HISTÓRIA E MEMÓRIA: A CONSTITUIÇÃO HISTÓRICA DA REDE MUNICIPAL DE ENSINO DE CASCAVEL (1950 - 1980)1 Valdecir Antonio Nath2 João Carlos da Silva3 Introdução Este trabalho se constituiu numa investigação preliminar, no qual procuramos discutir os elementos determinantes que desencadearam a constituição histórica da Rede Municipal de Ensino de Cascavel. Neste sentido, procuramos compreender, a partir da emancipação política do município, como se estruturou a Secretaria Municipal de Educação e a gênese da Rede de ensino e as primeiras escolas criadas entre 1950 e 1980. A partir da análise dos aspectos legais, foi possível reconstituir esta versão preliminar da história da Educação pública municipal de Cascavel, bem como elementos indispensáveis para compreendermos como se organizou o município, em relação à educação, após sua emancipação. Além de documentos que datam da década de 1970 na Secretaria Municipal de Educação, também foram importantes os dados levantados junto aos arquivos e relatórios que ainda hoje são expedidos pelo Departamento de Documentação Escolar e Estatística, pois, nestes relatórios encontramos dados importantes que auxiliaram na interpretação dos dados sobre como se desenvolveu a trajetória histórica da Rede Municipal de Ensino e como foram sendo organizadas as primeiras escolas. 1 Este artigo é parte dos estudos e pesquisas desenvolvidos na Monografia defendida no Curso de Especialização em História da educação Brasileira especialização (2008-2010). 2 Graduado em História pela Universidade do Oeste Paulista – UNOESTE, Especialista em Geografia e Meio Ambiente pela Universidade Estadual de Maringá – UEM (1996) e Especialista em História da Educação Brasileira, pela UNIOESTE, Cascavel (2010). Professor da Rede Municipal de Ensino de Cascavel há 25 anos e professor da Secretaria de Estado da Educação, disciplina de História, desde 1990. ex-Secretário Municipal de Educação de Cascavel (2003 a 2006) e ex-Vereador da Câmara Municipal de Cascavel (jan/2009 a maio/2010), suplente do PDT. 3 Doutor em Filosofia, História e Educação/FE-UNICAMP. Professor na disciplina de História da Educação, do curso de Pedagogia e do programa de Mestrado em Educação da UNIOESTE, campus de Cascavel. 1 Neste estudo, algumas fontes e arquivos foram fundamentais, pois apresentaram documentos importantes da História da Educação de Cascavel, bem como das instituições de ensino: cópias de leis municipais que começaram a ser aprovadas e implementadas no município a partir da emancipação e os arquivos da Escola Municipal José Bonifácio, localizada no Distrito de Rio do Salto e da Escola Municipal Adolival Pian. Aspectos históricos da educação no município de Cascavel Datam de 1920 as primeiras ocupações da região com a formação do povoado de Cascavel. De acordo com as fontes pesquisadas, em 1923, José Silvério de Oliveira, “Nhô Jeca”, “passou” por Cascavel numa das suas inúmeras viagens pela região indo a Foz do Iguaçu. Sua chegada na região contribuiu efetivamente para a construção e consolidação do município de Cascavel e também pela criação da primeira escola em 1932. Em 1932, ocorreu a construção da primeira igreja e consequentemente a instalação da “escolinha” no local onde estaria sendo construído o primeiro núcleo urbano do povoado denominado Cascavel. Foi neste ano que teve início o processo educacional no então vilarejo de Cascavel. Com o passar do tempo, esta instituição tomou forma e passou a se estruturar de acordo com as políticas que emanavam do governo do Estado do Paraná. A primeira escolinha de Encruzilhada, criada em 1932, é um pequeno rancho de pinho lascado, que também serve de capela religiosa, tendo entre seus primeiros professores Orozendo Cordeiro de Jesus e as irmãs Genoveva e Estanislava Boiarski (SPERANÇA; SPERANÇA, 1980, p. 118). A rapidez com que foi construída a “primitiva” escola em Cascavel deu-se especialmente em razão das características humano-culturais do grupo pioneiro. Tanto o grupo originário de Guarapuava (alguns deles comerciantes), como os descendentes de imigrantes europeus, viam na escolarização de seus filhos aspectos práticos para as relações sociais, na humanização de si próprios e de sua cultura. A escola implantada em Cascavel era tipicamente uma “escola de colonos”, como