MAPEAMENTO E AVALIAÇÃO DE ÍNDICES DE COBERTURA VEGETAL
DO MUNICÍPIO DE SALVADOR - BA PARA OS ANOS DE 2001 E 2009
COM USO DE IMAGENS ORBITAIS
Mapping and evaluation of Vegetation Cover Indexes Municipality of Salvador-Ba
to years of 2001 and 2009 using orbital images
Anderson Gomes de Oliveira1,2
Daniele Balbino Moura de Jesus2
Harlan Rodrigo Ferreira da Silva1,3
Maira Tamara de Menezes Torres2
Patrick Passinho Silva2
Raissa da Matta Almeida2
¹ Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia - CONDER
Sistema de Informação Geográfica do Estado da Bahia - INFORMS
Av. Edgar Santos, 936, Narandiba – 41192-005 – Salvador - BA, Brasil
{agomes, hferreira}@conder.ba.gov.br
² Universidade Salvador – UNIFACS
Escola de Engenharia e TI
Rua José Peroba, 251 – Stiep - Salvador - BA, Brasil
[email protected]
{danbalbino, mai_menezes, patrickpassinho, raissadamatta}@hotmail.com
³ Faculdade Escola de Engenharia de Agrimensura
Especialização em Geotecnologias – Inteligência para Soluções Geográficas
Av. Joana Angélica, 1381 - Nazaré – Salvador - BA, Brasil
RESUMO
A preocupação com o ambiente urbano seja por razões estético-paisagísticas ou por questões de qualidade de vida da
população, vem ganhando cada vez mais importância no cenário das grandes e médias cidades. Os aspectos
relacionados ao meio ambiente são de suma importância para a qualidade do espaço urbano, que pode ser caracterizado
como espaço livre, áreas não edificadas, sejam elas públicas ou privadas, independente dos seus múltiplos usos, ou
áreas verdes, quando são destinadas à preservação ou implantação de vegetação, para usos estéticos ou lazer, por
exemplo. As áreas verdes, sobretudo a vegetação arbórea, desempenham um papel importante na paisagem urbana, por
exercer muitas funções, dentre elas as funções ecológicas, estéticas e sociais. A análise das condições de distribuição e
estado de conservação da cobertura vegetal da cidade por bairro se faz importante, pois a sua ausência afeta diretamente
a qualidade de vida da população. Sendo assim, o presente trabalho discutirá a ligação entre o índice de cobertura
vegetal, crescimento populacional e a qualidade ambiental em Salvador-BA e está fundamentada sobre o processamento
de imagens orbitais dos anos de 2001 e 2009, com resolução espacial de 10 metros (SPOT) e 5 metros (RapidEye), com
processamento realizado por meio do software SPRING 5.2 e posterior classificação por pixel supervisionada,
utilizando-se o método da Máxima Verossimilhança. Após a classificação, os Índices de Área Verde (IAV) e o
Percentual de Cobertura Vegetal (PCV) foram cruzados com os limites de bairros da cidade, obtendo os indicadores
intramunicipal, possibilitando ter conhecimento da realidade de cada bairro da cidade para os dois períodos (2001 e
2009) no tocante à cobertura vegetal, possibilitando o entendimento da dinâmica de ocupação desses bairros e propondo
políticas públicas com o intuito de minimizar os efeitos causados pela supressão da cobertura vegetal.
Palavras chaves: Bairros, Cartografia, Índices de Áreas Verdes, Sensoriamento Remoto.
