1 O CUIDADO CULTURAL DE ENFERMAGEM: AS CRIANES E SEUS FAMILIARES Aline Leitemperger Bertazzo1 Silvana de Oliveira Silva2 Marciele Moreira da Silva3 RESUMO O cuidado integral de promoção à saúde deve levar em conta a existência de diversas situações de saúde-doença que implicam no cuidado à família, destacando, neste trabalho, o desafio dos profissionais de saúde, no que se refere à assistência e o cuidado as CRIANES¹. Assim, com base a Teoria da Diversidade e Universalidade do Cuidado Transcultural de Leininger, a prática assistencial objetivou implantar o cuidado transcultural de enfermagem junto ao familiar/cuidador das CRIANES, residentes na área de abrangência da ESF Monsenhor Assis, a fim de proporcionar uma assistência que respeite a universalidade e diversidade do cuidado das famílias. Para tanto, a visita domiciliária foi adotada como instrumento à promoção do vínculo com a família e reconhecimento das características culturais envolvidas no processo de cuidado. Diante disso, foi possível prever ações contínuas de promoção, proteção e recuperação da saúde de forma integral as CRIANES e familiares. PALAVRAS-CHAVE: CRIANES. Cuidado Cultural. Visita Domiciliária. Enfermagem. INTRODUÇÃO O cuidado integral de promoção à saúde deve levar em conta a existência de diversas situações de saúde-doença que implicam no cuidado à família, destacando, neste trabalho, o desafio dos profissionais de saúde, no que se refere à assistência e o cuidado as CRIANES1. Sob essa lógica, sabe-se que a saúde dos indivíduos possui uma estreita ligação com as crenças, valores, relações, deveres e direitos do sistema familiar, pois a cultura, a estrutura social e o ambiente físico influenciam a forma como os indivíduos percebem e vivenciam o processo estar saudável/estar doente e as suas necessidades de cuidados, e isto, por sua vez, determina a forma como as famílias cuidam de seus membros 2;3. Com isso, a enfermagem precisa estar aberta para o novo, para a desconstrução e construção permanente dos cuidados assistenciais necessários às CRIANES. Nesse ínterim, a Teoria da Diversidade e Universalidade do Cuidado Cultural de Leininger 4;5 1 Enfermeira graduada pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões URI Campus de Santiago/RS; [email protected]. 2 Enfermeira; Mestranda em Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Maria - UFSM/RS; Coordenadora do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões URI Campus de Santiago/RS; [email protected] 3 Enfermeira; Pós-graduanda em Saúde Coletiva: ênfase em saúde da família; Docente na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões URI Campus de Santiago/RS; [email protected] 2 apresenta-se como uma oportunidade de prover um cuidado congruente e eficaz a essa parcela da população e seus familiares. Nesse cenário, a família deve ser entendida a partir do seu ambiente, pois este é o espaço onde vive, trabalha e relaciona-se, desse modo, a enfermagem deve estar engajada para uma atenção voltada à humanização, adotando soluções simples e criativas, que se traduzem em um atendimento acolhedor, digno e solidário, mantendo sempre a qualidade da assistência. Frente ao exposto, a prática assistencial objetivou implantar o cuidado transcultural de enfermagem junto ao familiar/cuidador das CRIANES, residentes na área de abrangência da ESF Monsenhor Assis, a fim de proporcionar uma assistência que respeite a universalidade e diversidade do cuidado das famílias. Justifica-se o interesse de trabalhar com as famílias das CRIANES, por considerar fator determinante para o processo de integração das crianças na sociedade, além disso, acredito que este seja um tema pouco discutido nos espaços acadêmicos, bem como dos serviços de saúde, o que instigou, ainda mais, meu interesse pela temática. Nesse sentido, acredita-se que família é uma construção social que varia segundo épocas, permanecendo, no entanto, aquilo que se chama de sentimento de família, que se forma a partir de um emaranhado de emoções e ações pessoais, familiares e culturais, compondo o universo do mundo familiar. O universo do mundo familiar é único para cada família, mas influi na sociedade e nas interações com o meio social onde vivem6. METODOLOGIA A visita domiciliária foi adotada como instrumento à promoção do vínculo com a família e reconhecimento das características culturais envolvidas no processo de cuidado. Durante as VD, foi possível observar que o contexto familiar dos cuidadores das CRIANES está permeado por condições psicossociais e econômicas precárias. Esta situação trouxe angústia, ao perceber o quanto é complexo desenvolver ações congruentes com a realidade. A fim de obter ações de cuidado condizentes e pertinentes a cada CRIANES, foram realizadas três VD para cada família participante da prática. No decorrer das VD, foi observada a maneira que a família cuida da CRIANES, o local onde a família sobrevive e as condições de saúde e de moradia. Dessa forma o cuidado transcultural de enfermagem junto ao familiar/cuidador das CRIANES proporciona uma assistência que respeite a universalidade e diversidade no cuidado as famílias. RESULTADOS E DISCUSSÕES As visitas domiciliares, com