não poderia deixar de ser, sem nenhuma outra preocupação senão com a escolarização das crianças de seu grupo social, isto é, a escola deveria ensinar a ler, 2 escrever e calcular. Dessa forma, em 1932, a capela passou a ser utilizada também para a escolarização das crianças, na modalidade de “Casa Escolar”, instituída e implantada sem nenhum ato oficial (EMER, 1991). Segundo Emer (1991), nos primeiros anos a escola foi mantida pela população local. O primeiro professor, Aníbal Lopes da Silva, era pago pela população. Ele foi professor em 1932 e 1933. Em 1934, assumiu a Casa Escolar o professor Orozendo Cordeiro de Jesus. No entanto há divergências sobre esta questão, uma vez que a pesquisa realizada por Thomé (2005), quando da realização de uma entrevista com uma pessoa que estudou na primeira escola de Cascavel, evidenciou que: O primeiro professor da primeira turma de alunos da primeira escola foi o senhor Inácio Ramos, e que na primeira escolinha este foi o único professor. Aqui surge um fato novo, pois, pela primeira vez aparece o nome de um professor até então não citado. Já na escola que funiconava dentro da igreja os professores foram Orozendo Cordeiro de Jesus, juntamente com a professora Genoveva Boiarski (THOMÉ, 2005, p. 55). As divergências sobre quem teria sido o primeiro professor de Cascavel são muito claras, pois SPERANÇA & SPERANÇA (1980) atribui a Orozendo Cordeiro de Jesus; EMER (1991) a Anibal Lopes da Silva e THOMÉ (2005) evidencia a partir de uma entrevista que teria sido Inácio Ramos. Obviamente este fato requer um aprofundamento da pesquisa para que se consiga estabelecer quem, de fato, foi o primeiro professor. A professora Genoveva Boiarski assumiu a escola ainda na modalidade de Casa Escolar e permaneceu no exercício do magistério no período de 1935 até 1938, ano em que, com a criação do Distrito Administrativo de Cascavel, a Casa Escolar foi instituída mediante ato oficial e passou a ser mantida pelo poder público municipal de Foz do Iguaçu. Neste período, a Casa Escolar passou a funcionar em prédio próprio, segundo depoimentos coletados por Emer (1991), “uma casinha ao lado da Capela Nossa Senhora Aparecida”. Depois da oficialização da escola, as referências passaram a ser a Inspetoria Municipal de Ensino, a supervisão do Inspetor, os programas de ensino definidos pela Secretaria de Estado da Educação. O professor passou a ser “avaliado” pela quantidade de alunos que ele conseguia preparar para serem submetidos aos exames. Se seus alunos 3 fossem aprovados nos exames, receberiam o diploma de Escolarização Primária, um diploma que tinha um significado social importante na época. As novas condições da escola e do professor desencadearam o processo de inclusão da escolarização no “sistema” municipal e estadual de ensino. Em 1947, a escolarização e a estrutura educacional de Cascavel passou por grandes transformações. Primeiramente, a Casa Escolar foi elevada à condição de Grupo Escolar. Posteriormente, o Estado passou a manter a escola e a pagar os professores, isto é, a educação no Distrito de Cascavel foi estadualizada e, por determinação do governador do Estado, Moysés Lupion, no mesmo ano, foi construído um novo prédio para a escola. Essa transformação para a modalidade de Grupo Escolar gerou novas implicações típicas da visão de educação existente no Estado do Paraná. Nessa modalidade de escola, cada série tinha um professor regente de classe e passou a existir a função de Diretor Escolar do Grupo Escolar, conforme determinações da Secretaria de Estado da Educação, que nesse período era a mantenedora do estabelecimento de ensino. Relacionado ao Grupo Escolar, consideramos importante a citação de SOUZA, O grupo escolar fazia parte desse conjunto de melhoramentos urbanos, tornando-se denotativo do progresso de uma localidade. Ele era símbolo de modernização cultural, a morada de um dos mais caros valores urbanos – a cultura escrita. Entende-se dessa forma, por que esses estabelecimentos de ensino passaram a fazer parte dos interesses de diferentes grupos sociais e tornam-se um elemento de disputa política (1998, p. 92). A origem do atual Colégio Estadual Eleodoro Ébano Pereira está na “escolinha” de 1932 que sofreu alterações ao longo do tempo e do próprio processo colonizatório, e