra Mundial (1939 -1945) que estas
questões que já vinham sendo estruturadas, adquirem realmente
relevo, sendo que, a crise da cidade moderna servira de
incentivo para uma profunda revolução dos princípios sociais,
políticos, económicos e ideológicos, alterando irreversivelmente
a segunda metade do século XX.66
Chamados mais uma vez, “[…] a interpretar a história do seu
tempo para a transformar em organização do espaço de
vida” (Botta, 1998, p. 135), e desenvolvendo a inteligência e
o conhecimento que “a arquitectura é pela sua natureza uma
actividade colectiva e um facto profundamente social” (Botta,
1998, p. 135), o papel desta nova geração de arquitectos, não
se enraizava simplesmente na evidente consciência que a
crise da habitação não se resolvia, com hipóteses universais
e manifestos racionalistas, provenientes da cultura modernista,
mas evidentemente, com uma actuação específica e adaptada
às privações locais, denunciando que os modelos funcionalistas
seriam incapazes de resolver os problemas do desenraizamento
social, agravados profundamente pela guerra.
Distante das pequenas tribos e comunidades, dos impérios
egípcio e romano, ou até mesmo das primeiras cidades
medievais, onde ainda a sociedade era organizada e deliberada
praticamente pelo chefe, faraó ou pelo rei, não apresentando
grande liberdade de expressão, o conhecimento dos ideais
modernos e, principalmente, a renúncia à Monarquia, fez com
que os cidadãos lutassem por novos direitos sociais.67
Estas novas filosofias e realidades mundiais provocaram
profundas crises sociais, sendo a já referida falta de habitação
nos centros urbanos, uma das principais causas. O alojamento
era então um problema mundial, e durante os anos 50 e 70,
a produção habitacional foi marcada por um forte nível de
experimentação, onde as cidades procuravam incessantemente
novos modelos, métodos e resultados arquitectónicos, uma vez
que se verificou, que não era suficiente reinventar as premissas
modernas, tornando-se urgente a criação de novas soluções
plausíveis.
As consequências tornavam-se avassaladoras, a experiência
moderna com a habitação, em grande parte influenciada pela
Segunda Grande Guerra, tinha chegado ao seu limite, sendo que,
os edifícios projectados segundo os métodos da arquitectura e
do urbanismo moderno, apenas compreendiam a minoria da
população, já privilegiada a priori, enquanto a outra parte que
não tinha possibilidades (a grande maioria representante da
classe operária e emigrante), se começou a fixar nos subúrbios,
dando origem aos bairros clandestinos. Surgiram paralelamente
as barracas, os guetos e as slums68, que constituem até hoje um
dos maiores problemas sociais, sem solução aparente.
No meio desta nova realidade da cidade e do apelo ao direito de
habitação, assim como “[…] ao surgimento de uma nova cultura
do espaço público, que outorga um novo papel ao espaço livre
na cidade” (Montaner, 2007, p. 82), apareciam, simultaneamente,
várias filosofias e ideais que apresentavam diversas posturas
face às novas soluções de habitabilidade da cidade moderna
não só por parte de arquitectos e de urbanistas, mas igualmente
por parte de sociólogos, historiadores, economistas e geógrafos.
Assim, como Henry Lefebvre reivindicou na sua obra intitulada O
direito à cidade, propondo no fundo o direito à auto-determinação
do utilizador na condução do seu próprio quotidiano e na
construção do seu próprio habitat (Montaner, 2007, p. 82),
também Aldo van Eyck, membro do Team 10, defendeu o retorno
à origem e a ampliação das fontes de legitimação e inspiração,
alegando a possível recuperação do significado antropológico
elementar da arquitectura, depois de ter desenvolvido um
estudo sobre as culturas primitivas dos povoados africanos e
as características da arquitectura vernácula. Conforme declarou
Aldo van Eyck, apud Josep Maria Montaner:
O homem sempre soube fazer a sua morada neste mundo desde
mil anos. Durante todo este tempo a sua capacidade natural não
aumentou nem diminuiu. É evidente que esta imensa experiência
do entorno só poderá ser aproveitada no presente se pudermos
«precipitar» todo o passado: o conjunto do esforço humano.
(Montaner, 2007, p. 33)
Consequentemente, “se a arquitetura contemporânea sabia
enfatizar a continuidade histórica da identidade de cada lugar,
também poderia dar a entender ao homem da rua que é algo
que admite a sua participação” (Montaner, 2007, p. 18). A crítica
das ciências sociais à cidade moderna, vinha assim fortalecer o
que a cultura arquitectónica denunciava, e ao propor “o direito à
cidade”, Lefebvre sugeria o direito à liberdade, à individualização
da sociedade e o direito ao habitar e ao habitat.
Num período em que os ideólogos discorrem abundantemente
sobre as estruturas, a destruturação da cidade manifesta a
profundidade dos fenómenos de desintegração (social, cultural).
Esta sociedade, considerada globalmente, descobre que é
lacunar (Lefebvre, 1991, p. 114).
A fragmentação do espaço urbano traduzia assim, a consequente
relação privado-público e a correspondente diferenciação social.
Neste contexto, Lefebvre defendia “o direito à cidade” (Lefebvre,
1991, p. 116-117) como afirmação da diferença e integração no
86
todo social, isto é, habitar com as já referidas, dimensões de
individualização, socialização e liberdade.
“O direito à cidade” afirmava-se como um direito à apropriação
do espaço com efectiva participação e integração, porque a
descontinuidade no espaço urbano traduzia uma falta de inclusão
que na opinião de Lefebvre poderia dar origem a sentimentos de
insatisfação, de exclusão e de lutas sociais e o excluir do urbano
seria discriminar e segregar.69 hInfelizmente sabe-se hoje, que
as cidades, pelo estilo de vida que promoveram, enquanto
dinamizadoras da modernização social, acabaram por gerar uma
série de processos que põem em causa a própria capacidade de
promover o sentido de cidadania (Lefebvre, 1991, p. 117).
Colocando os arquitectos perante a obrigação ética de construir
“para o maior número” (Pereira70, 1996, p. 80), começavam,
na segunda metade do século XX, a surgir por todo o mundo
propostas para a realização de soluções arquitectónicas para
estes aglomerados habitacionais não controlados, uma vez
que, segundo Josep Maria Montaner, dentro da sua enorme
complexidade, a arquitectura deveria ter como um objectivo
primordial, “[…] resolver as necessidades que em cada período
formula o usuário” (2007, p. 18).
Estas realidades sociais e objectivos arquitectónicos, repercutiamse na época como a necessidade da construção de uma nova
dimensão de arquitectura, com tudo o que isso implicava, e
à semelhança de outros arquitectos a si contemporâneos, o
arquitecto Nuno Teotónio Pereira, questionou:
A nova dimensão é assim que deve ser entendida. Quer dizer:
para enfrentar o problema da habitação para o maior número,
será necessário construir muitas centenas de milhar de casas –
aspecto quantitativo; mas, além disto, algo mais será necessário
resolver: para quem as construir? onde as construir?; como as
construir? E mais ainda: construir, não somatórios exaustivos
de habitações, mas conjuntos urbanos equilibradamente
organizados e equipados71. (Pereira, 1996, p. 80)
É precisamente, perante estas tentativas arquitectónicas
e posteriores consequências que, se procura construir o
sentido da obra de arquitectura, o sentido participativo e de
consciencialização mútua. Não se pretende mais criar e edificar
uma obra de arte, mas sim um objecto social. Porém, muitos
arquitectos preferem ignorar ou apenas responder a interesses
Extracto II
87 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
pessoais, em detrimento de uma postura mais consciente que
realmente faça a diferença, optando sem hesitar pelo fácil
caminho da acomodação. Entretanto,
a consciência comporta-se então como um homem que, ouvindo
um ruído suspeito no porão, precipita-se para o sótão para
constatar que lá não há ladrões e que, por conseguinte, o ruído
era pura imaginação Na realidade, esse homem prudente não
ousou aventurar-se no porão (Bachelard72, 1996, p. 37)
O utilizador tornou-se, assim, o verdadeiro elemento da
arquitectura. Fica a plena consciência que “para responder às
necessidades de uma cidade moderna, deve-se desenvolver
uma nova forma de cidadania”, como defendiam Richard Rogers
e Philip Gumuchdjian, livro Cidades para um pequeno planeta
(Rogers73 e Gumuchdjian, 2001, p. 17).
Consequentemente, o papel do arquitecto será, de facto, prever
as tendências gerais da evolução que a humanidade está a
seguir e tentar criar a melhor arquitectura possível para a geração
presente e para as gerações futuras. O seu papel deverá assim,
“[…] compreender o futuro, prevê-lo tão longe quanto possível e
criar o melhor habitat humano para os tipos de pessoas e para
os tipos de situação que se estão a desenvolver” (Doxiadis74,
1965, p. 69).
Na realidade, o arquitecto tem vindo ao longo da história, a tentar
aparentemente responder às necessidades do utilizador, por ser
considerado um agente ao serviço da sociedade. Contudo, a sua
postura nem sempre corresponde às expectativas, e muitos são
os erros, e o desempenho de uma actividade que vangloriando
interesses pessoais, acaba em atitudes especificamente
egocêntricas, perdendo o sentido, pois:
Os arquitectos parecem ter estabelecido e dogmatizado um
conjunto de significações, mal explicitado como tal e que aparece
através de diversos vocábulos: “função”, “forma”, “estrutura”, ou
antes funcionalismo, formalismo, estruturalismo. Elaboram-no
não a partir das significações percebidas e vividas por aqueles
que habitam, mas a partir do fato de habitar, por eles interpretado
(Lefebvre, 1991, p. 109).
A arquitectura como arte e técnica tem, também ela, necessidade
de uma orientação, uma vez que, embora necessária, não lhe
bastaria o arquitecto fixar os seus objectivos e determinar a sua
estratégia. Por outras palavras, o futuro da arte não é artístico,
mas urbano, porque o futuro do Homem não se encontra nem no
cosmos, nem no povo, nem na produção, mas sim na sociedade
urbana, pelo que,
Cada “objecto” construído será por sua vez submetido ao
exame crítico. Na medida do possível, será realizado e
submetido à verificação experimental. A ciência da cidade
exige um período histórico para se construir e para orientar
a prática social. (Lefebvre, 1991, p. 110-111)
Desde há muito tempo, que vem sendo urgente uma nova
postura para os arquitectos, sendo-lhes exigido cada vez
mais, o desempenho de um papel coerente, uma vez que
as suas atitudes, projectos e ideais, resultam em obras que
lidam directamente com os seus utilizadores, transformando e
manipulando constantemente os seus quotidianos.
No entanto, apesar das suas posturas e desejos pessoais,
verifica-se que embora seja extremamente importante um
arquitecto de carácter e consciente, citando Giulio Carlo Argan,
apud Nuno Portas75 (2008, p. 159): “implantar… uma arquitectura
ideologicamente adiantada sobre o progresso social, não é
apenas um episódio insólito pedagogicamente impotente, mas
será sobretudo uma prova de que sem diálogo com a vida, as
melhores intenções espaciais não podem crescer”.
É muito importante também o programa, o seu cliente, que nem
sempre cede a opiniões, bem como os utilizadores, elementos
intervenientes primários, que irão condicionar e modificar, por
vezes, em grande escala e de maneira nefasta ou catalisadora,
o que lhes foi dedicadamente “cedido”. Em síntese, o arquitecto:
Terá antes de mais, de procurar um sentido para a sua vida,
dentro dos quadros duma sociedade que forçosamente também
terá de ter um sentido. Mas a sociedade é uma entidade mais
ou menos abstracta, e para a resposta que na emergência
dela promanar, não é indiferente a posição dos indivíduos. […]
O chamamento a uma atitude é o apelo trágico dos destinos
futuros, cuja escolha, se bem que de certo modo condicionada,
compete ao individuo fazer. (Filgueiras76, 1985, p. 28-29)
O valor do utilizador
Por conseguinte, se ao arquitecto é exigido a criação de arte, e
ao utilizador que seja socialmente consciente, e se até mesmo
arquitectos como Friedensreich Hundertwasser ou como John
F. Charlewood Turner77 (1972-) defendiam que os utilizadores
deviam ter o poder de criar e alterar o seu próprio espaço78,
deixando de estar nas mãos do arquitecto a capacidade de
perdurar, o respeito concreto pela sua obra, acabaria por nunca
existir, porque no fundo, embora, de sua autoria, a obra também
não lhe pertence, sendo apenas de quem a utiliza, e como
declarou Spiro Kostof (1996, p. 13-14), “así debe ser conocida la
arquitectura. Como escenario material de la actividade humana,
su verdade está en su uso”.
No seu livro Housing by people : towards autonomy in building
environments, Turner apresenta alguns princípios ou leis da
habitação que resumem a base psicológica, económica e social
da sua tese. Deste modo, enuncia que o que é importante acerca
da habitação, não é o que ela é em si mesma, mas sim o que
faz pela vida das pessoas; por outras palavras, a satisfação
dos moradores não está necessariamente relacionada com a
imposição de norma: refere que as imperfeições e deficiências
que a casa possa ter são infinitamente mais toleradas se forem
da responsabilidade dos moradores e não de outra pessoa
exterior como é o caso do arquitecto (Turner, 1991, p. 5-6).
No fundo, o verdadeiro arquitecto, será constantemente o
utilizador, que embora já não crie de raiz o seu abrigo, irá sempre
alterar o seu espaço, seja pela decoração ou pelo acrescento
de marquises e de anexos, porque, à semelhança das primeiras
pinturas rupestres, o homem continuará a intervir e a transformar
a sua morada, permanecendo a sua necessidade de identidade,
que embora “em grande parte incontrolável, este uso depende
grandemente da capacidade cultural dos usuários […]” (Almeida,
2004, p. 50).
Analisando, as intervenções realizadas ao longo dos tempos, a
arte arquitectónica que se mantem como tal, em que o arquitecto
criou realmente a sua obra artística, permanece efectivamente
quase inalterada, à excepção da óbvia erosão do tempo, ou
manifestações de “povos bárbaros” e guerras, em testemunhos
como: os túmulos, os monumentos, os museus ou os edifícios
classificados, onde a intervenção do utilizador fora temporária,
88
de lazer ou de contemplação, porque, por outro lado, qualquer
outra obra de arquitectura, de cariz habitacional permanente, foi
eternamente alterada apresentando grande deterioração.
Da antiguidade aos nossos dias, poucos foram os exemplos
de construções habitacionais encontrados à excepção dos
casos acima referidos, e embora muitos deles não tenham
sido realizados para durar, à semelhança dos templos ou das
arquitecturas fúnebres, torna-se evidente a capacidade de
intervenção do utilizador, sendo o próprio, quem atribui sentido à
arquitectura, pela constante acção e alteração de função, que o
mesmo proporciona ao seu habitat, à semelhança do que disse
Fernando Távora, numa entrevista para a Revista UPORTO:
Uma pessoa quando se mexe, ou uma senhora quando escolhe
a cor de uma parede está a fazer arquitectura, porque com
isso produz um efeito a partir do qual a sala fica maior ou mais
pequena, mais alta ou mais baixa … Quando se escolhe o lugar
para pôr uma cadeira está a fazer-se arquitectura. (Távora, 2003,
p. 5)
Consequentemente, como não será tão linear que o arquitecto
seja o eterno responsável pelo futuro da sua obra, verifica-se
cada vez mais que o trabalho arquitectónico pressupõe vários
elementos e factores que podem alterar o sentido de um
projecto, pois, sejam eles sistemas políticos ou económicos,
de parâmetros urbanísticos ou de edificação, poderão ser
sempre bastante restritivos, alterando inclusivamente o sentido
inicialmente proposto, tanto a nível de função, de uso ou até
mesmo de imagem.
