ATIVIDADES DE LEITURA E ESCRITA NA CONSCIENTIZAÇÃO
AMBIENTAL E CRÍTICA: SABERES ESCOLARES E FORMAÇÃO
DOCENTE
Flávio Rêgo dos Santos1, Kamilla Rosa da Silva1, Sarah Soares Brum1 e Maria
Cristina Ferreira dos Santos2
1
Estudante da Faculdade de Formação de Professores (FFP) da Universidade do Estado
do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista de Iniciação à Docência do Subprojeto
Interdisciplinar PIBID/CAPES/UERJ - Campus São Gonçalo. 2Professora Adjunta da
UERJ e Coordenadora do Subprojeto Interdisciplinar PIBID/CAPES/UERJ - Campus
São Gonçalo.
Resumo - No Instituto de Educação Clélia Nanci (IECN), localizado no município de
São Gonçalo na região metropolitana do estado do Rio de Janeiro, alunos, licenciandos
bolsistas de Iniciação à Docência, professores deste Instituto e da Faculdade de
Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP-UERJ)
vêm desenvolvendo atividades de educação ambiental no ensino fundamental com a
implantação do subprojeto Interdisciplinar Biologia–Geografia do PIBID/CAPES/UERJ
Campus São Gonçalo, com o intuito inicial de aproximação à compreensão dos
problemas socioambientais numa ampla relação entre a natureza, sociedade, cultura e
saberes escolarizados. O diagnóstico inicial apontou que os alunos do 8°e 9°anos do
IECN produzem grande quantidade de lixo e que o descarte não é realizado de forma
adequada, em contradição às idéias destes sobre a conservação ambiental. Também
foram diagnosticadas dificuldades na leitura, escrita e interpretação no alunado, levando
à priorização de desenvolvimento de atividades desta natureza na conscientização e
sensibilização ambiental e crítica. Iniciou-se a leitura e a escrita com a proposta de
organização de uma coletânea de produções dos alunos e estimulou-se a interpretação
com o uso de materiais audiovisuais. Foi apresentado o documentário “Ilha das Flores”,
de Jorge Furtado, para alunos de turmas do 8º e 9º anos e utilizada a análise de conteúdo
para o estudo das idéias dos alunos em suas produções textuais. Na análise foram
elencadas seis categorias: descrição, evocação, interpretação, indignação, solução e
consumismo. As práticas de leitura, escrita, interpretação e discussão entre alunos,
licenciandos e professores no IECN vêm sendo formuladas visando à conscientização
sobre os problemas socioambientais locais e globais, na perspectiva de interação e
construção interdisciplinar de saberes e práticas escolares.
Palavras-chave: interdisciplinaridade, educação ambiental, saberes escolares.
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SOBRE EDUCAÇÃO AMBIENTAL E A ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR
O debate em educação ambiental é amplo na sociedade e busca alternativas para
os problemas advindos do desenvolvimento e modernização. Juntamente com progresso
de uma cidade, aumenta a demanda de saneamento básico, moradia, educação e saúde
(ALMEIDA, 2013). Lopes (2009) assinala dois momentos importantes para a Educação
Ambiental no ambiente escolar no Brasil: a realização da Conferência sobre o Meio
Ambiente e Desenvolvimento, que ficou conhecida como Rio-92 ou Eco-92, e a
produção dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), com focos diferentes. A
conferência conhecida como Eco-92 foi promovida pela ONU e realizada no inicio da
década de 1990 no estado do Rio de Janeiro, contando com a participação de cerca de
170 países, 102 chefes de estado e milhares de participantes, sinalizando a preocupação
com o meio ambiente pela sociedade brasileira.
