FORMAÇÃO DE RECURSOS HUMANOS PARA A ATENÇÃO INTEGRAL ÀS
MULHERES IDOSAS
Célia Pereira Caldas
Uma farta literatura gerontológica demonstra que existem abordagens
diferenciadas para idosos na faixa etária entre 60 e 69 anos e para os idosos
acima de 80 anos, como também para idosos do sexo masculino e para os do
sexo feminino. De acordo com Veras et al (2008), Até o ano 2025 uma grande
proporção da população será idosa e serão, em sua maior parte, mulheres,
pelo fato de terem uma expectativa de vida maior. No entanto, embora vivam
mais do que os homens, apresentam maior morbidade. Desta forma, durante
as próximas décadas, as necessidades de saúde das mulheres deverão ter
cada vez mais importância.
É bem maior o número de mulheres entre os idosos, do que entre a
população em geral. A Síntese de indicadores sociais do IBGE (2008)
confirmou que o número de mulheres é superior ao de homens tanto no total do
País quanto nas áreas urbanas, enquanto nas áreas rurais há mais homens
que mulheres. No total do país, havia em 2007, 79 homens para cada 100
mulheres idosas de 60 anos ou mais. No grupo de 65 anos ou mais, eram 76
para cada 100, chegando a apenas 72 homens para cada 100 mulheres, na
faixa de 70 anos ou mais. Nas áreas rurais, a razão de sexo era de 107
homens para cada 100 mulheres, enquanto nas áreas urbanas, era de 75
homens para cada 100 mulheres. A região Sul possui a maior diferença entre
os sexos, (67 homens para cada 100 mulheres), seguida de perto pelo Sudeste
(69 homens para cada 100 mulheres). Esses números resultam da migração
rural/urbana feminina ser superior a masculina (as idosas dirigem-se com maior
freqüência às cidades para residir com filhos/netos ou parentes) e pelo fato dos
homens terem maior presença em atividades tipicamente rurais.
Tal diferença é explicada pelos diferenciais de expectativa de vida entre
os sexos. Em média, as mulheres vivem oito anos mais que os homens. O
significado social da idade está profundamente vinculado ao gênero e a
feminização da velhice traz implicações sociais. Grande parte das mulheres é
viúva, vive só, não tem experiência de trabalho no mercado formal, tem menor
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nível educacional que os homens. No entanto, tanto a velhice quanto a viuvez
podem representar certa independência ou mesmo trazer a possibilidade de
autorealização.
O envelhecimento é um processo multidimensional. Além da dimensão
biológica, envolve a dimensão social, a psicológica, a funcional, entre outras
dimensões. Em termos biológicos compreende os processos de transformação
do organismo que ocorrem após a maturação sexual e que implicam a
diminuição gradual da probabilidade de sobrevivência. Portanto, diferente do
homem, com a menopausa a mulher vivencia marcantemente o início do
processo de envelhecimento biológico.
A Menopausa é um evento natural na vida da mulher. Trata-se da sua
última menstruação. Após um ano sem menstruar, a mulher é considerada
menopáusica, o que ocorre entre 40 e 56 anos (em média, aos 51 anos).
Muitas mulheres sentem alterações antes do seu último ciclo e 1% a vivenciam
antes dos 40 anos.
De acordo com a Sociedade Internacional de Menopausa (2007), a
mulher começa a apresentar alguns sintomas que variam em duração e
intensidade dois a oito anos antes da menopausa. Trata-se da Peri
menopausa, que é o período que precede a menopausa. Neste período as
mulheres
podem
apresentar
irregularidade
nos
períodos,
fogachos,
ressecamento vaginal e distúrbios do sono.
Após a última menstruação, os ovários param de produzir os hormônios
femininos- estrogênio e progesterona, os ciclos se tornam irregulares e param.
No entanto, os ovários continuam a produzir testosterona em quantidades
limitadas. Podemos citar como vantagens da menopausa não haver mais o
risco de gravidez e a resolução de muitos problemas ginecológicos:
menorragia, dismenorréia, endometriose, etc. Mas particularmente devemos
destacar que é uma oportunidade para a mulher otimizar a sua saúde. Trata-se
do início de uma nova fase de vida, que pode ser, inclusive, a melhor fase da
vida da mulher pela possibilidade de viver plenamente a maturidade alcançada.
