Exmo Senhor Prof. Carmona Rodrigues Presidente da Câmara Municipal de Lisboa Paços do Concelho 1149 – 014 Lisboa Lisboa, 6 de Janeiro de 2005 CC: Planeamento Urbanístico e Reabilitação Urbana (CML) – Veread. Eduarda Napoleão Direcção Municipal de Conservação e Reabilitação Urbana – Drª Mafalda M. Barros Pelouro do Trânsito e Infra-estruturas Viárias (CML) – Vereador António Monteiro Director do Dep. de Segurança e Tráfego da CML – Dr. Álvaro de Araújo e Castro Presidente do IPPAR – Arq.º João Belo Rodeia Director Regional do IPPAR – Arq.º Flávio Lopes Direcção Regional dos Monumentos de Lisboa – Arq.º Manuel Seleiro Presidente da República – Dr. Jorge Sampaio Primeiro Ministro – Dr. Pedro Santana Lopes Ministro das Finanças – Dr. Bagão Félix Ministro da Cultura – Drª Maria João Bustorff Reitor da Universidade Nova de Lisboa – Prof. Leopoldo Guimarães Centro Nacional de Cultura – Prof. Guilherme de Oliveira Martins Cardeal Patriarca de Lisboa – D. José Policarpo Bispo Auxiliar de Lisboa – D. Manuel Clemente Assuntos: 1. Acessibilidade à Igreja Paroquial de Santo António de Campolide 2. Degradação do imóvel classificado como edifício de interesse público 3. Espaços envolventes «Há quem julgue que nos venceu só porque estamos para aqui famintos e nus, de novo sem terra nem céu, a apanhar do chão, às escondidas do luar, os frutos podres caídos dos ramos. Mas não. Temos ainda uma arma de luz para lutar: SONHAMOS. (…) Sim, sonhamos. E o sonho, quem o derrota?» José Gomes Ferreira Ex. mo Senhor Presidente, Poderá, porventura, parecer-lhe estranho iniciar um documento oficial com poesia, mas quando vir desfilar um sem número de referências a ofícios e a datas, certamente compreenderá que só o sonho e a linguagem dos poetas exprimem o que sentimos, como vivemos e a coragem que necessitamos para empreender a luta do quotidiano. 1. Acessibilidade à Igreja Paroquial de Santo António de Campolide Para melhor compreensão da questão da acessibilidade à Igreja Paroquial de Santo António de Campolide, descrevem-se os acontecimentos relativos ao espaço envolvente desta Igreja, por ordem cronológica. Assim: 2 • A Igreja foi, originariamente, a Capela do Colégio de Campolide, da Companhia de Jesus, erigido nos finais do século XIX e princípio do século XX. • Com a Lei da Separação e a expulsão das ordens religiosas, o Estado apropriou-se do Colégio e da Igreja, que foram entregues ao foro militar. • Até há alguns anos funcionou no Colégio o Batalhão de Caçadores 5. • A própria Igreja serviu de depósito farmacêutico militar até 1938. • Nesse ano, o templo foi entregue, a título precário (situação que ainda hoje se mantém) à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e Senhor Jesus dos Passos e foi então criada a Paróquia de Santo António de Campolide. • No início da década de 90, o Colégio e a sua área foram cedidos à Universidade Nova de Lisboa, que aí instalou as Faculdades de Economia e Direito – e mais recentemente, a Reitoria – fazendo obras de beneficiação e jardinagem. • A Universidade, com a ampliação das suas instalações, veio aumentar abruptamente o número de veículos e transeuntes na Travessa de Estêvão Pinto, que é estreita, não permite a circulação de dois veículos ao mesmo tempo, não tem passeio nem qualquer outra possibilidade de os transeuntes circularem em segurança. • A própria Paróquia não dispõe de qualquer espaço de estacionamento, com todas as complicações que isto implica, para a celebração dos Sacramentos de Baptismo, Casamento, Eucaristia e, sobretudo, de funerais. Sublinhe-se, também, todos os esforços, por ordem cronológica, por parte da Paróquia e da Irmandade, para a resolução desta situação, desde 1984. Deste modo, em: • 19 de Março de 1984 – ofício dirigido ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. • 5 de Setembro de 1984 – ofício dirigido à repartição do património da Direcção do Serviço de Fortificação e Obras do Exército. • 11 de Janeiro de 1985 – ofício dirigido ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa • 21 de Julho de 1992 – ofício dirigido ao Ministro da Defesa Nacional, Dr. Joaquim Fernando Nogueira. • 24 de Fevereiro de 1993 – ofício dirigido ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Jorge Sampaio. 