Aplicação da análise de regressão na contabilidade do custo de produção do milho Janser Moura Pereira1 Quintiliano Siqueira Schroden Nomelini1 Andréa Clélia da Rocha Moura2 Nathane Eva dos Santos Peixoto3 1. Introdução O Brasil devido às favoráveis condições climáticas e boa qualidade do solo tornou-se desde o descobrimento um país com base econômica essencialmente agrícola. Atualmente o contexto competitivo do agronegócio fez com que a gestão de custos se tornasse um dos mais relevantes aspectos administrativos para a agricultura. Hansen e Mowen (1997) apontam que a contabilidade de custos é considerada híbrida, ou seja, é aderida de forma significativa tanto pela contabilidade financeira como pela gerencial. A necessidade de controlar custos, segundo Santos (2009), fez com que a sua apuração se tornasse de grande importância desde o início do capitalismo, pois era devido à contabilidade de custos que o comerciante tinha resposta se estava tendo lucro ou não. Neste contexto, a contabilidade de custos era usada como um instrumento seguro para controlar as variações de custos e de vendas e também para avaliar o crescimento ou o retrocesso do negócio. De acordo com Martins (2001), tem-se que na contabilidade de custos as regras e os princípios geralmente aceitos foram criados e mantidos com a finalidade de avaliar os estoques e não para fornecer dados à administração. Para Bornia (2010), os custos podem ser de fabricação ou gerenciais. O custo de fabricação é o valor dos insumos usados na fabricação dos produtos da empresa, insumos estes que são: materiais, trabalho humano, máquinas e equipamentos entre outros. Já o custo gerencial é o valor dos insumos (serviços e bens) utilizados pela empresa. 1 FAMAT – UFU. e-mail: [email protected] FACIC – UFU. 3 FAGEN – UFU. 2 Os custos podem ser classificados como diretos e indiretos. Para Martins (2001), os custos diretos são os que podem ser diretamente apropriados aos produtos, bastando ter uma medida de consumo, ou seja, podem ser identificados com a produção dos produtos ou serviços. Já os custos indiretos não oferecem uma condição de medida objetiva, isto é, na maioria das vezes o mesmo é alocado de maneira arbitrária. Outra classificação que os custos possuem é quanto a serem fixos ou variáveis. Martins (2001) define custos fixos como aqueles que independem do volume de produção e os custos variáveis são aqueles que estão diretamente relacionados com o volume de produção. Dessa forma, o objetivo do trabalho foi predizer o custo total da produção do milho em função de alguns custos variáveis. Pode-se atingir este objetivo por meio de modelos de regressão. 2. Material e Métodos A análise de regressão ocupa-se do estudo da dependência de uma variável, a variável dependente, em relação a uma ou mais variáveis, as variáveis explicativas, com o objetivo de estimar e/ou prever a média (da população) ou o valor médio da dependente em termos dos valores conhecidos ou fixos (em amostragem repetida) das explicativas. Em algumas situações podem existir variáveis independentes classificadas como qualitativas. Essa informação pode ser incorporada no modelo de regressão por meio das variáveis binárias, conhecidas como variáveis dummy (dummy variables) que assumem dois valores distintos, geralmente zero e um (ANDERSON et al., 2007). Portanto, no presente trabalho buscou-se uma relação linear entre custo total da produção de milho (variável dependente) em função das variáveis independentes: mãode-obra temporária (x1), mão-de-obra fixa (x2), fertilizantes (x3), defensivos (x4). Para incorporar a informação sobre o município