Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciências Naturais, Belém, v. 1, n. 1, p. 127-137, jan-abr. 2006
Características químicas de um Gleissolo sob diferentes sistemas de uso,
nas margens do rio Guamá, Belém, PPará
ará
Chemical characteristics of a Gleysoil under different soil use systems
along the Guamá river banks in Belém, PPará
ará
Elessandra Laura Nogueira Lopes I
Antônio Rodrigues Fernandes II
Catherine Grimaldi III
Maria de Lourdes Pinheiro Ruivo IV
Tarcísio Ewerton Rodrigues V
Max Sarrazin VI
Resumo
Resumo: Foram estudados os efeitos do uso do solo sobre a fertilidade, em Gleissolo sob três diferentes sistemas de manejo.
As coletas foram feitas antes do período chuvoso nos seguintes sistemas de manejo: área cultivada com arroz (Oriza
sativa L.) há aproximadamente 40 anos, com algumas interrupções ao longo deste período, com o cultivo algumas
vezes mecanizado e uso de aração e gradagem; área sob pastagem de canarana erecta lisa (Echinochloa pyramidalis
Hitch.), formada há cerca de 20 anos sem uso de adubações ou calagens; e área sob vegetação natural de floresta
típica das áreas de várzea alta. As amostras de solo foram coletadas em dez pontos a partir de um transecto nas áreas,
em quatro profundidades 0-10, 10-20, 20-30 e 30-40 cm. Os resultados demonstraram que o solo em condições
naturais, de modo geral, apresentou atributos químicos que variaram de bons a muito bons, o que demonstra um
grande potencial para o uso agrícola. O cultivo agrícola dos solos das várzeas do rio Guamá provocou uma redução
da concentração de P e de K. O sistema de uso com pastagem apresentou maior sustentabilidade da fertilidade do
que o sistema sob cultivo com arroz, visto que, além da melhoria das características químicas, a matéria orgânica
elevou-se, também, em relação ao sistema natural.
Palavras chave
chave: Sistemas de manejo do solo. Características químicas. Fertilidade. Matéria orgânica.
Abstract
Abstract: The effect of the use of the soil on the fertility has been studied, in Gleyssoil under three different management
systems. Collections had been made before the rainy period in the following handling systems: rice (Oriza sativa L.)
plantation area, cultivated for approximately 40 years, with some interruptions in during this period. Some times the
culture was mechanized, with use of plowshare and harrow; pasture area with plantation of canarana (Echinochloa
pyramidalis Hitch.), cultivated for 20 years, without the use of fertilizers; and lowland area with natural vegetation. The
samples of soil were collected in ten points, set by using the transect methodology, to four depths 0-10, 10-20, 20-30
and 30-40 cm in each point. The results demonstrate that the soil under natural conditions, presented chemical
characteristics which insure to the soil a high potential for the agricultural use. The agricultural culture of the lowland soil
in the Guamá River provoked a reduction in the concentration of P and K. The soil usage system with pasture presented
better sustainability on it fertility than the system with rice cultivation, beyond the improvement of the chemical
characteristics and raise in the organic matter concentration, when related to the natural vegetation system.
Keywords
eywords: Soil handling system. Chemical characteristics. Fertility. Organic matter.
Universidade Rural da Amazônia. Doutoranda em Ciências Agrárias. Belém, Pará, Brasil ([email protected]).
Universidade Rural da Amazônia. Belém, Pará, Brasil ([email protected]).
III
Institut National de la Recherche Agronomique. Rennes, France ([email protected]).
IV
Museu Paraense Emílio Goeldi. Belém, Pará, Brasil ([email protected]).
V
Embrapa Amazônia Oriental. Belém, Pará, Brasil ([email protected]).
VI
Institut de Recherche pour le Dévelopment. Paris, France.
I
II
127
Características químicas de um Gleissolo sob diferentes sistemas de uso, nas margens do rio Guamá, Belém, Pará
INTRODUÇÃO
elevados (várzea alta) possam apresentar-se melhor
drenados (CURI; RESENDE; SANTANA, 1988).
