EDU O. – Coreógrafo e dançarino
Coreógrafo, dançarino e pesquisador. É integrante do Grupo X de Improvisação em
dança. Desenvolveu projetos como o solo Judite que chorar, mas não consegue;Odete
traga meus mortos; Ah, se eu fosse Marilyn e O Corpo Perturbador. Pesquisa políticas
culturais no Brasil e a dança inclusiva.
1. Quem é Eduardo Oliveira, Edu O.?
Eduardo Oliveira gosta de ser chamado de Edu O., é dançarino, coreógrafo, pesquisador da
dança e do corpo. Na verdade não gosto de me classificar, me penso como artista. Sou
formado em Artes Plásticas pela UFBA, com especialização em arteterapia pela UCSAL.
Escrevo poesia, contos, já escrevi um livro infantil, minha cabeça pensa de forma ampla e
abrangente, mas profissionalmente trabalho como coreógrafo e dançarino. Trago comigo toda
uma história que vem de muito antes, que começa a partir de Santo Amaro e de minhas
vivências durante a infância nesta cidade, com a família e os amigos, depois veio Salvador e
hoje viajo bastante.
2. O que você entende como cultura?
É uma palavra que significa para mim algo muito grande, eu não dou conta de abraçar uma
explicação, pois não consigo ver as fronteiras. Mas cultura, para mim, é produzida por e para
uma fusão das comunidades, são suas manifestações, desejos, riquezas humanas e materiais.
3. Conte-nos um pouco sobre sua trajetória como dançarino, artista plástico e arte
terapeuta?
Eu vim de Santo Amaro para Salvador em 1995, para estudar na Escola de Belas Artes da
UFBA. Ainda em Santo Amaro já sabia que seria artista, e queria trabalhar com o corpo, mas lá
não tinha teatro, nem cinema, como ainda não tem, então era difícil. A única referência que
todo mundo tinha era a televisão, mas como a dança também não é vista na televisão, ela
representava um universo completamente diferente para mim, que eu não conhecia. Tinha
vontade de fazer teatro, influenciado pela arte de interpretar que eu via pela TV, mas isso
também me deixava inquieto, pois na TV eu também não me via, meu corpo deficiente não era
representado, isso há mais de 20 anos. Hoje, mesmo com algumas mudanças, nós ainda não
temos nenhuma representação na mídia. Eu fui para Artes Plásticas porque era o único
caminho que eu tinha para demonstrar e fazer minha arte, me colocar no mundo através da
arte, arte para mim é isso, tanto a dança quanto as artes plásticas eram e são uma forma de
me expressar e de me comunicar mais facilmente com o mundo. Em 1998, na Escola de Belas
Artes, aproveitando uma matéria eletiva em teatro, conheci uma dançarina que trabalhava num
grupo da Paraíba e que se encontrava em Salvador fazendo uma pesquisa de dança com
deficiência, me convidaram e entrei no grupo Sobre Rodas. Em 1999 entrei no Grupo X de
Improvisação de Dança, onde estou até hoje, dirigido pela professora da Escola de Dança Fafá
Dauto. Minha trajetória na dança iniciou a partir daí. A pesquisa realizada pelo Grupo X
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chamou minha atenção porque não era um grupo voltado para a deficiência, pesquisavam
sobre a improvisação em cena e o corpo, me interessava a forma como eles trabalhavam a
dança, produzindo uma dança que tinha a ver com o que eu queria. Comecei participando das
oficinas abertas e hoje assumo as funções de diretor artístico e de dançarino com vários
projetos no Grupo X, de apresentação, montagem de espetáculos e também de intercâmbio,
desde 2004, com um grupo francês. Em meio a isso tudo, tive vontade de falar de coisas que
eram minhas, daí criei o espetáculo solo Judite que chorar, mas não consegue, e fui
desenvolvendo um trabalho mais autoral, com ainda outros três projetos: Odete traga meus
mortos; Ah, se eu fosse Marilyn e O Corpo Perturbador. Atualmente estou no Candoco Dance
Company, um grupo de Londres, com a montagem de três espetáculos entre 2010 e setembro
de 2012 e um projeto para as Olimpíadas Culturais.
4. Qual o papel da dança na contemporaneidade e qual a perspectiva para a dança na
Bahia?
A dança contribui com a possibilidade de questionamento da diversidade e com a reflexão
sobre o corpo. Na contemporaneidade existe essa consciência, um reconhecimento a
importância da diversidade. A dança pode contribuir com essa visão que se tem da
complexidade do corpo, de como o corpo está implicado com o ambiente, corpo como mídia de
si mesmo e de suas histórias. O ambiente nos faz, e nós fazemos o ambiente, é uma troca.
