Paróquia Nossa Senhora da Assunção Imaculada Conceição de Nossa Senhora – II Domingo Advento Em 08.12.2013 Liturgia: Gênesis 3,9-15.20 - Salmo 97(98) - Efésios 1,3-6.11-12 - Lucas 1,26-38 Homilia – Monsenhor Ademar Dantas Enquanto estava sentado, ouvia a palavra de Deus tão bem sentida, tão bem proclamada, tão entusiasmante para nós, que quero comunicar aos irmãos o que pensei. Agradeci a Deus a graça de estarmos aqui, todos os domingos, a esta hora, fazendo a festa da nossa fé. Nós não podemos aquilatar a profundidade de significado que tem, nós, filhos e filhas, nos reunirmos na casa do Pai para louvar e agradecer, e fazê-lo em Cristo, com Cristo e por Cristo, oferecendo, como se hoje fosse a primeira vez, o sacrifício da nossa salvação. Muito obrigado, Deus! Muito obrigado, Cristo, por esta oportunidade que nos é dada de, no dia do Senhor, estarmos aqui. Queridos irmãos e irmãs, eu quero dizer a vocês, três momentos da nossa pequena reflexão: Dois fatos tirados da palavra de Deus e uma reflexão também saída de lá. Antes, vejamos o que o Salmo nos fez cantar: “Cantai ao Senhor Deus um cântico novo porque Ele fez prodígios”. Não é um canto qualquer. Não é um canto repetido na rotina da fé - se é que a fé comporta rotina – mas é um canto novo. A novidade deste canto vem do prodígio já realizado. Ele fez está no passado - prodígios. Fez e faz. O cântico novo que nós somos convidados a elevar a Deus é motivado pelo grande acontecimento que ele realizou em nosso favor. Por isso esse canto é novo. Como novas são todas as coisas que foram bafejadas pelo sopro de Deus, pelo sopro do Espírito: “eis que farei novas todas as coisas”. Qual foi o prodígio que Deus realizou e que mereceu este cântico novo? Hoje a Igreja celebra a festa da Imaculada Conceição de Maria ou a Conceição Imaculada de uma menina chamada Maria, lá de Nazaré. Ela fora concebida no ventre de sua mãe, Ana, sem a marca do pecado da Eva primeira. Ela foi concebida assim para que Deus desse início ao projeto anunciado no Gênesis, quando ele constatou, quem sabe, com uma tristeza profunda (se é que Deus pode ficar triste) que o paraíso, o éden, não permaneceu como fora criado e as primeiras criaturas feitas à sua imagem e semelhança, resistiram, desfizeram essa imagem Sua refletida neles. O Gênesis diz: “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança - homem e mulher, os criou.” A palavra mulher, tão possuída de denotação e conotação negativa pela sociedade agora, significa capaz de gerar, destinada à maternidade, mãe. A palavra mulher significa acolhimento, multiplicação, geração de novos rebentos, de novos frutos. E Deus, naquele momento, disse à serpente, que encarnava todo mal, tudo que contrariava seu projeto primeiro: “eu vou fazer inimizade acontecer entre ti e a mulher, ruindade, maldade, malícia, pecado. Não disse qual seria esta mulher. Mas o desenrolar da história, e aconteceu no momento da plenitude do tempo – essa beleza de constatação paulina da carta aos Gálatas – “quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu filho nascido de mulher” – a mulher que lá negara, aqui será substituída. Deus preparou esta mulher, inimiga do mal, concebendoa sem mancha, sem pecado, sem resquício de resistência à sua pessoa, ao seu projeto. E, ali, na concepção imaculada de Maria, Deus criou uma nova Eva, uma nova mãe, uma nova mulher, uma nova pessoa capaz de multiplicar, de gerar novos filhos para Deus. Não podia ser pecadora aquela que deveria trazer O que tira o pecado do mundo. Não podia estar manchado do mal Aquele em quem não se encontra nenhum pecado, o Filho de Deus. Maria é a nova Eva. E naquele dia que jamais saberemos e teremos condições de avaliar a sua importância, o dia da Anunciação que nós celebramos a 25 de março de cada ano, quando na casa humilde de Nazaré o Anjo Gabriel chegou e Nossa Senhora era muito jovem. A menina judia, acostumada a saber das promessas que Deus fizera pelos profetas, estava lá. Então o Anjo a definiu naquele momento: “cheia de graça”. Meus irmãos, no ano passado eu dizia aqui: Não é uma peça cheia, como um copo está cheio. Não é assim. Gratia plena, que significa aquela em quem a graça não se contém porque é mais e explode. Uma explosão de graça que se derrama sobre a humanidade. Ave, cheia, plena, possuída de graça! O Senhor é contigo, Dominus tecum. O Senhor é convosco. O Senhor existe, coexiste em Ti. Lucas e Gabriel