A necessidade de aumentar a produção agrícola
brasileira resulta na expansão de áreas cultivadas, tanto
no meio rural quanto em áreas urbanas. Para isso, é
essencial o aproveitamento de áreas com potencial
agrícola e que ainda se encontrem pouco exploradas,
a exemplo das várzeas amazônicas. Os solos destas
várzeas podem apresentar uma maior ou menor
fertilidade em função da natureza dos sedimentos e
nutrientes aportados pelas águas dos rios.
Os processos de oxidação-redução que ocorrem
nos solos de várzeas alteram as características
químicas, inclusive a dinâmica dos nutrientes
(FAGERIA, 1989; PONNAMPERUMA, 1972).
Deste modo, sua utilização sem o devido
conhecimento de suas peculiaridades pode resultar
em sérios problemas à sustentabilidade dos
agroecossistemas. Ao serem submetidos a sistemas
de cultivos mais intensivos, podem apresentar
problemas relativos à fertilidade, com destaque para
a redução no conteúdo de matéria orgânica e
suprimento de nutrientes, principalmente N e P
(GUILHERME; CURI; GUEDES, 1989), apesar da
deposição de sedimentos. Além disto, aumentos das
concentrações de ferro e de manganês podem atingir
níveis tóxicos para as culturas (FERREIRA; MODESTO
JÚNIOR; BOTELHO, 1998; MORAES, 1973).
Entre as várzeas de grande importância para a região
amazônica, encontram-se as do rio Guamá, uma
vez que apresentam grandes possibilidades para
exploração intensiva com culturas de ciclo curto e
por situarem-se às proximidades de grandes centros
urbanos. Nestas várzeas a fertilidade natural é
renovada periodicamente pelo aporte de sedimentos
organo-minerais, proporcionando uma fonte
inesgotável de nutrientes para as culturas
(MASCARENHAS; MODESTO JÚNIOR, 1998).
O conhecimento das variações provocadas pelo uso
do solo nos atributos químicos constitui um
importante passo para que se possa empregar um
manejo mais adequado e contornar possíveis
limitações advindas de sua utilização.
Entre as principais culturas exploradas nestas várzeas
destaca-se o arroz ( Oriza sativa L.), cuja
produtividade atinge 4.500 kg ha-1, com casca, nos
primeiros anos de cultivo consecutivos e sem
adubação (LIMA; TOURINHO; COSTA, 2000). A
introdução de espécies forrageiras é outra
importante atividade desenvolvida com sucesso nos
solos de várzeas, pois espécies como a canarana de
Paramaribo (Echinochloa polystachya Hitch.) e a
canarana erecta lisa (Echinochloa pyramidalis Lam.)
têm apresentado rendimentos de 16.440 e 15.315
kg ha -1 ano -1 de matéria seca, respectivamente
(NASCIMENTO; CAMARÃO; SALIMOS, 1988).
Considerando a dimensão física territorial ocupada
pelas várzeas na Amazônia, aproximadamente 25
milhões de hectares de terras irrigáveis
(RODRIGUES; OLIVEIRA, 1996), com potencial para
expansão da fronteira agrícola, assim como as poucas
informações disponíveis sobre as alterações nas
características químicas promovidas pelo uso agrícola,
este trabalho tem como objetivo avaliar o impacto
causado nas características químicas de Gleissolos de
várzea alta sob diferentes formas de uso.