Como já foi mencionado, ao longo da história, a arquitectura
esteve sempre ligada à representação do poder. Apenas há
relativamente pouco tempo e, principalmente, após a Revolução
Industrial, é que se iniciou uma procura de uma arquitectura
que fosse capaz de reflectir concretamente as necessidades
do seu povo. O paradigma do cliente mudou, o projecto que
outrora teria de lidar simplesmente com a imagem de um poder,
fosse ele religioso ou de chefia, deixa de ser visto como símbolo
monumental.
De facto, aquele cliente representa o homem do seu tempo, ele
é o pretexto «histórico» através do qual o arquitecto exercita o
seu trabalho para testemunhar uma ideia sobre o habitar hoje e,
assim, o pedido torna-se um instrumento para uma reflexão mais
generalizada. (Botta, 1998, p. 34)
Extracto II
89 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
Com o aparecimento da arquitectura moderna, a arquitectura
destinava-se, assim, ao serviço de todos os cidadãos e não
apenas ao das classes privilegiadas. O seu objectivo fulcral seria
o de proporcionar habitação e acesso a todos os elementos
existentes na nova sociedade, permitindo conciliar os interesses
privados com os proveitos públicos. A procura do lucro e a
satisfação dos interesses pessoais, não poderia continuar a
ser primordial na construção da cidade; a arquitectura tinha
de funcionar como o instrumento mediador entre a economia
capitalista e a organização urbana, proporcionando um
desenvolvimento sustentável, que tentava atenuar a diferença
social e económica das populações.
Mencionando as palavras de Kenneth Frampton, “a esse respeito,
convém recordar que clientes informados e empenhados são
absolutamente essenciais para a cultura arquitetônica, e que
o grande castigo da arquitetura continua sendo a imposição
arbitária da forma pela burocracia” (2003, p. VII).
Assim, como o arquitecto tinha de ter como objectivo construir a
qualidade do habitar, estando consciente do dinamismo actual
da vida social, a sua arquitectura teria também de demonstrar
que era capaz de acompanhar a evolução geral da sociedade,
tentando responder a diversos factores, nomeadamente os
sociais, económicos, políticos, administrativos, tecnológicos e
estéticos.79
Factualmente o arquitecto pode ser o criador da sua obra, mas
o futuro da mesma depende pura e simplesmente das atitudes
e acções do seu utilizador. Não estando mais em causa a
responsabilidade social da arquitectura e do seu autor face à
concretização material da mesma, tentar-se-á demonstrar até
que ponto o utilizador, à semelhança do que disse Fernando
Távora (2003, p. 5), será quem realmente atribui sentido à
arquitectura, por ser considerado como o elemento principal na
“vida” e obra arquitectónica.
Embora considerado o elemento fundamental, pois a arquitectura
foi desenvolvida e criada com o objectivo de responder aos seus
desejos e carências, caberá evidentemente ao utilizador o seu
respeito e cuidado. Ao utilizador é exigida uma atitude social
capaz de valorizar o espaço envolvente, independentemente de
que o mesmo tenha sido pensado e considerado como privado
ou como público, porque, embora, como “[…] pensar é sempre a
solução, é o que é lógico para o homem”, para o arquitecto estará
“[…] na hora de conceber os espaços. Para os utilizadores, na
hora de usufruir deles” (Campo Baeza, 2004, p. 58).
visitantes das cidades, ignorando e desprezando “[…] o facto de
cidade e cidadania terem a mesma origem etimológica” (Ferrão,
2004).
Segundo esta análise, se por um lado será verdade que o
arquitecto tem por obrigação conceber a melhor obra possível
para os seus utilizadores, primando pelo sentido ético e
conhecimento, e que “como pão e água, a qualidade do ambiente
construído surge como um direito fundamental do homem”
(Gravagnuolo80, 1998, p. 14), também será verdade que nem
todos os utilizadores são iguais. Abdicando do homem ideal de
Le Corbusier, há que ter a consciência da cultura, do carácter e
da identidade que cada público específico apresenta, de maneira
a que, a própria arquitectura, não resulte ela mesma em mais
uma causa de problemas sociais.
Estes são exemplos de tipos de espaços onde não vamos,
a não ser que sejamos expressamente convidados para o
fazer. Não os visitamos por razões diferentes, é certo. Mas a
verdade é que não integram por inteiro o conceito de cidade
de cidades. Existem. Vêm-se. Mas são mundos à parte, por
marginalização ou por auto-exclusão. São fruto de processos de
fragmentação, e contribuem para a reforçar. É esta a espiral que
deve ser combatida. Porque as cidades devem ser entendidas
como espaços públicos de inclusão, de aprendizagem e de
oportunidades, territórios democráticos favoráveis aos valores de
igualdade e diferenciação, comunidades zeladoras da dignidade
humana e estimuladoras de novas capacidades e competências.
(Ferrão, 2004)
Referindo as palavras de John Berger (1926-), “lo que sabemos
o lo que creemos afecta al modo en que vemos las cosas” (2001,
p. 13). Neste sequência, embora aos olhos de alguns elementos
da sociedade, o senso comum e o sentido de cidadania seja lógico
e igualmente premissa do seu quotidiano, não se pode alienar
a existência dos muitos mais, que por falta de oportunidade ou
que devido a fatalidades não desejadas, não apresentam os
supostos “requisitos”, para os quais, que de uma maneira ou de
outra, o sentido da arquitectura tem sido desenvolvido.
Não se pretendendo alterar o passado, mas tendo a plena
consciência que os “[…] fatos ocorrem em função do uso” (Rohe,
2006, p. 24), e que “a sociedade é geradora de arquitectura”
(Rodrigues, 2002, p. 33), hoje mais do que nunca, é possível
verificar os erros arquitectónicos cometidos, para que, e
excluindo possíveis atitudes mais pessoais e egocêntricas, se
verifique que:
81
Os problemas sociais sempre existiram e continuarão a existir,
é um facto. Como referiu João Ferrão82 (1952-) no seu texto
intitulado Visão humanista da cidade, tornar-se cada vez mais
visível “[…] que toda a cidade é um conjunto de cidades, isto é,
de comunidades relativamente autónomas e específicas”, que
resultam fácil e, posteriormente, em “[…] espaços onde não
vamos” (2004).
Considerada inevitável ou não, o certo é que esta fragmentação
dos espaços urbanos tem vindo a salientar as situações mais
problemáticas da cidade, como o surgimento e o aumento dos
bairros dormitórios dos subúrbios e os bairros de minorias
éticas, assim como, os condomínios fechados, sendo que, todos
estes ambientes, que foram construídos como representação
de afirmação de um certos status, ou apenas por resposta a
realidades sociais mal organizadas e solucionadas, culminando
em estilos de vida particulares, em cidadelas que fragmentam
a urbe, diminuindo o espaço partilhável pelos residentes e
Ao cumprir funções práticas, morais e funcionais, ao responder
a regras, anseios e desejos presentes na sociedade e adequar
a ordem das suas respostas às questões colocadas por essa
sociedade, a arquitectura está sujeita às mutações que o grupo
social comporta, e é, pois, um objecto social. (Rodrigues, 2002,
p. 75)
Assim, embora o arquitecto desempenhe um papel inteligente e de
consciência social, a atribuição do sentido da arquitectura estará
sempre no confronto entre o utilizador e a obra arquitectónica,
bem como nas suas atitudes e comportamentos constantemente
imprevisíveis, que irão atribuir à arquitectura um sentido positivo
ou negativo, e cujo reconhecimento de “fracasso” ou “sucesso”
do arquitecto, dependerá indiscutivelmente da sua utilização.
Porque, se por um lado, a desculpa destas atitudes que se
encontram retratas e patentes nas obras assinaladas para
análise, é possível ser encontrada nas palavras de Mario Botta,
quando este proclamou que:
90
Num artigo publicado na revista «Micromega», defendo que os
pobres, na nossa sociedade, são punidos duas vezes pelos
arquitectos: uma primeira vez porque lhes é negada a casa e
a segunda vez porque quando lhes é dada é uma casa feia.
Infelizmente nós arquitectos aceitamos muitas vezes de maneira
acrítica esta maneira de fazer: com uma espécie de cinismo
aceitamos o feio como se fosse inelutável, não nos opomos
suficientemente ao facto de muitas casas apresentarem uma
qualidade ínfima, para onde certamente nenhum arquitecto iria
habitar. (Botta, 1998, p. 36)
Por outro lado, também se pode dizer, que apesar da realidade
social ser um facto por muitos inaceitável, o poder de destruição,
é simplesmente punível. Como afirmou Leonardo Benevolo83,
apud Renato Fusco (1984, p. 181):
A arquitectura não é uma simples arte a exercer com mais ou menos
êxito: é uma manifestação social. Se queremos saber a razão porque
certas coisas são como são na nossa arquitectura, devemos voltarnos para o povo. Pois que os nossos edifícios no seu conjunto são
a imaginação do nosso povo no seu conjunto, se bem que um a um
sejam as imagens individuais daquelas aos quais, como classe, o povo
delegou ou confiou o seu poder de construir. Por isso, sob este ponto de
vista, o estudo crítico da arquitectura torna-se, na realidade, um estudo
acerca das condições sociais que a produzem.
O valor do programa
Dependente do arquitecto e do utilizador, e à margem de
outros factores administrativos, figura sem dúvida, como igual
elemento fundamental na construção de um consciente sentido
arquitectónico o “sujeito” programa, pois:
[…] o arquitecto não delega, não pode delegar, as
responsabilidades de promover e conduzir a caracterização
quantitativa e qualitativa de cada sua intervenção, o que significa
que é responsável não apenas pelos seus dados físicos mas
também pelas incidências sociais; mas reciprocamente, sabe
que será partilhado, a sucessivos níveis técnicos, o conteúdo
próprio que distinguiremos por conteúdo programático (para
distinguir o conteúdo total só identificável na vivência da obra
usada). (Portas, 2008, p. 42)
O programa funciona como a função mãe do objecto arquitectura.
É nele que o arquitecto imprime os seus valores, e é segundo ele
Extracto II
91 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
que o utilizador apreende a linguagem do projecto, e o transforma
segundo um sentido positivo ou negativo, personalizando-o face
à sua identidade e imagem.
Surgindo como resposta às necessidades dos utilizadores,
o programa é o elemento que deverá permitir ao arquitecto,
entender as condições sociais do seu “cliente”, e encontrar
segundo a cultura, identidade, carências e necessidades do
mesmo, a resposta necessária, que o autor irá construir, segundo
as características projectuais por si idealizadas.
Salientando algumas palavras de Bruno Munari84 (1907-1998),
no seu livro Das coisas nascem coisas, “neste caso o designer
não deve deixar-se envolver numa operação que se destina
ao lucro exclusivo do industrial e ao prejuízo do consumidor”
(2004, p. 40). Neste entendimento, o arquitecto deverá ter como
base do programa, as indicações essenciais, para desenvolver
uma arquitectura com sentido, primando o utilizador, e apenas
posteriormente o seu interesse artístico, como já se frisou
anteriormente.
Apresentando-se como um problema85, que não se resolve por
si só, mas que no entanto, contêm em si, já todos os elementos
fundamentais para a sua viável solução (Munari, 2004, p. 41), é
necessário ao arquitecto, desenvolver primeiramente o desejo e
o interesse de conhecê-los e utilizá-los no projecto de solução,
pois, a solução de tais problemas melhorará a qualidade de vida
dos seus utilizadores assim como, a vitalidade e o respeito da
sua obra. Assim,
Qualquer que seja o problema pode-se dividi-lo nas suas
componentes. Esta operação facilita o projecto porque tende
a pôr em evidência os pequenos problemas singulares que se
ocultam nos subproblemas. Uma vez resolvidos os pequenos
problemas, um de cada vez (e aqui entra em acção a criatividade
e põe-se de parte a ideia de encontrar uma ideia) recompõemse de maneira coerente, de acordo com todas as características
funcionais de cada parte e funcionais entre si, de acordo com as
características matéricas, psicológicas ergonómicas, estruturais,
económicas, e, por último, formais. O belo é a consequência do
justo, diz um preceito japonês. (Munari, 2004, p. 46)
O programa deverá corresponder a várias vertentes: de solução
provisória ou definitiva, fantasiosa ou aproximada, pública ou
privada, comercial ou habitacional, entre outras. Assim, como
um problema poderá ter várias soluções, é preciso nesse caso
decidir por qual optar (Munari, 2004, p.44).
Considerando, Edward Osborne Wilson86 (1929-), o facto é que,
embora o ser humano, enquanto animal, apresente formas de
expressão comportamentais que podem variar entre os povos
e segundo a sua cultura, os seus padrões de comportamento
apresentar-se-ão supostamente os mesmos. Esta filosofia
permitia assim, pré-definir reacções do homem a determinados
ambientes, facultando uma mais simples e clara resolução
projectual, uma vez que, se poderia de certo modo “rotular”
as atitudes humanas, e alargar uma construção de resposta
específica para uma maior escala, respondendo adequadamente
a todos os utilizadores, que por apresentarem características
semelhantes, aparentemente iriam corresponder com as
expectativas e imposições do projecto desenvolvido.
Feliz ou infelizmente, ir-se-á verificar que, com essa teoria
rapidamente se constata com algumas incertezas, e apesar de
as necessidades espaciais e conforto sustentável sejam comuns
a todo o Homem, a arquitectura terá responsabilidades mais
elevadas, que a simples solução material, e a resposta a valores
práticos de programa e função, ou de emoção estética, não
será de todo o suficiente para lhe conferir o sentido pretendido,
e isso tornar-se-á evidente, especificamente na realidade de
realojamento, como será demonstrado nas soluções patentes
nos projectos que serão seguidamente abordados, como por
exemplo os conjuntos de habitação colectiva.
10. Depois de definido o problema é necessário dividi-lo e subdividi-lo nas suas diversas componentes para melhor o conhecer, entender e solucionar,
Bruno Munari, 1981 (Munari, 2004, p. 46)
Em resumo, embora muitos arquitectos tomem como solução
imediata, respostas pragmáticas a supostos utilizadores
concretos e de necessidades previamente definidas e julgadas
como definitivas, iguais e exactas, o facto é que o ser humano será
eternamente um ser singular, e como se apurou, nem mesmo a
teoria do “homem ideal” de Le Corbusier se petrificou. Será aqui
a teoria de Friedensreich Hundertwasser tão incompreensível?
A filosofia de Edward Wilson ajudará a uma leitura global do
conjunto “indivíduo”, reciprocamente, também se verifica que
dificilmente a mesma se tornará eternamente aceitável, e se
para uma habitação privada e unifamiliar, ao “cliente” e ou futuro
utilizador é conferido a oportunidade de escolha, porque se
banaliza tanto as características dos utilizadores de habitação
de baixo rendimento? Até quando permanecerá o equívoco,
11. O programa enquanto problema poderá ter várias soluções, e é necessário decidir por qual optar, face às necessidades do utilizador, e apenas
posteriormente, a interesses de valorização pessoal, Adaptado a partir de: Bruno Munari, 1981 (Munari, 2004, p. 44) (Ilustração nossa, 2012)
92
Extracto II
93 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
face ao facto, de os arquitectos se sujeitarem a construir uma
arquitectura colectiva, “[…] para onde certamente nenhum
arquitecto iria habitar” (Botta, 1998, p. 36)? Não estará nessa
opção, a verdadeira culpa pela perda de sentido da arquitectura
face a estes programas? Estará o arquitecto a construir o seu
próprio problema em vez da pretendida solução?
Ao longo de décadas, o acto de realojar fora visto e desenvolvido,
como um simples melhoramento do contexto habitacional,
baseado na reivindicação do “direito à habitação” e do “direito
à cidade”, que se restringia à atribuição de uma nova morada,
por parte de uma entidade a uma população mal alojada ou
albergada em terrenos de interesse público ou privado.
