Biologia Celular e Molecular 2. ENERGIA CELULAR – parte II Fotossíntese Sumário: Introdução e perspectiva histórica Pigmentos fotossintéticos Reacções da fase luminosa Fixação do CO2 – Ciclo de Calvin Fotorrespiração Plantas C3, C4 e CAM Carlos Manuel Gaspar dos Reis 1 Biologia Celular e Molecular Na fotossíntese, plantas, algas e bactérias fotossintetizantes, através dos pigmentos fotossintéticos, captam a energia do sol e utilizam-na para converter moléculas simples – CO2 e H2O – em moléculas orgânicas complexas (açucares). Toda energia que entra na biosfera provém da fotossíntese. Carlos Manuel Gaspar dos Reis 2 Biologia Celular e Molecular Carlos Manuel Gaspar dos Reis 3 Biologia Celular e Molecular Fotossíntese – equação simplificada e balanceada 6 CO2 + 12 H2O + luz → C6H12O6* + 6 O2 + 6 H2O * *Na Narealidade realidadeooproduto produtoimediato imediatosão sãotrioses trioses (hidratos de carbono com 3 C) (hidratos de carbono com 3 C) • Van Niel Bactérias sulfurosas púrpuras CO2 + 2H2S + luz → (CH2O) + H2O + 2S A água, e não o dióxido de carbono, é a fonte de oxigénio na fotossíntese. • 1937 – Robin Hill Quando expostos à luz, os clorolastos isolados são capazes de produzir O2 na ausência de CO2 – reacção de Hill Carlos Manuel Gaspar dos Reis 4 Biologia Celular e Molecular A reacção de Hill ocorre quando os cloroplastos iluminados eram supridos com um receptor artificial de electrões. A reacção de Hill não só corrobora a o facto de que o O2 libertado na fotossíntese provém da oxidação da H2O, como também indica a existência de dois conjuntos de reacções independentes: I ) Reacções da fase luminosa – conjunto de reacções químicas directamente dependentes da luz; ocorre a captação da energia da luz e são sintetizadas moléculas com potencial redutor (NADPH) e energético (ATP). II) Reacções da fase não luminosa ou ciclo de Calvin – a energia e potencial redutor das moléculas sintetizadas na fase luminosa são utilizadas para fixar o CO2 e sintetizar açucares com 3C (trioses fosfato). Carlos Manuel Gaspar dos Reis 5 Biologia Celular e Molecular Membranas dos tilacóides Estroma do cloroplasto Carlos Manuel Gaspar dos Reis 6 Biologia Celular e Molecular A luz visível representa uma pequena porção do espectro electromagnético. Todas as radiações do espectro viajam em ondas. A radiação de cada comprimento de onda possui associado um determinado valor de energia – quanto menor o comprimento de onda (λ), maior a sua energia. A luz tem propriedades de partícula A luz é constituída por partículas de energia, os fotões ou quanta de luz. E= hc /λ h – constante de Planck c – velocidade da luz Carlos Manuel Gaspar dos Reis 7 Biologia Celular e Molecular Pigmentos fotossintéticos Clorofila a Clorofilas Corofila b Carotenóides Ficobilinas Carlos Manuel Gaspar dos Reis 8 Biologia Celular e Molecular Carlos Manuel Gaspar dos Reis 9 Biologia Celular e Molecular Quando as moléculas de clorofila ou de outros pigmentos absorvem a energia dos fotões da luz, os electrões passam a um estado orbital de energia mais elevada – estado excitado. Quando o electrão excitado regressa ao estado de energia basal, a energia libertada poderá ser: i) Dissipada sob a forma de calor ii) Transferida por ressonância indutiva; iii) O electrão de alta energia poderá ser transferido para uma molécula receptora de electrões que faz parte de uma cadeia transportadora de elctrões. Carlos Manuel Gaspar dos Reis 10 Biologia Celular e Molecular Pigmentos fotossintéticos Clorofila a: eucariotas fotossintetizantes e cianobactérias Clorofila b: plantas, algas verdes e euglenas; Clorofila c: substitui a clorofila b nalgumas algas Bacterioclorofila: bactérias púrpura Carotenóides: além de permitirem ampliar a faixa do espectro luminoso utilizável na fotossíntese, têm um efeito antioxidante, impedindo danos fotooxidativos sobre as moléculas de clorofila e as membranas dos tilacóides. Carotenos: ex. beta-caroteno, fonte de vitamina A Xantofilas Ficobilinas: cianobactérias e algas vermelhas. Clorofila b, carotenóides e ficobilinas são pigmentos acessórios – permitem permite ampliar a faixa de luz que pode ser utilizada na fotossíntese. Carlos Manuel Gaspar dos Reis 11 Biologia Celular e