Grupo de Fraternidade Espírita
João Ramalho
“OFICINAS DE ESTUDOS” DA
REVISTA ESPÍRITA
Jornal de Estudos Psicológicos
Publicada sob a direção de
ALLAN KARDEC
(1858 – 1869)
Textos traduzidos por EVANDRO NOLETO BEZERRA
Editora: Federação Espírita Brasileira
A “Revista Espírita” contém: O relato das manifestações materiais ou inteligentes dos Espíritos, aparições,
evocações, etc., bem como todas as notícias relativas ao Espiritismo. – O ensino dos Espíritos sobre as coisas do
mundo visível e do invisível; sobre as ciências, a moral, a imortalidade da alma, a natureza do homem e o seu futuro. –
A história do Espiritismo na Antiguidade; suas relações com o magnetismo e com o sonambulismo; a explicação das
lendas e das crenças populares, da mitologia de todos os povos, etc.
OFICINA 03 – (Abril de 2012)
Tema Central: “Transição e Regeneração”
Sumário:
Revista Espírita de Abril de 1858:
Tempo de “Regeneração da Humanidade” – Período Psicológico
Pág. 02
Revista Espírita de setembro de 1863:
Filosofia e Regeneração da Humanidade - União da Filosofia e do Espiritismo
Pág. 06
Revista Espírita de Julho de 1865:
Pág.08
Lei do Progresso e a transformação dos mundos
= Condições para transformação do “Mundo de expiação e de provas”
Revista Espírita de Agosto de 1865:
Espiritismo, progresso moral e o “Período de Regeneração”.
O que Ensina o Espiritismo
Pág.15
Coordenação: Eugenivaldo FORT
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Revista Espírita de Abril de 1858
Tempo de “Regeneração da Humanidade” – abr. 1858, p. 151
Período Psicológico
Se bem que as manifestações espíritas tenham ocorrido em todas as épocas, é incontestável
que hoje se produzem de maneira excepcional. Interrogados sobre esse fato, os Espíritos
foram unânimes em sua resposta: “Os tempos – dizem eles – marcados pela Providência para
uma manifestação universal são chegados. Estão encarregados de dissipar as trevas da
ignorância e dos preconceitos; é uma era nova que começa e prepara a regeneração da
Humanidade.” Esse pensamento acha-se desenvolvido de maneira notável numa carta que
recebemos de um de nossos assinantes, da qual extraímos a seguinte passagem:
“Cada coisa tem seu tempo; o período que acaba de escoar-se parece ter sido
especialmente destinado pelo Todo-Poderoso ao progresso das ciências matemáticas
e físicas e, provavelmente, foi tendo em vista dispor os homens aos conhecimentos
exatos que ele se opôs, durante muito tempo, à manifestação dos Espíritos, como se
tal manifestação pudesse ser prejudicial ao positivismo, que requer o estudo da
Ciência; numa palavra, quis habituar o homem a procurar, nas ciências de
observação, a explicação de todos os fenômenos que deviam produzir-se a seus
olhos.
“Hoje, o período científico parece ter chegado a seu termo. Depois dos imensos
progressos realizados, não seria impossível que o novo período que deve suceder-lhe
fosse consagrado pelo Criador às iniciações de ordem psicológica. Na imutável lei
de perfectibilidade que estabeleceu para os seres humanos, o que poderá fazer
depois de havê-los iniciado nas leis físicas do movimento e ter-lhes revelado os
motores com os quais muda a face do globo? O homem sondou as profundezas mais
longínquas do espaço; a marcha dos astros e o movimento geral do Universo não
têm mais segredos para ele; lê nas camadas geológicas a história da formação do
globo; à sua vontade, a luz se transforma em imagens duráveis; domina o raio; com
o vapor e a eletricidade suprime as distâncias e o pensamento transpõe o espaço com
a rapidez do relâmpago. Chegado a esse ponto culminante, do qual a história da
Humanidade não oferece nenhum exemplo, qualquer que tenha sido o seu grau de
avanço nos séculos recuados, parece-me racional pensar que a ordem psicológica
lhe abre um novo caminho na via do progresso. É, pelo menos, o que se poderia
deduzir dos fatos que se produzem em nossos dias e se multiplicam por todos os
lados. Esperemos, pois, que se aproxime o momento, se é que ainda não chegou, em
que o Todo-Poderoso venha iniciar-nos em novas, grandes e sublimes verdades.
Cabe a nós compreendê-lo e secundá-lo na obra da regeneração.”
Essa carta é do Sr. Georges, do qual havíamos falado em nosso primeiro número. Não
podemos senão felicitá-lo pelos seus progressos na Doutrina; os elevados pontos de vista que
desenvolve demonstram que a compreende em seu verdadeiro sentido; para ele a Doutrina
não se resume na crença nos Espíritos e em suas manifestações: é toda uma filosofia. Como
ele, admitimos que entramos no período psicológico e achamos perfeitamente racionais os
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motivos que nos apresenta, sem crer, todavia, que o período científico tenha dito sua última
palavra; ao contrário, acreditamos que ainda nos reserva muitos outros prodígios. Estamos
numa época de transição, em que os caracteres dos dois períodos se confundem. Os
conhecimentos que os Antigos possuíam sobre a manifestação dos Espíritos não serviriam de
argumento contra a idéia do período psicológico que se prepara. Com efeito, notamos que na
Antiguidade esses conhecimentos estavam circunscritos ao estreito círculo dos homens de
elite; sobre eles o povo possuía somente idéias falseadas pelos preconceitos e desfiguradas
pelo charlatanismo dos sacerdotes, que delas se serviam como meio de dominação. Como já
o dissemos alhures, jamais esses conhecimentos se perderam e as manifestações sempre se
produziram; mas ficaram como fatos isolados, certamente porque o tempo de os compreender
não havia ainda chegado. O que se passa hoje tem um caráter bem diverso; as manifestações
são gerais; impressionam a sociedade desde a base até o cume. Os Espíritos não mais
ensinam nos recintos fechados e misteriosos de um templo inacessível ao vulgo. Esses fatos
se passam à luz do dia; falam a todos uma linguagem inteligível por todos. Tudo, pois,
anuncia, do ponto de vista moral, uma nova fase para a Humanidade.