Como mencionado, a arquitectura tem perdido o seu sentido,
especialmente em tipologias de habitação, e talvez a muito se
deva à ausência de outros valores e de outros sentidos, que
deveriam ter sido tomados pelo arquitecto, como igualmente
fundamentais, como é exemplo, a essência do construir “com”
as pessoas. Nexto contexto, possivelmente, verificar-se-á, que
à obra de arquitectura faltará “juntar” um sentido participativo.
Este sentido, é sem dúvida o elo de ligação que escasseia
entre o criador e o utilizador, entre a arquitectura construída e a
arquitectura utilizada.
No entanto, este acto de reabilitar, apresentou consecutivamente
outras consequências, que se revelavam para além do
desempenho construtivo do desenho da habitação, como foi
o caso, da permuta das relações de vizinhança e a perda de
identidade e da “zona de conforto” aclamada pelos utilizadores,
que urgentemente se demonstrou carente de uma nova
abordagem.
3. CASO DE ESTUDO . PARK HILL, SHEFFIELD
Anteriormente à Segunda Grande Guerra, já as cidades de
Inglaterra, à semelhança da realidade vivida noutros países do
mundo, reflectiam um sentimento de desordem, cuja necessidade
de revitalização de certos bairros e aglomerados habitacionais
em terrenos baldios e clandestinos, junto ao centro urbano, era
uma constante (Sheffield City Council, 2010, p. 4).
Com a destruição provocada pela revolução, o panorama
da arquitectura foi alterado, e cidades inteiras, apelavam à
premente construção de novas habitações. Para responder
a esta necessidade foram desenvolvidos diversos programas
habitacionais nos quais os arquitectos se envolveram
afincadamente em busca de soluções plausíveis para o agravado
problema do habitar. Era essencial desenvolver uma nova
maneira de pensar a arquitectura, para criar novas hipóteses de
cidade e novas maneiras de as vivenciar (Yorkshire Film Archive,
2011b).
Compreendidos entre as décadas de 50 e 70 do século XX, estes
projectos foram concebidos como resposta às necessidades da
sociedade da época, marcadas pelo êxodo rural, pelo crescente
aumento populacional das cidades e pela luta dos direitos dos
cidadãos, assim como, pela crescente consciência do que seria
uma verdadeira cidade moderna e qual a melhor opção de
projectar e organizar o espaço urbano.87
Para além de valores funcionais ou estéticos, muito se insiste
numa arquitectura com sentido, não só reflexiva, mas igualmente
consciente, não como resposta concreta a cálculos e a escolhas
plásticas, adequadamente adaptadas a um lugar, mas como
reflexo de uma arquitectura, que deverá ser vista primariamente
como objecto social, qualidade que apenas “a arte de todas as
artes” poderá verdadeiramente construir e reunir.
Após a guerra, face ao cenário de cidades bombardeadas e
desalojadas, foi decretada a urgência de planos arquitectónicos
que suportassem o realojamento de várias comunidades. O
projecto do conjunto Park Hill surge, como resposta a uma
realidade do pós-guerra, num esquema de revitalização,
constituindo mais um exemplo, entre os vários conjuntos
habitacionais, que cresciam em larga escala, nas restantes
áreas da cidade de Sheffield88, como Netherthorpe, Woodside
e Burngreave, ambos orientados pelo Sheffield city council’s
architects’ department (Sheffield City Council, 2010, p. 12).
Inaugurado em 1961, Park Hill, foi construído numa zona
degradada da cidade, conhecida na década de 1930, como
“Little Chicago”, devido à incidência de crimes violentos89. No
entanto, para além de beneficiar da sua localização, bastante
próxima à área central da cidade de Sheffield, esta colina, iria
constituir um enorme desafio no planeamento do projecto, mas
cuja topografia se reflectiria posteriormente bastante acessível, e
numa leitura mais realista, numa mais-valia conceptual.
At Park Hill, the housing occupied the slopes of a steep hill, so
that it was possible to bridge from the upper levels of flats straight
onto solid ground. This helped to reduce any sense of alienation
or exclusive reliance on lifts or stairs, and much was made of the
fact that a small electric vehicle, universal at the time for daily milk
deliveries, could drive up to the front door of every flat. (Powers90,
2010, p. 32).
Inspirados pela Unité d’Habitation de Le Corbusier, e pelos
esquemas e temáticas, desenvolvidos pelos Smithson para
o possível projecto do Golden Lane91, em Londres, um novo
casal de arquitectos, Jack Lynn e Ivor Smith, sob supervisão
do arquitecto J. Lewis Womersley92, tentaram desenvolver um
programa capaz de sustentar as necessidades dos seus futuros
utilizadores, respeitando o sentido de vitalidade e comunidade
que se exigia a uma nova arquitectura (Powers, 2010, p. 32).
Nesta abordagem, procura-se entender, até que ponto a
projecção cuidada tanto do conjunto do bairro como da
própria habitação, poderá levar a um realojamento e a uma
obra arquitectónica de “sucesso”, nos quais os utilizadores se
sentirão mais completos e integrados, ou pelo contrário, ao
“fracasso”, à ineficácia e inutilidade do projecto, fundamentada
no desinteresse e estigmatização dos próprios habitantes.
A personalização do programa, em detrimento do “rótulo” dos
seus utilizadores, verifica-se cada vez mais num plausível
sentido condutor, porque, poderá ser um “belo” projecto, mas se
não responder adequadamente às necessidades e identidade
do seu utilizador, certamente, o seu “fracasso” será atribuído,
severa e unicamente ao seu arquitecto.
94
12. Esquema de reflexão para um possível método de construção de uma arquitectura
com sentido, Adaptado a partir de: Bruno Munari, 1981 (Munari, 2004, p. 66) (Ilustração
nossa, 2012)
13. Fotografia referente a um das famílias da classe trabalhadora a realojar, (Houses
4, 5 and 6, Duke Street, Park), 1926, (Sheffield City Council, Sheffield Archives, 2010,
p. 7)
Confrontados com o que seria realmente a vida nas slums, Lynn
e Smith, reconheceram que a par de um ambiente de violência
e criminalidade, existia equitativamente nestes espaços, um
sentido de comunidade e espírito de união entre os habitantes,
que não lhes era indiferente. Segundo David Kynaston93 (1951), no seu livro intitulado Family Britain: 1951-1957, J. Lewis
Womersley, depois de afirmar que os arquitectos responsáveis
por programas da nova habitação deveriam tentar promover “the
Extracto II
95 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
friendliness of the slums”, continuou dizendo que:
In it lies the essence of the community spirit which we planners
talk about so glibly. These people like to talk to one another
without dressing up and making special calls. The women like
to sit on their doorsteps and chat on warm summer afternoons
and their small children like to play together in a common garden
outside their houses where they are safe from traffic. (Kynaston,
2010, p. 344).
Pretendendo-se combater a percepção de espaços vazios,
isolamento e falta de vida nas ruas, promovidos pelo design
moderno, defendiam que, face ao problema que enfrenta
qualquer concepção de um programa de alta densidade, como
Park Hill, se deveria evitar a vulgar aglomeração de volumes
isolados, favoráveis a uma construção de sentido desumano
(Sheffield City Council, 2010, p. 16).
14. Planta do projecto para o conjunto Park Hill. Organizado como um elemento único,
verificam-se as ligações entre os blocos, bem como as ligações verticais nos extremos
correspondentes (Sheffield, England) Hawkins Brown e Studio Egret West, 2011
(Brown e Studio Egret West, 2012)
sociais, também Lynn e Smith, quiseram proporcionar aos seus
habitantes um sentido de união e conforto na sua nova morada,
respeitando o espírito vivido nos seus bairros anteriores, que
se materializou com a preocupação de colocar os vizinhos uns
ao lado dos outros97, apostando numa estrutura unitária do
conjunto, contrapondo a opção de edifícios individuais, proposta
por Minoru Yamasaki98 para o conjunto Pruitt-Igoe.
Embora, não seja uma ideia original do jovem casal de
arquitectos, e tenha sido testada anteriormente no projecto do
Golden Lane, dos Smithson, é em Park Hill, que o desejo de
unir a rua e a habitação se corporiza, por meio da interacção
do habitante com o lugar, porque para eles “[…] morar era mais
que possuir uma casa, era pertencer a um lugar, apropriar-se do
lugar como parte da cidade. Apreender o lugar e pertencer era
Destinado para habitação social, a Park Hill, coube o acolhimento
de uma grande parte da classe trabalhadora da cidade industrial,
assim como, um próspero sinal de rejuvenescimento. Composto
por uma média de 1000 habitações, e possuindo capacidade
para mais de 2000 habitantes, o conjunto ocupava todos os 13.3
hectares da colina (Urban Splash, 2011a, p. 131).
Se por um lado se respeitavam as características das diferentes
famílias, pela criação de várias tipologias, valorizando-se e
adaptando-se o dúplex a cada área pretendida94, por outro a
decisão de realizar todo um esquema de edifício que atingisse
na sua totalidade o sentido de unidade, é visível tanto pela
manipulação do lugar, em que o edifício se apropria literalmente
da área que domina cercando-a pela projecção de largos braços
sobre o terreno, como pela harmonia que existe em todos os
pontos dentro do edifício principal, uma vez que o mesmo tipo de
quadro estrutural suporta o mesmo tipo de função residencial95.
16. Desenho de uma “street-in-the-sky”, para o projecto Golden Lane, Alison & Peter
Smithson, 1951 (Montaner, 2007, p. 32)
96
entendido como uma necessidade básica emocional” (Barone,
2004, p. 1). Por isso,
O projecto de Golden Lane foi tão marcante que seria retomado
futuramente pelos Smithson em diversos projectos como no
concurso para a universidade de Sheffield, ou em 1970, em
Robin Hood Gardens, quando finalmente o casal teria a chance
de ver construído um projecto seu apoiado nessas noções. Além
disso, Golden Lane influenciou os arquitectos de sua geração:
um dos mais expressivos projectos brutalistas da Inglaterra, o
conjunto de Park Hill e Hide Park, de 1955, não é de sua autoria,
mas de Lynn e Smith, ligados aos Smithson principalmente pelo
interesse comum por sociologia do comportamento. (Barone,
2002, p. 140)
Para vencer os desníveis topográficos e conseguir unificar toda
a estrutura num único elemento estrutural, o edifício vai-se
aguçando ao desnível do terreno, oscilando entre os 4 e os 13
andares (Urban Splash, 2011a, p. 134), atingindo a parte maior
cerca de 30 metros de altura, sendo a comunicação horizontal,
realizada pelas “streets-in-the-sky”, plataformas, ou corredoresdeck de rua aéreos, que tornavam possível deambular de um
ponto ao outro do edifício, mesmo sem ser necessário descer à
terra ou subir novamente99.
Estes corredores-decks, colocados de 3 em 3 andares, permitiam
o acesso ao complexo em qualquer ponto do mesmo, terminando
à cota do terreno, ou num dos 5 núcleos de comunicação
The original building was very well designed with the 1,000
plus flats all duplex, having living space, a sun-facing balcony
and double aspect views. It’s had its problems, a lack of love,
care, attention, but it’s in a great location and will have fantastic
gardens. This kind of building and space are hard to find these
days. The flat plans are great – more generous than many
developers’ modern boxes. (Urban Splash, 2011a, p. 134).
15. Conjunto Park Hill depois de construído. A adaptação do edificado ao lugar, à
colina, RIBA Library Photographs Collection, 1961 (Collie et al., 2012, p. 22)
Entendendo-se, à semelhança do pretendido para PruittIgoe96, em que se criou um ideal de valorização das relações
17. Fotografia aérea com o desenho do projecto Robin Hood Gardens, realizada pelo
casal Smithson, Alison & Peter Smithson (Powers, 2010, p. 47)
18. Fotografia das rampas de acesso e das ligações aéreas “ruas no céu” (Banham,
2011, p. 408)
Extracto II
97 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
vertical, constituídos pelas escadas e pelos elevadores, que se
encontravam, fazendo a ligação entre as habitações, sempre
que a estrutura trocava de direcção (Banham100, 2011, p. 409).
Contudo, para além de simples “varandas” de acesso unificador,
as “streets-in-the-sky” apresentavam largura suficiente, cerca de
3,56 m, para acomodar jogos infantis, ou até mesmo possibilitar
o acesso de pequenos veículos de rodinhas para a entrega ou
remoção de móveis ou compras, funcionando as mesmas, como
um elemento primordial na socialização e no lazer de todos os
habitantes, que pretendia respeitar tanto as necessidades de
pessoas mais idosas, como dos membros mais pequenos101,
materializando mais uma vez o sentido de comunidade e união,
que se elevava correctamente, para além de qualquer valor
mais funcional ou estético, que pudesse ser imposto pelo gosto
pessoal dos seus autores.
19. Imagem das galerias ou “varandas” de acesso unificador, “street-in-the-sky”, 1988
(Yorkshire Film Archive, Park Hill housing project, 2011a)
20. No piso térreo existiam diversas lojas, bares e equipamentos de apoio aos
habitantes do conjunto. (Adaptado a parir de: Yorkshire Film Archive, 2011a)
Para além da preocupação formal a nível de volume edificado,
este sentido de unidade é igualmente verificado, nos cuidados
desenvolvidos aquando da orientação102 dos quartos, uma
vez que, todo o complexo apresenta a parte mais privada da
habitação virada a sul, não havendo distinções de dúplex
para dúplex, assim como, nas fachadas de todo o conjunto,
esteticamente tratadas com uma trama de planos de tijolo e
de betão armado à vista, aplicado com o conselho do escultor
construtivista John Forrester (Banham, 2011, p. 409).
Desde a parte estética e estrutural, à delimitação da área pelo
próprio edifício, existe sem dúvida uma explícita preocupação
com a união do espaço público ao espaço privado. Criaramse espaços destinados à zona comercial, que garantiam a
sua independência a nível logístico, e Park Hill apresentava
tudo o que era necessário, para proporcionar uma vida digna,
confortável e agradável a qualquer cidadão103.
Contudo, como defendiam os Smithson, para além dos
“elementos da cidade” ou dos “cluster”, existia igualmente o
tema da “identidade” (Feliciano, 2009, p. 106). Nem ai pecaram
os jovens arquitectos, uma vez que, a sua maior preocupação
seria, que o espaço projectado se tornasse à semelhança dos
projectos modernistas, numa terra de ninguém, sem vitalidade,
sendo simultaneamente, ora incapaz de servir as necessidades
do público, ora de oferecer privacidade aos moradores. Deste
modo, verifica-se inclusivamente, a preocupação de um
tratamento estético diferenciado em cada patamar de distribuição
e de acesso vertical, como prova de que a individualidade e a
identidade de cada morador, não se encontrava esquecida nem
disfarçada por meio do gigantismo104.
O espaço jardim, projectado com parques de crianças e área
para passeios e lazer, ficara deserto, suando como um terrível
eco, no centro e ao redor de todo o conjunto. As “street-in-thesky”, em vez de airosos espaços sociais, serviam de suporte a
assaltos e a atitudes depreciáveis provocadas por utilizadores
inconscientes e de carácter repreensível. A unidade da fachada,
facilmente perdeu o seu brio, e entre a falta de manutenção para
os vidros partidos, que eram aleatoriamente substituídos por
painéis de aglomerado de madeira, e para o betão danificado,
surgia a acumulação de lixo e elementos individuais, que
evidenciavam a indesejada diversidade.
De acordo com Sheffield Archives106 (Sheffield City Council, 2010,
p. 24), de entre vários comentários sobre o estado degradante
de Park Hill, podemos retirar: “My last visit to the flats was ten
years ago…There were burnt out cars, rubbish, boarded up pubs
and shops, graffiti and a nasty smell about the area”.