3 • 28 de Fevereiro de 1994 – ofício dirigido ao Vereador do Pelouro do Tráfego da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Machado Rodrigues. • 26 de Novembro de 1999 – ofício dirigido ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. João Soares, com conhecimento ao Vereador do Pelouro do Tráfego, Dr. Machado Rodrigues, e ao Presidente da Junta de Freguesia de Campolide, Sr. Carlos Rodrigues dos Santos. • 6 de Dezembro de 2000 – Ofício dirigido ao Chefe de Gabinete do Senhor Ministro da Defesa Nacional. • 21 de Março de 2002 – ofício dirigido ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Pedro Santana Lopes, cuja resposta passamos a citar: “o assunto foi remetido para o Gabinete do Sr. Vice-Presidente da C.M.L., Prof. Doutor António Pedro Carmona Rodrigues, e aos gabinetes dos senhores vereadores dos pelouros competentes, Dr. Pedro Pinto e Dr. Henrique de Freitas, que lhe darão o andamento mais adequado”. (ofício GAP nº 1640). Acrescente-se, ainda, à questão da acessibilidade o facto de ter sido solicitado ao Departamento de Tráfego da CML, do qual era responsável o Engº Manuel Vieira, em ofício de 19 de Fevereiro de 2002 (entrada nº 02/64736), a colocação de sinalização vertical. Ofício este que, até à data, não teve qualquer resposta, e a sinalização para informação de veículos e transeuntes, pelo que é dado ver, também não foi colocada. 2. Degradação do imóvel classificado como edifício de interesse público Para melhor compreensão da importância deste imóvel, refira-se que: Encontra-se classificado como edifício de interesse público a “caixa de escadas e galerias anexas de circulação do antigo Colégio de Campolide da Companhia de Jesus” e a “Capela anexa do antigo edifício do Colégio de Campolide da Companhia de Jesus, com acesso pela Travessa de Estêvão Pinto, Lisboa, freguesia de Campolide” tendo sido a homologação publicada em Diário da República, a 30 de Novembro de 1993, série I B, pelo Dec. nº 45/93. O parecer que dá origem à homologação é de 12 de Agosto de 1980 e refere que “é uma boa e harmoniosa construção dos fins do século XIX, que merece pelas suas características arquitectónicas a classificação de imóvel de interesse público”. 4 Diligências efectuadas para travar a degradação do imóvel: • 5 de Março de 2002 – carta enviada ao Dr. Luís Ferreira Calado, Presidente do IPPAR. • 5 de Março de 2002 – carta enviada ao Arquitecto Máximo Lapão, director regional do IPPAR. • 16 de Fevereiro de 2004 – ofício enviado à Direcção Regional dos Monumentos de Lisboa, ao Arquitecto Manuel Seleiro. • 18 de Fevereiro de 2004 – ofício enviado à Direcção Municipal de Conservação e Reabilitação Urbana, à Drª Mafalda Magalhães Barros. Poderia continuar a elencar, neste capítulo, mais datas e, com elas, um sem número de ofícios … Todavia, tudo isso tem sido inútil para fazer parar a degradação, cada vez mais acentuada, deste imóvel. Desejo apenas, neste momento, acrescentar que o diálogo ao longo do ano de 2004 – com o contributo, a nível paroquial, do Dr. Rodrigo da Câmara Borges – com a Direcção Regional dos Monumentos de Lisboa, na pessoa do Arquitecto Manuel Seleiro e da sua equipa (que efectuaram diversas visitas ao imóvel), bem como com a Direcção Municipal de Conservação e Reabilitação Urbana, na pessoa da Drª Mafalda Magalhães Barros, tem sido cordial e atento, contudo ineficaz. Ainda não se passou à acção. Este impasse é tanto mais lamentável, quanto o imóvel em apreço se encontra registado a favor do Estado português (Ministério das Finanças – pelo menos, é essa a informação que possuímos da Direcção Geral do Património, desde 14 / 