REQUERIMENTO Nº , DE 2007. (Do Sr. Antonio Carlos Pannunzio) Requer a convocação do Sr. Tarso Genro, Ministro de Estado da Justiça, para prestar esclarecimentos a esta Casa sobre indícios de que teria havido vazamento de informações relativas à Operação Xeque-Mate, do Departamento da Polícia Federal, em benefício do Sr. Dario Morelli Filho, um dos principais investigados. Senhor Presidente, Requeremos a Vossa Excelência, com base no art. 50 da Constituição Federal, e nos termos do art. 117 e seu inciso II, do Regimento Interno da Câmara dos Deputados, que seja convocado o Sr. Tarso Genro, Ministro de Estado da Justiça, para prestar esclarecimentos a esta Casa sobre indícios de que teria havido vazamento de informações relativas à Operação Xeque-Mate, do Departamento da Polícia Federal, em benefício do Sr. Dario Morelli Filho, um dos principais investigados. JUSTIFICAÇÃO A convocação ora requerida é de fundamental importância para o esclarecimento de graves indícios de que teria havido vazamento na Operação Xeque-Mate, da Polícia Federal, e que o amigo e compadre do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Dario Morelli Filho, teria sido alertado sobre o monitoramento dos envolvidos na Operação. O jornal “O Estado de São Paulo”, de 09 de junho de 2007, publicou notícia sob o título “Interlocutor advertiu Vavá em nome de Lula , revela grampo”. Diz a notícia: “Interlocutor advertiu Vavá em nome de Lula , revela grampo Homem disse que presidente queria conversar sobre atividade do irmão, que já sabia de operação da PF Ricardo Brandt Entre os 617 grampos que fazem parte do processo da Operação Xeque-Mate, um deles flagrou um interlocutor contatando Genival Inácio da Silva - irmão mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva - 15 dias antes de a Polícia Federal prender os acusados. Em tom apreensivo, esse homem, identificado apenas como Roberto, diz que Lula quer se encontrar com Vavá, “durante a noite”. “Tem umas broncas lá, porque você anda apresentando uma pessoa no ministério”, diz Roberto. Outras gravações mostram Vavá pedindo dinheiro emprestado e deixando claro que sabia da movimentação da PF antes das prisões. Às 20h02 do dia 20, no diálogo que se seguiu por 3 minutos e 31 segundos, Roberto afirma que quer conversar com Vavá “fora da casa dele”. O irmão do presidente diz que vai para Brasília. Roberto, então, comenta que esse era justamente o assunto que lhe interessava: “Não vai sem falar comigo não, porque tem umas broncas da po...” Vavá, curioso, diz: “De quê?” E ouve como resposta: “Não sei Vavá, depois eu te falo.” Vavá cita novamente a ida para Brasília e afirma que vai conversar com Lula. Roberto emenda: “Lula quer que você vá lá um dia para conversar com ele à noite. (...) Ele quer que eu vá com você. Quer conversar na casa dele, tranqüilo.” E conclui: “Eu quero saber, porque tem umas broncas lá, porque você anda apresentando uma pessoa no ministério. Depois eu falo.” O irmão mais velho do presidente acabou sendo indiciado pela PF por tráfico de influência no Executivo e exploração de prestígio no Judiciário. COMENTÁRIO No comentário que se segue, feito pela PF, essa é uma referência de que os dois falavam sobre as supostas atividades de Vavá como “lobista”. Apesar das suspeitas de que o irmão do presidente poderia estar traficando influência no governo, a PF afirma que Lula não tem “qualquer participação” no episódio. Em conversa gravada dois dias depois, às 9h17, Vavá explica a um homem identificado como Rinaldo que evitou ir a Brasília para tratar sobre um suposto lobby na Empresa de Correios e Telégrafos por causa da movimentação da PF em torno da Operação Navalha. “Eu não fui porque a Polícia Federal está filmando muito, né Rinaldo, vou esperar passar mais uns dias, aí eu vou lá.” Na conversa, o irmão do presidente pede R$ 2 mil emprestados. A análise parcial dos grampos indica que Vavá