ÍNDICE
11
Prefácio de António Lobo Xavier
17
Prefácio de José Pacheco Pereira
23
INTRODUÇÃO
25
CRONOLOGIA
33
I
Falsa partida
43
II
Babush
53
III
Enganado pelo Perry Mason
63
IV
Lugar cativo na alta política
73
V
A influência das bananas numa remodelação
85
VI
Um lugar onde não foi feliz
95
VII
Até as vacas podem voar
107
VIII
O Gandhi da Mouraria, ou o autarca da «gritaria»
119
IX
Uma costela bloco central ou uma Quadratura do Círculo?
129
X
O guarda-redes do Benfica
141
XI
«O filho do poeta» e o «provinciano de Penamacor»
153
XII
«Se for preciso, faz um acordo com o Diabo»
165
EPÍLOGO
Caminho para chegar ao poder
171
AGRADECIMENTOS
173
ANEXO
As frases que marcaram os debates para as eleições primárias entre
António Costa e António José Seguro
PREFÁCIO DE ANTÓNIO LOBO XAVIER
O convite do Bernardo Ferrão e da Cristina Figueiredo para
escrever um dos prefácios deste livro agradou-me, não o nego,
mas trouxe-me especialmente várias angústias.
Eu sou, obviamente, amigo de António Costa. Trata-se de
uma amizade fundada, primeiro, no convívio político de muitos
anos, em que a identidade de geração e de formação académica
deve ter tido um papel importante; e passámos, depois, a respeitar reciprocamente os vários papéis que cada um foi desempenhando, em carreiras políticas de desigual importância – ele, com
mais relevo, sempre à esquerda, eu, mais discreto, sempre à sua
direita, segundo qualquer dos critérios disponíveis para realizar a
tradicional arrumação. Nos cruzamentos da política e do tempo,
encontrámo-nos apenas num europeísmo de contornos muito
semelhantes, e, por vezes, na defesa de soluções pragmáticas de
política pública, sempre que a ideologia não domina as melhores
práticas e o óbvio.
Finalmente, claro, a Quadratura do Círculo veio reforçar esses
laços. A regularidade, a longevidade e as características do programa dificilmente admitem um meio-termo: ou se forjam
relações duradouras de amizade e de respeito entre os intervenientes, ou se cavam conflitos e desentendimentos pessoais que
rapidamente conduzem à rutura (felizmente, não conheci ainda
este segundo termo da alternativa). Ora, estando eu, nesta circunstância, ao lado do José Pacheco Pereira, sinto que a escolha
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Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
dos autores faz justamente apelo ao que chamamos o «espírito
da Quadratura»: não podendo o Bernardo Ferrão e a Cristina
Figueiredo ignorar as nossas ligações pessoais ao biografado,
admito que esperem que mostremos aqui a mesma capacidade de
distanciamento que procuramos preservar no programa, quando
comentamos factos ou pessoas.
Trata-se, pois, de prefaciar a biografia de um velho companheiro de debate, de um amigo, procurando aplicar na tarefa os
critérios e os métodos que cada um de nós utiliza nesse debate –
aparentemente, nada de mais natural. Mas o certo é que esta
biografia vai sair a público no meio de uma campanha eleitoral
acesa; esse amigo é, nesta campanha, um dos principais contendores, enquanto líder do PS e candidato a Primeiro-Ministro; e
eu estarei, obviamente, do outro lado – porque cada um de nós
tem naturalmente um lado… –, por escolha racional e por «tribalismo», também, se quiserem. E é aqui que começam as minhas
angústias…
Por um lado, para mim, a amizade tem princípios: jamais participaria, ainda que de modo indireto, numa obra que se limitasse
a ser um instrumento de combate político contra António Costa,
destinada a obter efeitos eleitorais de curto prazo, que fatalmente
ocultaria os seus méritos e avultaria os seus deméritos, se estes
não chegassem mesmo a ser inventados. E não recusaria o convite
apenas por amizade e respeito pelo biografado: não tenho simpatia alguma por esses «livros de campanha», que visam recobrir a
agressão ou a promoção política com a presunção de seriedade
com que muita gente ainda encara qualquer livro.
Por outro lado, a minha independência conhece limites: também não me sentiria bem a participar, neste momento, num ato
abertamente destinado a promover António Costa nas próximas
eleições legislativas. A amizade – e a admiração, até – não prevaleceriam sobre a oportunidade. E não é apenas porque essa participação seria naturalmente mal compreendida pelos que comigo
se encontram na mesma «trincheira»: a verdade é que, se nada
Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
do que o António propõe reclama de mim um anátema absoluto,
uma rejeição dramática ou revoltada, não é menos certo que muitas coisas do seu programa já são antigas e não provaram grande
coisa quando eram novas; quanto às novidades, por seu turno,
preferiria que não se experimentassem, porque me parecem o
contrário do que o país precisa.
Devo dizer que as angústias se dissiparam rapidamente com
a leitura das primeiras provas deste livro. Ele encontra-se, obviamente, a uma distância cósmica de outras experiências recentes
mal sucedidas, para dizer o menos. O Bernardo Ferrão e a Cristina
Figueiredo preocuparam-se de forma meticulosa com a adesão a
factos e a notícias, com a reprodução fiel de comentários ou declarações assumidas pelos seus autores – por vezes trata-se mesmo
de frases ou escritos de António Costa –, ligados uns e outros por
uma escrita agradável e rigorosa.