Será que pode a obra arquitectónica ser, mais uma vez,
condenada pelo suposto “fracasso” projectual? Ou tornou-se
repetida e convenientemente evidente, que o utilizador não
consegue, ou simplesmente não quer viver em sociedade, e
muito menos sabe respeitar o seu espaço? Embora, se tome
como verdade, esta última hipótese, não estará apenas, a ser
eternamente utilizada como uma desculpa, para a perda de
sentido da obra arquitectónica, referente a um comodismo do
seu criador?
Assim, embora nas primeiras décadas Park Hill, tenha sido
elogiado pelos seus utilizadores e por vários críticos da
arquitectura vigente, rapidamente a pobreza, o vandalismo e os
constantes assaltos deitavam por terra, todo o sonho de uma
nova arquitectura idealmente organicista, que incompreendido,
era severamente condenado105.
O estudo deste projecto vem demonstrar novamente, o quanto
é ingrato ao arquitecto desenvolver uma obra aparentemente
consciente, e que acaba em profunda deterioração. Destinado a
uma habitação social, reflecte-se repetidamente, numa realidade
desumana. Serão os projectos incapazes de responder às
necessidades humanas? Ou os próprios utilizadores, sem
qualquer tipo de discernimento, não dão qualquer valor ao
projecto que lhes foi concedido simplesmente por não o
entenderem?
Desrespeitado pelos seus utilizadores, o espaço familiar do
Park Hill começava a ser gradualmente aniquilado. Apesar
dos esforços realizados para o não encerramento da parte das
lojas, com a péssima reputação dos quatro bares existentes no
complexo, o seu abandono tornou-se inevitável (Yorkshire Film
Archive, 2011a).
Não se pretendendo uma crítica social, o facto é que a
construção de bairros de baixo rendimento tem vindo a constituir
um enorme problema desde sempre, tanto pelo custo que
implicam, como pela sua consequente má gestão. Sejam de alta
ou baixa densidade, a junção de determinadas classes sociais
num único ambiente tem suscitado profundos problemas a nível
98
social, culminando em enormes carcinomas nos corações das
cidades. Passará a solução pela alienação? Ou competirá ao
arquitecto a (re)definição do sentido, ou sentidos segundo os
quais os constrói?
Independentemente das intenções e dos valores desenvolvidos
por Minoru Yamasaki e por Jack & Smith, tanto numa abordagem
mais “mecanicista” ou “holista”, o facto é que ambos os projectos
poderão ser considerados como soluções de uma arquitectura
sem sentido. O utilizador não entendeu o programa, não se
identificou com o projecto. As suas acções a mais não levaram
do que a um reconhecimento de “fracasso” da obra, cobrado
dogmaticamente ao arquitecto. A Pruitt-Igoe foi decretada como
única solução (mesmo se considerando a realidade de interesses
paralelos), a sua directa demolição e, a Park Hill, plasmou-se
uma premente deterioração.
Entendendo-se, inicialmente como excelentes projectos, como
exemplos de soluções arquitectónicas reconhecidas, poder-seia, numa primeira análise, culpabilizar apenas os utilizadores
pela sua incapacidade cultural e, entender, comodamente, mais
uma vez, estes casos sociais como consequências normais e
inevitáveis.
Contudo, não estará na altura de interpretar estas fatalidades
como paradigmas construtivos, valorizando a procura de um
novo sentido arquitectónico e de uma nova postura do seu
criador? Se foram consideradas inicialmente como excelentes
estruturas arquitectónicas no fim da sua construção? De facto,
não se pode negar! Mas que interesse terá desenvolver um
projecto “monumental” se o seu utilizador não o entende?
Obviamente que se a arquitectura for desenvolvida apenas “para”
as pessoas (sendo no entanto uma mais-valia), e não “com” as
pessoas (mesmo se tendo a consciência da possibilidade de
manipulação), a sua interpretação e “destino” continuarão a ter
consequências incompreensíveis e o culpado será eternamente
o arquitecto!
Segundo Henry Sanoff107 (2009) : “Los edificios deben satisfacer
las necesidades de las personas que lo usen”, de maneira a que,
“[…] el edificio tenga sentido para los usuarios”.
Extracto II 100
99 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
A obra de arquitectura como objecto social
Essa realidade remete a vários pensamentos: que sentido atribuir
à obra pré-existente? Será que o sentido que se pretende atribuir
à obra pré-existente irá destruir o sentido inicialmente construído
por outro arquitecto? Em que medida se considera que a obra
resultante desse novo sentido atribuído é julgada como obra com
sentido ou sem sentido? Dever-se-á desenvolver um projecto
confinado a uma realidade pré-existente como o simples respeito
ao passado? Será preferível e mais aceitável a demolição e a
constante deterioração a um novo sentido?
24. Fotografia do conjunto grafitado e vandalizado (Collie [et al.], 2012, p. 62)
21. “Street-in-the-sky”, 1961 (Banham, 2011, p. 408)
22. Fotografia do conjunto grafitado e vandalizado (Collie [et al.], 2012, p. 62)
Indiscutivelmente tem-se vindo a verificar que a solução não
estará na demolição do passado para se construir um novo
presente. No entanto, a opção de ruína em prol da revitalização,
continua também, a não ser um plausível sentido condutor. A
arquitectura tem de ter a capacidade de se ajustar à sociedade do
seu Tempo, tem de partir também da sociedade a sua aceitação.
Mesmo que o sentido inicial seja alterado, não nos impede de
lhe conferir, não digamos um melhor, mas um novo espírito ou
um “destino”, que faça sentido hoje, desde que respeite a sua
história e a sua identidade. Contudo, Simone Weil108 (19091943), apud Paolo Portoghesi109 (1985, p. 45) afirmou que:
Não tem sentido livrarmo-nos do passado para pensar apenas no
futuro. Até o facto de nisto se acreditar é já uma ilusão perigosa.
A oposição entre o futuro e o passado é absurda. O futuro não
nos traz nada, não nos dá nada; somos nós que, para o construir,
lhe temos de dar tudo, dar-lhe até a nossa vida. Mas para dar,
é necessário possuir, e nós não possuímos outra vida, outro
sangue além dos tesouros herdados do passado e dirigidos,
assimilados, recriados por nós. Entre todas as exigências da
alma humana, nenhuma é mais vital que a do passado.
O facto é que, independentemente de vivermos enraizados no
passado, é a pensar no futuro e nessa capacidade de recriação,
que tudo se desenvolve, que a vida faz sentido. Muitas vezes o
ideal de preservação histórico, levado ao extremo, em mais não
resulta do que, num espaço obsoleto, que se vai dissipando no
Tempo, e se por um lado vai perdendo as suas características
físicas, arquitectónicas ou de uma vivência, por outro, não lhe é
permitido libertar-se e encontrar no futuro um novo sentido!
23. Imagem de um dos espaços exteriores entre os blocos do conjunto. Verificam-se as ligações aéreas, “ruas no céu”, entre dois elementos edificados, assim como as rampas de
acesso a qualquer andar do projecto (Adaptado a partir de: Yorkshire Film Archive, 2011a)
25. Fotografia da fachada destruída, os vidros partido, o lixo no chão, as “lojas”
fechadas (Collie [et al.], 2012, p. 52)
Esta dicotomia, entre a preservação do passado em detrimento
da construção de um futuro, tem vindo a criar imensas indecisões
Extracto II 102
101 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
ao longo de séculos, e a realidade é que, os centros da cidade
hoje mais não são do que espaços obsoletos, desidratados e
desprovidos de qualquer alma, e preferir a lembrança a um novo
sentido, é isso sim perverso110.
Paralelamente a um sentido espelhado pelas acções dos seus
utilizadores, tornou-se igualmente pertinente entender de que
modo a atribuição de um novo sentido, poderá ou não alterar o
“espírito” da obra de arquitectura face ao seu sentido inicial, e até
que ponto essa realidade poderá piorar ou melhorar, a estrutura
arquitectónica, enquanto objecto social contemporâneo.
Questiona-se assim, se a (re)adaptação das pré-existências a
novas realidades programáticas, estruturais, estéticas ou sociais,
não será também uma possível e necessária realidade a seguir.
A questão da reabilitação, assim como a de atribuir um novo
sentido ao pré-existente, nem sempre é culturalmente aceite,
como reflexo de um medo de perda de identidade e de história,
um medo de perda de vida. Contudo, há que considerar, que
a história nunca se repete, e que o presente será passado no
futuro, e que mesmo não se pretendendo destruir o passado,
não se deverá privar de construir o presente.
Após ter sido decretado como uma obra deteriorada e inútil, ao
conjunto Park Hill foi atribuída a classificação de listado em Grau
II*, constituindo um dos edifícios de maior escala classificados
na Europa, em 1998 (Powers, 2010, p. 32). Assim, se muitos
entendiam e preferiam a sua demolição, uma vez que, perdera o
sentido para o qual havida sido construído inicialmente, o facto
é que, as suas qualidades de projecto, tornaram-se uma maisvalia, e a empresa Urban Splash, decidiu reabilitar o edifício111,
considerando-o como um excelente exemplar da arquitectura
moderna, a valorizar.
Contudo, embora cientes, das potencialidades do projecto, e
sem desrespeitar os conceitos iniciais, como a busca de um
sentido arquitectónico de identidade na unidade, e a sensação
orgânica de fazer parte integrante da cidade, foram inevitáveis
algumas transformações, tanto a nível técnico como a nível
funcional, assim como, se tornou fundamental a manipulação e
alteração do público alvo112.
Neste contexto, refazer um projecto para voltar a cair em
deterioração não seria o ideal pretendido. Apesar de uma
pequena parte do conjunto se destinar a habitação social, todo
o resto será para utilizadores de classe média ou alta, que
procuram uma vida tranquila, desfrutando literalmente da sua
paisagem, localização e acesso, que o projecto já apresentava
à priori (Sheffield City Council, 2010, p. 22), mas que o seu
utilizador, para mais não contribuiu, do que para a atribuição de
um sentido negativo, pela sua incompreensão programática.
Poderá esta opção projectual ser considerada como um
desrespeito ao sentido inicial? Será que, por ter sofrido uma
reabilitação tanto a nível estrutural como, principalmente, a nível
do utilizador será considerado como um projecto de “fracasso”?
Teria sido preferível a deterioração ou a consequente demolição,
a este novo sentido atribuído?
No fundo, “o arquitecto está, na situação que temos vindo a
descrever, «condenado» a trabalhar com as pessoas e, para isso,
tem de tornar claro o que é que pode oferecer e evidenciar o seu
papel […]” (Croft113, 2001, p. 53), porque, segundo Constantinos
A. Doxiadis, temos hoje de ter a consciência que:
26. Desenho gráfico do plano de conservação para o Projecto Park Hill, “Site Plan”, Park Hill, Sheffield, 2011 (Urban Splash, 2011d)
Há uma geração atrás tivemos que quebrar os traços do
academismo e libertar-nos para criar a arquitectura moderna.
Fizemo-lo, mas encontramo-nos agora a viver num pesadelo
urbano que se espalha cada vez mais e nos prende no seu
centro. Na confusão olhamos à volta para saber o que fazemos
com a nossa liberdade duramente conquistada. (1965, p. 20)
Por conseguinte, “[…] o que interessa procurar no passado é
aquilo que mudou, não nas formas nem sequer nos conteúdos,
mas na própria noção de arquitectura e nos seus limites em
relação às outras actividades humanas” (Portas, 2008, p. 33).
No entanto, poder-se-á constatar, que muitas vezes a realidade
social tem um carácter irreversível, e a solução passará
consequentemente pela sua drástica manipulação. Este projecto
é um exemplo de como a construção do sentido da arquitectura,
ora de cariz prático, ora de cariz mais espiritual ou conceptual,
está longe de conseguir controlar o seu uso, e de se reflectir
numa obra de arquitectura completa, numa obra com sentido
capaz de ser entendida e respeitada pelos que a constroem,
como e principalmente por aqueles que a habitam e utilizam.
27. Imagem da fachada do conjunto Park Hill. Na esquerda encontra-se a fachada desenvolvida por Jack Lynn e Ivor Smith, e na direita, a proposta de reabilitação da Urban Splash
(Sheffield, England) Hawkins Brown e Studio Egret West, 2011 (Adaptado a partir de: Pagliari, 2012)
Extracto II 104
103 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
Em suma, não se questiona o quanto é difícil, e muitas vezes,
angustiante e interminável o facto de se construir não para uma
família, mas para uma comunidade, para “um maior número”.
Mas o papel do arquitecto é servir a sociedade, e enquanto não
se entender essa sociedade, a arquitectura será eternamente
incompreendida por quem a utiliza e, nunca fará sentido, porque
ao se continuar a construir só “para” os utilizadores, sem a sua
participação no planeamento do projecto, eles serão incapazes
de se apropriar desse espaço, logo, não terão nenhuma razão
para o defender, caindo consequentemente em deterioração e
cultivando a alienação (Carlo, 2005, p. 16).
28. Imagem de uma das “street-in-the-sky” que havia sido vandalizada. Hoje surge
como uma marca do novo projecto, como símbolo de uma nova vida que foi ao mesmo
atribuída, Park Hill, Sheffield, Junho 20111 (Urban Splash, 2013, p. 12)
Giancarlo de Carlo114 (1919-2005), arquitecto italiano membro
do Team 10, foi um dos grandes defensores da “arquitectura
participativa” e afirmou que, a solução da arquitectura moderna
não estava em continuar a construir “para” as pessoas, mas
“com” as pessoas (Carlo, 2005, p. 16), defendendo que para
se fazer arquitectura, “[…] era necessário criar espaços para a
educação, na qual a participação coletiva estivesse na base da
produção do conhecimento, implicando uma mudança radical no
papel do arquiteto” (Barone, 2004, p. 27).
De Carlo traduziu a participação dos usuários no processo de
projecto como uma oportunidade tríplice: oferecer ao habitante
da cidade uma opção de escolha, ampliar seu repertório
arquitectónico e mostrar ao cidadão seus direitos em termos
urbanísticos e como reivindicá-los, com base em suas próprias
necessidades. O sentido da participação é incluir quem nunca
fez parte de processos de decisão, além de garantir respeito ao
espaço existente e à sociedade, como história, como cultura.
(Barone, 2004, p. 27)
29. Recorte de um jornal onde foi publicado a notícia de reabilitação do Projecto Park
Hill, Sheffield Star, Janeiro de 2013 (Urban Splash, 2013, p. 21)
Segundo Giancarlo de Carlo o seu processo participativo
decompunha-se em três fases distintas: a descoberta das
necessidades dos utilizadores, a formulação de hipóteses
formais e organizacionais e, a avaliação de resultados na
sequência de uma fase de utilização efectiva115. Esta relação
cíclica permitia, segundo Giancarlo projectar com os utilizadores,
criando nos mesmos um sentimento de pertença e diálogo com
o seu habitat. Nesta abordagem, a arquitectura participativa
surge como um objecto social e não como uma obra acabada,
considerando-se que, “o trabalho interdisciplinar é fundamental
para a eliminação dos vícios da arquitectura “de mão-única”
que ele procura[va] evitar” (Barone, 2002, p.160-161).Assim, ao
serem confrontados com a realidade, dever-se-ia desenvolver
não uma arquitectura estandardizada, valorizada pela desculpa
económica e administrativa, mas como uma arquitectura que
mesmo controlada, possibilite criar maiores opções de escolha
(Barone, 2002, p. 161).
O seu projecto Vila Matteotti (1964-1974) em Terni, Roma, é um
excelente exemplo, de cumprimento das funções de bem-estar
social, assim como do processo de diálogo, que se desenvolveu
através de discussão e da apresentação de propostas, em
encontros com os futuros utilizadores, em que o consenso foi
encontrado numa estratégia de equilíbrio.