definem quem é Maria. A nova Eva não é alguém feita à imagem e semelhança de Deus. É alguém em quem Deus é. Deus está. Não apenas como o sopro nas narinas dos nossos primeiros pais, mas com a predileção, a eleição, a destinação dada àquela menina. O diálogo, nós conhecemos. Quando Maria questiona, Gabriel diz que para Deus nada é impossível. Está aqui a segunda afirmação que eu queria trazer para os meus irmãos e irmãs: “estou aqui como serva do senhor. A minha vida é para servir ao meu Deus. A minha existência só se explica porque eu quero louvar, servir, celebrar o meu Deus que em mim fez grandes coisas. Estou aqui. A serva do Senhor. Naquele momento, Nossa Senhora repete uma palavra que Deus pronunciara lá no Gênesis. Quando criou o mundo e nós disse faça-se. Disse façamos o homem a nossa imagem e semelhança. A menina disse faça-se em mim segundo a vossa vontade, Deus. É o faça-se segundo, da criação segunda. O primeiro à imagem, o segundo para recuperar a imagem perdida no pecado. Essa palavra de nossa mãe mudou a história. Mudou o rumo, o caminho da relação de Deus conosco. Porque Ele encontrou, preparando alguém que corresponde à sua palavra, ao seu sonho. Ele encontrou uma menina capaz de colocar-se a serviço do seu projeto: Maria de Nazaré. Não existe festa maior de Maria do que esta. Não existe possibilidade de fazermos uma festa a Nossa Senhora sem olhar para o filho que dela nascera, vindo do Espírito Santo que a cobrira com a sua sombra. E, como lá, na criação do Gênesis, o Espírito pairava sobre as águas, elemento, criatura geradora de vida, aqui o Espírito cobrira Nossa Senhora, para gerar aquele ser que é vida, o Filho de Deus. Diante deste fato, só existe para nós uma atitude: silenciar, agradecer e adorar. Paulo, escrevendo aos Efésios - e termino com essa reflexão paulina -, eu não sei se existe nos escritos de São Paulo, nós não podemos comparar, pois são escritos em circunstâncias diferentes, uma página tão inspirada quanto essa, ou se Paulo aproveitou a inspiração que lhe fora oferecida para suas cartas, mais do que aproveitou nesse texto de Efésios. Paulo volta a antes da fundação do mundo e, experimentando o zelo, o cuidado, a misericórdia, o carinho, a carícia da grandeza de Deus, Paulo vem nos dizer: “Ele nos abençoou com toda a bênção do Espírito em virtude de nossa união com Cristo”, união não que nós a produzimos, mas Ele a quis. Ele quis estar em comunhão conosco. Por isso, em Cristo Ele nos escolheu. Nós somos escolhidos, tomados a dedo por Deus, antes da fundação do mundo, desde sempre, na onisciência de Deus, nós somos escolhidos antes da fundação do mundo, para que sejamos santos, irrepreensíveis, imaculados. Deus, desde lá, sabia o que aqui iria acontecer. Aqui em Maria, aqui, na vida do seu Filho, Jesus. Deus escolheu Maria por isso. Maria provou para nós que é possível o pecado ser vencido. Provou quando se submeteu à vontade de Deus. Maria disse naquela fantástica página de Caná: “Fazei o que Ele disser. Ela provou que o pecado pode ser vencido. A nossa tarefa de cristãos filhos de Deus e filhos de Maria, aqui vou abrir parênteses para dizer que nós não somos uma família bastarda, metade, uma família com pai sem mãe, com mãe sem pai. Somos uma família inteira. Temos um pai e uma mãe que nos fazem ser uma família em Deus. Quando Maria pediu isso, Jesus nos constituiu uma família para que nós, de verdade, vivamos como irmãos. Irmãos que não se conformam de ver o outro menor, adoecido, excluído. De constatar o outro tripudiado, mal querido e mal tratado pelos outros membros da família. Irmãos que não se contentam, não ficam em paz, se ouvem alguém falar mal do seu irmão, se veem alguém fazer mal para o seu irmão. A família de Deus, constituída por Jesus no Pai, com um pai e uma mãe, é uma família de fraternidade, é uma família amorosa, é uma família em que o amor deve circular nas veias de todos para que todos estejamos em comunhão. Como entristece a igreja, como entristece Jesus, como entristece Maria – não entristece um pai dentro de casa ver um filho contra o outro, se digladiando, brigando? Como entristece. Como nos entristece não sermos ainda uma Igreja de irmãos. O papa Francisco tem dito isso sobejamente. Nosso Senhor nos ajude, a esta comunidade, a esta família paroquial a viver na imaculatez do amor de Deus e a amar o próximo, por intercessão da Virgem Maria. Foi isso que São Paulo nos disse.