Ao analisar a importância dos PCNs para a Educação Ambiental nas escolas, o
foco se volta para o processo de ensino e aprendizagem, com a proposta de se trabalhar
de forma transversal a Educação Ambiental, de forma a
[...] contribuir para a formação de cidadãos conscientes, aptos para decidirem
e atuarem na realidade sócio-ambiental de um modo comprometido com a
vida, com o bem-estar de cada um e da sociedade local e global. Para isso é
necessário que, mais do que informações e conceitos, a escola se proponha a
trabalhar com atitudes, com formação de valores, com o ensino e a
aprendizagem de habilidades e procedimentos. E esse é um grande desafio
para a educação. (BRASIL, 2002, p. 187)
Assim, o estudo da Educação Ambiental na educação básica não está vinculado
apenas a algumas disciplinas escolares, como Ciências, Biologia e Geografia, e sim
abrange todas as disciplinas, contextualizadas com temas e vivências dos alunos, em
que “os conhecimentos devem estar relacionados com os aspectos da vida cotidiana,
visando proporcionar novos saberes para enfrentar os desafios dessa temática emergente
do campo escolar” (AZEVEDO, 2010, p. 104).
De acordo com REIGOTA (2002), o papel da educação ambiental enquanto
tema transversal parte de um pensamento que valoriza a escola como local para
formulação de propostas de intervenção social em seu espaço-tempo. Deste modo, as
concepções do professor sobre a educação ambiental são de grande importância, já que
seus saberes influenciam as suas escolhas e práticas. Por meio da educação ambiental,
“a escola, os conteúdos, e o papel do professor e dos alunos são colocados em uma nova
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situação, não apenas relacionada com o conhecimento, mas sim com o uso que fazemos
dele e a sua importância para a nossa participação política cotidiana” (ibidem, p.82).
Assim, possibilitar aos alunos a conscientização ambiental desde o início da sua vida
escolar pode contribuir para reflexões no presente e futuro.
De acordo com Jacobi (2003, p.190), a partir da Conferência Intergovernamental
sobre Educação Ambiental realizada em Tsibilisi (EUA) em 1977, inicia-se um amplo
processo em nível global orientado para criar as condições que formem uma nova
consciência sobre o valor da natureza e reorientem a produção de conhecimento baseada
nos métodos da interdisciplinaridade e nos princípios da complexidade. Segundo este
autor, esse campo educativo tem sido fertilizado transversalmente, o que tem
possibilitado a realização de experiências concretas de educação ambiental de forma
criativa e inovadora por diversos segmentos da população e em diversos níveis de
formação.
Para compreender o significado de interdisciplinaridade, apoiamo-nos em
Fazenda (2002, p. 15), que afirma que, o pensar interdisciplinar parte da premissa de
que nenhuma forma de conhecimento é em si mesma exaustiva e é uma atitude de
valorização de todo tipo de conhecimento, integração de conhecimentos e busca de
novos para a transformação da realidade. Esta autora aponta que a interdisciplinaridade
surgiu na Itália e na França, por volta de 1960, coincidindo com uma época em que os
estudantes promoviam uma série de movimentos nos quais reivindicavam um ensino
coerente com as questões sociais, políticas e econômicas da época. A resposta
encontrada teria sido um ensino interdisciplinar, o único capaz de atender a estes
anseios. Para ela, no Brasil, o precursor dos estudos sobre interdisciplinaridade foi
Hilton Japiassu, que apresentou os principais questionamentos a respeito da temática e
seus conceitos.
Segundo PAVIANI (apud BONATTO et al, 2012. p. 4), “a finalidade da
interdisciplinaridade é de ampliar uma ligação entre o momento identificador de cada
disciplina de conhecimento e o necessário corte diferenciador”, não se tratando de um
simples deslocamento de conceitos e metodologias, mas de uma recriação conceitual e
teórica. Desta forma, ao se fazer uso da interdisciplinaridade entre conhecimentos das
disciplinas Geografia e Ciências pensa-se na atribuição de uma nova de visão de
pensamentos e saberes aos se estudar educação ambiental na escola. No PCN do Ensino
Médio afirma-se que o trabalho interdisciplinar precisa
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[...] partir da necessidade sentida pelas escolas, professores e alunos de
explicar, compreender, intervir, mudar, prever, algo que desafia uma
disciplina isolada e atrai a atenção de mais de um olhar, talvez vários. A
interdisciplinaridade tem uma função instrumental. Trata-se de recorrer a um
saber diretamente útil e utilizável para resolver às questões e aos problemas
sociais contemporâneos (BRASIL, 2002, p. 88-89).
