Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais Faculdade de Comunicação e Artes Centro de Pesquisa em Comunicação Habilitação: Publicidade e Propaganda Orientador: Eduardo de Jesus DISPOSITIVOS DE VIGILÂNCIA E PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO CONTEMPORÂNEOS: UMA POSSÍVEL CARTOGRAFIA DA SOCIEDADE DE CONTROLE Nome Matrícula Telefone E-mail Wilson Milani 346820 (31) 9434 - 1633 [email protected] Belo Horizonte 06 de junho de 2011 Wilson Milani DISPOSITIVOS DE VIGILÂNCIA E PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO CONTEMPORÂNEOS: UMA POSSÍVEL CARTOGRAFIA DA SOCIEDADE DE CONTROLE Projeto Experimental apresentado à Faculdade de Comunicação e Artes da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. Orientador: Eduardo de Jesus Belo Horizonte 2011 Wilson Milani Dispositivos de vigilância e processos de subjetivação contemporâneos: uma possível cartografia da sociedade de controle Projeto Experimental apresentado à Faculdade de Comunicação e Artes da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda. ______________________________________________ Eduardo de Jesus (Orientador) – PUC Minas ______________________________________________ Maria Ângela Mattos (Supervisora) – PUC Minas ______________________________________________ Bruno Vasconcelos de Almeida (Professor convidado) – PUC Minas Belo Horizonte, 06 de junho de 2011. Aos meus pais, Hebe e Wilson, principais responsáveis por esta conquista. Ao Éder Milani, por despertar minha paixão pelo conhecimento. Ao Eduardo de Jesus, por acreditar em meu potencial. À Paula Lima, Marina Guitti e Márcio Ribeiro, cúmplices de tudo isto. “As sociedades disciplinares são aquilo que estamos deixando para trás, o que já não somos. Estamos entrando nas sociedades de controle, que funcionam não mais por confinamento, mas por controle contínuo e comunicação instantânea”. Gilles Deleuze. RESUMO Esta pesquisa insere-se no âmbito dos estudos sobre os desdobramentos sócio-políticos e comunicacionais provocados pela expansão substancial dos dispositivos tecnológicos de vigilância nas sociedades contemporâneas (sociedades de controle). A partir de uma abordagem cartográfica articulada em torno de dois domínios distintos – Projeto “Olho Vivo” e plataforma digital Google Maps Street View –, buscou-se, ao longo deste trabalho, refletir acerca da presença constante de tecnologias e procedimentos de controle e monitoramento em ambientes urbanos e infocomunicacionais, com ênfase particular em sua relação com os regimes de visibilidade e os processos de subjetivação contemporâneos. Palavras-chave: Sociedade de controle. Dispositivos tecnológicos de vigilância. Processos de subjetivação. LISTA DE SIGLAS CDL/BH – Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte CIAD - Centro Integrado de Atendimento e Despacho GMSW - Google Maps Street View PBH – Prefeitura Municipal de Belo Horizonte PMMG – Polícia Militar do Estado de Minas Gerais PRODABEL - Empresa de Informática e Informação do Município de Belo Horizonte S/A SEDS - Secretaria de Estado de Defesa Social TICs – Tecnologias de Informação e Comunicação SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO.......................................................................................................................... 9 2 DA SOBERANIA À DISCIPLINA: AS RELAÇÕES DE PODER NAS SOCIEDADES MODERNAS OCIDENTALIZADAS....................................................................................... 14 2.1 As relações de poder nas sociedades de soberania.................................................................. 16 2.2 As relações de poder nas sociedades disciplinares................................................................. 20 2.2.1 A arte das distribuições....................................................................................................... 23 2.2.2 O controle da atividade....................................................................................................... 25 2.2.3 A organização das gêneses................................................................................................. 26 2.2.4 A composição das forças.................................................................................................... 28 2.2.5 A vigilância hierárquica..................................................................................................... 29 2.2.6 A sanção normalizadora.................................................................................................... 30 2.2.7 O exame............................................................................................................................ 31 2.2.8 O panoptismo.................................................................................................................... 34 2.3 A Genealogia do Poder em Michel Foucault....................................................................... 39 3 A SOCIEDADE DE CONTROLE: REGIME DE VISIBILIDADE E PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO....................................................................................................................... 43 3.1 As relações de poder biopolíticas.............................................................................................. 48 3.2 Os dispositivos de controle....................................................................................................... 50 3.3 Os dispositivos de vigilância no espaço infocomunicacional.................................................. 54 3.4 Os dispositivos de vigilância no espaço urbano..................................................................... 59 3.5 O regime de visibilidade contemporâneo............................................................................... 63 3.6 Processos de subjetivação...................................................................................................... 66 4 PROJETO “OLHO VIVO”, GOOGLE MAPS STREET VIEW E AS MATRIZES ESPACIAIS CONTEMPORÂNEAS........................................................................................ 74 4.1 Espaço, território e lugar: uma breve discussão sobre as matrizes espaciais contemporâneas.................................................................................................................................... 78 4.1.1 O conceito contemporâneo de espaço................................................................................... 79 4.1.2 O conceito contemporâneo de lugar..................................................................................... 84 4.1.3 O conceito contemporâneo de território............................................................................... 86 4.2 A lógica operacional do Projeto “Olho Vivo”........................................................................ 90 4.2.1 Projeto “Olho Vivo” e as câmeras de vídeo-vigilância no Brasil....................................... 92 4.3 A lógica de funcionamento do Google Maps Street View..................................................... 95 4.3.1 Google Maps Street View: a relação entre cartografia e vigilância.................................. 97 5 PROJETO “OLHO VIVO” E GOOGLE MAPS STREET VIEW: UMA POSSÍVEL CARTOGRAFIA DO CONTROLE CONTEMPORÂNEO................................................ 100 5.1 Projeto “Olho Vivo”: para além do panoptismo?................................................................ 101 5.1.1 Projeto “Olho Vivo”: processos de subjetivação atrelados à “retórica do risco”............ 105 5.1.2 Projeto “Olho Vivo”: espacialidade derivada do uso de aparatos tecnológicos de vigilância.................................................................................................................................. 107 5.2 Google Maps Street View: vigilância distribuída e participação na contemporânea....................................................................................................................... 109 cultura 5.2.1 Google Maps Street View: distribuição, participação e naturalização vigilância............................................................................................................................... 112 da 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................................ 115 REFERÊNCIAS........................................................................................................................ 119 1 INTRODUÇÃO A pesquisa, Dispositivos de vigilância e processos de subjetivação contemporâneos: uma possível cartografia da sociedade de controle, nasceu de uma inquietação em compreender os desdobramentos sócio-políticos e comunicacionais provocados pela expansão substancial dos dispositivos tecnológicos de controle na sociedade contemporânea. Dessa forma, buscou-se, ao longo deste trabalho, refletir acerca da presença constante de aparatos e procedimentos de vigilância em ambientes urbanos – quer sejam públicos ou privados - e infocomunicacionais, com ênfase particular em sua relação com os regimes de visibilidade e os processos de subjetivação contemporâneos. Tomando como referências teóricas os trabalhos desenvolvidos, sobretudo, por Michel Foucault, Gilles Deleuze, Félix Guattari, Antonio Negri, Michael Hardt, Peter Pál Pelbart, Suely Rolnik, André Parente e Fernanda Bruno, será realizado um esforço na tentativa de responder ao seguinte questionamento: em que medida a implementação de dispositivos de vigilância pela sociedade de controle foi capaz de provocar uma (re)ordenação nos regimes de visibilidade contemporâneos e nos processos de subjetivação engendrados pelos indivíduos? Sendo assim, conforme aponta Deleuze (1992), a sociedade de controle, arranjo sóciopolítico que passou a vigorar a partir de meados do século XX, estruturou-se por meio de estratégias e mecanismos bastante diferentes daqueles orquestrados pela sociedade disciplinar. A lógica do poder disciplinar baseava-se, essencialmente, em uma distribuição política dos corpos no interior dos espaços confinados; em um controle minucioso do tempo, gestos e atividades; bem como uma vigilância constante das ações dos indivíduos. Nesse sentido, a disciplinaridade - colocada em prática, sobretudo, durante os séculos XVIII e XIX - tinha como principal objetivo organizar as forças individualizantes a fim de melhor aproveitá-las em benefício do sistema de produção capitalista. Daí surgiram inúmeros aparelhos disciplinares modernos - escolas, casernas, fábricas, hospitais, prisões, entre outros -, responsáveis por mergulhar os indivíduos em uma relação de docilidade-utilidade. As disciplinas, portanto, tinham como função primordial, segundo Foucault (1975), aumentar as 9 habilidades dos corpos, aprofundar sua sujeição, além de investi-lo de uma capacidade econômica e uma obediência política. Dessa maneira, os processos disciplinares foram capazes de produzir, no interior das sociedades modernas ocidentalizadas, indivíduos submissos, dóceis e exercitados. Todavia, a estruturação das relações de poder disciplinares possibilitou, de certa forma, a criação de linhas de fuga por parte dos indivíduos que estavam submetidos a esse tipo particular de controle social. Assim, a disciplina fixava os corpos no interior de seus processos e instituições, entretanto, não possuía mecanismos suficientemente eficazes para controlá-los na plenitude de suas atividades. Ou, ainda, conforme salientado por Hardt e Negri (2004), a sociedade disciplinar estruturou-se em relações de poder estáticas, na medida em que a invasão das disciplinas contrabalanceava com a resistência do indivíduo. O primeiro capítulo desta pesquisa, portanto, terá como foco principal a análise acerca das relações de poder presentes nas sociedades disciplinares. Em contrapartida, as formas de controle contemporâneas – interessadas, sobretudo, em promover o domínio completo da malha social, sem que haja descanso ou escapatória - passaram a ser exercidas ao ar livre, salvaguardadas de barreiras físicas e locais enclausurados, e por meio do controle e administração de inúmeros fluxos sociais, tais como: o controle do fluxo financeiro mundial, do fluxo de desejos através da intensificação ampliada do consumo (publicidade e marketing) e, talvez o fator mais preponderante, o controle do fluxo de comunicação e informação. Sendo assim, Costa (2004) sugere que “nenhuma forma de poder parece ser tão sofisticada quanto aquela que regula os elementos imateriais de uma sociedade: informação, conhecimento e comunicação”. (COSTA, 2004, p. 163). Trata-se, portanto, de uma nova maneira pela qual o poder, na transição entre a modernidade e a contemporaneidade, marcará o espaço-tempo, o corpo, as práticas sociais e produtivas, bem como os regimes de visibilidade e os processos de subjetivação engendrados pelos indivíduos. Assim, o aprofundamento da discussão em torno da sociedade de controle será a tônica presente no segundo capítulo deste trabalho. No que diz respeito aos regimes de visibilidade contemporâneos, sabe-se que os parâmetros através dos quais os sujeitos estavam habituados a ordenar o ver e o ser visto estão 10 passando por um momento de intensa mudança. O aparecimento dos mais variados tipos de tecnologia, que vai desde a ampliação da visão por meio dos processos de geolocalização (GPS, GIS), passando pelas câmeras de vídeo-vigilância presentes nos espaços público-privados, até, finalmente, chegar na disseminação de aparatos e dispositivos que monitoram o espaço físico e infocomunicacional, foi capaz de ampliar e modificar as margens do (in)visível, além de promover a criação de novas espacialidades, subjetividades e sociabilidades. Dessa forma, Bruno, Firmino e Kanashiro (2010) apontam que as sociedades atuais estão vivendo um momento de reordenação de seus regimes de visibilidade, o que implica, necessariamente, no aparecimento de novas formas de se experimentar e perceber o espaço contemporâneo. A reorientação dos modos de ver e ser visto na contemporaneidade apresenta, por sua vez, uma imbricação imediata com a expansão exponencial dos dispositivos tecnológicos de vigilância. Tais dispositivos – responsáveis, sobretudo, pelo monitoramento, identificação e coleta/produção de informações acerca das atividades dos indivíduos - travam um embate com outros elementos que participam das condições de visibilidade de uma sociedade, tais como: máquinas, práticas, regras e discursos, que, invariavelmente, estão articulados a formas de poder e saber. (DELEUZE, 1998; FOUCAULT 1983). Nota-se, portanto, que os dispositivos tecnológicos de vigilância são capazes de articular, em um mesmo movimento, proteção e controle social. Do mesmo modo, as atividades e afazeres do sujeito contemporâneo – tanto no espaço urbano quanto no infocomunicacional – transformaram-se em um movimento contínuo e trivial entre aparatos e procedimentos de controle e monitoramento. Assim, o objeto empírico desta pesquisa foi estruturado em torno de um trabalho cartográfico que desse centralidade à discussão a respeito dos dispositivos tecnológicos de vigilância e os processos de subjetivação contemporâneos. Para tanto, a prática cartográfica será articulada a partir de dois domínios distintos, debatidos no decorrer do terceiro e quarto capítulos deste trabalho. O primeiro domínio terá como foco a presença dos dispositivos de vigilância no contexto das cidades, através da análise crítica acerca do projeto de monitoramento urbano “Olho Vivo”, idealizado a partir de uma parceria público-privada entre a Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH), a Empresa de Informática e Informação do Município de Belo 11 Horizonte S/A (PRODABEL), a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, a Polícia Militar do Estado de Minas Gerais (PMMG) e o Governo do Estado de Minas Gerais. Implementado no final de 2004, o Projeto consiste na presença da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais (PMMG) em pontos estratégicos dos locais de grande incidência criminal na região central de Belo Horizonte, através do monitoramento do espaço urbano utilizando-se de câmeras de vídeovigilância. Nesse sentido, o Projeto “Olho Vivo” torna-se um exemplo ilustrativo bastante interessante no que tange à problematização em torno da imbricação contemporânea entre vigilância, visibilidade, tecnologia, matrizes espaciais e processos de subjetivação. Objetivando problematizar as relações entre vigilância e visibilidade nas tecnologias e meios de comunicação contemporâneos, o segundo domínio abordará a plataforma digital Google Maps Street View (GMSW). Idealizado em meados de 2007, pela Google Corporate Information, empresa estadunidense de serviços online e softwares, o GMSW oferece aos usuários da web um passeio virtual pelas ruas das principais cidades mundiais. Através de seus recursos tecnológicos, espaciais e imagéticos, é possível visualizar imagens aproximadas de ruas e avenidas, em um visão que chega até 360º. Assim, O GMSW parece ser um caso representativo de um fenômeno instigante: os sujeitos, na contemporaneidade, são incitados constantemente a participar das práticas de vigilância e controle. Nesse sentido, os processos comunicacionais parecem exercer um papel preponderante nesse contexto de estímulo às práticas e formas de monitoramente por parte do indivíduo comum. Optou-se pela cartografia como método analítico pelo fato da mesma representar, conforme aponta Farina (2007), “um estudo das relações de forças que compõem um campo específico de experiências”. (FARINA, 2007, p. 09). Em outras palavras, pode-se dizer que a prática cartográfica – formulação deleuziana de apreensão do conhecimento - tem sido vista como um modo de pesquisa bastante pertinente aos interessados em estudar objetos processuais, como, por exemplo, os processos de subjetivação, um dos elementos fundamentais deste estudo. Enquanto método de pesquisa, a cartografia, aponta Farina (2007), apresenta uma particularidade interessante, a saber: é um método que não se aplica, mas se pratica, visto que a cartografia é formada no decorrer de sua criação, sendo, portanto, coerente com a processualidade dos objetos investigados. 12 Com isso, o objetivo geral da pesquisa, Dispositivos de vigilância e processos de subjetivação contemporâneos: uma possível cartografia da sociedade de controle, consiste na investigação de aspectos qualitativos acerca da imbricação contemporânea entre vigilância, regimes de visibilidade e processos de subjetivação, a partir de uma análise cartográfica do Projeto “Olho Vivo” e da plataforma digital Google Maps Street View. Os objetivos específicos, por sua vez, são: aprofundar o estudo da relação existente entre Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), vigilância eletrônica, espaço e controle social; refletir acerca da utilização contemporânea de procedimentos de vigilância nos meios de comunicação, no espaço físico, bem como no espaço infocomunicacional; e identificar e mapear projetos que dão centralidade à discussão em torno dos dispositivos tecnológicos de controle e processos de subjetivação. Por fim, a relevância acadêmica desta pesquisa reside na possível contribuição no que tange à construção de um campo teórico-epistemológico da comunicação capaz de apreender as problemáticas contemporâneas suscitadas pelos dispositivos tecnológicos de vigilância e pelas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs). Já na esfera social, a importância desta proposta consiste no aprofundamento da investigação teórica acerca do controle social orquestrado pelos aparelhos de Estado, bem como pelo capital privado, em torno do indivíduo comum. Como estudante de Comunicação Social, a realização deste estudo será de suma importância para uma formação acadêmica e profissional ainda mais consistente, crítica e aprofundada. 13 2. DA SOBERANIA À DISCIPLINA: AS RELAÇÕES DE PODER NAS SOCIEDADES MODERNAS OCIDENTALIZADAS “Nada mudará a sociedade se os mecanismos de poder que funcionam fora, abaixo e ao lado dos aparelhos de Estado a um nível muito mais elementar, cotidiano, não forem modificados”. Michel Foucault O estudo do desenvolvimento político-social das relações de poder é uma problemática recorrente no interior das reflexões teórico-filosóficas acerca da constituição das sociedades modernas ocidentalizadas. Debruçar-se sobre a questão do poder é, a priori, dispor de instrumentos de análise capazes de contribuírem para uma melhor compreensão dos fenômenos que levaram à formação, em diferentes períodos históricos, do chamado corpo social 1, principalmente no que diz respeito às transformações nas condutas dos indivíduos, bem como nos processos de subjetivação por eles engendrados. A busca por uma definição esclarecedora quanto à idéia do poder sempre inquietou os pensadores dos mais diversos campos do saber, devido, sobretudo, a existência de inúmeras contradições e ambiguidades em torno do tema. O sociólogo alemão Max Weber (1982) talvez tenha sido o primeiro estudioso moderno a realizar um esforço na tentativa de definir conceitualmente o poder. Segundo esse autor, o poder é visto como sendo “a possibilidade de que um homem, ou um grupo de homens, realize sua vontade própria numa ação comunitária, até mesmo contra a resistência de outros que participam da ação”. (WEBER, 1982, p. 211). Ao propor tal visão, Weber pretendia analisar o poder unicamente sob a perspectiva da dominação, visto que é através desse mecanismo coercitivo que determinadas ordens são obedecidas e cumpridas no interior de uma sociedade. Outro teórico responsável por problematizar as relações de poder no interior das sociedades modernas ocidentalizadas foi Pierre Bourdieu (1977). Para ele, o poder deve ser 1 Por corpo social, entende-se como o conjunto de leis, sistemas e práticas sociais de uma determinada sociedade. 14 examinado a partir de sua interseção com a noção de campo. O campo do poder, grosso modo, pode ser definido como um cenário complexo e multifacetado de forças no qual os detentores dos mais variados tipos de poder travam uma luta política objetivando a conservação e/ou modificação das relações de forças que mantém entre si. Surge, então, no cerne da teoria bourdieusiana, o conceito de poder simbólico, apreendido da seguinte forma: “poder invisível que só pode se exercer com a cumplicidade daqueles que não querem saber que a ele se submetem ou mesmo que o exercem”. (BOURDIEU, 1977, p. 31). Sendo assim, o poder em Bourdieu é visto como sendo algo “enigmático”, “mágico”, que levaria os indivíduos à ação somente pelo efeito de mobilização, e não pela força material e/ou coação física. É possível afirmar que tanto a tese weberiana como a bourdieusiana, apesar das riquíssimas contribuições teóricas que deram a respeito das relações de poder, possuem visíveis limitações epistemológicas, na medida em que enxergam o poder como sendo um objeto único, natural e tangível, isto é: como se de um lado existissem aqueles que detém materialmente o poder; e do outro, os que estão submetidos a ele. Ademais, tais concepções anulam, de certa forma, a perspectiva histórica 2 e relacional do poder. Em outras palavras, Weber e Bourdieu cada um a seu modo e em épocas distintas - procuraram formular teorias totalitárias e globais acerca do poder, menosprezando, assim, seu caráter transversal, regional e heterogêneo. Após essa breve introdução, é fundamental esclarecer o principal objetivo deste capítulo: realizar um estudo acerca das relações de poder nas sociedades modernas ocidentalizadas à luz do pensamento proposto pelo filósofo francês Michel Foucault. Optou-se por tal afiliação teórica pelo fato das análises desse autor: não considerarem o poder como uma realidade que possua uma natureza, uma essência que ele procuraria definir por suas características universais. Não existe algo unitário e global chamado poder, mas unicamente formas díspares, heterogêneas, em constante transformação. O poder não é um objeto natural, uma coisa; é uma prática social e, como tal, constituída historicamente. (MACHADO, 1979, p. X). Antes, contudo, de ingressar na discussão idealizada por Michel Foucault (1975) sobre os mecanismos de poder nas sociedades modernas ocidentalizadas – ou, como preferiu o próprio 2 Por uma perspectiva histórica do poder, entende-se como a tentativa epistemológica de buscar uma definição para o termo a partir de práticas sociais históricas. 15 autor, sociedades disciplinares -, é necessário realizar uma breve digressão histórica com o intuito de elucidar a constituição das relações de poder no decorrer da formação dos Estados Monárquicos europeus, momento que antecedeu o aparecimento das sociedades pautadas na disciplina. 2.1 As relações de poder nas sociedades de soberania Ao longo do período histórico conhecido como Idade Média 3, as relações de poder organizaram-se, sobretudo, em torno de concepções metafísicas e teológicas. Nessa época, as leis divinas eram as principais responsáveis por conduzir e moldar o comportamento humano, concedendo a alguns indivíduos o privilégio e a responsabilidade de gerir o restante da sociedade. De acordo com Carnoy (1990), o exercício do poder político, no decorrer da Idade Medieval, ficava a cargo da Igreja Católica e da Autocracia Rural. Esses dois sistemas sociais firmaram, no arcabouço feudal, as relações de poder e estabeleceram a ordem social através do cumprimento dos ensinamentos divinos e da interpretação rigorosa das leis autocráticas. A partir do século XVI, entretanto, o arranjo sócio-político da Idade Média entrou em processo gradual de falência e corrompimento. O desenvolvimento de inéditas relações de poder, assim como o surgimento de novos conceitos de governamentalidade, garantiram uma redefinição da condição natural do homem no interior das sociedades modernas ocidentalizadas. Dessa forma, o poder divino que até então era o fundamento da hierarquia e organização social, cederá espaço a dois novos e importantes atores políticos: o Estado Moderno e o Absolutismo Monárquico. O Estado Moderno, por sua vez, obteve apoio e financiamento da classe burguesa, interessada em eliminar os entraves feudais e promover o crescimento gradativo do comércio. Sendo assim, essa nova base de poder estruturou-se em torno do Absolutismo Monárquico, tendo na figura do rei seu principal expoente. A centralização administrativa, a instituição de relações 3 Período compreendido entre os séculos V e XV. 16 de soberania (sociedade de soberania), a criação de um exército nacional e a adoção de uma política econômica mercantilista foram as principais medidas que caracterizaram o Absolutismo Monárquico europeu. Contudo, o interessante para esta análise é observar que os mecanismos de poder nas sociedades de soberania foram fortalecidos, principalmente, pela instituição de uma cultura da visibilidade. (ADVERSE, 2009, p. 15). O soberano, principal representante do poder monárquico, valia-se dos modos de ver e ser visto para realizar o domínio social dos súditos. Pode-se dizer que a institucionalização do olhar do rei passou a ser uma estratégia fundamental para constituir as relações de poder no seio das sociedades monárquicas européias. Tanto é que a principal forma de punição imposta pelo príncipe ao povo era realizada através de castigos corporais públicos, também conhecidos como suplícios e/ou torturas. De modo geral, os suplícios tinham como objetivo restaurar, simbolicamente, a integridade do corpo do monarca, que fora ofendido pela desobediência à ordem judicial e política instauradas por ele. Assim, os delinquentes e malfeitores que cometiam um ato criminoso eram levados a público para serem torturados e maltratados pelos carrascos que trabalhavam a serviço do rei. Dito de outra maneira, os mecanismos de poder nas sociedades monárquicas da Europa – isto é, as sociedades de soberania – estruturaram-se em torno do exemplo, da representação. Era por meio do simbolismo representativo contido nos suplícios que o foco de intervenção do poder voltava-se aos indivíduos, ou melhor, às suas futuras ações, seus possíveis comportamentos e/ou atitudes desviantes. A apropriação de uma cultura da visibilidade como forma de controle social será abordado nos próximos capítulos, entretanto, é indispensável, neste momento, traçar um ponto em comum e um paralelo entre as sociedades de soberania e a contemporaneidade. Esses dois sistemas sociais foram pautados, essencialmente, no controle de ações futuras dos indivíduos, ou seja, tanto a sociedade de soberania quanto a contemporânea buscaram - através de mecanismos e processos distintos - prever atos potenciais das pessoas. Contudo, a principal diferença entre os dois modelos consiste em uma inovação tecnológica surgida na contemporaneidade. O aparecimento e a disseminação das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), bem como 17 o aumento substancial da capacidade de armazenamento de informações pelos bancos de dados, facilitaram a previsão das ações dos indivíduos por parte do poder contemporâneo, visto que: na atualidade, trata-se sobretudo de ver adiante, de prever e predizer, a partir dos cruzamentos e análises de dados, indivíduos e seus atos potenciais, seja para contê-los (como no caso de crimes, doenças, onde tende a predominar uma vigilância preventiva), seja para incitá-los (como no caso do consumo, da publicidade e do marketing). (BRUNO, 2004, p. 06). Como dito anteriormente, o suplício era um dos elementos – e talvez, o mais preponderante deles – constituintes da cultura da visibilidade das sociedades de soberania. Contudo, é na segunda metade do século XVIII que essa prática social, pautada na violência e na tortura, encontrará, por toda a Europa, resistências e protestos. Filósofos e teóricos do Direito, magistrados, parlamentares, legisladores, entre outras autoridades, começaram a reivindicar uma nova forma de punição que não estivesse ligada, necessariamente, à coação física. De acordo com Foucault (1975), o poder judiciário percebe, naquele momento, que é preciso punir de outro modo. Sendo assim, é necessário: eliminar essa confrontação física entre soberano e condenado; esse conflito frontal entre a vingança do príncipe e a cólera contida do povo, por intermédio do supliciado e do carrasco. O suplício tornou-se rapidamente intolerável. (FOUCAULT, 1975, p. 63). Por um lado, o suplício, na perspectiva do povo, era visto como algo revoltante, na medida em que explicitava a tirania, o abuso de poder e a sede de vingança do soberano. Por outro, o suplício, sob a ótica do príncipe, era tido como perigoso, visto que “acostumado a ver tanto sangue, os súditos poderiam aprender, rapidamente, que só se pode se vingar com sangue”. (FOUCAULT, 1975, p. 63). Os suplícios revelavam, portanto, um dos mecanismos fundamentais do poder monárquico: a formação, por intermédio do carrasco, de uma engrenagem política entre o príncipe e o povo. Assim, o carrasco seria o principal responsável por levar até os súditos o princípio universal da vontade do déspota. É preciso, portanto, que a justiça, por questões de segurança e manutenção das relações de poder, puna em vez de se vingar. No rastro da condenação das práticas supliciantes, houve, também, o afrouxamento da penalidade e, consequentemente, a redução da intensidade das punições. Tal fenômeno é fruto de um movimento que levou a uma diminuição dos chamados “crimes de sangue” e das agressões físicas. 18 Portanto, é possível perceber que nesse novo contexto: os delitos contra a propriedade parecem prevalecer sobre os crimes violentos; o roubo e a vigarice sobre os assassinatos, os ferimentos e golpes; a delinqüência difusa, ocasional, mas freqüente das classes mais pobres é substituída por uma delinqüência limitada e “hábil”; os criminosos do século XVII são “homens prostrados, mal alimentados, levados pelos impulsos e pela cólera, criminosos de verão”; os do XVIII, “velhacos, espertos, matreiros que calculam”, criminalidade de “marginais”. (FOUCAULT, 1975, p. 64-65). Surgem, então, crimes que não mais tem apenas como alvo os corpos dos indivíduos, mas sim os bens e propriedades de uma classe dominante. Para que se possa apreender essa importante transformação jurídico-criminal nas sociedades de soberania, é necessário situá-la em um contexto mais amplo e diversificado. Tal contexto é desenhado por uma modificação no jogo das pressões econômicas, isto é: houve, durante o final do século XVIII, uma elevação geral da qualidade de vida, um forte crescimento demográfico, além de uma constante multiplicação das propriedades privadas. Desse modo, fez-se necessário realizar uma mudança significativa na economia do poder para que as riquezas e os bens da classe burguesa pudessem estar a salvo de qualquer ato criminoso. A justiça tornou-se, então, no decorrer do século XVIII, “uma instância mais severa com relação ao roubo e aos delitos contra as propriedades, e passou a assumir ares burgueses de uma justiça de classe”. (FOUCAULT, 1975, p. 65). Em suma, a reforma penal do final do século XVIII pode ser vista como um esforço para ajustar e reordenar o paradigma de poder que controlava a existência dos indivíduos no interior das sociedades de soberania. Significa, também: uma adaptação de harmonia dos instrumentos que se encarregam de vigiar o comportamento cotidiano das pessoas, sua identidade, atividade, gestos aparentemente sem importância; significa uma outra política a respeito dessa multiplicidade de corpos e forças que uma população representa. (FOUCAULT, 1975, p. 66). Vale sublinhar, igualmente, que o acentuado crescimento demográfico europeu e, consequentemente, a necessidade de enquadrar esses novos indivíduos nas práticas produtivas capitalistas, fez com que se afirmasse ainda mais a necessidade de uma rearticulação das relações de poder no arcabouço das sociedades modernas ocidentalizadas. Além disso, os mecanismos monárquicos de poder apresentavam – até mesmo os mais preparados e desenvolvidos 19 inúmeras brechas e lacunas. Dessa forma, o poder nas sociedades de soberania apresentava pouca capacidade de resolução e penetração na malha social. 