As principais conseqüências da perda dos hormônios femininos são a
ocorrência de fogachos, suores noturnos, alterações vulvares, vaginais e
vesicais, osteopenia/osteoporose e alterações no metabolismo do colesterol.
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Não há evidências claras de que a menopausa leve a mudanças de humor,
alterações cognitivas e alterações na sexualidade.
O risco de depressão e ansiedade não aumenta após a menopausa,
sendo que episódios severos de fogachos estão mais frequentemente
associados com alterações de humor e 70% das mulheres que reportam
depressão apresentam este sintoma. O estrogênio pode melhorar a depressão
em mulheres menopáusicas, mas a razão deste efeito não está bem explicada.
Por outro lado, o efeito da menopausa e da perda de estrogênio na função
cognitiva não está clara. A perda de estrogênio está associada com a
diminuição da memória de curto prazo e da fluência verbal e a terapia hormonal
pode desacelerar o processo da doença de Alzheimer, mas aumenta o risco de
AVC.
A libido e a capacidade de atingir o orgasmo diminuem com a idade; no
entanto, 60% das mulheres se mantém sexualmente ativas aos 70 anos. Por
outro lado, a maioria das mulheres que apresentam disfunção sexual relata que
já tinham pouca satisfação sexual com seus parceiros antes da menopausa. No
entanto, a reposição de estrogênio aumenta a libido em 50%. Os níveis de
testosterona não mudam após a menopausa, mas junto com a reposição de
estrogênio, ajuda a melhorar a libido. Na verdade, os melhores preditores de
satisfação sexual após a menopausa são bem-estar geral e atividade física.
Mudanças no estilo de vida são as principais medidas de promoção da saúde
nesta fase da vida da mulher. A Atividade física é a mais importante destas
medidas, por todos os benefícios físicos e mentais dela advindos. Para as
mulheres que mantém o hábito de fumar, sua suspensão é fundamental nesta
fase. As mudanças na alimentação devem incluir o aumento o consumo de
frutas, vegetais, baixa ingestão de gordura animal e aumento de grãos
integrais. Devido à maior propensão ao acúmulo de gordura corporal nesta fase
é fundamental o controle do peso.
Quanto
aos
sintomas,
o
tratamento
clássico
é
usar
estrogênio+progesterona para os fogachos, sintomas vaginais, sintomas
urinários e para prevenir perda óssea. No entanto, recentes estudos limitam o
uso prolongado de hormônios após a menopausa. As opções de tratamento
devem ser dirigidas para cada sintoma. É necessário que a mulher aprenda a
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administrar os episódios de fogachos, pois existem poucas medidas eficazes
para controlar este sintoma. Como mulheres deprimidas tendem a ter este
sintoma ampliado, o uso de antidepressivos pode melhorar. Recentes estudos
mostram que o uso de soja/fitoestrógenos não é eficaz. De qualquer forma, a
reposição hormonal deve respeitar sempre a regra da menor dose efetiva pelo
menor tempo necessário. O ressecamento vaginal pode ser resolvido com o
uso de lubrificantes e estrogênio vaginal. Para os sintomas urinários,
recomendam-se os exercícios de Kegel, o estrogênio vaginal, fisioterapia e
cirurgia.
A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (2009)
apresenta como uma de suas diretrizes atingir as mulheres em todos os ciclos
de vida, resguardando as especificidades das diferentes faixas etárias e dos
distintos grupos populacionais. Implantar a atenção à saúde da mulher no
climatério e promover a atenção à saúde da mulher na terceira idade são
objetivos definidos na PNAISM. Como estratégia para atingir tais objetivos se
pretende ampliar o acesso e qualificar a atenção às mulheres no climatério na
rede SUS e incluir a abordagem às especificidades da atenção a saúde de
mulher na política Nacional de Atenção à Saúde da Pessoa Idosa.