Os autores terão, por certo, uma «ideologia narrativa», que
intuímos, desde logo, a partir do alinhamento e da seleção das
matérias, ou da apresentação das fontes. Poderemos dizer, por
exemplo, que a figura de António Costa lhes é simpática, que
lhes merece respeito. Não conseguimos, contudo, ir muito mais
longe, neste plano: não seria justo afirmar, por exemplo, que o
procuram denegrir, realçando sistematicamente os seus lados
menos simpáticos; mas também não o promovem ou «propõem»,
muito menos deixam transparecer que o consideram um predestinado ou um herói.
Provavelmente, o biografado não escolheria espontaneamente
estes biógrafos. Não creio que isso diminua o livro, embora faltem aqui aqueles desabafos, pensamentos e histórias inéditas,
pequenos segredos e revelações de uma intimidade que parece
nunca ter existido. Mas não acho que, nesta fase da vida do António, esses condimentos façam uma grande falta. Nem sei se, com
outros autores, ele abrandaria muito mais a sua guarda: sempre o
conheci prudente, nestes domínios, sempre notei a sua preocupação constante em preservar a mulher e os filhos da agressividade
13
14
Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
da exposição mediática a que hoje estão sujeitos todos os políticos
com grande notoriedade. Tudo indica que o António terá ainda
muito tempo à sua frente até chegar àquele momento em que se
olha o passado com capacidade para filtrar o importante e o inútil, com aquela sabedoria e condescendência consigo próprio que
enriquecem as grandes biografias.
De facto, o Bernardo Ferrão e a Cristina Figueiredo não escreveram um panegírico, mas também não nos ocultam as várias
facetas agradáveis de António Costa. Entre os políticos da sua
(minha) geração, distinguiu-se por ter um passado escolar e profissional relevante – ainda que sobressaltado por uma vocação
política sempre presente e, por isso, sempre desinquietadora. E o
apelo profissional não era de somenos: o escritório em que trabalhou era famoso, o lugar que aí lhe destinavam não era a pouco
mais do que simbólica banca num recanto obscuro, facultada por
um qualquer advogado de província a um político promissor. Por
todas as razões – capacidades pessoais e oportunidades –, podia
realmente ter sido um grande advogado. Mas, nos momentos cruciais, preferiu invariavelmente ser um bom ministro ou um bom
autarca. Confesso que, por isso, sempre me causou problemas de
consciência: nele, nunca o gosto pela profissão mais ou menos
bem-sucedida – e pelo conforto que normalmente dela deriva –
suplantou duradoiramente o apelo da política, apesar de esta se
ter transformado, por demagogia, num sinónimo de penúria, para
as pessoas sérias. E não se pode dizer com verdade que seja indiferente aos prazeres da vida, incluindo aqueles que só podem ser
propiciados por uma certa largueza económica… Mas não é, de
modo algum, um sibarita, nem sequer um permanente insatisfeito: diria antes que olha para a sua vida, em cada momento, com
grande tranquilidade e paz e que essa sua característica me chega
a fazer alguma inveja.
Para muitos, liderar um grande partido e ser Primeiro-Ministro constitui um sonho e uma promoção. As coisas nunca foram
assim para ele: creio que o desafio principal da sua carreira
Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
política contém em si mesmo uma renúncia, cujos custos só não
são mais evidentes por causa da sua discrição. Não posso atraiçoar
a sua confiança, revelando tudo o que sei ou que vi, por ter estado
por perto em alguns momentos dos dias cruciais. Mas afirmo,
sem hesitar, que a decisão de disputar a liderança de António José
Seguro não foi absolutamente fria e cruel, como por aí se diz:
pareceu-me antes uma escolha sofrida, em que uma certa consciência das suas obrigações – tal como então as entendia – avultava muito mais do que a ambição impaciente.
O António é, indiscutivelmente, um líder, mas não lhe é totalmente indiferente a aprovação dos outros. Aquele passo custou-lhe, desde logo, o fim do estatuto tão precioso de «homem consensual», de que gozou por muito tempo, dentro e fora do seu
partido. De consensual passou a tranchant, concentrando em si
o rancor dos derrotados e a agressividade dos adversários, e eu
estou certo de que a sua personalidade não é insensível à dor que
estas metamorfoses políticas sempre causam.
Sem querer meter-me em demasia na política corrente – e
seguramente sem o querer prejudicar –, parece-me que a vida
não lhe tem sido fácil. E não me refiro aos detalhes irrelevantes, às
questões internas, a alguns equívocos ou ambiguidades, às pequenas tricas do combate partidário. Julgo antes que a sua fidelidade
conhecida – ainda que crítica, naturalmente – ao projeto de uma
União Europeia económica e monetária, a sua seriedade intelectual, a sua indisponibilidade para se entregar ao populismo ou
à demagogia e o seu respeito pela continuidade histórica do PS
lhe criam um condicionamento político muito apertado, neste
Portugal saído há muito pouco tempo de um resgate e de um
programa de ajustamento.
O Bernardo Ferrão e a Cristina Figueiredo foram felizes com
o seu trabalho e com a oportunidade, porque o tempo presente
corresponde a uma fronteira bem marcada (embora a frase
possa parecer banal): a vida de António Costa foi uma até aqui
e será necessariamente uma outra muito diferente depois de 4
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Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
de outubro, qualquer que seja o resultado das eleições. Não lhe
vou desejar sorte neste transe e sei que me compreenderá. Mas
espero que, como quer que seja, possa continuar longos anos a
beneficiar da sua amizade, do seu espírito, das suas conversas e
do seu humor.
António Lobo Xavier
PREFÁCIO DE JOSÉ PACHECO PEREIRA
António Costa enfrenta o destino manifesto
A Quadratura do Círculo tem uma virtude que escapa a quem
nos vê só em público: quem por lá passa e resiste fica amigo. Deve
ser uma virtude que o Carlos Andrade, um dos raros exemplos
de um homem bom, imprime à sua volta. Isto significa que sou
amigo do António Costa. Sou também seu adversário político, o
que é menos importante, porque mesmo com os adversários se
fazem alianças quando o que está em causa é maior do que o clubismo partidário. E quase tudo é maior.