2.2 As relações de poder nas sociedades disciplinares Por conseguinte, o novo paradigma de poder passou a ter como principal objetivo promover o controle e a dominação da maior parcela possível da sociedade. Para tanto, o poder irá se preocupar, novamente, com o corpo humano, assim como fez durante a formação dos Estados Monárquicos europeus. Todavia, as sociedades disciplinares realizaram uma apropriação política do corpo de uma forma distinta daquela operada pelas sociedades de soberania. Tal diferença pode ser anunciada da seguinte forma: a partir do final do século XVIII, o poder terá “como alvo o corpo humano, não para supliciá-lo, mutilá-lo, mas para aprimorá-lo, adestrá-lo”. (MACHADO apud FOUCAULT, 1979, p. XVI). Nesse sentido, a atenção dedicada ao corpo nas sociedades de soberania tinha o propósito de supliciá-lo, maltratá-lo, torturá-lo. Ao passo que, nas sociedades disciplinares, o corpo é visto como algo em que se manipula, se modela, se treina, algo em que se pode fazer valer uma coação calculada em cada uma das partes que o constitui. É importante sublinhar que houve, durante a época clássica, o descobrimento do corpo como objeto e alvo do poder. Isto é, a modernidade não foi o período histórico responsável por inaugurar a vontade do poder em manipular, modelar, treinar e subjugar os corpos dos indivíduos que vivem em sociedade. Ao escrever, no auge da era clássica, o livro Homem-Máquina (1982), La Mettrie tinha, em última análise, o seguinte objetivo: criar um conjunto de regulamentos militares, hospitalares e escolares que pudessem controlar as operações do corpo. Para além disso, “em qualquer sociedade, o corpo está preso no interior de poderes muito apertados, que lhe impõem limitações, proibições ou obrigações”. (FOUCAULT, 1975, p. 118). Sendo assim, é válido realizar um questionamento pertinente, a saber: se na maioria das sociedades o corpo sempre esteve preso no interior dos mecanismos de poder, quais seriam, então, as novas perspectivas que a modernidade foi capaz de introduzir na relação corpo-poder? 20 Em primeiro lugar, a escala do controle, aponta Foucault (1975). Não se trata mais de cuidar do corpo “como se fosse uma unidade indissociável mas de trabalhá-lo detalhadamente; de exercer sobre ele uma coerção sem folga, de mantê-lo ao nível mesmo da mecânica – movimentos, gestos, atitude, rapidez: poder infinitesimal sobre o corpo ativo”. (FOUCAULT, 1975, p. 118). Em segundo lugar, o objeto desse controle. Ou seja, não mais o controle dos elementos ligados ao comportamento e/ou à linguagem do corpo, e sim o domínio sobre a eficácia de seus movimentos. A coação, portanto, realiza-se mais sobre as forças do que sobre os sinais corporais. E por último, a modalidade do controle estabelecida pelo poder. Tal modalidade, segundo Foucault (1975): implica numa coerção ininterrupta, constante, que vela sobre os processos da atividade mais que sobre seu resultado e se exerce de acordo com uma codificação que esquadrinha ao máximo o tempo, o espaço, os movimentos. (FOUCAULT, 1975, p. 118). Os procedimentos anunciados acima, responsáveis por mergulhar o corpo numa relação de docilidade-utilidade, são o que Michel Foucault (1975) batizou de “disciplinas”. Cabe, aqui, uma ressalva considerável: inúmeros processos disciplinares existiram em um momento anterior ao período moderno, principalmente em instituições como conventos, exércitos e oficinas. Entretanto, as disciplinas inauguraram, no decorrer dos séculos XVIII e XIX, novos mecanismos gerais de dominação. Mecanismos estes diferentes, por exemplo, dos dispositivos coercitivos utilizados pela escravidão, domesticidade ou, até mesmo, vassalidade, visto que as disciplinas marcaram o momento do nascimento de uma “arte do corpo humano”. As disciplinas, portanto, têm como função primordial aumentar as habilidades do corpo, aprofundar sua sujeição, além de investi-lo de uma potencialização econômica e uma obediência política. Em outras palavras, o corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma “anatomia política”, que é também igualmente uma “mecânica do poder”, está nascendo; ela define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina. (FOUCAULT, 1975, p. 119). Dessa maneira, os processos disciplinares serão responsáveis por fabricar corpos submissos, exercitados e dóceis. Ademais, existe, conforme dito anteriormente, um duplo movimento de natureza econômica e política presente no interior dos dispositivos disciplinares. Se, por um lado, 21 as disciplinas - por meio de seus mecanismos de coerção e dominação - transformam o corpo humano em uma força de trabalho economicamente útil; por outro, elas o tornam obediente e menos resistente politicamente. Vale dizer, também, que há uma interrelação entre esses dois fatores, ou seja: o corpo só se torna uma força de trabalho rentável a partir do momento em que é moldado e conquistado politicamente pelas disciplinas. O aparecimento dos mecanismos disciplinares não deve ser entendido como um fenômeno histórico repentino e isolado. Na realidade, as disciplinas surgiram no bojo de uma multiplicidade de processos de origem e natureza diversas, bem como localizações e objetivos particulares. Tais processos, por sua vez, realizaram um movimento de repetição e imitação, apoiando-se uns aos outros, e esboçando, assim, a fachada de um método global. É possível perceber, desde muito cedo, a disciplina sendo posta em funcionamento no interior das famílias, escolas, casernas, hospitais, prisões etc. As práticas disciplinares foram disseminadas pelo corpo social por meio de um processo que ora é rápido e dinâmico, ora é lento e discreto. Essas práticas foram idealizadas com o intuito de responder a algumas demandas locais e contextuais, tais como: controle de doenças epidêmicas, criação e aperfeiçoamento de inovações industriais, invenção de metodologias escolares, melhoramento da vigilância em torno dos delinquentes, entre outras coisas. Não se trata de fazer aqui a história dos aparelhos disciplinares que surgiram em meados do século XVIII e estenderam-se até o início do século XX, mas sim traçar algumas das principais características do poder disciplinar que permeia todas essas instituições modernas. Nesse sentido, o poder disciplinar é, a priori, “a anatomia política do detalhe”. (FOUCAULT, 1975, p. 120). Trata-se, portanto, de compreender o poder a partir de suas extremidades, suas ramificações, suas últimas capilaridades, naquilo que possui de mais regional e local. Um poder que apresenta uma grande capacidade difusionista, que tem a habilidade de atuar por meio de arranjos sutis, aparentemente inocentes. Poder este que atinge a realidade mais concreta dos indivíduos, isto é, seus corpos. E, além disso, um poder que situa-se ao nível da própria sociedade, e não acima ou abaixo dela. Por fim, um poder que penetra nas relações mais cotidianas das pessoas e, por isso, pode ser caracterizado, também, como micro-poder, sub-poder ou, até mesmo, poder-molecular. 22 Objetivando promover uma elucidação mais completa quanto aos métodos e formas de atuação do poder disciplinar, é necessário lançar mão de alguns operadores conceituais de análise articulados por Michel Foucault no decorrer do livro Vigiar e Punir (1975). São eles: a arte das distribuições, o controle da atividade, a organização das gêneses e, por fim, a composição das forças. 2.2.1 A arte das distribuições De acordo com Michel Foucault (1975), a primeira técnica desenvolvida pelo poder disciplinar consiste na distribuição dos indivíduos em um determinado espaço físico. A partir daí, o micro-poder descrito por Foucault pode ser caracterizado, essencialmente, como um tipo particular de organização espacial. Em princípio, a disciplina exigia, em certas ocasiões, a existência de uma cerca, de um local homogêneo e encerrado em si mesmo. Tanto é que houve, desde o princípio do século XVIII, a criação de inúmeros colégios, quartéis, oficinas e fábricas – além de outras formas de enclausuramento - por toda a Europa. De modo geral, esses ambientes eram locais privilegiados para o exercício de um poder que tinha como objetivos: fixar as massas, evitar os conflitos interpessoais, impedir as subversões e as organizações de motins, além de controlar os comportamentos e os gestos dos indivíduos. Entretanto, a técnica do enclausuramento não é constante, nem tampouco indispensável para o funcionamento do regime disciplinar. Os aparelhos disciplinares são capazes de trabalhar o espaço de uma forma menos rígida e coercitiva, pelo menos aparentemente. Para que isso ocorra, eles se valem, em primeiro lugar, do princípio da localização imediata ou do quadriculamento, isto é: “cada indivíduo no seu lugar, e em cada lugar, um indivíduo”. (FOUCAULT, 1975, p. 123). Tal procedimento é utilizado com o intuito de evitar a organização dos indivíduos em grupos, decompondo, assim, as forças coletivas e as pluralidades dispersas. E não há limite para o parcelamento do espaço disciplinar, visto que ele tende a se dividir em quantas partes forem necessárias para que os corpos sejam quadriculados no interior das disciplinas. 23 O que importa para o regime disciplinar, na verdade, é elaborar um espaço analítico no qual seja possível conferir as presenças e ausências de corpos, saber onde e como encontrar determinadas pessoas, estabelecer e, ao mesmo tempo, interromper comunicações, enfim, criar um campo de visibilidade através do qual se possa identificar, vigiar, controlar, apreciar e sancionar as atitudes dos indivíduos. Dito isso com outras palavras: a disciplina é “uma técnica de distribuição dos indivíduos através da inserção dos corpos em um espaço individualizado, classificatório, combinatório”. (MACHADO, 1979, p. XVII). Por outro lado, a elaboração de lugares pré-determinados para os indivíduos é uma estratégia do poder disciplinar voltada não só para vigiar os comportamentos e evitar as comunicações subversivas, mas também para criar um espaço útil para a distribuição e divisão dos corpos. Pode-se tomar como exemplo para elucidar com mais precisão o que Foucault nomeou como a arte das distribuições, o surgimento, no final do século XVIII, das fábricas européias. Com o intuito de aproveitar o crescimento demográfico e transformá-lo em força de trabalho, o poder disciplinar valeu-se do mecanismo de quadriculamento individualizante para distribuir os operários no espaço fabril, a fim de melhor localizá-los e controlá-los. Ademais, era fundamental adaptar essa distribuição às exigências próprias do sistema capitalista. Para isso, houve um reordenamento dos postos de trabalho e uma divisão clara das tarefas a serem cumpridas. Ou seja, as fábricas européias do fim do século XVIII dividiram-se internamente em pequenas oficinas com funções específicas segundo os vários tipos de operações necessárias para a criação de produtos. Com essa disposição das tarefas e dos corpos no interior das fábricas, foi possível: realizar uma vigilância ao mesmo tempo geral e individual; constatar a presença, a aplicação do operário, a qualidade de seu trabalho; comparar os operários entre si, classificá-los segundo sua habilidade e rapidez; acompanhar os sucessivos estágios da fabricação. (FOUCAULT, 1975, p. 124). Dessa forma, cada habilidade do operário – vigor, rapidez, constância, determinação etc. – pode ser observada, ou ainda, caracterizada, apreciada e, em última instância, transmitida aos detentores dos meios de produção capitalista. Em suma, a partir do momento em que se criou uma engrenagem através da qual foi possível visualizar todos os corpos durante a execução das tarefas fabris, a força de trabalho passou a ser analisada sob uma perspectiva individualizante. 24 De certo modo, as disciplinas estabeleceram uma hierarquia e uma funcionalidade aos espaços existentes nas sociedades modernas ocidentalizadas. Tais espaços são capazes de marcar determinados lugares e fixar certos valores. São espaços, também, de natureza mista: “reais pois que regem a disposição de edifícios, de salas, de móveis, mas ideais, pois projetam-se sobre essa organização caracterizações, estimativas, hierarquias”. (FOUCAULT, 1975, p. 126). Enfim, a primeira grande consequência da imposição dos processos disciplinares foi a transformação de extensas multidões em multiplicidades estrategicamente organizadas. 2.2.2 O controle da atividade Em segundo lugar, a disciplina deve ser encarada como um mecanismo capaz de executar o controle do tempo, ou ainda, o controle da atividade. Isto é, o poder disciplinar sujeita o corpo do indivíduo ao relógio, com o objetivo de extrair de seus movimentos a melhor relação possível entre rapidez e eficácia. Nessa perspectiva, o que interessa aos dispositivos disciplinares não é o resultado da ação, e sim o desenrolar de todo o processo. O horário, herança monástica, encontrará nas disciplinas uma nova forma de atuação. Forma esta que será afinada e esmiuçada, na medida em que se passará a levar em consideração quartos de hora, minutos e, até mesmo, segundos. Haverá, portanto, uma regularização temporal que irá marcar, no interior das sociedades disciplinares, todos os movimentos e operações de instituições como o exército, a escola, o convento, a fábrica, o hospital, a prisão etc. Há, contudo, uma preocupação com o aproveitamento desse tempo. Assim, os mecanismos disciplinares estabeleceram um controle ininterrupto do tempo a fim de evitar as distrações e os desperdícios de gestos e movimentos, construindo, assim, um tempo integralmente útil. Em outras palavras, “o tempo medido e pago deve ser também um tempo sem impureza nem defeito, um tempo de boa qualidade, e durante todo o seu transcurso o corpo deve ficar aplicado a seu exercício”. (FOUCAULT, 1975, p. 129). Sendo assim, a exatidão e a aplicação dos movimentos, assim como o aproveitamento integral de todos os minutos, formam as virtudes principais do tempo disciplinar. 25 Segundo Foucault (1975), um outro aspecto constituinte do controle da atividade é a elaboração temporal do ato. Se, nas sociedades de soberania, o tempo estabelecia um quadro geral para uma determinada atividade, no interior das sociedades disciplinares ele criará uma trama que obrigará e sustentará os indivíduos ao longo dos exercícios. Nesse sentido, o ato em si é decomposto em inúmeros segmentos. É definida, também, a posição correta dos corpos, bem como das articulações e dos membros. E, assim, para cada um dos movimentos, é estipulada uma direção, uma duração, um norte a ser seguido. Enfim, o tempo disciplinar é articulado como uma espécie de elemento “anátomo-cronológico do comportamento”. (FOUCAULT, 1975, p. 129). Além do mais, o controle disciplinar não procura apenas ensinar a forma correta de execução das ações, mas sim impor a melhor relação entre um gesto e a atitude geral do corpo. Um corpo disciplinado, aponta Foucault (1975), é a base de um gesto mínimo e eficiente. É a garantia, também, de que o tempo - juntamente com todos os mecanismos do poder disciplinar - irá penetrar ativamente nos corpos dos indivíduos. 2.2.3 A organização das gêneses Dando continuidade à análise da relação entre micro-poder e tempo, é verdadeiro afirmar que as disciplinas – responsáveis, conforme visto anteriormente, pela apropriação política do espaço físico e pela decomposição/recomposição dos gestos e comportamentos – também devem ser compreendidas como formas de adicionar e capitalizar o tempo. De acordo com Michel Foucault (1975), o movimento em direção a uma acumulação do tempo se dá, sobretudo, através de quatro técnicas específicas. A primeira dessas técnicas consiste na divisão do tempo em segmentos – sucessivos ou paralelos -, isto é, “decompor o tempo em sequências, separadas e ajustadas”. (FOUCAULT, 1975, p. 134). Tal procedimento pode ser visualizado, principalmente, em organizações como o exército. Em princípio, as escolas militares ensinam aos recrutas a postura correta na qual um soldado deve adotar. Após concluída essa face inicial, passa-se, então, para um aprendizado que se estrutura de forma sucessiva e isolada: ensinamentos a respeito da marcha, do manejo das 26 armas e, por fim, das técnicas de tiro. Tudo deve ser feito sem sobreposições de aprendizados. Só se passa a uma atividade se a anterior estiver devidamente concluída. O segundo procedimento de capitalização do tempo forma-se por meio da organização das tarefas segundo um esquema analítico que permita ao máximo a simplificação dos elementos no interior de uma combinação crescente de complexidade. Tomando, novamente, o exemplo militar como ilustração, as disciplinas estabeleceram a adoção do princípio dos gestos simples: posição dos dedos, flexão das pernas, movimentos dos braços, dos ombros e da cabeça etc. Tudo isso para gerar um comportamento que seja, ao mesmo tempo, útil e dócil, além de permitir, naturalmente, um treinamento intenso das habilidades dos soldados. A terceira técnica, por sua vez, consiste em finalizar os segmentos temporais através de uma prova, um teste, que indicará, entre outras coisas, se o indivíduo conseguiu atingir o nível esperado, bem como garantirá que todos os aprendizados estão em uma relativa sintonia, classificando, assim, os rendimentos e capacidades de executar tarefas de acordo com uma hierarquia. Por fim, o quarto procedimento realizado pelas disciplinas para que se tenha uma acumulação do tempo significa estabelecer séries de séries. Ou seja, indicar a cada um dos indivíduos, de acordo com suas habilidades e seu nível de aprendizado, os tipos de exercícios que deverão ser executados por eles. Ao final de cada série, surgem outras, formando-se ramificações que se subdividem constantemente, em um processo quase eterno de sucessões de séries e tarefas. Dessa forma, o poder disciplinar aprisiona cada um dos indivíduos em uma série temporal que irá definir suas qualidades e, consequentemente, a categoria que deverá ocupar no interior da coletividade. Nesse sentido – e talvez seja a parte mais relevante da análise a respeito da organização das gêneses – o tempo disciplinar organizará: diversos estágios separados uns dos outros por provas graduadas; determinando programas, que devem desenrolar-se cada um durante uma determinada fase, e que comportam exercícios de dificuldade crescente; qualificando os indivíduos de acordo com a maneira como percorrem essas séries. (FOUCAULT, 1975, p. 135). Dessa forma, a criação de estágios separados para a execução de tarefas permite o investimento do poder no decorrer de todo o processo. Possibilita, também, o controle detalhado e minucioso 27 dos procedimentos, além da intervenção, quando necessária, em qualquer momento e/ou estágio do processo/tempo. 2.2.4 A composição das forças As disciplinas, entretanto, não consolidaram-se somente por meio da arte de equacionar corpos e extrair dos mesmos o máximo de tempo possível, mas também utilizaram de uma composição das forças para a criação de um aparelho disciplinar integral e eficiente. Nesse sentido, o poder disciplinar fará do corpo um elemento (corpo-elemento) em que se pode colocar, modificar, mover, e comparar com outros pares. O que irá definir, essencialmente, o indivíduo será “o lugar que ele ocupa, o intervalo que cobre, a regularidade, a boa ordem segundo as quais opera seus deslocamentos”. (FOUCAULT, 1975, p. 138). Pode-se dizer, então, que a disciplina, a partir do momento em que transforma o corpo em um elemento maleável, irá realizar um movimento que produzirá quatro tipos de individualidades. Em princípio, ao realizar a repartição espacialmente política dos corpos, a disciplina será capaz de articular uma individualidade do tipo celular. Articulará, também, uma individualidade orgânica, pelo fato de codificar gestos e comportamentos. Além disso, a disciplina produzirá uma terceira individualidade: a genética, ao se apropriar do tempo e acumulá-lo. Por fim, uma individualidade combinatória, pela composição das forças que a disciplina estabelece. Nessa perspectiva, Foucault (1975) afirma que o indivíduo moderno é uma produção do poder e do saber. O poder disciplinar, ao contrário de outras formas de exercício do poder, não destrói o indivíduo. Muito antes pelo contrário, ele o fabrica. Isto é, o indivíduo não é o outro do poder, não é uma realidade exterior a ele, e sim um de seus principais efeitos. Todavia, é fundamental que se faça uma importante ressalva: ao afirmar que o poder-saber é capaz de gerar individualidades, Michel Foucault levou em consideração apenas os processos e mecanismos que ocorriam no interior dos aparelhos disciplinares. Isso não quer dizer, entretanto, que todo tipo de poder é capaz de produzir individualidades. 28 Além dos recursos mencionados, o sucesso das disciplinas, segundo Foucault (1975), deve-se ao uso de alguns outros instrumentos técnico-políticos aparentemente simples e modestos, tais como: a vigilância hierárquica, a sanção normalizadora, o exame e o panoptismo. Modestos na medida em que o micro-poder - ao contrário do poder estatal, por exemplo, que se volta para os indivíduos com o objetivo de subjugá-los – tem como função principal adestrar os corpos, ou ainda, “adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor”. (FOUCAULT, 1975, p. 143). O poder disciplinar não pretende reduzir as forças e individualidades, e sim ligá-las, multiplicá-las, para que elas possam ser utilizadas da melhor forma possível pelos aparelhos disciplinares. Ou seja: a disciplina “fabrica” indivíduos; ela é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício. Não é um poder triunfante que, a partir de seu próprio excesso, podese fiar em seu superpoderio; é um poder modesto, desconfiado, que funciona a modo de uma economia calculada, mas permanente. (FOUCAULT, 1975, p. 143). Por conseguinte, as relações de poder disciplinares consolidaram-se através de dispositivos e modalidades menores e sutis, principalmente se forem comparadas ao exercício do poder realizado nas sociedades de soberania ou, até mesmo, nos grandes aparelhos de Estado. 2.2.5 A vigilância hierárquica De acordo com Michel Foucault (1975), o exercício das disciplinas consiste em um dispositivo estruturado em torno do “jogo de olhar”. Dispositivo este que as técnicas do ver e ser visto induzem, naturalmente, efeitos de poder. Os efeitos coercitivos tornam-se visíveis para aqueles que lhe são submetidos. Há, portanto, “um poder que age pelo efeito de uma visibilidade geral”. (FOUCAULT, 1975, p. 144). Durante um longo período de tempo, foi possível encontrar na construção de cidades operárias, hospitais, asilos, prisões, casas de educação, entre outras instituições disciplinares, um modelo pautado na visibilidade geral do poder, que tem como principal característica “o encaixamento espacial das vigilâncias hierarquizadas”. (FOUCAULT, 1975, p. 144). A partir da concepção de vigilância hierárquica, desenrola-se uma problemática 29 importante: o nascimento de uma arquitetura que não tem mais o objetivo de apenas ser vista ou, até mesmo, vigiar o espaço externo a ela, mas sim uma arquitetura que permita um controle interior detalhado e minucioso. Em outras palavras, uma arquitetura que serviria como elemento de transformação dos indivíduos, na medida em que passa a observá-los, identificá-los, controlálos, e reconduzi-los em direção às relações de poder. Dessa forma, “o velho esquema simples do encarceramento e do fechamento – do muro espesso, da porta sólida que impedem de entrar e sair – começa a ser substituído pelo cálculo das aberturas, dos cheios e dos vazios, das passagens e das transparências” (FOUCAULT, 1975, p. 144-145). Assim, a vigilância hierarquizada faz com que o poder seja organizado de forma múltipla, automática e anônima. É graças às técnicas de vigilância que o domínio sobre os corpos efetua-se a partir de uma lógica ótica, uma lógica dos olhares. Ou melhor, a vigilância hierárquica: permite ao poder disciplinar ser absolutamente indiscreto, pois está em toda parte e sempre alerta, pois em princípio não deixa nenhuma parte às escuras e controla continuamente os mesmos que estão encarregados de controlar; e absolutamente “discreto”, pois funciona permanentemente e em grande parte em silêncio. A disciplina faz “funcionar” um poder relacional que se auto-sustenta por seus próprios mecanismos e substitui o brilho das manifestações pelo jogo ininterrupto dos olhares calculados. (FOUCAULT, 1975, p. 148). Tal problematização em torno do regime de visibilidade disciplinar ganhará corpo teórico um pouco mais adiante, na discussão que será realizada a respeito de um outro mecanismo do micropoder: o Panoptismo. 2.2.6 A sanção normalizadora A sanção normalizadora, importante ferramenta técnico-política das disciplinas, funcionava, essencialmente, através de um micro-processo penal, dotado de leis próprias e formas particulares de sanção e julgamento. Seria como se as disciplinas estabelecessem pequenas penalidades e/ou “infra-penalidades”, que são capazes de preencherem os espaços vazios deixados pela lei jurídica oficial. Em lugares como a oficina, a escola, o hospital e o 30 exército a sanção normalizadora estabelecerá uma espécie de micropenalidade do tempo, da atividade, dos discursos, dos gestos, do corpo etc. Trata-se, portanto, de tornar penalizáveis as frações mais tênues da conduta, e de dar uma função punitiva aos elementos aparentemente indiferentes do aparelho disciplinar: levando ao extremo, que tudo possa servir para punir a mínima coisa; que cada indivíduo se encontre preso numa universalidade punível-punidora. (FOUCAULT, 1975, p. 149). Vale destacar que as punições disciplinares possuem uma dupla natureza. Por um lado, trata-se de uma ordem estabelecida de forma explícita através de um conjunto de leis, regulamentos e estatutos. Por outro, é uma sanção definida através de processos naturais: “a duração de um aprendizado, o tempo de um exercício, o nível de aptidão têm por referência uma regularidade, que é também uma regra”. (FOUCAULT, 1975, p. 150). Ademais, o castigo disciplinar tem, por excelência, a função de diminuir a quantidade de desvios. Sendo assim, ele deve ser, sobretudo, corretivo. Além das punições institucionalizadas, os sistemas disciplinares apresentaram castigos que são da ordem do exercício: intensificação e repetição, quantas vezes for necessário, do aprendizado. 2.2.7 O exame Já o exame, por sua vez, conjugou as técnicas dos dois mecanismos anteriores: vigilância hierárquica e sanção normalizadora. O exame é visto como um dispositivo que, ao mesmo tempo, vigia e normaliza, isto é, um dispositivo capaz de realizar uma vigilância que tem como função qualificar, classificar e, em última instância, punir. É justamente por isso que, no interior das relações disciplinares, o exame é tão largamente utilizado, quase que como um ritual a ser seguido invariavelmente pelos indivíduos. Nesse sentido, é possível perceber a presença do exame em vários aparelhos disciplinares, como por exemplo: nos quartéis militares, nos hospitais, nas escolas primárias, nas universidades, nas prisões, entre outros. De acordo com Foucault (1975), a vasta utilização desse mecanismo pode ser explicada devido, sobretudo, ao fato de que nele: 31 vêm-se reunir a cerimônia do poder e a forma da experiência, a demonstração da força e o estabelecimento da verdade. No coração dos processos de disciplina, ele manifesta a sujeição dos que são percebidos como objetos e a objetivação dos que se sujeitam. A superposição das relações de poder e das de saber assume no exame todo o seu brilho visível. (FOUCAULT, 1975, p; 154). Entre todos os instrumentos técnico-políticos do micro-poder, talvez o exame seja o principal a realizar um movimento que coloca em simbiose as relações de poder com o campo do saber e do conhecimento. Com o propósito de evidenciar melhor essa relação simbiótica, Michel Foucault desenvolveu, no decorrer de toda a sua obra, um método analítico para que se possa compreender como e por que os saberes, de um modo geral, estão ligados ao exercício do poder. Tal método foi batizado pelo pensador francês de Arqueologia do Saber 4. Antes, porém, de esclarecer com mais profundidade as relações existentes entre podersaber, é válido sublinhar duas conseqüências importantes derivadas do ritual de exame. A primeira dessas consequências pode ser postulada da seguinte maneira: “o exame inverte a economia da visibilidade no exercício do poder”. (FOUCAULT, 1975, p. 156). Tradicionalmente, o poder é manifestado de forma explícita, transparente, nítida. E encontra o princípio de sua força, justamente, nesse movimento de exibição, de vulgarização constante. O poder disciplinar, ao contrário, é exercido de forma implícita, quase anônima. Entretanto, ele exige dos indivíduos que se submetem a ele uma visibilidade que deve ser obrigatória para que sua manifestação seja completa e efetiva. Nos processos de disciplina, são os indivíduos comuns que devem ser vistos, e não mais o próprio poder. E é o fato dos indivíduos serem vistos constantemente que garante o funcionamento das relações disciplinares. No regime de caráter absolutista, por exemplo, o exercício do poder poderia ser facilmente visualizado e verificado, na medida em que a aparição do soberano representava a incorporação simbólica do poder presente nas sociedades monárquicas (sociedades de soberania). O poder disciplinar, todavia, não se exibe de forma tão clara e perceptível aos seus “súditos”. O que se mostra, na verdade, são os efeitos desse poder. 4 A análise arqueológica refuta a idéia de que as ciências humanas surgiram a partir de uma interrelação entre os saberes. Para Foucault, tal explicação foi criada com o intuito de esconder, propositalmente, a relação existente entre saber e práticas econômicas e políticas. Dessa forma, o saber é visto como um “dispositivo de natureza essencialmente estratégica”. (MACHADO, 1979, p. X). Tal problematização será retomada e aprofundada por Foucault em um outro projeto teórico: a Genealogia do Poder. 32 A segunda conseqüência advinda da instauração do exame pode ser anunciada do seguinte modo: “o exame faz também a individualidade entrar num campo documentário”. (FOUCAULT, 1975, p. 157). O exame, ao colocar os indivíduos em constate vigilância, realiza um processo de registro e documentação de suas atitudes, comportamentos e atividades. Conforme é salientado por Foucault (1975), “os procedimentos de exame são acompanhados imediatamente de um sistema de registro intenso e de acumulação documentária”. (FOUCAULT, 1975, p. 157). A documentação administrativa das atividades é, por exemplo, um procedimento utilizado largamente pelo exército, com o objetivo de encontrar os desertores, evitar convocações repetidas, realizar o balanço dos desaparecidos e dos possíveis mortos. Da mesma forma, os hospitais adotam o registro constante das atividades para reconhecer melhor os doentes, acompanhar a evolução das doenças, bem como verificar a eficácia dos tratamentos. Pode-se dizer, então, que as técnicas de documentação inauguradas pelo exame fizeram com que cada indivíduo fosse visto como um “caso”, isto é: os indivíduos são considerados pelos processos de disciplina como algo em que se pode ser descrito, analisado, caracterizado. As disciplinas implicam, portanto, um registro constante de conhecimento e saber. Feitas as análises das conseqüências da implementação do exame na técnica disciplinar, é válido ressaltar um deslocamento importante: o saber, no espaço compreendido das relações disciplinares, passa a fazer parte das engrenagens das relações de poder. O saber é, segundo Michel Foucault (1987), produzido pelo poder e, ao mesmo tempo, intensificado por ele. Em outras palavras, as disciplinas executam, ao mesmo tempo, o exercício do poder e a construção do saber. De acordo com Machado (1979), todo saber é político, na medida em que ele tem sua gênese em paradigmas de poder. O fundamental aqui talvez seja dizer que poder e saber relacionam-se de forma mútua, isto é: não há relações de poder sem a criação de saber e, por outro lado, todo campo de saber estabelece relações de poder. Em suma, a tese principal da Arqueologia de Foucault, grosso modo, consiste em: “o poder é produtor de individualidade. O indivíduo é uma produção do poder e do saber”. (MACHADO, 1979, p. XIX). Produção esta que marcará toda a existência dos indivíduos no interior das sociedades modernas ocidentalizadas. 