1
ABSTRACT
The concern about the urban environment for landscaped and aesthetic reasons or for the population life's quality has
been gaining increasing importance in the scenario of large and medium cities. Aspects related to the environment are
of paramount importance to the quality of urban space, which can be characterized as free space, areas not built, public
or private, regardless of its multiple uses, or green areas, when they are to safeguard or establishment of vegetation for
aesthetic or recreational purposes, for example. Green areas, especially woody vegetation, have an important role in the
urban landscape, to exercise many functions, including the ecological, aesthetic and social functions. The analysis of the
conditions of distribution and conservation status of the vegetation of the city by neighborhood becomes important,
because their absence directly affects the quality of life. Thus, this paper will discuss the link between the index of
vegetation cover, population growth and environmental quality in Salvador-BA and is based on the processing of
satellite images of 2001 and 2009, with a spatial resolution of 10 meters (SPOT) and 5 meters (RapidEye), with
processing carried through the SPRING 5.2 software and later supervised classification by pixel, using the method of
maximum likelihood. After classification, the Green Area Index (IAV) and the Percentage of Vegetation Cover (PCV)
were crossed with the boundaries of city neighborhoods, getting the intramunicipal indicators, allowing to have
knowledge of the reality of each quarter of the city for the two periods (2001 and 2009) in relation to vegetation cover,
allowing for better understanding of the dynamics of occupation of these neighborhoods and proposing public policies
in order to minimize the effects caused by the removal of vegetation cover.
Keywords: District, Cartography, Green Areas Indexes, Remote Sensing.
1. INTRODUÇÃO
A preocupação com o ambiente urbano, seja por razões estético-paisagísticas ou por questões de qualidade de
vida da população, vem ganhando cada vez mais importância no cenário das grandes e médias cidades (MARTINS
JÚNIOR, 2007 apud SILVA et al, 2009).
Os aspectos relacionados ao meio ambiente são de suma importância para a qualidade do espaço urbano, que
pode ser caracterizado como espaço livre, áreas não edificadas, sejam elas públicas ou privadas, independente dos seus
múltiplos usos, ou áreas verdes, quando são destinadas à preservação ou implantação de vegetação, para usos estéticos
ou lazer, por exemplo.
Nas cidades, os espaços urbanos estão diretamente ligados à áreas verdes que de acordo com o Art. 8º, § 1º, da
Resolução CONAMA Nº 369/2006 pode ser considerada “o espaço de domínio público que desempenhe função
ecológica, paisagística e recreativa, propiciando a melhoria da qualidade estética, funcional e ambiental da cidade,
sendo dotado de vegetação e espaços livres de impermeabilização”.
Essas áreas desempenham papéis extremamente importantes para as cidades, visto que,
representa uma das variáveis responsáveis pela amenização do microclima das cidades,
servindo de delimitador de espaços, absorvendo os ruídos, purificando o ar com a absorção
das partículas tóxicas e de poeiras, diminuindo o albedo dos objetos, ou seja, a reflectância
da energia solar, promovendo um ambiente adequado à moradia (MASCARÓ, 2002 apud
BORGES, 2010).
Nucci (2008, p.103) define cobertura vegetal como “manchas de vegetação visualizadas a olho nu em foto
aérea na escala 1:10.000”, onde árvores cuja copa é inferior a 2m de diâmetro se tornam difíceis de serem visualizadas.
Já Machado (2010), considera áreas verdes urbanas como locais públicos dentro do perímetro urbano de uma cidade,
que apresentam cobertura vegetal. Nesse contexto, o porte das plantas (se herbáceas, arbustos ou árvores) e a origem da
vegetação (natural ou implantada pelo homem) não têm em si maior relevância, mas a presença da vegetação é que
realmente interessa na determinação de uma área verde urbana.
Santos e Pinto (2010, p.51) discorre que
As áreas verdes urbanas englobam três setores individualizados que estabelecem interfaces
entre si, são as áreas verdes públicas representadas pelos logradouros públicos destinados
ao lazer ou que viabilizam o encontro direto da população com a natureza. As áreas verdes
privadas constituídas pelos remanescentes vegetais incorporados à malha urbana, tais como
as coberturas verdes presentes nos fundos de quintais e em clubes particulares. Além da
arborização viária presente nas ruas e avenidas.