Segundo Giancarlo di Carlo o processo participativo seria
um veículo de educação e cultura, e mesmo sabendo que
a arquitectura não resolvia o problema social, considerou
sempre que ela poderia interferir, pela qualidade ambiental que
proporciona, pelo melhor desenho do espaço e o envolvimento
dos utilizadores com a sua cidade (Barone, 2004, p. 28 e 30), e
é esse o ideal de construção de arquitectura que se pretende
como ideal de uma arquitectura com sentido.116
Deste modo, não se pretenderá ver a participação como um livre
arbítrio por parte do utilizador, mas sim como uma possibilidade
de respeito e reconhecimento do arquitecto para com o mesmo.
Neste projecto, Giancarlo começou por propor 5 hipóteses de
planeamento aos utilizadores, das quais escolheram uma,
assim como as tipologias resultaram em 15 tipologias diferentes
(Barone, 2002, p. 166). É óbvio que ele conseguiu fazer a sua
arquitectura, mas com diálogo, com entendimento mútuo e
com oportunidade de escolha, possibilitando o conhecimento e
o sentido de pertença, que se verificou como fundamental em
programas de habitação, face ao “destino” da obra.
O sentido participativo deve ser visto como um processo de
julgamento positivo e construtivo por parte do arquitecto, porque
no fundo, ajudará e muito na durabilidade da obra de arquitectura,
mesmo que o próprio continue a pensar que mais não é do que
uma prisão criativa.
30. Vista de jardins e de algumas estruturas aéreas de acesso e distribuição do
conjunto habitacional de Vila Matteoti (Terni) (Barone, 2002, p. 167)
Esta (auto)avaliação é o momento de conscientização sobre o
processo experimentado, na qual, o uso se torna fundamental
como fase de projecto, uma vez que, se considera que, “[…]
somente o uso pode revelar os problemas, soluções inadequadas,
desencontros entre ideia e execução e os acertos, qualidade e
méritos do projecto participativo” (Barone, 2002, p. 161).
Possével e evidentemente que, em muitos casos o processo de
diálogo poderá não ser política. O próprio Giancarlo reconheceu
este facto, mas em muitos, e especialmente em programas de
habitação, onde o utilizador se expressa mais evidentemente,
é sem dúvida um elemento positivo a considerar, um sentido
condutor.
31. Maquetes e cortes explicativos de algumas tipologias desenvolvidas para o projecto
Vila Matteoti (Terni, Roma) Giancarlo de Carlo, 1964-1974 (Barone, 2002, p. 165)
Extracto II 106
105 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Entendendo-se “a arquitectura não como um feito mas um
ir fazendo”, e reconhecendo que, a mesma “[…] nunca está
terminada, [sendo] um processo que se prolonga no uso”
(Almeida, 2004, p. 34), a mística do sonho e do ideal de ideia
construída, deu lugar, consequentemente, a uma definição de
arquitectura, não como obra acabada, não como um objecto de
arte terminado e de cariz único do seu criador, mas como uma
acção, como um elemento vivo em constante transformação e
metamorfose, que se reflecte não mais no símbolo ou no desejo
pessoal do arquitecto, mas na imagem e na identidade do
utilizador e do programa funcional.
Questionando-se a frase de Campo Baeza: “Temos de saber
fazer Arquitectura. Com sentido e com medida. Com pausa
e decisão” (2004, p. 11), e no seguimento da definição dos
termos ‘sentido’ e ‘arquitectura’, rapidamente se entendeu que
a arquitectura como “arte de todas as artes” não se esgota
na “obra edificada”, na “arte de construir”, no conceito ou no
desenho, na luz ou na sombra, no cheio ou no vazio, no lugar
ou na forma, na materialidade ou na estrutura, mas que se
prolonga na experiência vivida, pelo que, mais do que nunca, se
tornou evidente que o papel do arquitecto tem de ser (re)avaliado
(Augé, 2006, p. 35), bem como o tipo de obra arquitectónica
que se deverá continuar a construir: se aquela a que muitos
arquitectos preferem não voltar depois de inaugurada, ou aquela
que terá a capacidade de emocionar, ser útil e ser entendida por
aqueles que a experimentam e habitam hoje, e por aqueles que
possivelmente a habitarão na eternidade.
O factor Tempo, aliado à obra de arquitectura e ao que se
julgaria constituir uma obra com sentido, leva a uma abordagem
da mesma não como a simples peça de arte ou construção,
resultante de uma harmonia pré-definida entre valores práticos,
técnicos e estéticos no acto conceptual, mas como sendo
igualmente cíclica, na medida em que nasce, “vive” e se
deteriora, e, para se conseguir controlar o seu “tempo de vida”,
em muito ajudará o sentido segundo o qual se constrói.
Por definição, a arquitectura é, assim, dotada de sentidos,
constituindo-se, numa primária “compilação”, de um sentido
explícito, ligado à forma e ao programa, e de um sentido implícito,
ligado às valorizações espirituais e qualidades sensíveis e à
emoção estética. Contudo, a arquitectura surge simplesmente
como solução de um criador singular e cujo reconhecimento
permanece na simples perspectiva de um possível entendimento
do seu utilizador face à obra construída.
No entanto, como defendeu John Turner, o que é importante
acerca da habitação não é o que ela é em si mesma, mas
sim o que faz pela vida das pessoas (1991, p. 3-6), e é essa a
capacidade que se pretende que o arquitecto (re)defina como
um dos sentidos condutores. Porque, afinal, “o que deve mudar
não é a tecnologia, mas o enfoque que os arquitectos utilizam
para projectar”, uma vez que “[…] a função da arquitectura não é
a de nos alienar de uma relação sensual com o mundo, mas sim
de reforçá-la, pois dela necessitamos” (Pallasmaa, 2006).
Neste entendimento, como o Homem será eternamente um
ser livre e indecifrável, torna-se cada vez mais óbvio que a
solução para uma arquitectura sadia, duradoura e resultante de
uma obra arquitectónica com sentido não estará em respostas
que atendam apenas ao cuidado pretendido por um suposto
utilizador, mas na realização de uma solução que ajude a educar
e a alterar os seus hábitos, porque, como defendeu Walter
Gropius117, “a arquitectura boa e original depende tanto de um
público compreensivo quanto de seus criadores” (2004, p. 110),
e este aspecto de orientar o uso corresponde, deste modo, a
uma função pedagógica do arquitectar, em que o arquitecto tem
de prever a possibilidade de uma utilização livre das obras que
possa criar, mas também, e em simultâneo, tem de fornecer
orientações concretas para uma sua utilização conveniente
(Almeida, 2004, p. 51).
Assim, se Fernando Távora nos chamou à atenção para a
inutilidade da profissão de arquitecto - qualquer dona de casa,
quando desloca uma cadeira de sítio, está a fazer arquitectura
(2003, p.5) -, será irrisório continuar a insistir numa arquitectura
que se nega a enfrentar a realidade e que simplesmente procura
a cómoda tarefa de criar como expressão artística e conceptual, e
não como resposta às necessidades prementes dos utilizadores.
A eterna procura do reconhecimento nunca terá uma solução
plausível se o arquitecto não alterar e (re)avaliar o seu papel
enquanto agente ao serviço de uma sociedade, enquanto ser
inteligente, de conhecimento e de consciência social.
Não se pretendendo estabelecer princípios ou uma “receita” para
a construção de uma obra arquitectónica com sentido, apenas se
Extracto II 108
107 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
procurou delimitar um percurso, fundamentado em experiências
concretas, manifestos e críticas, que possibilite realizar um
pensamento e um conhecimento, capazes de minimizar ou
erradicar erros passados ou previsíveis, pelo que, obviamente,
nunca se poderá garantir o “sucesso” da obra, mas em muito
ajudará a diminuir o seu “fracasso”. Deste modo, poder-se-á
considerar que, para construir uma obra de arquitectura com
sentido, será igualmente necessário apreender:
A consciência de que a arquitectura não é apenas “arte de
construir”, mas uma acção, um objecto social, dotado de
sentidos: sentidos explícitos e implícitos, que a proporcionam e
condicionam enquanto “forma, espaço e imagem”, e um sentido
social, um sentido de cariz participativo, que lhe permite evitar a
alienação do utilizador, face a um possível reconhecimento de
sentido positivo da obra construída;
A consciência de que a participação deverá permanecer não
como a experiência que fica (Vieira, 2008a, p. 44), mas como
uma plausível realidade futura. O arquitecto terá de (re)avaliar os
seus ideais e “medos” e de, abordar o diálogo e a negociação,
não apenas como algo que se considera manipulável ou de
submissão criativa, mesmo que isso se verifique em alguns
casos, mas como um desafio, uma oportunidade de ser julgado,
enriquecendo a sua proposta de maneira a minimizar possíveis
erros ou rejeições, e beneficiar o entendimento da mesma para
quem a irá utilizar;
A consciência de que as experiências participativas podem
resultar num sentimento de pertença e de “amor” dos utilizadores
à obra, o que evitará a consequente alienação, bem como atitudes
mais profundas de vandalismo e destruição. Da mesma maneira
que os utilizadores terão de respeitar o saber do arquitecto, este
também terá de reconhecer, o conhecimento dos utilizadores;
A consciência de que, ao desenvolver uma arquitectura que seja
capaz de (re)educar a sociedade, o arquitecto não se prende
na manipulação do gosto face à obra, mas na possibilidade de
demonstrar que a arquitectura não se impõe como incontestável,
mas que também tem a capacidade de se adaptar e de responder
às necessidades dos seus utilizadores, segundo uma troca de
respeito e conhecimento mútuo;
A consciência de que cada indivíduo é um ser único, que cada
projecto é irrepetível e que, do mesmo modo que existe a
necessidade de se adaptar a obra à identidade espacial e cultural
de cada lugar, deve-se igualmente tomar essa praxis um dogma
incontestável, que não se esgota na experiência da habitação
unifamiliar, mas que se eleva a outros programas, evitando uma
obsolescência prematura de obras futuras;
A consciência de que muitos projectos desenvolvidos hoje só
serão habitados no amanhã e que, embora não se podendo
prever a sociedade vindoira, talvez o caminho não esteja
no rotular ou subentender o indivíduo, mas proporcionar a
diversidade da obra, de maneira a conseguir-se responder
a um maior número de necessidades, a um maior número de
utilizadores, hoje e no futuro;
A consciência de que independentemente de ser o arquitecto
quem constrói a obra, deverá ser primordialmente desenvolvida
para o utilizador, pelo que quem permanecerá como elemento
fundamental e interveniente activo será eternamente o utilizador
e será segundo as suas acções e condutas que o arquitecto
e o sentido construído serão posteriormente julgados, face ao
“destino” atribuído pelo mesmo.
Por último, a consciência de que, a atribuição de um novo
sentido à obra pré-existente, quando realizado “com sentido e
com medida. Com pausa e decisão” (Campo Baeza, 2004, p. 11),
não deverá ser encarado como a destruição de um passado, mas
como a possibilidade de adicionar mais história há já existente.
Sintetizando: se, segundo Constantinos A. Doxiadis, “a este
respeito devemos reconhecer que o começo dos problemas que
descrevemos como relacionados com um período transitório na
arquitectura coincide com os diferentes significados que demos
à palavra «arquitectura»” (1965, p. 85), enquanto não se delinear
o que se entende pela mesma, muito dificilmente se conseguirá
construí-la com sentido. Deste modo, esse sentido dependerá da
cultura, do conhecimento e da consciência de que, “[…] muitas
civilizações do passado foram varridas não por não saberem
construir em altura ou por não saberem construir com engenho,
mas antes porque confundiram o progresso com um sonho de
vaidade e ambição” (Tavares118, 2007, p. 94).
Entendendo-se, será que o arquitecto “terá ele realmente uma
tal influência que permita deixá-lo desempenhar um papel de
primazia na evolução de arquitectura?” (Doxiadis, 1965, p. 70),
ou considera-se que, “talvez sejam demasiados os desafios
que enfrentam os arquitectos”? (Brandão119, 2006, p. 13). Na
realidade, “sentir, cheirar, tocar, saborear, sonhar no escuro
– não nos chega. Queremos ver. Mas quanta luz precisa uma
pessoa para viver? E quanta escuridão?” (Zumthor120, 2009, p.
90).
32. Reflexão esquemática sobre o sentido da obra de arquitectura. São abordados os possiveis sentidos propostos pelo arquitecto à obra de arquitectura, bem como o papel do programa e o cosnequente
sentido atribuido pelo utilizador à mesma. (Ilustração nossa, 2012)
Extracto II 110
109 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
NOTAS
1 Alberto
Campo Baeza (1946-) é um arquitecto e professor espanhol,
catedrático de Projectos na Escola de Arquitectura de Madrid desde
1986. Para além da sua obra arquitectónica destacam-se efectivamente
as suas obras literárias, como o seu recente livro intitulado Pensar con
las manos, ou La idea construída.
Marc Augé (1935-) é um antropólogo francês. No seu ensaio
e livro intitulado Não-lugares: introdução a uma antropologia da
supermodernidade (1995), Augé expõe a expressão “não-lugar” para se
referir a lugares de transitoriedade que não têm significado suficiente
para serem considerados como “lugares”. Exemplos de um “não-lugar”
seria assim uma auto-estrada, um quarto de hotel, um aeroporto ou um
supermercado.
2
3 O historiador e teórico de arte italiano, Giulio Carlo Argan (1909-1992),
apud Portoghesi Paolo (2005, p. 140), ao defender a tese da redução
estética, afirma que: “Superada enfim a questão da redutibilidade ou
não da arquitectura a uma teorização unitária da arte, e com ela a da
relação útil e belo, a única investigação legítima é a da especificidade
semântica da arquitectura, isto é do tipo de experiência estética que
realiza e comunica.”
Adolf Loos (1870-1933), arquitecto nascido na República Checa,
desenvolveu a sua obra inspirada pelo movimento modernista, e foi até
ao extremo do racionalismo, deduzindo a forma arquitectónica a partir
de questões funcionais. Denunciou a ornamentação como um crime
para a sociedade moderna, devido aos factores sociais e económicos
vigentes no seu Tempo. Para Loos, a arquitectura só teria sentido, ao
utilizar somente o necessário na construção, como também o “[…]
emprego racional do espaço” (Argan, 1996, p. 222).
4
Kenneth Frampton (1930-) é um crítico e arquitecto britânico, crítico,
professor de Arquitectura na Graduate School of Architecture and
Planning da Universidade de Colúmbia em Nova Iorque. O livro Modern
architecture : a critical history, publicado em 1980, é considerado
um excelente exemplar para o estudo e teorização da história da
arquitectura moderna. O livro Labour : work and architecture, publicado
em 2002 contém os textos que Kenneth escreveu durante três décadas.
5
O britânico Sir Nikolaus Pevsner (1902-1983) trabalhou em áreas
como a história da arte, a arquitectura e o design. De entre as suas
contribuições ficam Pioneiros do desenho moderno e Origens da
arquitetura moderna e do design, que ainda hoje são utilizados como
referências e base de estudos em muitas universidades.
6
Esta citação faz parte do manifesto Concrete Utopias for the Green
City, escrito por Friedensreich Hundertwasser, para a conferência na
7
IGA, realizada a 27 de Julho de 1983, em Munique.
Antes que se falasse em sustentabilidade, os seus discursos,
manifestos e pinturas já sublinhavam a importância da natureza e
antecipavam soluções para o futuro do meio ambiente.
8
Consultar subcapítulo 2.3. Sentido explícito: Arquitectura como
contrução da dissertação (Cunha, 2013, p.43-44).
9
Consultar subcapítulo 2.4. Sentido implícito: Arquitectura como arte
da dissertação (Cunha, 2013, p.57-58).