enfoque no cuidado cultural às famílias das crianças com necessidades especiais de saúde, permitiram compreender o quão relevante é o profissional estar inserido no contexto familiar em que a criança encontra-se, pois possibilita o desenvolvimento de ações condizentes com esta realidade e, ainda, permite que o familiar/cuidador perceba-se enquanto responsável pelo processo de saúde/doença da criança, o que favorece ainda mais o interesse em proporcionar um cuidado holístico, priorizando uma qualidade de vida digna e cidadã aos seus membros. A experiência de vivenciar o processo saúde-doença de uma CRIANES na perspectiva familiar proporcionou a percepção das diversas formas de cuidar, permeadas pelas diversidades culturais das famílias assistidas. Confirmando-se, dessa forma, ser o cuidado a sustentação ao trabalho do enfermeiro e sua essência, um ato humano7. Cuidar de uma CRIANES envolve aspectos emocionais, decorrentes da descoberta, da 3 reorganização familiar em torno do problema, mas, sobretudo, questões de educação em saúde, na medida em que os esclarecimentos sobre o quê, onde, como e por que serão feitos, uma vez que favorecem a aceitação e facilitam a tomada de decisões. A desinformação ou a falta de compreensão em relação à doença do filho e a incerteza da cura apontam para o valor da educação em saúde e da aproximação cultural entre profissionais e pacientes para permear a comunicação. Isso posto, acredita-se ser importante uma reflexão sobre o modo como as informações são recebidas e interpretadas pela família da CRIANES, tendo em vista que, muitas patologias demandam cuidados contínuos, envolvem nomenclaturas complexas, de difícil compreensão, procedimentos invasivos que levam a risco de morte e a comunicação estabelecida entre profissionais e familiares, podendo gerar angústia e ansiedade. CONCLUSÃO Nesse ínterim, a VD é de extrema relevância para a enfermagem, pois possibilita conhecer a família e sua cultura, em seu sentido mais amplo e real. As experiências que vivenciei, ao longo da minha prática, permitiram-me, além de desenvolver competências inerentes ao trabalho do profissional enfermeiro, conhecer diferentes contextos e especificidades de cada família e das CRIANES. É notório o quanto este trabalho contribuiu para a vida pessoal e profissional, pois, cuidar dos familiares de CRIANES no domicílio, foi um grande desafio e, ao mesmo tempo, algo fascinante, já que essa clientela demanda cuidados contínuos de saúde e de natureza complexa. Dentro desse contexto, a Enfermagem é caracterizada como uma arte pelo fato de cuidar e, por isso, precisa procurar sua própria maneira de ser e fazer. Contudo, isso somente será possível se os profissionais de saúde se dispuserem a buscar formas diversas de cuidado, com enfoque na cultura e na forma de cuidar de cada indivíduo. Se a enfermagem é uma arte, tem na arte essa possibilidade de criatividade, isto é, de criar a forma de cuidar dentro da especificidade de cada ser humano, dispondo de saberes e práticas condizentes com as mais diversas realidades7. Vale ressaltar que, as CRIANES fazem parte de uma nova realidade e, com isso, a equipe de enfermagem deve estar apta, qualificada e preparada para atender as demandas de cuidados e auxiliar os familiares para a implementação de cuidados no domicílio. Reitera-se, portanto, a necessidade de incorporar ao ensino de enfermagem discussões acerca do conhecimento das CRIANES no Brasil, pois, assim, a clientela poderá ser assistida por profissionais, cada vez mais, aptos e capacitados, resultando em um cuidado com maior qualidade para esse grupo de crianças. Sendo assim, ressalta-se a Educação Permanente em Saúde, como uma política de governo necessária para a viabilização dessas questões, pois propicia, aos profissionais do serviço, a aprendizagem reflexiva de novos conhecimentos, conceitos e atitudes, tendo como consequência, profissionais mais críticos e envolvidos com a comunidade em que atuam, capacitados para transformar a realidade e conscientes de sua função de educador em saúde. 4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS . 1. VERNIER-NEVES ETN. O empoderamento de cuidadores de crianças com necessidades especiais de saúde: interfaces com o cuidado de enfermagem (tese). Rio de Janeiro: Escola de Enfermagem Anna Nery/UFRJ: 2007. 2. ELSEN I. Desafios da enfermagem no cuidado de famílias. In: ELSEN, I. (Org.) Marcos para a prática de enfermagem com famílias. Florianópolis: UFSC, 1994. p. 61-77. 3. MARCON SS et al. Compartilhando a situação de doença: o cotidiano de famílias de pacientes crônicos. In: ELSEN, I. et al (Org). O viver em família e sua interface com a saúde e a doença. Maringá : Eduem, 2002. cap. 4, p.311-336. 4. LEININGER M. Culture Care Diversity and Universality: A Theory of nursing. New York: National League for Nursing, 1991. 5. _________. Transcultural Nursing: concepts, theories, research & practices. 2.ed. [S.I.]: McGraw-Hill, 1995. 6. GOMES MA; PEREIRA MLD. Família em situação de vulnerabilidade social: uma questão de políticas públicas. Ciência e Saúde Coletiva 2005; 10(2):357-63. 7. BARUFFI LM. O cuidado cultural à mulher na gestação. Passo Fundo: UPF, 2004