Revista Espírita de setembro de 1863
Filosofia e Regeneração da Humanidade
União da Filosofia e do Espiritismo
Nota – O artigo seguinte é a introdução a um trabalho completo que o autor, Sr.
Herrenschneider, se propõe fazer sobre a necessidade da aliança entre a Filosofia e o
Espiritismo. Desde que o Espiritismo se revelou na França, há cerca de dez ou doze anos, as
comunicações incessantes dos Espíritos têm provocado em todas as classes da sociedade
um movimento religioso benéfico, que importa encorajar e desenvolver. Com efeito, neste
século o espírito religioso estava perdido, sobretudo entre as classes eruditas e inteligentes. O
sarcasmo voltaireano aí tinha tirado o prestígio do Cristianismo; o progresso das ciências lhes
havia feito reconhecer as contradições existentes entre os dogmas e as leis naturais, e as
descobertas astronômicas tinham demonstrado a puerilidade da idéia que formavam de Deus
os filhos de Abraão, de Moisés e do Cristo. O desenvolvimento das riquezas, as invenções
maravilhosas das artes e da indústria, toda a civilização protestava, aos olhos da sociedade
moderna, contra a renúncia ao mundo. Foi por causa desses numerosos motivos que a
incredulidade e a indiferença se insinuaram nas almas, a negligência dos destinos eternos
entorpeceu o nosso amor ao bem, paralisou o nosso aperfeiçoamento moral e a paixão do
bem-estar, do prazer, do luxo e das vaidades terrestres acabou por cativar quase toda a
nossa ambição; mas, de repente, os mortos vieram nos lembrar que a nossa vida presente
tem o seu dia seguinte, que nossos atos têm suas consequências fatais, inevitáveis, quando
não sempre nesta vida, infalivelmente na vida futura. Essa aparição dos Espíritos foi uma
trovoada que fez tremer muita gente, à semelhança de certos móveis, postos em movimento
sob o impulso de uma força invisível; à audição desses pensamentos inteligentes, ditados por
meio de um telégrafo grosseiro; à leitura dessas páginas sublimes, escritas por nossas mãos
distraídas, sob o impulso de uma direção misteriosa. Quantos corações batiam, tomados de
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medo súbito; quantas consciências atormentadas despertaram em merecidas angústias;
quantas inteligências feridas de estupor! A renovação dessas relações com as almas dos
mortos é e continuará um acontecimento prodigioso, que terá como consequência a
regeneração, tão necessária, da sociedade moderna. É que, quando a sociedade humana só
tem por objetivo de atividade a prosperidade material e o prazer dos sentidos, mergulha no
materialismo egoísta, aprecia todas as ações conforme os bens que delas retira, renuncia a
todos os esforços que não levem a uma vantagem palpável, só estima os que têm posses e
não respeita senão o poder que se impõe. Quando os homens só se preocupam com os
sucessos imediatos e lucrativos, perdem o senso da honestidade, renunciam à escolha dos
meios, desprezam a felicidade íntima, as virtudes privadas e deixam de se guiar conforme os
princípios de justiça e de equidade. Numa sociedade lançada nessa direção imoral, o rico leva
uma vida de moleza ignóbil, embrutecedora, e o deserdado aí arrasta uma vida dolorosa e
monótona, da qual o suicídio parece ser o último lenitivo. Contra semelhante disposição
moral, pública e privada, a filosofia é impotente. Não que lhe faltem argumentos para provar
a necessidade social de princípios puros e generosos; não que ela não possa demonstrar a
iminência da responsabilidade final e estabelecer a perpetuidade de nossa existência; mas,
em geral, os homens não têm tempo, nem gosto, nem espírito bastante circunspeto, para
prestar atenção à voz da consciência e às observações da razão. As vicissitudes da vida,
aliás, muitas vezes são demasiado imperiosas para que se decidam pelo exercício da virtude
pelo simples amor do bem. Mesmo quando a filosofia tivesse sido o que realmente deveria ser
– uma doutrina completa e certa – jamais teria podido provocar, somente por seu ensino, a
regeneração social de maneira eficaz, uma vez que até hoje ela não pôde dar à autoridade de
sua doutrina outra sanção que não fosse o amor abstrato do ideal e da perfeição. É que aos
homens é preciso, para os convencer da necessidade de se consagrarem ao bem, fatos que
falem aos sentidos. É-lhes necessário o quadro impressionante de suas dores futuras, para
que consintam em subir a ladeira funesta por onde seus vícios os arrastaram; faz-se mister
que toquem com o dedo as desgraças eternas que, pela sua invigilância moral, para si
mesmos preparam, a fim de compreenderem que a vida atual não é o objetivo de sua
existência, mas o meio que lhes deu o Criador de trabalharem pessoalmente para a
realização de seus destinos finais. Assim, foi por estes motivos que todas as religiões
apoiaram seus mandamentos no terror do inferno e nas seduções das alegrias celestes. Mas
desde que, sob o império da incredulidade e da indiferença religiosa, as populações se
certificaram das consequências últimas de seus pecados, acabou por prevalecer uma filosofia
fácil e inconsequente, auxiliando o culto dos sentidos, dos interesses temporais e das
doutrinas egoístas. Hoje, os homens esclarecidos, inteligentes e fortes afastam-se da Igreja e
seguem suas próprias inspirações; falta-lhe a autoridade necessária para recuperar sua
influência vinte vezes secular. Pode, pois, dizer-se que a Igreja é tão impotente quanto a
filosofia e que nem uma nem outra exercerão influência salutar senão sofrendo, cada uma em
seu gênero, uma reforma radical. Enquanto isto a Humanidade se agita, os acontecimentos se
sucedem e a chegada das manifestações espíritas neste século culto, prático, suficiente e
céptico, é, incontestavelmente, o evento mais considerável. Eis, pois, que se abre o túmulo à
nossa frente, não como o fim de nossas penas e de nossas misérias terrestres; não como um
abismo escancarado, onde são devorados as nossas paixões, os nossos prazeres e as
nossas ilusões, mas antes como o pórtico majestoso de um novo mundo, onde uns colherão,
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mau grado seu, os frutos amargos que suas fraquezas lhes terão feito semear, enquanto
outros, ao contrário, garantirão, por seu mérito, a passagem a esferas mais puras e mais
elevadas. É, pois, o Espiritismo que nos revela nossos destinos futuros; quanto mais ele for
conhecido, tanto mais ganhará em impulso e em extensão a regeneração moral e religiosa.