10
11
Maria João Madeira Rodrigues é professora catedrática da FAUTL,
onde detém a titularidade da área de História da Arquitectura e do
Urbanismo. De algumas das suas obras, destaca-se as seguintes
publicações: Arquitectura (2002), da colecção «O que é», e Vocabulário
técnico e crítico de arquitectura (2005), sendo esta última em co-autoria
com Pedro Fialho de Sousa e Horácio Pereira Bonifácio.
Arquitectura significa, simultaneamente, duas categorias identificadoras.
Chamamos arquitectura a um objecto do mundo que oferece valores
práticos e valores espirituais: nos valores práticos são cumpridas funções
de protecção e abrigo: os valores espirituais referem essencialmente
qualidades que se dirigem à nossa sensibilidade, e motivadoras de uma
emoção sui generis, que designamos por emoção estética. (Rodrigues
, 2002, p. 75)
Louis Henry Sullivan (1856-1924) arquitecto americano conhecido
como “the father of skyscraper”, foi um dos interessados em
compreender o significado e os efeitos da aplicação da indústria nas
relações entre a decoração e a arquitectura, expressando as suas
filosofias em vários ensaios sobre o ornamento na arquitectura, dos
quais se destaca Ornament in Architecture, escrito em 1892. (Consultar
dissertação (Cunha, 2013, p.49-51).
12
Hannes Meyer (1889-1954), director da escola Bauhaus em Dessau
no período de 1929-1930, foi um dos arquitectos modernistas que
defendeu, à semelhança de Adolf Loos e Louis Sullivan, um sentido de
valor mais racionalista da arquitectura. Contudo, mesmo convivendo
com os mestres do movimento moderno e desenvolvendo o seu
trabalho na fase do apogeu do modernismo, a sua obra era crítica
quanto às questões formais adquiridas pela escola, focando como seu
paradigma o oposto radical, em que, ao arquitecto competiria o papel
de especialista em organização do processo construtivo, e não mais o
papel de artista. (Consultar dissertação (Cunha, 2013, p.52-56).
13
14 Gordon Matta-Clark (1943-1978), artista e arquitecto norte-americano,
concentrou a grande maioria da sua obra entre 1974 e 1978, com as
intervenções, conhecidas por building cuts, nas quais procurava uma
reinterpretação da linguagem da arquitectura, apresentando uma leitura
Extracto II 112
111 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
diferente do espaço, incentivando à criação e expansão da mitologia
do mesmo, e embora não tendo a certeza do que isso significava
(O’Neill, 2008, p. 95), ansiava alcançar um novo sentido da obra de
arquitectura, que lhe permitisse ir mais além, do que o facultado pelos
racionais valores práticos e funcionais que eram contemporaneamente
defendidos.
15 Julia Schulz-Dornburg (1962-) é uma arquitecta alemã que se graduou
pela Architectural Association de Londres, em 1990. Presentemente,
lecciona em várias universidades da cidade de Barcelona, onde tem
escritório próprio. Acreditava que, “o planejamento arquitetônico deveria
libertar-se para acomodar e dar espaço ao “inesperado”” (2002, p. 15).
Anarchitecture é o nome auto-atribuído ao grupo de artistas novaiorquino que se reuniu na década de 1970 e do qual fizeram parte nomes
como Laurie Anderson (1947-), Tina Girouard (1946-), Carol Goodden,
Suzanne Harris, Jene Highstein (1942-), Bernard Kirschenbaun, Richard
Landry, Richard Nonas (1936) e Gordon Matta-Clark. Inventado por
Matta-Clark, o termo funde as palavras “anarquia” e “arquitectura”,
podendo ser tomado como um conceito síntese do seu trabalho.
16
WBAI-FM, é um membro da cadeia da rede Pacífica de estações
de rádio, que sendo não-comercial, fornece uma vasta gama de
programação original para os ouvintes da região metropolitana da cidade
de Nova Iorque, alegando uma informação progressiva e independente
de assuntos de arte, de música e de história. A fundação Pacífica foi
lançada pelo pacifista Lew Hill, em 1949, cuja abordagem livre de
rádio, apresentava como “A Missão Pacífica: promover a compreensão
entre as nações e indivíduos, incentivar a criatividade e promover a
distribuição inovadora, sem censura de notícias” (Wbai-fm, 2012).
17
O termo original utilizado por Matta-Clark é piece. É interessante
notar que o arquitecto não utiliza a palavra place para descrever as
suas intervenções (Bortulucce, 2011, p. 120).
18
Vanessa Beatriz Bortulucce é professora doutorada em História da
Arte pela IFCH-UNICAMP. Actualmente lecciona na Academia Brasileira
de Arte e é docente do Centro Universitário Assunção em São Paulo.
19
20 Gordon
Matta-Clark, apud Vanessa Bortulucce (2011, p. 120).
Steven Holl é um arquitecto norte-americano. Nos últimos anos,
a sua arquitectura tem sofrido algumas mudanças, apresentando
uma linguagem de preocupação mais fenomenológica, influenciada
pelo filósofo Maurice Merleau-Ponty e pelo arquitecto teórico Juhani
Pallasmaa.
21
Referindo algumas palavras do arquitecto Steven Holl sobre a
arquitectura de Juhani Pallasma: “I have experienced the architecture of
Juhani Pallasmaa, from his wonderful museum additions at Rovaniemi
22
to his wooden summerhouse on a remarkable little stone island in the
Turku Archipelago, in south-western Finland. The way spaces feel, the
sound and smell of these places, has equal weight to the way things
look. Pallasmaa is not just a theoretician; he is a brilliant architect of
phenomenological insight. He practices the unanalyzable architecture
of the senses whose phenomenal properties concretise his writings
towards a philosophy of architecture” (Holl, 2009, p. 7).
Uma das questões que Anataxu Zabalbeascoa colocou a Juhani
Pallasmaa, na entrevista realizada a 12 de Agosto de 2006 posteriormente publicada no suplemento Babelia de El País -, sobre
o livro The eyes of the skin foi a seguinte: “Neste livro, o Sr. tacha de
‘narcisistas’ e ‘niilistas’ muitos dos ícones arquitetônicos celebrados pela
crítica. É isto o que pensa da arquitetura contemporânea?”. Pallasmaa
respondeu dizendo: “Sim. A arquitetura atual tende a ser ‘retiniana’, pois
se dirige aos olhos; é ‘narcisista’ porque coloca a ênfase no arquiteto,
no indivíduo; e é ‘niilista’ porque não fortalece as estruturas culturais; ao
contrário, as aniquila. Hoje, um pequeno grupo de arquitetos constrói
em todo o mundo, e os mesmos edifícios estão em toda parte. Assim,
é difícil que a Arquitetura possa reforçar alguma ou qualquer cultura”
(Pallasmaa, 2006).
23
Anatxu Zabalbeascoa é uma jornalista e historiadora especializada
em arquitectura que trabalha como crítica para o jornal espanhol El
País. Escreve regularmente no blogue “Del tirador a la ciudad” e é
autora de vários livros de arquitectura, com destaque para os seguintes:
Las casas del siglo (1998), Vidas construídas (1998) e Minimalismos
(2001).
24
Bernardo Pinto de Almeida é professor catedrático na Faculdade
de Belas-Artes da Universidade do Porto. No seu currículo já deixou
publicadas obras de ensaio e de poesia, entre as quais: Estranho
Desenho - O Surrealismo (2001) ou Depois que tudo recebeu o nome
de luz ou de noite (2002), respectivamente.
25
Álvaro Joaquim de Melo Siza Vieira, considerado um dos mais
conceituados e premiados arquitectos contemporâneos, conquista
notoriedade e reconhecimento internacional por meio das suas obras
de linguagem ímpar, que inicialmente foram fortemente influenciadas
pelos grandes arquitectos modernistas como Adolf Loos (1870-1933),
Frank Lloyd Wright (1867-1959) e Alvar Aalto (1898-1976), bem como
pelo seu professor e arquitecto Fernando Távora (1923-2005).
26
Vittorio Gregotti (1927-), arquitecto italiano, que projectou vários
edifícios importantes, como o Centro Cultural de Belém (1988-1993),
em Lisboa.
27
28 “Los
seres humanos, ya con su propia forma distintiva, han habitado
la Tierra durante más de un millón de años. En la mayor parte de ese
tiempo han ignorado la arquitectura como cobijo: una casa en la que
vivir «un techo sobre nuestras cabezas», biente separado del orden de
la naturaleza. Pero si, como hemos sugerido, la arquitectura describe
simplemente el acto de construir lugares para uso ritual, fue una de
las primeras necesidades humanas” (Kostof, 1996, p. 43). Com estas
palavras Spiro Kostof quis dar a entender, que durante grande parte
desse período o homem esteve afastado da arquitectura, se por esse
termo entendermos a ambição de criar um ambiente separado da ordem
do mundo natural.
Dr. Spiro Konstantine Kostof (1936-1991) foi um historiador de
arquitectura e professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley.
29
30 “El
sentido de refugio es algo instintivo. Parece natural construir para
conseguirlo” (Kostof, 1996, p. 43).
Segundo Pedro Vieira de Almeida (2004, p. 41), embora Vittorio
Gregotti, defende-se que a origem da arquitectura não está na cabana
primitiva, mas sim no primeiro momento ou acto de marcar o lugar, uma
vez que, antes de colocar pedra sobre pedra, o Homem coloca uma
pedra sobre a terra, escolhendo esse mesmo lugar para o transformar,
criando assim um diálogo entre o mundo natural e o mundo artificial.
Neste trabalho, segue-se a leitura de Bruno Zevi (1996, p.18-19), na
sua abordagem de origem da arquitectura, enquanto espaço interior, ou
seja de abrigo, na sua total constituição de limite físico espacial coberto,
capaz de responder às necessidades humanas.
31
Bruno Zevi (1918-2000), arquitecto italiano, é considerado um dos
elementos fundamentais no contexto da arquitectura moderna, tanto
pelas suas obras teóricas como práticas. A sua arquitectura apresenta
grande influência da arquitectura orgânica de Frank Loyd Wright. De
entre os livros a mencionar do autor estão também Saper vedere
l’architettura (1948) e Storia dell’architettura moderna (1950).
32
Peter Eisenman, arquitecto e teórico da arquitectura norteamericano, tornou-se um dos principais precursores da arquitectura
desconstrutivista, na década de 1980. Das suas principais obras
destaca-se o Memorial do Holocausto construído no ano de 2005, em
Berlim.
33
Josep Maria Montaner (1954-), arquitecto, escritor e professor da
ETSAB, foi professor visitante em diversas universidades da Europa, da
América e da Ásia. Autor de livros traduzidos em várias línguas, também
realiza regularmente algumas publicações em revistas de arquitectura e
jornais espanhóis como El País e La Vanguardia.
34
35 Henri Lefebvre, sociólogo francês, intelectual marxista e filósofo, ficou
conhecido pelo seu trabalho desenvolvido sobre o marxismo, a vida
quotidiana, as cidades, e o espaço social. Cunhou o slogan “o direito
à cidade” e a sua obra literária Critica de la vida cotidiana, publicada
primeiramente em 1947, esteve entre as principais matrizes intelectuais
da International Situationists (I.S.).
Sir Ernst Gombrich (1909-2001) foi professor de história de arte na
Universidade de Londres. As suas principais obras incluem: The story
of art (1950), Art and illusion: a study in the psychology of pictorial
representation (1960) e The preference for the primitive (2002) que
terminou de escrever antes da sua morte.
36
37 Jean-Louis Viel de Saint-Maux
foi um arquitecto, pintor e advogado do
século XVIII. Letters on the architecture of ancients and moderns, obra
que contêm uma crítica irónica dos clássicos face à sua submissão à
autoridade do passado, foi considerado como o seu principal manifesto.
O arquitecto português Raul Lino da Silva, realizou os seus estudos
em Inglaterra e na Alemanha, país onde trabalhou no atelier do arquitecto
alemão Albrecht Haupt, com uma marcante influência na sua formação
estética, arquitectónica e conceptual. Defensor da tradição versus
modernismo, projectou ao longo do seu percurso profissional cerca de
700 obras, como são exemplo a Casa dos Patudos, em Alpiarça (1904)
e a Casa do Cipreste, em Sintra (1912). Foi ainda autor de numerosas
obras teóricas sobre a problemática da arquitectura doméstica popular,
como é o caso dos textos A casa portuguesa (1929), Casas portuguesas
(1933) e L’évolution de l’architecture domestique au Portugal (1937).
38
39 Mario
Botta (1943-), arquitecto suíço, cuja obra possui influências da
arquitectura de Le Corbusier, Louis Kahn e Carlo Scarpa, com os quais
manteve contacto durante o curso em Veneza
Flavio Conti (1943-), professor no Politécnico de Milão, e o principal
colaborador de uma empresa especializada em arquitectura, decoração
e restauração.
40
Christof Thoenes, professor honorário em Hamburgo, estudou
história da arte em Berlim e em Pavia, antes de completar seu
doutoramento em Berlim. As suas diversas publicações sobre a arte
italiana, principalmente sobre a arquitectura e teoria da arquitectura do
século XV ao XVIII, têm sido um contributo muito importante para o
estudo da teoria da arte e da arquitectura.
41
42 Bernard
Rudofsky, arquitecto austríaco-americano, crítico e designer
de exposições, cuja obra integral foi influenciada pelo seu interesse em
conceitos sobre o corpo e o uso dos sentidos, tornando-se conhecido
pelas suas exposições e catálogos controversos.
The Museum of Modern Art (MoMA), ou seja, o Museu de Arte
Moderna, foi fundado em 1929, em Manhattan, sendo o primeiro
museu devotado à era moderna. Desde sempre, tem desenvolvido um
importante papel na recolha de arte modernista, e é frequentemente
identificado como o museu mais influente de arte moderna do mundo.
43
Extracto II 114
113 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
“A exposição e catálogo Arquitetura sem arquitectos (1964), de
Bernard Rudofsky, demonstra, com fotografias, que a arquitetura dos
arquitectos é incapaz de produzir a beleza, sentido comum, adequação
e capacidade de permanência das arquitecturas populares de muitas
culturas” (Montaner, 2007, p. 128).
44
45 Para Dr. Albert Schweitzer, apud Octávio Lixa Filgueiras (1985, p. 26),
“se na vida de cada um de nós prevalecer o ideal da ética, dia virá em
que todos farão o mesmo. E será esse o regresso à estrada principal, ao
verdadeiro caminho, fora do qual o mundo não conseguirá salvar-se”.
Andrea Palladio foi um arquitecto activo na República de
Veneza. Palladio, influenciado pela arquitectura romana e grega, e
principalmente por Vitrúvio, é considerado uma das personalidades
mais influentes na história da arquitectura ocidental. Todos os seus
edifícios estão localizados no que foi a República de Veneza, mas foram
principalmente os seus ensinamentos, resumidos no seu tratado de
arquitectura Os quatro livros de arquitectura, que lhe conferiram notório
reconhecimento. A cidade de Vicenza e as Villas de Palladio do Veneto
são Patrimônio Mundial da UNESCO.
46
Eduardo Côrte-Real licenciado em Arquitectura, em 1984, concluiu
o doutoramento em Comunicação Visual em Arquitectura, em 1999,
depois de períodos de estágio em Inglaterra e Itália. Trabalha desde
1999 no Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing (IADE), e de entre
algumas obras publicadas destacam-se: Um suave guia para o desenho
em viagem e O triunfo do desenho.
47
“Para além deste processo do homem que se refugia na caverna,
constrói a cabana e concebe a casa, foram aparecendo novos factores
que produziram alterações qualitativas nessa casa criada por ele:
factores sociológicos e factores tecnológicos” (Campo Baeza, 2004, p.
59).