As diretrizes, objetivos e estratégias da PNAISM estão em consonância com as
recomendações da 2a. Assembléia Mundial sobre o Envelhecimento (Madrid,
2002), que apontam a necessidade de expandir a educação profissional para
qualificar a atenção ao idoso, com a inclusão de treinamento interdisciplinar,
formação básica e especializada sobre saúde do idoso, estabelecimento de
programas de educação contínua para profissionais e cuidadores e estimular o
aumento de estudantes na área do envelhecimento.
A Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (2006) tem como uma de
suas diretrizes a formação e educação permanente de RH especializados
(profissionais) do SUS na área de saúde da pessoa idosa e o apoio a estudos e
pesquisas. Preconiza também a inclusão nos currículos de disciplinas que
abordem o processo do envelhecimento, valorizando a pessoa idosa e
divulgando medidas de promoção e prevenção em todas as faixas etárias; a
adequação dos currículos, metodologias, material didático e programas de
ensino visando ao atendimento das diretrizes desta política; a participação das
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instituições de Ensino superior na qualificação contínua do pessoal de saúde
do SUS.
De acordo com Camacho (2002), em relação aos cursos de
Enfermagem,
a
Organização
Panamericana
de
Saúde
recomenda
expressamente que o conteúdo relativo à Saúde do Idoso, não deve ser diluído
dentro de outras disciplinas. Os conteúdos sobre o cuidado ao idoso sadio
devem ser valorizados. Ou seja, os conteúdos não devem abordar só as
limitações, mas as possibilidades de desenvolvimento para a pessoa que
envelhece.
Eliopoulos (2005) relata que a Enfermagem Gerontológica surgiu como
especialidade nos Estados Unidos. Em 1904 é publicado o primeiro artigo
sobre enfermagem e o cuidado do idoso, no American Journal of Nursing . Em
1961 é criado o grupo de especialistas em enf. Geriátrica na Associação
Americana de Enfermagem e em 1962 acontece o primeiro encontro nacional
nos EUA. Em 1970 são estabelecidos os padrões para a enfermagem geriátrica
e as escolas de enfermagem passam a incluir a disciplina na graduação e a
oferecer cursos de pós-graduação.
O avanço da especialidade foi muito
rápido, a medida que a realidade social trouxe o desafio do aumento da
população de idosos. Em 1975, é reconhecida a especialidade enfermagem
geriátrica, em 1975 é criado o Journal of Gerontological Nursing e em 1976 a
Divisão de Enf. Geriatrica muda o título para Divisão de Enfermagem
Gerontológica .
No Brasil, em termos de produção científica, especificamente no campo
da gerontologia, somente a partir da década de 70 é possível observar certo
incremento nas diversas áreas de conhecimento, com gradativa expressão a
partir da década de 80 e especialmente em 90, com a criação dos primeiros
cursos de pós-graduação em gerontologia e geriatria (Camacho, 2002).
Gonçalves (2008) relata que A enfermagem gerontogeriátrica é uma
especialidade
da
Enfermagem
que,
no
Brasil,
vem
se
organizando
recentemente, para se constituir num corpo de conhecimento específico, aliado
a um rol de habilidades práticas apropriadas, já acumuladas pela experiência.
Tal organização tem recebido influências de esforços envidados pela
Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia em torno de três décadas.
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Também tem sofrido influências da enfermagem, principalmente norteamericana, que tem disponibilizado, a partir de meados do século XX, de modo
contínuo e crescente, literatura específica, através de publicações em âmbito
acadêmico e profissional.
Os sinais iniciais de interesse da enfermagem brasileira pela área do
envelhecimento se observam nas publicações esparsas produzidas na década
de 70. A partir da década de 80, verifica-se uma produção pequena, porém
continuada, desenvolvida, principalmente no meio acadêmico, em programas
de pós-graduação, em nível de especialização, mestrado e doutorado. Foi em
1996 que se realizou, em Florianópolis, a I Jornada Brasileira de Enfermagem
Geriátrica e Gerontológica e desde então tem sido realizada a cada dois anos,
como parte dos esforços para o desenvolvimento desta área.