É importante considerar que existem dificuldades para a implementação da
interdisciplinaridade nas escolas: a conceituação errônea da interdisciplinaridade com a
imposição de projetos pluridisciplinares, a preocupação em ensinar todos os conteúdos
por parte das escolas e professores, a insegurança ou despreparo do professor em ser um
mediador num trabalho interdisciplinar, já que a sua formação é fragmentada e muitas
vezes lhe falta tempo para estudos (CARDOSO et al, 2008).
Uma educação com base na interdisciplinaridade pretende formar alunos com
uma visão de mundo, hábeis para “articular, religar, contextualizar, situar-se num
contexto e, se possível, globalizar, reunir os conhecimentos adquiridos” (MORIN apud
AUGUSTO et al, 2004). Para isso, é extremamente importante que os professores
acreditem nessa possibilidade e estejam hábeis para desenvolver as possíveis relações
entre as disciplinas.
Pensando a educação ambiental de forma interdisciplinar na educação básica e
na formação inicial, este trabalho foi idealizado por professores e licenciandos do
subprojeto Interdisciplinar Biologia – Geografia do PIBID/CAPES/UERJ e vem sendo
realizado no Instituto de Educação Clélia Nanci (IECN), no município de São Gonçalo,
região metropolitana do Rio de Janeiro, com o intuito de aproximação à compreensão
dos problemas socioambientais numa ampla relação entre a natureza, sociedade, cultura
e saberes escolarizados. A intenção foi fomentar a conscientização ambiental e crítica
de alunos 8° e 9° anos do ensino fundamental, fomentada por atividades de leitura,
escrita e interpretação de textos.
METODOLOGIA
A primeira atividade realizada com as três turmas do 8° e 9° anos do IECN em
2014 foi um levantamento das concepções dos alunos sobre preservação do meio
ambiente. Em seguida foram realizadas atividades de leitura de textos sobre unidades de
conservação e lixo, apresentação de vídeos relacionados à temática da educação
ambiental, objetivando-se promover nos alunos uma visão crítica sobre o ambiente e a
sociedade e incentivando a leitura (SANTOS; MIRANDA, 2003).
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Como
forma
de
estimular
a
interpretação
envolvendo
as
questões
socioambientais e com base em abordagem proposta por Lisboa e Kindel (2012), foi
apresentado para os alunos de duas turmas do 8º e 9º anos o filme Ilha das Flores, de
Jorge Furtado, com duração de 10 minutos. Após a apresentação houve uma discussão
sobre o filme entre alunos, licenciandos e professores e a turma foi dividida em grupos
para elaborar produções textuais manuscritas sobre este documentário.
Os textos foram estudados pelo método de analise de conteúdo, que define
unidades de analise por meio de palavras-chave ou afirmativas e propostas sobre uma
determinada questão (BARDIN, 2011; MORAES, 1999), e categorizados em: descrição
– refere-se à narração dos fatos que aconteceram no vídeo; evocação – quando se faz
uma referencia a um fato da experiência cotidiana ou a um evento que supõe conhecido;
interpretação – são passagens explicitas nas quais se utilizam os conceitos teóricos para
descrever relações entre os acontecimentos; indignação – relacionadas ao sentimento de
revolta diante da circunstância; solução – ação ou proposta de resolver um problema;
consumismo – refere-se consciência sobre o consumo excessivo. Essas unidades de
análise foram construídas a partir de repetidas leituras dos textos sobre o documentário
e as categorias “evocação” e “interpretação” foram pensadas com apoio em Diniz e
Tomazello (2005, p.7). As produções textuais dos grupos de alunos foram numeradas e
representadas por letras e números, variando de R1 a R14, e fragmentos foram
marcados como unidades de análise, de acordo com as categorias explicitadas.