33 2.2.8 O panoptismo Uma outra ferramenta técnico-política do micro-poder fundamental para a compreensão da formação e do funcionamento das sociedades disciplinares é o panoptismo. Idealizado por Jeremy Bentham (2000) no século XVIII, o Panóptico, em termos físicos e arquitetônicos, pode ser descrito da seguinte forma: nas periferias, uma construção em formato de anel. No centro, a presença de uma torre vazada de extensas janelas que se debruçam sobre a parte interna desse anel. A construção periférica é dividida em diversas celas, tendo em cada uma delas a presença de duas janelas, uma para o interior e a outra para o exterior, permitindo, assim, que a luz atravesse as celas em toda sua extensão. Assim, para controlar as ações dos indivíduos que estão enclausurados nas celas, é necessário apenas colocar um vigia na torre central, e pelo efeito de contraluz, o controlador verá as silhuetas das pessoas que estão nas celas periféricas do Panóptico. Portanto, o “dispositivo panóptico organiza unidades espaciais que permitem ver sem parar e reconhecer imediatamente”. (FOUCAULT, 1975, p. 166). Dessa forma, há uma inversão no princípio da masmorra. Nesse dispositivo, as principais funções eram: trancar, privar de luz e esconder. O Panóptico conserva apenas a primeira função, suprimindo as demais. Institui-se, assim, a visibilidade como sendo uma armadilha criada pelo poder. O Panóptico apresentou efeitos importantes para os processos de disciplina. Em um primeiro momento, ele evita a concentração excessiva de pessoas nos locais de encarceramento, visto que a disposição dos elementos arquitetônicos de sua estrutura faz com que cada indivíduo fique trancado em sua cela sob a vigilância do controlador. E, além disso, o Panóptico evita a possibilidade do detento comunicar-se com os companheiros devido a presença de muros laterais: “é visto, mas não vê; objeto de uma informação, nunca sujeito numa comunicação”. (FOUCAULT, 1975, p. 166). Há, portanto, no Panóptico, uma invisibilidade lateral que impede o contato e a comunicação entre os enclausurados. É a tentativa do poder de gerir individualmente uma massa repleta de multiplicidades. 34 E essa invisibilidade lateral, por sua vez, é a garantia da ordem no interior do dispositivo panóptico, conforme é salientado por Michel Foucault (1975): se os detentos são condenados não há perigo de complô, de tentativa de evasão coletiva, projeto de novos crimes para o futuro, más influências recíprocas; se são doentes, não há perigo de contágio; loucos, não há risco de violências recíprocas; crianças, não há “cola”, nem barulho, nem conversa, nem dissipação. Se são operários, não há roubos, nem conluios, nada dessas distrações que atrasam o trabalho, tornam-no menos perfeito ou provocam acidentes. (FOUCAULT, 1975, p. 166). Por conseguinte, o Panóptico organiza as múltiplas trocas, de diversas naturezas, que são feitas pela multidão, e passa a realizar uma separação das individualidades. Aparece, então, o efeito mais importante, segundo Michel Foucault (1975), do Panóptico: induzir no detento uma estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder. Fazer com que a vigilância seja permanente em seus efeitos, mesmo se é descontínua em sua ação. (FOUCAULT, 1975, p. 166). Em outras palavras, pode-se dizer que o essencial, no Panoptismo, é que o enclausurado saiba que está sendo vigiado, mesmo não tendo a necessidade de sê-lo efetivamente. Desenrola-se, então, uma estrutura que caracteriza o poder como sendo visível e inverificável. Visível, na medida em que o detento, o operário, o doente, o louco ou, até mesmo, a criança perceberão, de forma ininterrupta, a silhueta da torre central. Inverificável, pois esses mesmos indivíduos jamais terão a certeza que estão sendo realmente observados, porém saberão sempre que tal procedimento poderá ser facilmente realizado. Além do mais, o Panóptico é responsável por automatizar e "desindividualizar" o exercício do poder. Segundo Michel Foucault (1975) – e conforme assinalado no início deste capítulo -, o poder não existe como sendo algo unitário e global. O poder é constituído, unicamente, por formas não tangíveis, heterogêneas, que estão em constante transformação. Daí a polêmica em torno das teorias foucaultianas a respeito desse assunto. Ao contrário da concepção marxista, por exemplo, Foucault não aceita como verdadeira a hipótese de que uma classe social possua a propriedade exclusiva sobre o poder. Sendo bastante rigoroso, é possível afirmar, segundo as análises foucaultianas, que o poder não existe. O que existe, na verdade, são práticas e/ou relações de poder. O que significa dizer que o poder só pode ser analisado a partir do momento em que ele é exercido, que é colocado em prática, em funcionamento. 35 É necessário, neste momento, esboçar uma pequena discussão – que, posteriormente, será retomada nos capítulos seguintes - em torno da relação entre subjetividade, visibilidade e tecnologia em dois períodos históricos distintos: a modernidade e a contemporaneidade. No período moderno, segundo apontou o próprio Foucault em Vigiar e Punir (1975), era impossível separar a subjetividade dos dispositivos de visibilidade. A respeito desse assunto, Fernanda Bruno, em Máquinas de ver, modos de ser: visibilidade e subjetividade nas novas tecnologias de informação e de comunicação (2008), afirma: “as instituições disciplinares, que encontram seu modelo ideal no Panóptico, são máquinas de ver que produzem modos de ser”. (BRUNO, 2008, p. 02). Em outras palavras, pode-se dizer que o olhar individualizante moderno foi capaz de tornar visível, observável e analisável o indivíduo comum, ordinário, ou antes, os indivíduos e/ou grupos sociais que apresentavam algum tipo de comportamento anormal, desviante. Conforme dito anteriormente, o principal efeito do Panóptico seria induzir o enclausurado em um sentimento de visibilidade que asseguraria o funcionamento automático do poder. Isto é, os dispositivos modernos de vigilância e visibilidade, conforme ressalta Bruno (2008), dependem, para funcionarem de modo adequado, de um processo de interiorização de seus efeitos por parte dos indivíduos. Nesse sentido, o olhar do Outro abrirá um novo campo de visibilidade: um campo que, a partir da modernidade, será interno, subjetivo, voltado para dentro, situado no interior dos próprios sujeitos, através, principalmente, de seus pensamentos, paixões, desejos etc. Dessa forma, os dispositivos modernos de visibilidade inauguram um processo de subjetivação que deve ser auto-reflexivo, interiorizado, profundo, auto-vigilante e capaz, sobretudo, de assimilar e reproduzir as normas, regras e padrões vindas do exterior. Em suma, uma subjetividade, conforme é mostrado por Bruno (2008), que julga e condena a si mesma. Na passagem da modernidade para a contemporaneidade, o foco da visibilidade ainda continuará voltado ao indivíduo comum, entretanto, apresentará alguns deslocamentos preponderantes que, por sua vez, serão capazes de provocar diferentes análises no que diz respeito aos processos de subjetivação. De acordo com Bruno (2008), o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa, em especial a TV, ocasionou uma mudança importante no foco de visibilidade: ele deixa de incidir sobre o indivíduo comum e passa a voltar-se aqueles que detêm o poder, isto é, as elites e suas promoções exageradas de celebridades e popstars no mundo televisivo. Assim, o indivíduo comum, ordinário, aponta Bruno (2008), “passa à condição 36 de observador de uns poucos dignos de visibilidade, deixando de ser objeto de coerção ou correção para se tornar alvo de um poder que se exerce sobretudo por sedução”. (BRUNO, 2008, p. 04). Tal cenário no qual haverá uma inversão no foco de visibilidade ganhará o nome de Sinóptico (MATHIESEN, 1997, apud BAUMAN, p. 60). Por Sinóptico, entende-se como o dispositivo através do qual muitos passarão a vigiar poucos, contradizendo, assim, a lógica panóptica, na qual poucos vigiavam muitos. Todavia, a relação entre subjetividade e visibilidade vem ganhando novos contornos nos dias atuais, influenciada, sobretudo, pela disseminação das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), bem como pelo surgimento de diversos dispositivos que transitam no ciberespaço. Nessa perspectiva, Bruno (2008) esclarece que há, na contemporaneidade, um movimento que aponta o retorno do foco de visibilidade sobre o indivíduo comum, que não mais se encontra no interior das instituições disciplinares, e sim enclausurados nas telas de TV. A presença cada vez mais constante dos chamados reality shows (Loft Story, Big Brother etc.) parece ratificar essa concepção. Ou ainda: os circuitos fechados de Televisão (CFTV), as câmeras de vídeo-vigilância espalhadas pelos espaço públicos e privados, os bancos de dados eletrônicos, bem como os programas computacionais de coleta, armazenamento e processamento de dados e informações são fatos que atestam o surgimento de um novo campo de visibilidade direcionado ao indivíduo comum. Retornando ao Panoptismo, Jeremy Bentham (2000) orgulhava-se bastante de sua invenção. Para ele, as instituições panópticas foram as responsáveis por minimizar a violência no exercício do poder. Não é mais necessário, segundo esse autor, a presença de grades, correntes, fechaduras - entre outras ferramentas coercitivas - para aprisionar os indivíduos. Basta, apenas, que as celas, no interior do Panóptico, sejam isoladas umas das outras e com aberturas nítidas e bem distribuídas, permitindo, dessa forma, a existência de um campo de visibilidade constante. Para Foucault (1975): “quem está submetido a um campo de visibilidade, e sabe disso, retoma por sua conta as limitações do poder; fá-las funcionar espontaneamente sobre si mesmo”. (FOUCAULT, 1975, p. 168). É importante mencionar, todavia, que Bentham idealizou o Panóptico não apenas para resolver problemas específicos contidos nas prisões, escolas, hospitais e oficinas. Ao idealizar tal dispositivo, ele estava interessado mesmo era em criar uma tecnologia do poder destinada a solucionar o problema da vigilância. 37 Há que se ressaltar, também, que existe um custo econômico no exercício do poder no interior do Panóptico. Cabe, então, as seguintes perguntas: qual seria a despesa geral das instituições panópticas? Quanto custará a implementação de um projeto dessa natureza? A resposta é simples: apenas um olhar. As instituições panópticas não necessitam da utilização de armas, nem tampouco de violência e/ou coação física. Será preciso apenas a existência do olhar que, naturalmente, exige poucas despesas. Daí a afirmação que o Panóptico é um mecanismo exemplar, na medida em que o poder é exercido de forma contínua e com um custo, praticamente, irrisório. Entretanto, existe, também, o chamado custo político. O poder monárquico, por exemplo, era corporificado em torno de uma intervenção violenta e descontínua. Dessa forma, ele despertava, naturalmente, um alto índice de revoltas e fenômenos de resistências que exigiam um custo político elevado. O poder disciplinar, por sua vez, possui um custo político bastante baixo, visto que é exercido de forma suave, contínua e, praticamente, anônima. Todavia, é possível constatar, de acordo com as descrições foucaultianas a respeito do Panoptismo, a existência de uma vigilância por parte do inspetor principal sobre os indivíduos responsáveis pelo enquadramento dos enclausurados. Dessa forma, cria-se uma hipótese na qual o próprio controlador do Panóptico estaria sendo observado, seguido, vigiado, ou melhor, controlado. Em outras palavras, e de forma resumida, há, no Panóptico, um controle constante dos próprios controladores. Tal impressão sugere a impossibilidade de atribuir a uma determinada pessoa e/ou um grupo de pessoas o comando da máquina panóptica, isto é, a gestão exclusiva das relações de poder. Caso fosse possível personificar o exercício do poder, tal poder se identificaria como sendo do tipo monárquico – que tinha na figura do rei sua personificação -, e não disciplinar. Objetivando elucidar um pouco mais a questão, Foucault (1975) aponta: já não se pode confiar em ninguém se o poder é organizado como uma máquina funcionando de acordo com engrenagens complexas, em que é o lugar de cada um que é determinante, não sua natureza. Se a máquina fosse de tal forma que alguém estivesse fora dela ou só tivesse a responsabilidade de sua gestão, o poder se identificaria a um homem e ser voltaria a um poder de tipo monárquico. No panopticon, cada um, de acordo com seu lugar, é vigiado por todos ou por alguns outros; trata-se de um aparelho de desconfiança total e circulante, pois não existe ponto absoluto. (FOUCAULT, 1975, p. 221). Assim, conforme mencionado anteriormente, não se deve apreender o poder como se ele possuísse uma titularidade. Na realidade, nem o próprio criador do Panóptico – e talvez aqui seja 38 o aspecto mais perverso do mecanismo – está a salvo de seus processos e efeitos de dominação. Objetivando esclarecer um pouco mais as problematizações anunciadas até o presente momento, será realizado um breve apanhado das concepções foucaultianas a respeito das relações de poder. 2.3 A Genealogia do Poder em Michel Foucault O projeto de uma Genealogia do Poder surgiu no pensamento de Michel Foucault por volta de 1970, com as publicações das seguintes obras: Vigiar e Punir (1975) e a História da Sexualidade I: A vontade de Saber (1988). Ambas as obras complementaram, de certa forma, um outro projeto foucaultiano: a Arqueologia do Saber. Nessa etapa da vida, Foucault estava interessado em examinar a maneira pela qual os indivíduos se constituem no interior de relações de poder-saber. A grande diferença entre os dois projetos é que a Arqueologia pretendia examinar a gênese e as transformações no campo das ciências humanas, enquanto a Genealogia vista como um complemento do projeto anterior – tinha como objetivo atrelar a constituição dos saberes ao funcionamento de práticas econômicas e políticas. Conforme é evidenciado por Roberto Machado, no prefácio da obra Microfísica do Poder (1979), não existe em Foucault uma teoria geral do poder – nem era, talvez, sua pretensão. Em oposição a esse tipo de análise, Michel Foucault (1979) propõe que se faça uma “analítica do poder”, visto que “se tentarmos construir uma teoria do poder, será necessário sempre descrevêlo como algo que emerge num determinado lugar e num tempo dados, e daí deduzir e reconstruir sua gênese”. (FOUCAULT, 1979, p. 199). Assim, o que o pensador francês realizou é uma análise do poder a partir de suas extremidades, de seus pontos mais específicos, de sua atuação local e regional. Para tanto, os estudos de Foucault apontaram a existência de formas de exercício do poder que são diferentes do Estado e que, podem ou não, estar a ele articuladas. Isto é, há mecanismos de poder que atuam de forma mais cotidiana, elementar e capilar do que as pessoas possam imaginar. Apesar disso, é impossível negar que a teoria foucaultiana produziu um importante deslocamento no interior das ciências humanas, principalmente no que tange o objeto 39 das Ciências Políticas. Para esse campo específico do saber, o poder concentra-se único e exclusivamente no Estado. Já Foucault, pensava um pouco diferente. Para ele, os poderes são exercidos em diferentes níveis, e em vários pontos do corpo social. E nessa relação, os micropoderes podem ou não estarem integrados ao Estado. Vale, neste momento, realizar uma importante ressalva: Foucault não menosprezou, em momento algum, o papel do Estado nas relações de poder presentes nas sociedades modernas ocidentalizadas. O que ele quis ressaltar, na verdade, foi que o Estado não é o único órgão no qual as relações de poder estão imbricadas. E, além disso, Michel Foucault não pretendia afirmar que os poderes moleculares são uma extensão, um prolongamento, uma continuação ramificada do poder estatal. Tanto é que Foucault comprometeu-se em realizar uma análise “descendente do poder”: partindo do micro-poder em direção ao poder estatal. Ou seja: trata-se [...] de captar o poder em suas extremidades, lá onde ele se torna capilar; captar o poder nas suas formas e instituições mais regionais e locais, principalmente no ponto em que, ultrapassando as regras de direito que o organizam e delimitam, ele se prolonga, penetra em instituições, corporifica-se em técnicas e se mune de instrumentos de intervenção material, eventualmente violentos. (FOUCAULT, 1979, p. 182). A partir do trecho acima, é possível perceber que para Foucault não há uma relação direta e imediata entre poder e aparelho estatal. Sendo assim, o poder não pode ser visto como um fenômeno centralizado e totalitário - que exerceria a dominação de todas as partes da vida social -, mas sim como um conjunto de relações e dispositivos que perpassam, fluem no interior de uma sociedade. Dessa forma, para que se possa realizar profundas mudanças nas sociedades modernas ocidentalizadas, não basta apenas controlar – ou, até mesmo, destruir – o Estado. É necessário, antes de tudo, demolir os micro-poderes, que atuam fora, abaixo e ao lado dos aparelhos estatais. O que parece ser evidente nas análises foucaultianas é uma espécie de “funcionalidade” quanto à idéia do poder. Isto é, o poder seria colocado em prática como uma maquinaria que se dissemina por toda a malha social, mesmo não estando em nenhuma parte dela. “O poder está em toda parte; não porque englobe tudo, e sim porque provém de todos os lugares” (FOUCAULT, 1979, p. 89). Daí a recusa foucaultiana em aceitar o poder como uma mercadoria, um bem em que uma pessoa, ou até mesmo uma classe social, seria capaz de possuir. 40 Com o intuito de explicar a maneira pela qual a rede de poderes se espalha pela sociedade, Foucault adotou o modelo da guerra à inteligibilidade das relações de poder. Segundo esse modelo, o poder é visto como luta, enfrentamento, conflito, batalha, enfim, estratégia de combate estabelecida pelas forças antagônicas de uma sociedade. Na realidade, o que Michel Foucault pretendia com a adoção desse modelo era fugir das explicações tradicionais a respeito do poder que, invariavelmente, articulavam-se em torno do Direito e/ou em termos de soberania. Explicações estas que, via de regra, compreendem o poder a partir de termos negativistas, tais como: proibição, dominação, castração, ou ainda, recalcamento. Em Vigiar e Punir (1975), Michel Foucault afirma categoricamente a respeito desse assunto: é preciso parar de sempre descrever os efeitos do poder em termos negativos: “ele exclui”, ele “reprime”, ele “recalca”, ele “censura”, ele “abstrai”, ele “mascara”, ele “esconde”. De fato, o poder produz; ele produz real; produz domínios de objetos e rituais de verdade. O indivíduo e o conhecimento que dele se pode ter se originam nessa produção. (FOUCAULT, 1975, p. 161). Portanto, um outro ponto crucial suscitado pela Genealogia do Poder foucaultiana é a recusa em aceitar a idéia que aponta o poder como sendo uma manifestação exclusivamente negativa. Ao atrelar o poder às práticas do Estado e do Direito, alguns teóricos passaram a caracterizá-lo unicamente como repressivo, dominador, violento e coercitivo. Foucault, entretanto, opõe, ou até mesmo, acrescenta uma concepção positiva para o poder, dissociando-o das relações de dominação e repressão. Tal acréscimo se dá em função de uma análise que pretendia mostrar que o sistema capitalista não conseguiria sustentar-se caso fosse baseado apenas na repressão. A respeito desse assunto, Machado (1979) aponta: não se explica inteiramente o poder quando se procura caracterizá-lo por sua função repressiva. O que lhe interessa basicamente não é expulsar os homens da vida social, impedir o exercício de suas atividades, e sim gerir a vida dos homens, controlá-los em suas ações para que seja possível e viável utilizá-los ao máximo, aproveitando suas potencialidades e utilizando um sistema de aperfeiçoamento gradual e contínuo de suas capacidades. (MACHADO, 1979, p. XVI). Ademais, é possível constatar a partir do trecho acima que a Genealogia de Foucault procurou apresentar uma explicação não-jurídica para as relações de poder. Em outras palavras, não se pode dar conta integralmente das relações de poder a partir de concepções unicamente ligadas às leis e à repressão. Nesse sentido, a genealogia foucaultiana realiza uma crítica severa em direção às teorias dos filósofos do século XVIII, que aceitavam o poder como um direito originário que 41 funcionaria como uma espécie de alicerce das relações sociais presentes nas sociedades de soberania. Além disso, pode-se dizer, também, que Michel Foucault pretendia criticar uma outra concepção: a que concebe o poder como uma forma de violência legalizada. Em suma, o que Michel Foucault pretendia com seus estudos e análises era demonstrar que tanto o poder como o saber não são totalitários e unilaterais. Em outras palavras, e de forma mais simplificada: para Foucault, onde há poder e saber, há resistência. Sendo assim, ao formular a Genealogia do Poder, o filósofo francês tentou produzir conhecimentos que fossem úteis na luta contra a dominação burguesa que, ao longo dos séculos, instituiu-se e aperfeiçoou-se por meio da utilização dos saberes sobre o homem (ciências humanas). Com o intuito de estabelecer um prosseguimento ao estudo acerca das relações de poder e de suas principais consequências no que diz respeito à formação das práticas sociais, bem como dos processos de subjetivação dos indivíduos, o próximo capítulo terá como foco principal a análise e reflexão a respeito do arranjo sócio-político que sucedeu o regime disciplinar e passou a vigorar a partir de meados do século XX: trata-se, portanto, da sociedade de controle. 42 3. A SOCIEDADE DE CONTROLE: REGIME DE VISIBILIDADE E PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO “Félix Guattari imaginou uma cidade onde cada um pudesse deixar seu apartamento, sua rua, seu bairro, graças a um cartão eletrônico que abriria as barreiras; mas o cartão poderia também ser recusado em tal dia, ou entre tal e tal hora; o que conta não é a barreira, mas o computador que detecta a posição de cada um, lícita ou ilícita, e opera uma modulação universal”. Gilles Deleuze As sociedades disciplinares atingiram o apogeu no limiar do século XX. Entretanto, após a Segunda Guerra Mundial, as disciplinas - organizadas, sobretudo, em torno do confinamento começaram a apresentar sinais evidentes de crise e decadência. Os muros das instituições disciplinares – família, escola, caserna, fábrica, hospital, prisão etc. – estavam, todos eles e em todos os lugares, prestes a desabar. O próprio Foucault, conforme aponta Gilles Deleuze (1992), parece reconhecer os conflitos que, em meados do século XX, atingiram os mecanismos e aparelhos disciplinares: “de fato, ele [Foucault] é um dos primeiros a dizer que as sociedades disciplinares são aquilo que estamos deixando para trás, o que já não somos”. (DELEUZE, 1992, p. 215-216). Dessa forma, a transição entre a modernidade e a contemporaneidade foi marcada pelo surgimento de um novo paradigma de poder e, por conseguinte, desvendou-se um conjunto de relações e práticas sociais jamais vistas, até então. De acordo com Deleuze (1992), “são as sociedades de controle que estão substituindo as sociedades disciplinares.” (DELEUZE, 1992, p. 220). Ao utilizar o termo “controle” para designar o arranjo sócio-político que passou a vigorar a partir de meados do século XX, Deleuze se preocupou, na época da criação do conceito, em fazer uma alusão aos estudos realizados pelo escritor estadunidense William S. Burroughs. Sabe-se que há várias formas de abordar a transição da disciplina ao controle (LESSIG, 1999; RHEINGOLD, 2002; SHAPIRO, 1999), entretanto, serão levados em consideração neste capítulo, por uma questão de afinidade intelectual com a teoria foucaultiana, os pensamentos desenvolvidos pelo próprio Gilles Deleuze, 43 além das problematizações a respeito do tema realizadas por Félix Guattari, Antonio Negri e Michael Hardt. Antes, contudo, de adentrar na discussão propriamente dita acerca das principais diferenças entre a sociedade disciplinar e a sociedade de controle, é necessário realizar uma advertência fundamental sobre esses dois modos de organização social, tal como propõe Deleuze, no texto Post-scriptum sobre as Sociedades de Controle (1992): não se deve perguntar qual é o regime mais duro, ou o mais tolerável, pois é em cada um deles que se enfrentam as liberações e as sujeições. Por exemplo, na crise do hospital como meio de confinamento, a setorização, os hospitais-dia, o atendimento a domicílio puderam marcar de início novas liberdades, mas também passaram a integrar mecanismos de controle que rivalizam com os mais duros confinamentos. Não cabe temer ou esperar, mas buscar novas armas. (DELEUZE, 1992, p. 220). Dito isso, é importante perceber que as formas de controle – ao contrário das disciplinas, que se resguardavam em espaços fechados - se dão, essencialmente, ao ar livre, longe de barreiras físicas e locais enclausurados. Não se trata, porém, de dizer que as lógicas disciplinares desapareceram por completo com o advento da sociedade de controle, e sim assinalar o fato dos processos de disciplinarização estarem espalhados, através de outras formas representativas, por toda a malha social. Na realidade, o controle pode ser visto como um movimento de intensificação e generalização da disciplina, na medida em que as fronteiras das instituições disciplinares foram penetradas “de forma que não há mais distinção entre fora e dentro”. (HARDT, 2000, p. 369). Trata-se, portanto, de uma nova forma pela qual o poder, na passagem entre a modernidade e a contemporaneidade, marcará o espaço-tempo, o corpo, as práticas sociais e produtivas, bem como os processos de subjetivação engendrados pelos indivíduos. Um aspecto predominante capaz de distinguir a disciplina do controle consiste na lógica através da qual ambas as sociedades colocaram em prática suas operações fundamentais. A lógica disciplinar – aplicada, sobretudo, nos séculos XVIII e XIX – se consolidou a partir dos seguintes métodos: confinamento dos indivíduos, distribuição dos corpos no espaço físico, controle do tempo, organização das forças individualizantes, vigilância constante e ininterrupta das atividades, sanção normalizadora, exames classificatórios e comparativos, entre outros procedimentos técnico-políticos. Tais procedimentos, segundo Deleuze (1992), podem ser classificados como moldes – ou, ainda, distintas moldagens -, visto que as instituições 44 disciplinares são variáveis independentes, apesar de todas elas apresentarem uma linguagem analógica em comum. Ao passo que a lógica do controle – posta em vigor a partir de meados do século XX – se apresenta como uma espécie de modulação, isto é: os controlatos são moldagens interconectadas e auto-deformantes, que se alteram incessantemente com o intuito de formar “um sistema de geometria variável cuja linguagem é numérica (o que não quer dizer necessariamente binária).” (DELEUZE, 1992, p. 221). Se, anteriormente, a disciplina separava os indivíduos para melhor administrá-los, agora, o controle irá agregá-los com o intuito de dominá-los inteiramente. Objetivando elucidar com mais detalhes a diferença entre a lógica disciplinar (molde) e a lógica do controle (modulação), Deleuze (1992) traçou um paralelo entre a fábrica moderna e a empresa contemporânea. Segundo esse autor, a fábrica moderna foi concebida com o intuito de criar um cenário no qual a produção capitalista fosse intensa e lucrativa, enquanto o salário do proletariado, em contrapartida, atingisse um nível mais baixo possível. Ademais, o ambiente fabril organizava os indivíduos em um só corpo, possibilitando, assim, uma dupla vantagem, com desdobramentos, todavia, distintos: a vigilância mais eficaz dos operários por parte do patronato, e, por outro lado, uma facilidade maior para os sindicatos organizarem subversões coletivas de trabalhadores. A empresa contemporânea, entretanto, irá se esforçar ao máximo para impor uma modulação aos salários dos empregados. Para tanto, haverá a criação de prêmios, metas e desafios aos quais cada trabalhador deverá alcançá-los para aumentar sua renda mensal. Assim, as organizações empresariais contemporâneas introduziram uma “rivalidade inexpiável como sã emulação, excelente motivação que contrapõe os indivíduos entre si e atravessa cada um, dividindo-o em si mesmo”. (DELEUZE, 1992, p. 221). Em outras palavras, o “salário por mérito” será a principal modulação das relações trabalhistas contemporâneas. Nesse sentido, Deleuze (1992) sugere, ainda, que as sociedades pautadas na disciplina estabeleceram suas bases através de dois polos distintos: de um lado, a assinatura, capaz de indicar e caracterizar o indivíduo, e, do outro, o número de matrícula, responsável por posicionálo perante a massa. Nas sociedades de controle, todavia, o essencial seria o que Gilles Deleuze chamou de cifra, isto é, código e/ou senha intransferível, capaz de permitir ou não o acesso a uma determinada informação. Dessa forma, os indivíduos não são mais vistos como indivisíveis (par massa-indivíduo), mas sim como sujeitos dividuais, controlados de acordo com uma senha, ou, como prefere Deleuze, uma cifra. 45 Além disso, o movimento que transformou os sujeitos em dividuais realizou, também, uma outra operação importante, a saber: “as massas tornaram-se amostras, dados, mercados ou ‘bancos’”. (DELEUZE, 1992, p. 222). Isto é, os indivíduos, no período das disciplinas, eram identificados pelo poder através da apropriação política do espaço e, sobretudo, por meio de um constante jogo de olhares. À proporção que no período do controle, as pessoas passaram a ser observadas e controladas através de computadores e aparelhos eletrônicos capazes de detectar a posição exata de cada integrante no seio da malha social. Em outras palavras, não se tem mais a necessidade de espaços enclausurados - conforme havia na modernidade - para realizar o domínio do corpo social. O controle, no contexto contemporâneo, é feito sobre fluxos (sociais, financeiros, comunicacionais etc.) e movimentos, e se estrutura, principalmente, através da noção de rede. Uma outra forma de buscar uma diferenciação entre a disciplina e o controle, é direcionar o olhar aos diferentes tipos de máquinas que foram produzidas e utilizadas em cada uma das sociedades. Não porque a tecnologia seja um aspecto extremamente determinante, e sim pelo fato das máquinas exprimirem as formas sociais que foram capazes de criá-las. Assim, nas sociedades disciplinares, por exemplo, as máquinas energéticas eram largamente utilizadas. A entropia (passivo) 5 e a sabotagem (ativo), por sua vez, representavam os principais perigos a esses tipos de equipamentos. As sociedades de controle, entretanto, irão operar através de máquinas de informática e computadores, cujo principal perigo será a introdução de vírus e/ou a atuação dos chamados hackers. Todavia, tal mudança tecnológica deve ser vista, em última análise, como sendo uma mutação do próprio sistema capitalista, visto que, na contemporaneidade, o capitalismo “não é dirigido para a produção, mas para o produto, isto é, para a venda ou para o mercado”. (DELEUZE, 1992, p. 223-224). É fundamental salientar, igualmente, a forma pela qual cada uma dessas sociedades disciplinar e controle - estruturou seus mecanismos de dominação social. Nesse sentido, a disciplinaridade fixava os indivíduos no interior das instituições, porém não possuía mecanismos suficientes para controlá-los e comandá-los na plenitude de suas atividades. O domínio constante e ininterrupto restringia-se aos aparelhos disciplinares, e não fora dos mesmos. O poder não 5 Por entropia, entende-se como o grau de desordem de um sistema. 46 chegava ao ponto de penetrar por completo nos corpos e mentes das pessoas. O que possibilitava, de certa forma, a criação de linhas de fuga mais expressivas contra os mecanismos das disciplinas. Ou seja, “na sociedade disciplinar, pois, a relação entre o poder e o indivíduo era uma relação estática: a invasão disciplinar do poder contrabalançava a resistência do indivíduo”. (HARDT e NEGRI, 2004, p. 163). Em compensação, a sociedade de controle tentará promover a administração de toda a malha social, sem que haja descanso ou escapatória aos indivíduos. Para que esse domínio seja completo, é necessário que um novo tipo de poder – o biopoder - passe a fazer parte da vida das pessoas. Conforme foi salientado por Hardt e Negri (2004), o poder só pode obter um domínio efetivo sobre a vida inteira da população tornando-se uma função integrante e vital que todo indivíduo adota e reativa por espontânea vontade. A mais alta função desse poder é de investir a vida por inteiro, e sua primeira tarefa é administrá-la. (HARDT; NEGRI, 2004, p. 162). Dessa forma, as relações biopolíticas buscarão criar uma situação na qual o objetivo do poder será, a priori, a produção e reprodução da própria vida humana. O biopoder irá invadir corações e mentes dos indivíduos, estendendo-se, portanto, de forma integral por toda a malha social. Pensando dessa forma, o poder irá reger o corpo social como se fosse uma coisa única, homogênea, pasteurizada, sem nenhuma espécie de distinção entre as forças que o compõem. Ou ainda: a sociedade, subsumida num poder que desce até os centros vitais da estrutura social e de seus processos de desenvolvimento, reage como um corpo único. O poder exprime-se, assim, como um controle que invade as profundezas das consciências e dos corpos da população – e que se estende, ao mesmo tempo, através da integralidade das relações sociais. (HARDT; NEGRI, 2004, p. 163). Objetivando aprofundar um pouco mais a problematização acerca das relações de poder biopolíticas, será realizada uma breve digressão histórica com o intuito de elucidar o surgimento dessa prática na sociedade moderna. Posteriormente, a discussão será continuada a partir dos desdobramentos visíveis que o biopoder foi capaz de provocar na contemporaneidade. 