foi se adequando para atender à população urbana do município. O colégio permaneceu como a única instituição de ensino pública na sede do município até 1962, quando iniciaram as atividades da Escola Municipal Adolival Pian, na época denominada de Escola Municipal Frei Henrique Soares de Coimbra. Outro aspecto importante para entender o desenvolvimento educacional de Cascavel é a escola dos colonos. De acordo com Emer (1991), esta era um modelo de escola nascida do interior dos grupos ou núcleos de colonos estabelecidos no Oeste do Paraná, com as características da cultura e da visão de mundo dos colonos, uma escola primária que se antecipou ao posterior serviço público educacional, quer fosse 4 municipal, do estado ou do governo federal. Por diversas razões históricas, foi uma escola que teve “vida curta”, mas deixou suas marcas na história da população local e regional. A gênese da Rede Municipal de ensino em Cascavel Para que pudéssemos fazer uma análise mais aprofundada sobre o tema, foram analisadas as fontes levantadas junto aos arquivos escolares das primeiras instituições de ensino do município, arquivos da Secretaria Municipal de Educação, da Prefeitura Municipal e do arquivo da Câmara Municipal de Vereadores de Cascavel. Este levantamento de fontes foi realizado a partir de pesquisas junto a estes órgãos públicos, com a colaboração dos profissionais que atuam nestes setores. Juntou-se também a esta documentação, relatórios expedidos pela Secretaria Municipal de Educação, onde constam dados históricos da educação desde a emancipação do município até os dias atuais, assim como documentos que foram construídos ao longo da história da educação de Cascavel e que são importantes para esta análise. Nesta pesquisa, dois arquivos foram fundamentais, pois apresentaram documentos importantes da História da Educação de Cascavel, bem como das instituições de ensino: cópias de leis municipais que começaram a ser aprovadas e implementadas no município a partir da emancipação e os arquivos da Escola Municipal José Bonifácio, localizada no Distrito de Rio do Salto, que apresentam dados fundamentais para a interpretação da história da educação e constituição da Rede Municipal de Ensino de Cascavel, objeto central deste estudo. Também foram fundamentais para esta análise os dados encontrados nos arquivos da Escola Municipal Adolival Pian, considerada pelos registros históricos como a primeira escola urbana a ser criada pelo Município de Cascavel. O primeiro ato legal que encaminhou Cascavel para a futura emancipação político-administrativa se caracterizou pela transformação da vila com este nome em Distrito Administrativo de Foz do Iguaçu, em 1938, através do Decreto-Lei nº 7.573/38 (Anexo I), tendo como primeiro sub-prefeito, José Silvério de Oliveira, o “Nhô Jeca”. A partir do início da década de 50, a população do distrito de Cascavel iniciou a luta pela emancipação política do município em relação a Foz do Iguaçu, o que efetivamente ocorreu em 14 de novembro de 1951, num contexto de políticas administrativas mais amplas do governo do Estado, ocupado por Bento Munhoz da 5 Rocha Neto. Cascavel adquiriu a emancipação político-administrativa e passou a se constituir num município cujo território se estendia desde o Rio Iguaçu até o Rio Piquiri. A emancipação do município de Cascavel ocorreu a partir da Lei Estadual nº 790/51, e a implantação do município em 14 de dezembro de 1952, com a posse do primeiro prefeito eleito, José Neves Formighieri, quando efetivamente são implementadas as primeiras ações para a estruturação do ensino primário no município de Cascavel. O documento que dá origem legal e jurídica ao município de Cascavel é sua Ata de Instalação, onde consta o relato da posse do primeiro prefeito eleito, José Neves Formighieri, no dia 14 de dezembro de 1952, na presença do Presidente da Câmara Municipal - Dimas Pires Bastos, do Prefeito de Foz do Iguaçu - Francisco Guaraná de Meneses e do Primeiro Secretário da Assembléia Legislativa do Estado do Paraná Divonsir Borba Cortes, confirmando oficialmente a instalação do município. Nesta mesma data, também foram empossados os primeiros vereadores do município, num total de 9 eleitos. Segundo Sperança (1992), o primeiro orçamento do município de Cascavel foi