A união do Espiritismo com as ciências filosóficas nos parece, realmente, de magna
necessidade para a felicidade humana e para o progresso moral, intelectual e religioso da
sociedade moderna, porquanto já não estamos no tempo em que se podia afastar a ciência
humana em benefício da fé cega. A ciência moderna é muito sábia, muito segura de si mesma
e muito avançada no conhecimento das leis impostas por Deus à inteligência e à Natureza,
para que a transformação religiosa possa ocorrer sem o seu concurso. Conhece-se
perfeitamente a exiguidade relativa de nosso globo para conferir à Humanidade um lugar
privilegiado nos desígnios providenciais. Aos olhos de todos, não passamos de um grão de
poeira na imensidade dos mundos, e sabe-se que as leis que regem essa multidão indefinida
de existências são simples, imutáveis e universais. Enfim, as exigências da certeza de nossos
conhecimentos foram fortemente aprofundadas, para que uma doutrina nova possa surgir e
manter-se em outra base que não seja um misticismo tocante e inofensivo. Se o Espiritismo
quiser estender seu império sobre todas as classes da sociedade, sobre os homens
superiores e inteligentes, como sobre as almas delicadas e crentes, é preciso que se lance,
sem reservas, na corrente do pensamento humano, e que, por sua superioridade filosófica,
saiba impor à soberba razão o respeito de sua autoridade. É esta ação independente dos
adeptos do Espiritismo que compreendem perfeitamente os Espíritos elevados que se
manifestam. Aquele que se designa sob o nome de Santo Agostinho dizia ultimamente:
“Observai e estudai com cuidado as comunicações que vos são dadas; aceitai o que a razão
não repele, rejeitai o que a choca; pedi esclarecimentos sobre as que vos deixam em dúvida.
Tendes aí a marcha a seguir, para transmitir às gerações futuras, sem receio de as ver
desnaturadas, as verdades que deslindais sem esforço do seu cortejo inevitável de erros.”
Eis, em poucas palavras, o verdadeiro espírito do Espiritismo, o que a Ciência pode admitir
sem derrogar, aquele que nos servirá para conquistar a Humanidade. Aliás, o Espiritismo
nada tem a temer de sua aliança com a filosofia, porque repousa sobre fatos incontestáveis,
que têm sua razão de ser nas leis da Criação. Cabe à Ciência estudar-lhe o alcance e
coordenar os princípios gerais, consoante essa nova ordem de fenômenos. Pois é evidente
que, desde que ela não tinha pressentido a existência necessária, no espaço que nos cerca,
das almas dos mortos ou das destinadas a renascer, a Ciência deve compreender que sua
filosofia primeira estava incompleta e que princípios primordiais lhe haviam escapado. A
filosofia, ao contrário, tem tudo a ganhar ao considerar seriamente os fatos do Espiritismo.
Primeiro, porque estes são a sanção solene de seu ensinamento moral; e depois porque tais
fatos provarão, aos mais endurecidos, o alcance fatal de seu mau comportamento. Mas, por
mais importante que seja esta justificação positiva de suas máximas, o estudo aprofundado
das consequências, que se deduzem da constatação da existência sensível da alma no
estado não encarnado, servir-lhe-á em seguida para determinar os elementos constitutivos da
alma, sua origem, seus destinos, e para estabelecer a lei moral e a do progresso anímico
sobre bases certas e inabaláveis. Além disso, o conhecimento da essência da alma conduzirá
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a filosofia ao conhecimento da essência das coisas e, mesmo, da de Deus, e lhe permitirá unir
todas as doutrinas que a dividem num só e mesmo sistema geral, verdadeiramente completo.
Enfim, esses diversos desenvolvimentos da filosofia, provocados por esta preciosa
determinação da essência anímica, conduzi-la-ão infalivelmente sobre os traços dos princípios
fundamentais da antiga cabala e da antiga ciência oculta dos hierofantes(*), de que a trindade
cristã é o último raio luminoso que chegou até nós. É assim que, pela simples aparição das
almas errantes, chegar-se-á, como temos todo direito de esperar, a constituir uma cadeia
ininterrupta das tradições morais, religiosas e metafísicas da Humanidade antiga e moderna.
Este futuro considerável, que concebemos para a filosofia aliada ao Espiritismo, não parecerá
impossível aos que tiverem alguma noção desta ciência, se considerarem a vacuidade dos
princípios sobre os quais se fundam as diversas escolas e a impotência para elas disso
resultante, de explicar a realidade concreta e viva da alma e de Deus. É assim que o
materialismo imagina que os seres não passam de fenômenos materiais, semelhantes aos
produzidos pelas combinações químicas, e que o princípio que os anima faz parte de um
suposto princípio vital universal. De acordo com este sistema a alma individual não existiria e
Deus seria um ser completamente inútil. Por seu lado, os discípulos de Hegel imaginam que a
idéia, esse fenômeno indisciplinado de nossa alma, seja um elemento em si, independente de
nós; um princípio universal que se manifesta pela Humanidade e sua atividade intelectual,
como também pela Natureza e suas maravilhosas transformações. Esta escola nega, por
conseguinte, a individualidade eterna de nossa alma, e a confunde num só todo, com a
Natureza. Ela supõe que exista uma identidade perfeita entre o universo visível e o mundo
moral e intelectual; que um e outro sejam o resultado da evolução progressiva e fatal da idéia
primitiva, universal, numa palavra, do absoluto. Deus também não tem, neste sistema,
nenhuma individualidade, nenhuma liberdade, e não se conhece pessoalmente. Ele só se
percebeu a si mesmo, pela primeira vez, em 1810, por intermédio de Hegel, quando este o
reconheceu na ideia absoluta e universal. (Histórico).
