1 UM NOVO ÍNDICE DE INSTABILIDADE – O ÍNDICE CK Daniele Rodrigues Ornelas de Lima1 Wallace Figueiredo de Menezes2 Otto Corrêa Rotunno Filho3 Resumo Propõe-se a utilização de modelagem numérica utilizando o modelo RAMS (Regional Atmospheric Modeling System), em sua versão 4.3, na análise do caso de tempestade ocorrida entre a noite do dia 16 e madrugada do dia 17/02/2004 na bacia hidrográfica do rio Manso (MT), conjuntamente com índices de instabilidade. Propõem-se a introdução de um novo índice de instabilidade, denominado CK, como ferramenta para previsão de tempo. Abstract It is considered the use of numerical modeling with the model RAMS (Regional Atmospheric Modeling System), in its version 4.3, the analysis of the storm case occured in the night of 16 and in dawn of 17/02/2004, in the basin of the Rio Manso (MT), jointly with instability indices. We consider the introduction of a new instability index, called CK, as tools to subsidize the elaboration of the weather forecast. Palavras-Chave: Tempestades Severas, Modelagem Numérica, Índices de Instabilidade INTRODUÇÃO É apresentado um estudo de caso de chuvas intensas ocorrido na noite do dia 16 de fevereiro de 2004 e, com impactos na operação da Usina Hidrelétrica de Manso, sul do Mato Grosso. A abordagem deste estudo de caso enfatizou, principalmente, o uso combinado da modelagem numérica com os índices de instabilidade na determinação de ambiente favorável ao disparo de convecção. MENEZES (1998) comenta que essas tempestades, eventos na escala meso-γ (ORLANSKI, 1975), são caracterizadas por dimensões espacial e temporal muito reduzidas e, de dificílima previsibilidade. Assim, a utilização de um modelo numérico de prognóstico do tempo, com altas resoluções espacial e temporal, para um melhor entendimento da dinâmica dos fenômenos regionais e locais, apresenta-se como ferramenta extremamente útil para aumentar a sua previsibilidade. 1) [email protected]; 2) [email protected]; 3) [email protected] 2 Um aspecto extremamente relevante a ser abordado, quando se fala em previsão da gênese de tempestades, é relativo a informação que pode ser extraída dos chamados índices de instabilidade. Dadas as dificuldades de previsão de tempo para região estudada, a proposta de um novo indicador de tempo severo é visto como resultado bastante relevante na melhoria da previsibilidade desses sistemas. MATERIAL E MÉTODOS Propõe-se a utilização de modelagem numérica utilizando o modelo RAMS, em sua versão 4.3. Foram utilizados nas análises: dados de precipitação de Furnas Centrais Elétricas S.A; imagens do satélite GOES-12, fornecidas pelo Laboratório de Prognósticos em Mesoescala (LPM) da UFRJ; informações de estimativa de precipitação por satélite (hidroestimador), fornecidas pela Divisão de Satélites Sistemas Ambientais (DSA) do CPTEC. Definiram-se três grades para simulação, a primeira com menor resolução espacial (G1 ou grade mãe), a segunda (G2) aninhada a primeira e, por último, a terceira de maior resolução e centrada na bacia do Manso (G3), aninhada a segunda, cujas características mais gerais estão apresentados na Tabela 3.1. A estrutura vertical do modelo foi a mesma nas três grades, sendo utilizado um sistema de grade telescópica onde os níveis mais próximos à superfície possuíam resolução maior, diminuindo a resolução para níveis mais altos. O espaçamento entre os níveis na vertical, Δz, tem um valor mínimo de 100 m próximo à superfície. Esse espaçamento vai, sucessivamente, aumentando de um fator de 1,2 até atingir 500 m. A partir de então, mantém-se fixo até o topo do modelo. Tabela 1 Configuração horizontal das grades e resolução temporal das simulações numéricas. Grade G1 Δx* Δy* Δt* Pontos em x Pontos em y Pontos em z 50 50 60 67 67 36 86 128 86 128 36 36 12.5 12.5 20 G2 3.1 3.1 7 G3 *Medidas de espaço em km e tempo em segundos Região geográfica compreendida Regiões sul, sudeste e centro-oeste e sul das regiões norte e nordeste. Estado do Mato Grosso Bacia hidrográfica do rio Manso As parametrizações e configurações básicas utilizadas nas simulações foram: parametrização de radiação de CHEN e COTTON (1983); parametrização de convecção de Kuo modificada (KUO, 1965; KUO, 1974 e MOLINARI, 1985); parametrização de microfísica completa de FLATAU et al. (1989); parametrização de turbulência de MELLOR e YAMADA (1982); forma não-hidrostática do modelo, compatível e fundamental para simulação em mesoescala; efeito de Coriolis; modelo de solo ativado com 5 pontos, utilizando-se solo úmido (80%) em seu primeiro nível; fronteira superior com topo rígido; fronteiras laterais radiacionais (ORLANSK, 1994); inicialização e alimentação nas bordas a cada seis horas com reanálises do NCAR/NCEP na primeira grade. O experimento foi inicializado com os dados das 12TMG do dia 16 de fevereiro de 2004, sendo que a assimilação foi feita por 36 horas. 