Este tipo de solo, por ser originado de sedimentos
com grande heterogeneidade quanto à composição
granulométrica e mineralógica, apresenta uma
diversidade muito grande de características químicas
(FAGERIA; BARBOSA FILHO; ZIMMERMANN,
1994). Uma característica dominante nestes solos,
entretanto, é a má drenagem ou hidromorfismo,
embora aqueles situados em terraços ou níveis mais
MATERIAL E MÉTODOS
As áreas de estudo ficam localizadas às margens do
rio Guamá no município de Belém, Pará. No
campus da Universidade Federal Rural da Amazônia
(UFRA) encontra-se área com cultura anual de arroz
128
Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciências Naturais, Belém, v. 1, n. 1, p. 127-137, jan-abr. 2006
(Oriza sativa L.) (1º 27’ 54’’ S e 48º 26’ 37’’ W) e área
sob vegetação natural (1º 27’ 09’’ S e 48º 26’ 12’’ W).
A área sob pastagem de canarana erecta lisa
(Echinochloa pyramidalis Hitch.) (1º 28’ 515’’ S e
48º 23’ 45’’W) está na fazenda Ilha Grande.
As amostras de solo foram coletadas em dez
pontos de um transecto em cada área, em 4
profundidades (0-10, 10-20, 20-30 e 30-40 cm).
Depois de secas ao ar, as amostras foram passadas
em peneiras com malha de 2 mm e levadas para
análise no laboratório
Segundo a classificação de Köppen, o clima da região
é do tipo Afi, que corresponde a climas tropicais
úmidos, sem estação fria e com temperatura média
do mês menos quente acima de 18ºC, onde a
menor precipitação mensal é sempre superior a
60 mm e o total pluviométrico é geralmente
superior a 2.000 mm (BASTOS, 1972, 1982).
As análises químicas do solo (pH em água 1:2,5 e
KCl, P extraível, K trocável, Na trocável, matéria
orgânica, Al trocável e Ca + Mg trocáveis) seguiram a
metodologia proposta pela Embrapa (1997). Al foi
extraído com solução de KCl 1 mol L-1 e o H+Al
com CH3COO2Ca 0,5 mol L-1 e determinados por
titulometria com solução de NaOH 0,025 mol L-1);
Ca + Mg (mesmo extrator do alumínio) foi
determinado por titulometria com solução de
EDTA 0,0125 mol L-1 ); P, Na e K foram extraídos
por Mehlich I (HCl 0,05mol L-1 + H2SO4 0,0125
mol L -1), sendo que o P foi determinado por
colorimetria (comprimento de onda 660 mm) e K
e Na foram determinados por fotometria de chama.
O solo das áreas de estudo é um Gleissolo Háplico
(EMBRAPA, 1999), que compreende a classe de
solos minerais, hidromórficos, pouco desenvolvidos,
apresentando horizonte glei (Tabela 1).
Foram coletadas amostras de solos em várzea alta,
antes do período chuvoso, nos três sistemas de uso
do solo: área com cultura anual de arroz que vem
sendo cultivada há aproximadamente 40 anos, com
pequenos pousios (dois a três anos) ao longo deste
período, cujo cultivo foi mecanizado por três a
quatro vezes, com uso de aração e gradagem ou
enxada rotativa; área sob pastagem de canarana
erecta lisa, formada a cerca de 20 anos, sem uso de
adubações ou calagens; e área sob vegetação natural
que corresponde a uma floresta típica das áreas de
várzea alta.
Os resultados obtidos foram submetidos à análise
de variância e as médias foram comparadas pelo
teste de Duncan ao nível de 5% de probabilidade,
utilizando o programa estatístico SANEST (ZONTA;
MACHADO, 1991). Foi determinada, ainda, por
regressão linear múltipla a capacidade de troca de
cátions (CTC) em função da argila e matéria
orgânica para avaliar a contribuição de cada fração,
tomando como referência a maior significância.
Como a contribuição significativa foi da argila,
determinou-se a CTC por quilo de argila, considerando
a CTC por dm-3 de solo e a densidade do solo.
O delineamento experimental foi o inteiramente
casualizado, em esquema fatorial 3x4 (3 sistemas de
uso do solo e 4 profundidades), com dez repetições.
Tabela 1. Caracterização granulométrica da camada de 0-40 cm, de Gleissolos do rio Guamá cultivado com arroz (SM1), com
pastagem (SM2) e sob vegetação natural (SM3) Belém, Pará.