elaborado no final de 1952, sendo um montante de CR$900,00 (novecentos cruzeiros) que foram utilizados para construção das primeiras instituições que passaram a constituir a Rede Municipal de Ensino de Cascavel. Este montante de recursos também foi direcionado para o pagamento dos salários dos primeiros professores que foram contratados e passaram a fazer parte do primeiro quadro do magistério público municipal de Cascavel. adaptação de um prédio para funcionamento da Prefeitura, construção de seis escolas municipais, pagamento de quinze professores e de dez funcionários (...) O primeiro Secretário de Educação foi Celso Sperança, uma espécie de Supersecretário porque acumulava todas as funções inerentes à sua Pasta, menos a Tesouraria (SPERANÇA, 1992, p. 151-153). De acordo com o autor (1992), após a eleição do primeiro prefeito de Cascavel, em 1953, o Grupo Escolar urbano foi transferido para propriedade do município de Cascavel e passou a ter denominação oficial – “Grupo Escolar de Cascavel” – tendo como primeira diretora a professora Aracy Lopes Pompeu. 6 Aspectos legais da constituição da Rede Municipal São poucos os documentos que se encontram no Poder Público Municipal e também nos arquivos sobre os primeiros anos de Cascavel, uma vez que um incêndio4 queimou as instalações da Prefeitura Municipal em 1960 e destruiu a maioria destes documentos. Analisaremos alguns documentos que foram encontrados e os aspectos legais que levaram à organização administrativa de Cascavel, principalmente no que se refere à estrutura organizacional do ensino primário. O artigo 4º da Lei 80/57 trata especificamente da questão do Magistério, do Cargo de Professor Municipal. Art. 4º – Fica alterado o Quadro do Pessoal Fixo do Ensino Primário que passará a ser o seguinte: 1 – Inspetora Municipal Padrão L; 8 – Professoras Padrão D; 8 – Professoras Padrão C. O item um, que se refere ao cargo de Inspetora Municipal, embora sendo um cargo fixo do magistério, é o cargo que deu origem, mais tarde, ao de Secretário Municipal de Educação, cargo de Confiança do Executivo Municipal. Quanto ao Padrão das professoras no item 8, não cita no texto da lei o que diferenciava uma professora Padrão D e uma professora Padrão C, o que pode estar relacionado à formação das mesmas, pois eram poucos os professores da época que possuíam a formação Normal, a maioria eram leigos. De acordo com dados da Secretaria Municipal de Educação, constam apenas três escolas que foram criadas e autorizadas a funcionar durante a década de 1950, sendo a Escola de Rio do Salto (1953), Escola Coelho Neto, em Cruz Grande (1954) e a Escola Presidente Epitácio, na Fazenda Salvatti (1955), localizadas no interior do município. Na sede urbana, o ensino estava centralizado no Colégio Estadual Eleodoro Ébano Pereira, pois a partir de toda documentação analisada, esta era a única escola de ensino público primário em funcionamento na sede urbana do município até o final da década de 1950, de propriedade do Estado do Paraná. As demais escolas que estavam em funcionamento, principalmente no interior do município, provavelmente continuavam sem reconhecimento oficial nessa 4 O ano de 1960 foi ano de eleições no município de Cascavel. Dois grupos políticos disputavam o controle político da cidade. Na noite do dia 12 de dezembro, às vésperas da posse do prefeito eleito Octacílio Mion, o prédio da prefeitura foi incendiado. O incêndio destruiu grande parte da documentação da Prefeitura Municipal e da Câmara de Vereadores, criando sérios transtornos à nova administração. 7 década, pois nos documentos analisados não encontramos dados que comprovem que as mesmas faziam parte da Rede Municipal de Ensino que começava a se estruturar. Nessa primeira década de emancipação política do município de Cascavel, período de 1950 a 1960, a economia madeireira teve grande impulso. Entraram em funcionamento grandes serrarias que exigiram mão de obra nos diversos setores do processo produtivo, fazendo com que um grande número de trabalhadores e suas famílias migrassem para Cascavel. Quanto à população, o Censo do IBGE, de 1950, apontava a existência de 4.411 habitantes no município, ao passo que em 1960 foram computados 37.346 habitantes. Evidencia-se um crescimento populacional significativo, o