48
49 “A responsabilidade
inalienável do arquitecto é, pois, não a de servir
as novas técnicas, mas o confrontar a sua capacidade de serviço de
massa com as necessidades humanas dos utentes de cada célula, dos
moradores de cada bairro ou cidade” (Portas, 2008, p. 71).
Renato de Fusco (1929-), defensor de ideais próximos da corrente
semiótica, é um reconhecido historiador e ensaísta italiano de
arquitectura, do qual se destacam obras como Historia de la arquitectura
contemporânea (1994) e Historia del diseño (2005).
50
A expressão função mãe é utilizada para caracterizar a função
primária ou vital de um projecto.
51
“A arquitectura perde seus atributos básicos e se converte em pura
mensagem de imagens, por cima dos espaços, processos, funções,
tipologias, estruturas, técnicas ou formas” (Montaner, 2007, p. 166).
52
53 “A produção
individual de sentido é portanto mais necessária do que
nunca” (Augé, 2006, p. 35).
“A arquitectura não pode mais ser uma unidade homogénea que
representa um todo, somente pode ser entendida como uma série de
fragmentos que são interligados pela pessoa que os experimenta. O
apelo por uma arquitectura flexível e interativa restabeleceu no projecto
e na construção de edifícios um elemento óbvio, mas há muito tempo
esquecido: as pessoas. Se a arquitectura só pode ser compreendida
quando é percorrida, então, só pode existir se for usada. Apelar para que
o planejamento urbano deixe espaço para o inesperado significa pedir
que o terreno seja preparado para a interacção humana espontânea. O
usuário é, mais uma vez, o vínculo entre a ideia e a realidade física, o
catalisador na criação do espaço” (Schulz-Dornburg, 2002, p. 19).
54
Nuno Santos Pinheiro (1937-), professor e arquitecto português,
licenciou-se em arquitectura pela ESBAL e doutorou-se em arquitectura
pela FAUTL. Presentemente faz parte do núcleo de professores
catedráticos da Universidade Lusíada de Lisboa e é coordenador do
Fórum UNESCO para Portugal e para os países do Magreb. Presidente
do Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico,
no período de 1993/1996, é membro Ordem dos Arquitectos (S.R.S.),
assim como, membro da Associação Portuguesa de Urbanistas.
55
“[…] resta aos utentes adaptarem-se ou estragarem a criação
ao arquitecto. O problema não é simples, pois é forçoso constatar a
existência de um desfasamento, na sociedade de massas, entre a
produção dos meios de progresso e a assimilação de cultura que
permita dominá-los, afinal o que constituiu precisamente o campo de
trabalho da cultura popular no seu sentido mais activo, quer dizer,
englobando criação e produção” (Portas, 2008, p. 83).
56
Leon Battista Alberti (1404-1472), foi humanista italiano, arquitecto
e teórico de arte defensor do ideal renascentista da arquitectura e do
urbanismo.
57
58 Sebastiano Serlio (1475-1554) arquitecto, teórico e pintor italiano. Foi
o autor do tratado Sette libri dell’architettura (Sete livros de arquitectura)
considerado um exemplar da teorização dos ideais da Renascença,
devido às excelentes ilustrações que se faziam acompanhar de uma
linguagem moderna.
59 O arquitecto português Fernando Luís Cardoso de Meneses e Tavares
de Távora nasceu no Porto, e em 1941 fez o exame de admissão à EBAP.
Em 1947 publicou o ensaio O problema da casa portuguesa : Falsa
arquitectura : Para uma arquitectura de hoje, documento onde sintetizou
a noção de uma arquitectura moderna, mas enraizada na cultura, e
onde chamou a atenção para a necessidade de um estudo científico
da arquitectura popular portuguesa. Entre 1951 e 1959, participou nos
CIAM, nomeadamente na conferências de Veneza, Hoddesdon, Aix-
en-Provence, Dubrovnik e Otterlo. Dos seus projectos arquitectónicos
construídos, destacam-se o Mercado Municipal de Santa Maria da Feira
(1953-59) ou a Ampliação das instalações da Assembleia da República,
em Lisboa (1994-1999).
“A acção arquitectónica, pela sua natureza, exige um permanente,
trânsito entre o plano artístico individual e a satisfação das necessidades
sociais. O arquitecto teria então que nortear a sua aprendizagem no
sentido de se aperfeiçoar ao máximo para cumprir o seu papel social.
Não é de estranhar, como vimos, que Alberti escolha um tratado de
arquitectura para fazer passar, para além de toda a sua erudição sobre
o mundo antigo uma imagem de um homem com uma profissão que
simbolize o início de uma nova idade” (Côrte-Real, 2001, p. 69).
60
Os Congrès Internationaux d’Architecture Moderne, realizados
em 1928 e em 1956, consistiram na organização de uma série de
conferências internacionais que reuniram alguns dos maiores nomes
da arquitectura moderna. Le Corbusier foi um dos seus principais
idealizadores. Os CIAM foram responsáveis por discussões e pesquisas
inéditas até então, como o Existenzminimum (dimensões mínimas para
os padrões de vida do Homem Moderno) e o design para as massas,
que revolucionaram o pensamento estético, cultural e social do período.
Possivelmente o documento mais influente escrito pelos CIAM foi a
Carta de Atenas, em 1933 aquando do IV congresso, era um manifesto
por uma cidade nova, um planeamento urbano Funcionalista (Montaner,
2007, p. 28-29).
61
Le Corbusier (1887-1965) foi um dos arquitectos, não só do século
XX, mas de toda a história da arquitectura, que propôs uma teoria de
proporções e forneceu descrições de como foram aplicadas nos seus
projectos. Detentor de um pensamento lógico, racional e disciplinado,
encontra a sua plena expressão, em termos de proporções, no seu
sistema denominado modulor. Segundo o historiador de arquitectura
inglês John Summerson: “ ‘Modulor’ is a word made out of module (that
is to say, unit of measurement) and section d’or, or golden section: that is
to say, the division of line so that the larger part is to the whole line as the
smaller part to the larger. The Modulor is system of space-notation based
on this geometrical absolute and constituting a ‘gamut’ of dimensions. A
middle phase of the gamut relates to the dimensions of the human body;
the other phases extend it to the minutiae of precision instruments on
the one hand and to the scale of vast town-planning enterprises on the
other” (Summerson, 2002, p. 113).
62
63 É perante um contexto de conflito entre gerações e de uma solicitada
revisão crítica no interior dos CIAM, que em Aix-en-Provence, no IX
congresso (1953), se formou um grupo de jovens constituído por Alison
Smithson (1928-1993), Peter Smithson (1923-2003), Aldo van Eyck
(1918-1999), Jaap Bakema (1914-1981), George Candilis (1913-1995),
Rolf Gutman, Jill Howell, Jonh Voelcker (1927-1972) e Shadrac Woods
(1923-1973). Este grupo de arquitectos, da chamada terceira geração,
ficaria responsável pela organização do derradeiro X CIAM, em 1956,
na cidade de Dubrovnik (Jugoslávia), e após a dispersão dos CIAM,
passariam a denominar-se como Team 10. Este comité criticava “o
formalismo da Carta de Atenas, reclamando para resolver o tema do
Congresso – o «Habitat humano» – que fosse introduzido o conceito
de «identidade» e investigado de acordo com os princípios estruturais
do crescimento urbano” (Montaner, 2007, p. 30), para o Team 10:
“tratava-se de propor uma utopia do possível, aceitando os gostos e as
necessidades das pessoas” (Montaner, 2007, p. 30), contrariamente à
doutrina dos CIAM, que defendia a mudança radical do modo de vida
das pessoas através duma arquitectura racional.
“A Carta de Atenas é a representação teórica dos critérios que,
sobretudo em Amsterdão, faziam parte da prática dos gabinetes de
planeamento. […] Na vida distinguem-se quatro funções: 1) habitação;
2) tempos livres; 3) trabalho; 4) circulação, e para cada uma se
enumeram as exigências deduzidas da pesquisa tipológica até então
efectuadas. A função da habitação é colocada no primeiro lugar, mas
esta prioridade não se traduz num processo técnico. Os enunciados
da Carta de Atenas adquirem, portanto, o carácter de afirmações de
princípio, necessários mas não suficientes para orientar as experiências
do pós-guerra” (Benevolo et al.,1987, p. 20-21).
64
Aldo van Eyck (1918-1999), arquitecto proveniente da Holanda, é
considerado um dos protagonistas mais influentes do movimento
estruturalista. Foi um dos membros dos CIAM. Em 1954, tornou-se cofundador do grupo Team 10.
65
“A arquitectura moderna [...] teve de, apressadamente, se revestir
dos hábitos mais vulgares e da prepotência dos novos-ricos, dos
protagonistas do boom económico, e da especulação selvagem
imobiliária e de construção civil” (Portoghesi, 1985, p. 50).
66
“No seio dos efeitos sociais, devidos à pressão das massas, o
individual não morre e se afirma. Surgem direitos: estes entram para
os costumes ou em prescrições mais ou menos seguidas por atos, e
sabe-se bem como esses “direitos” concretos vêm completar os direitos
abstractos do homem e do cidadão inscritos no frontão dos edifícios
pela democracia quando de seus primórdios revolucionários: direitos
das idades e dos sexos (a mulher, a criança, o velho), direitos das
condições (o proletário, o camponês), direitos à instrução e à educação,
direito ao trabalho, à cultura, ao repouso, à saúde, à habitação. Apesar,
ou através das gigantescas destruições, das guerras mundiais, das
ameaças, do terror nuclear. A pressão da classe operária foi e continua
a ser necessária (mas não suficiente) para o reconhecimento desses
direitos, para a sua entrada para os costumes, para a sua inscrição nos
códigos, ainda bem incompletos” (Lefebvre, 1991, p. 115-116).
67
68
Nome atribuído aos bairros de lata ou aglomerados de habitação
Extracto II 116
115 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
colectiva não controlados e em condições reduzidas, também
denominados vulgarmente como favelas. Nesta dissertação, sempre
que se utilizar a palavra slums estar-se-á a fazer referência a este tipo
de conjunto ou realidade social, à semelhança da denominação utilizada
pelo arquitecto Hundertwasser nos seus ensaios.
“[…] de todos aqueles que sofrem a ação de uma quotidianeidade
bem ordenada, será necessário mostrar aqui a miséria irrisória e sem
nada de trágico do habitante, dos suburbanos, das pessoas que moram
nos guetos residenciais, nos centros em decomposição das cidades
[…]” (Lefebvre, 1991, p. 117).
69
Nuno Teotónio Pereira (1922-), arquitecto português, formou-se
em arquitectura pela ESBAL. Entre os seus projectos de arquitectura
destacam-se: a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, projecto partilhado
com Nuno Portas, e o Bloco das Águas livres em Lisboa, em parceria
com Bartolomeu Costa Cabral.
70
Estas palavras do arquitecto Nuno Teotónio Pereira, reportam-nos
para o manifesto de Aldo van Eyck, escrito em Agosto de 1962 intitulado
Steps toward a configurative discipline, onde Eyck, membro do grupo
Team 10, também confrontado com a situação habitacional vigente falou
sobre a essência da construção para um maior número de pessoas,
de modo a valorizar e a respeitar os problemas das mesmas, bem
como os novos ideais arquitectónicos que se deveriam seguir. Alegou
que se deveria descobrir uma “harmonia no movimento” pela possível
standartização dos elementos de construção, e defendeu que se tinha
de continuar a busca de princípios básicos de uma nova estética e
descobrir o sentido estético e humano de número. Como afirmou Aldo
van Eyck: “We must continue the search for the basic principles of a new
aesthetic and discover the aesthetic and human meaning of number.
We must impart rhythm to repetitive similar and dissimilar form, thereby
disclosing the conditions that may lead to the equilibration of the plural,
and thus overcome the menace of monotony” (Eyck, 1993, p. 353).
71
Gaston Bachelard (1884-1962) foi um crítico, epistemólogo, poeta
e filósofo francês. Em 1927, doutorou-se com a tese Ensaio sobre o
conhecimento aproximado e estudo sobre a evolução de um problema
da física, a propagação térmica nos sólidos. De entre as suas obras
literárias destacam-se: O novo espírito científico (1934), Psicanálise do
fogo (1938), A água e os sonhos (1942) e A poética do espaço (1957).
72
73 Richard
Rogers (1933-) formado entre a Architectural Association de
Londres e a Universidade de Yale estabeleceu o seu próprio escritório
em 1978 depois de dissolver a sua sociedade com Renzo Piano
(1937-). Sociedade posterior ao efémero TEAM 4 que criou nos anos
60 junto a Norman Foster (1935-), Su Brumwell e Wendy Cheeseman.
Com o edifício Georges Pompidou em Paris e o Lloyd’s na cidade de
Londres, Rogers consolidou o seu lugar como um dos protagonistas da
arquitectura da segunda metade do século XX, sendo uma figura chave
do movimento que se denominou high-tech.
Constantinos Apóstolos Doxiadis (1913-1975) foi um importante
arquitecto e urbanista grego que se formou em arquitectura pela
Universidade Técnica de Atenas, em 1935, obtendo o doutoramento
na Universidade de Charlottenburg, em Berlim. As suas ideias foram
divulgadas por uma constante colaboração nas principais publicações
da especialidade de todo o mundo, incluindo a revista portuguesa
Binário.
74
Nuno Rodrigo Martins Portas (1934-) diplomou-se em Arquitectura
pela Universidade Técnica de Lisboa, em 1959. Em Portugal, fez parte
dos governos posteriores ao 25 de Abril, tendo participado na definição
das linhas políticas para a habitação, reabilitação urbana e actualização
da legislação sobre urbanismo. Ao longo do seu percurso, Nuno Portas
foi responsável pelos projectos urbanísticos de diversos bairros da
periferia de Lisboa, mas também de várias cidades brasileiras, sendo
também, autor de diversos livros, como Cidade como arquitectura e
Arquitectura para hoje.
75
Octávio Lixa Filgueiras (1922-1996) destacou-se nas áreas da
cultura, arqueologia e marinha, com trabalhos relativos à etnografia
naval. Estudou arquitectura na ESBAP, de 1942 a 1949. Interessou-se
pela arqueologia naval e foi o mentor da arqueologia subaquática em
Portugal.
76
John F. Charlewood Turner é um arquitecto britânico cosmopolita
conhecido pelas suas contribuições para a habitação e para o
desenvolvimento e planeamento urbano, com destaque para o
estudo da habitação em países subdesenvolvidos. Entre os anos
de 1957 e 1965, residiu no Peru, onde trabalhou para os gabinetes
governamentais de intervenção urbana, efectuando aí as primeiras
experiências de assistência à autoconstrução e ao desenvolvimento das
comunidades. Durante esses oito anos estudou os povoados situados
nas periferias das imensas cidades principais latino-americanas, bairros
autoconstruídos onde a maioria dos habitantes procuravam casa, com
particular interesse nos processos de ocupação ilegal do solo.
77
Os seus artigos têm sido publicados em várias revistas italianas e
estrangeiras, tais como: Bauwelt, Skyline ou 9-H Architectural Magazine,
entre outras. Das suas obras destacam-se: Adolf Loos, teoria e opera
(1981), Il mito mediterraneo (1994) e Le Corbusier e l’Antico, viaggi nel
mediterraneo (1997).
John Berger é vulgarmente abordado como a imagem de uma das
vozes mais lúcidas, incisivas e inconformistas do panorama intelectual
europeu. Romancista, poeta, ensaísta, dramaturgo e crítico de arte,
entre as suas obras destacam-se o romance G., Hacia la Boda, Puerca
tierra, Una vez en Europa, e El último retrato de Goya.