CONCEPÇÕES DOS ALUNOS SOBRE O MEIO AMBIENTE
O diagnóstico inicial apontou que os alunos do 8°e 9°anos do IECN produzem
grande quantidade de lixo e que o descarte não é realizado de forma adequada, em
contradição às idéias por eles expressas em textos sobre a conservação do ambiente.
Também foram diagnosticadas dificuldades de leitura e interpretação, o que resultou na
priorização da conscientização e sensibilização ambiental e crítica nas aulas, com o
estímulo da leitura por meio de textos e da interpretação por meio de vídeos e outros
recursos voltados para a educação ambiental.
Esta ação se baseia no entendimento de que a leitura no espaço escolar contribui
para o processo de aprendizagem possibilitando ao educando adquirir uma postura
reflexiva necessária à prática da cidadania. Assim, os valores éticos podem se
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transformar em importantes ferramentas para ampliar e aprofundar a consciência sócioambiental e reorganizar a sociedade, pois indivíduos conscientes de sua condição no
mundo podem se engajar para transformar a realidade.
ANÁLISE DAS PRODUÇÕES TEXTUAIS SOBRE O DOCUMENTÁRIO
As produções textuais foram lidas várias vezes e fragmentos foram
categorizados em seis unidades de análise, que denotam afirmativas, intenções ou
sentimentos dos alunos: descrição, evocação, interpretação, indignação, solução e
consumismo. A primeira categoria que discutiremos é a descrição.
Descrição - Nesta categoria, notou-se a preocupação em relatar a pobreza e a fome de
seres humanos que recebiam a comida que não servia para os porcos:
[...] vimos sobre a Ilha das Flores, um lugar onde jogam os lixos fora, mas
nessa ilha não à só lixos também a pessoas lá, os lixos são alimentos dessas
pessoas e dos porcos, os lixos que não servem para os porcos são dados para
os humanos que vivem lá, que são os orgânicos dados aos humanos. (R1)
Eu vi que na Ilha das Flores, tem muitas pessoas pobres, que não tem
trabalho, nem dinheiro para comprar comida, que passam fome e
necessidade.(R8)
Entendemos que, por trás de um lugar que há muito lixo na verdade as
pessoas que moram lá comem alimentos estragados e rejeitados pelos
humanos que moram nas cidades, e pelos porcos [...] (R5)
[...] senhor suzuki tem uma plantação de tomate, ele vende sua plantação de
tomate, ele troca o tomate por dinheiro Dona nete troca dinheiro por perfume
extraído das flores que ela compra da fabrica, dona nete troca dinheiro por
tomates. (R12).
Evocação - Nessa categoria encontram-se nos textos afirmativas que correlacionam
aspectos do filme com o seu cotidiano e que foram construídas a partir das suas relações
com o meio:
[...] é um lugar onde não há princípios de limpeza, nem saneamento básico,
e não há atividades para melhor distribuição de renda da população, cercado
por um mar poluído o que acaba dificultando a atividade da pesca. (R3)
Hoje em dia, pessoas com menas condições financeiras são super
desvalorizadas, até um porco tem + opções de alimentação que (digamos) ‘a
classe inferior. (R4)
[...] assim como o governo é culpado pela maioria da poluição dos rios (por
não ‘nos’ dar uma opção mais adequada para jogar o esgoto), o mesmo
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também é culpado pelas condições em que vivem os moradores de Ilha das
flores. (R4)
Percebe-se que estes alunos apontam uma relação entre o descaso do governo e a
precária condição da população partindo de uma visão empirista. A educação ambiental
permite associar a ação humana e o meio, possibilitando uma discussão sobre as
questões ambientais e a formação de uma consciência social. Os alunos se referiram às
questões “socioeconômicas decorrentes dos baixos salários se aliam os males que vêm
com a poluição, com a precariedade dos serviços de saúde, e com a falta de instalações
públicas adequadas e de equipamentos culturais” (SILVA; RAINHA, 2013). Tratando a
educação ambiental de maneira interdisciplinar, deve-se ressaltar a importância de não
discutir esse tema de forma isolada, mas sim considerando a influência da relação entre
o meio, a economia, o Estado e a sociedade.