2
Portanto, áreas verdes urbanas são aquelas cujos espaços intraurbanos apresentam cobertura vegetal, arbórea
(nativa e introduzida), arbustiva ou rasteira (gramíneas) estando presentes de diversas formas: em áreas públicas; em
áreas de preservação permanente (APP); nos canteiros centrais; nas praças, parques, florestas e unidades de conservação
(UC) urbanas; nos jardins institucionais; nos terrenos públicos não edificados; em áreas particulares, quintais e jardins.
Elas proporcionam melhorias no ambiente excessivamente impactado das cidades, e desempenham inúmeras funções
benéficas para a população residente dos centros urbanos.
2. ÁREAS VERDES E QUALIDADE AMBIENTAL
A função ecológica deve-se ao fato da presença da vegetação, do solo não impermeabilizado e de uma maior
biodiversidade nessas áreas, promovendo melhorias no microclima da cidade e na qualidade do ar, água e solo. A
função social está intimamente relacionada com a possibilidade de lazer que essas áreas oferecem à população, já a
estética, diz respeito à diversificação da paisagem construída e o embelezamento da cidade.
Outro fator relevante no âmbito da discussão a respeito de vegetação é a arborização de vias que suavizam
ruídos, retém material particulado, reoxigenam o ar, além de oferecer sombra e a sensação de frescor.
Por outro lado, a falta de vegetação nas áreas traz consequências negativas para o meio ambiente urbano.
Segundo Amorim (2001 apud LIMA;AMORIM, 2006, p.71), são “alterações do clima local, enchentes, deslizamentos e
falta de áreas de lazer para a população”.
Os benefícios resultantes da presença das áreas verdes nas cidades estão intimamente relacionados com a
quantidade, a qualidade e a distribuição das mesmas dentro da malha urbana. Com relação à quantidade, a Organização
das Nações Unidas (ONU), estabelece um valor mínimo de Índice de áreas verdes (IAV) equivalente a 12 m²/hab, em
contraposição, a Sociedade Brasileira de Arborização Urbana (SBAU) indica 15m²/hab (SOCIEDADE BRASILEIRA
DE ARBORIZAÇÃO URBANA, 1996). Quanto à qualidade e distribuição, leva-se em consideração o porte da
vegetação e a classificação das regiões da cidade (centros comerciais, residenciais e administrativos) e aspectos
relacionados à manutenção, conservação e planejamento dessas áreas.
Todavia, existem diversas definições com relação aos diferentes termos utilizados sobre as áreas verdes
urbanas. Similaridades e diferenciações entre termos como áreas livres, espaços abertos, áreas verdes, sistemas de lazer,
praças, parques urbanos, unidades de conservação em área urbana, arborização urbana e tantos outros, fez com que
fosse adotado para o presente estudo o conceito de área verde como toda e qualquer vegetação arbórea e arbustiva,
pública ou privada, tendo em vista que possuem uma maior representatividade nos benefícios citados anteriormente.
Em se tratando do município de Salvador, a discussão a respeito da redução da cobertura vegetal se faz
necessária levando-se em conta os inúmeros impactos ambientais originados pela notória expansão demográfica e
aumento da especulação imobiliária em determinados bairros.
Partindo desse pressuposto, realizou-se uma análise comparativa, entre os anos de 2001 e 2009, através de
imagens orbitais, da quantidade de cobertura vegetal no perímetro urbano da cidade, com o principal objetivo de
compreender a distribuição espacial dessas áreas, a variação quantitativa nesse período de tempo, e assim inferir sobre
os fatores responsáveis pela diminuição em determinadas localidades e suas influências na qualidade ambiental.
3. METODOLOGIA
3.1 Área de estudo
O município de Salvador, capital do Estado da Bahia, está localizado entre as coordenadas geodésicas
13°01'26" S / 38°43'0" W e 12°44'8" S / 38°16'42" W. Este se situa numa península e é banhado a oeste pela Baía de
Todos-os-Santos e a leste pelo Oceano Atlântico (figura 01).