Na Quadratura, tivemos, eu e o Lobo Xavier, algum papel
cúmplice em «empurrar» – palavra péssima, mas que serve –
Costa a contestar a liderança de António José Seguro. Por isso,
partilhamos também alguma responsabilidade nos eventos.
E António Costa, quando de nós se despediu, disse «agora já me
podem começar a bater». Não foi só «agora», já tinha sido antes,
durante os tempos de José Sócrates, que ele defendeu com mais
distância do que os que o atacam em clima eleitoral podem admitir. Mas, agora ele subiu para outro patamar, quer ser o nosso
Primeiro-Ministro, meu, do Lobo Xavier, do Carlos Andrade, do
Jorge Coelho. E isso fia mais fino.
«Agora já me podem começar a bater», disse António Costa.
Não é bem disso que se trata, muito menos esperar que ele saísse
para lhe começar a bater. Diante de Costa, eu falei dos receios que
tinha sobre o conteúdo político e programático da sua «viragem»
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Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
no PS. Manifestei receio, contra o que se dizia, de que o risco
com o PS, mesmo com o PS de Costa, não era virar à esquerda,
mas virar à direita. Deve ter sido um passarinho que me disse,
mas disse bem. Outra coisa que um passarinho me disse e eu
disse ao António Costa, salvo erro no último programa que fizemos juntos, era que o país precisava de um líder da oposição e
não de um Primeiro-Ministro que funcionasse como um bispo in
partibus infidelium, antes das eleições terem sido ganhas. Infelizmente, acertei.
Ou era um líder da oposição, capaz de dar aos portugueses a
representação política que era precisa e por que eles ansiavam e
anseiam, ou o PS teria apenas uma «vitorinha» ou mesmo uma
derrota. Não se pode falar aos mesmos portugueses que Costa
denunciava na Quadratura como tendo sido o alvo injusto da
crise, de uma experiência de engenharia social desejada e implementada pelo Governo de Passos muito mais do que pela troika,
e depois ser mole e frouxo na palavra. Insisti várias vezes que não
se pode andar a dizer que a situação de Portugal e dos portugueses
é grave para depois se atuar como se não fosse.
E aqui, António Costa tem sido um mau líder da oposição com
a esperança de que, ao não subir o tom de voz com o Governo, não
falar de mudança, não dizer claramente onde estão as injustiças
que pretende reparar no dia seguinte a ser eleito, e que muitas
vezes custam apenas retomar a boa fé do Estado e não dinheiro,
possa ser Primeiro-Ministro. Deixou-se enredar nuns conselheiros tecnocráticos que, como alguém disse, tanto podiam estar
num Governo PS como «neste» Governo do PSD-CDS. Deixou-se castrar por umas técnicas publicitárias e de marketing em que
se perguntam a uns focus groups o que se pode ou não pode dizer
e que lhe asseguram que nunca, jamais, em tempo algum, os
portugueses querem ouvir falar de mudança.
Têm medo e preferem o mal que conhecem ao inesperado do
futuro. Ou seja, que interiorizaram exatamente a mensagem da
coligação: ou nós ou o dilúvio da bancarrota. E aqui é que também
Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
se vê a imensa sombra de Sócrates em António Costa, nesta necessidade obsessiva de apelar à confiança, neste curso de entregar
a condução do PS a cenários macro-económicos miméticos dos
do Governo, neste silenciamento quase patológico de uma crítica
dura à governação. Afinal, Costa quer mudar alguma coisa ou
não?
Ao baixar o tom, Costa legitima estes últimos anos. Ao deixar
cair a gravidade do que se passou a favor de um discurso que
quase pede desculpa para existir, Costa ajuda a consolidar nos portugueses todas as ideias que o Governo deseja que eles tenham.
O pior «já passou», agora vamos fazer aquilo que há um ano
achávamos péssimo, aumentar os funcionários públicos, repor as
reformas, diminuir os impostos, pôr o Estado a fazer investimentos públicos. Se não houver memória e se ninguém representar
essa memória, é isto que fica. E isto oculta os enormes estragos
que o Governo PSD-CDS fez ao país, que vão precisar de muitos
anos para compor.
Estragos inevitáveis, devido à bancarrota de Sócrates? Alguns
sim, mas na sua maioria não. Estragos feitos em nome de acabar
com tudo o que significou melhoria social, societal, cultural, de
direitos, conseguida depois do 25 de Abril. Até na legislação do
aborto se recuou para um mecanismo punitivo para as mulheres.
E é só esperar por uma vitória da coligação para tudo continuar
pior no dia seguinte. Ou será que Costa não sabe isto? Sabe, mas
deixou-se enredar nos malditos hábitos pomposos e «responsáveis» com que os costumes políticos portugueses continuam salazaristas. E depois há os interesses, do PS português, dos socialistas europeus, dos socialistas alemães que mandam nos socialistas
europeus.
Como estava escrito, sendo assim, a situação no PS só podia
deteriorar-se todos os dias. Costa partia de uma base lustral que
muito raramente alguém tem na política, o processo da sua eleição, e tem-se encarregado de a desbaratar, deitando quase tudo a
perder.