que exigiu do Poder Público maiores investimentos, principalmente na área educacional. Isto pode ser comprovado a partir das leis que foram aprovadas destinando mais recursos principalmente para a construção e ampliação de escolas. O quadro mostra a evolução da população do Município da década de 1950 até o ano 2000, com projeção para o ano 2010. Evolução da População – Município de Cascavel Ano Urbano Rural Total 1950 4.411 4.411 1960 5.274 34.324 39.598 1970 34.961 54.960 89.921 1980 123.698 39.761 163.459 1990 177.766 15.224 192.990 2000 228.673 16.696 245.369 2010* 300.000 300.000 Quadro 1 - Evolução da população do Município a partir da década de 1950 e projeção para o ano 2010 Fonte: Portal do Município de Cascavel. www.cascavel.pr.gov.br - Secretaria Municipal de Planejamento: Plano Diretor, Perfil Municipal 2003-20045. A década de 1960 representou um marco para o desenvolvimento da educação na região ocupada pelo município de Cascavel. Nessa década, de acordo com os relatórios emitidos pela Secretaria Municipal de Educação de Cascavel, das 255 escolas municipais que foram criadas desde a emancipação do Município de Cascavel, 94 escolas foram construídas nesta década e estavam espalhadas por toda a região que compreendia o município de Cascavel. 5 Por divergências de informações em relação à população de Cascavel, optamos por considerar os dados que constam no site da Prefeitura Municipal de Cascavel, no link Secretaria Municipal de Planejamento – Plano Diretor, Perfil 2003 – 2004, uma vez que os dados disponíveis neste portal contém como fonte de informação o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. 8 O gráfico a seguir apresenta um comparativo entre a totalidade de escolas que foram criadas no município de Cascavel desde a emancipação política, em relação ao número de escolas criadas na década de 1960. Observamos que 36% das escolas foram criadas nessa década, evidenciando a necessidade devido à demanda de alunos e crescimento populacional, produzido principalmente pelo processo de migração. Gráfico 1 – Demonstrativo de Escolas Municipais criadas desde a emancipação política do Município de Cascavel em relação ao número de Escolas criadas na década de 1950 e 1960 Das 94 escolas construídas e criadas na década de 1960, apenas 7 estão em funcionamento atualmente no município de Cascavel, sendo: Escola Adolival Pian, Bairro São Cristóvão (1962); Escola Carlos de Carvalho, Distrito de São Salvador; Escola Tereza Périco Bernardini, Distrito de Juvinópolis (1966); Escola Manoel Ludgero Pompeu, Bairro Alto Alegre; Escola Nossa Senhora da Salete, Bairro Brasmadeira; Escola José Silvério de Oliveira, Distrito de São João do Oeste (1967) e Escola José de Alencar, Distrito de Espigão Azul (1968). Através dos documentos analisados, constatamos que a década de 1960 representou um grande avanço para a educação do município, inúmeras leis foram aprovadas destinando recursos para construção e ampliação de escolas. Assim como, que a constituição da Rede Municipal de Ensino foi, de maneira muito rápida, sendo estruturada. 94 escolas foram construídas nessa década e 7 foram cessadas no mesmo período, sendo que ao final da década o município já contava então com 90 escolas municipais que estavam em funcionamento no município, sendo que dessas 85 estavam 9 localizadas no interior do município e 5 na Área Urbana: Escola Municipal Adolival Pian, Escola Municipal Nossa Senhora da Salete, Escola Municipal Manoel Ludgero Pompeu, Grupo Escolar Municipal Professora Júlia Wandeley e Casa Escolar Washington Luiz. A década de 1970 representou, no contexto educacional de Cascavel, um período de estruturação da rede de ensino como um todo. Muitas instituições que permanecem até hoje em funcionamento foram criadas e organizadas para atender às demandas educacionais desse período. Se na década de 1960 predominou a abertura de escolas no interior do município e na sede urbana, na década de 1970 encontramos elementos importantes que comprovam que a preocupação do Poder Público na área educacional estava voltada para a ampliação da oferta e também para a reorganização das instituições de ensino e da estrutura administrativa como um todo. Novas escolas foram criadas tanto no interior como na área urbana, ampliando