Entretanto, a dança contemporânea não tem conseguido atingir um público grande. A questão
é como atingir o público e possibilitar que ele entenda o que se está apresentando, há uma
maneira de ver a arte muito tradicional, muito clássica, do figurativo, de compreender aquilo,
até em artes plásticas temos muito problema com isso, com tudo que é abstrato. O público em
geral tem uma dificuldade em entender essa abstração, vem de nossa cultura tudo ter que vir
mastigado, na TV ou na música, sempre há a necessidade de explicações sobre o que se está
falando. A dança vem para borrar isso, acho que é uma contribuição que podemos dar. Fico
feliz em fazer parte deste movimento de dança que existe na Bahia, e com minhas viagens
posso observar que se produz aqui uma dança que realmente dialoga muito com a questão da
contemporaneidade. As produções daqui são riquíssimas em termos de pesquisa, conceito,
estética, significados e símbolos. O fomento à dança tem melhorado bastante, no governo
nesses últimos tempos, tem sido feito por pessoas que conhecem e entendem dança, isso é
importante. Pessoas que sabem as necessidades, os problemas, as demandas que nós temos
em uma produção, uma pesquisa. Isso é muito importante, mas ainda é pouco, agora mesmo
estava observando os editais e notei que os recursos para dança estão menores do que em
teatro, não entendo. Entendo ter mais recursos para o audiovisual, por causa da questão
técnica, a literatura pode ter menos, pois a produção de um livro pode teoricamente custar
menos. Agora em dança e teatro a produção é semelhante. A dança é vista como a prima
pobre das artes.
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5. Você tem uma carreira internacional, fale um pouco também sobre a situação dos
dançarinos cadeirantes, no que se refere ao mercado e às políticas para este segmento.
Em relação às políticas estou começando a estudar agora, estou fazendo mestrado na Escola
de dança da UFBA, e minha pesquisa é justamente sobre as políticas culturais no Brasil e a
chamada dança inclusiva que é feita por pessoas com e sem deficiência. Questiono esse
nome, que foi criado há dez anos por Henrique Amuedo. Em sua tese ele trouxe essa
nomenclatura, dança inclusiva, como uma forma de organizar o pensamento, para as pessoas
saberem do que ele estava falando na dança. Esses tipos de nomenclatura fecham o
entendimento, e com a dança inclusiva não foi diferente. Tem que se repensar o que é
inclusivo, se não exclui mais do que inclui. As políticas públicas também partem deste princípio,
do assistencialismo, deste conceito de inclusão que é equivocado, porque o direito é para
todos, independe da especificidade física. Em 2008 participei de um congresso que o Ministério
da Cultura (MinC) promoveu no Rio de Janeiro para discutir diretrizes para as políticas públicas
e a inclusão na área cultural, participei ativamente e vejo que se não participarmos nenhuma
pessoa que pensa política pública pensará efetivamente nesta questão da acessibilidade. Na
verdade, já existem leis de acessibilidade plena dos espaços culturais, com legendagem, libras,
audiodescrição, etc. Acontece que o próprio governo não cumpre. Aqui na Bahia, por exemplo,
não existe um centro cultural que seja gerido pelo governo que tenha acessibilidade, as
políticas ficam no falar e, na hora de efetivá-las, ainda são muito pobres. Não sou a favor de
cotas, editais específicos, como artista me sinto livre para participar de qualquer coisa,
qualquer edital, qualquer proposta de financiamento e não é porque eu sou deficiente que eu
tenho que me enquadrar em determinada coisa como uma migalhinha. O MinC fez agora um
edital para o Prêmio Albertina Brasil que oferece 12 mil para projetos de arte inclusiva e nos
fecha nesse nicho. Todos os questionamentos do edital eram relacionados à deficiência, tinha
inclusive que mandar um laudo médico para comprovar a deficiência. São equívocos de
entendimento que vem do que é inclusão, do que é acessibilidade, do que é essa arte que é
produzida. Existem pessoas que ganham dinheiro com isso, muitas querem manter isso, as
empresas gostam disso, dessa ideia de superação, desse discurso piegas e perigoso que é
assistencialista, como raramente os deficientes que ganham dinheiro, então é óbvio que essa
situação irá perdurar, porque é o poder do dinheiro...
6. Como foi o processo de concepção e produção do projeto O Corpo Perturbador e que
outro você destacaria?