81
João Ferrão é licenciado em Geografia pela FLUL, e doutorado
pela Universidade de Lisboa em Geografia Humana. Publicou,
individualmente ou em colaboração, dezenas de artigos em revistas
nacionais e estrangeiras e diversos livros sobre temas relacionados
com geografia, ordenamento do território e políticas de desenvolvimento
local e regional.
82
Leonardo Benevolo (1923-) é um arquitecto e urbanista italiano,
considerado um dos mais conceituados historiadores de arquitectura.
Entre as suas principais obras constam igualmente: História da
arquitectura moderna e História da cidade.
83
Bruno Munari foi um artista, designer, escritor, ilustrador e educador
italiano, que criou uma obra de várias vertentes, da qual se destacam
contributos nas artes visuais pintura, escultura, cinema, design industrial,
gráfico, e também em outros tipos de arte como a literatura, poesia e
didáctica, dos quais se destaca o interesse pelo processo criativo bem
patente nos seus desenvolvidos jogos educativos.
84
Se para B. Archer, apud Bruno Munari (2004, p. 39), “o problema do
design resulta de uma necessidade”, e se para Antonio Rebolini, apud
Bruno Munari (2004, p. 39), “[…] quando um problema não se pode
resolver, não é um problema. Quando um problema se pode resolver,
também não é um problema”. Em casos de habitação colectiva,
e perante os actos até então desenvolvidos e aptados, quererá o
arquitecto prevalecer pelo problema, ou encontrar a solução?
85
78 Entendendo-se,
estes dois arquitectos “[…] partem de uma premissa
básica: todo o mundo pode desenvolver a capacidade de ser o arquitecto
dos seus próprios espaços” (Montaner, 2007, p. 130).
Leonard Bruce Archer (1922-2005), engenheiro mecânico britânico e
professor no Royal College of Art, defendeu a pesquisa em design, e
ajudou a estabelecer o design como disciplina académica.
“E se é evidente que não cabe aos arquitectos o transformarem-se
em polícias dos capitais de efectivos ou potenciais clientes, cumpre-lhes
o não colaborar levianamente no jogo da maximização da especulação
urbana ou na onda da poluição turística, como muitas vezes esquecem,
ou fazem por esquecer” (Almeida, 2004, p. 45).
86
Benedetto Gravagnuolo é professor de História de Arquitectura.
87
79
80
Edward Osborne Wilson é um entomologista e biólogo americano
conhecido pelo seu trabalho desenvolvido sobre ecologia, evolução e
sociobiologia. É autor do livro Sociobiology: The New Synthesis (1975),
onde aborda temas sobre o comportamento animal (e por extensão, o
ser humano), estudado segundo uma abordagem evolutiva.
“I believe that we can understand the current uncertainties of
architecture more clearly if we are able to see the cultural conditions
that we live in at the end of our millennium” (Pallasmaa, 1994, p. 75).
Com estas palavras Pallasmaa quis dizer que, se compreendermos as
incertezas da arquitectura vigente, mais claramente seremos capazes
de ver as condições de cultura em que vivemos no final do nosso
milénio.
Sheffield, é um estado da cidade metropolitana de South Yorkshire,
Inglaterra. O seu nome deriva do rio Sheaf, que atravessa a cidade. A
população da cidade de Sheffield é de cerca de 552.000 habitantes.
88
“The area was known as “Little Chicago” in the 1930s, due to the
violent crimes sometimes committed there” (Yorkshire Film Archive,
2011b).
89
90 Alan Powers (1955-) é um professor, pesquisador e escritor britânico,
especializado em arquitectura e design.
91 O Golden Lane foi conceptualizado para um concurso de projectos da
City of London em 1951. Embora não construído reflectiu-se como um
óptimo exemplo da arquitectura brutalista, especialmente do que viria
a ser o Novo Brutalismo Inglês (Barone, 2002, p. 132) profundamente
enraizado nos ideais corbusianos, aplicados na Unité d’Habitation de
Marselha (1947-1952), em que o princípio das suas “ruas” interiores
(Frampton, 2003, p. 274) que liga as habitações é convertido pelos
Smithson, em espaços abertos pedestres que se prolongavam até à
fachada do edifício. Apresentavam uma alternativa em altura às relações
proporcionadas pela “rua corredor”, reflectindo-se nas apelidadas “ruas
no céu”.
J. Lewis Womersley foi o chefe do Sheffield city council’s architects’
department, na década de 1950. Foi o responsável pela contratação
do jovem casal de arquitectos Jack Lynn e Ivor Smith, para projectar o
conjunto de Park Hill (Sheffield City Council, 2010, p. 16).
92
93 David
Kynaston é um historiador inglês e autor de vários livros sobre
a história social inglesa. Publicou vários artigos em revistas e jornais,
nomeadamente na New Statesman Magazine.
“The original architects Jack Lynn and Ivor Smith’s brutalist design
created three different types of apartment above, below and adjacent to
the deck to suit the full range of home owners from single pensioners to
families of six or more” (Urban Splash, 2011b).
94
”Firstly, there is the unity of place, such as any large construction
bestows on the area it dominates, but reinforced by the fact that quite a
lot of ground is practically surrounded by the arms of Park Hill. Secondly,
there is the unity of performance-at all points within the main building,
the same kind of structural frame supports the same kind of residential
function” (Banham, 2011, p. 404).
95
Extracto II 118
117 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
Consultar subcapítulo 3.3.1. Caso 1. Pruitt-igoe em S.louis, Missouri
(Cunha, 2013, p.118-132).
96
“The local architects who designed Park Hill, Lewis Womersley, Ivor
Smith and Jack Lynn – who soon after designed the nearby Hyde Park
flats – recognised there was a strong sense of local community and in
the design of Park Hill tried to preserve this community spirit. Where
possible neighbours were re-housed alongside each other in the new
complex, retaining old street names, with each flat opening out onto a 10
foot wide deck” (Yorkshire Film Archive, 2011a).
97
Minoru Yamasaki (1912-1986), arquitecto nipo-americano ,
mundialmente reconhecido pela autoria do projecto das famosas Torres
Gémeas de Nova Iorque . O World Trade Center , construído entre 1966
e 1973, tornou-se indiscutivelmente, um ícone global e o símbolo da
sua carreira, da qual fazem parte projectos igualmente interessantes
como os aeroportos de Saint Louis Missouri, nos EUA, ou de Dahran,
na Arábia Saudita; o pavilhão americano na Feira Agrícola de Nova Deli;
o Banco Central Saudita; a Congregação Israelita de North Shore ou as
Century Plaza Towers em Los Angels (Tavares, 2007, p. 164).
98
99 “For
the ultimate unity of Park Hill depends on the inviolate continuity
of horizontal communications; the street-decks make it possible to walk
to any other point on the same floor level without ever having to go down
to ground and come up again” (Banham, 2011, p. 409).
Peter Reyner Banham (1922-1988) foi um crítico e escritor inglês,
conhecido pelos seus manifestos sobre teoria da arquitectura. As obras
literárias Theory and design in the first machine age (1960), e Los
Angeles: the architecture of four ecologies (1971), materializaram-se em
fiéis exemplos dos seus ideais.
100
“O elemento mais marcante do projecto são os corredores-deck
aéreos de 3,56 m largura, a cada 3 pisos, todos interligados entre si por
torres de articulação entre os blocos laminares. Além disso, a disposição
dos blocos em desnível permitiu o acesso direto dos corredores-deck à
rua. Os corredores são largos e permitem a circulação de muita gente,
carrinhos, etc., criando uma sociabilidade rica, como uma extensão
natural da rua” (Barone, 2002, 140).
101
“The open spaces between the blocks become progressively larger
as the height of the buildings increases towards the north, to ensure
the maximum amount of light, air and sunshine” (Sheffield City Council,
2010, p. 17).
102
No documento Sources for the Study of Park Hill and Hyde Park
Flats, realizado por Sheffield City Council, no departamento de Sheffield
Archives, em 2010, pode-se encontrar alguns testemunhos de antigos
moradores de Park Hill: “It was a fantastic place to live and I only have
good memories. It was a community [where] everyone knew each other”;
103
“I used to play on the corridors on my roller skates. All the kids were
happy and… we never got wet when our mums made us go to the shops”
(2010, p. 24).
104 J.
Lewis Wormersly, apud Sheffield Archives (2010, p. 20): “In order
to give individuality and aesthetic value to the various decks, entrances
and lift halls, these elements will require special visual design treatment
which it is felt should be integrated in the structure rather than applied in
the form of mural decoration. This aspect of the scheme will undoubtedly
have an important psychological effect on the inhabitants”.
“Park Hill underwent a familiar cycle of critical approbation followed
by gradual disillusion, common to many social housing projects of its
time” (Powers, 2010, p. 32).
105
Sheffield Archives, são documentos que fazem parte do núcleo
de investigação do Sheffield City Council, desenvolvidos em 2010. O
arquivo que está a ser utilizado com suporte para esta dissertação,
faz parte do departamento Communities: Libraries, Archives and
Information, e tem como título Sources for the Study of Park Hill and
Hyde Park Flats.
106
107 Henry Sanoff formou-se em Arquitectura em 1957, e recebeu o título
de mestre em Arquitectura em 1962, a partir de Pratt Institute, em Nova
York. A sua carreira de mais de 40 anos, teve como objectivo primário
confirmar e defender a importância da participação das pessoas que
usam o espaço, na sua construção ou reconstrução, pois permitia,
segundo o arquitecto, que o edifício fizesse sentido para os utilizadores.
Simone Adolphine Weil escritora e filósofa francesa, tornouse operária da Renault para escrever sobre o quotidiano dentro das
fábricas.
108
Portoghesi Paolo (1931-) é um arquitecto, teórico e historiador
italiano, do qual se pode destacar a obra literária Nature and architecture
(2000) e o projecto arquitectónico The Mosque of Rome (1994).
109
110 Stephen
W. Hawking, apud Anthony Giddens (1998, p. 6): “O tempo
imaginário é indistinguível das direções no espaço. Se se pode ir para
o norte, pode-se virar e tomar o rumo sul; da mesma forma, se se pode
ir para a frente no tempo imaginário, deve-se poder virar e ir para trás.
Isto significa que não pode haver diferença importante entre as direções
para a frente e para trás do tempo imaginário. Por outro lado, quando
se olha para o tempo “real”, há uma diferença muito grande entre as
direções para a frente e para trás, como todos sabemos. De onde
vem esta diferença entre o passado e o futuro? Por que lembramos o
passado e não o futuro?”.
Stephen William Hawking (1942-) foi um físico, teórico, cosmólogo e
cientista britânico. De sua obra literária destacam-se títulos como: O
universo numa casca de noz (2002), George e o segredo do universo
(2007), ou Uma breve história do tempo (1988), da qual faz parte a
citação referida.
Anthony Giddens (1938-) é um sociólogo britânico, cuja obra se debate
fundamentalmente sobre as estruturas sociais (os problemas da análise
de classes, o impacto dos conflitos internacionais nas relações sociais e
a sociologia das emoções), a reflexividade da modernidade e, o que se
entende por modernidade, numa critica à chamada pós-modernidade.
De entre algumas das obras publicadas pode-se ler: Capitalism and
modern social theory (1971), The consequences of modernity (1990), ou
Modernity and self-identity (1991).
111 “The
team are working to bring love, life and pride back to this iconic
project and make it a genuinely vibrant and sustainable community for
the 21st Century” (Urban Splash, 2011c).
“Our plan revolves around making Park Hill a special place and
knitting it in to Sheffield. We think the way to soften its brutality without
softening its character is to create a world class landscape, inside and
outside its walls” (Urban Splash, 2011b).
112
Vasco Croft foi aluno na ESBAL. Em 1950, trabalhou no atelier
do seu irmão, onde deu os primeiros passos em arquitectura com a
ajuda do arquitecto João Braula Reis. Ao longo da sua vida profissional
manteve contacto com os arquitectos: Nuno Teotónio Pereira, Augusto
Brandão, Fernando Távora e com o arquitecto inglês Henry Swain
(Croft, 2001, p. 9-11).
113
114 “O arquiteto italiano Giancarlo de Carlo, durante as décadas de 60 e
70, foi um dos pioneiros na reflexão sobre a importância da “Arquitetura
Participativa” e na criação de procedimentos de trabalho que
incorporassem a participação do usuário no processo de elaboração de
projetos. Suas propostas e a maneira de desenvolver projectos foram
passos importantes na definição de procedimentos de trabalho para o
projecto participativo, exemplificados no projeto de habitação operária,
em Vila Matteotti (1964-1974) ou no estudo para o desenvolvimento
urbano de Urbino (1958-1976)” (Barone, 2012, p. 18).
“As fases da operação a que se refere de Carlo são “a definição
do problema, a elaboração da solução e a avaliação dos resultados”
(Barone, 2002, p. 160).
115
116 Em suma, é importante ter a consciência que o arquitecto Giancarlo:
[…] acreditou na participação em arquitetura para trazer de volta
a invenção e modificação da realidade vivida pelo homem. Sem
menosprezar as dificuldades em identificar e estabelecer vínculos de
comunicação com os usuários, Giancarlo defendeu como metas da
participação em arquitetura a aquisição de conceitos e valores novos,
superando os valores arraigados em repertórios culturais largamente
sedimentados, informando o público, ampliando referências e dissipando
a alienação. Como em sua própria opção por nem sempre encaminhar
o projecto pela via da participação, para ele não existe receita para um
processo de projecto. (Barone, 2002, p.167)
117 Walter Gropius considerado um dos principais nomes da arquitectura
do século XX, tendo sido fundador da Bauhaus e director do curso de
Arquitectura da Universidade de Harvard.
Rui Tavares (1972-) é escritor e historiador, além de colunista na
imprensa e comentador na televisão. Entre as suas obras publicadas
destacam-se Pobre e mal agradecido (2006), O pequeno livro do grande
terramoto (2005) e Dom João II (2005).
118
119 Pedro Brandão (1950-) licenciou-se em Arquitectura pela ESBAL em
1977. Actualmente é, entre outros cargos, Secretário-geral da Europan
Portugal e Professor Convidado no Curso de Arquitectura do IST. Das
suas obras escritas destacam-se O arquitecto e outras imperfeições:
ética, identidade e prospectiva da profissão (de onde é retirado este
pequeno excerto), ou por exemplo o livro A cidade entre desenhos.
Peter Zumthor formou-se arquitecto na Kunstgewerbeschule
Basel e no Pratt Institute em Nova Iorque. Tem o seu próprio atelier de
arquitectura desde 1979 em Haldenstein na Suiça. Presentemente faz
parte do núcleo de professores da Accademia di architecttura, Università
della Svizzera Italiana em Mendrisio. O projecto das Termas de Vals,
realizado na Suiça, em 1999, e o centro de documentação “Topografia
do Terror “ realizado em Berlim, em 1997, constituem umas das suas
principais obras.
120
Extracto II 120
119 Extractos Reflexivos | Arquitectura e Regeneração Urbana
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Título
Coordenação
Colaboração
Arquitectura e regeneração urbana
Maria de Fátima Silva Freire e Veiga, Álvaro Jaime Gomes Cidrais
Daniella Maria Vieira Alves da Cunha, Nor-Angelos Evangelos Afrendas
ISBN
-------------
Depósito Legal
-------------
Local
Lisboa
Data
2014
Colecção
ISSN
Nº
Editora
Extractos reflexivos
----1
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Fotoimpressão
Impressão e Acabamentos
Tiragem
Daniella Maria
Reprografia da Universidade Lusíada de Lisboa
250
Biblioteca Nacional de Portugal – Catalogação na Publicação
Arquitectura e regeneração urbana / coord. Fátima Silva e Álvaro Cidrais. – (Extractos reflexivos ; 1)
ISBN -------------I - VEIGA, Maria de Fátima Silva Freire e, 1963II - CIDRAIS, Álvaro Jaime Gomes, 1967CDU --------
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