significativamente o número de escolas mantidas pelo município. A partir dos documentos analisados, verificamos que a preocupação era dotar estas escolas de estrutura mínima de funcionamento, assim como a organização dos documentos nas respectivas instituições e distribuição de pessoal necessário para atender as atividades administrativas e pedagógicas, criando inclusive funções inerentes ao magistério, tais como: Diretor de Grupo Escolar, Inspetor de Ensino e Secretário de Grupo Escolar. Uma das primeiras leis aprovadas em 1970, a Lei nº 730/70, tratava da organização das escolas municipais no que se referia à definição do porte para conceder gratificação para as diretoras e secretárias das instituições. A referida Lei estabelecia que: Art. 1º Fica o Executivo Municipal, por força desta Lei, autorizado a conceder função gratificada para Diretoras e Secretárias de Grupos Escolares Municipais, obedecendo a tabela, independentemente de seus vencimentos mensais, a partir de 1º de março do corrente exercício. Art. 2º Para cobertura das despesas de que trata o artigo primeiro desta Lei, fica o Executivo Municipal autorizado a usar dotação orçamentária constante do Departamento de Educação e Cultura. Nem todas as instituições de ensino foram estruturadas e organizadas de acordo com as normas que hoje são necessárias para que uma instituição de ensino seja autorizada a funcionar. Devido ao crescimento populacional e necessidade de atendimento educacional, muitas instituições foram sendo criadas na cidade e no interior 10 do município de Cascavel, muitas vezes, sem critérios, pois o fundamental era dar atendimento à população no primeiro momento, depois, então, se organizava a rede. Outro documento que subsidiou este trabalho foi o Plano de Implantação das escolas municipais, de 1977, que solicitava autorização de funcionamento para 27 escolas municipais, sendo 23 localizadas na área urbana do município e 4 em Sedes de Distritos. A denominação das escolas citadas no documento foi autorizada pelo Decreto nº 0040/75, do Conselho Estadual de Educação, sendo esta a denominação das instituições até a atualidade. No que se refere à estrutura e organização da Rede Municipal de Ensino, analisamos a Lei Municipal nº 1.421/79, de 17 de abril de 1979 que dispõe sobre a reorganização do quadro de servidores do município de Cascavel, fixa a remuneração e dá outras providências. Transcrevemos a seguir o capítulo 7 que trata da Estrutura e Vencimentos do Quadro, Item A – Serviços de Educação e Cultura, conforme quadro abaixo: Quantidade de Denominação do Cargo Nível de Servidores Vencimento 200 Professores sem habilitação (um período) 01 300 Servente de escola 02 350 Professores sem habilitação (dois períodos) 03 300 Professor habilitado (um período) 03 75 Guardião de escola 03 500 Professor Habilitado (dois períodos) 05 10 Músicos 05 100 Supervisor de Escola 06 10 Inspetor auxiliar de ensino 06 100 Diretor de escola 06 100 Secretário de escola 06 04 Técnico em Educação 11 10 Supervisor de Ensino 11 04 Orientador Educacional 11 05 Professor de Educação Artística 11 01 Diretor de Museu 11 10 Instrutor de Educação Física 12 Quadro 9 – Demonstrativo do Quadro de Pessoal da Secretaria Municipal de Educação e Cultura, conforme Lei Municipal nº 1.421/79. A Lei não tratava apenas da organização do pessoal nas diversas secretarias, setores e departamentos, mas também de outras questões como: dos cargos em comissão, da promoção e acesso dos servidores efetivos, das funções gratificadas, do pessoal contratado, das diárias, das aulas suplementares dos professores e do treinamento de todo o funcionalismo público. Pelas nomenclaturas dos cargos fica transparente o 11 período a que se refere, ou seja, durante a vigência da Lei nº 5692/71, em que imperava o tecnicismo e a preocupação com uma educação profissionalizante. Conclusão A Rede Municipal de Ensino de Cascavel é resultado de todo o processo histórico de ocupação e colonização do Oeste do Paraná. Muitas das ações que foram desencadeadas no decorrer do tempo primavam pela garantia de escolarização à população, princípio apontado pelos pioneiros da década de 30 quando da construção da “igrejinha” que serviu também como escola para os filhos dos primeiros moradores do povoado de Cascavel. A preocupação