Interpretação - Os alunos interpretaram as questões do filme e explicaram as suas
consequências:
[...] com isso acaba ocasionando, mortes pelo consumo impróprio de
alimentos. (R3)
[...] isso é muito errado porque as pessoas são seres humano. (R8)
[...] com isso causa muitas doenças e até a morte. (R9)
[...] As pessoas eram tratadas piores que os animais porque não tinha
condição de arrumar um emprego para comprar comida e ainda não tinha
estudo e por isso tinha que comer sobras dos animais. (R10)
[...] o filme representa o ciclo da sociedade. Uma simples tomate jogado no
lixo servi de comida para os porcos depois de servir de comida para os
porcos isto vira comida para a população pobre. (R12)
[...] já os piores alimentos vão para o consumo dos seres humanos que não
tem que comer. (esses seres humanos são: mulheres crianças... que não tem
dinheiro para comprar.). (R14)
Os alunos não demonstraram indignação, mas também não concordaram com a
situação, explicando as conseqüências do lixo para a sociedade, como nos trechos acima
de R3 e R9. As falas acima representam o que foi relatado no filme e não demonstram
consciência prática ou crítica. A consciência prática seria correlacionada às atividades
individuais e cotidianas, trazendo a culpa dos problemas ambientais para si. A
consciência crítica refere-se à sociedade e ao sistema, colocando a responsabilidade de
tais problemas na coletividade (LISBOA; KINDEL, 2012).
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Os fragmentos também se referem aos indivíduos e sua humanidade: “isso é
muito errado porque as pessoas são seres humano” (R8) e “As pessoas eram tratadas
piores que os animais”(R10). Nestes trechos vimos indícios de consciência crítica
quando os alunos afirmam que é necessário haver humanidade no tratamento dos Homo
sapiens sapiens (GUIMARÃES et al, 2012).
Indignação - Nesta unidade pretende-se organizar os trechos elaborados pelos os
alunos, onde os mesmos demonstram total revolta e insatisfação para as condições de
vida a qual alguns moradores apresentados no documentário estão submetidos.
[...] como vamos ‘ajudar’ os porcos, e não vamos ajudar os seres humanos?
(R2)
[...] um lugar onde os porcos são prioridade os seres humanos são tratados
como ‘porcos’!(R3)
Mais humanidade, compaixão e respeito por favor! (R4)
[...] hoje em dia o ser humano tem menos valor do que o animal (R6)
[...] é triste vê as crianças, até adultos, comendo lixo (R9)
E isso é um absurdo, pessoas sendo tratada com tanto desrespeito, pois todos
nós somos seres humanos e merecemos uma alimentação digna. (R14)
De acordo com as frases apresentadas observa-se o expressivo incomodo que as
condições dos “moradores” da Ilha das Flores causaram aos alunos. A questão ética é
uma das características que a educação ambiental possui. Nos discursos dos alunos
observamos a preocupação com aquela parcela da população, ou seja, “estende a
fronteira do cuidado e preocupação para além do imediato e pessoal, em direção a um
senso participativo de solidariedade para com as outras pessoas e ambientes” (SOUZA,
2003, p.20).