47 3.1 As relações de poder biopolíticas A despeito desse assunto, o trabalho desempenhado por Michel Foucault é de suma importância para a compreensão das relações de poder biopolíticas. Para além disso, as concepções foucaultianas a respeito do biopoder prepararam, de certa forma, os estudos realizados por Deleuze sobre a sociedade de controle. Assim, os conceitos de biopolítica e biopoder surgiram no pensamento de Foucault no último capítulo da obra História da Sexualidade I: A vontade de saber (1988). Contudo, a problematização em torno desses conceitos ganhará a devida atenção por parte de Foucault em um momento posterior, com as publicações de obras como Em defesa da sociedade (2002) e Nascimento da Biopolítica (2008). Sendo assim, as formulações foucaultianas acerca das relações de poder biopolíticas inauguram um deslocamento teórico com relação ao que o próprio autor havia formulado sobre as sociedades disciplinares. Como se sabe, as sociedades disciplinares colocaram em funcionamento a dominação do corpo social através de um conjunto de práticas que se desenrolavam no centro de uma rede ramificada de aparelhos e instituições. O indivíduo, ao passar boa parte de sua vida transitando entre as instituições disciplinares – da família à escola, circulando, por vezes, pela caserna, fábrica, hospital e, eventualmente, a prisão -, acabava por introjetar – através de processos coercitivos bem definidos - os hábitos, costumes e práticas produtivas desse regime de poder. Dito de outra forma: colocar essa sociedade para trabalhar e garantir a obediência a seu poder e a seus mecanismos de integração e/ou de exclusão faz-se por intermédio de instituições disciplinares – a prisão, a fábrica, o asilo, o hospital, a universidade, a escola, etc -, que estruturam o terreno social e oferecem uma lógica própria à “razão” da disciplina. (HARDT; NEGRI, 2004, p. 161). Todavia, ao analisar os fenômenos político-sociais que marcaram o período compreendido entre meados do século XVIII e início do século XIX, Michel Foucault percebeu que o poder não tinha mais como foco apenas os corpos individualizados, nem tampouco estava disseminado, como outrora, por toda a sociedade. A partir daquele momento, o poder, segundo Foucault (2008), passou a se concentrar na figura do Estado, sendo colocado em prática através de políticas 48 estatais que pretendiam, entre outras coisas, administrar e comandar a vida da população. Nessa perspectiva, o biopoder pode ser definido, grosso modo, a partir do seguinte postulado: uma das mais maciças transformações do direito político do século XIX consistiu, não digo exatamente em substituir, mas em completar esse velho direito de soberania – fazer morrer ou deixar viver – com outro direito novo, que não vai apagar o primeiro, mas vai penetrá-lo, perpassá-lo, modificá-lo, e que vai ser um direito, ou melhor, um poder exatamente inverso: poder de “fazer” viver e de “deixar” morrer. (FOUCAULT, 2008, p. 287). Vale ressaltar, entretanto, que não há uma contradição entre poder disciplinar e biopoder, visto que ambos os mecanismos possuem como base comum os processos de normalização. Na realidade, Foucault criou uma combinação entre duas análises que se cruzam: a “anátomopolítica do corpo”, referente aos processos disciplinares que são voltados aos corpos individualizados, e a “biopolítica das populações”, que demonstrava o projeto estatal de controle da vida. O que há, na verdade, é uma mutação teórica nos estudos genealógicos de Foucault a respeito das relações de poder nas sociedades modernas ocidentalizadas. Ou ainda, conforme aponta o próprio autor: ora, durante a segunda metade do século XVIII, eu creio que se vê aparecer algo de novo, que é uma outra tecnologia de poder, não disciplinar dessa feita. Uma tecnologia de poder que não exclui a primeira, que não exclui a técnica disciplinar, mas que a embute, que a integra, que a modifica parcialmente e que, sobretudo, vai utilizá-la implantando-se de certo modo dela, e incrustando-se efetivamente graças a essa técnica disciplinar prévia. Essa técnica não suprime a técnica disciplinar simplesmente porque é de outro nível, está em outra escala, tem outra superfície de suporte e auxiliada por instrumentos totalmente diferentes. (FOUCAULT, 2008, p. 288-289). Dessa forma, o biopoder, atuando conjuntamente com o poder disciplinar, constituirá um dispositivo de incidência tecnológica ainda mais intenso e potente sobre a vida dos indivíduos. Se, anteriormente, o foco do poder era o homem-corpo, principalmente no que diz respeito às suas operações, gestos e atitudes individuais; o poder se voltará, agora, ao homem-espécie, isto é, ao controle e gestão da vida de toda a sociedade. Ou ainda: não se tratava mais de controlar apenas o corpo das pessoas, e sim “a vida dos homens, ela [as relações de poder biopolíticas] se dirige não ao homem-corpo, mas ao homem vivo, ao homem ser vivo; no limite, ao homemespécie”. (FOUCAULT, 2008, p. 289). Nesse sentido, o poder estatal sobre a vida dos indivíduos se estruturou a partir de mecanismos de caráter distintos, tais como: sexual, pedagógico, clínico, biológico, penal, entre 49 outros. A união desses diversos mecanismos, entretanto, permitiu ao Estado uma penetração ainda mais capilar sobre a vida do corpo social. Para tanto, Michel Foucault (2008) classificou o processo de regulamentação da população pela biopolítica através de três domínios específicos. O primeiro desses domínios leva em consideração a questão da natalidade e da mortalidade. O Estado, ao perceber a necessidade de estender ao máximo a vida dos indivíduos a fim de controlá-los de forma mais incisiva, passou a investir em políticas públicas de higiene para toda a população. O segundo domínio, por sua vez, pode ser compreendido como a criação de inúmeras instituições de assistência, bem como seguros e poupanças, com o objetivo de possibilitar uma segurança mais eficaz aos indivíduos que, em algum momento da vida, sofreram acidentes e/ou doenças. Por fim, a preocupação com o espaço urbano e a organização da cidade irá constituir o terceiro domínio criado pelo Estado para realizar um controle de caráter biológico-social da população. Assim, o biopoder, através de seus mecanismos de gestão da vida, fará com que a população inteira – e não mais o indivíduo em particular – seja vista como um objeto de regulação política e econômica. O principal efeito do estabelecimento de relações de poder biopolíticas será a idealização de uma sociedade que buscará, a todo instante, uma rentabilidade cada vez maior das ações coletivas. Desse modo, a articulação do biopoder por parte do Estado preparará, em meados do século XX, o surgimento de uma sociedade (sociedade de controle) na qual o domínio político do indivíduo, bem como da população como um todo, será feito, sobretudo, através de mecanismos virtuais e dispositivos de controle, estruturados, essencialmente, em tecnologias informacionais e comunicacionais (TIC). 3.2 Os dispositivos de controle A sociedade de controle, conforme aponta Gilles Deleuze (1992), realiza suas operações através de dispositivos bastante diferentes daqueles utilizados pela sociedade disciplinar. Tais dispositivos contribuem para promover uma alteração na relação em que os indivíduos estabelecem com o espaço e o tempo, bem como o regime de visibilidade. Nesse contexto, a 50 imagem passou a fazer parte das estratégias contemporâneas de vigilância, controle e simulação, que estão - é importante que se diga - cada vez mais disseminadas por todo o corpo social. Antes, contudo, de aprofundar a discussão em torno da presença dos dispositivos tecnológicos de controle nos espaços infocomunicacionais e urbano, é necessário realizar o seguinte questionamento: o que é um dispositivo? Em princípio, poderia se afirmar que um dispositivo seria uma espécie de suporte, ferramenta, técnica, ou até mesmo um aparato tecnológico. Todavia, conforme menciona Brasil (2004), “o dispositivo é uma máquina relacional ou, para utilizar os termos de Deleuze e Guatarri, ‘uma máquina diagramática’, ‘um diagrama maquínico’”. (BRASIL, 2004, p. 02). Assim, o dispositivo é capaz de estabelecer conexões, através da articulação entre milhares de linhas – sejam elas visíveis e/ou invisíveis, materiais e/ou imateriais -, entre elementos extremamente heterogêneos, tais como: formas tangíveis e tecnológicas, práticas políticas, discursivas e/ou estéticas, subjetividades, estratégias, ações, entre outros. Ou ainda: e, no dispositivo, as linhas não delimitam ou envolvem sistemas homogêneos por sua própria conta, como o objecto, o sujeito, a linguagem, etc., mas seguem direcções, traçam processos que estão sempre em desequilíbrio, e que ora se aproximam ora se afastam umas das outras. (DELEUZE, 1996, p. 83). Entretanto, o que realmente interessa em um dispositivo é perceber as possíveis conexões que se podem estabelecer entre as diversas linhas que o compõe. Portanto, o dispositivo opera por meio de passagens, isto é, através de linhas que se cruzam constantemente e, ao se cruzarem, se autocontaminam, se auto-deformam. Dessa maneira, o dispositivo não deve ser analisado a partir de apenas uma de suas perspectivas/dimensões – seja ela política, semiótica ou estética -, visto que tal postura poderia anular o que uma dispositivo apresenta de mais significativo: “suas linhas de cruzamento, trânsito, contaminação”. (BRASIL, 2004, p. 03). Por se tratar de uma rede múltipla e deformante, o dispositivo deve ser apreendido a partir de suas circunstâncias. Isso que dizer que uma pequena mudança no âmbito local pode reverberar - por meio da contaminação constante de linhas - em instâncias gerais, globais. O Panóptico, idealizado por Jeremy Bentham (2000) e apropriado conceitualmente por Michel Foucault (1975), é um bom exemplo ilustrativo a respeito da circunstancialidade de um dispositivo. Como se sabe, ele pode ser aplicado aos mais variados tipos de organização social, 51 tais como: família, escola, caserna, fábrica, hospital, prisão, entre outras. Todavia, essas aplicações apresentam ligeiras diferenças, visto que o Panóptico – apreendido como um dispositivo tal como ele realmente é – foi capaz de se multiplicar e se desdobrar em outros, guiando suas operações por meio de um raciocínio circunstancial. A lógica do Panoptismo, portanto, é “a da contaminação: do hospício à escola, uma multiplicidade de dispositivos que se criam, se transformam e se articulam de forma reticular”. (BRASIL, 2004, p. 03). Ademais, um dispositivo é capaz de conjugar, ao mesmo tempo, linhas genealógicas (vide a Genealogia do poder em Michel Foucault) e históricas, bem como linhas de fuga e de fraturas/fissuras. Estes dois últimos tipos de linhas – fuga e fratura/fissuras – são as responsáveis, em alguns casos, pela transformação do dispositivo em um novo dispositivo, ou, até mesmo, pela degradação e destruição do mesmo. Nesse sentido, Deleuze (1996) é bem claro: “assim, todo dispositivo se define pelo que detém em novidade e criatividade, e que ao mesmo tempo marca a sua capacidade de se transformar, ou de desde logo se fender em proveito de um dispositivo futuro”. (DELEUZE, 1996, p. 92). Dessa forma, a análise realizada por Foucault a respeito do Panóptico demonstra a atuação dos micropoderes nas sociedades disciplinares, na qual os corpos e as subjetividades são organizados em torno de uma relação de docialidade-utilidade. Ao passo que, hoje, as estratégias de poder talvez sejam mais sutis e passam menos pela disciplina do que pelo controle: disseminam-se nas redes telemáticas dispositivos de vigilância e monitoramento, que, para além dos Estados, são os principais instrumentos do novo marketing, ainda mais invasivo que seus descendentes. (BRASIL, 2004, p. 04-05). A partir do trecho acima, é correto afirmar que a invisibilidade e o nomadismo são as características essenciais dos dispositivos de controle contemporâneos. Tais dispositivos, por sua vez, se ocuparam dos dados resultantes das atividades/comportamentos dos indivíduos no interior da malha social, bem como no espaço infocomunicacional. A análise, por exemplo, das chamadas telefônicas, das compras efetivadas, das transferências financeiras, do uso do cartão de crédito, dos acessos à Internet, entre outras coisas, são apenas alguns dos exemplos que constituem o conjunto de documentos e informações que passaram a fazer parte das engrenagens das relações de poder contemporâneas. 52 Há que se notar, também, as formas distintas pelas quais as sociedades disciplinares e as sociedades de controle organizaram seus conjuntos de dados e informações. Nas sociedades pautadas na disciplina, por exemplo, as informações eram estruturadas seguindo uma lógica hierárquica e vertical. Neste caso, o acesso de um indivíduo a uma determinada informação e/ou dado dependeria, sobretudo, da posição ocupada por ele na escala hierárquica e social das instituições disciplinares. Além disso, cada aparelho disciplinar apresentava um acervo próprio de documentos e anotações, referentes ao seu espaço físico. E, na maioria dos casos, não havia intercâmbio entre os acervos das instituições disciplinares. Por outro lado, as sociedades de controle - pautadas predominantemente em uma estrutura reticular e interconectada - irão catalogar todas as informações por meio de uma estrutura horizontal e pessoal. A rede, principal elemento desse novo tipo de organização social, ficará responsável por fixar todos os dados e escritos a respeito do comportamento diário dos indivíduos. Se no interior das relações de disciplina o indivíduo tinha seus passos e comportamentos constantemente registrados, agora, na sociedade de controle, tal procedimento se tornará ainda mais constante e aperfeiçoado, e acontecerá, sobretudo, ao ar livre, longe de barreiras físicas. Cabe, aqui, ressaltar que os dispositivos disciplinares apresentavam uma clara polarização entre a opacidade do poder e a transparência dos indivíduos. Tal polarização pode ser facilmente visualizada através do dispositivo panóptico idealizado por Foucault (1975). O poder, devido a sua localização privilegiada, estaria fora do alcance do indivíduos, enquanto estes, por sua vez, estariam em uma situação de constante observação, vigilância, monitoramento. A sociedade de controle, entretanto, fará com que os indivíduos, à primeira vista, estabeleçam uma relação mais transparente com o poder que os controla. E por acreditar nessa crença que o surgimento da web despertou uma série de reflexões a respeito da possibilidade de se criar uma sociedade mais transparente, democrática, libertária, promovendo, assim, um desvencilhamento das amarras do poder obscurantista. Tal hipótese, entretanto, não se consolidou por completo, visto que houve uma mudança também na natureza do poder contemporâneo. O poder não é mais hierárquico, e sim rizomático, difuso, disperso por uma rede 53 interplanetária. A mudança na natureza das relações de poder promovida pela contemporaneidade sugere que a polarização entre opacidade-transparência não se torna mais pertinente. Ou ainda, como aponta Deleuze (1992), “os anéis de uma serpente são ainda mais complicados que os buracos de uma toupeira”. (DELEUZE, 1992, p. 226). Dessa forma, o poder, no interior das sociedades pautadas no controle, estaria cada vez mais ilocalizável, pulverizado através dos nós das redes, ou seja, o poder não possui mais apenas uma cara e um nome. O que parece interessar ao poder, na contemporaneidade, é a modulação constante dos mais variados tipos de fluxos sociais, seja o controle do fluxo financeiro internacional, ou o controle do fluxo de desejos através da ativação ampliada e constante do consumo (publicidade e marketing), e, talvez o mais importante, o controle do fluxo de comunicação. Assim, “nenhuma forma de poder parece ser tão sofisticada quanto aquela que regula os elementos imateriais de uma sociedade: informação, conhecimento e comunicação”. (COSTA, 2004, p. 163). Nesse sentido, o Estado se tornou um ator político onipresente nas sociedades contemporâneas, modulando, assim, juntamente com o capital privado, as ações e comportamentos dos indivíduos. Em linhas gerais, pode-se dizer que os efeitos do poder nas sociedades modernas (sociedade disciplinar) eram disseminados através das técnicas e mecanismos das instituições disciplinares. À medida que na contemporaneidade (sociedade de controle) os efeitos de poder se expandem – não apenas, mas também - junto às redes de informação e comunicação. 3. 3 Os dispositivos de vigilância no espaço infocomunicacional Nessa perspectiva, o ciberespaço se apresenta como um ambiente fértil para a disseminação de dispositivos de monitoramento, controle e classificação das ações e comunicações dos indivíduos. Tais dispositivos, por sua vez, rivalizam diretamente com a privacidade dos usuários que transitam pelas redes digitais de informação e comunicação. Em princípio, é necessário definir o conceito de vigilância digital. De acordo com Bruno (2008), a vigilância digital consiste em “monitoramento sistemático, automatizado e à distância de ações e informações de indivíduos no ciberespaço, com o fim de reconhecer e intervir nas suas condutas 54 ou escolhas possíveis”. (BRUNO, 2008, p. 11). Dessa forma, os dispositivos de vigilância digital são compostos, essencialmente, por tecnologias de monitoramento capazes de controlar e identificar os passos, ações, informações e comunicações dos indivíduos; e uma estrutura organizada através da montagem de bancos de dados que, entre outras coisas, traçam o perfil do usuário. A respeito desse assunto, o serviço de busca pessoal conhecido como SPOCK merece, neste momento, uma atenção especial. Como se sabe, os diversos programas e sistemas de busca existentes, hoje, na Internet, representam um passo importante no que se refere à produção, disseminação e consumo de informações. Entretanto, esses mesmos sistemas são responsáveis, segundo Bruno (2008), por coletar, armazenar e classificar informações, atividades, gostos, preferências e inclinações comportamentais dos indivíduos. Sites como Google (buscador), Orkut (rede social digital) e Amazom.com (vendas) estão construindo, ao longo dos anos, um riquíssimo e valioso banco de dados, devido, sobretudo, ao fornecimento de informações pelos próprios usuários. Contudo, o SPOCK - ainda pouco conhecido no Brasil - é um excelente exemplo para ilustrar o que alguns teóricos vêm chamando de “vigilância colaborativa”. Trata-se de um mecanismo de busca pessoal, isto é, capaz de encontrar e indexar pessoas. Além de criar, automaticamente, taggs para os próprios usuários (facilitando, assim, a identificação dos mesmos), o SPOCK permite que cada indivíduo aponte relações entre pessoas que frequentam e utilizam a Internet, fornecendo, igualmente, novos tipos de dados e informações. Isto é, o SPOCK se torna eficaz na medida em que os usuários o utilizam. Surge, então, conforme dito anteriormente, uma espécie de “vigilância colaborativa” no ciberespaço. Todavia, é necessário apreender a questão dos dispositivos de vigilância no espaço infocomunicacional a partir da relação que eles estabelecem com o poder e a produção de saber. Assim, as tecnologias de controle digital se constituem a partir do “monitoramento e arquivo de informação; os sistemas de classificação e conhecimento dos dados; os procedimentos de individualização e produção de identidades; as formas de controle sobre as ações e escolhas dos indivíduos”. (BRUNO, 2008, p. 11). Dessa forma, cada um dos elementos que constituem os dispositivos de vigilância digital - monitoramento/arquivamento, classificação/conhecimento, individualização/identidade – será, neste momento, alvo de uma breve análise, visto que, 55 posteriormente – mais especificamente no próximo capítulo –, tal problematização ganhará um peso teórico a partir do estudo de caso a respeito do Google Street Views. No que diz respeito ao monitoramento e arquivamento de informações a respeito dos indivíduos, é possível afirmar que, nos últimos quarenta anos, essa prática se tornou ainda mais constante e aperfeiçoada. A coleta de dados individuais, segundo Bruno (2008), é um mecanismo recorrente em diversos setores, tais como: “trabalho, habitação, consumo, saúde, comunicações, deslocamentos, segurança, entretenimento, vida social, vida privada, etc”. (BRUNO, 2008, p. 11). O próprio desenvolvimento de algumas tecnologias já apresentam embutidas a elas mecanismos de monitoramento e arquivamento de informações, como é o caso, por exemplo, dos cartões de crédito e fidelidade, da telefonia móvel, dos cartões de transporte, ou ainda em sistemas mais sofisticados, tais como a geolocalização por satélite, as participações de usuários em redes sociais e digitais, as navegações e buscas online, entre outros. O avanço propiciado pelas tecnologias de informação e comunicação (TIC) na vigilância digital consiste na “facilidade de estocar e recuperar informações que derivam do monitoramento cotidiano das ações dos indivíduos”. (BRUNO, 2008, p. 11). Nesse sentido, cabe, aqui, a seguinte pergunta: quem, atualmente, possui a capacidade e/ou autoridade a realizar a coleta de dados e informações individuais? A resposta, em última instância, poderia ser qualquer um que tenha interesse e mecanismos tecnológicos para isso. A respeito desse assunto, Fernanda Bruno, no texto Monitoramento, classificação e controle nos dispositivos de vigilância digital (2008), é enfática: tanto o setor público quando o privado podem hoje, respeitando algumas regras mínimas de proteção à “privacidade”, coletar, monitorar e estocar dados individuais. Não é necessário um saber específico, um posto de autoridade, uma autorização de centros de decisão. Até os anos 1970, aproximadamente, a coleta e estocagem de dados individuais pelo setor privado era pontual e eventual. A maior parte dos bancos e arquivos sobre os indivíduos e população era de domínio estrito e secreto dos Estados, constituindo um modelo centralizado, hierarquizado e exercido por figuras de autoridade científica ou administrativa. (BRUNO, 2008, p. 12). Na contemporaneidade, o cenário, entretanto, é um pouco diferente, na medida em que se vê o aumento exponencial de bancos de dados tanto de origem pública como privada. Ademais, esses bancos de dados – sejam eles públicos ou privados – apresenta finalidades diferentes, tais como: 56 controlar a incidência de crimes, promover a saúde individual e coletiva, incentivar o consumo através de campanhas publicitárias e estratégias de marketing, ativar o entretenimento e promoção cultural, entre outras. No quesito incentivar o consumo através de campanhas publicitárias e estratégias de marketing, foi publicada (e, posteriormente, reproduzida por Fernanda Bruno em seu blog, www.dispositivodevisibilidade.blogspot.com), em 2007, uma matéria no jornal britânico The Guardian que evidenciou um fato bastante curioso e interessante para a discussão aqui proposta: uma patente da Google revelou, naquela época, que a empresa possui planos para tentar extrair perfis psicológicos por meio do monitoramento dos usuários de jogos on-line. O objetivo principal da Google seria comercializar esses perfis, bem como outras informações a respeito dos jogadores, para empresas de publicidade, de modo a oferecer produtos e serviços mais apropriados e condizentes com as preferências, gostos, interesses dos indivíduos. Assim, a principal empresa de buscas e serviços na Internet estaria, com essa medida, ferindo drasticamente a privacidade e o direito ao anonimato dos usuários de jogos on-line na Internet. Todavia, é importante assinalar e analisar outras implicações decorrentes da matéria publica pelo jornal The Guardian. A primeira delas, aponta Fernanda Bruno (2007), consiste no fato de que a elaboração dos perfis psicológicos do usuários de jogos on-line pela Google independem da identidade dos indivíduos. Ou seja, a Google não precisará identificar pessoalmente os jogadores nos quais o perfil será traçado. Dessa forma, é possível perceber que o poder, neste caso específico, convive relativamente bem com o anonimato sobre quem se exerce. (BRUNO, 2007). A segunda implicação, por sua vez, e talvez seja a mais importante delas, diz respeito a redefinição dos conceitos de “informação pessoal” e “privacidade”. Com o surgimento de novas modalidades de coleta, armazenamento, análise e classificação de dados e informações – incitadas, sobretudo, pelo desenvolvimento das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) -, esses dois conceitos adquiriram novos contornos e merecem, portanto, serem rediscutidos na contemporaneidade. Não se pode conceber a privacidade, ressalta Bruno (2007), apenas sob o ponto de vista do direito e/ou da propriedade, e sim das práticas de liberdade que são reservadas aos sujeitos pertencentes a uma sociedade civil democrática. 57 Sobre o assunto, Fernanda Bruno (2007), em seu blog Dispositivos de visibilidade e subjetividade contemporânea, faz o seguinte questionamento: a minha privacidade é ou não violada quando meus hábitos e ações são monitorados para montar perfis psicológicos que não me identificam em termos jurídicos? Além disso, em nossa cultura, a privacidade não é simplesmente um direito civil, mas também uma propriedade, logo algo que se pode conceber como mercadoria e que se pode "trocar" ou "vender" como bem quiser. Em suma, trata-se de repensar a noção de privacidade no seio das novas práticas de coleta, classificação e uso de informações sobre indivíduos, e que essa questão não seja apenas pensada no âmbito do direito ou da propriedade, mas também no horizonte das práticas de liberdade. (BRUNO, 2007). A partir do trecho acima, é possível afirmar que, independentemente de como é realizado o processo, o fato é que a coleta, análise e classificação - sem autorização prévia - dos dados e informações acerca das ações e comportamentos dos indivíduos afeta diretamente a privacidade das pessoas. Retornando ao debate acerca dos dispositivos de vigilância no ciberespaço, é importante lembrar que toda essa massa de informações e bancos de dados só possuem relevância se forem capazes de produzir conhecimento a respeito dos hábitos e comportamentos dos indivíduos. De modo geral, a organização das informações individuais pelos bancos de dados permitem encontrar padrões e regularidades, tais como perfis de criminosos, consumidores, profissionais, doentes físicos ou mentais, tipos psicológicos ou comportamentais apresentam-se como padrões que ao mesmo tempo ordenam e objetivam a multiplicidade humana, legitimando formas de governá-la. (BRUNO, 2008, p. 13). A partir do trecho acima, pode-se dizer que o conhecimento gerado pela acumulação de dados tem como finalidade, em última instância, criar perfis que apontam para um padrão de ocorrência de um certo fator (comportamental, de interesse, ou, até mesmo, patológico) no seio de um conjunto enorme de variáveis. Segundo Bruno (2008), o perfil deve ser compreendido como um conjunto de traços recorrentes que expressam as relações entre os indivíduos, e não apenas a atuação de um indivíduo em particular. Dessa maneira, o perfil, segundo Bruno (2008), deve ser visto como um mecanismo mais interpessoal do que intrapessoal. Assim, essas ocorrências geradas pelos perfis “expressam tendências e potencialidades, em vez de refletirem uma natureza ou uma lei”. (BRUNO, 2008, p. 13). Por fim, é fundamental destacar que os bancos de dados, 58 assim como suas formas de classificação, deve ser apreendido, também, como máquinas capazes de engendrarem individualizações, identidades e processos de subjetivação. 3.4 Os dispositivos de vigilância no espaço urbano Na contemporaneidade, a dinâmica do espaço urbano se tornou um local recheado de tensões existentes, nas quais a ampliação da presença dos dispositivos tecnológicos de vigilância passou a ser vista como uma questão capaz de provocar novos tipos de sociabilidade, bem como diferentes processos de subjetivação. No cenário das grandes cidades, percebe-se a articulação constante entre medo e controle. Assim, os espaços não vigiados e desconhecidos são vistos como o locais dominados pelo ilícito e, sobretudo, pela violência. Vale ressaltar que o dispositivo de vigilância mais evidente, no ambiente urbano das sociedades contemporâneas, são as câmeras de vídeo-segurança. De acordo com Bruno, Firmino & Kanashiro (2010), as câmeras de vigilância são capazes de estabelecer a existência de dois territórios distintos: um interior seguro e um exterior ameaçador. Nesse sentido, as câmeras atuam como um mecanismo de controle social e como uma demarcação visual e psicológica de limites pré-estabelecidos. Na cidade de Huixquilucan, localizada na parte oeste da Zona Metropolitana do Vale Mexicano, por exemplo, foi instalado, em 2004, um circuito fechado de televisão, mais conhecido como CFTV, objetivando realizar uma cobertura de três áreas distintas que compõem a cidade: a zona rural, a zona popular e a zonha residencial. A justificativa principal para a implementação do CFTV na cidade mexicana de Huixquilucan consiste no fato da mesma ter apresentado, nos últimos vinte anos, um expressivo crescimento populacional, acarretando, assim, em uma aproximação entre as zonas rural e popular – locais, tradicionalmente, carentes de serviços públicos eficazes e ocupados por uma população de baixa renda – e a zona residencial, local caracterizado pela alta renda da população e por apresentar uma infraestrutura urbana adequada. Segundo Nelson Arteaga Botello, autor do texto Orquestração da vigilância eletrônica: uma experiência em CFTV no México (2010), os dispositivos tecnológicos de vigilância 59 apresentam, essencialmente, duas facetas: proteção e controle social. Se, por um lado, há a crença que tais dispositivos seriam capazes de reduzir os riscos de roubos, fraudes, sequestros, acidentes e, em última instância, a violência em si, por outro, todavia, eles permitem a compilação de informações e dados de indivíduos e grupos sociais que pode ser usada para melhor identificá-los e controlá-los. Sendo assim, no caso particular da instalação do CFTV na cidade de Huixquilucan, segundo o autor, houve a predominância da segunda faceta dos dispositivos tecnológicos de vigilância – isto é, o controle social -, tendo em vista que o intuito principal das câmeras de vídeo-vigilância instaladas na cidade mexicana era construir uma espécie de “fronteira segura” para proteger a zona residencial da população que vivia nas demais áreas da cidade (zona popular e rural). De acordo com Botello (2010), as organizações pública (prefeitura da cidade) e privada (empresa particular de segurança) responsáveis pela implementação do CFTV em Huixquilucan se valeram da análise de registros e mapas da deliquência para determinar como e onde instalar as câmeras de vídeo-vigilância. Além disso, realizaram, também, uma recompilação das chamadas “informações cidadãs”, através de entrevistas, pesquisas de opinião e conversas com formadores de opinião e líderes sociais presentes na cidade mexicana. A respeito desse assunto, Botello (2010) aponta que, geralmente: comportamentos criminosos vistos por tendências, taxas e indicadores, espacializados em mapas são convenientes para a tomada de decisões no que se refere à segurança pública, pois fazem referência ao conhecimento técnico que provê uma base considerada científica para o estabelecimento de políticas. (BOTELLO, 2010, p. 26). Nesse sentido, aponta Botello (2010), as tecnologias e procedimentos de vigilância, em algumas ocasiões - e o caso do CFTV em Huixquilucan parece ser bastante emblemático -, são capazes de reproduzir e, até mesmo, industrializar uma certa lógica de exclusão social. Essa lógica será a responsável por determinar quais os indivíduos e/ou grupos sociais que serão vistos como fatores de riscos, isto é, violentos. Ao passo que outros grupos sociais específicos, geralmente localizados em camadas economicamente privilegiadas, serão beneficiados por estarem protegidos (hipoteticamente, pelo menos) pelas câmeras de vídeo-vigilância. Posteriormente, será analisado um evento similar de implantação de câmeras de vídeo-vigilância no hipercentro de Belo Horizonte, conhecido como Projeto “Olho Vivo”. 