Molecular Reacções da fotossíntese i) Reacções da fase luminosa: a energia da luz é utilizada para gerar ATP e NADPH ii) Reacções de fixação do carbono – reacções não luminosas ou ciclo de Calvin: a energia química do ATP e NADPH é utilizada para fixar o CO2 atmosférico, com produção de hidratos de carbono. Carlos Manuel Gaspar dos Reis 12 Biologia Celular e Molecular Reacções luminosas No cloroplasto, as clorofilas e os outros pigmentos estão inseridos nos tilacóides em unidades discretas de organização designadas fotossistemas Cada fotossistema inclui um conjunto de 250 a 400 moléculas e consiste em dois componentes intimamente associados: um complexo antena e um centro de reacção O complexo antena inclui moléculas de pigmentos (clorofilas e carotenóides) que captam e canalizam energia para o centro de reacção. A energia é canalizada por ressonância indutiva até ao centro de reacção. Carlos Manuel Gaspar dos Reis 13 Biologia Celular e Molecular O centro de reacção é constituído por proteínas e moléculas de clorofila que que permitem converter a energia luminosa em energia química Na parte central do centro de reacção existe possivelmente um par de moléculas especiais de clorofila a que podem utilizar a energia captada pelos pigmentos antena numa reacção fotoquímica. Quando uma molécula de clorofila a do centro de reacção recebe energia, um dos seus electrões passa a um nível energético mais elevado e é transferido para uma molécula receptora de electrões para iniciar um fluxo de elctrões. Tipos de fotossistemas Fotossitema I: P700 P – pigmento Fotossistema II: P680 Pico de absorção óptimo das clorofilas a de cada fotossistema Carlos Manuel Gaspar dos Reis 14 Biologia Celular e Molecular Nas reacções luminosas os electrões passam da água para o fotosistema II, deste para o fotossistema I e finalmente vão reduzir o NADP+ a NADPH (fluxo não cíclico de electrões) Fotólise: oxidação da água dependente da luz Carlos Manuel Gaspar dos Reis 15 Biologia Celular e Molecular Esquema em Z representando o fluxo de electrões na fase luminosa da fotossíntese Carlos Manuel Gaspar dos Reis 16 Biologia Celular e Molecular Transporte de electrões na fase luminosa e hipótese quimiosmótica da fotofosforilação Carlos Manuel Gaspar dos Reis 17 Biologia Celular e Molecular hipótese quimiosmótica da fotofosforilação Dois fotões precisam de ser absorvidos pelo fotossistema II e dois pelo fotossistema I sequencialmente para reduzir uma molécula de NADP+ a NADPH Carlos Manuel Gaspar dos Reis 18 Biologia Celular e Molecular Fluxo acíclico ou não cíclico de electrões Fluxo cíclico de electrões Carlos Manuel Gaspar dos Reis 19 Biologia Celular e Molecular Acíclico ou não cíclico → fotofosforilação acíclica Fluxo de electrões Cíclico → fotofosforilação cíclica – não há oxidação da água, não há libertação de O2 e não é produzido NADPH. Apenas é produzido ATP. Reacções de fixação do carbono (ciclo de Calvin) O ATP e NADPH gerados na fase luminosa, são utilizados para fixar o CO2 atmosférico Em muitas espécies vegetais a a redução do carbono ocorre exclusivamente no estroma do cloroplasto por uma série de reacções frequentemente designadas de ciclo de Calvin (prémio Nobel em 1961). No ciclo de Calvin, o CO2 é fixado através de uma via de três carbonos. Carlos Manuel Gaspar dos Reis 20 Biologia Celular e Molecular Carlos Manuel Gaspar dos Reis 21 Biologia Celular e Molecular Estágios do Ciclo de Calvin i) Fixação do carbono: O CO2 é fixado na molécula ribulose 1,5 bifosfato (RuBP) , por acção da enzima ribulose 1,5 bifosfato carboxilase oxigenase (RuBisCo); ii) Redução do ácido 3-fosfoglicérico: ocorre a redução do 3fosfoglicerato (PGA) a gliceraldeído 3-fosfato. A formação de 3 moléculas de gliceraldeído 3-fosfato implica a fixação de 6 CO2; iii) Regeneração da RuBP: cinco das seis moléculas de gliceraldeído 3fosfato são utilizadas para regenerar 3 moléculas de RuBP, o aceitador para o dióxido de carbono. Fixação de 1 CO2 ⇒ 3 ATP + 2 NADPH 3 CO2 + 9 ATP + 6 NADPH + 6 H+ → Gliceraldeído 3-P + 9 ADP + 8 Pi + 6 NADP+ + 3 H2O Carlos Manuel Gaspar dos Reis 22 Biologia Celular e Molecular Carlos Manuel Gaspar dos Reis 23 Biologia Celular e Molecular Fixação do carbono