tentava ajudar não só empresários do jogo. Numa gravação de 31 de maio, um homem identificado pela PF como investigador da Polícia Civil em Mauá, Gildo, pede ajuda para a transferência de seu filho, um policial federal de São Borja (RS). Vavá pede que ele faça um documento pedindo a transferência. O material seria entregue ao ministro da Justiça, Tarso Genro. Gildo sugere que poderia ser para o ministro “ou para a dona Marisa”. Vavá diz: “Para Marisa não.” O mesmo jornal “O Estado de São Paulo”, de 10 de junho de 2007, publicou notícia sob o título “Compadre de Lula foi avisado de ação, diz PF”. Diz a notícia: “Grampo mostra que Dario Morelli pediu a Nilton Servo, apontado como o chefe da máfia dos caça-níqueis, que tomasse cuidado com telefonemas Ricardo Brandt, CAMPO GRANDE Dario Morelli Filho, o amigo e compadre do presidente Luiz Inácio Lula da Silva preso na Operação Xeque-Mate, na semana passada, pode ter sido informado antecipadamente por alguém de Brasília sobre o monitoramento dos envolvidos na máfia dos caça-níqueis feito pela Polícia Federal. Os grampos citados no inquérito revelam que Morelli alertou o suposto chefe da quadrilha, o ex-deputado estadual paranaense Nilton Cézar Servo, para que ele tomasse cuidado com os telefones e acrescentou que havia ocorrido “um pepino feio”. Entre 11 e 17 de maio, pelo menos sete conversas gravadas indicam o suposto vazamento de informações. Mostram ainda um encontro marcado por Morelli entre Servo e o ex-deputado Sigmaringa Seixas (PT-DF), que foi vice-líder do governo. Segundo as conclusões preliminares da PF, Morelli era sócio de Servo em uma casa de caçaníqueis em Ilhabela, no litoral paulista, e corrompeu policiais para atuar ilicitamente. Outras gravações de conversas - entre Morelli, Servo e sua mulher, Maria Dalva Martins - mostram outros personagens em busca de informações privilegiadas no governo, além de Genival Inácio da Silva, o Vavá, irmão do presidente Lula. Os envolvidos mostram-se preocupados com as ações da Polícia Federal contra a máfia das caça-níqueis ao deflagrar a Operação Hurricane. No entanto, estão confiantes de que seus contatos com pessoas ligadas ao governo poderiam livrá-los de problemas. No 11 de maio, por exemplo, quando falam sobre os estragos da Hurricane, Morelli sugere a Servo que registre um telefone em seu nome, pois acredita que, ao verem de quem se tratava, os policiais pensariam “duas vezes em fazer qualquer coisa”. A partir do dia 16, a situação começa a mudar. Às 12h35, Morelli telefona para Servo e diz que precisa conversar sozinho com ele, porque “deu um pepino feio”. O suposto chefe da máfia pergunta: “É comigo?”. O compadre de Lula responde que não sabe, “precisa ver”. MULTIPLAY Duas horas depois, Servo telefona para a mulher - também presa na Operação Xeque-Mate - e diz que marcou marcou um encontro em uma pizzaria, porque Morelli não queria ir à empresa Multiplay, fabricante de máquinas caça-níqueis. De acordo com Servo, “é por causa desse negócio de telefone, já teve comentário lá de cima”. Para a PF, a declaração reforça a suspeita de que a conversa girava em torno do monitoramento. Mais tarde, às 22h32, conversa entre Servo e a mulher reforça as suspeitas da PF. Nela, o empresário afirma que Morelli “é amigo até debaixo de água” e “não ficou nem preocupado que grampearam o telefone dele também”. Servo afirma, em seguida: “Lá em cima, de Brasília, que grampearam.” Na mesma conversa, Servo concluiu informando à mulher que no dia seguinte iria a Brasília para falar com Sigmaringa. “Morelli vai (trecho ininteligível) fazer um escândalo”, adianta. O encontro de fato foi marcado por Morelli, no dia seguinte. Não há, porém, nenhuma referência específica sobre qual assunto seria tratado entre o ex-líder do governo e o chefe da máfia das caça-níqueis, às vésperas da operação ser deflagrada. A conversa entre o ex-deputado e Morelli é inconclusiva. Às 