60 Dessa forma, o indivíduo comum contemporâneo passou a conviver, diariamente, com aparatos eletrônicos de vigilância – não somente as câmeras de vídeo, mas também detectores de metal, scanners, aparelhos biométricos etc. -, que registram as idas e vindas da população. Centros comerciais, bancos, espaços públicos, complexos habitacionais, estádios, hotéis, centros educacionais, estações de metrô, ônibus, enfim, nada parece escapar aos “olhos atentos” das câmeras de vídeo-segurança e das demais tecnologias e procedimentos de vigilância. É possível assinalar, inclusive, que a vigilância sistemática das atividades cotidianas tornou-se algo trivial na contemporaneidade. (BOTELLO, 2010, p. 21). Em outras palavras, em nome de uma suposta redução da criminalidade, o Estado, bem como a iniciativa privada – representada, sobretudo pelo “grande capital” -, estabelecem a organização de informações e dados sobre indivíduos e grupos sociais a fim de supervisioná-los e controlá-los. De acordo com Botello (2010), o principal argumento é que a vigilância foi desenvolvida, no decorrer desses últimos anos, numa tentativa de estabelecer mecanismos de proteção ao risco, mesmo que para isso fosse preciso passar por cima da privacidade de indivíduos e/ou grupos sociais. Na verdade, trata-se de orquestrar uma relação de controle jamais vista no passado (BOTELLO, 2010, p. 28). Um outro caso interessante a respeito dos desdobramentos sócio-políticos e comunicacionais provocados pela implementação de câmeras de vídeo-vigilância aconteceu na cidade do Guarujá, situada no litoral do Estado de São Paulo. Conhecida pelo seu potencial turístico elevado, Guarujá foi um dos municípios pioneiros no que se refere à vigilância por câmeras. De acordo com Rafael Castro e Rosa Pedro (2010), autores responsáveis pelo estudo acerca da cidade paulista que passou a ser monitorada a partir do final de 2005, foi possível perceber que alguns fatores, tais como a questão da segurança, a incidência constante de crimes e a importância do turismo para a região, foram preponderantes para que o poder público, juntamente com a empresa privada responsável pelo projeto de segurança, optassem pela instalação do videomonitoramento na cidade. A rede de vigilância instaurada no Guarujá, segundo Castro e Pedro (2010), é composta por uma central de operações – local no qual convergem as imagens captadas pelo videomonitoramento -, trinta câmeras posicionadas em pontos específicos da cidade, além de 61 uma equipe de policiais militares e guardas municipais treinados para atuarem, quando se fizer necessário, na abordagem e captura dos possíveis suspeitos de cometerem alguma espécie de crime e/ou delito. Sendo assim, a vigilância, no atual contexto urbano, passou a ser vista como a solução natural ao quadro de insegurança, medo e desordem social vivenciado pelas grandes cidades contemporâneas. Ademais, parece que os dispositivos tecnológicos de vigilância tornaram-se a principal forma de proteção, ou antes, de reação ao cenário violento e supostamente periogoso no qual os indivíduos estão inseridos, hoje em dia. No caso específico da cidade do Guarujá, aponta Castro e Pedro (2010), os idealizadores do projeto de videomonitoramento urbano, assim como a parcela da sociedade civil que legitimou essa medida, apegaram-se em números e dados estatísticos para atrelhar às câmeras de vídeo-vigilância rótulos de confiabilidade e inquestionabilidade. Todavia, o importante aqui talvez seja ressaltar que os aparatos tecnológicos de segurança, ao serem inseridos no cotidiano das cidades, são capazes de propiciar novas formas de experiência e sociabilidade, bem como processos de subjetivação, principalmente no que se refere ao anonimato, à liberdade, à intimidade, à segura e ao medo dos indivíduos contemporâneos que vivem em um contexto urbano. A problemática em torno das câmeras de vídeo-vigilância ganhará a devida atenção, nesta pesquisa, um pouco mais adiante, mais especificamente no próximo capítulo a partir de uma análise do Projeto “Olho Vivo”, criado pela empresa CDL/BH, em parceria com a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte e o Governo do Estado de Minas Gerais. Implementado no final de 2004, o projeto consiste na presença da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais (PMMG) em pontos estratégicos dos locais de grande incidência criminal na região central de Belo Horizonte, através do monitoramento por meio de câmeras de vídeo-vigilância. Entretanto, neste momento, vale ressaltar a importante transformação que os dispositivos de controle – quer sejam aplicados ao espaço urbano ou ao infocomunicacional - provocaram no regime de visibilidade contemporâneo. 62 3.5 O regime de visibilidade contemporâneo Após a Segunda Guerra Mundial, surgiram inúmeras descrições e teorias que apontaram ao fato das sociedades contemporâneas estarem sendo alvo de significativas transformações econômicas, políticas, sociais e tecnológicas. Entre essas mudanças, destaca-se o aparecimento de um novo modo de produção do social, caracterizado, sobretudo, por uma série de rupturas com os antigos padrões da sociedade industrial moderna. O desenvolvimento de fenômenos como a globalização, a tecnização e a informatização foram capazes de reposicionar o status do conhecimento humano, assegurando-lhe um lugar privilegiado no interior das sociedades contemporâneas. Isto é, o conhecimento, bem como a informação, “converteram-se em elementos fundamentais de geração de riqueza e poder desde o início da era pós-industrial”. (CASTELLS, 1996, p. 10). Para dar conta da complexidade dessa nova sociedade que se apresenta em formação, é necessário compreender o surgimento de um outro paradigma: o paradigma que remete a um pensamento das relações em oposição a um pensamento de essências. “A esse pensamento das relações dar-se o nome de pensamento em rede”. (PARENTE, 2004, p. 11). Atualmente, a noção de redes perpassa praticamente todas as áreas do conhecimento, além de despertar o interesse de trabalhos teóricos e empíricos de campos tão diversos como a ciência, a tecnologia e a arte. Nas Ciências Sociais, por exemplo, a rede define sistema de relações (redes sociais, redes de poder); na Física, ela se identifica como sendo a análise dos cristais e dos sistemas desordenados (percolação); na Tecnologia, por sua vez, a rede é a estrutura elementar das telecomunicações, dos transportes ou, até mesmo, da energia; na Economia, ela permite pensar as novas relações entre atores na escala internacional, como as redes financeiras e comerciais. (MUSSO, 2004, p. 17). Apesar das distintas abordagens em torno do pensamento em rede, todos os autores compartilham uma verdade em comum: “a rede se tornou uma dimensão, indissociavelmente ontológica e prática, de modelização do mundo e da subjetividade”. (PARENTE, 2004, p. 13). Sendo assim, as redes, bem como as tecnologias de informação e comunicação (TIC), se 63 tornaram os personagens principais das mudanças sociais em curso e passaram a exercer um papel estruturante na nova ordem mundial. Nesse sentido, a rápida difusão das TIC foi responsável por rearticular alguns parâmetros fundamentais da vida em sociedade, tais como: as práticas sociais, os mecanismos de produção de subjetividade, a relação espaço-temporal, as formas de sociabilidade, os arranjos comunicacionais, além dos modos de ver e ser visto, isto é, o regime de visibilidade contemporâneo. No que diz respeito a esse último parâmetro, é possível afirmar que há, na contemporaneidade, uma reordenação dos regimes de visibilidade. Em outras palavras, como é salientado pelos autores do livro Vigilância e Visibilidade: espaço, tecnologia e identificação (2010): os parâmetros e limites segundo os quais estávamos habituados a ordenar o ver e o ser visto estão em trânsito. Ampliam-se o modificamse as margens do visível, os modos de fazer ver, assim como os modos de ser visto. (BRUNO; FIRMINO; KANASHIRO, 2010, p. 7). Esse movimento atual feito pelos regimes de visibilidade contemporâneos envolve, inevitavelmente, os chamados dispositivos de vigilância que, cada vez mais, se apresentam através das mais variadas técnicas, modos de atuação e significações. Na verdade, as tecnologias de vigilância não se restringem apenas ao controle do indivíduo comum no espaço urbano. Os meios de comunicação, as formas de deslocamento pelo espaço físico – seja ele público ou privado -, assim como pelo espaço informacional, também são alvos de vigília pelo poder. Vale ressaltar que cada época apresenta seu regime de visibilidade próprio. E dessas condições de visibilidade participam, conforme assinalou Deleuze (1992), “máquinas, práticas, regras, discursos que estão articulados a formações de saber e jogos de poder”. (DELEUZE, 1992, p. 220). Dessa forma, os dispositivos e tecnologias de vigilância constroem e participam dos modos de ver e ser visto de uma sociedade ao articular procedimentos – alguns explícitos, outros não – de “monitoramento, identificação, controle, coleta e produção de informações sobre os indivíduos e suas ações”. (BRUNO; FIRMINO; KANASHIRO, 2010, p. 8). No que diz respeito à relação entre visibilidade e vigilância, a intervenção artística proposta pelo asiático Hasan Elahi parece ser bastante emblemática e esclarecedora. Após ser alvo de suspeita de terrorismo pelo FBI, em 2002, o artista passou a documentar - através de 64 fotos e de um emissor de GPS - todos os seus passos diários, desde o café da manhã até as viagens que realiza. O curioso, todavia, é que Elahi disponibilizou esse conteúdo íntimo e pessoal na Internet, por meio do site http://trackingtransience.net/. Nesse site, o usuário poderá acompanhar, vinte e quatro horas por dia e em tempo real, todas as ações, comportamentos e atividades do artista asiático. Na realidade, o objetivo principal de Hasan Elahi é promover uma desarticulação da vigilância sobre sua vida privada por meio de uma visibilidade total e ininterrupta da mesma. A respeito do assunto, afirma o próprio artista: “a melhor maneira de proteger a sua vida privada é torná-la pública”. (ELAHI, apud Bruno, 2007). Conforme aponta Bruno (2007), o caso de Elahi é um exemplo elucidativo de uma inversão estratégica em torno da vontade de tudo ver e controlar que é inerente ao poder público e ao capital privado. Uma outra questão preponderante sobre esse mesmo assunto, e que parece esclarecer ainda mais a relação contemporânea entre vigilâncie e visibilidade, pode ser verificada através do trabalho de arte-tecnologia desenvolvido pelo artista Miquel Mora, exibido, em 2007, no Royal College of Art, em Londres. Objetivando burlar as câmeras de vídeo-vigilância espalhadas pelo espaço urbano de qualquer grande metrópole mundial, Mora desenvolveu um sistema de proteção da identidade visual, mais conhecido como Identity Protection System (IDPS). Trata-se, na verdade, do acoplamento de stickers, isto é, pequenos adevivos, nas roupas, acessórios e objetos pessoais. Tais adesivos, por sua vez, são capazes de “borrarem” a imagens de vídeo, dificultando, assim, a identificação pessoal por parte dos sistemas de monitoramento eletrônico. A problemática em torno da articulação entre visibilidade, dispositivos de vigilância e produção do espaço contemporâneo ganhará um corpo teórico no seguinte capítulo, quando será analisado a atuação dos dispositivos de vigilância em dois momentos, a saber: no espaço físico e nas redes infocomunicacionais. 65 3.6 Processos de subjetivação A análise histórico-epistemológica quanto a questão da subjetividade não é uma exclusividade das ciências psicológicas. A própria filosofia se ateve, por meio de formas particulares e momentos históricos distintos, a estudar as diferentes definições acerca do conceito de subjetividade. A fim de problematizar a temática da produção de subjetividade a partir do pensamento desenvolvido pelo filósofo Félix Guattari – visto que tal concepção se torna fundamental na compreensão das relações estabelecidas pela sociedade de controle -, será realizado, inicialmente, um pequeno itinerário teórico a respeito das abordagens teóricofilosóficas modernas em torno do tema. Em termos gerais, o pensamento filosófico moderno se estruturou através de dois grandes eixos conceituais: um eixo vertical, local privilegiado do conhecimento, do saber e da episteme, tendo o platonismo como seu principal representante; e um eixo horizontal, marcado pela existência dos acontecimentos, na qual se encontra, fundamentalmente, as escolas filosóficas cínicas e sofistas. A diferença entre ambos os eixos advém de concepções distintas quanto ao papel da filosofia. Isto é, os filósofos da “horizontalidade” acreditavam que a “verdade” filosófica residiria na superfície do acontecimento, e não nas profundidades platônicas e/ou présocráticas. Por outro lado, a corrente filosófica de Platão teria como pretensão, em última análise, produzir um discurso universal que coincidiria com “a realização plena da Razão e a revelação do Ser em sua totalidade”. (MIRANDA; SOARES, 2009, p. 410). Dessa forma, ao privilegiar uma análise vertical dos fenômenos, o platonismo teria fundado o domínio da representação, estrutura de pensamento através do qual a filosofia ocidental irá se consolidar. Sendo assim, a problematização em torno da dicotomia entre “mundo de fora” e “mundo de dentro”, entre mundo sensível e mundo inteligível, ou antes, a questão da representação, inicialmente formulada pelo platonismo, se constituirá como um problema a ser debatido pela filosofia moderna a partir do momento em que René Descartes formulará, pela primeira vez, o conceito de subjetividade. Conforme aponta Garcia-Roza (1998), as concepções cartesianas – e seus posteriores desdobramentos - a respeito da subjetividade a colocam como sendo sinônima de um “eu racional, autônomo, e individualizado”. (GARCIA-ROZA, 1998, p. 114). Em outras 66 palavras, e de forma simplificada e esquemática, pode-se dizer que a subjetividade, a partir da perspectiva cartesiana, estaria referida e seria formada através de diversas instâncias, tais como: eu, pessoa, cidadão e sujeito. E, além disso, a subjetividade apresentaria as seguintes características: “ativa, sede da razão e do pensamento, capaz de identidade consigo mesma, sujeito de direitos, virtude e verdade”. (MIRANDA; SOARES, p. 411). Nesse sentido, a questão da subjetividade, sob uma ótica platônica/verticalizada, ganhará contornos de uma consciência natural, substancial, e, portanto, pré-concebida, imutável, imanente ao próprio indivíduo. Entretanto, haverá, ao longo do desenvolvimento da ciência psicológica e do pensamento filosófico, transformações importantes quanto ao conceito de subjetividade. Tais transformações são, na verdade, uma consequência da mudança lenta e progressiva do eixo conceitual que guiará o pensamento filosófico ocidental. O eixo vertical (ou eixo platônico), responsável, conforme visto, por estabelecer uma base sólida para os sistemas filosóficos, cederá lugar ao eixo horizontal, ou “eixo conectivo, rizomático, que desmonta o fundamento último das coisas e revela seu caráter fragmentário, descontínuo, acidental”. (MIRANDA; SOARES, 2009, p. 412). Antes, contudo, de analisar os efeitos que essa mudança de eixo teórico produziu na questão da subjetividade, é necessário elucidar melhor o conceito de rizoma, criado por Gilles Deleuze e Félix Guattari (1995). Proposto em Mil Platôs (1995), o conceito de rizoma pode ser compreendido da seguinte forma: resumamos os principais caracteres de um rizoma (...). Ele não é feito de unidades, mas de dimensões, ou antes de direções movediças. Ele não tem começo nem fim, mas sempre um meio pelo qual ele cresce e transborda. Ele constitui multiplicidades lineares a n dimensões, sem sujeito nem objeto (...). Oposto a uma estrutura, (...), o rizoma é feito somente de linhas. (...) O rizoma é uma antigenealogia. É uma memória curta ou uma antimemória. O rizoma procede por variação, expansão, conquista, captura, picada. (...), o rizoma se refere a um mapa que deve ser produzido, construído, sempre desmontável, conectável, reversível, modificável, com múltiplas entradas e saídas, com suas linhas de fuga. (...) unicamente definido por uma circulação de estados (...) do tipo de “devires”. (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 32). Com o intuito de explicitarem suas principais características, G. Deleuze e F. Guattari (1995) criaram seis princípios básicos que elucidaram o funcionamento de um rizoma. O primeiro desses princípios é o da “conexão”: qualquer ponto do rizoma pode (e deve) ser conectado a 67 qualquer outro, independentemente da localização desses pontos. Tal princípio, por sua vez, opõe o rizoma ao modelo da árvore, que se estrutura em torno de um ponto central através do qual saem todas as ramificações. Concebido como um sistema acentrado, isto é, sem centro, o rizoma é capaz de realizar conexões sem ter a necessidade de obedecer hierárquica e/ou afiliativa. Assim, o sistema rizomático - através de conexões que se formam, sobretudo, por aliança possui a capacidade de crescer para todos os lados e em distintas direções. Na realidade, o “princípio de conexão” rizomática é um pensamento que se coloca como contrário ao princípio da causalidade e previsibilidade, ou ainda, ele “vai, portanto, contra os pressupostos da ciência moderna, comportando um regime temporal em que não vigoram a cronologia, a sucessão e a reversibilidade, necessárias ao funcionamento por causa e efeito”. (KASTRUP, 2004, p. 81). O segundo princípio é o da “heterogeneidade”: o rizoma deve ser visto como sendo composto por elementos materiais, biológicos, políticos e econômicos heterogêneos, distintos, diferenciados. Ao formular esse princípio, Deleuze e Guattari queriam afastar do rizoma um pensamento que o explicaria exclusivamente através da linguagem. A linguagem será uma das linhas que irá compor o rizoma, entretanto, não será a única. O terceiro princípio, por sua vez, pode ser caracterizado como o “princípio da multiplicidade”, que, entre outras coisas, destaca o caráter pré-subjetivo e pré-objetivo do rizoma, isto é, “composto de singularidades préindividuais que, dotadas de velocidade, estabelecem entre si conexões, agenciamentos, relações recíprocas, formando as linhas do rizoma”. (KASTRUP, 2004, p. 81). A questão da multiplicidade do rizoma talvez seja sua mais importante característica, visto que ela afirma que o sujeito e objeto estão imersos em uma lógica de singularidades pré-individuais, conforme aponta Kastrup (2004). Nesse sentido, o quarto princípio é o da “ruptura a-significante”. Aqui, o rizoma deve ser entendido como sendo composto por uma tensão constante entre a criação de formas e organizações e a gradual fuga e desmantelamento desses mesmos processos criativos. Levando em consideração essa perspectiva, as formas do rizoma assumem um caráter temporário, podendo ser desarticuladas a qualquer momento. Entretanto, haverá sempre uma linha de fuga que, desarticulando a forma que temporariamente realizou um corte no processo criativo, será capaz de recolocar o rizoma de volta ao seu constante devir. 68 Já o quinto princípio do rizoma se estrutura em torno da “cartografia”, principal (e primeiro) conceito metodológico da filosofia deleuzo-guattariana. Nesse sentido, o modelo cartográfico deve ser entendido da seguinte forma: ele aponta para o fato de que o pensamento sobre o rizoma não é representacional, mas inventivo. Pensamento cujo funcionamento é congruente com a natureza inventiva do próprio rizoma. Faz conexões com ele, entra em sua composição e participa de seu movimento criador. (KASTRUP, 2004, p. 82). Neste momento, é importante sublinhar que o modelo cartográfico formulado por Deleuze e Guattari será utilizado no decorrer dos próximos capítulos com o intuito de auxiliar na análise acerca dos dispositivos de vigilância contemporâneos. E por fim, o sexto princípio do rizoma é o da “decalcomania”. Em tese, esse princípio poderia ser visto, na verdade, como um antiprincípio, visto que ele remete à idéia da lógica da árvore, possuidora de um ponto central que se ramifica pela estrutura inteira. Nesse sentido, será necessário “religar os decalques ao mapa, relacionar as raízes ou as árvores a uma rizoma”. (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 23-24). De forma resumida e esquemática, pode-se dizer que o conceito deleuzo-guattariano de rizoma é uma maneira de se opor a um pensamento marcante na cultura filosófica ocidentalizada: uma visão de mundo estruturada em torno de concepções totalitárias, globalizantes e dicotômicas. Conforme dito anteriormente, a substituição do pensamento verticalizante – alto, profundo, hierárquico – pelo pensamento horizontalizante – associação, aliança, conexão – marcará, definitivamente, a ruptura com a concepção platônica-cartesiana a respeito dos fenômenos representativos, dando lugar, assim, a uma cultura do pensamento centrada no acontecimento, na qual a concepção a respeito da subjetividade será claramente influenciada. A partir dessa nova concepção do acontecimento, a subjetividade ganhará novos contornos, delimitações e definições. Não será possível falar mais, por exemplo, em subjetividade em geral, nem tampouco Sujeito Universal. A subjetividade será vista a partir da perspectiva da produção, isto é, como sendo fruto das relações e associações dos fenômenos sociais. Portanto, será abandona a idéia da existência de uma essência/natureza subjetiva, e passará a adotar como verdadeiro o conceito de processos de subjetivação. Ou ainda, conforme salientado por Miranda e Soares, no texto Produzir subjetividades: o que significa? (2009) é necessário: 69 considerar a subjetividade sob o ângulo de sua materialidade é levar em conta seu caráter processual, parcial, imanente, pré-pessoal (na medida em que antecede a qualquer sujeito individuado, porque o constitui), polifônico (no sentido bakthiniano do termo), coletivo e maquínico. (MIRANDA; SOARES, 2009, p. 414). Nesse sentido, é necessário realizar um questionamento pertinente, a saber: quem ou o quê é capaz de engendrar a subjetividade e quais seriam as condições para essa produção? Partindo do pressuposto guattariano que considera a subjetividade como um fluxo constante de sensações, comunicações, afetos, formas de existência, imagens, sons, normas, valores, entre outras coisas, pode-se dizer que “todos os sujeitos e coletivos humanos, institucionalizados ou não, com maior ou menor grau de instrução e de conhecimento tecnológico, são produtores de subjetividade”. (MIRANDA; SOARES, 2009, p. 415-416). Em outras palavras e de forma simplificada, a subjetividade seria o engendramento de diversos fatores – de origem social, econômica, política, afetiva, comunicativa, imagética, sonora, existencial – que seria capaz de constituir o “eu” de cada indivíduo. A partir dessa definição, é verdadeiro afirmar que todo ser humano – sendo ele adulto, jovem, homem, mulher, criança ou idoso -, bem como os grupos sociais de indivíduos, são capazes de produzir processos de subjetivação. A respeito desse assunto, Guatarri e Rolnik (1999) afirmam: a subjetividade é produzida por agenciamentos de enunciação. Os processos de subjetivação, de semiotização – ou seja, toda a produção de sentido, de eficiência semiótica – não são centrados em agentes individuais (no funcionamento de instâncias intrapsíquicas, egóicas, microssociais), nem em agentes grupais. Esses processos são duplamente descentrados. Implicam o funcionamento de máquinas de expressão que podem ser tanto de natureza extra-pessoal, extra-individual (sistemas maquínicos, econômicos, sociais, tecnológicos, icônicos, ecológicos, etológicos, de mídia, enfim sistemas que não são mais imediatamente antropológicos), quanto de natureza infra-humana, infrapsíquica, infrapessoal (sistemas de percepção, de sensibilidade, de afeto, de representação, de imagens, de valor, modos de memorização e produção de idéia, sistemas de inibição e de automatismos, sistemas corporais, orgânicos, biológicos, fisiológicos, etc.). (GUATTARI; ROLNIK, 1999, p. 31). Assim, ao adotar a subjetividade a partir de uma perspectiva produtiva, é fundamental ressaltar o importante papel da máquina e dos agenciamentos coletivos. No texto Da produção de subjetividade (1992), F. Guattari afirma que o pensamento clássico manteve, durante séculos, a dicotomia existente entre alma/matéria e essência do sujeito/engrenagens corporais. O filósofo francês diz, também, que os marxistas, por sua vez, opunham as superestruturas subjetivas às relações produção infra-estruturais. A teoria guattariana sobre a questão da subjetividade se opõe 70 a esses dois modelos de pensamento, e reafirma a necessidade de se pensar na relação entre sujeito e máquina para que se possa compreender a produção de subjetividade contemporânea. Para tanto, Guattari formula dois postulados a respeito da interseção homem-máquina. O primeiro postulado diz respeito ao não contentamento das máquinas informacionais e comunicacionais em veicularem apenas conteúdos representativos, e sim estarem concorrendo igualmente para a confecção de agenciamentos de enunciação, sejam eles individuais ou coletivos. O segundo postulado, por sua vez, ressalta que todos os sistemas maquínicos, independentemente do domínio – técnico, biológico, natural, semiótico, abstrato etc -, são “o suporte; por si mesmos, de processos proto-subjetivos que eu qualificaria de subjetividade modular”. (GUATTARI, 1992, p. 178). Nesse sentido, é importante fazer uma ressalva: segundo Broeckmann (2001), em Guattari a máquina não representa apenas objetos tecnológicos e/ou mecânicos, visto que as máquinas podem ser corpos sociais, complexos industriais, formações psicológicas ou culturais, bem como complexos de desejos agenciando indivíduos, materiais, instrumentos, regras e convenções que, em conjunto, constituem-se máquina. As máquinas são junções de pedaços heterogêneos, a agregação que transforma as forças, articula e impulsiona seus elementos e os coloca em estado de contínua transformação. (BROECKMANN, 2001, p. 116). Dessa forma, Félix Guattari aponta que não faz sentido o homem querer se afastar das máquinas, visto que elas são, na verdade, fórmulas hiperdesenvolvidas e hiperconcentradas de certos aspectos da própria subjetividade humana. É fundamental, neste momento, deixar claro que toda sociedade, até mesmo as “pré-capitalistas” e/ou “arcaicas”, sempre apresentou um engendramento de subjetividade através de equipamentos e máquinas. Parente (2004) reforça essa concepção guattariana ao dizer que: toda sociedade produz equipamentos ou máquinas de modelização da subjetividade: máquinas iniciáticas, retóricas, afetivas, embutidas nas instituições (religiosas, militares, corporativas, financeiras), nas tecnologias (língua, escrita, livro, computador) e nos dispositivos (câmera escura, panóptico, televisão, realidade virtual). (PARENTE, 2004, p. 95). Além disso, F. Guattari chamou a atenção para o fato de que, grosso modo, o inconsciente seria, também, uma forma de produção de subjetividade entre os indivíduos. Para esse autor, o inconsciente (seja ele freudiano ou lacaniano) é um verdadeiro equipamento coletivo de subjetivação, capaz de produzir, inclusive, a histeria, a neurose, ou até mesmo a psicose. 71 O campo conceitual em torno dos processos de subjetivação apareceu no trabalho desenvolvido por Michel Foucault e foi retomado, posteriormente, por Gilles Deleuze e Félix Guattari. Todos esses autores concordam com a afirmativa de que a subjetividade é construída, engendrada, moldada pelas práticas sociais. Os processos de subjetivação, portanto, são fundamentais na medida em que o sujeito é capaz de resistir, ou até mesmo escapar, dos poderes e saberes constituídos. “Os poderes e saberes suscitam resistências. O que resiste é uma força que em vez de afetar e ser afetada por outras forças vai se auto-afetar. Esta auto-afetação é a dobra, autoreferente, auto-organizadora”. (PARENTE, 2004, p. 96). Sendo assim, a subjetividade, segundo a filosofia deleuzo-guattariana, seria a principal linha de fuga que capaz de escapar das relações de poder-saber no interior das sociedades ocidentalizadas. A questão do agenciamento coletivo, por sua vez, é constituído pela união/acoplamento do conjunto de relações materiais com o conjunto de signos correspondentes. Ou antes, o “agenciamento é formado pela expressão (agenciamento coletivo de enunciação) e pelo conteúdo (agenciamento maquínico). (DELEUZE, GUATTARI, 1995, p. 17). Assim, o agenciamento judicial, familiar, escolar, e até mesmo midiático, constituem-se como os principais tipos de agenciamentos coletivos contemporâneos. Portanto, a partir da análise deleuzo-guattariana, pode-se dizer que não existe um sujeito dotado de uma essência, e sim sujeitos processuais, em constante transformação. Dito de outra forma, a subjetividade é, sem dúvida, um constante “de vir-a-ser”, um processo que está em transformação enquanto o indivíduo estiver submetido aos fenômenos de ordem social. Ou ainda, a subjetividade apresenta um alto poder de plasticidade. No decorrer do terceiro capítulo, será realizado um trabalho cartográfico com o objetivo de dar centralidade à discussão em torno da relação entre dispositivos de vigilância, matrizes espaciais contemporâneas e processos de subjetivação. Para tanto, a prática cartográfica abarcará dois domínios distintos, a saber: o primeiro domínio terá como foco a presença dos dispositivos de vigilância no espaço urbano, através de uma reflexão crítica acerca do projeto de monitoramento urbano “Olho Vivo”, criado pela Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH), em parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte e o Governo do Estado de Minas Gerais. 72 O segundo domínio, por sua vez, abordará a plataforma digital Google Maps Street View (GMSW), a fim de problematizar as relações entre vigilância e visibilidade nas tecnologias e meios de comunicação contemporâneos. 73 4. PROJETO “OLHO VIVO”, GOOGLE MAPS STREET VIEW E AS MATRIZES ESPACIAIS CONTEMPORÂNEAS “(...) à iluminação das vitrines, das lojas, sucederam, desde pouco, estas indiscretas luzes da cidade, esta vitrine catódica de uma régie-vídeo da qual nós somos, às vezes, os presentes”. Paul Virilio Em meados da década de 80, contexto no qual a Alemanha ainda se encontrava dividida pelo Muro de Berlim, o dramaturgo Georg Dreyman e sua companheira, a atriz Christa-Maria Sieland, vivem em meio à elite intelectual da República Democrática Alemã. A Guerra Fria, cenário sócio-político marcado pelo antagonismo ideológico entre Estados Unidos e União Soviética (URSS), exigia dos governos estadunidense e soviético um estado permanente de vigília sobre a população. O princípio da presunção de culpa era o responsável por conduzir as ações governamentais de ambos os países, isto é: até que se provasse o contrário, todo e qualquer indivíduo era visto como subversivo. Assim, Georg Dreyman e Christa-Maria Sieland passam a ter suas atividades monitoradas, por meio de um sistema de escutas clandestinas instalado na residência do casal, pelo Serviço de Informação da Berlim Oriental, polícia política do regime comunista que respondia pela abreviação, em russo, de Stasi. Com uma espionagem estruturada em torno dos dispositivos de vigilância que a época dispunha, Gerd Wiesler, agente da Stasi, começa a acompanhar - alimentado, sobretudo, por um voyeurismo incontrolável - a rotina diária de Dreyman e Sieland. A operação de monitoramento, realizada às escondidas pelo governo da Alemanha Oriental, tinha um objetivo bem delineado: produzir um saber – ou seja, construir um relatório com informações sobre possíveis atividades conspiratórias contra o governo comunista – a partir das relações de poder que foram estabelecidas em torno dos dispositivos de controle presentes na residência do casal de artistas. O controle social da população civil localizada na Berlim Oriental, todavia, não se limitava apenas a métodos secretos e implícitos. As ruas, fábricas, universidades e estabelecimentos comerciais da cidade, por exemplo, eram constantemente alvos de observação e monitoramento por parte de 74 militares e informantes ocasionais. Além disso, outros procedimentos e aparatos tecnológicos contribuíam para aumentar a vigilância sobre o indivíduo comum, tais como: circuitos fechados de televisão (CFTV), câmeras de vídeo-vigilância, sensores de presença e acesso, radiotransmissores etc. Baseado em fatos reais, o trecho acima relata, brevemente, o enredo do filme A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen, Alemanha, 2006), dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck. Vencedor, em 2007, do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o longa-metragem alemão é uma síntese sugestiva a respeito de um fenômeno extremamente importante: a expansão substancial, no decorrer dos últimos vinte e cinco anos, dos dispositivos tecnológicos de vigilância. De acordo com Botello (2010), a maior parte desses dispositivos foi desenvolvida para fins militares, no contexto dos chamados “programas de segurança nacional”, colocados em prática, sobretudo, durante a Guerra Fria. Em princípio, é importante salientar que os Estados modernos sempre desenvolveram mecanismos de controle social, entre os quais os mais variados tipos de censos em escala nacional, aponta Botello (2010), parece ter sido o primeiro. Todavia, os dispositivos e aparatos de vigilância construídos da metade do século XX em diante – momento no qual houve uma explosão das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) - apresentaram um papel crucial na elaboração de novas formas de controle social, as quais poderiam ser consideradas, segundo Kim (2004), como sendo a verdadeira “revolução do controle”. (KIM, 2004, p. 213). Tal revolução só pode ocorrer devido, entre outros fatores, ao aumento considerável da capacidade de coleta, armazenamento e controle de informações pelos atuais bancos de dados. Dessa forma, as atividades e afazeres do indivíduo contemporâneo – quer sejam no ambiente urbano ou infocomunicacional – transformaram-se em um movimento contínuo entre procedimentos e dispositivos de controle e vigilância. A despeito desse assunto, Bruno, Firmino e Kanashiro (2010) afirmam que “as tecnologias e procedimentos de vigilância tornaram-se cada vez mais corriqueiras nas arquiteturas urbanas, nos meios de comunicação, nas formas de deslocamento pelo espaço físico e informacional”. (BRUNO; FIRMINO; KANASHIRO, 2010, p. 07). Sendo assim, “a vigilância sistemática das atividades cotidianas tornou-se algo trivial”. (BOTELLO, 2010, p. 18). 