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Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
Há um aspeto da sua formação política que o prejudica, embora
como as coisas estão hoje, se não fosse isso dificilmente estaria à
frente do PS: Costa tem «aparelho» e segue muitas vezes a lógica
de quem o tem. Isso impede-o, mesmo quando tem uma visão
crítica do PS – que tem –, de perceber que partidos como o PS e
o PSD já há algum tempo que atingiram o princípio de Peter: não
estão à altura do que é exigido para a governação crítica dos dias
de hoje. Não têm pessoal, não têm massa crítica de competências,
não têm penetração social, têm um núcleo duro de eleitores e um
aparelho que atua em função dos seus próprios interesses.
É de menos quando se precisava de muito mais. Por isso, fraquejando Costa, ergue-se esse PS para quem os seus interesses,
vinganças, lugares e posições são mais importantes do que ganhar
as eleições ao PSD-CDS. O que se está a passar com as presidenciais é um bom exemplo, com uma parte do PS a patrocinar uma
candidatura alimentada pela coligação e seus comentadores.
Daqui a poucas semanas, António Costa enfrenta o seu destino manifesto e não pode falhar. Se ele perceber que só «virou»
as coisas com Seguro quando genuinamente se zangou com o
que ele dizia e insinuava, talvez ainda vá a tempo de «virar» a seu
favor este muito mais desigual combate. O país precisa de gente
zangada, indignada, furiosa com o estado em que Portugal está,
com as malfeitorias que têm sido feitas aos portugueses, com o
cinismo face aos desempregados, aos reformados, aos pensionistas, com a linguagem de divisão dos portugueses entre novos e
velhos, com os velhos a «roubarem» aos novos o seu futuro, com
a apologia da lei da selva no trabalho, com o desprezo colateral e
assistencial pela pobreza. São causas maiores e estes portugueses
estão sozinhos e correm o risco de ficarem invisíveis. É com eles
que se pode ganhar eleições a sério e mais ainda, mudar o que é
preciso. Se Costa passar ao seu lado, passa ao lado do destino que
deseja.
É por isso que tudo o que venha a ajudar conhecê-lo, em vésperas da decisão do voto, é importante. Publicado este livro de
Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo, a dias de uma campanha
eleitoral decisiva para Costa, podia tender ou para a hagiografia,
como as pseudo-biografias de Passos Coelho, ou para o libelo acusatório, como muita coisa que hoje se publica contra Sócrates.
Não é o caso, é um livro útil para se formar uma opinião sobre
António Costa.
O livro de Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo é um livro
de jornalistas, o que em si não é mal nenhum, mas que implica
características próprias. Valoriza a revelação, a «cacha». Vive dos
depoimentos mais do que dos documentos, privilegia a apreciação
opinativa e o testemunho pessoal, segue a cronologia política e
os «eventos», esses momentos de sobressalto na «narrativa», que
não têm todos o mesmo valor. Muitas vezes são apenas picarescos,
outras são «mediáticos», ou seja vivem da necessidade jornalística de novidade e quase sempre da desproporção entre a sua real
importância e a sua importância por um período de tempo muito
curto, até que o «monstro» precise de novo alimento. Os jornalistas usam esses «eventos» como reveladores da personalidade e
tendem à psicanálise.
No meio deste tipo de riscos, o livro de Ferrão e Figueiredo
consegue o equilíbrio, o que, nos dias de hoje, não é pouco.
José Pacheco Pereira
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INTRODUÇÃO
Esta é uma espécie de biografia. Feita contra a vontade do
biografado, António Costa, que, em fevereiro, na terça-feira de
Carnaval, depois de insistentes tentativas da nossa parte para lhe
explicarmos pessoalmente o projeto, nos comunicou, via SMS,
que não colaboraria nem aconselharia a colaboração às pessoas
que lhe perguntassem se o deviam fazer.
Só bastante mais tarde, numa conversa ao telefone, explicou
porquê, recorrendo às razões que, em julho, repetiria publicamente ao Jornal de Negócios: «Acho que não se fazem biografias
de pessoas no ativo e muito menos em período de campanha eleitoral. Porque ou são peças ridículas e de propaganda como aquela
que a assessora do PSD escreveu em nome do Primeiro-Ministro
ou são coisas de combate político, mas obviamente não são biografias.»
A partir do momento em que nos comunicou a sua não colaboração, foram desmarcadas algumas conversas que já tínhamos
combinado com pessoas que, de uma forma ou de outra, eram
importantes para traçar o percurso de António Costa. E ao longo
de todo o processo outras foram sendo recusadas. Sem autorização do próprio, tornou-se impossível, nomeadamente, consultar
os seus processos académicos, da primária à Faculdade.
Sabíamos que a falta de testemunhos na primeira pessoa se
notaria sobretudo no capítulo relativo à infância e juventude, mas
que seria uma constante ao longo de todo o livro. E ponderámos
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Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
se haveria condições para levar avante o projeto. A dúvida durou
pouco tempo. Acreditámos que as dificuldades seriam superáveis.
E a verdade é que o foram.
Se muitos não quiseram colaborar, outros fizeram-no com
gosto: Jorge Sampaio, António Guterres, Manuel Alegre, José
Vera Jardim, António Vitorino, Francisco Assis, Arons de
Carvalho, Vitalino Canas, José Magalhães, Marcelo Rebelo de
Sousa, Luís Marques Mendes, Paulo Portas, António Filipe,
Miguel Relvas, Ricardo Sá Fernandes, Fernando Negrão, Ruben
de Carvalho, para só citar alguns. E muitos outros falaram, mas
sob condição de manterem o anonimato. Com os seus depoimentos e tudo o que, ao longo destes anos, foi ficando escrito «na
pedra» (numa demonstração inequívoca do valor da imprensa),
foi possível reconstituir os 54 anos do percurso pessoal e político
do homem que disputa com Passos Coelho a hipótese de ser o
próximo Primeiro-Ministro de Portugal.