A área total do município é de 692,78 km², no entanto, este valor inclui toda a área da referida Baía, o que
impacta substancialmente nos cálculos de densidade demográfica e os gerados neste trabalho, como o Índice de Área
Verde por Habitante (IAV) e o Percentual de Cobertura Vegetal (PCV), por isso, utilizou-se somente a área continental
do município, ficando, aproximadamente, 303,53 km².
Segundo dados mais atuais oriundos do Censo Demográfico 2010, Salvador possui uma população de
2.675.656 habitantes, enquanto que, em 2000, sua população era de 2.443.107 habitantes (tabela 01).
Percebe-se um crescimento geométrico anual acima de 4% entre as décadas de 1960/1970 e 1970/1980. A
partir da década de 1980, houve um leve decréscimo até o ano de 1991 e um crescimento ainda menor com relação às
décadas de 1991/2000 e 2000/2010, ficando, este último abaixo de 1%. Em comparação com as taxas de crescimento da
Região Metropolitana de Salvador (RMS), desde a década 1980/1991 que o crescimento do município de Salvador é
menor que o de sua região metropolitana.
3
Fig. 1 – Localização do município de Salvador
TABELA 01 – POPULAÇÃO TOTAL RESIDENTE E TAXA GEOMÉTRICA DE CRESCIMENTO ANUAL DO
MUNICÍPIO DE SALVADOR-BA.
POPULAÇÃO RESIDENTE (hab.)
Taxa geométrica de crescimento (% a.a.)
1960
1970
1980
1991
2000
2010
1960/70 1970/80 1980/91 1991/2000 2000/10
2,38
2,35
2,09
1,09
Bahia
5.920.447 7.493.470 9.454.346 11.867.991 13.085.769 14.016.906
0,69
RMS
789.154 1.211.950 1.847.674 2.586.366 3.120.303 3.573.973
4,38
4,31
3,10
2,11
1,37
Salvador 635.917 1.007.195 1.493.688 2.075.273 2.443.107 2.675.656
4,71
4,02
3,03
1,83
0,91
Fonte: IBGE. Censos Demográficos.
3.2 Materiais utilizados e métodos
Foram utilizados diferentes insumos para a classificação supervisionada das imagens orbitais para as diferentes
datas e posterior comparação dos resultados. Para o ano de 2001, utilizou-se uma imagem orbital do sensor HRVIR a
bordo do satélite SPOT 4. Estas imagens possuem as seguintes características:
•
A data de obtenção da imagem é 29/06/2001;
•
Cena: 728_375/5;
•
Multiespectral em 4 bandas e resolução espacial de 10 metros, após passar por um processo de fusão
com a banda M.
Para o ano de 2009, foram utilizadas imagens orbitais do sensor RapidEye. As principais características destas
são, conforme Oliveira et al (2013):
•
Nível de processamento 3A, ou seja, são ortorretificadas com correções radiométricas, geométricas e
de terreno;
•
Multiespectral em 5 bandas, incluindo a banda Red Edge (690–730 nm), o que abre novas
possibilidades de trabalho no estudo da vegetação e suas características, como mostra WEICHELT et al (2012);
•
Resolução espacial de 5m, ou seja, “representa a menor feição passível de detecção pelo instrumento
em questão” (NOVO, 2008, p. 55) e resolução radiométrica de 16 bits (65.536 níveis digitais), que é a “habilidade de
distinguir variações no nível de energia refletida, emitida ou retro-espalhada que deixa a superfície do alvo” (NOVO,
2008, p. 61).
Para o processamento digital das imagens e posterior classificação supervisionada por pixel, foi utilizado o
software SPRING 5.2 (Câmara et al, 1996). Todas elas passaram por processos de registro e realce através da
manipulação dos histogramas das bandas individualizadas para o imageamento de cada ano.