O Corpo Perturbador é o meu penúltimo projeto, realizei-o em 2010, mas na verdade ele já
vinha sendo pensado há uns três ou quatro anos. O projeto surge de uma necessidade que tive
de jogar bola sobre a questão da sexualidade no corpo com deficiência. O Corpo Perturbador é
o primeiro trabalho que faço com o tema da deficiência e com esse viés da sexualidade, tem
um pouco do olhar do devotee, da pessoa que tem fetiche pela deficiência. O devoteísmo é o
fetiche pela deficiência, o que atrai é justamente a perna fina, a escoliose, o coto amputado, a
muleta, a cadeira de rodas, etc. Isso me estimulou muito, porque nós somos considerados,
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normalmente, como assexuados, como pessoas sem desejos, não sendo objeto e nem sujeito
do desejo. Quando eu descobri isso do devotee eu achei fascinante, pois vai na contramão do
que o padrão determina sexualmente, essas pessoas desejam justamente o que o padrão
recusa. A partir daí eu comecei a pesquisar na internet, mas a literatura sobre esse assunto é
muito rara, não existem textos, tive que ir a salas de bate-papo, conversar com alguns
devotees, com deficientes. Fui trazendo também as questões políticas que eles iam vivendo, a
dominação, o mote religioso da culpa e do pecado em relação ao sexo, as relações sociais de
afetividade, fui construindo o corpo perturbado, pensando nesses três eixos: a questão política,
religiosa e social. O que era um solo se transformou num dueto, por que eu raramente trabalho
com pessoas com deficiência, no meu grupo não existe nenhum, e eu precisava ver o meu
corpo, me dirigir, a partir de um olhar externo, daí encontrei Meia-Lua, um rapaz que faz
capoeira, luta jiu-jitsu e que tem um corpo muito semelhante ao meu, a união entre sua força e
meu movimento mais delicado foi muito importante para o trabalho. A concepção mudou
totalmente quando o cenário entrou, uma trama de canos de PVC, começamos a trabalhar em
cima do cenário, a questão do movimento foi trabalhada junto com o cenário, o figurino e a
música ao vivo, feita por Cássio Nobre. É um trabalho que vejo como muito contemporâneo em
termos do que discute, a configuração que tem, fiquei muito feliz com o resultado dele. Outro
projeto que eu destacaria é o Judite quer chorar, mas não consegue porque foi o meu primeiro
solo, fala da questão do medo, da solidão humana, da recusa, da resistência às
transformações que são inerentes e inevitáveis em nosso amadurecimento e crescimento. Fala
da lagarta, da sua metamorfose, e ela não quer virar borboleta. Judite foi criado em 2006 e até
hoje está na ativa, é o trabalho que ganhou mais prêmios e teve desdobramentos importantes,
virou livro infantil, música, poesia, desenho. É incrível como as pessoas respondem a ele, é
sem dúvida meu projeto mais relevante neste sentido, já foi visto por mais de 10 mil pessoas,
participou de festivais importantes.
7. Qual a importância da manutenção dos grupos e da circulação de espetáculos de
dança?
A manutenção dos grupos e a circulação de espetáculos de dança são dois fatores
complicados. O governo ainda não conseguiu encontrar um formato ideal para que a
manutenção seja efetiva. Para manter um grupo durante um ano, com uma determinada verba,
com as exigências que se tem de prestação de contas, é extremamente difícil. Tem verba para
aquele ano, e no próximo como será? Como estes grupos irão se manter? As empresas não
têm interesse, vivemos nessa cultura do Axé, do carnaval, nessa cultura da alegria. A arte é
mais reflexiva, mas se você é mais conceitual, tem maior preocupação com a parte estética, as
empresas não se interessam. Tem que começar a pensar de que forma pode-se articular o
Estado, o poder privado e os artistas para que o trabalho tenha continuidade. A circulação é
fundamental, porque é quando se atinge um público diverso. A experiência que tive em
Lençóis, Itaberaba, Santo Amaro, foi maravilhosa. Chegamos nesses lugares e pensamos que
as pessoas teriam dificuldade de acesso, vimos que é o contrário, que eles conseguem
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entender, têm uma sensibilidade muito grande, me interessa circular neste sentido de entrar
em contato com outras comunidades, isso vai alimentar o meu trabalho, é uma experiência de
troca.
8. Como você avalia as políticas culturais na Bahia?
Ainda se tem muito que avançar, penso que é um exercício, o edital é só um mecanismo de
fomento e as políticas públicas daqui são baseadas em editais, funcionam até um determinado
ponto, mas não dão conta da demanda e da necessidade de atingir o ponto central.