Sem pretensões de ser um retrato exaustivo, é um documento
que cremos útil para o leitor relembrar alguns episódios marcantes da vida do PS e do país e conhecer um pouco melhor uma das
figuras políticas que, seja qual for o desfecho das legislativas de
4 de outubro, já tem inegável papel na história recente do país.
Quisemos que fosse factual e objetivo. Foi a nossa única agenda.
Bernardo Ferrão
Cristina Figueiredo
CRONOLOGIA
17 de julho de 1961 – António Luís Santos da Costa nasce
em Lisboa, em São Sebastião da Pedreira, segundo
filho de Maria Antónia Assis Santos (jornalista) e
Orlando Costa (publicitário e escritor).
1962 – Divórcio dos pais. Segundo casamento da mãe,
com Vítor Palla.
1964 (e até 1971) – Completa a pré-primária e a primária
no Colégio Luso-Suíço.
1966 – Segundo divórcio da mãe.
1972 – Durante cinco semanas, assina uma coluna de crítica televisiva n’O Século Ilustrado (onde trabalha a
mãe).
1973 – Vai com a mãe a Itália. Em Milão, participam numa
manifestação de apoio a Salvador Allende (o Presidente socialista do Chile, derrubado por um golpe de
Estado liderado por Pinochet).
1974 – No dia 25 de Abril, não vai à escola (frequenta um
polo da escola secundária Francisco Arruda, no Conservatório Nacional); a mãe deixa-o em casa de uma
amiga que mora no Príncipe Real.
– Terceiro casamento da mãe, com Manuel Pedroso
Marques.
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Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
1975 – Inscreve-se na Juventude Socialista, na altura liderada por Alberto Arons de Carvalho.
1978 – Frequenta o liceu Passos Manuel (onde conhece
a mulher, Fernanda Tadeu, mas também Miguel
Portas e Manuel Monteiro, amigos que ficariam para
a vida).
– Em dezembro, no III Congresso da JS, é eleito para
a Comissão Nacional da organização.
– No Natal, viaja até Goa, com o pai e o irmão
(Ricardo, filho da segunda mulher do pai), pela primeira vez.
1980 – Entra na Faculdade de Direito de Lisboa.
1981 – Integra a lista encabeçada por Luís Patrão à liderança da JS, mas quem vence as eleições é Margarida
Marques.
1982 – Integra a lista conjunta (entre socialistas e comunistas) que vence as eleições para a Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa.
– Em dezembro, é eleito deputado (pelo PS) à Assembleia Municipal de Lisboa. Sê-lo-ia durante onze anos.
1983 – Volta a integrar a lista que vence as eleições para a
AAFDL (desta vez, os socialistas, liderados por José
Apolinário, concorrem sozinhos).
1984 – Integra a lista socialista à AAFDL (que é derrotada
por uma lista que junta PSD e CDS).
– Incentiva a candidatura de José Apolinário à liderança da JS – que vence as eleições contra Porfírio
Silva.
– Acompanha Arons de Carvalho e Luís Patrão às
reuniões do ex-Secretariado, no sótão da casa de
António Guterres, em Algés.
Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
1986/87 – Dirige a Revista da Associação Académica da
Faculdade de Direito de Lisboa.
1987 – Termina a licenciatura em Ciências Jurídico-Políticas, com média de 15 valores, e fica como monitor
na Faculdade.
– Aceita o convite da direção social-democrata da
AAFDL para ficar como consultor jurídico na associação.
– Faz o estágio com Jorge Sampaio e Vera Jardim, no
escritório onde é sócio o seu tio, Jorge Santos.
– Inscreve-se no mestrado de Estudos Europeus, da
Universidade Católica.
– A 31 de julho, casa com Fernanda Tadeu.
– Entra para o Secretariado do PS, convidado pelo
então secretário-geral, Vítor Constâncio.
1987/88 – Faz a tropa em Tavira, Sacavém e Lisboa.
– Trabalha no escritório e dá aulas à noite, na Faculdade.
– Volta a ser indicado para o Secretariado de Vítor
Constâncio.
1989 – Continua no Secretariado Nacional do PS, agora a
convite de Jorge Sampaio.
1990 – Nasce o primeiro filho, Pedro, a 24 de julho.
– É eleito líder da Federação do PS da Área Urbana de
Lisboa (FAUL).
1991 – É eleito deputado à Assembleia da República, pela
primeira vez.
1992 – Apoia a recandidatura de Jorge Sampaio à liderança
do PS (que a perde para António Guterres).
1993 – Nasce a filha, Catarina, a 16 de maio.
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Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
– Em dezembro, candidata-se à Câmara Municipal
de Loures e marca a campanha com a corrida entre
um Ferrari e um burro na Calçada de Carriche. Perde
as eleições para o comunista Demétrio Alves.
1994 – Em fevereiro, assume protagonismo, ao lado de
Vera Jardim, como advogado de Vuvu Grace, uma
cidadã angolana retida (com a filha de três anos) no
aeroporto, à chegada a Lisboa, por ser considerada
ilegal.
1995 – Em outubro, António Guterres convida-o para
secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares.
Suspende a inscrição na Ordem de Advogados.
1996 – Em janeiro, dirige a campanha presidencial de Jorge
Sampaio.
1997 – Em novembro, na sequência da demissão de António
Vitorino, sobe a ministro dos Assuntos Parlamentares e assume a tutela da Expo’98.
1999 – Em outubro, toma posse como ministro da Justiça
no segundo Governo de António Guterres.