Posterior a etapa acima referida, foram testados alguns métodos de classificação supervisionada, como a
classificação por pixel e por regiões, no entanto, devido à especificidade do trabalho, encontrou-se melhores resultados
com a classificação por pixel. Além disso, testou-se a geração do NDVI (Normalized Difference Vegetation Index)
especificamente para a classificação das áreas verdes para ambas imagens, no entanto, utilizou-se este recurso apenas
para a imagem RapidEye de 2009, pois o resultado se mostrou mais satisfatório. De acordo com as bandas específicas
do satélite e segundo a possibilidade apresentada pelo software utilizado, a operação aritmética (equação 1) é a
4
seguinte:
+ Offset
( B5−B3
B5+B 3 )
NDVI = Ganho ∗
(1)
No qual:
B3= Banda do vermelho (630–685 nm);
B5= Banda do infravermelho próximo (760–850nm)
Ganho= 50
Offset= 100
Os valores de preenchimento para as entradas de ganho e offset, que são obrigatórias para operações
aritméticas no SPRING na geração do NDVI, seguiram recomendações de A. Santos (2010).
A classificação por pixel supervisionada de ambas imagens foram feitas através do método da Máxima
Verossimilhança, que consiste na “ponderação das distâncias entre médias dos níveis digitais das classes, utilizando
parâmetros estatísticos” (DPI/INPE, 2012). esta forma, foram selecionadas amostras representativas das áreas de
interesse deste trabalho. Após o processo de classificação, a imagem foi convertida para vetor e exportada no formato
ESRI Shapefile, onde se passou ao uso do software ArcGis 10 e QGIS 2.2, este para a geração dos cartogramas finais.
A delimitação de bairro utilizada no presente trabalho, projeto feito em parceria da Prefeitura Municipal de
Salvador, Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia e da Universidade Federal da Bahia (SANTOS,
E. et al, 2010), ainda não é oficialmente reconhecida pela Prefeitura Municipal de Salvador, pois ainda não foi aprovada
na Câmara Municipal, porém já é utilizada por diversos órgãos dos governos estadual e municipal.
Assim, os dados de vegetação foram cruzados através da ferramenta intersect do ArcGis 10 e gerou-se os
seguintes indicadores:
Índice de áreas verdes por bairro (Equação 2)
IAV =
∑ Áreas verdes ( m² )
População do bairro ( hab . )
(2)
Percentual de cobertura vegetal por bairro (Equação 3)
PCV =
∑ Áreas verdes do bairro ( m² )∗ 100
Área do bairro ( m² )
(3)
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Para o ano de 2001, os resultados obtidos a partir do processamento da imagem SPOT, apontaram que
Salvador tinha uma área verde de cerca de 93,89km² numa área territorial de aproximadamente 303 km² para uma
população de 2.443.107 hab. Para o município, o índice de cobertura vegetal era de 30,43 m²/hab, e o percentual de
cobertura vegetal era em torno de 30,93% (figura 02).
Fig. 2 – Mapeamento da cobertura vegetal para os anos de 2001 e 2009
Analisando os indicadores por bairros percebe-se que os percentuais de cobertura vegetal variam entre 0 e
87,30% e o índice de áreas verdes entre 0 e 11.838,12 m²/hab. Dos 163 bairros estudados dois deles por serem
classificados como institucionais (Aeroporto e Centro Administrativo da Bahia) não permitem moradia, logo, não é
5
possível calcular o IAV. Dos bairros, 105 apresentaram índices de áreas verdes inferiores a 15 m²/hab, o mínimo
sugerido pela SBAU, sendo que 35 não chegaram a 1 m²/hab (figura 03 e tabela 02). Desses, 5, tiveram IAV
equivalente a 0, o que é uma situação preocupante, em virtude da alta densidade populacional: Caminho de Areia,
Mares, Curuzu, Pero Vaz, Massaranduba.
Fig. 3 – Índice de Área Verde por habitante para os anos de 2001 e 2009
O processo de urbanização de Salvador se deu a partir da Cidade Baixa, local que abriga o Porto Marítimo e as
principais atividades comerciais do início do século XIX. Consequentemente, nesta região se verificou a presença de
casas, sobrados, além do agrupamento de prédios públicos e armazéns que guardavam os produtos de exportação e
importação.
