DIA DOS PAIS: CUIDADO COM BASE EM TRADIÇÕES INVENTADAS Sabe-se até o momento que, a primeira homenagem ao pai foi registrada, na Babilônia, há 4 mil anos por um jovem que teria feito um cartão para seu pai, modelado em argila, desejando ao seu progenitor saúde e sorte, ato na qual acredita-se ter consagrado como o primeiro registro de homenagem aos pais na história da humanidade (PORTAL G1, 2014). Outra possível versão de origem da data se deu nos Estados Unidos da América, onde o dia dos pais foi comemorado, a princípio, em 19 de Junho de 1910, quando a filha de William Smart, membro da artilharia First Light Arkansas lutou, em 1862, na Batalha de Pea Ridge, durante a Guerra Civil, quando homenageou seu pai por ter criado seus seis filhos sozinho, em virtude do falecimento da sua esposa no parto do último. Este fato credenciou-se a data, e se espalhou pelo mundo. Em 1966, o terceiro domingo de junho foi designado, oficialmente, como Dia dos Pais no país e, em 1972, se tornou feriado nacional. Atualmente, ele é comemorado em 70 nações no terceiro domingo de junho (PORTAL G1, 2014). Por outro lado, em países de maior tradição católica, como Portugal e Espanha, este dia é comemorado em 19 de março, dia de São José, marido de Maria, mãe de Jesus (PORTAL G1, 2014). Mediante ao exposto, acredita-se na possibilidade de o dia dos pais se tratar da expressão aplicada por alguns historiadores, denominado tradição inventada entendida como “processo de formalização e ritualização, caracterizado por referir-se ao passado, mesmo que apenas pela imposição da repetição” (HOBSBAWM E RANGER, 1974, 12 p.). Infere-se que essa tradição foi necessária para dar visibilidade ao progenitor nas suas relações de cuidado, utilizando-se como estratégia dar-lhe um dia de comemoração para assemelhar-se a figura feminina, entendida como a principal responsável pelo cuidado em família. No Brasil, com o propósito de fortalecer os laços familiares, o publicitário Sylvio Bhering, na ocasião diretor de O GLOBO e da rádio Globo, em 14 de Agosto de 1953, instituiu o dia dos pais no pais, na mesma data em que se comemorava o dia de São Joaquim, pai de Maria, considerado o patriarca da família. A iniciativa foi de sucesso, tanto que no segundo ano, não apenas o Rio de Janeiro comemorava a data, bem como boa parte do Brasil. Esse fato a luz de Pierre Bourdieu (1998) pode ser entendido como a formação do capital social, pois consiste de recursos baseados em contatos e participação em grupos, como também simbólicos, em virtude do prestígio ou boa reputação que um indivíduo possui na sociedade, nesse caso a figura paterna. Nos anos posteriores, em analogia ao dia das mães, a celebração passou a ser no segundo domingo de agosto (O GLOBO, 2014). Vale destacar, em alguns anos, no Brasil, o segundo domingo de agosto ocorre no dia 13, coincidindo com o dia de padecimento de Florence Nightingale (NASCIMENTO, 2013, p. 130) figura que se remete ao cuidado de enfermagem devido sua trajetória de vida, podendo ter sido a data utilizada mais uma vez como forma de dar visibilidade ao cuidado masculino por meio da aproximação entre os gêneros masculinos e femininos através de uma data. Nessa perspectiva, a existência do cuidado masculino, remete ao entendimento do cuidado como resultado de uma teoria moral completa masculina e feminina defendida por Carol Gilligan. Para a feminista e psicóloga há a existência de dois modos de conceber a moralidade, um feminino e outro masculino, e ela traz o feminino de tal forma que esse não seja considerado inferior ou caia no esquecimento. Gillian aponta para a existência de duas vozes da moralidade complementando-se, e essa complementariedade das vozes masculinas, baseada em regras e princípios, e a feminina, em responsabilidade, supera a incompletude da ética do cuidado que sugere sempre favorecer aqueles em que o agente do cuidado possui uma proximidade (KUHNEN, 2010, 158-164 p.) Contudo na atualidade, a família é tida por pessoas que são unidas afetivamente, e que a ótica do cuidado é aquele de proximidade, afeto, apreendido no decorrer da vida distanciando-se da complementariedade das vozes morais. No que tangue ao gênero, a mulher é estimulada a dar seguimento aos “instintos maternos”, cabendo ao homem à responsabilidade financeira com a prole e o lar (LYRA, MEDRADO, LOPES, 2007). Quanto à paternidade no cuidado, percebe-se que esta é influenciada por fatores culturais, que implica na iniquidade entre os gêneros, e na forma como meninos e meninas são preparados para exercerem suas atribuições