2000 – Em dezembro, na sequência de declarações do
secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Ricardo
Sá Fernandes, sobre o funcionamento da Justiça no
caso Camarate, demite-se de ministro. Mas Guterres
convence-o a ficar. É Sá Fernandes quem sai.
2001 – Em dezembro, o PS perde as principais câmaras municipais nas eleições autárquicas. Guterres
demite-se para evitar que o país caia num pântano.
2002 – Em março, após a demissão de António Guterres e a
vitória do PSD de Durão Barroso nas eleições antecipadas, aceita o convite do líder do PS, Ferro Rodrigues,
para ser líder parlamentar.
Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
2003 – Em maio, tenta evitar, em vão, o levantamento da
imunidade parlamentar e a detenção do porta-voz do
PS, Paulo Pedroso, no âmbito do caso Casa Pia.
2004 – Aceita ser o número dois à lista do Parlamento
Europeu, encabeçada por António Sousa Franco.
Com a morte deste, em vésperas de eleições, passa a
número um. É eleito vice-presidente do Parlamento
Europeu.
– Ferro Rodrigues demite-se da liderança do PS
(depois de Sampaio dar posse a Santana Lopes
como Primeiro-Ministro, sem recurso a eleições
antecipadas, na sequência da ida de Durão Barroso
para a presidência da Comissão Europeia). Apoia a
candidatura de José Sócrates.
2005 – Em fevereiro, depois de Sócrates ganhar as legislativas antecipadas com maioria absoluta, interrompe
o mandato de eurodeputado para tomar posse como
ministro de Estado e da Administração Interna no
primeiro Governo socialista.
2006 – Em janeiro, morte do pai.
– Em março, é agraciado por Jorge Sampaio com a
Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.
2007 – Em julho, aceita interromper novamente o que está
a fazer e candidata-se às eleições intercalares para
a Câmara de Lisboa. Ganha a autarquia ao social-democrata Carmona Rodrigues.
2008 – Em abril, substitui Jorge Coelho na Quadratura do
Círculo.
– Em junho, participa, com Rui Rio, na reunião do
restrito e influente Clube de Bilderberg, a convite de
Francisco Pinto Balsemão.
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Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
2009 – Em setembro, vence novamente as eleições em
Lisboa.
2011 – Em abril, abandona o Secretariado, depois de ter
atingido o limite de mandatos consecutivos em cargos executivos no partido.
– Em junho, recusa ser candidato à liderança do PS,
na sequência da derrota de José Sócrates nas legislativas, e apoia a candidatura de Francisco Assis (que
seria derrotado por António José Seguro).
2012 – Em agosto, lança o livro Caminho Aberto, um
balanço de 20 anos de atividade política.
2013 – Em janeiro, admite ser candidato à liderança do PS,
mas acaba por reconsiderar e assinar um acordo de
tréguas (o «Documento de Coimbra») com António
José Seguro.
– Em outubro, vence novamente as eleições para a
CML, desta vez com uma maioria absolutíssima.
2014 – Em maio, na sequência do que considera ser uma
vitória curta do PS nas europeias, apresenta a candidatura à liderança do PS.
– Em setembro, vence Seguro nas primárias para
candidato do PS a Primeiro-Ministro, com quase
70 por cento dos votos de um universo de quase
200 000 militantes e simpatizantes.
– Em novembro, deixa a Quadratura do Círculo. É eleito
secretário-geral do PS no mesmo fim de semana em
que José Sócrates é preso preventivamente sob suspeitas de fraude fiscal, corrupção e branqueamento
de capitais.
2015 – A 1 de abril, deixa a presidência da Câmara Municipal
de Lisboa nas mãos do seu número dois, Fernando
Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
Medina, para se dedicar em exclusividade à liderança
do PS e à preparação das legislativas.
– A 4 de outubro disputa as eleições legislativas.
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·I·
FALSA PARTIDA
(29 de janeiro de 2013)
António Costa a entrar na sede do Partido Socialista para reunião com os membros do laboratório de ideias do
Partido Socialista, em Lisboa.
Luís Barra/Visão
Passam 56 minutos das zero horas do dia 30 de janeiro de
2013. A agência de notícias Lusa dá a notícia, perentória, sem
margem para dúvidas: «Costa diz que se candidata a líder do PS
porque é “impossível” entendimento com Seguro.» O texto não
podia ser mais assertivo: «O presidente da Câmara de Lisboa,
António Costa, justificou hoje a sua candidatura à liderança do
PS por ter concluído que o atual secretário-geral, António José
Seguro, “recusou” o desafio de promover a unidade do partido.
Esta posição, transmitida à agência Lusa por fonte próxima do
autarca da capital, foi assumida perante a Comissão Política
Nacional do PS.» Adiantava ainda: «António Costa considerou,
numa segunda intervenção na Comissão Política, que “é impossível” um entendimento.»
Duas horas e três minutos depois, surge a ANULAÇÃO:
«A Direção de Informação (da Lusa) informa os seus clientes que
anula a notícia acima referida por a segunda intervenção de António Costa não ter ainda ocorrido, tal como foi referido por fontes
contactadas pela Lusa e citadas na notícia.»
Exatamente uma semana antes dessa reunião da Comissão Política, Pedro Silva Pereira defendera a antecipação do Congresso do
PS. A reunião, a ocorrer na data ordinária, teria lugar no início de
setembro e as eleições autárquicas deveriam realizar-se no final
desse mês ou no início de outubro. Silva Pereira entende que o
calendário não faz sentido: «Se o PS antecipa um conjunto de riscos para a estabilidade política e se acha que é necessário acelerar
os calendários para estar preparado, então também conviria que o
Congresso pudesse realizar-se tão rápido quanto possível»,
justifica o ex-número dois de José Sócrates, numa entrevista à
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Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
Renascença, em que não esconde a crítica à liderança vigente:
«O PS precisa de fazer mais para se apresentar como uma alternativa credível.»