TABELA 02 – 10 BAIRROS COM OS MENORES E OS MAIORES VALORES DE IAV DO MUNICÍPIO
DE SALVADOR-BA, 2001
Bairros com os menores
Índice de Área Verde Bairros com os maiores Índice de Área Verde
valores
(m²/hab)
valores
(m²/hab)
Caminho das Árvores
0,13 Ilha dos Frades
11.838,12
Macaúbas
0,08 Cassange
3.453,77
Pero Vaz
0,03 Ilha de Maré
1.961,28
Massaranduba
0,02 Porto Seco Pirajá
948,56
Costa Azul
0,01 Nova Esperança
723,99
Mares
0,00 Patamares
688,91
Curuzu
0,00 São Tomé
586,24
Vale das Pedrinhas
0,00 Trobogy
393,67
Caminho de Areia
0,00 Jardim das Margaridas
366,25
Vila Ruy Barbosa/Jardim
Cruzeiro
Fonte: Elaboração própria, 2014
0,00 Cajazeiras II
275,98
A cidade alta era ocupada pela alta sociedade, que mantinha relações político-administrativas com a parte
baixa da cidade. A população com baixo poder aquisitivo habitava as proximidades do centro econômico e também as
regiões de encostas, sem planejamento adequado e nenhuma preocupação com a preservação da vegetação existente.
Antes da identificação das primeiras ocorrências de posse irregular de terras em Salvador, na década de 1940,
a cidade já presenciava as primeiras lutas pelo espaço urbano com intuito de ocupá-lo de forma ilegal, por meio da
intensa proliferação dos mocambos (habitação precária, construídos sobre terrenos baldios e não preparados para a
construção, formando conjunto de favelas) em terreiros alheios.
Por volta de 1940, apareceram os primeiros movimentos coletivos com o intuito de ocupar irregularmente os
espaços urbanos em Salvador, em locais que atualmente são: Pero Vaz, Largo do Tanque, Calçada, Uruguai, Liberdade
e Massaranduba (OLIVEIRA, 2007).
Esses bairros por terem tido um processo de urbanização antigo e sem planejamento, marcado pela ocupação
desordenada, apresentam até os dias atuais problemas de ordem social e ambiental que são agravados pela alta
densidade populacional.
6
Valores muito baixos de IAV geram diversos problemas socioambientais, tendo em vista que a cobertura
vegetal exerce funções climáticas importantes para a amenização das ilhas de calor e de reserva de biodiversidade em
áreas urbanas, uma vez que, encontram-se áreas remanescentes de mata atlântica no município. Esses problemas
acontecem principalmente pela alta densidade demográfica dos bairros, seja pela construção de conjuntos habitacionais
populares, pela especulação imobiliária ou pelas ocupações espontâneas (invasões) que ocorreram sem o devido
planejamento urbano que deveria ter sido promovido pelas sucessivas gestões municipais.
Apenas 56 bairros (35,80%) apresentam IAV acima de 15 m²/hab. Destaca-se neste grupo Ilha dos Frades,
com 11.838,12 m²/hab, devido a sua relevância ecológica. A localidade foi transformada em Parque pelo decreto
Estadual nº 24.643 de 28 de fevereiro de 1975, sendo em 1982 tombada pela prefeitura da cidade do Salvador como
Reserva Ecológica Municipal. Com o Decreto Estadual nº 7.595 de 5 de junho de 1999, passou a integrar a Área de
Proteção Ambiental (APA) estadual da Baía de Todos os Santos.
Segundo Lombardo (2013 apud ARRUDA, 1985), o percentual de cobertura vegetal recomendável para
proporcionar um adequado balanço térmico em áreas urbanas seria de 30%, valores abaixo de 5% se assemelham a
características climáticas de regiões desérticas. Em Salvador 79,01% dos bairros estão com os percentuais abaixo de
30% e desses 57 (35,19%) abaixo de 5%, a exemplo de: Caminho de Areia, Costa Azul, Caminho das Árvores, Curuzu,
Liberdade, Barbalho, Nordeste de Amaralina, Bom Juá, Saramandaia e Matatu de Brotas (figura 04 e tabela 03).