Carlos Manuel Gaspar dos Reis 24 Biologia Celular e Molecular Fixação de 1 CO2 ⇒ 3 ATP + 2 NADPH Carlos Manuel Gaspar dos Reis 25 Biologia Celular e Molecular Carlos Manuel Gaspar dos Reis 26 Biologia Celular e Molecular O produto imediato do ciclo de Calvin é o gliceraldeído 3-fosfato, a molécula primária transportada do estroma cloroplasto para o citosol. No citosol o gliceraldeído 3-fosfato é transformado no dissacarídeo sacarose, a principal forma de transporte de açucares nas plantas. O gliceraldeído-3-fosfato não utilizado que permanece nos cloroplastos é transfomado no polissacarídeo amido, o qual é armazenado temporariamente como grãos de amido no estroma do cloroplasto. Fotorrespiração (ciclo do glicolato) A fotorrespiração ocorre quando a RuBisCo utiliza O2 em vez de CO2 Na presença de grande quantidade de CO2, a RuBisCo cataliza a carboxilação da ribulose 1,5-bifosfato com alta eficiência. Contudo o oxigénio compete pelo sítio activo da enzima com o CO2 . Quando a enzima cataliza a fixação de O2 na Ribulose 1,5-bifosfato, resulta a produção de 1 molécula de 3-fosfoglicerato e 1 molécula de fosfoglicolato. Carlos Manuel Gaspar dos Reis 27 Biologia Celular e Molecular Na fotorrespiração nenhum carbono é fixado e é gasta energia para recuperar os carbonos do fosfoglicolato, que não é um metabolito útil. A via de recuperação é longa e envolve três organelos celulares: cloroplasto, peroxissoma e mitocôndria. Carlos Manuel Gaspar dos Reis 28 Biologia Celular e Molecular Fotorrespiração CO2 A actividade oxigenásica da Rubisco, combinada com a via de recuperação, consome O2 e liberta CO2, um processo designado fotorrespiração Carlos Manuel Gaspar dos Reis 29 Biologia Celular e Molecular Contrariamente à respiração mitocondrial, a fotorrespiração (que ocorre apenas na presença de luz) é um processo de desperdício não produzindo ATP nem NADPH. Nalgumas espécies vegetais, até 50% do carbono fixado na fotossíntese pode ser reoxidado a CO2 durante a fotorrespiração. Aparentemente a evolução da Rubisco originou um sítio activo incapaz de descriminar entre o O2 e o CO2, talvez porque a maior parte da sua evolução tenha decorrido antes de o O2 ser um importante componente da atmosfera. Carlos Manuel Gaspar dos Reis 30 Biologia Celular e Molecular A via em C4 de fixação do CO2 O ciclo de Calvin não é a única via de fixação do CO2. Nalgumas espécies vegetais o primeiro produto detectável da fixação do carbono não é uma molécula com 3C, o 3-fosfoglicerato, mas uma com 4C, o oxaloacetato. As plantas que utilizam esta via C4, juntamente com o ciclo de Calvin, são normalmente designadas plantas C4 (devido ao produto com 4C), para distinguir das plantas C3, que utilizam somente o ciclo de Calvin. Tipicamente as folhas das plantas C4 são caracterizadas pelo arranjo ordenado das células do mesófilo envolvendo uma camada de grandes células da bainha, sendo que as duas formam camadas concêntricas que circundam os feixes vasculares. Este tipo de anatomia, particular das plantas C4, é designado anatomia Kranz. O oxaloacetato é formado quando o CO2 é fixado ao fosfoenolpiruvato (PEP) numa reacção catalisada pela fosfoenolpiruvato carboxilase (PEP carboxilase), enzima que se encontra no citosol das células do mesófilo das C4. Carlos Manuel Gaspar dos Reis 31 Biologia Celular e Molecular Células do Feixe vascular mesófilo Células da Câmara bainha estomática Anatomia Kranz O oxaloaceato é então reduzido a malato ou convertido, com a adição de um grupo amino, ao aminoácido aspartato O malato (ou aspartato dependendo da espécie) move-se das células do mesófilo para as células da bainha, onde é descarboxilado para produzir piruvato e CO2. O CO2 entra então no ciclo de Calvin através da reacção com RuBP para formar 3-fosfoglicerato. O piruvato retorna às células do mesófilo onde reage com o ATP e regenera o fosfoenolpiruvato. Carlos Manuel Gaspar dos Reis 32 Biologia Celular e Molecular Via em C4 A anatomia das folhas das plantas C4 estabelece um separação espacial entre a a via C4 e o ciclo de Calvin Carlos Manuel Gaspar dos Reis 33 Biologia Celular e Molecular Via em C4 Carlos Manuel Gaspar dos Reis 34 Biologia Celular e Molecular Na fixação do carbono