Sistema de Manejo
SM1
AREIA
SILTE
ARGILA
GROSSA FINA
——————————— g kg-1 ——————————1,56
8,81
705,45
284,10
Classe textural
Franco-siltoso
SM2
2,21
6,84
602,62
389,77
Franco-argilo-siltoso
SM3
1,75
5,33
746,65
244,76
Franco-siltoso
Médias seguidas da mesma letra não diferem estatisticamente pelo teste de Duncan a 5% de probabilidade.
129
Características químicas de um Gleissolo sob diferentes sistemas de uso, nas margens do rio Guamá, Belém, Pará
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os valores do pH em KCl foram sempre inferiores
aos valores do pH em água em todos os sistemas
de uso e em todas as profundidades do solo
amostrado (Tabela 2). Este fato indica que nos
colóides predominam cargas elétricas negativas e
que a capacidade de troca catiônica é maior que a
aniônica (TOMÉ JÚNIOR, 1997; GAMA, 1998).
Os solos analisados apresentaram características
químicas significativamente diferentes, em função dos
sistemas de uso do solo e das profundidades.
Verificou-se que os solos nos três sistemas de manejo
estudados possuem acidez elevada, sendo que
ocorreu aumento do pH em água, em geral, com a
profundidade do solo, fato que pode estar
relacionado ao aumento dos cátions básicos no
mesmo sentido (Tabela 2).
Valores baixos de pH decorrem, em regiões de
clima tropical, do forte intemperismo das rochas,
devido às temperaturas elevadas e precipitações
abundantes que levam à lixiviação das bases
associadas. Outro fator a contribuir para os baixos
valores de pH é o elevado teor de óxidos de ferro
e alumínio nos solos (REICHARDT, 1985;
CARVALHO; COSTA, 1992).
Na área de cultivo do arroz, os valores de pH em
água foram significativamente menores em todas
as profundidades em relação aos demais sistemas
de cultivo, exceto para a camada mais superficial
(0-10 cm) e a mais profunda (30-40 cm). Tais
valores estão abaixo de 5 nas três primeiras
profundidades do solo amostrado, indicando solos
muito ácidos e que podem apresentar toxidez de
alumínio para várias culturas (Tabela 2).
No caso das áreas de várzeas em estudo, além
desses fatores, a alternância entre inundação (meses
de março e setembro) e vazante, o tipo do material
dos sedimentos, principalmente, o orgânico, podem
Tabela 2. Valores de pH em H2O e KCl, soma de bases (S), capacidade de troca de cátions (CTC), saturação por alumínio (m) e
matéria orgânica (MO) de um Gleissolo do rio Guamá cultivado com arroz (SM1), com pastagem (SM2) e sob vegetação natural
(SM3), em diferentes profundidades.
Sistema
de manejo
pH
H2 O
S
KCl
CTC
cmolcdm-3
m
%
MO
g kg-1
0-10 cm
SM1
SM2
SM3
4,48bC
4,52bC
4,69aC
10-20 cm
3,41bA
3,36bB
3,64aA
5,22bC
7,00aC
6,46aB
SM1
SM2
SM3
4,67bB
4,98aB
4,91aB
3,42aA
3,54aA
3,43aB
SM1
SM2
SM3
4,88bB
5,13aA
5,10aA
SM1
SM2
SM3
5,10aA
4,94bA
5,10aA
11,55bC
13,92aC
12,47bBC
34,94aA
24,07bA
21,35bB
34,62bA
54,95aA
52,48aA
5,64bC
11,70bC
12,71aB
17,43aB
6,26bB
11,59bC
20-30 cm
33,15aA
8,41cB
27,58bA
34,75abA
38,61aB
30,86bB
3,40bA
3,61aA
3,36bB
7,71bB
13,50bB
15,03aA
19,22aA
7,02bAB
12,94bAB
30-40 cm
27,23aB
7,37bB
28,89aA
25,36 aB
27,68 aC
24,55 aC
3,45abA
3,54aA
3,37bB
11,45bA
15,02aA
8,04cA
17,90bC
10,82cB
27,20aA
34,13aA
28,81abC
25,38bBC
16,59bA
19,69aA
13,85cA
Letras minúsculas comparam os sistemas de manejo e maiúsculas comparam as profundidades no sistema de manejo, pelo teste de
Duncan a 5%.