Enfim, nossa escola espiritualista, vulgarmente chamada eclética, considera a alma como
sendo apenas uma força sem extensão e sem solidez, uma inteligência imperceptível no
corpo humano e que, uma vez desembaraçada de seu envoltório, conservando sua
individualidade e sua imortalidade, não existiria mais, nem no tempo, nem no espaço. Nossa
alma, pois, seria um não sei quê, sem ligação com o que existe, e não ocuparia nenhum lugar
determinado. Segundo este mesmo sistema, Deus não é mais perceptível. É o pensamento
perfeito e não tem, igualmente, nem solidez, nem estabilidade, nem forma, nem realidade
sensível; é um ser vazio. Sem a razão nós não poderíamos ter nenhuma intuição. Entretanto,
quem são os que inventaram o ateísmo, o cepticismo, o panteísmo, o idealismo, etc.? São os
homens de raciocínio, os inteligentes, os sábios! Os povos ignorantes, cujas sensações são
os principais guias, jamais duvidaram de Deus, da alma e de sua imortalidade. Parece que só
a razão é má conselheira! Em consequência, fácil é nos convencermos de que falta a essas
doutrinas um princípio real, estável, vivo, da noção do ser real. Elas se movem num mundo
inteligível, que não toca na realidade concreta. O vazio de seus princípios relaciona-se com o
conjunto de seus sistemas e os torna tão sutis quanto vagos e estranhos à realidade das
coisas. O próprio senso comum é ultrajado, não obstante o talento e a prodigiosa erudição de
* Hierofante: (grego hierophántes, -ou, aquele que adivinha)
Sumo sacerdote de Ceres, em Elêusis. [Figurado] Indivíduo que se diz conhecedor do que é mais transcendente, em qualquer ramo. = ADIVINHO
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seus aderentes. Mas o Espiritismo é ainda mais brutal em relação a eles, porque derruba
todos os sistemas abstratos, opondo-lhes um fato único: a realidade substancial, viva e atual
da alma não encarnada. Ele lha mostra como um ser pessoal, existindo no tempo e no
espaço, embora invisível para nós; como um ser tendo o seu elemento sólido, substancial e
sua força ativa e pensante. Ele nos mostra mesmo as almas errantes, comunicando-se
conosco por sua própria iniciativa. É evidente que semelhante acontecimento deve derrubar
todos os castelos de cartas e, de uma assentada, eliminar essas soberbas estruturas
fantasiosas. Mas, para aumentar a confusão, pode provar-se aos partidários dessas doutrinas
complicadas que todo homem traz na própria consciência os elementos suficientes para
demonstrar a existência da alma, tal como o Espiritismo o estabeleceu pelos fatos, de modo
que seus sistemas não só são errados no seu ponto de chegada, mas, também, em seu ponto
de partida. Assim, o mais sábio partido que resta a tomar por esses honrados sábios, é
refazer completamente sua filosofia e consagrar seu profundo saber à fundação de uma
ciência original, mais precisa e mais conforme à realidade. É que, efetivamente, carregamos
conosco quatro noções irredutíveis, que nos autorizam a afirmar a existência de nossa alma,
tal qual o Espiritismo no-la apresenta. Primeiramente, temos em nós o sentimento de nossa
existência. Tal pensamento não pode revelar-se senão por uma impressão que recebemos de
nós mesmos. Ora, nenhuma impressão se faz sobre um objeto privado de solidez e de
extensão, de sorte que por um só fato de nossas sensações devemos inferir que temos em
nós um elemento sensível, sutil, extenso e resistente, isto é, uma substância. Em segundo
lugar, temos em nós a consciência de um elemento ativo, causal, que se manifesta em nossa
vontade, em nosso pensamento e em nossos atos. Em consequência, é ainda evidente que
possuímos em nós um segundo elemento: uma força. Portanto, pelo simples fato de que
sentimos e sabemos, devemos concluir que encerramos dois elementos constitutivos, força e
substância, isto é, uma dualidade essencial, anímica. Mas essas duas noções primitivas não
são as únicas que levamos conosco. Ainda nos concebemos, em terceiro lugar, uma unidade
pessoal, original, sempre idêntica a si mesma; e, em quarto lugar, um destino igualmente
pessoal, porque todos nós procuramos a felicidade e as nossas próprias conveniências em
todas as circunstâncias da vida. De maneira que, juntando essas duas novas noções, que
constituem nosso duplo aspecto, às duas precedentes, reconhecemos que nosso ser encerra
quatro princípios bem distintos: sua dualidade de essência e sua dualidade de aspecto. Ora,
como esses quatro elementos do conhecimento do nosso eu, que nos levam a nos afirmar
pessoalmente, são noções independentes do corpo e não têm qualquer relação com o nosso
envoltório material, é evidente e peremptório para todo espírito justo e não prevenido, que
nosso ser depende de um princípio invisível, chamado Alma; e que esta alma existe como tal,
desde que tem uma substância e uma força, uma unidade e um destino próprios e pessoais.