As palavras do ex-ministro da Presidência são interpretadas,
dentro e fora do partido, como um desafio à direção de António
José Seguro – que responderia, num desabafo que haveria de
ficar para a história, «Qual é a pressa?» – e reacendem a esperança entre os críticos do então secretário-geral. Desde junho de
2011 que o PS vivia naquele estado desconfortável de quem não
se sente bem na sua pele. Seguro era o líder de um partido que,
em larga medida, continuava a suspirar por outro. E o «outro» era
António Costa. Não avançara dois anos antes, mas podia avançar
agora.
A oportunidade tinha de ser agarrada com as duas mãos e as
movimentações não tardam. Rapidamente se levanta um coro de
vozes apoiando a proposta de Silva Pereira para que o Congresso
(leia-se, a disputa pela liderança) se realize o quanto antes. São
os casos de Vieira da Silva, Pedro Nuno Santos, João Galamba,
José Lello ou Ricardo Rodrigues. Não é o de Francisco Assis (que
acabaria ao lado de Costa), que entende que não é a altura própria
para dividir o partido: «Tínhamos autárquicas daí a pouco». Mas
Seguro acaba por não resistir à pressão interna e, mesmo contra
a opinião de alguns dos seus mais próximos (como João Assunção Ribeiro), marca para 29 de janeiro uma reunião da Comissão
Política (o órgão executivo do partido) para «análise da situação
política e preparação das eleições autárquicas».
À hora de almoço de 29 de janeiro, uma terça-feira, o site do
Expresso antecipa um «PS à espera de António Costa»; arrisca que,
«nesta fase, será já muito difícil que António Costa não avance,
pressionadíssimo que tem estado a ser pela ala socrática do partido». Apesar de ainda não haver certezas, na sede nacional do
PS, no largo do Rato, Seguro e o seu núcleo duro traçam cenários
para a longa noite que se aproxima (com início marcado para as
21h00) a contar com isso. Na véspera, alguém em quem Seguro
Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
depositava toda a confiança tinha estado com António Costa e
telefonara ao secretário-geral a avisá-lo: «O Costa vai ser candidato. Até já tem diretor de campanha, é o Jorge Lacão.»
Combinam quem falará à imprensa e o que dirá. O líder do
PS tece poucos comentários, mas ouve com atenção os que o vão
fazendo à sua volta: «Querem destruir o trabalho feito»; «temos
de ir à luta»; «as pessoas dizem que você é pouco combativo, este
é o momento de mostrar quem é». «Não havia dúvidas de que o
Costa ia avançar. A lógica deles era: “isto com o Seguro não descola”», recorda o então secretário nacional para a Organização,
Miguel Laranjeiro.
«Toda a gente passou a tarde ao telefone», lembra João Assunção Ribeiro. Contando espingardas, como se diz na gíria partidária. Boa parte dos telefonemas são para Braga, uma das federações distritais mais importantes, por onde Seguro é cabeça
de lista mas onde Costa tem valiosos apoios. Falta pouco mais
de uma hora para a reunião e ainda há contactos para fazer.
O líder socialista recusa sair para jantar – uma secretária há de
trazer-lhe qualquer coisa ao gabinete mais tarde. João Assunção
Ribeiro, Miguel Laranjeiro, Álvaro Beleza, Eurico Brilhante Dias
e António Galamba vão comer um prego rápido à cervejaria Real
Fábrica, ali perto, no início da rua da Escola Politécnica, e saem
antes de se darem conta dos últimos desenvolvimentos: às 18h54,
o Expresso noticiara que «António Costa convocou para as 19h00
de hoje uma reunião de urgência com a sua vereação na capital,
para os informar da sua vontade (de se candidatar à liderança
do PS).» Pouco depois, a SIC Notícias passa em rodapé: «Costa
avança.»
Quando voltam, os jornalistas já os esperam à entrada da sede;
pedem-lhes comentários, em direto para as televisões, ao que
estará prestes a acontecer. E um equívoco instala-se: ainda sem
saber das últimas, referindo-se apenas às exigências de antecipação do Congresso, Assunção Ribeiro fala de «deslealdade nunca
vista. Costumávamos assistir a isto no PSD, mas no PS não havia
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Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
registo histórico»; Laranjeiro também se refere a «deslealdade
em relação à direção do partido e em relação ao secretário-geral.
Há milhares de militantes a darem o seu melhor e não mereciam
isso». O termo «deslealdade» cai mal entre os «costistas»; um
deles, um dos mais próximos, envia, imediatamente, um SMS
a Laranjeiro: «Fica-te mal usar essa palavra. Cheira a desespero.
É uma questão de democracia interna. Resolve-se com votos.»
Entretanto, Pedro Morais Fonseca, o jornalista que acompanha
o PS para a Lusa, vive «horas horríveis», nas suas palavras. Tenta
confirmar o avanço de Costa, mas ninguém lhe dá a certeza absoluta. Os vereadores da CML contam-lhe que o ainda presidente
se limitara a informá-los da «possibilidade» de se candidatar à
liderança do PS, mas que a decisão não estava tomada.
Começam a chegar os membros da Comissão Política. António
Costa vem acompanhado de Francisco Assis e Ana Catarina Mendes, com quem jantara no coffee shop do Hotel Altis, não longe
dali. O quase-adversário de Seguro não abre o jogo: «Venho ouvir
o que o secretário-geral do PS tem para nos dizer. Em função do
que o secretário-geral disser, eu direi o que tiver para dizer. Mas
compreenderão que o diga primeiro aos meus camaradas.»