130
Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciências Naturais, Belém, v. 1, n. 1, p. 127-137, jan-abr. 2006
contribuir para uma estabilização do pH a valores
mais baixos (PONNAMPERUMA, 1972; LEON;
ARREGOCÉS, 1981).
(34,62g kg-1) na camada superficial (0-10 cm), diferindo
estatisticamente dos demais sistemas (Tabela 2).
Dificilmente um solo utilizado com agricultura e onde
ocorreu preparo convencional apresentará teores mais
elevados de matéria orgânica do que em condições
de não preparo do solo ou naturais. A diminuição do
teor de matéria orgânica em cultivos contínuos pode
ser atribuída à maior decomposição da matéria orgânica
humificada, por possibilitar maior mineralização, e ao
menor retorno de resíduos vegetais ao solo (JUO;
LAL, 1979). Outro aspecto que pode ter contribuído
para redução da matéria orgânica foi a destruição dos
agregados pelos implementos, que exporá a matéria
orgânica protegida fisicamente do ataque microbiano,
promovendo perda de carbono (CAMBARDELLA;
ELLIOTT, 1993).
A quantidade de bases e a capacidade de troca de
cátions apresentaram valores altos a muito altos em
todos os sistemas de manejo do solo, segundo índices
propostos por Ribeiro, Guimarães e Alvarez (1999).
Houve diferenças significativas, para estes atributos,
entre os sistemas de manejo estudado, apresentando
o sistema sob pastagem a maior soma de bases e a
maior CTC em todas as profundidades estudadas.
Os maiores valores da CTC no sistema sob pastagem
podem ser atribuídos aos maiores valores da matéria
orgânica nesse sistema. A matéria orgânica contribui
para formação de muitas cargas negativas no solo,
assim, a elevação dos teores aumenta a CTC (BAYER;
BERTOL, 1999). Além disto, o maior conteúdo de
argila no solo do sistema sob pastagem contribuiu
para o aumento da CTC, uma vez que a fração argila
é um importante componente da CTC do solo.
Os teores de matéria orgânica diminuíram com o
aumento da profundidade do solo em todos os
sistemas de uso do solo, exceção apenas no sistema
de arroz, onde a redução ocorreu apenas na camada
de 20-30 cm. A redução mais acentuada da camada
superficial para as subseqüentes é normal ou
esperada, pois está relacionada com a maior
deposição superficial dos resíduos vegetais e animais
(DERPSCH et al., 1991; LONGO; ESPÍNDOLA,
2000), assim como pela natureza superficial das
raízes das espécies nas áreas de várzeas.
Com o aumento da profundidade houve incremento
da soma de bases em todos os sistemas de manejo,
decorrente do acréscimo significativo da
concentração de magnésio.
A saturação por alumínio teve uma grande
variação ao longo do perfil em todos os sistemas
de manejo, apresentando valores de muito baixo a
médio (RIBEIRO; GUIMARÃES; ALVAREZ, 1999)
(Tabela 2). As maiores saturações por alumínio
ocorreram no sistema de cultivo com arroz, nas
camadas de 0-10 cm (34,94%) e 10-20 cm
(33,15%), com diferença significativa para os demais
sistemas. O sistema sob pastagem apresentou os
menores valores para saturação por alumínio a partir
da profundidade de 10 cm, fato decorrente da maior
soma de bases presentes na CTC do solo, ou, ainda,
a incorporação de material vegetal, inclusive verde,
através de animais (FRANCHINI et al., 1999), pode
ter contribuído para isto.