Tais são os quatro elementos primordiais de nossa individualidade anímica, dos quais cada
um de nós traz em seu seio a noção e que nenhum homem poderia recusar. Em
consequência, como dissemos, em todos os tempos a filosofia possuiu os elementos
suficientes para o conhecimento da alma, tal como o Espiritismo no-la dá a conhecer. Se,
pois, até o presente, a razão humana não conseguiu construir uma metafísica verdadeira e
útil, que lhe tenha feito compreender que a alma deve ser considerada como um ser real,
independente do corpo e capaz de existir por si mesma, substancial e virtualmente, no corpo e
no espaço, é que ela desdenhou a observação direta dos fatos de consciência e que, em seu
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orgulho e em sua presunção, a razão foi posta em lugar e no lugar da realidade. Conforme
estas observações, pode compreender-se quanto importa à filosofia unir-se ao Espiritismo,
pois deste tirará a vantagem de criar-se uma ciência original, séria e completa, fundada sobre
o conhecimento da essência da alma e das quatro condições de sua realidade. Mas não é
menos necessário ao Espiritismo aliar-se com a filosofia, porque só por ela poderá
estabelecer a certeza científica dos fatos espíritas, que formam a base fundamental de sua
crença, e daí tirar as importantes consequências que eles contêm. Sem dúvida, basta que o
bom senso veja um fenômeno para crer em sua realidade, e muitos se contentam com isto;
mas a Ciência muitas vezes teve motivos para duvidar do protesto do senso comum, para não
se confiar nas impressões dos nossos sentidos e nas ilusões de nossa imaginação. O bomsenso não basta, pois, para estabelecer cientificamente a realidade da presença dos Espíritos
à nossa volta. Para estar certo disto de maneira irrefutável, é preciso estabelecer
racionalmente, de acordo com as leis gerais da criação, que sua existência é necessária por si
mesma, e que sua presença invisível não é senão a confirmação dos dados racionais e
científicos, tais como acabamos de indicar alguns, de maneira sumária. Assim, somente pelo
método filosófico é possível chegar a esse resultado. Eis um trabalho necessário à autoridade
do Espiritismo, e só a filosofia pode prestar-lhe esse serviço. Em geral, seja em que empresa
for, para triunfar é necessário aliar o conhecimento dos princípios à observação dos fatos. Nas
circunstâncias particulares do Espiritismo, é ainda muito mais necessário proceder desta
maneira rigorosa para chegar à verdade, porque nossa nova doutrina toca os nossos
interesses mais caros e mais elevados, os que constituem a nossa felicidade presente e
eterna. Por conseguinte, a união do Espiritismo e da Filosofia é da mais alta importância para
o sucesso de nossos esforços e para o porvir da Humanidade.
F. Herrenschneider
Revista Espírita de Julho de 1865
Filosofia e Regeneração da Humanidade
Lei do Progresso e a transformação dos mundos
Condições para transformação do “Mundo de expiação e de provas”
Estudos Morais
A COMUNA DE KOENIGSFELD, MUNDO FUTURO EM MINIATURA
(Lê-se no Galneur de Colmar)
“A comuna de Koenigsfeld, perto de Villingen, na Floresta Negra, conta cerca de 400
habitantes e forma um estado modelo em miniatura. Há cinquenta anos, data da existência
dessa comuna, jamais aconteceu a um habitante qualquer se envolver com a polícia; nunca
houve casos de delitos ou de crimes; durante cinquenta anos jamais houve hasta pública ou
nasceu um filho natural. Nunca foi aberto um processo nessa comuna. Também ali não se
encontram mendigos.”
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Tendo sido lida na Sociedade de Paris, esta interessante nota deu motivo à seguinte
comunicação espontânea:
“É belo ver a virtude num centro restrito e pobre; lá todos se conhecem, todos se vêem e a
caridade é simples e grande. Não é o exemplo mais impressionante da solidariedade
universal essa pequena comuna? Não é em menor escala o que um dia será o resultado da
verdadeira caridade, quando esta for praticada por todos os homens? Tudo está aí, espíritas:
a caridade, a tolerância. Entre vós, a não ser o socorro ao infortúnio, que é praticado, as
relações inteligentes, isentas de inveja, de ciúme e de dureza, o são sempre.”
Lamennais (Médium: Sr. A. Didier)
Qual a causa da maior parte dos males da Terra, senão o contato incessante dos homens
maus e perversos? O egoísmo mata a benevolência, a condescendência, a indulgência, o
devotamento, a afeição desinteressada e todas as qualidades que fazem o encanto e a
segurança das relações sociais. Numa sociedade de egoístas não há segurança para
ninguém, porque cada um, apenas buscando o próprio interesse, sacrifica sem escrúpulo o do
vizinho. Muitas criaturas se julgam perfeitamente honestas, porque incapazes de assassinar e
de roubar nas estradas; mas será que aquele que, por cupidez e severidade, causa a ruína de
um indivíduo e o impele ao suicídio, reduzindo toda uma família à miséria, ao desespero, não
é pior que um assassino e um ladrão? Assassina em fogo brando; e porque a lei não o
condena e os semelhantes aplaudem sua maneira de agir e sua habilidade, crê-se isento de
censuras e marcha de fronte erguida! Assim os homens estão sempre desconfiados uns dos
outros; sua vida é uma ansiedade perpétua; se não temem o ferro, nem o veneno, são alvo
das chicanas, da inveja, do ciúme, da calúnia, numa palavra, do assassinato moral. Que seria
preciso fazer para cessar esse estado de coisas? Praticar a caridade. Tudo está aí, como diz
Lamennais. A comuna de Koenigsfeld oferece-nos em miniatura o que será o mundo quando
for regenerado. O que é possível em pequena escala sê-lo-á em grande? Duvidar disto seria
negar o progresso. Dia virá em que os homens, vencidos pelos males gerados pelo egoísmo,
compreenderão que seguem caminho errado, e quer Deus que eles o aprendam à própria
custa, porque lhes deu o livre-arbítrio. O excesso do mal lhes fará sentir a necessidade do
bem e eles se voltarão para este lado, como para a única âncora de salvação. Quem os
levará a isto? A fé séria no futuro, e não a crença no nada depois da morte; a confiança num
Deus bom e misericordioso, e não o temor dos suplícios eternos. Tudo está submetido à lei do
progresso; os mundos também progridem, física e moralmente; mas se a transformação da
Humanidade deve esperar o resultado da melhora individual, se nenhuma causa vier acelerar
essa transformação, quantos séculos, quantos milhares de anos não serão ainda precisos?