a PEP carboxilase utiliza a forma hidratado do dióxido de carbono, o ião HCO3- (bicarbonato) como substrato, enquanto que a Rubisco utiliza CO2. A PEP carboxilase possui uma elevada afinidade para o seu substrato, operando muito eficientemente mesmo quando a concentração de substrato é baixa. A fixação de carbono em plantas C4 possui um custo energético superior aquele que se verifica nas plantas C3. Plantas C4 Fixação de 1 CO2 ⇒ consumo de 5 ATP Plantas C3 Fixação de 1 CO2 ⇒ consumo de 3 ATP Apesar de terem um custo energético maior, nas plantas C4 o carbono fixado é “bombeado” das células do mesófilo para as células da bainha. A alta concentração de CO2 e baixa de O2 nas células da bainha, onde actua a Rubisco, limitam a fotorrespiração. Além disso, qualquer CO2 libertado pela fotorrespiração, é refixado nas células do mesófilo pela via em C4 Carlos Manuel Gaspar dos Reis 35 Biologia Celular e Molecular Nas plantas C4 a taxa de fotossíntese líquida pode ser duas a 3 vezes superior relativamente às plantas C3. O milho (Zea mays), a cana do açucar (Saccharum officinale) e o sorgo (Sorghum vulgare) são exemplos de gramíneas C4. O trigo (Triticum aestivum), o centeio (Secale cereale), a aveia (Avena sativa) e o arroz (Oryza sativa) são exemplos de gramíneas C3. As plantas C4 evoluíram primariamente nos trópicos e estão especialmente adaptas a elevadas intensidades luminosas e a altas temperaturas. São mais sensíveis ao frio que as C3. Devido à utilização mais eficiente do dióxido de carbono, as plantas C4 podem realizar a mesma taxa de fotossíntese líquidas das plantas C3, com uma menor abertura estomática e consequentemente com menor perda de água. As plantas C4 têm três a seis vezes menos Rubisco do que as plantas C3, o conteúdo em azoto é menor nas folhas das plantas C4 do que nas C3. Portanto as plantas C4 apresentam uma maior eficiência de utilização do azoto. Carlos Manuel Gaspar dos Reis 36 Biologia Celular e Molecular As plantas C4 são todas angiospérmicas, estando distribuídas por 19 famílias, das quais 3 são monocotilédoneas e 16 dicotilédoneas. Contudo não se encontrou ainda nenhuma família que contenha apenas espécies C4. Metabolismo Ácido das Crassuláceas - plantas CAM Em muitas plantas suculentas, incluindo cactos e plantas de folhas espessas, existe uma outra estratégia de fixação de CO2. As plantas CAM utilizam as vias C3 e C4, contudo apresentam uma separação temporal entre as duas vias, ao invés de uma separação espacial como acontece nas C4. As plantas CAM têm capacidade para fixar o CO2 no escuro (durante a noite) por meio da actividade da PEP carboxilase no citosol. È durante este período que os estomas estão abertos. O produto da carboxilação inicial é o oxaloacetato o qual é imediatamente reduzido a malato. Durante a noite, o malato é armazenado como ácido málico no vacúolo. Carlos Manuel Gaspar dos Reis 37 Biologia Celular e Molecular Plantas em C4 vs. Plantas CAM Carlos Manuel Gaspar dos Reis 38 Biologia Celular e Molecular Durante o dia os estomas estão fechados para minimizar as perdas de água por transpiração. O ácido málico é transportado do vacúolo para o cloroplasto, é descarboxilado e o CO2 é transferido para a RuBP do ciclo de Calvin, dentro da mesma célula. Como a fixação do CO2 atmosférico ocorre durante a noite, estas plantas apresentam uma elevada eficiência de uso da água. Tipicamente uma planta CAM perde 50-100 g de H2O por cada grama de CO2 obtido, enquanto que nas plantas C4 os valores são 250-300g e nas plantas C3 400-500 g. Durante períodos de seca prolongada, algumas plantas CAM podem manter os estomas fechados dia e noite, mantendo baixos níveis metabólicos ao refixar o CO2 produzido na respiração. As plantas CAM estão distribuídas por 23 famílias de angiospérmicas, principalmente dicotilédoneas, incluindo algumas plantas ornamentais. Nem todas as plantas CAM apresentam folhas suculentas, como por exemplo o ananás (Ananasus comosus), uma espécie da família das Bromeliáceas. Carlos Manuel Gaspar dos Reis 39 Biologia Celular e Molecular Plantas CAM Noite: estomas abertos Dia: estomas fechados http://www.vcbio.science.ru.nl/en/virtuallessons/leaf/cam-plants/ Carlos Manuel Gaspar dos Reis 40