Na Figura 1, ao serem analisados os diferentes
sistemas de manejo como fonte ou depósito de
carbono, pode-se observar que o sistema de cultivo
com arroz provocou uma diminuição da quantidade
de carbono na camada em que houve maior
perturbação do solo (0-10 cm), indicando perda
do carbono. No entanto, nas camadas subseqüentes,
ocorreu uma acumulação do carbono superior a da
vegetação natural. Por outro lado, no sistema do
uso com pastagem, houve acúmulo de carbono no
perfil do solo, indicando que este sistema funciona
como depósito de carbono da atmosfera. Cabe
ressaltar que neste sistema o teor de argila do solo
é maior que nos demais, o que pode ter contribuído
para o maior acúmulo de carbono.
Pode-se observar que o sistema cultivado com arroz
apresentou os menores conteúdos de matéria orgânica
131
Características químicas de um Gleissolo sob diferentes sistemas de uso, nas margens do rio Guamá, Belém, Pará
Figura 1. Concentração de carbono orgânico (média e desvio padrão) e de fósforo disponível de um Gleissolo do rio Guamá cultivado
com arroz, com pastagem e sob vegetação natural em diferentes profundidades.
Pesquisas têm demonstrado que sistemas de uso
que perturbam ou degradam o solo funcionam
como fonte de carbono para a atmosfera (CORAZZA
et al., 1999; MACEDO, 1995; CAMBARDELLA;
ELLIOTT, 1993), enquanto que os sistemas que não
o fazem ou apresentam alto potencial produtivo
(pastagens) funcionam como depósito de carbono
(CORAZZA et al., 1999; LAL; KEMBLE; STEWART,
1995; FISHER et al., 1994).
alumínio (Al) trocável (Figura 2), que na forma de
óxido, conduz a uma severa fixação de P (ALVIM,
1982; DIAS FILHO; SERRÃO, 1987; VIEIRA,
1988). Segundo Vieira et al. (1993), outro fator
também a contribuir para a baixa concentração de
P disponível é a grande quantidade de óxidos
hidratados de ferro e manganês, o que pode indicar
que o íon fosfato está ligado a eles.
Os valores da acidez trocável (Al) e potencial do solo
revelaram-se de alto a muito alto (1,16 e 2,94 cmolc dm-3)
e médio a alto (4,19 e 6,92 cmolc dm-3), respectivamente,
de acordo com índices propostos por Ribeiro, Guimarães
e Alvares (1999). Constataram-se diferenças significativas
entre os sistemas de manejos e as profundidades do
solo (Figura 2). Menores valores de acidez trocável
ocorreram na área sob pastagem, principalmente
a partir da profundidade de 10-20 cm, que são
decorrentes das maiores concentrações de cátions
trocáveis presentes na CTC do solo. Fageria,
Barbosa Filho e Zimmermann (1994) constataram
correlações significativa e negativa da
concentração de Al com a soma de bases, em
vários solos de várzea do Brasil. Por outro lado,
o aumento expressivo de íons H + na camada
superficial proporcionou uma maior acidez
potencial na área sob pastagem.
Observou-se que as concentrações de fósforo (P)
apresentaram-se de muito baixa a baixa (RIBEIRO;
GUIMARÃES; ALVAREZ, 1999) em ambos os sistemas
de uso do solo (Figura 1). Os maiores valores foram
constatados no sistema sob vegetação natural
(10,60 mg dm-3), seguido do cultivado com pastagem
(7,69 mg dm-3), na profundidade de até 10 cm. No
solo sob cultivo do arroz houve uma redução acentuada
da concentração de P, na camada superficial. No entanto,
ocorreram reduções expressivas da concentração de P
com a profundidade em todos os sistemas de manejo,
proporcionalmente ao ocorrido com a matéria orgânica.
Tal fato pode ser explicado devido ao fato de mais de
50% do P total ocorrer na forma orgânica nos solos de
várzeas (SAH; MIKKELSEN; HAFEZ, 1989).