futuras, considerando os papeis sociais atribuídos a homens e mulheres na sociedade. Em levantamento bibliográfico, Nunes e Borsa (2011), perceberam que embora haja crescente interesse em estudar a paternidade, o número de estudos sobre mães/maternidade são três vezes maior do que pais/paternidade, o que reforça a ideia social de que o cuidado possa ser predominantemente materno e não sob a ótica do complemento da moralidade entre os gêneros. Não obstante, a criação de data comemorativa ao pai, como uma tradição inventada, permitiu visibilidade a este, possibilitando problematizações quanto ao seu papel social, culminando reflexões inclusive sobre a participação do homem no cuidado, exemplo disso é o conceito de cuidado de proposto por Carol Gilligan (KUHNEN, 2010, 158-164 p.); como também a forma em que meninos e meninas são educados, como os profissionais de saúde e educação se inserem neste contexto. Oportuniza-se assim ser fundamental a participação dos homens nesse processo do seu envolvimento no cuidado, como também no investimento em pesquisas que problematizam a paternidade e o cuidado visto que: “Precisamos construir uma sociedade mais justa no que se refere à sexualidade, à saúde reprodutiva, paternidade e às relações de cuidado, e para isso, é fundamental a participação dos homens” (LYRA, MEDRADO; SILVA, 2007, p.5). REFERÊNCIAS PORTAL G1. Saiba como o dia dos pais é comemorado pelo mundo. [Acesso em: 06 fev 2014]. Disponível em: http://g1.globo.com/dia-dos-pais/2013/noticia/2013/08/saibacomo-o-dia-dos-pais-e-comemorado-pelo-mundo.html O GLOBO. Dia dos pais. [Acesso em 06 fev 2014]. Disponível http://memoria.oglobo.globo.com/institucional/promocoes/dia-dos-pais-9260840. em: HOBSBAWM E, RANGER T (orgs.). A invenção das tradições. – Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1984. LYRA J, MEDRADO B, LOPES F. Homens também cuidam! Diálogos sobre direitos, saúde sexual e reprodutiva, paternidade e relações de cuidado. /Fundo de população das Nações Unidas(UNFPA) e Instituto PAPAI. Recife: UNFPA; Instituto PAPAI, 2007. [Acesso em 08 jul 2014.] Disponível em: http://www.unfpa.org.br/Arquivos/homenstambemcuidam.pdf BORSA J C, NUNES M L T. Aspectos psicossociais da parentalidade: O papel de homens e mulheres na família nuclear.Psicol.Argum.2011. jan./mar., 29(64),31-39. [Acesso em: 08 jul 2014]. Disponível em: http://www2.pucpr.br/reol/index.php/PA?dd1=4524&dd99=view BOURDIEU P. A Economia das trocas linguísticas – o que falar quer dizer. São Paulo (SP): EDUSC, 1998. NASCIMENTO S A. O dia da enfermeira nas páginas da Revista da Semana (1929-1930): Anna Nery e os lucros simbólicos. Dissertação [Mestrado em Enfermagem]. Escola de Enfermagem Alfredo Pinto/Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2013. KUHNEN T A. A Ética do cuidado como alternativa à ética de princípios: divergências entre Carol Gilligan e Nel Noddigns. Ethic@ - Revista Internacional de filosofia da moral, Florianópolis, v. 9, n. 4, p. 155-168, set. 2010. [Acesso em 17 jul 2014]. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ethic/article/view/1677-2954.2010v9n3p155. Autores: Maria Beatriz de Assis Veiga Alyne Corrêa de Freitas Mestranda do Programa de Pós Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Simone Aguiar Mestre em Enfermagem pelo Programa de Pós-Graduação – Mestrado em Enfermagem, da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto/UNIRIO. Fiscal do Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro. Membro dos grupos de pesquisa LAPHE e LACENF e LACUIDEN Nayara Araujo de Souza Discente da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto. Bolsista PIBIC/CNPQ. Fernando Porto Dr. em Enfermagem com pós-doutoramento pela USP. Docente da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto da UNIRIO. Bolsista FAPERJ. Graduando em História do Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro da Universidade Candido Mendes. Vice-presidente da ABRADHENF. Membro dos grupos de pesquisa LAPHE, LACENF, LAESHE e LACUIDEN, como líder. Adriana Lemos Professora Adjunto do Departamento de Enfermagem de Saúde Pública da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto da UNIRIO Doutora em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Como citar este post (Vancouver adaptado): VEIGA M B A, AGUIAR, S, FREITAS A C, SOUZA N A, PORTO F, LEMOS A. DIA DOS PAIS: CUIDADO COM BASE EM TRADIÇÕES INVENTADAS [internet]. Rio de Janeiro (Br); 2014 [Acesso em: dia mês (abreviado) ano]. Disponível em: http://www.lacenf.com.br [completar com os dados da página].