TABELA 03 – 10 BAIRROS COM OS MENORES E OS MAIORES VALORES DE PCV DO MUNICÍPIO
DE SALVADOR-BA, 2001
Percentual de
Percentual de
Nome
Nome
cobertura vegetal (%)
cobertura vegetal (%)
Pero Vaz
0,17 Ilha dos Frades
87,30
Jardim Armação
0,08 Ilha de Maré
74,36
Caminho das Árvores
0,06 Cajazeiras II
72,17
Massaranduba
0,06 Trobogy
68,63
Costa Azul
0,02 Cassange
61,38
Curuzu
0,01 Patamares
59,95
Mares
0,00 Pirajá
54,45
Vale das Pedrinhas
0,00 Fazenda Grande IV
54,22
Caminho de Areia
0,00 Cajazeiras XI
52,88
Vila Ruy Barbosa/Jardim
0,00 Nova Brasília
51,28
Cruzeiro
Fonte: Elaboração própria, 2014.
Já para o ano de 2009, o processamento da imagem RapidEye permitiu verificar que a área verde total da
cidade era 86.170.803,44 m², uma redução de aproximadamente 7.724.483,60 m² (8,23%) quando comparada com
2001. A população nesse mesmo período aumentou em 232.549 hab (9,52%).
Os indicadores por bairros apresentaram variações, os percentuais de cobertura vegetal entre 0 a 73,64% e o
índice de áreas verdes de 0 a 12.542,36 m²/hab.
Fig. 4 – Percentual de Cobertura Vegetal por bairro para os anos de 2001 e 2009
Dos 161 bairros considerados, 108 apresentaram índices de áreas verdes inferiores a 15 m²/hab, sendo que 30
7
não chegaram a 1m²/hab (tabela 04). Desses, 4 tiveram IAV 0, resultante da alta densidade populacional. 129 possuem o
percentual de cobertura vegetal inferior aos 30% destacados anteriormente e apenas 32 superam este valor (tabela 05).
TABELA 04 – 10 BAIRROS COM OS MENORES E OS MAIORES VALORES DE IAV DO MUNICÍPIO
DE SALVADOR-BA, 2009
Bairros com os menores
Índice de Área Verde Bairros com os maiores Índice de Área Verde
valores
(m²/hab)
valores
(m²/hab)
Ribeira
0,10 Ilha dos Frades
12.542,36
Monte Serrat
0,06 Cassange
1.921,79
Bonfim
0,06 Ilha de Maré
1.280,35
Mares
0,05 Porto Seco Pirajá
1.001,87
Pero Vaz
0,01 Nova Esperança
642,52
Vila Ruy Barbosa/Jardim
0,01 São Tomé
614,08
Cruzeiro
Curuzu
0,00 Areia Branca
388,06
Massaranduba
0,00 Patamares
340,45
Caminho de Areia
0,00 Cajazeiras II
331,63
Uruguai
0,00 Trobogy
297,31
Fonte: Elaboração própria, 2014
Em 2001, dos bairros que apresentavam IAV inferior a 15 m²/hab, 11 não se mantiveram no grupo em 2009,
sendo eles: Alto das Pombas, Amaralina, Barris, Caminho das Árvores, Capelinha, Costa Azul, Jardim Armação,
Jardim Santo Inácio, Pau Miúdo, São Caetano, Saramandaia. Já em 2009, 5 bairros foram incluídos: Caixa D´Água,
Calabar, Monte Serrat, Santa Cruz e Santa Mônica.