As baixas concentrações de P disponível nestes solos
podem estar relacionadas à alta concentração de
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Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciências Naturais, Belém, v. 1, n. 1, p. 127-137, jan-abr. 2006
Figura 2. Concentração (média e desvio padrão) de alumínio trocável e da acidez potencial de um Gleissolo do rio Guamá cultivado
com arroz, com pastagem e sob vegetação natural, em diferentes profundidades.
O maior valor de potássio (K) encontrado foi na
área sob vegetação natural (0,20 cmolc dm-3), com
valores propostos por Tomé Júnior (1997),
apresentando-se médio até a profundidade de
30 cm e baixo na profundidade de 40 cm (Figura 3).
No perfil estudado verifica-se que a utilização agrícola
diminuiu consideravelmente a concentração de K até
a profundidade de 30 cm Nos sistemas de uso com
arroz e com pastagem os valores foram baixos em
todo o perfil (Figura 3), podendo constituir-se em
limitação para a obtenção de elevadas produtividades
quando submetidos a uma exploração agrícola mais
intensiva. Fageria, Barbosa Filho e Zimmerman
(1994), estudando as características químicas de
dezoito solos de várzeas de diferentes estados
brasileiros, constataram concentrações de K que
variaram de 33 a 261 mg kg-1, na camada de 0-20,
com um valor médio de 124 mg kg-1, considerado
muito bom por Ribeiro, Guimarães e Alvares (1999).
Já os valores observados neste estudo variaram de
0,203 a 0,061 cmolc dm-3.
Guamá elevem-se no período de menor precipitação
pluviométrica, a concentração de Na no solo foi baixa
(0,68 cmolc dm-3), o que não provocará nenhum
efeito negativo para as culturas agrícolas.
As atividades agrícolas aumentaram a concentração
de Na no solo, possivelmente devido a menor
utilização do elemento pelas espécies cultivadas
(Figura 3). Embora o nível de Na nas águas do rio
A concentração de magnésio (Mg) variou entre os
sistemas de manejo, sendo a maior constatada na
área com pastagem (12,44 cmolc dm-3), o que pode
estar relacionado, em parte, ao efeito da incorporação
De acordo com valores estabelecidos por Ribeiro,
Guimarães e Alvares (1999), a concentração de cálcio
trocável encontrado no solo, pode ser considerada
média, independente do sistema de uso e da
profundidade do solo, exceto na área sob vegetação
natural, que a partir da profundidade de 10 cm
apresentou valores baixos (Figura 4).
Houve diminuição do cálcio (Ca) com o aumento
da profundidade na área cultivada com arroz e na
área sob vegetação natural, já para a área sob
pastagem houve um aumento significativo quando
comparado aos outros sistemas de uso do solo. Tal
fato pode ser justificado pelo enterrio do material
pela pata do boi e devido, em parte, ao efeito da
incorporação do esterco e urina animal (JORGE,
1985) ao longo dos anos de exploração desta área.
133
Características químicas de um Gleissolo sob diferentes sistemas de uso, nas margens do rio Guamá, Belém, Pará
Figura 3. Concentração (média e desvio padrão) de potássio (K) e sódio (Na) de um Gleissolo do rio Guamá cultivado com arroz, com
pastagem e sob vegetação natural, em diferentes profundidades.
Outro aspecto importante a destacar foi o aumento
da concentração de Mg com a profundidade do solo
em todos os sistemas estudados. Resultados
semelhantes foram constatados por Carvalho (1994)
em um Gleissolo de várzea do rio Guamá, campus
da Embrapa, Pará e por Pimentel e Chaves (1993),
ao estudarem um Gleissolo eutrófico do município
de Monte Alegre, Pará. Estes últimos autores
do esterco animal (JORGE, 1985) ao longo dos anos
de sua exploração (Figura 4). Os valores verificados
para o Mg são bastante elevados, independente do
sistema de uso e da profundidade do solo, fato que
pode estar relacionado à incorporação ao solo do
nutriente através da inundação pela água do rio
Guamá, na qual foi constatada elevada concentração
de Mg (LIMA, 1956).