na oferta de escolarização para a população que gradativamente ocupava a região fez com que, em muitas comunidades que foram se formando no interior, se constituísse a chamada escola dos colonos, que deu origem, mais tarde, às escolas rurais do município. Com a emancipação, percebemos que gradativamente as instituições foram sendo criadas, muitas ainda sob iniciativa privada, mantidas pelos colonos, aos poucos sendo absorvidas pelo Poder Público Municipal. Nesta condição identificamos a Escola de Rio do Salto, onde em 1953, constam das Atas de Exames realizados na presença do Poder Público, embora a escola tenha funcionado naquele ano sem reconhecimento oficial, o que só ocorreu em 1954. Esta foi a primeira escola pública criada e oficializada pelo município de Cascavel após a sua emancipação e estava localizada no interior do município. Está aí a gênese da História da Rede Municipal de Ensino de Cascavel, uma vez que buscamos enfatizar nesse trabalho a origem das primeiras escolas criadas após a emancipação do Município, enquanto que o atual Colégio Eleodoro Ébano Pereira teve sua história a partir de 1932 e quando foi oficializado estava sob administração do Estado do Paraná, fato pelo qual o mesmo não faz parte desta pesquisa, na dimensão que buscamos trabalhar. A escolarização da população ficou evidenciada nos documentos analisados como uma das grandes necessidades da população. Para os migrantes que estavam chegando o fator fundamental para se instalarem na região era a construção da escola e depois da capela religiosa, ou então a possibilidade de aliar as duas situações. A década de 1960 se caracterizou por um período de grandes avanços, de expansão da Rede de Ensino tanto no meio rural como na sede do município, uma vez que um número 12 significativo de escolas foram criadas e oficializadas, sendo a maioria delas na área rural do município, onde efetivamente se encontrava a maioria da população. Como fonte básica para o entendimento de como se estruturou e organizou a Rede de Ensino, recorremos ao conjunto de Leis que foram criadas e aprovadas visando assegurar a expansão da oferta de escolarização para a população. Importante ressaltar que a década de sessenta se configurou como um período de expansão, sem grandes evidências de preocupação do Poder Público em organizar as instituições, mas sim garantir a abertura de escolas de forma a atender a população. Criar os mecanismos necessários para que ocorresse a ampliação da oferta de ensino tanto na área urbana como na área rural, evidenciando-se aí a criação de 87 escolas nesta década, sendo 82 na área rural e 5 na sede do município. É fundamental destacar que na década de 1960 os documentos comprovam a existência de um Departamento de Educação e Cultura, no qual a Inspetora de Ensino era a responsável por toda estrutura e funcionamento das escolas municipais. Porém não encontramos dados que comprovem a existência de uma estrutura organizacional no comando da educação do município. A Rede Municipal de Ensino de Cascavel foi se constituindo, primeiramente, com a abertura de escolas e posteriormente com a organização e estruturação enquanto rede. Já a década de 70 caracterizou-se pelo momento em que o Poder Público Municipal, através da Secretaria Municipal de Educação, começa a organizar as escolas rurais e urbanas, definindo critérios, porte de escolas e também um quadro efetivo de professores para atuar nas instituições, inclusive dotando os grupos escolares de Direção de Grupo e Secretária. Essa década consistiu também num processo de expansão, pois o crescimento populacional foi de aproximadamente 70% em relação a 1960, sendo criadas 70 escolas rurais e 24 escolas urbanas, totalizando mais 94 instituições de ensino. Nota-se que, em função da introdução de tecnologias na lavoura, gradativamente vai se acentuando o êxodo rural e a demanda por mais escolas na zona urbana em razão do aumento da população urbana que vai se inserindo no processo de urbanização e industrialização pelo qual passava o país como um todo. Ao final da década, a maioria das instituições de ensino já estavam regularizadas, oficializadas e autorizadas a funcionar dentro dos padrões exigidos pelo Sistema Estadual de Ensino, ao qual a Rede Municipal de Ensino de Cascavel