75 Daí surge uma das problemáticas fundamentais em torno da vigilância: ela é capaz de articular, em um mesmo movimento, proteção e controle social. Em outras palavras, os dispositivos de vigilância visam, segundo seus entusiastas mais fervorosos – entre os quais destacam-se as instâncias governamentais, o capital privado e os veículos de comunicação -, a redução do risco de roubos, fraudes, sequestros, acidentes e, em última análise, da própria violência. Em contrapartida, esses mesmos dispositivos, apontam alguns críticos ferrenhos – como por exemplo, os defensores da liberdade civil e do direito à privacidade e ao anonimato -, permitem a compilação e manipulação de dados e informações sobre indivíduos e grupos sociais a fim de melhor supervisioná-los e controlá-los. Vale ressaltar, também, que a vigilância, em certas situações, se exerce de forma transparente e explícita, como é o caso, por exemplo, das câmeras de vídeo-vigilância instaladas em boa parte das metrópoles contemporâneas. Em outros momentos, em contrapartida, a observação e o controle visual se dão por meio dos fluxos invisíveis presentes nas redes informacionais, bem como nas tecnologias infiltradas no espaço ampliado 6. Em alguns casos ainda, há um misto entre as duas situações anteriores, isto é: estão em jogo combinações e partições variadas do visto e do não visto, atestando distintas relações entre vigilância e visibilidade nas sociedades contemporâneas e suas manifestações na organização do espaço. (BRUNO; FIRMINO; KANASHIRO, 2010, p. 08). A partir do trecho acima, é possível perceber que os dispositivos de vigilância participam e, ao mesmo tempo, influenciam ativamente os regimes de visibilidade contemporâneos, principalmente ao combiná-los com procedimentos – ora explícitos, ora implícitos – de monitoramento, identificação, coleta e produção de informações acerca das atividades de indivíduos e/ou grupo sociais. Uma outra questão relevante para a discussão aqui proposta consiste na chamada “retórica do risco”, que permeia e caracteriza as sociedades contemporâneas. Retórica esta que mergulha os sujeitos em uma situação de risco sempre iminente: “da ameaça nuclear à engenharia genética, do narcotráfico ao terrorismo, da Aids às novas epidemias, se diversifica 6 Por espaço ampliado, entende-se como uma ampliação da realidade imediata dos sujeitos através da interação entre espaço físico e espaço infocomunicacional. Tal noção ganhará, um pouco mais adiante, uma análise pormenorizada. 76 nosso ‘portifólio de riscos’”. (BRASIL, 2006, p. 106). Assim, os processos midiáticos, no contexto contemporâneo, aparecem como uma das principais legitimadoras e incentivadoras da “retórica do risco”. Os meios de comunicação de massa estão, a todo instante e com uma velocidade assustadora, alardeando notícias catastróficas, perigosas e, por conseguinte, inquietantes. Logo, se os indivíduos catalisarem suas experiências somente pelo conteúdo divulgado através dos jornais, revistas, rádios, canais televisivos, Internet etc., acabarão por achar que estão prestes a presenciarem um desastre ambiental em grande escala, um atentado terrorista sem precedentes, o surgimento de uma gravíssima crise econômica, ou até mesmo a violação e destruição de suas casas e famílias por meio de uma violência desmedida. Sendo assim, o risco – ou, antes, a estratégia da retórica do risco -, cada vez mais presente nas sociedades contemporâneas, sendo alimentado, sobretudo, pela sua extrema visibilidade midiática, acaba por criar uma demanda – aparentemente, natural e necessária - em torno do controle e da segurança. Em nome de uma suposta proximidade do risco e da catástrofe, indivíduos e grupos sociais buscam, ou, melhor, exigem o aumento do número de procedimentos, aparatos, tecnologias e dispositivos de vigilância. Há, portanto, segundo Brasil (2006), uma gestão privada dos riscos por parte do indivíduo comum. Isto é: cada pessoa deve gerir e controlar, de forma absolutamente individual e independente – sem o auxílio do Estado, portanto -, todos os custos, benefícios e riscos oriundos de suas próprias escolhas. Após essa breve introdução a respeito de algumas das problemáticas suscitadas pelos dispositivos tecnológicos de vigilância, é fundamental esclarecer o principal objetivo deste capítulo: iniciar o trabalho cartográfico em torno de dois acontecimentos contemporâneos que dão centralidade à discussão acerca da relação entre dispositivos de vigilância, regimes de visibilidade e processos de subjetivação. São eles: o projeto de monitoramento urbano “Olho Vivo” e a plataforma digital Google Maps Street View. O primeiro desses domínios evidencia a instalação de câmeras de vídeo-vigilância em locais e regiões de grande incidência criminal na cidade de Belo Horizonte. O segundo, por sua vez, oferece aos usuários da web um passeio virtual pelo espaço urbano das principais cidades mundiais. O Google Maps Street View, através de seus recursos imagéticos, tecnológicos e espaciais, permite a visualização de imagens – com uma nitidez incrível – de ruas, avenidas, prédios, centros comerciais, assim como casas e pessoas que, no momento da captação das imagens, transitavam pela cidade. 77 Assim, o Projeto “Olho Vivo” e o Google Maps Street View são sintomáticos no que diz respeito a uma das principais características das sociedades contemporâneas: a imbricação fortíssima entre vigilância, regimes de visibilidade, espaço e tecnologia de identificação. Assim, em um primeiro momento, este capítulo realizará um trabalho descritivo acerca dos objetos estudados. A análise empírica, por sua vez, será abordada no próximo capítulo desta pesquisa. Antes, contudo, de ingressar na discussão propriamente dita a respeito dos dois domínios mencionados acima, é necessário elucidar melhor os conceitos contemporâneos de espaço, território e lugar, tendo em vista que, segundo Bruno, Firmino e Kanashiro (2010), os atuais dispositivos de vigilância “têm produzido formas específicas de experiência e ordenação do espaço e seus regimes de visibilidade, sobretudo o espaço urbano e suas interfaces com o espaço informacional”. (BRUNO; FIRMINO; KANASHIRO, 2010, p. 08). Para tanto, faz-se necessário uma reflexão acerca do espaço contemporâneo, visto que é através dele que os domínios aqui estudados – Projeto “Olho Vivo” e Google Maps Street View – encontram a matriz espacial necessária às suas manifestações. 4.1 Espaço, lugar e território: uma breve discussão sobre as matrizes espaciais contemporâneas No âmbito da dinâmica urbana contemporânea, os desdobramentos causados pelo desenvolvimento rápido e constante das Tecnologias de Informação e Comunicação são significantes e perceptíveis. De acordo com Botello (2010), as TICs foram capazes de motivar o surgimento de novos agenciamentos entre sujeitos, objetos, máquinas, discursos, equipamentos e lugares. Como resultado, houve uma mudança substancial na organização espacial das atividades humanas no interior das cidades e grandes regiões metropolitanas. As TICs causaram, igualmente, conforme apontam Duarte e Firmino (2010), um aumento considerável na capacidade dos indivíduos em ampliar os limites pessoais e coletivos de interação com o espaço urbano. Fala-se, inclusive, da existência de uma realidade ampliada - e, por analogia, de uma cidade ampliada -, na qual haveria, como o próprio nome sugere, uma ampliação da realidade imediata das pessoas através da interação intangível entre “espaço físico e o que Manovich 78 (2002) chama de DataSpace [espaço da informação]”. (DUARTE; FIRMINO, apud MANOVICH, 2010, p. 29). Percebe-se, a partir daí, o surgimento de novas formas e maneiras de se experimentar, vivenciar e decodificar o espaço por parte do indivíduo contemporâneo. Ademais, alguns conceitos fundamentais da chamada matriz espacial, tais como espaço, território e lugar, também se encontram, semelhantemente, em processo de rearticulação. Em outras palavras, as TICs trouxeram, segundo Duarte e Firmino (2010), “novas perspectivas para a percepção e a definição conceitual de espaço, para quais são os limites que definem um território – ou quais são as estratégias para romper esses limites – e para a apropriação subjetiva de parte do espaço, chamados lugares”. (DUARTE; FIRMINO, 2010, p. 29). Dessa forma, faz-se necessário, neste momento, estabelecer, mesmo que brevemente, a distinção conceitual entre espaço, território e lugar. Tal diferenciação, por sua vez, permitirá uma melhor compreensão a respeito das implicações e influências exercidas pelos dispositivos de vigilância sobre as matrizes espaciais contemporâneas. 4.1.1 O conceito contemporâneo de espaço De acordo com Milton Santos (1997), o espaço é composto pela relação entre dois sistemas: o sistema de objetos e o sistema de ações. Em sua definição, Santos (1997) dá uma ênfase maior, pode-se dizer, ao segundo domínio – isto é, ao sistema de ações -, visto que o mesmo é moldado e colocado em prática através da atuação humana, apresentando, por conseguinte, finalidades e objetivos bem específicos. Já o sistema de objetos não é capaz de promover uma ação concreta, na medida em que, na natureza, as coisas apenas existem, mas não são criadas ou produzidas. Ademais, Santos (1997) acrescenta que o espaço também pode ser entendido como uma união de fixos e fluxos. Assim, os primeiros estando “fixados em cada lugar, permitem ações que modificam o próprio lugar, fluxos novos ou renovados que recriam as condições ambientais e as condições sociais, e redefinem cada lugar”. (DUARTE, apud SANTOS, 2002, p. 48). 79 Outro ponto crucial da definição de Milton Santos (1997) diz respeito às formas de organização dos objetos no espaço. Para o autor, os objetos estariam submetidos a uma certa lógica que os classificariam e os acionariam em determinados momentos específicos. Percebe-se, a partir dessa concepção, que, ao contrário do que se possa imaginar, não são os objetos os responsáveis por formar o espaço, mas sim o espaço que é capaz de dar forma e constituir os objetos, pois será o espaço que determinará quais objetos serão destacados e de que forma eles serão estruturados e organizados. Não se pode deixar de mencionar, todavia, as valiosas contribuições dadas por Deleuze e Guattari (2004a) no que diz respeito à conceituação do espaço. Nesse sentido, os autores se valeram de dois modelos analíticos, a saber: “o liso e o estriado”. É importante ressaltar, logo de início, que não há uma dicotomia elementar entre espaço liso e estriado, e sim um movimento contínuo que não cessa de transformar um modelo em outro. Ou seja, das oposições simples entre os dois espaços, as diferenças complexas, as misturas de fato, e passagens de um a outro; razões de mistura que de modo algum são simétricas, e que fazem com que ora se passe do liso ao estriado, ora do estriado ao liso, graças a movimentos inteiramente diferentes” (DELEUZE; GUATARRI, 2004a, p. 180). Percebe-se, portanto, que Deleuze e Guattari (2004a) estão interessados, conforme apontam Jesus e Silva (2006), nas passagens, nos movimentos, nos intervalos que permeiam o espaço contemporâneo. No decorrer do quinto volume da obra Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia (2004a), Deleuze e Guattari traçam uma série de modelos – tais como: tecnológico, musical, marítimo, matemático, físico, estético etc -, objetivando elucidar melhor as defições de espaço liso e estriado. A exemplo de Jesus e Silva (2006), será analisado, aqui, apenas um desses modelos - o marítimo -, tendo em vista que discorrer sobre todos os outros fugiria da proposta desta pesquisa. Sendo assim, a primeira noção proposta por Deleuze e Guattari (2004a) consiste em uma subdivisão no espaço liso: de um lado, o espaço liso “dirigido” e, do outro, o espaço liso “não dirigido”. De acordo com Jesus e Silva (2006), essa subdivisão serve para apontar que toda e qualquer reflexão acerca do espaço deve levar em consideração “seus usos e suas múltiplas relações de uso, assim como as linhas de força que são criadas nas multiplicidades de passagem 80 entre os opostos”. (JESUS, SILVA, 2006, p. 02). Assim, o espaço liso – sobretudo, o “dirigido”, pode ser apreendido da seguinte forma: direcional, e não dimensional ou métrico (...) ocupado por acontecimentos ou hecceidades, muito mais do que por coisas formadas e percebidas, (...) é um espaço de afecctos, mais que de propriedades. É uma percepção háptica, mais que ótica. (JESUS; SILVA, apud DELEUZE; GUATTARI, 2006, p. 02). Desse modo, o mar é visto como sendo, por definição, a morada do espaço liso, muito embora “é o que mais cedo se viu confrontado às exigências de uma estriagem cada vez mais estrita”. (JESUS; SILVA, apud DELEUZE; GUATTARI, 2006, p. 02). Aqui, Deleuze e Guattari (2004a) pretendem demonstrar que há inúmeros movimentos – não simétricos, é importante que se diga – responsáveis por transformar o espaço liso em estriado, e o espaço estriado, igualmente, em liso. A cidade, espaço estriado por excelência, também é acometida por esse mesmo processo contínuo que transforma um modelo de espaço em outro. Segundo Deleuze e Guattari (2004a), a cidade libera espaços lisos, que já não são só os da organização mundial, mas os de um revide que combina o liso e o esburacado, voltando-se contra a cidade: imensas favelas móveis, temporárias, de nômades e trogloditas, restos de metal e de tecido, patchwork, que já nem sequer são afetados pelas estriagens do dinheiro, do trabalho ou da habitação. (JESUS; SILVA, apud DELEUZE, GUATTARI, 2006, p. 03). A partir da análise do trecho acima, é possível afirmar que as relações, em alguns momentos de oposição, entre liso e estriado são fundamentais na medida em que revelam formas, maneiras, modos através dos quais se pode experimentar e vivenciar o espaço contemporâneo. Como sugerem Jesus e Silva (2006), talvez a real compreensão das passagens e movimentos entre liso e estriado esteja nos processos de subjetivação engendrados pelos indivíduos. As discussões em torno do conceito de espaço são múltiplas e abrangentes. Por ora, devese adotar a seguinte definição para o termo, mesmo correndo o risco de simplificá-lo: é conveniente explicitar que a idéia aqui defendida será a de que não há uma lógica absoluta do espaço, sequer uma lógica de um espaço absoluto, e sim que o espaço é construído na relação entre três partes: os objetos, as ações e os seres humanos – que agem diretamente sobre os objetos ou significam (atribuem signos e significados) ações e objetos. (DUARTE, 2002, p. 48). Nesse sentido, o trecho acima sugere que um mesmo espaço pode ser a matriz de distintas e multifacetadas espacialidades. Ou seja, o surgimento de novas espacialidades dependerá, 81 fundamentalmente, da maneira através da qual o sujeito irá vivenciar, codificar/decodificar e apreender a relação espacial existente entre objetos e ações (fixos e fluxos). Dito isso, é importante se ater a um fenômeno contemporâneo de extrema relevância para a discussão aqui proposta: o aparecimento de inúmeras manifestações urbanas centradas na construção de espacialidades derivadas dos usos e apropriações tecnológicas. No que diz respeito a essas espacialidades derivadas do uso da tecnologia, elas podem ser descritas, segundo Duarte e Firmino (2010), através de inúmeros modelos, entre os quais, os que realmente interessam para este estudo são: a) o controle e monitoramento de alguns determinados fragmentos espaciais a partir da utilização de dispositivos de recorte imagético, como por exemplo: as câmeras de vídeo-vigilância, os circuitos fechados de televisão (CFTV), além de sistemas de controle de acesso, presença e movimento; b) infiltração de tecnologias na cidade, criando, portanto, nichos de realidade virtual, ou, melhor, conforme aponta Manovich (2002), realidades ampliadas, nas quais se evidenciam a relação entre espaço urbano e infocomunicacional (espaços ampliados). Sendo assim, o controle e monitoramento de alguns determinados fragmentos urbanos por meio das câmeras de vídeo-vigilância (item a), por exemplo, dão aos espaços das cidades contemporâneas – locais que, por excelência, devem ser vistos como arenas da multiplicidade, diversidade e do diálogo - um ar de homogeneização e pasteurização. De acordo com Castro e Pedro (2010), ao articular e produzir algumas oposições – tais como: a Vítima e o Criminoso, o Bem e o Mal, a Ordem e Desordem, o Certo e o Errado etc. -, as câmeras de vídeo-vigilância pretendem definir alguns contornos, geralmente estáticos e imutáveis, ao espaço urbano, que, conforme dito anteriormente, é um ambiente marcado pela heterogeneidade, multiplicidade e tensão constante. Como se sabe, a inserção de câmeras de vídeo-vigilância em um determinado espaço é capaz de provocar uma certa alteração no comportamento por parte dos indivíduos que experimentam aquele ambiente vigiado. Nesse sentido, Duarte e Firmino (2010) mencionam que as câmeras, independentemente de estarem ligadas ou não, ditam uma postura/código comportamental que deve ser seguido para se apropriar de determinados espaços. Ou seja: 82 nas estradas, deve-se comportar de tal modo, andar a tal velocidade, ultrapassar por tal faixa, etc: os regramentos que constituem a espacialidade, códigos não materializáveis nesse espaço, estão indicados pela câmera fixada no poste. (DUARTE; FIRMINO, 2010, p. 101). A respeito do desejo de construção e manutenção de um outro discurso/experiência para o espaço urbano, os meios de comunicação de massa, lembram Duarte e Firmino (2010), atuam como uma espécie de aliado dos aparatos e procedimentos de vigilância. Para os autores, há dois aspectos fundamentais entre as mediações comunicacionais e a cidade, são eles: a montagem de uma imagem e um discurso urbano que, por vezes, se quer substitutivo da experiência concreta da cidade; e a tentativa de desmontagem de discursos impregnados na cidade, sobretudo ideológicos e políticos, pelos meios de comunicação. (DUARTE; FIRMINO, 2010, p. 95). Daí surgem as famosas montagens e recortes televisivos que pretendem caracterizar alguns determinados fragmentos urbanos como sendo signos imediatos da cidade, como por exemplo o Cristo Redentor, ou até mesmo o Pão de Açucar, na cidade do Rio de Janeiro. Por fim, é importante mencionar que a constituição de espacialidades tecnológicas pelas câmeras de vídeo vigilância se dá de forma contraditória, isto é: há uma conjugação de extrema simplicidade com uma absoluta opressão. Simplicidade, pois o aparato responsável por contruir a representação – ou seja, a câmera eletrônica – é visível, o que possibilita ao indivíduo determinar seu comportamento de acordo com o campo de visibilidade engrendrado pelo dispositivo. Opressão, visto que a câmera torna-se um mecanismo onipresente e onisciente, na medida em que seu olhar é externado de forma implacável e imóvel. No que tange à infiltração de tecnologias na cidade (item b), pode-se dizer que tal fenômeno se dá, sobretudo, através da capacidade das TICs em se “misturarem” - quase que de forma imperceptível, comprometendo, por conseguinte, sua visibilidade -, com outros elementos do espaço urbano. De acordo com Cuff (2003), a ubiquidade das tecnologias de informação e comunicação é um fenômeno capaz de provocar, a priori, quatro desdobramentos no que diz respeito a maneira como os indivíduos vivenciam a experimentam o espaço contemporâneo. Primeiramente, Cuff (2003) ressalta que o espaço contemporâneo faz parte de um ambiente extremamente controlado e vigiado. Ambiente este que a autora nomenou como “ambiente ordenado”, no qual as TICs realizam uma gestão e organização das informações de forma a 83 influenciar – direta ou indiretamente – a maneira de se relacionar, construir, utilizar e ordenar a vida em um espaço urbano. Em segundo lugar, Cuff (2003) evidencia uma característica marcante das TICs: a invisibilidade. Ao tratar desse assunto, a autora se referia, especificamente, às tecnologias telemáticas, tais como: fibras ópticas subterrâneas, ondas de rádios invisíveis, satélites espaciais, enfim, todo e qualquer tecnologia de informação e comunicação incapaz de ser vista a olho nu. Por apresentar esse atributos técnicos, tais tecnologias podem atuar de forma desapercebida, praticamente invisível. Com relação ao terceiro desdobramento, Cuff (2003) salienta a rearticulação gerada pelas TICs em torno dos conceitos de público e privado no interior do espaço urbano. Os parâmetros usuais para definir esses conceitos – público e privado - estão em trânsito. Fala-se, inclusive, no surgimento de um terceiro conceito: o semi-público. A despeito do assunto, Duarte e Firmino (2010) afirmam: shopping centers são exemplos clássicos desse conflito onde um espaço privado e absolutamente controlado é utilizado praticamente como um espaço público. É o que muitos chamam de espaço privado de uso público, mas extremamente controlado e ordenado (quem entra, quem sai, como usa, a que horas abrem, a que horas fecham, etc.). (DUARTE; FIRMINO, 2010, p. 103). Por fim, o quarto desdobramento mencionado por Cuff (2003) refere-se a alguns conceitos que foram drasticamente afetados pela infiltração de tecnologias no ambiente urbano. São eles: civilidade, direitos civis, privacidade, anonimato, vida pública etc. Todas essas noções, de uma maneira ou de outra, foram atingidos pelo aumento do controle e da vigilância do espaço contemporâneo. 4.1.2 O conceito contemporâneo de lugar Segundo Duarte (2002), o conceito de lugar pode ser apreendido como “uma porção do espaço significada, ou seja, a cujos fixos e fluxos são atribuídos signos e valores que refletem a cultura de uma pessoa ou grupo”. (DUARTE, 2002, p. 65). Tal significação, alerta o autor, não é, necessariamente, uma forma de se apoderar desses elementos, e sim de utilizá-los e impregná-los 84 culturamente de signos, valores e ideologias capazes de promover uma identificação – e, até mesmo, um sentimento de pertencimento – entre os indivíduos e o espaço, para que, assim, esses indivíduos possam se ver refletidos e representados por determinados objetos e ações. Com o intuito de compreender o movimento de transformação do espaço em lugar, Kevin Lynch (1990) desenvolveu uma pesquisa com alguns habitantes de três cidades norte-americanas a fim de estudar como se dá o processo de apreensão, apropriação e representação dos espaços urbanos por parte dos indivíduos. Para a realização do estudo, Lynch (1990) analisou a maneira através da qual os habitantes selecionavam e organizavam determinadas ações e objetos no interior de seus respectivos espaços urbanos. Tida como um marco pioneiro sobre a formação da imagem das cidades, a pesquisa de Lynch chegou a uma conclusão interessante, a saber: um mesmo espaço urbano é significado e organizado de formas distintas e contrastantes pelos indivíduos que o vivenciam, cotidianamente. Em outras palavras, um único espaço é “vivenciado pelos seus habitantes pela multiplicidade de significados que desperta, pelo uso que se faz dele, ou pelos valores culturais que dirigem sua apreensão e organização”. (DUARTE, 2002, p. 66). A respeito desse assunto, Ferrara (1993) indica que é “necessário ultrapassar aquela totalidade homogênea do espaço para descobrir seus lugares nos quais a informação se concretiza”. (DUARTE, apud FERRARA, 2002, p. 66). Nessa perspectiva, deve-se compreender o espaço como sendo constituído por uma fragmentação em diversos lugares propícios a ações e significações específicas por parte de cada indivíduo ou grupo de pessoas. Assim, o uso talvez seja o elemento chave na definição conceitual que aponta o lugar como porção de espaço significada. Ferrara (1993) aponta, também, que o uso é o causador da articulação dos elementos espaciais escolhidos pelas pessoas ou grupos, bem como “o responsável pela singularização de objetos e ações, através dos quais pode-se buscar um entendimento do espaço”. (DUARTE, apud FERRARA, 2002, p. 67). Em torno do conceito de lugar, há inúmeros significados e aproximações. Por ora, será adotada para o termo a seguinte definição, mesmo correndo o risco de pecar pela simplificação: 85 conclui-se definindo o lugar como uma porção de espaço, sem limites ou dimensões precisas, com elementos significados que são especulares, ou seja, significados para que os usuários (indivíduos ou grupos) se encontrem a si mesmos e identifiquem o outro. A construção dos lugares é a operação significadora que se faz ao se apreender, reconhecer e ordenar os fixos e fluxos, é a ação instável e fértil responsável pela conscientização de que se está no espaço. (DUARTE, 2002, p. 76). Dito isso, é importante se ater ao terceiro elemento constituinte da matriz espacial contemporânea: o território. 4.1.3 O conceito contemporâneo de território De acordo com Duarte (2002), o território, assim como o lugar, é uma porção do espaço significado, no qual há atribuições de signos e valores aos seus elementos, revelando, assim, a cultura de indivíduos ou grupos. Todavia, existe uma pequena diferença na maneira através da qual a significação se realiza, aqui. No caso do território, aponta Duarte (2002), a significação é uma forma de rotular os elementos do espaço com determinadas marcas culturais. Dessa forma, todo e qualquer indivíduo, objeto e/ou ação que adentrar nessa porção de espaço significado deve, necessariamente, se submeter aos valores culturais, históricos e ideológicos responsáveis por sua significação. Nesse sentido, “quaisquer outros elementos que se coloquem sob sua região de influência deverão respeitar sua significação e organização”. (DUARTE, 2002, p. 76-77). A partir da passagem acima, pode-se dizer que o território irá se constituir a partir do momento em que houver o compartilhamento de certos valores pelos elementos que ocuparem uma determinada porção do espaço. Para além disso, o sistema de valores de um território será o responsável por determinar o comportamento, bem como a dinâmica, de todas as ações e objetos que a ele estiverem inseridos e atrelados. Segundo Haesbaert e Bruce (2002), há uma crescente difusão de teorias em torno da idéia que a contemporaneidade seria o momento histórico responsável por promover o “fim dos territórios”. (HAESBAERT; BRUCE, 2002, p. 01). Ou, melhor, haveria uma crença na qual os dias atuais estariam passando por um fenômeno sócio-técnico de enfraquecimento da dimensão espacial da vida social. A partir dessa análise, o mundo estaria, portanto, em um processo 86 irreversível de desterritorialização, no qual “o espaço estriado da vida cotidiana se apagaria ao instituir-se um espaço eletrônico liso, livre de controle e do terror”. (LEMOS, 2005, p. 02). Assim, a proposta de Deleuze e Guattari (2004a) a respeito dos conceitos de territorialização e desterritorialização merece ser analisada, neste momento, como uma forma de ampliar, ainda mais, o debate em torno da construção, destruição ou abandono dos territórios humanos. A respeito do assunto, Haesbaert e Bruce (2002) fazem um alerta fundamental, que servirá, inclusive, de subsídio estruturante para esta discussão: é necessário “pensar a territorialização e a desterritorialização como processos concomitantes, fundamentais para compreender as práticas humanas”. (HAESBAERT; BRUCE, 2002, p. 01). A partir dessa breve passagem, convém afirmar que não existe uma dicotomia elementar e binária entre os conceitos deleuzo-guattarianos, isto é: o movimento de desterritorialização humana envolve, necessariamente e em um só tempo, um outro movimento, igualmente potente, de reterritorialização. A noção de território em Deleuze e Guattari, apontam Haesbaert e Bruce (2002), deve ser apreendido a partir do desejo, visto que é possível “fazer a leitura do social desde o desejo, fazer a passagem do desejo ao político, nos quadros dos modos de subjetivação”. (HAESBAERT; BRUCE, apud GUATTARI; ROLNIK, 2002, p. 05). Vale ressaltar, todavia, a natureza desse desejo: “o desejo seria maquínico, produtivo, construtivo. Nunca desejamos só uma coisa, desejamos sempre um conjunto de coisas”. (HAESBAERT; BRUCE, 2002, p. 05). Sendo assim, pode-se dizer que o desejo é um dos responsáveis pela criação de territórios, na medida em que ele realiza uma série de agenciamentos, isto é, uma união/associações de inúmeros elementos heterogêneos resultando em algo novo. Ou seja, o que irá definir os contornos e características de um território serão os padrões de interações, agenciamentos, acontecimentos, apropriações e processos de subjetivação que serão articulados pelos e entre seus elementos. Aqui, faz-se importante a busca de uma definição mais densa e consistente acerca do conceito de território. Para tanto, Guattari e Rolnik (1986) enfatizam: 87 a noção de território aqui é entendida num sentido muito amplo, que ultrapassa o uso que fazem dele a etologia e a etnologia. Os seres existentes se organizam segundo territórios que os delimitam e os articulam aos outros existentes e aos fluxos cósmicos. O território pode ser relativo tanto a um espaço vivido, quanto a um sistema percebido no seio da qual um sujeito se sente “em casa”. O território é sinônimo de apropriação, de subjetivação fechada sobre si mesma. Ele é o conjunto de projetos e representações nos quais vai desembocar, pragmaticamente, toda uma série de comportamentos, de investimentos, nos tempos e nos espaços sociais, culturais, estéticos, cognitivos. (GUATTARI; ROLNIK, 1986, p. 323). A partir da citação acima, é possível perceber a amplitude do conceito de território abordado por Guattari e Rolnik (1986). Amplitude esta que se justifica pelo fato da criação do território, na perspectiva desses autores, ser vista como uma espécie de agenciamento. E os agenciamentos, como se sabe, extrapolam o espaço geográfico e são capazes de englobar muitos elementos: ações, objetos, máquinas, discursos, relações de poder, processos de subjetivação, práticas sociais, produtivas, cognitivas etc. Assim, percebe-se que os territórios, a partir da abordagem deleuzo-guattariana, são construídos por agenciamentos, que, por sua vez, podem ser de dois tipos: agenciamento maquínico de corpos e agenciamento coletivo de enunciação 7. Sendo assim, a combinação entre agenciamento maquínico de corpos e agenciamento coletivos de enunciação permitirá, grosso modo, que o indivíduo se territorialize em qualquer espaço, objeto e/ou ação. Da mesma forma, os territórios apresentam vetores de desterritorialização e reterritorialização, fenômenos responsáveis, conforme dito anteriormente, pela criação e abandono de territórios humanos. A respeito do assunto, Guattari e Rolnik (1986), afirmam que: 7 Para um maior aprofundamento dessa questão ver DELEUZE e GUATTARI, 1976; HAESBAERT e BRUCE, 2002. 88 o território pode se desterritorializar, isto é, abrir-se, engajar-se em linhas de fuga e até sair do seu curso e se destruir. A espécie humana está mergulhada num imenso movimento de desterritorialização, no sentido de que seus territórios “originais” se desfazem ininterruptamente com a divisão social do trabalho, com a ação dos deus universais que ultrapassam os quadros da tribo e da etnia, com os sistemas maquínicos que a levam a atravessar cada vez mais rapidamente, as estratificações materiais e mentais (HAESBAERT; BRUCE, apud GUATTARI; ROLNIK, 2002, p. 08). De forma simplificada e esquemática, pode-se dizer, por conseguinte, que a desterritorialização é um fenômeno através do qual o indivíduo abandona um determinado território, utilizando-se das chamadas “linhas de fuga”, ou “linhas de fissura”, e caminhando em direção da construção de um outro território, realizando, assim, o processo de reterritorialização. Assim, “no primeiro movimento, os agenciamentos se desterritorializam e no segundo eles se reterritorializam como novos agenciamentos maquínicos de corpos e coletivos de enunciação”. (HAESBAERT; BRUCE, 2002, p. 08). É fundamental sublinhar, novamente, que esses dois processos são indissociáveis, ou seja, a existência da desterritorialização pressupõe o surgimento de reterritorialização. Traçado as principais linhas de força que compõem as matrizes espaciais contemporâneas, será iniciado, neste momento, a cartografia 8 em torno do Projeto “Olho Vivo” e do Google Maps Street View. Em um primeiro momento, esta pesquisa irá se ater a um trabalho descritivo com relação aos objetos estudos. Posteriormente, mais especificamente no próximo capítulo, a cartografia será retomada através de uma análise empírica a respeito dos dois domínios. 