Figura 4. Concentração (média e desvio padrão) de cálcio (Ca) e magnésio (Mg) de Gleissolos do rio Guamá cultivado com arroz, com
pastagem e sob vegetação natural, em diferentes profundidades.
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Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciências Naturais, Belém, v. 1, n. 1, p. 127-137, jan-abr. 2006
constataram, também, um aumento de cálcio (Ca)
em profundidade, o que poderia estar relacionado
ao deslocamento para a subsuperfície, devido ao
movimento descendente do lençol freático.
A capacidade de troca de cátion de um solo resulta
da proporção de seus diferentes colóides e de sua
natureza argilo-húmicos. No presente estudo foi
observado que os valores da CTC variaram de 37,03
a 56,69 cmolc kg-1 de argila, o que sugere a presença
nos solos, também, de argilomineral 2:1, como a
ilita (Tabela 3). Argilominerais 1:1, como a caulinita,
apresentam CTC que varia de 3-15 cmolc kg-1 de
argila, valores insuficientes para explicar a CTC
devido à argila, diferentemente dos argilominerais
2:1, que apresentam CTC bem mais elevada, a
exemplo da ilita, que varia de 20-40 cmol c kg -1
(SOLTNER, 1983).
Camarão e Marques (1995), ao avaliarem pastagem
nativa de terra inundável, em várzea alta de Belém,
Pará, encontraram 17,96 cmolc de Ca+Mg dm-3 de
solo, valor este maior que o encontrado neste trabalho
para a mesma profundidade. Isto implica dizer que há
na várzea alta um acúmulo destes nutrientes, o que
pode estar relacionado à qualidade dos sedimentos
depositados, os quais, em parte, são oriundos da
cordilheira dos Andes e atingem as águas do rio Guamá
via furo de Breves (LIMA; TOURINHO; COSTA,
2000), o que sugere a necessidade de pesquisas
limnológicas, geomorfológicas e geológicas dirigidas
para melhor entendimento da origem da colmatagem
dos sedimentos nestas várzeas.
CONCLUSÕES
O solo em condições naturais, de modo geral,
apresentou atributos químicos que variaram de bons
a muito bons, o que demonstra um grande potencial
para o uso agrícola.
Ao ser analisada a contribuição das frações argila e
orgânica para a capacidade de troca de cátions (CTC),
através de regressão linear múltipla, obteve-se a
seguinte equação: CTC = 6,549 + (0,0299Arg) (0,0247MO), com probabilidade menor do que
0,001 para argila e probabilidade de 0,155 para
MO. Tal resultado sugere que a variação do teor de
argila explica melhor a alteração da CTC, ou seja, a
argila tem maior contribuição para a CTC deste solo
do que a matéria orgânica.
O cultivo agrícola dos solos das várzeas do rio
Guamá provocou uma redução da concentração de
P e de K.
O sistema de uso com pastagem apresentou maior
sustentabilidade da fertilidade do que o sistema sob
cultivo com arroz, visto que, além da melhoria das
características químicas, a matéria orgânica também
se elevou em relação ao sistema natural.
Tabela 3. Capacidade de troca de cátions (CTC), devido à argila, de Gleissolos do rio Guamá cultivado com arroz (SM1), com
pastagem (SM2) e sob vegetação natural (SM3), em diferentes profundidades.
Profundidades
Sistema de Manejo
SM1
SM2
CTC, cmolc kg-1 de argila
SM3
0-10 cm
51,30
51,46
53,71
10-20 cm
53,17
40,76
49,16
20-30 cm
43,73
39,69
56,43
30-40 cm
43,41
37,03
56,69
135
Características químicas de um Gleissolo sob diferentes sistemas de uso, nas margens do rio Guamá, Belém, Pará
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Recebido: 17/08/2004
Aprovado: 14/11/2005
137
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