02 / 2001, em informação enviada pelo seu Director Geral, Issuf Ahmad e sub-directora geral, Ana Maria de Andrade Tavares, em ofício 26-LFE-L-4) e é edifício classificado, pelo IPPAR, de interesse público, desde 1993. Acrescenta-se, também, em jeito de informação, que a resolução do impasse jurídico referente ao título precário do imóvel em relação à Irmandade, que se arrasta desde 1937, e para o qual se buscou solução com carta endereçada pelo Patriarca de Lisboa ao Senhor Ministro das Finanças, em 25 de Julho de 2001 e a mesma ao Senhor Primeiro Ministro em 8 de Agosto de 2001, continua a não ter resolução. A Irmandade espera, assim, há 68 anos que lhe seja feita justiça. 5 3. Espaços envolventes Não posso deixar de dizer, também, uma palavra a propósito do espaço circundante da Igreja Paroquial. Se do lado da Universidade Nova de Lisboa nos deparamos com um espaço cuidado, ajardinado e agradável, do lado da Travessa Estêvão Pinto começa o absurdo: Na Rua de Campolide e Avenida Miguel Torga, nalguns dos seus troços, proliferam verdadeiros parques de sucata de carros abandonados. Deparamo-nos com oficinas de aspecto “manhoso”, de alvará duvidoso, onde se utilizam, quantas vezes a céu aberto, produtos altamente tóxicos. Isto acontece na proximidade de uma Universidade, com milhares de alunos, de Escolas de Ensino Básico, com centena e meia de alunos, – Querubim Lapa, Escola nºs 13 e 80 – e de um Jardim de Infância (do Centro Social Paroquial de Santo António de Campolide), com dezenas de meninos e meninas. Tudo isto perante a aparente passividade das autoridades e organismos competentes. Junte-se, ainda, a este quadro, uns quantos cães, gatos, pombos e ratazanas e percebemos, finalmente o uso da palavra “absurdo”. Esta situação é tanto mais clamorosa quanto esta zona da cidade tem sido e continua a ser objecto, por um lado, de processos de reabilitação urbana e, por outro, de implementação de condomínios de alta qualidade. Esta situação é tanto mais vergonhosa quanto, é pela Travessa Estêvão Pinto que têm de circular diariamente centenas de alunos, professores e funcionários da Universidade Nova de Lisboa. Não deixe de se dizer, também, que é por este cenário que têm que passar todos os estrangeiros que visitam uma universidade estatal. Esta situação é tanto mais incompreensível quanto a Travessa Estêvão Pinto é o único acesso à Igreja Paroquial de Santo António de Campolide… Já bastaria a degradação do imóvel e, com ela, o absoluto desconforto celebrativo, e os paroquianos ainda têm de ser confrontados com o nojo indizível do espaço envolvente. 6 Comecei esta carta com uma referência poética. Prestes a terminá-la, deixo ainda um outro texto, do qual desconheço a autoria, mas que me parece oportuno para sublinhar que existem muitos, neste atribulado percurso, que não estão a fazer a sua parte. Aliás, a história da nossa cidade encarregar-se-á de amassar com ela, a título individual ou institucional, os nomes daqueles e daquelas que detiveram poder de decisão e que por ela nada fizeram. «Era uma vez um Beija-Flor que fugia de um incêndio juntamente com todos os animais de uma floresta. Só o Beija-Flor fazia uma coisa diferente: apanhava gotas de água de um lago e atirava-as para o fogo. Um outro animal, intrigado, perguntou: - Beija-Flor, achas que vais apagar o incêndio com essas gotas? - Concerteza que não – respondeu o Beija-Flor – mas estou a fazer a minha parte.» Em anexo remeto suporte fotográfico do estado actual de degradação do imóvel. «Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar …» Certo do sentido de justiça de V. Exª e do interesse da edilidade a que preside em valorizar o património que herdámos, ouso solicitar os seus bons ofícios, no sentido de, finalmente, ser possível mudar o rosto da cidade em que habitamos e que desejamos construir. Com os melhores cumprimentos, subscrevo-me atenciosamente, O Pároco Pe. João Manuel Pedro Nogueira 7