8 Na realidade, o trabalho cartográfico acerca do Projeto “Olho Vivo” e do Google Maps Street View foi se formando no decorrer de toda este estudo, visto que a cartografia, segundo Farina (2007), enquanto método de pesquisa, não deve ser aplicada, e sim praticada, visto que a a mesma é formada no decorrer de sua criação e pretende ser coerente com a processualidade dos objetos em questão. 89 4.2 A lógica operacional do Projeto “Olho Vivo” O projeto de monitoramento urbano “Olho Vivo”, foco da primeira análise desta pesquisa em torno do controle contemporâneo, nasceu de uma parceria público-privada estabelecida entre as seguintes instituições: Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (PBH), Empresa de Informática e Informação do Município de Belo Horizonte S/A (PRODABEL), Governo do Estado de Minas Gerais – com destaque especial para a participação da Secretaria de Estado de Defesa Social (SEDS) -, Polícia Militar do Estado de Minas Gerais (PMMG) e, por fim, Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH). A união dessas instituições deu origem ao Convênio nº: 15/2004, que, entre outras coisas, determinou, em sua Cláusula Terceira, que a CDL/BH ficaria responsável pela coordenação e implementação da infra-estrutura do Projeto “Olho Vivo”, enquanto o Governo do Estado de Minas Gerais, juntamente com a Prefeitura de Belo Horizonte, se encarregariam de designar os profissionais capacitados para a execução e manutenção do Projeto. Dessa maneira, o Projeto “Olho Vivo” iniciou, oficialmente, suas atividades no dia 13 de dezembro de 2004, estruturado a partir de um propósito bastante delineado: promover o apoio às ações e operações da PMMG, bem como aos demais órgãos do Sistema de Defesa Civil, na prevenção e combate da criminalidade na região conhecida como hipercentro da cidade de Belo Horizonte. De acordo com Alves (2007), a escolha inicial do hipercentro da cidade como alvo principal do Projeto “Olho Vivo” se deu em virtude dessa região ser considerada o “coração econômico da cidade”, isto é: local no qual há uma presença significativa de lojas e estabelecimentos comerciais, além de um fluxo intenso de pessoas que, geralmente, se locomovem de um ponto ao outro da cidade. Nesse sentido, Roberto Alfeu, presidente da CDL/BH na ocasião em que o “Olho Vivo” foi implementado, ressaltou a importância da iniciativa ao afirmar, naquela época, que o Projeto seria capaz de propiciar alguns benefícios para a cidade de Belo Horizonte, tais como: “estimular a segurança, o turismo, revitalizar o comércio e gerar postos de trabalho”. (PEIXOTO, 2005, p. 26). De acordo com Peixoto (2005), o Projeto “Olho Vivo” pode ser considerado um dos maiores empreendimentos de monitoramento urbano do Brasil. Em princípio, foram instaladas 90 72 câmeras de vídeo-vigilância capazes de “orquestrar” uma vigilância ininterrupta – isto é, 24 horas por dia – em torno das regiões do Barro Preto, Savassi e hipercentro, com o intuito de possivelmente previnir a violência, garantindo, assim, segundo seus idealizadores, tranquilidade e segurança para que a população civil pudesse retornar a frequentar as regiões tradicionais do comércio belorizontino. No decorrer de 2007, entretanto, o número de câmeras de vídeovigilância pertencente ao Projeto “Olho Vivo” passou por um significativo aumento, isto é: mais 72 câmeras eletrônicas foram levadas às ruas, avenidas e praças da cidade de Belo Horizonte. Caiçara, Padre Eustáquio, Carlos Prates, Coração Eucarístico, Calafate, assim como a Praça da Liberdade, foram os principais pontos atingidos pela expansão da vigilância promovida pelo “Olho Vivo”. Assim, o Projeto passou a contar, a partir de 2007, com um total de 144 dispositivos de videomonitoramento eletrônico. As câmeras de vídeo-vigilância do Projeto “Olho Vivo”, responsáveis por garantir a presença ocular da PMMG em pontos estratégicos de grande incidência criminal em Belo Horizonte, são aparatos de recorte imagético capazes de realizar um giro de até 360 graus em torno do espaço urbano da capital mineira. Após serem capturadas, as imagens são encaminhadas a uma central de monitoramento – o Centro Integrado de Atendimento e Despacho (CIAD) coordenada pelo Sistema Integrado de Defesa Social (SIDS), localizado na sede do Comando Geral da Polícia Militar. Segundo Carvalho (2008), a central de monitoramento do “Olho Vivo” possui um sistema que permite a exibição de imagens em tempo real e em alta resolução. Caso seja detectada alguma conduta suspeita por parte de algum indivíduo, envia-se uma mensagem de alerta em direção a uma equipe policial mais próxima do local no qual ocorreu o possível fato. A partir daí, os membros da Polícia Militar tomarão, na medida do possível, as providências necessárias e cabíveis. Segundo seus criadores, essa seria a lógica operacional de funcionamento do Projeto “Olho Vivo”. Aqui, vale lembrar que, segundo Peixoto (2005), as imagens captadas pelo Projeto “Olho Vivo” podem, em uma eventual ocasião, serem utilizadas como provas legais em processos judiciais. Todavia, essas mesmas imagens não são externadas ao público comum, garantindo, assim, ironicamente, segundo as instituições criadoras do Projeto “Olho Vivo”, a preservação do direito à privacidade e ao anonimato. 91 Desse modo, o Projeto “Olho Vivo” pode ser visto a partir de uma análise direcionada a um fenômeno relativamente recente no Brasil: o aumento, no decorrer dos últimos 20 anos, do número de câmeras de monitoramento nos espaços brasileiros de circulação pública. De acordo com Kanashiro (2006), esse fenômeno foi responsável por alavancar o mercado de segurança eletrônica nacional - câmeras de vídeo-vigilância, circuitos fechados de televisão, alarmes, scanners, detectores de metal etc. -, tornando-o ainda mais lucrativo e interessante comercialmente. Além disso, o “Olho Vivo” está inserido em meio a um desejo comum entre as administrações públicas das grandes cidades brasileiras contemporâneas: promover a revitalização urbana das regiões centrais da cidade. Todavia, as iniciativas dessa natureza, aponta Kanashiro (2006), não envolvem somente o poder público, mas também a iniciativa privada, interessada, sobretudo, em aquecer o comércio local através de medidas que possam revitalizar o patrimônio urbano. Sendo assim, as câmeras eletrônicas do Projeto “Olho Vivo” são mais um elemento no processo de reconstrução do espaço belorizontino contemporâneo, atuando, sobretudo, como um dispositivo de funcionamento do poder na atualidade. 4.2.1 Projeto “Olho Vivo” e as câmeras de vídeo-vigilância no Brasil Ao realizar um levantamento de projetos de lei, medidas provisórias e outras proposições legais na justiça brasileira, Martha Kanashiro (2006) chegou a uma conclusão relevante acerca das câmeras de vigilância no contexto brasileiro: “a prática corrente da utilização desses equipamentos não encontra na legislação um ponto de origem”. (KANASHIRO, 2006, p. 65). A partir disso, pode-se dizer que a trajetória da inserção de câmeras de vídeo-vigilância no Brasil foi responsável por despertar um campo de investimentos fortíssimos sobre a segurança, produzindo, assim, discursos e relações de poder que contribuíram, ao longo dos anos, para a construção da noção de que segurança é uma responsabilidade individual e privada. Em outras palavras, a segurança, no Brasil, é vista como uma mercadoria, podendo ser vendida e comprada na medida em que o sentimento de medo e a insegurança da população civil se intensifica. Atrelado a isso, constata-se que a ineficiência do Estado, bem como o aumento 92 contemporâneo da violência, servem como legitimadores da presença de dispositivos de vigilância no espaço urbano das grandes cidades brasileiras. Ademais, Kanashiro (2006) ressalta que, no contexto brasileiro, a utilização de dispositivos tecnológicos para promover a segurança é capaz de conferir um aspecto de modernização a todo e qualquer projeto que pretende combater a incidência de crimes e da própria violência. Sendo assim, o Projeto “Olho Vivo” parece atribuir ao hipercentro de Belo Horizonte - assim como aos outros bairros atingidos pelo Projeto: Caiçara, Coração Eucarístico, Calafate, Barro Preto, Carlos Prates etc. – um “ar moderno” de gerenciamento da cidade. Como se sabe, a expansão da segurança privada não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. No plano global, houve um crescimento substancial da indústria da seguraça – quer seja das empresas focadas em produtos ou das organizações voltadas aos serviços. Dessa forma, os empresários do setor de segurança, de acordo com Kanashiro (2006), vêem o mercado internacional como um exemplo a ser seguido pela indústria brasileira. Nessa perspectiva, o fenômeno de vigilância eletrônica no Brasil deve ser encarado, segundo Kanashiro (2006), como parte de um processo mundial de transformação da segurança em mercadoria e, por conseguinte, do crescimento, em escala global, de sua circulação. Além disso, é fundamental dizer que as câmeras de vídeo-vigilância estão associadas, inevitavelmente, aos discursos sobre o medo, insegurança e violência que permeiam as sociedades contemporâneas. Tais discursos, sintetizados, conforme dito anteriormente, em torno da expressão “retórica do risco”, promovem um deslocamento do verdadeiro papel do Estado no que diz respeito à segurança pública da população, bem como alimentam financeiramente uma série de organizações que fazem parte dos segmentos mercadológicos de segurança. Sendo assim, a vigilância, na contemporaneidade, passou a ser encarada como uma solução necessária e natural ao quadro de desordem, medo e insegurança vivido pelas principais capitais brasileiras, mesmo quando se sabe que essa situação deve-se à fenômenos sociais e políticos, especialmente a desigualdade social. E com Belo Horizonte, não poderia ser diferente. Nesse sentido, o Projeto “Olho Vivo” surgiu como uma forma de remediar os roubos, fraudes, sequestros, assaltos, entre outros delitos, na região centro-sul belorizontina. Na época do lançamento do “Olho Vivo”, o então governador do Estado de Minas Gerais, Aécio Neves, chegou a comentar que o Projeto “era uma forma de combater a falta de segurança. Não existe 93 mágica – existe uma série de medidas que estão sendo postas em prática, depois de muito debate, trabalho, investimento e consolidação de parcerias”. (PEIXOTO, 2005, p. 26). As estatísticas referentes ao Projeto “Olho Vivo”, segundo o Comando Geral da PMMG, demonstram que houve uma redução real na taxa de incidência de atos criminosos após a instalação das câmeras de vídeo-vigilância nas ruas de Belo Horizonte. Levando-se em consideração o período entre os anos de 2004 a 2007, pode-se dizer que os crimes violentos passaram de uma frequência de 390, em janeiro de 2004, para 206, em maio de 2007. Todavia, Alves (2007) aponta que, ao observar os índices de criminalidade nas áreas da capital mineira não monitoradas pelo Projeto “Olho Vivo”, no período entre 2003 e 2006, tem-se também uma redução real dos atos violentos registrados pela Polícia Militar. Percebe-se, a partir daí, que a redução da criminalidade em Belo Horizonte não é uma prerrogativa exclusiva dos espaços que são monitorados pelas câmeras do “Olho Vivo”. Vistos assim, de maneira racional, as estatísticas do Projeto “Olho Vivo” parecem produzir efeitos de objetividade quando enunciados. O fundamental, aqui, talvez seja se ater ao fato de que, de um modo geral, os projetos de vigilância são vistos como “uma entre as várias ações necessárias para se alcançar uma dinâmica social desejada, para a qual não há uma fórmula prescrita”. (CASTRO, PEDRO, 2010, p. 58). Sendo assim, o que importa, em última instância, aos idealizadores do “Olho Vivo” são os “efeitos produzidos muito mais do que os caminhos trilhados para chegar-se a eles”. (CASTRO, PEDRO, 2010, p. 58). Nesse sentido, Castro e Pedro (2010) assinalam que, especificamente no Brasil, o primeiro ponto controverso em torno da presença, cada vez mais constante, de dispositivos tecnológicos de vigilância consiste no fato de que, por si só, eles não são capazes de garantir a segurança da população civil. Segundo os autores, a eficácia dos aparatos tecnológicos de controle é extremamente reduzida caso não haja uma articulação dos mesmos com “um banco de dados, a softwares de identificação e reconhecimento e a uma política de segurança adequada”. (CASTRO; PEDRO, 2010, p. 40). A partir do trecho acima, pode-se dizer que os dispositivos tecnológicos de controle são responsáveis por colocar em jogo uma articulação contemporânea entre vigilância, visibilidade, processos de subjetivação, risco, segurança, liberdade, privacidade, entre outros elementos. Daí surge uma contradição importante em torno das câmeras de vídeo-vigilância, segundo Castro e 94 Pedro (2010): se, por um lado, a presença do videomonitoramento pode ser capaz de diminuir a sensação de insegurança por parte dos indivíduos; por outro, as práticas, atividades e comportamentos desses mesmos indivíduos ganham uma visibilidade constante, isto é: os dispositivos tecnológicos de vigilância representam uma ameaça à privacidade, à intimidade e ao anonimato dos sujeitos contemporâneos. Há, portanto, conforme mencionado, duas faces inerentes aos dispositivos de vigilância contemporâneos: proteção e controle social. 4.3 A lógica de funcionamento do Google Maps Street View Idealizado em 25 de agosto de 2007, pela Google Corporate Information, multinacional estadunidense de serviços online e softwares, o Google Maps Street View (GMSW) - foco da segunda análise desta pesquisa em torno do controle contemporâneo - é uma plataforma digital que oferece aos usuários da web a possibilidade de realizar um passeio virtual pelas ruas e avenidas das principais cidades globais. Através de seus recursos imagéticos e tecnológicos, o GMSW permite a visualização detalhada de inúmeros elementos que compõem o espaço urbano mundial. Em princípio, o Google Street View, como ficou conhecido mundialmente, realizou objetivando promover um teste de sua ferramenta - o mapeamento de apenas cinco cidades estadunidenses. Entretanto, a plataforma digital de visualização urbana se expandiu para inúmeros países, entre os quais, o próprio Brasil. No Brasil, o serviço foi anunciado no início de julho de 2009. Desde a data de seu lançamento até os dias atuais, o GMSW utilizou trinta veículos para mapear as regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, além de outras cidades de menor expressão. O projeto Google Street View Brasil nasceu por meio de uma parceria entre a empresa estadunidense e a Fiat Automóveis S/A. Para a realização do projeto, a Fiat cedeu trinta carros que percorreram diversas cidades brasileiras registrando pontos turísticos e cenas que retratavam o dia-a-dia de cada localidade. Segundo Andreas Huettner, diretor de negócios para os setores financeiro e automobilístico da Google Brasil, os automóveis do Street View Brasil circularam 95 por cerca de 150.000 quilômetros e gravaram 135 milhões de imagens das ruas e avenidas brasileiras. Para realizar a captação das imagens, o GMSW utiliza, segundo os responsáveis por sua criação, inúmeros aparatos e procedimentos tecnológicos, tais como: inteligência artificial, câmeras digitais sem disparador mecânico, computadores extremamente potentes, além de sensores de medição de distância. Aliado a isso, o GMSW se vale de câmeras especiais para promover a coleta de imagens, que, por sua vez, são combinadas, através de um GPS (Sistema de Posicionamento Global), com a posição exata que elas ocupam no espaço geográfico. Vale mencionar, também, que as imagens flagradas pelo sistema são totalmente panorâmicas, isto é: são capazes de girar 360 graus no sentido horizontal, e 290 graus no sentido vertical. De acordo com a matéria Conheça os bastidores do Google Street View (2010), no caso do Brasil, o processo de captação das imagens dependeu do trabalho de duas equipes, especificamente. A primeira delas - formada por funcionários da Google Brasil - ficaria responsável por cuidar da manutenção e operação dos automóveis que foram utilizados durante o projeto. A segunda equipe, por sua vez, é composta por engenheiros - localizados na sede da Google, em Moutain View, Califórnia, Estados Unidos – que tiveram a missão de processar o material bruto obtido pelos equipamentos do GMSW, isto é: borrar as faces dos possíveis indivíduos que foram captados pelas câmeras, apagar as placas dos veículos, bem como associar o conteúdo imagético aos mapas georreferenciados. Além do automóvel representado acima, o GMSW se vale, também, de uma espécie de triciclo para obter as imagens em locais de difícil acesso, como por exemplo: caminhos estreitos, jardins, parques, trilhas, campi de universidades, zoológicos, entre outros. O dispositivo, adotado, em princípio, somente nos Estados Unidos, foi batizado pela companhia de Trike. Devido à sua mobilidade, a Google optou pela seguinte estratégia nessa etapa do GMSW: através do portal da companhia na Internet, os usuários estadunidenses poderiam escolher quais caminhos e trajetos devem ser percorridos pelo Trike, possibilitando, assim, uma participação ativa dos indivíduos no processo de mapeamento do espaço urbano contemporâneo, bem como de monitoramento e vigilância. 96 4.3.1 Google Maps Street View: a relação entre cartografia e vigilância Com o intuito de elucidar melhor a relação contemporânea estabelecida pelo Google Street View entre cartografia e vigilância, é necessário realizar, de forma sucinta, uma pequena regressão histórica em torno das concepções que foram dadas, ao longo dos séculos, às projeções cartográficas ocidentalizadas. Nesse sentido, a partir do século XVI, a projeção cartográfica articulada em torno de um plano bidimensional e geometrizado - passou a construir mapas capazes de simular uma perspectiva “completa”, isto é, capaz de ser visualizada por meio de todos os ângulos, dos espaços e territórios ao redor do mundo. A projeção cartográfica, segundo Bruno (2010), é responsável por suprimir todo e qualquer ponto de vista particular e subjetivo, buscando, assim, uma representação supostamente neutra, “segundo a qual o mundo-superfície oferece-se com um objeto estável de conhecimento, supervisão, controle, domínio”. (BRUNO, 2010, p. 159). Tanto é que, durante um certo período, os termos Descriptio (Descrição) e Portrait (Retrato) foram comumente utilizados para designar os mapas, colocando em evidência, assim, “essa modalidade de olho-mundo que reúne visão, saber e poder”. (BRUNO, 2010, p. 159). Nessa perspectiva, esse olho que visualiza, conhece, produz um certo saber, é também o mesmo olho que exerce o poder ao realizar o controle e a vigilância de determinados territórios. Como se sabe, os mapas geográficos são importantes ferramentas no que diz respeito à materialização de fronteiras e regiões. Além disso, os mapas permitem, conforme salientado por Bruno (2010), visualizar e inspecionar elementos, objetos e/ou ações que se desdobram no interior de espaços e territórios, vigiando, portanto, propriedades e populações. Daí surge uma constatação interessante a respeito da cartografia, anunciada por Bruno (2010) da seguinte forma: “a cartografia-cadastro é uma tecnologia privilegiada das diversas formas de governo e de constituição dos Estados, por isso, os mapas são amplamente utilizados como instrumentos de poder de regulação, agenciamento e controle dos seus territórios”. (BRUNO, 2010, p. 160). Vale ressaltar que a construção dos mapas cartográficos pelos Estados modernos se dava, de forma geral, a partir de um plano bidimensional, o que prejudicava, de certa forma, a riqueza de detalhes. 97 Com relação aos espaços urbanos, a imbricação entre prática cartográfica e vigilância tornou-se ainda mais estreita a partir do século XVIII, na medida em que a construção de mapas detalhados passou a ser vista como fundamental para a inspeção, controle, e previsão dos processos engendrados no meio urbano. No século XIX, aponta Bruno (2010), a técnica cartográfica, bem como as ciências humanas e a estatística, se articulam para promover o registro e mapeamento dos “processos sociais, biossociais, econômicos, políticos etc”. (BRUNO, 2010, p. 161). Assim, a construção de mapas geográficos contemporâneos tornou-se ainda mais sofisticada, tendo em vista o surgimento de novas tecnologias de comunicação, informação, geolocalização (GIS, GPS etc), aliadas a emergência das chamdas redes de comunicação sem fio. Dessa forma, o Google Maps Street View - valendo-se de todo o seu aparato tecnológico, comunicacional e imagético – é capaz de realizar uma “geovigilância” ainda mais potente e reveladora dos espaços, territórios e lugares das sociedades atuais. Pelo termo “geovigilância”, entende-se como “um tipo de vigilância concernente a localizações e distribuições através de territórios espaciais”. (BRUNO, 2010, p. 167). Em contrapartida, é fundamental esclarecer que um dos elementos novos da “geovigilância” consiste no fato de que o próprio mapa, na maioria dos casos, é o aspecto menos importante da prática cartográfica contemporânea, visto que os sistemas de dados espaciais são capazes de estocar e correlacionar “fatos a partir do monitoramento de trajetos e localidades em tempo real, constituindo bancos de dados que reconstroem movimentos de pessoas e coisas”. (BRUNO, 2010, p. 178). Se comparado às cartografias idealizadas nos séculos XIX e XX, pode-se dizer que o GMSW pertence à mesma genealogia, entretanto, ele fornece diferenças significativas – criadas, sobretudo, pelos aspectos tecnológicos e infocomunicacionais – que expressam, de certa forma, uma característica fundamental da contemporaneidade: a presença, conforme dito por Bruno (2010), de uma vigilância distribuída na cultura contemporânea, principalmente no que tange a sua face participativa. Estabelecida a relação entre dispositivos tecnológicos de vigilância e matrizes espaciais contemporâneas, bem como a descrição preliminar do Projeto “Olho Vivo” e do Google Maps Street View, o próximo capítulo terá como foco principal realizar a cartografia (que, na realidade, 98 está sendo praticada no decorrer de toda esta pesquisa) dos objetos aqui estudados. Lembrando que tanto o “Olho Vivo” quanto o Street View são fenômenos significativos no que diz respeito à imbricação contemporânea entre vigilância, visibilidade, espaço e processos de subjetivação. 99 5. PROJETO “OLHO VIVO” E GOOGLE MAPS STREET VIEW: UMA POSSÍVEL CARTOGRAFIA DO CONTROLE CONTEMPORÂNEO “Foucault deu-lhe certa vez o nome mais exato: é um diagrama. O diagrama não é mais o arquivo, auditivo ou visual, é o mapa, a cartografia, co-extensiva a todo o campo social”. Gilles Deleuze O projeto de monitoramento urbano “Olho Vivo” e a plataforma digital Google Maps Street View são manifestações sintomáticas que atestam a relação entre vigilância e visibilidade na contemporaneidade, bem como as consequências que tal imbricação foi capaz de provocar na organização do espaço e na construção dos processos de subjetivação pelos indivíduos. Em consonância com a natureza desses objetos, optou-se por abordá-los a partir de uma perspectiva cartográfica, visto que a mesma, conforme mencionado por Farina (2007), tem se mostrado uma metodologia de pesquisa bastante pertinente aos interessados em estudar objetos processuais, isto é: domínios do saber que estão em constante mutação, como é o caso, por exemplo, dos principais elementos desta investigação. Dessa forma, a cartografia, enquanto método de apreensão do conhecimento, não deve ser aplicada, e sim praticada, haja vista a necessidade de se estar em sintonia com a processualidade dos objetos em questão. No caso, especificamente, da cartografia em torno do Projeto “Olho Vivo” e do Google Maps Street View, vale a pena destacar, logo no início, as principais linhas de força que a compõe: exercício de poder, conhecimento técnico e domínio tecnológico. Como é possível perceber, tais elementos – responsáveis, sobretudo, por constituírem esta cartografia – possuem, segundo Castro e Pedro (2010), um alto grau de imprevisibilidade. Sendo assim, é absolutamente natural, e até mesmo inevitável, que aconteçam desvios ao longo deste estudo, na medida em que tanto a política quanto a técnica/tecnologia estão em constante transformação, o que faz, por conseguinte, da presente cartografia uma entre as milhares de possíveis traduções para os objetos aqui pesquisados. Do mesmo modo, será a própria dinâmica inerente à rede formada pelo Projeto 100 “Olho Vivo” e pelo Street View que irá determinar a veracidade ou não de certas traduções e interpretações. 5.1 Projeto “Olho Vivo”: para além do panoptismo? Conforme abordado no decorrer do primeiro capítulo, o panoptismo era um dos procedimentos do poder disciplinar responsáveis por organizar as forças individualizantes em benefício do sistema moderno de produção capitalista. Assim, o panóptico passou a ser visto como um mecanismo destinado a solucionar o problema de vigilância que acometia inúmeras instituições disciplinares, entre as quais: prisões, fábricas, hospitais, casernas, escolas, e para além delas. Ademais, Foucault (1975) demonstrou que o pleno funcionamento dos dispositivos modernos de vigilância e visibilidade dependiam, necessariamente, de um processo de interiorização de seus efeitos por parte dos sujeitos. Percebe-se aí, a partir do panoptismo, uma interlocução muito próxima entre dispositivos de vigilância, regimes de visibilidade e processos de subjetivação. Nesse sentido, e tendo em vista a vigilância orquestrada pelo Projeto “Olho Vivo” em torno das principais regiões da cidade de Belo Horizonte, seria correto afirmar que as câmeras de vídeo-vigilância contemporâneas são uma espécie de aperfeiçoamento tecnológico do panóptico, de Michel Foucault? Em primeiro lugar, é necessário ressaltar que, de fato, a análise de Foucault (1975) a respeito do panóptico foi de suma importância para os estudos contemporâneos sobre a vigilância eletrônica. Todavia, é igualmente importante evitar aproximações simplórias, bem como refutações categóricas acerca desse assunto. Ouve-se, recorrentemente, expressões como “panóptico universal”, “panóptico eletrônico”, “superpanóptico”, entre outras, para caracterizar os atuais projetos de monitoramento urbano. Dessa forma, o Projeto “Olho Vivo” seria uma espécie de “panóptico eletrônico” inserido nas ruas de Belo Horizonte? Se for levado em consideração, assim como feito por Koskela (2003), que as atuais câmeras de vídeo-vigilância procuram normalizar – através, sobretudo, de agenciamentos entre os modos de ver e ser visto (regime de visibilidade) – o espaço urbano, ditando, portanto, um 101 único padrão possível de comportamento (efeitos de disciplina), pode-se dizer que tal aproximação entre o “Olho Vivo” e o panóptico seria pertinente. Ademais, tal como o panóptico idealizado por Bentham, os dispositivos tecnológicos de vigilância contemporâneos são capazes de generalizar para toda a sociedade métodos e procedimentos de coerção bem definidos. Assumindo essa premissa, o Projeto “Olho Vivo” parece ser responsável por mergulhar os sujeitos que transitam, principalmente, pelo hipercentro da cidade – região de Belo Horizonte de maior abrangência do Projeto – em meio a mecanismos de poder que os normalizam, isto é: os investem de comportamentos dóceis e desejáveis aos interesses e pretensões das instituições encarregadas de colocar em prática o monitoramento urbano proposto pelo “Olho Vivo” CDL/BH, PRODABEL, PMMG, PBH, Governo do Estado de Minas Gerais etc. Tido como um dos dispositivos de controle e monitoramento presentes no espaço belorizontino, as câmeras eletrônicas do Projeto “Olho Vivo” se valem de procedimentos e jogos de poder semelhantes aos que foram orquestrados, no decorrer do período disciplinar, pelo panóptico: práticas do ver e ser visto (regime de visibilidade); anonimato do vigilante – afinal, o olho eletrônico da câmera é um enunciado maquínico sem enunciação –; normalização e homogeneização do espaço – no caso, especificamente, do “Olho Vivo”, seria a normalização do espaço urbano de Belo Horizonte; indução de um sentimento de vigilância constante e ininterrupta nos processos de subjetivação dos sujeitos; plena visibilidade do dispositivo responsável pelo controle social (câmeras de vídeo-vigilância); entre outros. Tomando, portanto, como verdadeiras tais similaridades, seria pertinente afirmar, conforme feito por Koskela (2003), que as câmeras de monitoramento contemporâneas seriam uma espécie de atualização tecnológica do panoptismo, ou, ainda, seriam uma maneira de inserir os procedimentos e mecanismos disciplinares nos fluxos (financeiros, comunicacionais, subjetivos, do consumo, do desejo etc) das sociedades de controle. Frente às possibilidades anunciadas até aqui, e desconsiderando os aspectos responsáveis por constituir a rede de relações tanto das sociedades disciplinares quanto da contemporaneidade, é possível, sim, realizar aproximações e convergências entre os dispositivos de vigilância do “Olho Vivo” e o panóptico, idealizado por Jeremy Bentham. Em contrapartida, não se deve negligenciar a observação realizada por Roberto Machado (1979), um dos principais comentadores da obra foucaultiana: 102 embora às vezes suas afirmações [as de Foucault] tenham uma ambição englobante, inclusive pelo tom muitas vezes provocativo e polêmico que as caracteriza, é importante não perder de vista que se trata de análises particularizadas, que não podem e não devem ser aplicadas indistintamente sobre novos objetos, fazendo-lhes assumir uma postura metodológica que lhes daria universalidade. (MACHADO, 1975, p. XVI). Daí surge a necessidade, ratificada pelo trecho acima, de mencionar a existência de inúmeras contradições e ambiguidades em torno dos estudos que apontam uma interlocução direta entre os atuais dispositivos de vigilância e o panoptismo. Ou seja, é importante compreender, conforme dito por Machado (1975), que os apontamentos foucaultianos sobre a vigilância são aplicados somente a espaços fechados, haja vista que as análises em torno desta questão não são totalizantes, nem tampouco possíveis de serem aplicadas, sem distinção, a todo e qualquer objeto. Como se sabe, as câmeras de vídeo-vigilância do Projeto “Olho Vivo” estão concentradas em regiões e locais públicos, longe de barreiras físicas e ambientes enclausurados. Dessa maneira, seria perfeitamente aceitável – pelo menos, inicialmente – a refutação em torno da noção que aponta uma possível analogia entre o panóptico e o sistema de monitoramento urbano idealizado pela PRODABEL, em parceria com a CDL/BH e a PMMG. Entretanto, não se pode perder de vista que as tecnologias, sobretudo as de informação e comunicação, ao ampliarem o espaço contemporâneo (espaço ampliado), acabam por realizar um controle contínuo e incessante, guardando, portanto, algumas semelhanças com os espaços fechados das sociedades disciplinares. No que diz respeito aos processos de subjetivação engendrados pelos indivíduos, é válido sublinhar que as câmeras do “Olho Vivo”, a exemplo da máquina panóptica, induzem a sensação de uma vigilância constante, ininterrupta. Se no panóptico a inverificabilidade da presença ou não de um sentinela na torre central era um dos fatores responsáveis por introjetar subjetivamente nos indivíduos um sentimento de vigília permanente, no caso do videomonitoramento esse processo se repete através do olhar maquínico, ubíquo e repressivo da câmera eletrônica, independentemente de estar ligada ou não. Contudo, há diferenças significativas entre o gerenciamento dos comportamentos dos indivíduos por parte do panóptico e do “Olho Vivo”. Conforme alertado por Kanashiro (2006), as câmeras de vídeo-vigilância não corrigem os desvios por meio de uma rotina rigorosa e repetitiva de exercícios, muito menos há sanção 103 normalizadora capaz de estabelecer micropenalidades do tempo, das atividades, dos gestos etc. Na realidade, as câmeras de monitoramento, ao contrário dos procedimentos disciplinares, não se atém ao lugar nem ao tempo para colocar em prática suas “punições”, mas sim “à permissão ou recusa do acesso, que desloca e dilui a punição para o momento sempre imediato da mobilidade, da circulação”. (KANASHIRO, 2006, p. 79). Dito de outra forma: no caso específico do monitoramento urbano contemporâneo, o desvio é visto, sobretudo, como atos criminosos relacionados ao furto, roubo, assassinato, assalto, fraude, sequestro etc. Esses são, a priori, os conflitos que devem ser “penalizados” pelas câmeras eletrônicas. Ou, melhor, os desvios, na perspectiva do controle contemporâneo no âmbito do espaço urbano, não devem ser corrigidos, mas sim eliminados, retirados de cena, objetivando, assim, a construção de uma cidade supostamente mais “limpa”, segura, homogênea, pronta para o consumo. Em suma, a meta principal das câmeras de monitoramento não é punir, mas sim prevenir. A punição, se ela chegar a ocorrer, ficará por conta, levando em consideração do Projeto “Olho Vivo”, da Política Militar de Minas Gerais. Conforme foi possível perceber até este momento, seria um excesso de ingenuidade afirmar que as atuais câmeras de vídeo-vigilância são apenas um aperfeiçoamento tecnológico do panóptico, de Michel Foucault, muito embora haja convergências e similaridades entre o dispositivo moderno e o contemporâneo. Deve-se levar em consideração, acima de tudo, o fato da contemporaneidade ter marcado o surgimento de novas formas de controle e vigilância. É necessário, portanto, inscrever as câmeras eletrônicas do Projeto “Olho Vivo” em uma época bastante específica, em uma sociedade na qual Deleuze (1992) nomeou de sociedade de controle, que, entre outras coisas, pode ser caracterizada como tendo uma vigilância ainda mais sofisticada, potente, e focalizada, principalmente, sobre os fluxos e sobre a mobilidade. Todavia, não se deve menosprezar, conforme dito anteriormente, as contribuições teóricas dadas por Foucault (1975) – a partir de suas análises sobre a máquina panóptica – no que diz respeito aos estudos em torno da vigilância nas sociedades ocidentalizadas. 