Tendo a Terra chegado a uma de suas fases progressivas basta não mais permitir aos
Espíritos atrasados de aqui reencarnarem, de modo que, à medida que se forem extinguindo,
Espíritos mais adiantados venham tomar o lugar dos que partem, para que em uma ou duas
gerações o caráter geral da Humanidade seja mudado. Suponhamos, pois, que em vez de
Espíritos egoístas, a Humanidade seja, num dado tempo, formada de Espíritos imbuídos de
sentimentos de caridade: em vez de buscarem prejudicar-se, eles se ajudarão mutuamente,
viverão felizes e em paz. Não mais ambição de povo a povo e, portanto, não mais guerras;
não mais soberanos governando ao seu bel-prazer, a justiça em vez do arbítrio, portanto não
mais revoluções; não mais os fortes esmagando ou explorando o fraco; equidade voluntária
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em todas as transações, portanto não mais querelas e chicanas. Tal será o estado do mundo
depois de sua transformação. De um mundo de expiação e de provas, de um lugar de exílio
para os Espíritos imperfeitos, tornar-se-á um mundo feliz, um local de repouso para os
Espíritos bons; de um mundo de punição, será um mundo de recompensa.
A comuna de Koenigsfeld compõe-se incontestavelmente de Espíritos adiantados, ao menos
moralmente, se não cientificamente, e que praticam entre si a lei de caridade e de amor ao
próximo; esses Espíritos se reúnem por simpatia nesse recanto bendito da Terra para aí viver
em paz, esperando que o possam fazer em toda a sua superfície. Suponhamos que alguns
Espíritos trapalhões, egoístas e maus aí venham encarnar-se; em breve semearão a
perturbação e a confusão; ver-se-ia restabelecerse, como alhures, as querelas, os processos,
os delitos e os crimes. Assim seria o estado da Terra, depois de sua transformação, se Deus
a abrisse ao acesso dos Espíritos maus. Progredindo a Terra, aí estariam deslocados e por
isso irão expiar seu endurecimento e burilar sua educação moral em mundos menos
adiantados.
Revista Espírita de Agosto de 1865
Espiritismo, progresso moral e o “Período de Regeneração”
O que Ensina o Espiritismo
Há criaturas que perguntam quais são as conquistas novas que devemos ao Espiritismo. Em
razão de não haver dotado o mundo com uma nova indústria produtiva, como o vapor,
concluem que nada produziu. A maior parte dos que fazem tal pergunta, por não se terem
dado ao trabalho de o estudar, só conhecem o Espiritismo de fantasia, criado para as
necessidades da crítica, e que nada tem de comum com o Espiritismo sério. Não é, pois, de
admirar que perguntem qual pode ser o seu lado útil e prático. Tê-lo-iam descoberto se o
tivessem ido buscar em sua fonte, e não nas caricaturas que dele fizeram os que têm
interesse em denegri-lo. Numa outra ordem de idéias, ao contrário, alguns impacientes acham
a marcha do Espiritismo muito lenta para o seu gosto. Admiram-se de que ainda não tenha
sondado todos os mistérios da Natureza, nem abordado todas as questões que parecem ser
de sua alçada; gostariam de vê-lo diariamente ensinar coisas novas, ou enriquecer-se com
alguma descoberta recente. E, porque ainda não resolveu a questão da origem dos seres, do
princípio e do fim de todas as coisas, da essência divina e de algumas outras da mesma
importância, concluem que não saiu do á-bê-cê, que não entrou na verdadeira via filosófica e
que se arrasta em lugares-comuns, já que prega incessantemente a humildade e a caridade.
“Até hoje, dizem, o Espiritismo nada nos ensinou de novo, porque a reencarnação, a negação
das penas eternas, a imortalidade da alma, a gradação através de períodos da vitalidade
intelectual, o perispírito não são descobertas espíritas propriamente ditas; então é preciso
marchar para descobertas mais verdadeiras e mais sólidas.”
A propósito, julgamos por bem apresentar algumas observações, que também não serão
novidades, pois há coisas que é útil repetir sob diversas formas. É verdade que o Espiritismo
nada inventou de tudo isto, porque somente as verdades verdadeiras são eternas e, por isto
mesmo, devem ter germinado em todas as épocas. Mas não é alguma coisa havê-las tirado,
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se não do nada, ao menos do esquecimento? de um germe ter feito uma planta vivaz? de
uma idéia individual, perdida na noite dos tempos, ou abafada sob os preconceitos, ter feito
uma crença geral? ter provado o que estava no campo das hipóteses? ter demonstrado a
existência de uma lei naquilo que parecia excepcional e fortuito? de uma teoria vaga ter feito
uma coisa prática? de uma idéia improdutiva ter tirado aplicações úteis? Nada é mais
verdadeiro que o provérbio: “Nada existe de novo debaixo do sol.” E até esta verdade não é
nova. Assim, não há uma só descoberta cujos vestígios e o princípio não se encontrem
nalguma parte. À vista disso, Copérnico não teria o mérito de seu sistema, porque o
movimento da Terra tinha sido suspeitado antes da era cristã. Se a coisa era tão simples,
dever-se-ia encontrá-la. A história do ovo de Cristóvão Colombo será sempre uma eterna
verdade. Além disso, é incontestável que o Espiritismo ainda tem muito a nos ensinar. É o que
não temos cessado de repetir, pois jamais pretendemos que ele tenha dito a última palavra.