1) [email protected]; 2) [email protected]; 3) [email protected] 3 UM NOVO ÍNDICE DE INSTABILIDADE – O ÍNDICE CK Para que exista a formação de convecção profunda é necessário a ocorrência simultânea de: Condição termodinâmica favorável, normalmente denotada pela ocorrência de instabilidade termodinâmica na atmosfera; e Efeito forçante ou “gatilho” para o disparo da convecção, que representa algum mecanismo que produza levantamento deste ar instável, de forma que a convecção seja iniciada. Uma das características ambientais favorável à formação de sistemas convectivos refere-se à presença de umidade em baixo-médio níveis (fornecida aqui pelo Índice K). Contudo, há a necessidade de se transportar essa umidade na vertical, com posterior condensação do vapor d’água e formação da nuvem convectiva. Há necessidade de haver não apenas umidade disponível em baixos níveis, mas convergência dessa umidade. Sendo assim, introduzimos um novo “indicador para convecção” (ou novo índice), que represente uma combinação desses efeitos dinâmico (forçante) e termodinâmico. Este índice novo é calculado a partir de um simples produto entre o índice K e a divergência em baixos níveis, 925hPa e foi denominado “Índice CK”, o qual é definido por CK = K ⋅ ⎛⎜ ∂u + ∂v ⎞⎟ , onde: ⎜ ⎟ ⎝ ∂x ∂y ⎠ u– componente zonal do vento, v – componente meridional do vento e K – Índice K. CK é válido para valores positivos de K e pode ser calculado facilmente a partir das variáveis simuladas pelo modelo utilizado. CK pode ser representado na forma de campo na região do domínio estudado e, como depende da convergência, não pode ser calculado pontualmente a partir de uma única sondagem atmosférica. Vale chamar atenção que, como K é um número positivo, e que “convergência” (que é a forçante) é representada pelos valores negativos da divergência, então a maneira de CK denotar situações favoráveis ao disparo de células convectivas é quando este apresenta valores negativos. E quanto menores (mais negativos) forem estes valores, mas favorável será a situação. Uma proposta e sugestão aqui deixada é a de que este novo índice venha a ser testado e estudado em diversos outros casos de tempestades convectivas, principalmente naqueles casos onde os modelos numéricos não tenham sido capazes de prever chuva associada a tempestade. Estes estudos serão importantes para um melhor conhecimento do comportamento de índices deste tipo em situações de chuvas intensas de caráter local, e também para tentar encontrar e estabelecer valores típicos e limiares para CK, que venham a representar situação favorável e/ou preferencial para o disparo e evolução de tempestades. 1) [email protected]; 2) [email protected]; 3) [email protected] 4 RESULTADOS E DISCUSSÕES Descrição do caso Durante a estação chuvosa de 2003/2004, o valor máximo de precipitação acumulada em 24 horas no trecho a montante (incremental) da usina de Manso foi de 116 mm, no posto de Fazenda Brasil em 17/02. A chuva de caráter extremamente localizado ficau restrita a porção norte da bacia, sendo praticamente nula na parte mais ao sul e sudoeste, conforme apresentando na Fig 1 (a). Neste dia observou-se um aumento significativo na vazão natural na usina hidrelétrica de Manso. Na Fig 1 (b) mostra-se uma imagem de satélite, às 23:45 Z do dia 16. Observa-se a atuação de uma frente fria sobre o oceano Atlântico e nos estados do ES e MG, com nebulosidade, ainda, sobre a BA, TO, centro-norte de GO e MG. No final da tarde e início da noite teve-se a formação de um sistema convectivo local na região de interesse destacada na caixa vermelha, permanecendo quase estacionário por aproximadamente 5 horas. (b) 23:45Z (a) Fig 1. (a) Precipitação acumulada em 24 horas (mm) para a bacia do Manso em 