TABELA 05 – 10 BAIRROS COM OS MENORES E OS MAIORES VALORES DE PCV DO MUNICÍPIO
DE SALVADOR-BA, 2009
Percentual de
Percentual de
Nome
Nome
cobertura vegetal (%)
cobertura vegetal (%)
Pero Vaz
0,17 Ilha dos Frades
87,30
Jardim Armação
0,08 Ilha de Maré
74,36
Caminho das Árvores
0,06 Cajazeiras II
72,17
Massaranduba
0,06 Trobogy
68,63
Costa Azul
0,02 Cassange
61,38
Curuzu
0,01 Patamares
59,95
Mares
0,00 Pirajá
54,45
Vale das Pedrinhas
0,00 Fazenda Grande IV
54,22
Caminho de Areia
0,00 Cajazeiras XI
52,88
Vila Ruy Barbosa/Jardim
0,00 Nova Brasília
51,28
Cruzeiro
Fonte: Elaboração própria, 2014
Para os 53 (32,52%) bairros que estão acima do índice de 15 m²/hab, seis deles, Itaigara, STIEP, Resgate,
Jardim Cajazeiras, São Rafael e Arraial do Retiro, não ultrapassam o indicador de 20 m²/hab, com índices que variam
de 15,18 a 17,83 m²/hab de cobertura vegetal. De outro modo, bairros como Granjas Rurais Presidente Vargas, Piatã,
Jaguaripe I, Fazenda Grande IV, Patamares, Areia Branca dentre outros, possuem indicador de cobertura vegetal que
variam de 101,75 a 388,06 m²/hab. Outros bairros como São Tomé, Nova Esperança, Porto Seco Pirajá, Ilha de Maré,
Cassange e Ilha dos Frades chamam a atenção em função da expressividade do seu índice de cobertura vegetal, pois os
mesmos estão acima de 600 m²/hab variando de 614,08 a 12.542,36 m²/hab. Dentre os bairros citados, cabe uma
exceção para bairro de Porto Seco Pirajá. Esse bairro é predominantemente industrial onde predominam galpões de
armazenamento de produtos eletrodomésticos, possui apenas 72 habitantes conforme indicado pelo censo demográfico
realizado pelo IBGE em 2010 uma área territorial de 1.114.255,32 m² e 72.134,8 m² de cobertura vegetal acabam por
distorcer o resultado .
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A falta de áreas verdes representa a ausência de um planejamento adequado que visa uma boa qualidade
ambiental e de vida, uma vez que as localidades que apresentam taxas dessas áreas insignificantes estão mais
susceptíveis aos danos ambientais que irão atingir a população que ali reside diretamente.
Quanto maior a densidade demográfica de um bairro (ou de uma cidade), indiscutivelmente, maior será a
necessidade de acréscimo da cobertura vegetal através do plantio de espécies arbóreas com potencial de sombreamento.
O município precisa reforçar a ideia da necessidade de uma política de arborização municipal, em virtude de propiciar
melhores condições socioambientais para seus habitantes.
5. CONCLUSÕES
Os dados obtidos a partir do processamento das imagens orbitais de 2001 e 2009 revelaram que houve uma
redução no índice de cobertura vegetal de Salvador nesse período.
A região norte e as áreas protegidas por leis ambientais (Ilha dos Frades, Ilha de Maré e Pituaçu) são as zonas
com os índices mais altos. Entretanto, com exceção da Ilha dos Frades, todos sofreram pequena redução de área vegetal.
A região central, o subúrbio ferroviário e a península itapagipana (a mais crítica) são as zonas com os menores valores
de cobertura vegetal, visto que são locais que apresentam as maiores densidades demográficas da cidade.
O diagnóstico das condições de distribuição e estado de conservação das áreas verdes da cidade por bairro se
faz necessário, pois a sua ausência afeta diretamente a qualidade de vida da população, uma vez que sua retirada
contribui, principalmente, para alteração do solo, do clima e negativamente na estética das cidades. A exemplo de
bairros como Uruguai e Caminho de Areia, com IAV igual a 0, seria interessante viabilizar estudos de qualidade
ambiental contribuindo para o ordenamento e planejamento do espaço.
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