Assim, grande esforço tem sido envidado por grupo de enfermeiras
pioneiras e simpatizantes da especialidade, ainda em número reduzido, para o
desenvolvimento da enfermagem gerontogeriátrica, no sentido de estudar e
divulgar a especialidade, bem como de estimular o aperfeiçoamento de novos
profissionais nessa área de trabalho em franca expansão, dado o aumento da
população idosa e de suas crescentes demandas, principalmente as de ordem
social e sanitária.
Na área do ensino, é notório o esforço no sentido de incluir a disciplina
da especialidade de enfermagem gerontogeriátrica nos cursos de graduação,
como também nos cursos profissionalizantes em nível médio, com caráter
obrigatório ou optativo.
A formação de RH em geriatria e gerontologia ainda ocorre de maneira
não-formal. Os cursos de extensão e pós-graduação (lato e estrito sensos)
ainda são os responsáveis pela formação e capacitação de pesquisadores e de
profissionais.
O pessoal de enfermagem sempre assumiu o papel principal no cuidado
ao idoso. No entanto, os enfermeiros nunca assumiram a liderança neste
processo. Ou melhor, a liderança na área nunca foi proporcional às
responsabilidades e ao trabalho de fato assumidos.
As escolas de enfermagem omitiam este conteúdo em seus currículos e não
havia muito interesse em preencher a lacuna existente entre as necessidades
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da realidade e o conteúdo dos programas educacionais. No entanto, o cuidado
ao ser humano precisa ser considerado levando-se em conta o ciclo vital. A
questão da preparação da família e cuidadores que assumem o cuidado do
idoso na comunidade tem sido ignorada.
As principais limitações presentes nos cursos de graduação em
enfermagem em relação à formação de RH incluem o pequeno número de
docentes envolvidos em programas de pós-graduação na área. Na graduação
a maioria dos docentes ensina conteúdos baseado em sua experiência e
conhecimentos pessoais. A maior parte dos cursos de graduação aborda o
tema,
porém
de
forma
heterogênea.
Observa-se
uma
escassez
de
conhecimento gerontogeriátrico, ausência de sintonia das IES com o processo
de transição demográfica, escassez de conteúdo nos currículos, falta de
campos para a prática, inexperiência do corpo docente.
No entanto, avanços na prática da Enfermagem Gerontológica podem
ser constatados, pois a cada dia aumenta a quantidade de profissionais que
estão escolhendo a enfermagem gerontológica como especialidade, pois já
reconhecem as oportunidades de desenvolvimento. Observa-se um aumento
na publicação de pesquisas de qualidade na área, o que fortalece a base
científica para a prática, aumenta o número de escolas de enfermagem que
estão introduzindo a enfermagem gerontológica na graduação e na pósgraduação.
O futuro da enfermagem gerontológica é desafiador e auspicioso. No
entanto, mais pesquisa é necessária porque a crescente complexidade e a
demanda por serviços em Enfermagem Gerontológica vêm acompanhados
pela necessidade de um conhecimento sólido. Não há mais espaço para ações
de enfermagem baseada na metodologia “ensaio-erro”. A sociedade requer da
enfermagem embasamento científico sólido.
Para Eliopoulos (2005), as enfermeiras gerontólogas devem apoiar os
esforços dos pesquisadores, interagindo com as enfermeiras que estão
produzindo pesquisa. Podem apoiar os esforços dos pesquisadores em
enfermagem gerontológica, mantendo-se atualizadas na área. As enfermeiras
Gerontólogas podem também influenciar a formação em enfermagem,
identificando temas relevantes em saúde do idoso para incluir no curriculo;
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participando de atividades discentes, principalmente nos campos de estágio;
avaliando deficiências na formação em enfermagem e planejando experiências
educacionais para preencher lacunas; promovendo eventos interdisciplinares;
participando de programas de educação continuada; participando de grupos de
estudo e estimulando a discussão de literatura científica na área da
enfermagem
gerontológica;
através
de
sua
prática,
demonstrando
a
especificidade da abordagem de enfermagem ao idoso.
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