9. Como você avalia os espaços culturais na Bahia?
No que me interessa pensar há uma carência substancial. Por exemplo, o Teatro Dona Canô,
em Santo Amaro, é um espaço excelente, mas tem coisas lá dentro, de manutenção, que
precisam melhorar. Essa é uma reclamação que pode ser feita em relação a quase todos os
centros culturais que são mantidos pelo governo. É preciso ter um cuidado maior em relação à
acessibilidade, pensar urgentemente nestes centros culturais, em como contemplar e abraçar
um público diverso e não só o deficiente. Tem inúmeros fatores que são importantes e que
realmente nem passam pela cabeça dos gestores.
10. O que você pensa em relação à gratuidade do acesso à cultura?
A gratuidade é uma coisa muito complicada, é complexo, pois sabemos da dificuldade
financeira que a população tem. Ao mesmo tempo, não é porque é gratuito que se consegue
fazer com que o publico vá. Não é porque é gratuito que o público estará presente e se fazendo
representado. A questão é de educação para o olhar da cultura, é preciso estimular essa
questão do sensível das e nas pessoas, o estar próximo. Gosto muito da arte de rua, da
performance, por que “chega junto” e isso me interessa, mas não basta. Não é só ir onde a
pessoa está, é também fazer ela se deslocar querendo ver aquilo, às vezes é muito agressiva a
forma como fazemos, é algo do tipo “Olha como estou fazendo!”, enquanto o correto seria
“Estou fazendo pra você, por que estou te vendo, estamos trocando experiências”. É muito
complicado isso em Salvador, cidade que tem uma população muito pobre, inclusive
culturalmente.
11. Como você percebe a questão da profissionalização na área cultural? Quais as
principais necessidades do mercado baiano hoje?
Sem dúvida há uma carência na parte técnica. Existe uma dificuldade muito grande de achar
iluminador, técnico de luz, técnico de som. O técnico de som para dança é muito diferente do
técnico de som da música. Uma boa parte dos técnicos vem do Axé, aí vem com o som
estrondando, com equalização muito alta, não sabem ter a sutileza do que é necessário para
determinado trabalho. O iluminador vem com muito show, com uma luz espetacular, e às vezes
nos interessa uma luz mais refinada. Citei só dois exemplos, de som e luz, mas é uma cadeia
muito grande, temos dificuldades de produtores que saibam lidar com dança, é outra lógica,
outra realidade. Já na parte artística estamos bem representados, no entanto é sempre bom ter
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acesso a mais informações e trazer pessoas de fora para troca de experiências. Na Bahia, os
editais de intercâmbio significam sair daqui para fazer residência artística em outro lugar, é
difícil trazer alguém para fazer intercâmbio aqui, uma pessoa que tem um trabalho
diferenciado, que vem de outra realidade, nos trazer a sua realidade. Temos um projeto de
residência e não conseguimos fazer, pois não conseguimos trazer as pessoas. É muito
complicado, precisa de verba para pagar essa pessoa, só alimentação e hospedagem não
supre todas as necessidades.
12. Como você avalia a organização da classe artística baiana? Qual a importância dessa
organização?
Vou falar em relação à dança, por que a gente não se articula com outras linguagens, e seria
fundamental essa articulação com o pessoal de música, teatro, artes visuais. Em dança até se
consegue dialogar um pouco, trabalhamos com artes visuais, performance, música, mas como
organização, no que tange a pensar junto as políticas, as ações e projetos, ainda é muito difícil.
A dança tem um movimento interno interessante, pensamos juntos conceitos, idéias, estamos
caminhando muito junto, mas falta ainda uma organização, o Fórum de Dança se efetivar, as
pessoas participarem, falta esse desejo do ativismo político, falta uma organização oficial
ainda. Viemos de uma época em que não havia essa organização popular, o governo que
determinava tudo. É tudo muito novo para conseguirmos nos articular, sabermos como se faz,
leva um tempo para as pessoas entenderem que dependem de si mesmas. O artista mudou
muito, antigamente o dançarino de uma companhia era só o dançarino, mas para se sustentar
hoje ele tem que fazer produção, escrever projeto, fazer pré-produção, pós-produção,
prestação de contas, mudou o jeito de trabalhar com arte, e aos poucos vai se aprendendo. Eu
bati muito a cabeça no início, não conseguia ganhar edital, porque é preciso um tempo, nos
desdobramos em várias coisas, também não dá para culpar a classe artística e chamá-la de
desunida. A arte é, sobretudo, uma ação política, acabamos fazendo política, fazendo refletir
sobre coisas importantes com nosso trabalho.
*Entrevista realizada por Eduardo Mafra e Marlon Sousa, dia 17 de maio de 2012, na
Escola de Dança da UFBA, em Salvador.
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