Solução – As afirmativas correspondem a ações e soluções para os problemas
apresentados no vídeo:
[...] vamos aproveitar os alimentos!(R2)
Afinal, deveria haver um lugar para cada tipo de lixo, (há em alguns
lugares), como coleta seletiva de lixo, aterros sanitários e reciclagem. (R4)
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[...] e o lixo jogado deveria ser reaproveitado (R9)
[...] e o lixo jogado deveria ser reaproveitado e não jogado nos rios poluindo
o ambiente.” (R9)
Os alimentos que compramos em muita contidade pode ser doado porque
querendo ou não isso acaba voltando para nós mesmos! (R11)
Na maioria das redações acima os estudantes propõem uma solução para a
quantidade de lixo, que é o problema central do nosso vídeo, mas não vemos nenhuma
redação criticando o sistema que promove isso, a política do nosso estado, não se
observa muito neste segmento uma consciência ambiental crítica (GUIMARÃES et al,
2012). É importante que os estudantes construam uma visão crítica, que o possibilite
olhar o ambiente de várias maneiras (LISBOA; KINDEL, 2012). O máximo que é
citado é a necessidade de existirem mais coletas seletivas: “como coleta seletiva de lixo,
aterros sanitários e reciclagem” (R4). No fragmento citado salienta-se esta lacuna na
coleta de lixo, como em: “deveria haver um lugar para cada tipo de lixo” (R4) e “o lixo
jogado deveria ser reaproveitado” (R9), mas quem é responsável por isso não foi
apontado. Dessa forma observamos que estes alunos ainda não desenvolveram uma
consciência crítica frente aos problemas ambientais.
Consumismo – Em alguns trechos os alunos relacionam a grande produção de lixo com
o consumo excessivo de grande parte da sociedade:
[...] e quando jogamos algo que poderia ser utilizado fora demonstramos o
mesmo que muita gente. (R2)
[...] temos que valorizar os alimentos, e não jogar fora os alimentos que ainda
podem ser utilizados. (R2)
[...] é ai que a gente vê que nós temos as coisas para comer e as vezes
reclamamos do que temos, e nós temos que aprender a dar valor as coisas que
temos porque tem muita gente pelo mundo passando fome. (R7)
Percebemos que os alimentos que compramos desnecessariamente em
quantidade absurdas estragam e acabam parando no lixo. (R11)
Alguns mostram uma consciência prática em relação ao meio, como em:
“quando jogamos algo” (R2) e “temos que valorizar os alimentos” (R2). A consciência
ambiental está presente nas bases escolares; nos fragmentos acima ela é notada, mesmo
que de forma superficial (LISBOA; KINDEL, 2012). Não foi identificada a crítica aos
órgãos responsáveis e possivelmente pensam na sua realidade diária como os
responsáveis pelos problemas vistos no vídeo (GUIMARÃES et al, 2012).
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
As práticas de leitura escrita, interpretação e debate entre alunos, licenciandos e
professores na escola, sobre temas ambientais contribuíram para a compreensão dos
problemas socioambientais locais e globais e podem se constituir em um caminho para a
construção interdisciplinar de saberes escolares e práticas docentes. Segundo Lisboa e
Kindel (2012), o que se observa hoje nas escolas são alunos preocupados com notas,
levados pelos professores que tratam da educação ambiental de forma segmentada, não
ligada a realidade do aluno. Após a análise efetuada neste trabalho, entendemos que o
incentivo à leitura e à escrita deva ser ressignificado. Os erros na escrita nos
impulsionam a ampliar as atividades, considerando a necessidade de estímulos para que
os alunos superem suas dificuldades.
Outra questão posta é a promoção de uma conscientização ambiental que não se
limite ao individual e parcial e envolva a coletividade, numa perspectiva crítica,
valorizando projetos ligados a educação ambiental na escola (GUIMARÃES et al,
2012). Em prosseguimento, pretendemos desenvolver atividades de leitura de livros e
revistas sobre questões socioambientais e realizar uma saída de campo a uma unidade
de conservação no município de São Gonçalo para discutir questões locais e globais.
APOIO
Os autores agradecem o apoio financeiro da CAPES e da FAPERJ.
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