17h07 do dia 17, Morelli ligou para Sigmaringa. O amigo do presidente Lula avisa que está em Brasília com um amigo - referência a Servo, conclui a Polícia Federal - para conversarem. O ex-deputado, chamado de “Sig”, diz ter uma reunião no Palácio e sugere marcarem a conversa para mais tarde. INFLUÊNCIA Para a PF, Morelli e Servo tinham sociedade numa casa de caçaníqueis em Ilhabela, registrada em nome de um laranja. Várias conversas mostram que os dois corrompiam policiais para evitar apreensões e contavam com “as costas quentes” de Morelli não só no governo federal, graças à sua amizade com Lula e integrantes do PT. Em uma conversa entre Morelli e a mulher de Servo, ele reclama de policiais que teriam apreendido máquinas. Dia 18 de maio, às 19h58, Morelli fala de novo com a mulher de Servo e comunica que fecharam a casa de jogos Deck Vídeo Bingo e o responsável era “o delegado seccional”. Confiante, porém, ele garante: “Segunda-feira ele vai abrir aquela p...”. O compadre de Lula conta que iria até a Secretaria de Segurança: “Eu tenho um diretor lá.” 13/04 14h45 - SERVO e MORELLI Servo diz que “deu um rolo no negócio do Rio de Janeiro”e que foram presos o vice-presidente do Tribunal de Justiça, um procurador da República e três juízes. Morelli pergunta se tudo isso foi no Rio de Janeiro. Servo conta que será necessário um avião da Força Aérea para levar todos para Brasília. Morelli pergunta se é por causa de jogo. Servo afirma que é por causa de lavagem de dinheiro, jogo, compra de liminares. Servo alega que isso pode “dar uma embaralhada”. Morelli responde: “Com certeza.” Servo diz que foram 24 pessoas. Morelli comenta que não viu. Servo explica que foi um escândalo e, por causa disso, vai ficar fora do ar por um tempo. Comentário: Para a PF, eles conversam sobre a Operação Hurricane, que prendeu diversas autoridades e integrantes da “máfia dos caça-níqueis”. 16/05 12h35 - SERVO e MORELLI Morelli diz a Servo que precisa conversar sozinho com ele, porque "deu um pepino feio". Servo pergunta: “É comigo?” Morelli responde que isso eles precisam ver. Comentário: Os dois estão em São Paulo para falar com Raimondo Romano, dono da Multiplay Comércio e Empreendimentos Ltda., fornecedora de máquinas caça-níqueis. 14h42 - MARIA DALVA e SERVO Maria Dalva pergunta se Servo já conversou com a pessoa (refere-se a Raimondo Romano). Servo diz que não, explica que marcou o encontro em uma pizzaria, às 19 horas, porque o amigo deles (Morelli) não quer ir lá na empresa (Multiplay). Servo explica que é por causa desse negócio de telefone e diz que “já teve comentário lá de cima”. Comentário: Servo informa a Maria Dalva que ficou marcado um encontro numa pizzaria, porque Morelli suspeitava de monitoramento da Multiplay. 16/05 e 17/05 22h32 - SERVO e MARIA DALVA Maria Dalva pergunta o resultado da conversa de Servo com Raimondo Romano (dono da empresa Multiplay). Servo responde que Romano prometeu fechar o negócio deles (referese a João Catan, Andrei Cunha e Reginaldo) até segunda-feira. Servo comenta que Morelli é firme, é amigo até debaixo d’água. Acrescenta que Morelli “não ficou nem preocupado que grampearam o telefone dele também”. Servo informa: “Lá em cima, de Brasília, que grampearam.” Na seqüência, reitera que Morelli não deixa os companheiros e eles iriam no dia seguinte para Brasília, falar com o ex-deputado Sigmaringa Seixas (PT-DF). Segundo ele, Morelli faria um escândalo. Comentário: Novamente, Servo comenta com a interlocutora que sabia do monitoramento feito pela Polícia Federal em telefones de integrantes da quadrilha dos caça-níqueis. No dia seguinte, outra escuta indica que Morelli e Servo realmente seguiram para Brasília. Na conversa, entre Morelli e Sigmaringa, o compadre do presidente Luiz Inácio Lula da Silva agenda uma reunião com o exparlamentar. “ O jornal “Folha de São Paulo”, de 11 de junho de 2007, publicou