Os diários já não podem esperar mais. E no dia seguinte
haverá títulos para todos os gostos: «António Costa é candidato
a secretário-geral do PS» (jornal i); «António Costa avança para
Lisboa e para o PS» (Jornal de Negócios); «António Costa ataca liderança» (Correio da Manhã); «Costa mantém marcação a Seguro»
(Diário de Notícias); «António Costa só avança se Seguro não conseguir unir os socialistas» (Público); «Seguro faz peito; Costa
mantém o tabu» (Jornal de Notícias).
Seguro é quem preside à reunião, cabe-lhe a intervenção inicial. O seu discurso de 15 minutos é, de acordo com os relatos,
«muito duro», um «murro na mesa». «Não admito que nenhum
combate político seja condicionado por agendas pessoais, pela
mera ambição pessoal e pelo regresso ao passado», afirma o líder
socialista, anunciando a sua recandidatura ao cargo «em nome
Quem disse que era fácil? | Bernardo Ferrão e Cristina Figueiredo
de uma cultura muito própria do PS, que nada tem a ver com o
PSD – uma cultura de solidariedade, de respeito e de lealdade».
Costa fala a seguir. «O discurso estava claramente feito para ele
dizer que ia avançar, mas, a meio, vacila; há uma clara mudança
de tom», garante João Assunção Ribeiro. A única candidatura que
anuncia é a mais um mandato como Presidente da Câmara de Lisboa, o único desafio que dirige a Seguro é a que responda: «Consideras que és capaz de unir o partido ou vais fazer um congresso
a falar de deslealdade, sem assumir a história do partido e sem te
preocupares com a unidade do PS? Queres dividir ou queres unir
o PS?» A sua entourage (que, nos dias seguintes, não esconderia
a estupefação, para não dizer mesmo a desilusão) é claramente
apanhada de surpresa. Alguns dos seus apoiantes saem da sala.
Um deles, furioso, uma vez cá fora, desabafa em voz alta: «A mim
não me volta a enganar. Um borradito!»
Enquanto isso, o jornalista Morais Fonseca recebe vários SMS
de apoiantes de António Costa a assegurar-lhe que ele será candidato «se...». Ainda está a tentar alcançar o significado cabal do
pronome quando um último SMS lhe pede que esteja atento à
caixa de mail: «Vais receber uma coisa importante. Está atento».
Lá dentro, vêm os tópicos de uma segunda intervenção de Costa,
que teria acabado de acontecer. «Foi fazer copy/paste das frases;
arranjei rapidamente o texto e enviei-o.»
Na sala da reunião, Ricardo Pires, outro dos assessores de
imprensa do Rato, entrega um papel a Seguro. É o take da Lusa
onde se lê o que supostamente teria ocorrido. O secretário-geral
nem quer acreditar no que vê. Lê o texto em voz alta: «Só para
verem como isto está a ser posto lá fora», justifica. Costa, que
tinha ido à casa-de-banho, reentra a tempo de ouvir a leitura da
notícia e a pergunta que Seguro lhe dirige: «É esta a tua lealdade?»
O autarca perde as estribeiras: «Eu não te admito isso!» Nega com
veemência ter alguma coisa a ver com a informação libertada para
a Lusa – obviamente cedo demais, alguém demasiado ansioso.
O líder do PS levanta-se e vai ao seu encontro: «Então, vamos lá
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fora falar.» Há uma ameaça de contacto físico. O ambiente gela.
«Foi o momento mais tenso que alguma vez vi numa reunião do
PS», recorda Miguel Laranjeiro.
Descendo ao hall da sede nacional, onde se junta toda a comunicação social à espera de desenvolvimentos, Luís Bernardo e
Ricardo Pires vão tirar satisfações ao jornalista da Lusa. Aparecem «aos gritos» perante um estupefacto Morais Fonseca, que
redigira o texto na legítima presunção de que o que lhe chegara
da sala por SMS era um relato efetivo e não um wishful thinking.
Incrédulo com o que se passara, o jornalista protesta ao telefone
com a fonte, que o tenta tranquilizar: «Não há problema nenhum,
o Costa ainda não falou, mas vai já falar». «Sem perceber a gravidade da situação em que me tinha metido!», recorda Morais
Fonseca, que ainda há de demorar um par de horas até conseguir
anular o take: «A partir da 1h00 da manhã, a edição da Lusa é feita
diretamente de Macau. Mas uma “anulação” não pode ser feita
por Macau. Foi preciso encontrar um diretor, o que, já de madrugada, não foi fácil.»
Lá em cima, na reunião, o ambiente entretanto desanuviara.
Seguro usa da palavra novamente e, quando termina, é com
espanto que vê António Costa a aplaudi-lo. Pergunta-lhe se «é
sentido?» e dirige-se a ele para lhe dar um abraço. À imprensa,
o ex-quase candidato à liderança explicará o recuo com palavras
politicamente corretas: «O secretário-geral correspondeu muito
positivamente à proposta que eu apresentei e acho que foram criadas condições para trabalharmos todos para fortalecer a unidade
do PS.» Deixa subentendido que, na sua decisão, pesou a análise
do impacto no processo eleitoral autárquico de uma confrontação
que «neste momento, a todos os títulos, não era desejável».
«Ele ia avançar. A força do discurso de Seguro é que o descalçou, o deixou sem pé. Costa funciona bem quando tudo corre
como programado. Tem menos jogo de cintura do que é suposto,
perante os imprevistos», diz Laranjeiro. É também a teoria de
Assis, que confirma que, embora o prato forte do jantar dessa
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prefácio de antónio lobo xavier