no modelo de regressão, define-se as variáveis dummy x5 e x6 (x5 = 1, se o município for Rio Verde e x5 = 0, se o município for Primavera do Leste ou Campo Mourão; x6 = 1, se o município for Primavera do Leste e x6 = 0, se o município for Rio Verde ou Campo Mourão). Para selecionar as variáveis a compor o modelo de regressão foi utilizado o critério de Stepwise. O ideal é encontrar critérios que balanceiam as duas idéias seguintes, de tendência oposta: (i) por um lado, para melhorar o processo de previsão, maior número possível de variáveis é desejado, pela melhoria de ajustamento decorrente; (ii) por outro lado, devido aos eventuais custos de obtenção dos xi’s e às dificuldades de interpretação e de manuseio de um modelo grande, o número de variáveis deve ser tão pequeno quanto possível (DRAPER & SMITH, 1998). 3. Resultados e Discussão Os resultados sobre o ajuste do modelo de regressão a partir do critério de Stepwise é apresentado na Tabela 1. Tabela 1 - Resultados do ajuste do modelo de regressão por intermédio do critério de Stepwise para predição do custo total da produção de milho (R$/ha). Coeficientes Intercepto MOBfixa (x2) Fertilizantes (x3) Dummy 1 (x5) Dummy 2 (x6) Estimativas 460,5844 16,1028 0,9855 10,0689 80,0906 Erro Padrão 50,1034 1,9354 0,1343 25,2958 30,3423 Estatística t 9,193 8,320 7,336 0,398 2,640 p-valor < 0,0000 < 0,0000 < 0,0000 0,6971 0,0204 R2ajustado 0,9381 Com base na Tabela 1, ao nível de significância de 5%, todos os parâmetros do modelo estimado são significativos, com exceção de β 5 . No entanto, decidiu-se por não descartar a variável x5, pois o objetivo do trabalho é comparar o custo da produção de milho nos referidos municípios. Portanto, o modelo de regressão múltipla estimado para previsão do custo total da produção de milho é: yˆ = 460,58 + 16,10 x2 + 0,98 x3 + 10, 07 x5 + 80, 09 x6 . (A) Sendo que: ŷ representa o custo estimado da produção total de milho; x2 gastos com mão-de-obra fixa; x3 gastos com fertilizantes; x5 e x6 (x5 = 1, se o município for Rio Verde e x5 = 0, se o município for Primavera do Leste ou Campo Mourão; x6 = 1, se o município for Primavera do Leste e x6 = 0, se o município for Rio Verde ou Campo Mourão). A partir do modelo (A) pode-se estimar a média, ou valor esperado, do custo total da produção dado que o município é Rio Verde (x5 = 1 e x6 = 0), tem-se: E ( Custo | Rio Verde ) = β 0 + β1 x2 + β 2 x3 + β5 x5 + β 6 x6 = β 0 + β1 x2 + β 2 x3 + β5 (1) + β 6 ( 0 ) (1) = ( β 0 + β5 ) + β1 x2 + β 2 x3 Analogamente, em relação ao município de Primavera do Leste (x5 = 0 e x6 = 1), tem-se: E ( Custo | Pr imavera do Leste ) = β 0 + β1 x2 + β 2 x3 + β 5 x5 + β 6 x6 = β 0 + β1 x2 + β 2 x3 + β 5 ( 0 ) + β 6 (1) (2) = ( β 0 + β 6 ) + β1 x2 + β 2 x3 Analogamente, em relação ao município de Campo Mourão (x5 = 0 e x6 = 0), tem-se: E ( Custo | Campo Mourão ) = β 0 + β1 x2 + β 2 x3 + β5 x5 + β 6 x6 = β 0 + β1 x2 + β 2 x3 + β5 ( 0 ) + β 6 ( 0 ) (3) = β 0 + β1 x2 + β 2 x3 Ao comparar as equações (1), (2) e (3), é possível verificar que o custo médio da produção de milho é uma função linear de x2 (mão-de-obra fixa) e x3 (fertilizantes) para os municípios: Campo Mourão, Primavera do Leste e Rio Verde. O que difere nas três curvas é o ponto de intersecção com o eixo y (custo). Em relação ao município de Campo Mourão, o ponto de intersecção com custo é ( β0 ) , conforme equação (3); em relação ao município de Primavera do Leste é ( β0 + β6 ) , conforme equação (2); em relação ao município de Rio Verde é ( β0 + β5 ) , conforme equação (1). Desse modo β6 indica a diferença entre o custo médio da produção de milho