Mas do que ainda resta fazer, segue-se que não tenha ainda saído do á-bê-cê? As mesas
girantes foram o seu alfabeto; e, depois, ao que nos parece, tem dado alguns passos; parece
mesmo que deu passos bem grandes em alguns anos, se o compararmos às outras ciências,
que levaram séculos para chegar ao ponto em que estão. Nenhuma chegou ao apogeu de um
salto só; elas avançam, não pela vontade dos homens, mas à medida que as circunstâncias
apontam novas descobertas. Ora, ninguém tem o poder de comandar essas circunstâncias, e
a prova disto é que, todas as vezes que uma ideia é prematura, aborta, para reaparecer mais
tarde, em tempo oportuno. Mas em falta de novas descobertas, os homens de ciência nada
terão a fazer? A Química não será mais a Química se diariamente não descobrir novos
corpos? Os astrônomos serão condenados a cruzar os braços por não encontrarem novos
planetas? E assim em todos os outros ramos das ciências e da indústria. Antes de procurar
coisas novas, não se deve fazer a aplicação daquilo que se sabe? É precisamente para dar
aos homens tempo de assimilar, de aplicar e de vulgarizar o que sabem, que a Providência
põe um freio na marcha para frente. Aí está a História para nos mostrar que as ciências não
seguem uma marcha ascendente contínua, ao menos ostensivamente. Os grandes
movimentos que revolucionam uma idéia não se operam senão em intervalos mais ou menos
distanciados. Assim, não há estagnação, mas elaboração, aplicação e frutificação daquilo que
se sabe, o que é sempre progresso. Poderia o Espírito humano absorver incessantemente
novas idéias? A própria terra não precisa de um tempo de repouso antes de reproduzir? Que
diriam de um professor que diariamente ensinasse novas regras aos seus alunos, sem lhes
dar tempo para se exercitarem nas que aprenderam, de com elas se identificarem e de as
aplicarem? Então Deus seria menos previdente e menos hábil que um professor? Em todas
as coisas as idéias novas devem apoiar-se nas idéias adquiridas; se estas não forem
suficientemente elaboradas e consolidadas no cérebro, se o espírito não as assimilou, as que
aí se querem implantar não criam raízes: semeia-se no vazio.
Acontece a mesma coisa com o Espiritismo. Os adeptos aproveitaram de tal modo o que ele
até hoje ensinou, que nada mais tenham a fazer? São mais caridosos, desprovidos de
orgulho, desinteressados e benevolentes para com os seus semelhantes? Terão moderado as
paixões, abjurado o ódio, a inveja e o ciúme? Enfim, são tão perfeitos que de agora em diante
seja supérfluo pregar-lhes a caridade, a humildade, a abnegação, numa palavra, a moral?
Essa pretensão, por si só, provaria quanto ainda necessitam dessas lições elementares, que
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alguns consideram fastidiosas e pueris. Entretanto, somente com o auxílio dessas instruções,
se as aproveitarem, é que poderão elevar-se bastante para se tornarem dignos de receber um
ensinamento superior. O Espiritismo contribui para a regeneração da Humanidade: isto é um
fato constatado. Ora, não podendo essa regeneração operar-se senão pelo progresso moral,
resulta que seu objetivo essencial, providencial, é o melhoramento de cada um; os mistérios
que pode nos revelar são a parte acessória, porquanto, ao nos abrir o santuário de todos os
conhecimentos só estaremos mais adiantados para o nosso estado futuro se formos
melhores. Para nos admitir no banquete da suprema felicidade, Deus não pergunta o que
sabemos, nem o que possuímos, mas o que valemos e o bem que fizemos. Portanto, é acima
de tudo pelo seu melhoramento individual que todo espírita sincero deve trabalhar. Só aquele
que dominou suas más tendências aproveitou realmente o Espiritismo e receberá a sua
recompensa. É por isto que os Espíritos bons, por ordem de Deus, multiplicam suas
instruções e as repetem até à saciedade; só um orgulho insensato pode dizer: não preciso de
mais. Só Deus sabe quando serão inúteis, e só a ele cabe dirigir o ensino de suas mensagens
e de o proporcionar ao nosso adiantamento. Contudo, vejamos se, fora do ensinamento
puramente moral, os resultados do Espiritismo são tão estéreis quanto pretendem alguns.
1º – Antes de mais ele dá, como todos sabem, a prova patente da existência e da imortalidade
da alma. Não é uma descoberta, é verdade, mas é por falta de provas sobre este ponto que
há tantos incrédulos ou indiferentes quanto ao futuro; é provando o que não passava de teoria
que ele triunfa sobre o materialismo e previne suas funestas conseqüências para a sociedade.
Tendo mudado em certeza a dúvida quanto ao futuro, o Espiritismo opera toda uma revolução
nas idéias, cujos resultados são incalculáveis. Se aí se limitasse exclusivamente o resultado
das manifestações, quão imensos seriam esses resultados!
2 º – Pela firme crença que desenvolve, exerce poderosa ação sobre o moral do homem;
impele-o ao bem, consola-o nas aflições, dá-lhe força e coragem nas provações da vida e lhe
desvia do pensamento o suicídio.
3o – Retifica todas as idéias falsas que se tivessem sobre o futuro da alma, sobre o céu, o
inferno, as penas e recompensas; destrói radicalmente, pela irresistível lógica dos fatos, os
dogmas das penas eternas e dos demônios; numa palavra, descobre-nos a vida futura e no-la
mostra racional e conforme à justiça de Deus. É ainda uma coisa que tem muito valor.
4 º – Dá a conhecer o que se passa no momento da morte; este fenômeno, até hoje
insondável, não mais tem mistérios; as menores particularidades dessa passagem tão temível
são hoje conhecidas. Ora, como todos morrem, este conhecimento interessa a todo o mundo.
5 º – Pela lei da pluralidade das existências, abre um novo campo à filosofia; o homem sabe
de onde vem, para onde vai e com que objetivo está na Terra. Explica a causa de todas as
misérias humanas, de todas as desigualdades sociais; dá as próprias leis da Natureza como
base dos princípios de solidariedade universal, de fraternidade, de igualdade e de liberdade,
que só se assentavam na teoria. Enfim, projeta luz sobre as mais árduas questões da
metafísica, da psicologia e da moral.
6 º – Pela teoria dos fluidos perispirituais, torna conhecido o mecanismo das sensações e das
percepções da alma; explica os fenômenos da dupla vista, da vista a distância, do
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sonambulismo, do êxtase, dos sonhos, das visões, das aparições, etc.; abre novo campo à
Fisiologia e à Patologia.