notícia sob o título “Compadre de Lula declara à PF que já sabia de grampo”. Diz a notícia: “Após alerta, Morelli avisou empresário para se cuidar no telefone e procurou petista Ministério da Justiça diz que cabe à Polícia Federal falar sobre vazamento; assessoria da PF não foi encontrada ontem RUBENS VALENTE ENVIADO ESPECIAL A CAMPO GRANDE HUDSON CORRÊA DA AGÊNCIA FOLHA, EM CAMPO GRANDE Compadre do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Dario Morelli Filho, preso na Operação Xeque-Mate, disse em depoimento à Polícia Federal que já sabia da existência de grampo em seu telefone. Embora não tenha informado a data em que soube, Morelli disse que foi por causa disso que, em 16 de maio, avisou o empresário de bingo Nilton Cezar Servo para tomar cuidado com o que falava no telefone. Quatro dias depois, segundo as gravações feitas pela PF, seria a vez de Genival Inácio da Silva, o Vavá, irmão de Lula, ser procurado. Um homem identificado como "Roberto", que usava um telefone fixo de São Caetano do Sul (SP) -registrado em nome de uma dona-de-casa que nega conhecer alguém com esse nome- ligou para dizer a Vavá que Lula o esperava para uma reunião reservada em Brasília. Segundo o homem, havia "uma bronca da porra". No endereço do telefone, funciona uma metalúrgica e não haveria Roberto, disse um funcionário. A Operação Xeque-Mate só seria deflagrada em 4 de junho. Morelli foi preso por suposta sociedade numa casa de máquinas de caça-níqueis ilegais com Servo, amigo de Vavá. No depoimento à PF, Morelli reconheceu ter sido avisado por um suposto anônimo, que teria ligado para seu telefone celular "em data que não soube precisar". No telefonema, oriundo de um aparelho da região metropolitana de São Paulo, o homem teria dito para Morelli "tomar cuidado", pois ele estava grampeado. Quando ligou para Servo, Morelli falou que havia "um pepino feio". Marcaram um encontro. À PF, Morelli admitiu que o "pepino" era o grampo. "Após tomar conhecimento desta informação, como não gostaria de ser preso, resolveu solicitar a Nilton Cezar Servo que não mais ligasse falando sobre bingo, em razão de referido grampo em sua linha telefônica", diz a PF ao relatar o depoimento de Morelli. No dia seguinte, 17 de maio, Morelli já estava em Brasília, numa reunião com o advogado e ex-deputado federal Sigmaringa Seixas (PT). Os dois se comunicam por telefone, mas não mencionam o conteúdo da reunião. Uma interceptação telefônica da PF associa a viagem à descoberta do grampo pelo suposto informante de Morelli. Por volta das 22h20 do dia anterior, 16, Servo, que pouco antes fora alertado por Morelli sobre os grampos, telefonou para sua mulher, Maria Dalva Cristina. Em sussurros, contou que Morelli não aparentava ter ficado preocupado com o grampo, embora decidisse ir a Brasília para encontrar o ex-deputado Sigmaringa. Pretendia, segundo Servo, que acompanhou Morelli na viagem, "fazer um escândalo". Servo alegou que os grampos eram "de Brasília". Depois da descoberta do grampo, a PF interceptou apenas duas conversas entre Servo e Morelli -numa delas Morelli usava o telefone do próprio Servo, numa conversa com o filho do empresário, Servo II. No dia 31 de maio, nova ligação mostra, segundo a PF, que Servo tentou transferir cinco máquinas caça-níquel de Ilhabela para Campo Grande (MS). O inquérito não aponta a origem do vazamento de informação que pode ter beneficiado Morelli. O Ministério da Justiça afirmou, por meio de sua assessoria, que cabe à PF fazer comentários; a assessoria da polícia não foi encontrada ontem. O advogado de Servo, Eldes Rodrigues, disse que o fato de Morelli ter alertado Servo sobre o grampo não caracteriza vazamento. Segundo ele, "há muito tempo" Servo desconfiava de interceptações. O advogado de Morelli, Milton Fernando Talzi, reafirmou o depoimento de seu cliente.” Sala das Sessões, 12 de junho de 2007. Deputado Antonio Carlos Pannunzio