na cidade de Primavera do Leste e na cidade de Campo Mourão. Como β6 é positivo, o custo médio da produção de milho na cidade de Primavera do Leste é maior (na ordem da estimativa de β6 ) que o da cidade de Campo Mourão. Utilizando o mesmo raciocínio β5 indica a diferença entre o custo médio da produção de milho na cidade de Rio Verde e na cidade de Campo Mourão. Já que β5 é positivo, o custo médio da produção de milho na cidade de Rio Verde é maior (na ordem da estimativa de β5 ) que o da cidade de Campo Mourão. A partir da equação de yˆ = 460,58 + 16,10 x2 + 0,98 x3 + 10, 07 x5 + 80, 09 x6 regressão múltipla estimada, tem-se que 460,58 é a estimativa de β0 e 80,09 é a estimativa de β6 . Assim, o valor esperado, do custo da produção de milho dado que o município é Rio Verde, tem-se: y = ( 460,58 + 10, 07 ) + 16,10 x + 0,98 x = 471, 28 + 16,10 x + 0,98 x . 2 3 2 3 (4) Analogamente, em relação ao município Primavera do Leste, tem-se: y = ( 460,58 + 80, 09 ) + 16,10 x + 0,98 x = 540, 67 + 16,10 x + 0,98 x . 2 3 2 3 (5) Finalmente, em relação ao município Campo Mourão, tem-se: y = 460,58 + 16,10 x + 0,98x . 2 3 (6) Vale ressaltar que, ao nível de 5% de significância, as pressuposições de normalidade e independência dos resíduos do modelo estimado foram verificadas e comprovadas por meio dos testes de Shapiro-Wilk e Durbin Watson, respectivamente. Todas as análises foram implementadas no freeware R (R Development Core Team, 2011). 4. Conclusões Por meio da análise de regressão foi possível verificar a variação de custo por hectares (R$/ha) da produção de milho nas cidades Rio Verde, Primavera do Leste e Campo Mourão. Dessa forma, conclui-se que o uso de uma variável simulada para as referidas cidades produz três equações (4), (5) e (6) que podem ser usadas para prever o custo da produção de milho. Portanto, pode-se afirmar a partir de βˆ6 = 80,09 que, em média, a cidade Primavera do Leste requer um custo R$80,09/ha a mais que a cidade de Campo Mourão na produção de milho; e a partir de βˆ5 = 10,07 , pode-se afirmar que, em média, a cidade Rio Verde requer um custo R$10,07/ha a mais que a cidade de Campo Mourão na produção de milho. O modelo de regressão estimado, equação (A), que tem por finalidade responder o problema do presente trabalho, que se originou do estudo das variáveis acima mencionadas apresentou bom ajuste, conseguindo captar 93,81% da variação total do custo da produção de milho na presença das variáveis: mão-de-obra fixa (x2), fertilizantes (x3) e variáveis dummy (x5 e x6). Bibliografia [1] ANDERSON, D. R.; SWEENEY, D.J.; WILLIAMS, T.A. Estatística aplicada à administração e economia. 2. ed. São Paulo: Thomson Learning, 2007. [2] BORNIA, A. C. Análise gerencial de custos: aplicação em empresas modernas. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2010. [3] DRAPER, N.R.; SMITH, H. Applied regression analysis. 3. ed. New York: John Wiley e Sons, 1998. 706p. [4] HANSEN, D. R.; MOWEN, Maryanne M.. Cost management. 2. ed. edition, Cincinnati, Ohio: South-Western College Publications, 1997. [5] MARTINS, E. Contabilidade de custos: inclui o ABC. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2001. [6] R Development Core Team (2011). R: A language and environment for statistical computing. R Foundation for Statistical Computing, Vienna, Austria. ISBN 3-90005107-0, URL http://www.R-project.org/. [7] SANTOS, J. J. Contabilidade e Análise de custos: modelo contábil, Método de depreciação, ABC – Custeio Baseado em Atividades, análise atualizada de encargos sociais sobre salários. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2009.