7 º – Provando as relações existentes entre o mundo corporal e o mundo espiritual, mostra
neste último uma das forças ativas da Natureza, um poder inteligente e dá a razão de uma
porção de efeitos atribuídos a causas sobrenaturais, e que alimentaram a maior parte das
idéias supersticiosas.
8 º – Revelando o fato das obsessões, faz conhecer a causa, até aqui desconhecida, das
numerosas afecções, sobre as quais a Ciência se havia enganado em prejuízo dos doentes, e
dá os meios de os curar.
9 º – Dando-nos a conhecer as verdadeiras condições da prece e seu modo de ação;
revelando-nos a influência recíproca dos Espíritos encarnados e desencarnados, ensina-nos o
poder do homem sobre os Espíritos imperfeitos para os moralizar e os arrancar aos
sofrimentos inerentes à sua inferioridade.
10 º – Tornando conhecida a magnetização espiritual, que era desconhecida, abre novo
caminho ao magnetismo e lhe traz um novo e poderoso elemento de cura. O mérito de uma
invenção não está na descoberta de um princípio, quase sempre conhecido anteriormente,
mas na aplicação desse princípio. Sem dúvida a reencarnação não é uma idéia nova, como o
perispírito descrito por São Paulo sob o nome de corpo espiritual também não o é, e nem
mesmo a comunicação com os Espíritos. O Espiritismo, que não se gaba de ter descoberto
a Natureza, procura cuidadosamente todos os traços que pode encontrar da anterioridade de
suas idéias e, quando os encontra, apressa-se em o proclamar, como prova em apoio ao que
avança. Aqueles, pois, que invocam essa anterioridade visando depreciar o que ele faz, vão
contra o seu objetivo e agem desastradamente, porque isto levaria à suspeição de uma idéia
preconcebida.
A descoberta da reencarnação e do perispírito não pertence, pois, ao Espiritismo; é coisa
resolvida. Mas, até ele, que proveito a Ciência, a moral, a religião haviam tirado desses dois
princípios, ignorados pelas massas e ficados em estado de letra morta? Ele não só os expôs à
luz, os provou e faz reconhecer como leis da Natureza, mas os desenvolveu e faz frutificar;
deles já fez saírem numerosos e fecundos resultados, sem os quais não se poderia
compreender uma infinidade de coisas; diariamente ele nos faz compreender outras novas e
estamos longe de haver esgotado esta mina. Considerando-se que esses dois princípios eram
conhecidos, por que ficaram improdutivos por tanto tempo? Por que, durante tantos séculos,
todas as filosofias se chocaram contra tantos problemas insolúveis? É que eram diamantes
brutos, que deviam ser lapidados. É o que faz o Espiritismo. Ele abriu uma nova via à filosofia
ou, melhor dizendo, criou uma nova filosofia, que diariamente ocupa seu lugar no mundo.
Então estes resultados são de tal modo nulos que devemos apressar a marcha para
descobertas mais verdadeiras e mais sólidas?
Em resumo, de um certo número de verdades fundamentais, esboçadas por alguns cérebros
de escol e conservadas, em sua maioria, como que em estado latente, uma vez que foram
estudadas, elaboradas e provadas, de estéreis que eram tornaram-se uma mina fecunda, de
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onde saíram uma multidão de princípios secundários e aplicações, e abriram um vasto campo
à exploração, novos horizontes à Ciência, à filosofia, à moral, à religião e à economia social.
Tais são, até hoje, as principais conquistas devidas ao Espiritismo, e não temos feito mais do
que indicar os pontos culminantes. Supondo que devessem limitar-se a isto, já nos
poderíamos dar por satisfeitos, e dizer que uma ciência nova, que dá tais resultados em
menos de dez anos, não pode ser acusada de nulidade, porque toca em todas as questões
vitais da Humanidade e traz aos conhecimentos humanos um contingente que não é para
desdenhar. Até que esses únicos pontos tenham recebido todas as aplicações de que são
susceptíveis, e que os homens os tenham aproveitado, ainda se passará muito tempo, e os
espíritas que os quiserem pôr em prática para si próprios e para o bem de todos, não ficarão
desocupados. Esses pontos são outros tantos focos de onde irradiarão inumeráveis verdades
secundárias, que se trata de desenvolver e aplicar, o que se faz todos os dias, porque
diariamente se revelam fatos que levantam uma nova ponta do véu.
O Espiritismo deu sucessivamente e em alguns anos todas as bases fundamentais do novo
edifício. Cabe agora aos seus adeptos pôr em obra esses materiais, antes de pedir outros
novos. Deus saberá bem lhos fornecer, quando tiverem acabado sua tarefa.
Dizem que os espíritas só sabem o á-bê-cê do Espiritismo. Seja. Que aprendamos, então, a
silabar esse alfabeto, o que não será o caso de um dia, porque, mesmo reduzido a estas
proporções, passará muito tempo antes de haver esgotado todas as cominações e colhido
todos os frutos. Não restam mais fatos a explicar? Aliás, os espíritas não devem ensinar esse
alfabeto aos que o ignoram? Já lançaram a semente em toda parte onde poderiam fazê-lo?
Não resta mais incrédulos a convencer, obsedados a curar, consolações a dar, lágrimas a
enxugar? Há fundamento em dizer que nada mais se deve fazer quando não se terminou a
tarefa, quando ainda restam tantas chagas a fechar? São nobres ocupações que valem bem a
vã satisfação de as saber um tanto mais e um pouco mais cedo que os outros. Saibamos,
pois, soletrar o nosso alfabeto antes de querer ler fluentemente no grande livro da Natureza.
Deus saberá bem no-lo abrir, à medida que avançarmos, mas não depende de nenhum mortal
forçar sua vontade, antecipando o tempo para cada coisa. Se a árvore da Ciência é muito alta
para que possamos atingi-la, esperemos, para sobrevoá-la, que as nossas asas estejam
crescidas e solidamente pregadas, para não virmos a ter a sorte de Ícaro.
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Transição e Regeneração