104 5.1.1 Projeto “Olho Vivo”: processos de subjetivação atrelados à “retórica do risco” Ameaça nuclear. Terrorismo. Narcotráfico. Epidemias avassaladoras. Catástrofe ambiental. Crise econômica. Violência desmedida. Esses são alguns dos inúmeros elementos que dão forma a chamada “retórica do risco”, fenômeno de caráter essencialmente subjetivo que permeia as sociedades contemporâneas. Conforme visto no decorrer do terceiro capítulo, a “retórica do risco” é responsável por mergulhar o indivíduo comum em uma situação de risco sempre iminente. Dessa forma, os sujeitos contemporâneos parecem acreditar que o rompimento da ordem social estaria, a qualquer momento, prestes a acontecer. Não era para menos. Os processos midiáticos contemporâneos – sobretudo, aqueles engendrados pela chamada grande mídia -, ao alardearem notícias catastróficas, perigosas e inquietantes, tornaram-se os principais legitimadores e incentivadores da estratégia da “retórica do risco”. Nesse sentido, o Projeto “Olho Vivo” parece ter encontrado sua legitimidade, no âmago dos processos de subjetivação dos belorizontinos, ao realizar a promessa de atenuar – ou, até mesmo, eliminar – os inconvenientes causados pelos atos criminosos que supostamente assolam as principais regiões de Belo Horizonte. Atrelado à “retórica do risco”, o “Olho Vivo” surgiu, portanto, como uma solução natural e necessária para o quadro de violência e desordem social que se instalou no hipercentro (e nas demais regiões abrangidas pelo Projeto) de Belo Horizonte. Em outras palavras, pode-se dizer que em nome de uma suposta proximidade do risco e da catástrofe social proporcionada pela violência contemporânea, o sujeito ordinário, residente em Belo Horizonte, busca, ou, melhor, exige o aumento do número de procedimentos e dispositivos de vigilância que possam talvez, em uma situação hipotética, garantir sua proteção diante dos males causados pelos atos criminosos de uma grande cidade como Belo Horizonte. Torna-se necessário salientar, entretanto, que somente a estratégia da “retórica do risco” não seria suficientemente capaz de moldar processos de subjetivação ligados à legitimação de aparatos e tecnologias de controle e monitoramento. Assim, a “retórica do risco” encontra alguns outros “aliados” que – de forma direta ou indireta - são responsáveis pela construção social da violência contemporânea e, por conseguinte, pela implementação de projetos de monitoramento urbano como o “Olho Vivo”. Em primeiro lugar, não se pode perder de vista a ineficiência 105 histórica do Estado brasileiro – que os processos de midiatização, inclusive, fazem questão de repercutir recorrentemente - no que diz respeito às políticas públicas voltadas para promover a segurança da população. Em decorrência desse fato, surgiu, ao longo dos séculos, segundo Kanashiro (2006), uma crença comum entre os brasileiros que a segurança deve ser vista como uma responsabilidade individual e privada. Ou seja, pode-se dizer que a segurança no Brasil é concebida como uma mercadoria que tem sua lei de oferta e procura modulada de acordo com os níveis de medo e insegurança da sociedade civil. Valendo-se da “retórica do risco”, do aumento do sentimento de medo, bem como de argumentos e evidências em torno da ineficiência do Estado no combate à violência urbana, o Projeto “Olho Vivo” encontra um terreno fértil para se instalar sem que haja ressalvas e contradições significativas por parte dos indivíduos e grupos sociais de Belo Horizonte. Em outras palavras, o controle social exercido pelas câmeras de monitoramento do “Olho Vivo” é justificado, essencialmente, através do seguinte tripé argumentativo: crescimento da violência contemporânea, aumento da sensação de medo e insegurança por parte da população e incompetência do Estado para gerir a segurança pública. Todos esses elementos mencionados acima parecem, de certa forma, induzirem processos de subjetivação coletivos que ratificam a presença de dispositivos e procedimentos de vigilância em meio às atividades cotidianas do espaço urbano. Contudo, é importante salientar, conforme foi visto nas análises foucaultianas abordadas no primeiro capítulo desta pesquisa, que onde há poder e saber, há resistência. Sendo assim, fazse necessário, também, pensar o Projeto “Olho Vivo” a partir das relações e agenciamentos que ele estabelece com o poder e a produção de saber no espaço urbano belorizontino. Nessa perspectiva, o Projeto “Olho Vivo”, ao engendrar relações de poder em torno do monitoramento urbano de certas regiões de Belo Horizonte, acaba por produzir uma rica e vasta documentação a respeito das atividades, ações, comportamentos e afazeres das pessoas que transitam nas regiões nas quais há a presença de câmeras eletrônicas do Projeto, comprometendo, por conseguinte, o direito à privacidade e ao anonimato desses indivíduos e grupos sociais. Tal acervo de dados e informações individuais poderá, por sua vez, ser utilizado (talvez em um momento posterior ao Projeto) tanto pela PRODABEL quanto pela Prefeitura Municipal 106 de Belo Horizonte para traçar o perfil (comportamental, psicológico, profissional, criminal, de interesse, de consumo, entre outros) do indivíduo que frequenta, por exemplo, o hipercentro da cidade de Belo Horizonte. Daí surge a constatação de que os bancos de dados, bem como suas formas de classificação e organização das informações, podem ser apreendidos, segundo Bruno (2008), como máquinas capazes de engendrarem individualizações, sociabilidades e processos de subjetivação. Diante disso, o “Olho Vivo”, visto aqui como uma espécie de metonímia dos dispositivos de vigilância contemporâneos, é responsável por orquestrar um controle social, por meio de suas câmeras eletrônicas e compilação de dados e informações, em torno da população civil de Belo Horizonte que transita e frequenta as áreas e regiões acometidas pelo Projeto. Do mesmo modo, uma possível resistência frente ao controle social exercido pelo Projeto “Olho Vivo” poderia emergir, igualmente, dos processos de subjetivação engendrados pelos indivíduos, que, segundo Deleuze e Guattari (1995), são os responsáveis por criar linhas de fuga e fissuras em meio ao controle e monitoramento articulados pelos dispositivos contemporâneos de vigilância. Em outras palavras, “os poderes e saberes suscitam resistências. O que resiste é uma força que em vez de afetar e ser afetada por outras forças vai se auto-afetar. Esta autoafetação é a dobra, autoreferente, auto-organizadora”. (PARENTE, 2004, p. 96). Dessa forma, pode-se dizer que houve, em Belo Horizonte, o engendramento de processos de subjetivação capazes de criar uma força, uma dobra, que pudesse contestar e questionar o jogos de poder articulados pelo Projeto “Olho Vivo”. Trata-se, na verdade, de uma intervenção artística, batizada de “Praia da Estação”, na qual inúmeras pessoas se apropriaram de forma bem humorada da Praça da Estação, localizada no hipercentro de Belo Horizonte, para colocar em xeque a vigília feita em torno do espaço contemporâneo belorizontino. 5.1.2 Projeto “Olho Vivo”: espacialidade derivada do uso de aparatos tecnológicos de vigilância No decorrer do terceiro capítulo desta investigação, foi mencionado o fato da contemporaneidade estar presenciando o surgimento de inúmeras manifestações urbanas 107 centradas na construção de espacialidades derivadas dos usos e apropriações tecnológicas. Entre essas espacialidades, destaca-se o controle e monitoramento de alguns determinados fragmentos espaciais a partir da utilização de dispositivos tecnológicos de recorte imagético, como é o caso, por exemplo, das câmeras de vídeo-vigilância do Projeto “Olho Vivo”. Assim, o “Olho Vivo”, ao realizar uma varredura de regiões e áreas de Belo Horizonte por meio do olhar maquínico de suas câmeras, promove um deslocamento importante no que diz respeito às características fundamentais do espaço urbano belorizontino. Espaço este que, por excelência, seria um local de embates, multiplicidades e heterogeneidades, mas que, em decorrência da presença das tecnologias de recorte imagético do “Olho Vivo”, acaba por se tornar um local homogêneo, pasteurizado, longe dos conflitos e tensões que sempre o marcaram e permearam. Por se tratar de um projeto idealizado pela CDL/BH, evidências levam a crer que o “Olho Vivo” teria a pretensão de criar e manter um único discurso, bem como somente uma única forma de experimentação e apropriação, para o espaço urbano de Belo Horizonte. Trata-se, portanto, de construir socialmente um discurso que coloque Belo Horizonte como sendo um local seguro, asséptico, resguardado de atos criminosos e, por conseguinte, pronto para o consumo de bens e serviços. É claro que, conforme visto no terceiro capítulo, um mesmo espaço pode ser significado e organizado de formas diferentes e contrastantes por parte dos indivíduos que o experimentam cotidianamente. Tudo dependerá, na realidade, do uso que se faz dos objetos e ações (SANTOS; 1997) desse espaço. Todavia, o Projeto “Olho Vivo” parece querer criar uma territorialidade na qual os sujeitos deveriam se comportar de uma única só forma, visto que, segundo Duarte (2002), uma das características fundamentais do conceito de território é fazer com que “quaisquer outros elementos que se coloquem sob sua região de influência deverão respeitar sua significação e organização”. (DUARTE, 2002, p. 76-77). Frente a essas possibilidades, o ideal talvez seria realizar um movimento, conforme salientado por Deleuze e Guattari (1997), de desre-territorialização em direção da construção de um outro território, menos repressivo, controlado e homogêneo que o engendrado, atualmente, pelas câmeras de monitoramento do “Olho Vivo”. 108 Ademais, é fundamental explicitar que o Projeto “Olho Vivo” foi implementado em pontos considerados como glamourosos pelo comércio de Belo Horizonte, isto é, em regiões e locais nos quais há uma concentração e circulação de indivíduos abastados economicamente. Ora, a escolha dos pontos que seriam monitorados pelas câmeras de vídeo-vigilância do “Olho Vivo” não seria uma forma de produzir, conforme dito por Bauman (2001), um “templo de consumo bem supervisionado, apropriadamente vigiado e guardado”, criando, assim, uma “ilha de ordem, livre de mendigos, desocupados, assaltantes e traficantes”? (SOUZA, apud BAUMAN, 2008, p. 112-113). A despeito desse assunto, é importante salientar que as tecnologias de vigilância, de maneira geral, ratificam e industrializam uma certa lógica de exclusão social. Essa lógica, segundo Botello (2010), seria a responsável por determinar quais indivíduos e/ou grupos sociais merecem ser considerados como fatores de risco, isto é: violentos, para utilizar somente uma palavra. No caso específico do “Olho Vivo”, o projeto e a implementação das câmeras de vídeovigilância envolveram instituições públicas e privadas, que se juntaram para determinar a configuração e a abrangência territorial do monitoramento urbano. O resultado, por assim dizer, foi um videomonitoramento orientando muito mais ao controle social de alguns setores/classes específicos da população e à proteção de outros. De certa forma, isso reflete a influência desigual das entidades públicas e privadas no que diz respeito à elaboração do “Olho Vivo”, visto que o Projeto parece ter sido criado para responder, sobretudo, aos anseios de setores sociais mais bem posicionados na hierarquia do município de Belo Horizonte. 5.2 Google Maps Street View: vigilância distribuída e participação na cultura contemporânea No âmbito desta pesquisa, o Google Maps Street View é um caso representativo de um fenômeno instigante: os indivíduos, na contemporaneidade, são incitados constantemente a participar das práticas de vigilância e controle. Fernanda Bruno (2010) atribuiu a esse fenômeno o nome de vigilância distribuída, que pode ser definido como o estado geral da vigilância nas sociedades contemporâneas. Ou, ainda, trata-se de uma vigilância que apresenta a tendência de 109 ser incorporada em diversos serviços, ambientes e dispositivos presentes no cotidiano dos indivíduos. Aqui, é fundamental advertir que a vigilância distribuída – ao contrário, por exemplo, da vigilância hierárquica descrita por Foucault (1975) para definir as sociedades disciplinares – se exerce de modo descentralizado, não respeitando, portanto, uma hierarquia ou um ponto central de comando. Ademais, Bruno (2010) ressalta uma outra característica do estado geral de vigilância contemporâneo ao dizer que o mesmo é utilizado com uma diversidade de propósitos, funções e significações nos mais diferentes setores: nas medidas de segurança e circulação de pessoas, informações e bens, nas estratégias de consumo e marketing, nas formas de comunicação, entretenimento e sociabilidade, na prestação de serviços etc. (BRUNO, 2010, p. 156). Nota-se, a partir do trecho acima, que a vigilância distribuída, em algumas ocasiões, se efetua em meio a dispositivos que, a priori, não são, necessariamente, voltados para a vigilância, tornando-se, portanto, uma função secundária ou um efeito colateral de mecanismos que foram idealizados para outros fins: comunicação, publicidade, marketing, geolocalização etc. Sendo assim, o Google Street View pode ser classificado, em princípio, como um dispositivo de geolocalização, ou, até mesmo, de entretenimento e informação. Todavia, os seus recursos imagéticos e tecnológicos capazes de promover uma varredura do espaço urbano contemporâneo são vistos, também, como um objeto potencial de vigilância. Daí deriva uma multiplicidade de objetos atuais ou potenciais da vigilância, que não mais se restringem nem se justificam por grupos suspeitos ou supostamento perigosos, os quais podem ser todos e qualquer um: consumidores, transeuntes, internautas, criminosos, participantes de reality shows etc. (BRUNO, 2010, p. 156-157). Desse modo, o estado geral de vigilância contemporâneo apresenta inúmeros focos e objetos, apresentando possibilidades que não se restringem apenas aos indivíduos e/ou grupos sociais. A diversidade mobilizada pela vigilância distribuída, entretanto, não se limita aos possíveis focos e objetos, mas se desdobra por meio das significações subjetivas e sociais dos indivíduos. Dito de outra forma: se, por um lado, a vigilância é justificado por seu possível potencial em atenuar o sentimento de medo e insegurança; por outro, ela também é capaz de promover sociabilidade, interação, diversão e, até mesmo, prazer. Ora, o Google Maps Street View, assim como as redes sociais digitais, os microblogs, os reality shows etc., não seria uma forma de estimular os indivíduos - através de um suposto prazer 110 que isso possa proporcionar - a participarem das práticas e procedimentos de vigilância e controle contemporâneos? Na época da passagem do GMSW pelas ruas e avenidas das cidades brasileiras, surgiram alguns fatos inusitados: pessoas foram flagradas em situações extremamente constrangedoras e desagradáveis. As imagens bizarras, por assim dizer, percorreram o mundo inteiro por meio de sites de compartilhamento de fotos, redes sociais digitais, portais de notícias, entre outros meios de divulgação, digitais e impressos. É inegável o quão essas imagens despertaram sentimentos de riso e diversão, além de promoverem uma interação entre os indivíduos em torno do tema. Há, inclusive, um sem número de sites dedicados exclusivamente a publicar as imagens inusitadas geradas pelo Google Street View. Aqui, não estaria em jogo uma das faces da vigilância capaz de promover, conforme mencionou Bruno (2010), sociabilidade, interação, diversão, ou, ainda, prazer? Assim, Fernanda Bruno (2010) ressalta a existência de três regimes de legitimação da vigilância distribuída, a saber: o regime da segurança, o regime da visibilidade midiática – marcado, sobretudo, pela presença dos dispositivos de vigilância em ambientes de espetáculo, entretenimento e sociabilidade -, e, por fim, o regime da eficiência, posto em prática pelos serviços das redes e pelas tecnologias de comunicação. O Google Street View parece conjugar os regimes de visibilidade midiática e da eficiência, visto que sua interface digital permite ao usuário estabelecer uma sociabilidade mediada pelas tecnologias de comunicação. Ademais, o adjetivo distribuído estabelece, também, uma sintonia com a classificação que é dada às atuais formas de comunicação, sobretudo no ciberespaço, local no qual há uma interação e participação mais expressiva dos usuários. Em outras palavras, “os territórios moventes da comunicação distribuída confundem-se com os da vigilância distribuída, ou melhor, essa última é imanente à primeira e está incorporada em suas engrenagens e critérios de funcionamento e eficiência”. (BRUNO, 2010, p. 158). Nota-se, a partir da passagem acima, que os processos de sociabilidade engendrados pelo Google Maps Street View, enquanto uma rede social digital inserida em um ambiente em rede, não estão insentos de qualquer forma de vigilância. Nessa mesma perspectiva, não se deve imaginar que os sistemas de busca (Yahoo, Cadê, além do próprio Google) são apenas máquinas infocomunicacionais, e que os dispositivos 111 de vigilância são exteriores a eles. O controle e monitoramento das ações e atividades dos indivíduos no ciberespaço é intrínseco a todo e qualquer programa de busca, colaborando, assim, para o seu perfeito funcionamento e eficiência. É válido sublinhar, igualmente, que o ciberespaço tem feito aumentar a participação dos indivíduos na produção de bens, produtos, serviços e entretenimento na Internet. Do mesmo modo, aumentou-se, também, o exercício de práticas e procedimentos ligados à vigilância de atividades e ações. Assim, O GMSW pode ser inserido no cruzamento entre vigilância e comunicação, ambas feitas de forma distribuída. 5.2.1 Google Maps Street View: distribuição, participação e naturalização da vigilância A “geovigilância” orquestrada pelo Google Maps Street View revela, em certa medida, alguns aspectos preponderantes de uma cultura contemporânea permeada por uma vigilância distribuída e participativa. Além disso, a cidade, espaço prioritário de atuação do GMSW, parece surgir – em decorrência da atuação do seu sistema de visualização do espaço em sintonia com mapas geográficos – como uma entidade onipresente na vida cotidiana dos indivíduos, na medida em que “seus muitos lugares e processos locais passam a estar visíveis em toda parte e a oferecer-se potencialmente ao olhar e à vigilância de qualquer um, a qualquer hora e em qualquer lugar”. (BRUNO, 2010, p. 168). Sendo assim, para que se possa compreender as especificidades de alguns dos motivos que levaram o Street View ser bem aceito socialmente, é necessário relacioná-lo com, pelo menos, dois processos que estão em curso nas sociedades contemporâneas. O primeiro desses processos consiste na progressiva naturalização da vigilância como prática de observação, cuidado, monitoramento e atenção por parte do indivíduo contemporâneo. A naturalização tornou-se tão representativa que chegou ao ponto de fazer parte do repertório social, tecnológico, subjetivo e estético das sociedades atuais: “a vigilância passa a legitimar-se em diversos domínios, deixando de ter seu sentido vinculado a contextos específicos de controle, inspeção ou conhecimento”. (BRUNO, 2010, p. 168). Assim, o Google Street View parece 112 legitimar a vigilância através de um domínio focado no entretenimento, na informação, bem como na comunicação. Atrelado ao primeiro, o segundo processo – e, talvez, o mais problemático – diz respeito a uma associação entre postura vigilante e cidadania, surgida pelo cruzamento entre vigilância e participação. Nesse sentido, Bruno (2010) ressalta que esses dois domínios – vigilância e participação – se cruzam, especificamente na cibercultura, ao menos de duas formas: “nos recursos que as diversas formas de participação proveem à vigilância digital e na transformação do usuário-produtor em vigilante”. (BRUNO, 2010, p. 168-169). O Street View faz parte, portanto, do segundo grupo, isto é: os indivíduos são incitados, provocados, convidados pela plataforma digital de visualização urbana a desenvolverem aspectos, tanto no âmbito subjetivo (processos de subjetivação) quanto no social, ligados às práticas de vigilância e controle. A associação entre vigilância e cidadania é reforçada, ainda mais, pelos meios de comunicação, tanto os massivos quanto os colaborativos. Um primeiro exemplo pode ser extraído do chamado “jornalismo participativo e cidadão”, no qual os indivíduos são convocados a colaborarem com o jornal enviando fotos que possam ser de interesse público. Ademais, a própria Televisão se vale da colaboração das pessoas para promover a captura de supostos criminosos. Ou, ainda, os reality shows, que “reproduzem aparatos policiais por meio dos quais os participantes são eliminados ou não, muitas vezes segundo o voto dos espectadores, os quais são convidados a assumirem uma posição entre o voyeur e o juiz-policial”. (BRUNO, 2010, p. 169). Por fim, é importante ressaltar que existem algumas controvérsias em torno do termo vigilância participativa. Para alguns autores, a vigilância participativa deve ser positivada seja como forma de empoderamento dos indivíduos na construção das relações sociais e da subjetividade, seja como constituição de uma sociedade transparente e constantemente testemunhada e registrada não pelos Estados e grandes corporações, mas pelos próprios cidadãos. (BRUNO, 2010, p. 170). Todavia, é necessário ter um pouco mais de prudência para assumir tal postura como sendo verdadeira. Na primeira parte do trecho acima, o termo é pensando, sobretudo, no âmbito das redes sociais digitais e da Web 2.0, que assumem uma postura ingênua ao acreditar que a 113 “participação voluntária traz consigo e por si a democratização, o empoderamento dos indivíduos, a criatividade, a partilha e a colaboração na produção e organização de informações e conteúdos”. (BRUNO, 2010, p. 170). O segundo argumento, por sua vez, responsável por ressaltar que a vigilância participativa poderia criar regimes políticos, econômicos, culturais, estéticos, sociais que não passariam, necessariamente, pela supervisão do Estado e/ou das grandes corporações, parece ser um pouco mais consistente e aceitável. De fato, pode-se dizer que há projetos contemporâneos, essencialmente políticos e artísticos, que constroem regimes de visibilidade capazes de questionar, de forma incisiva, os tradicionais jogos de poder que envolvem o controle e a vigilância. Dessa forma, os atuais projetos e movimentos de atuação e participação no ciberespaço possuem um alto potencial no que diz respeito à criação de novas perspectivas e formas de se fazer arte, política, cultura, conhecimento etc. Não por acaso, é justamente neste ponto específico que os dispositivos de vigilância e controle se debruçam, procurando, na medida do possível, transformar esses projetos e movimentos em aliados. O fundamental, portanto, talvez seria promover uma problematização em torno das relações entre vigilância e participação, a fim de utilizar o potencial colaborativo desse embate para fins libertários, tanto no campo social quanto no subjetivo. Sendo assim, o Projeto “Olho Vivo” e o Google Maps Street View são manifestações contemporâneas de suma importância no que diz respeito à relação entre vigilância, visibilidade, apropriação do espaço e processos de subjetivação. Vale ressaltar, novamente, conforme feito no início deste capítulo, que as linhas de força - essencialmente imprevisíveis e mutáveis - que compõem esses dois objetos dão a esta presente cartografia uma entre as milhares de possibilidades, traduções e interpretações para a problemática aqui abordada. 114 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS A presente pesquisa nasceu de uma inquietação em compreender os arranjos, desdobramentos, discursos e práticas relacionados à expansão substancial dos dispositivos tecnológicos de vigilância na sociedade contemporânea (sociedade de controle). Para tanto, o trabalho cartográfico acerca do Projeto “Olho Vivo” e do Google Maps Street View buscou dar centralidade à discussão em torno da atual imbricação entre vigilância eletrônica, regimes de visibilidade, espaço e processos de subjetivação. Optou-se por investigar dois objetos pelo fato de cada um deles representar, a partir de seus agenciamentos próprios, a atuação de aparatos tecnológicos de controle em universos distintos, mas correlatos: espaço urbano, por meio da análise do Projeto “Olho Vivo”, e espaço infocomunicacional, através da reflexão a respeito do Google Maps Street View. Nesse sentido, pode-se perceber, ao longo deste estudo, que os atuais dispositivos de vigilância são, em boa medida, um dos principais responsáveis por promover uma reordenação dos regimes de visibilidade das sociedades contemporâneas. A relação múltipla entre ver e ser visto está em trânsito, em processo de transformação, isto é: existe um movimento de ampliação e modificação dos modos de se fazer ver, bem como dos modos de ser visto. Tal movimento implica, necessariamente, uma rearticulação dos parâmetros e noções através dos quais os sujeitos contemporâneos estavam habituados a construir em seus processos de subjetivação, experimentação e significação dos objetos e ações que compõem o espaço contemporâneo. Dito de outra maneira: aumentaram-se as possibilidades relacionadas à visibilidade, o que acarretou, igualmente, um aumento do número de aparatos e dispositivos de vigilância. Tudo, portanto, parece estar ampliado: o espaço, os modos de visibilidade, bem como as práticas e procedimentos de vigilância. A despeito desse assunto, o Projeto “Olho Vivo” foi capaz de dar visibilidade a práticas, interesses, discursos, processos e jogos de poder que, anteriormente, passavam desapercebidos pelo espaço urbano belorizontino. Viu-se, portanto, que a implementação do projeto de monitoramento urbano “Olho Vivo” vislumbrou-se como uma tentativa de responder aos anseios e demandas – quer sejam de natureza social, política e/ou comercial – de uma parcela mais 115 abastada economicamente da população de Belo Horizonte. O hipercentro da cidade, bem como as outras regiões abrangidas pelo Projeto, encontravam-se em um processo de declínio comercial, em virtude, principalmente, do aumento de atos criminosos e de vandalismos contra o patrimônio histórico da capital mineira. Assim, o “Olho Vivo” parece ter privilegiado somente uma das facetas inerentes às câmeras de vídeo-vigilância: o controle social, haja vista a necessidade de se ter muita cautela ao afirmar que tais dispositivos seriam capazes de proporcionar, por si só, segurança à população civil. Ademais, conforme visto no quarto capítulo desta pesquisa, o Projeto “Olho Vivo” encontrou sua legitimidade, no âmago dos processos de subjetivação dos belorizontinos, ao realizar a promessa de amenizar – ou, até mesmo, eliminar por completo – os atos criminosos que, supostamente, assolam a cidade de Belo Horizonte, muito embora se saiba que tal fenômeno é fruto, essencialmente, da existência de disparidades econômicas e, sobretudo, sociais, na formação histórica da nação brasileira. Deve-se abandonar, portanto, a noção de que a vigilância é um processo neutro, e que, como tal, garantiria a redução dos riscos nos quais os sujeitos estão submetidos diariamente. Atrelado à “retórica do risco”, assim como à ineficiência do Estado no combate à criminalidade e ao aumento significativo do sentimento de medo e insegurança, o “Olho Vivo” apareceu, então, como uma solução viável e necessária ao quadro de desordem social supostamente instaurado em Belo Horizonte. Em outras palavras, pode-se dizer que a união dos fatores acima mencionados foi o principal responsável por alinhar processos de subjetivação coletivos que ratificassem a presença de dispositivos e procedimentos de vigilância em meio às atividades cotidianas do sujeito comum belorizontino. No que diz respeito à relação entre vigilância eletrônica e espaço, foi possível constatar que o “Olho Vivo” promoveu - ao utilizar-se de aparatos imagéticos para realizar o controle e monitoramento de determinados fragmentos espaciais da capital mineira – a construção de apenas um discurso/experimentação para o espaço urbano de Belo Horizonte. Tal discurso, como visto no quarto capítulo, pretendia dar ao hipercentro e demais regiões da cidade abrangidas pelo Projeto um caráter asséptico, seguro, vigiado, e, por conseguinte, apto para o consumo de bens e serviços. 116 Já o Google Maps Street View parece ser um caso emblemático acerca de um fenômeno contemporâneo importante: a incitação de sujeitos ordinários a participarem de práticas e procedimentos de vigilância e controle. Dito de outra forma, há uma crença comum – sustentada, sobretudo, pelos atuais processos comunicacionais e pela influência de alguns grupos sociais que aponta a necessidade de se adotar uma postura vigilante frente aos acontecimentos e fatos que permeiam a vida em sociedade. Conforme abordado no quarto capítulo deste estudo, tal fenômeno recebeu o nome de vigilância distribuída. Nesse sentido, a vigilância distribuída, em certas ocasiões, se dá em meio a diversos dispositivos que, pelo menos inicialmente, não foram programados para exercer a função de monitoramento, tornando-se, portanto, uma função secundária, porém não menos importante, de mecanismos que foram idealizados para outros fins, tais como comunicação, publicidade, geolocalização etc. Dessa forma, o Google Maps Street View deve ser visto como uma plataforma digital capaz de conjugar, em um só tempo, geolocalização, entretenimento, informação e vigilância, mesmo que de forma potencial. Atrelado a isso, o GMSW promove um deslocamento significativo nas práticas de vigilância contemporâneas: agora, as possibilidades de monitoramento e vigília não se restringem apenas aos indivíduos e/ou grupos sociais. Aumentouse, dessa forma, focos, arranjos, perspectivas, direcionamentos, bem como objetos e ações, no que tange o controle contemporâneo das atividades individuais. Todavia, conforme viu-se no quarto capítulo, a vigilância distribuída, na qual o Street View é um exemplo representativo, não se limita apenas aos seus novos e possíveis focos e objetos, mas se desdobra por meio de significações subjetivas e sociais dos sujeitos contemporâneos. Assim, o Google Maps Street View atrela às práticas de vigília um ar de sociabilidade, interação, naturalização e, até mesmo, prazer. Vale ressaltar, também, que a naturalização da vigilância se dá a partir de sua associação imediata com o exercício da cidadania nas sociedades contemporâneas. O GMSW faz parte, portanto, de um dos movimentos que convidam o sujeito ordinário a praticar sua cidadania através da vigilância e do controle de afazeres e atividades cotidianas. Com relação às matrizes espaciais, o Street View propicia, ao dar visibilidade a lugares, processos e objetos locais que usualmente passavam desapercebidos, um caráter ubíquo e totalitário ao espaço urbano. Ou seja, oferece-se ao olhar e a vigilância, a qualquer hora e em qualquer lugar, a possibilidade de 117 monitorar a tudo e a todos, mesmo que não seja em tempo real, como, ocorre, por exemplo, com as câmeras de vídeo-vigilância do Projeto “Olho Vivo”. Por fim, é fundamental ressaltar que os objetos que aqui foram alvos de investigação são constituídos, essencialmente, por linhas de força – políticas, técnicas e tecnológicas – que possuem um alto grau de imprevisibilidade, o que faz desta cartografia, portanto, uma entre as várias possibilidades de traduções, interpretações e questionamentos para o tema. Tema este que tornou-se, em decorrência da expansão constante e a acelerada das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), um campo riquíssimo de reflexões, embates, tensões e análises. 118 REFERÊNCIAS ADVERSE, Helton. Maquiavel: política e retórica. Belo Horizonte: UFMG, 2009. ALVES, Daniel Garcia. 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