estava e está subordinada e do qual emanam as diretrizes básicas para a educação pública no Estado do Paraná. Documentos desse período demonstram a preocupação que o Poder Público Municipal passou a ter enquanto responsável pelas escolas a este jurisdicionadas. A 13 Secretaria Municipal de Educação estava inserida num processo de grande expansão e para isso precisava se organizar e estruturar para atender as necessidades educacionais que foram sendo criadas a partir desse período. Sendo também nosso objeto de pesquisa neste trabalho, a questão da existência ou não de um sistema municipal de ensino no Município de Cascavel, concluímos que está constituída a Rede Municipal de Ensino e que esta continua jurisdicionada ao Sistema Estadual de Ensino, embora com um grau significativo de autonomia, objeto de discussão, estudo e aprofundamento. Teve início em 2003 e durante o ano de 2004 um estudo objetivando apresentar uma minuta da Constituição do Sistema Municipal de Ensino de Cascavel, no entanto, por questões políticas, este projeto não chegou até a Câmara de Vereadores. As discussões podem ser retomadas e efetivamente pode-se constituir o sistema de ensino a partir daquela proposta. Nosso objetivo principal era iniciar um estudo preliminar para compreendermos como se organizou a educação pública municipal em Cascavel, como se constituiu esta rede de ensino. Entretanto, ainda restam muitas dúvidas e lacunas, as quais pretendemos ir sanando com futuras pesquisas que temos a intenção de realizar. Muitos dados e elementos importantes foram levantados e evidenciam a necessidade de que esta pesquisa seja aprofundada, tendo em vista uma melhor compreensão deste objeto de estudo. Por ora, consideramos ter iniciado uma investigação que deve ser objeto de novas conquistas, descobertas e, principalmente de um grande desafio para compreendermos melhor nossa história e a história da educação de nossa região. Arquivos consultados Arquivos de Leis da Câmara Municipal de Cascavel. Arquivos da Secretaria Municipal de Educação de Cascavel. Arquivos escolares da Escola Municipal José Bonifácio. Arquivos escolares da Escola Municipal Adolival Pian. Referências BELTRAME, Odette L., NATH, Valdecir A. Conhecendo Cascavel: História e Geografia. Cascavel: Assoeste, 2004. BRASIL. Ministério da Educação. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 9394/96. Brasília: MEC, 1996. BRASIL. Ministério da Educação. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 5692/71. Diário Oficial da União, 12 de agosto de 1971. Brasília/DF. 14 CASCAVEL. Lei Orgânica Municipal. Cascavel: Tuicial, 1990. CASCAVEL. Secretaria Municipal de Educação. Plano Municipal de Educação 2004 – 2014. Cascavel: Assoeste, 2004. CASCAVEL. Ata de Instalação do Município de Cascavel. 14.12.1952. CASCAVEL. Lei Municipal nº 80, de 16 de setembro de 1957. Fixa subsídios para o Chefe do Executivo Municipal e altera o Quadro do Pessoal Fixo do Ensino Primário. CASCAVEL. Lei Municipal nº 730/70. Autoriza pagamento de função gratificada para diretoras e secretárias de grupos escolares municipais e dá outras providências. CASCAVEL. Lei Municipal nº 1.421/79. Dispõe sobre a reorganização do quadro de servidores do município de Cascavel, fixa a remuneração e dá outras providências. CASCAVEL. Secretaria Municipal de Educação. Realimentação do Plano de Implantação das Escolas Municipais de Cascavel da Zona Urbana e Implantação das Escolas das Sedes de Distritos. 1977. EMER, Ivo Oss. Desenvolvimento histórico do oeste do Paraná e a construção da Escola. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1991. SAVIANI, Dermeval. Educação Brasileira: Estrutura e Sistema. São Paulo, Campinas: Autores Associados, 2005. _______________. Sistema nacional de educação: conceito, papel histórico e obstáculos para sua construção no Brasil. São Paulo: UNICAMP, 2008. SOUZA, Rosa Fátima de. Templos de civilização: a implantação da escola primária graduada no Estado de São Paulo: (1890-1910). São Paulo: FUNESP, 1998, (Prismas). SPERANÇA, Alceu. Cascavel: a história. Curitiba: Lagarto, 1992. SPERANÇA, Alceu; SPERANÇA, Carlos. Pequena História de Cascavel e do Oeste. Cascavel: J. S. Impressora Ltda, 1980. THOMÉ, Sérgio A. A primeira escola primária em Cascavel. Cascavel: Unioeste, 2005. 15