17/02/2004 (Fonte dos dados: FURNAS) e (b) Imagem do satélite GOES-12, no canal infravermelho, no dia 16/02/2004, às 23:45 Z (Fonte: LPM/UFRJ). Resultados de simulação numérica Com a grade mais grossa, o modelo RAMS conseguiu simular de forma relativamente satisfatória os principais sistemas em escala sinótica que atuavam. Além da precipitação associada à frente fria, conseguiu-se simular precipitação menos significativa associada a sistemas convectivos no norte do Mato Grosso. Com a grade 2, houve melhoras nas taxas de precipitação, contudo não foi possível simular o sistema convectivo de interesse aqui. Apenas com a grade de mais alta resolução (G3) verificou-se que o RAMS foi capaz de simular a gênese de sistemas convectivos de caráter localizado, relativamente bem poicionados. A G2, com resolução mais alta do que a primeira, apesar de não se conseguir simular a tempestade em si, tem um papel relevante ao indicar alguns aspectos do ambiente favorável à formação de convecção na porção norte da bacia. Apresenta-se na Fig 2, o campo do índice K, apenas 1) [email protected]; 2) [email protected]; 3) [email protected] 5 com valores acima de 24oC e, sobreposto à este, Fig 2 (a), o campo de Td em superfície, com valores acima de 19oC e (b) com o campo de convergência no nível de 925hPa, simulados na grade 2 para às18:00Z. A G2 compreende todo o MT, contudo foram feitos cortes de forma a se ressaltar a região da bacia do Manso. 1 2 3 (a) (b) Fig 2. Simulações com a grade 2 de: índice K acima de 24oC (colorido, em oC), com sobreposição dos campos de (a) temperatura do ponto de orvalho acima de 19oC (contornos, em oC) e (b) convergência no nível de 925hPa - contornos separados a cada 0,5e-5 s-1, para 18:00Z do dia 16/02/2004. Na Fig 2 (b), nota-se três regiões com convergência em baixos níveis (caixas numeradas de 1 a 3). A região mais a leste (caixa 1) encontra-se fora da bacia do Manso e não coincide com as áreas que apresentaram altos valores para o índice K e Td em superfície. As outras duas áreas com convergência em baixos níveis, além de coincidirem com os valores altos para o índice K e Td em superfície, estão bastante próximos aos máximos de precipitação registrados no dia 17 pela rede pluviométrica de FURNAS, pontos destacados na Fig 1 a. Verifica-se quase uma sobreposição de valores altos de K, Td e convergência, em regiões bastante próximas aos máximos de chuva registrados. A Fig 3 mostra o campo do CK (apenas a parte negativa) simulado na grade 3 do RAMS, para (a) 18:30Z , horário um pouco precedente a formação das tempestades observadas. Pode-se verificar que o CK apresenta valores favoráveis em várias regiões, dentre as quais destacam-se 4 (caixas pretas numeradas de 1 a 4). Na Fig 3 (b), é apresentada a estimativa de precipitação acumulada em 24 horas, gerada pelo hidroestimador, para o dia 17/02/2004, sobre a área de interesse. Destaca-se o núcleo de precipitação acumulada em 24 horas acima de 80mm no trecho a montante da Usina de Manso, condizente em termos de localização com a chuva de 116 mm, registrada em Fazenda Brasil (Fig 1 a). Alguns outros sistemas convectivos podem ser observados nestas: na Fig 3 (b), destacam-se o aglomerado convectivo a noroeste e outra célula convectiva a sul da tempestade de interesse (sudeste da bacia no Manso), enquanto, a rede pluviométrica de Furnas, mostra um segundo máximo na precipitação acumulada em 24 horas no trecho a jusante da Usina do Manso, 82 mm em Marzagão (Fig 1 a). Como mencionado anteriormente, vale lembrar, que este segundo máximo de precipitação não foi captado pelo hidroestimador. 1) [email protected]; 2) [email protected]; 3) [email protected] 6 (a) (b) Fig 3. Campo de CK, simulado pela grade 3, corte sobre a região de interesse, para o dia 16/02/2004: (a) 18:00Z e (b) estimativa de precipitação acumulada em 24 horas (mm) gerada pelo hidroestimador, para o dia 17/02/2004 (fonte dos dados: DSA / CPTEC / INPE). CONCLUSÕES Os resultados obtidos com as simulações numéricas mostraram que a análise combinada do índice K e da convergência em baixos níveis, apresenta-se como ferramenta relevante na caracterização de regiões de formação dos sistemas convectivos associados ao caso estudado; de outra forma, o efeito combinado de variáveis simuladas pode ser um indicador de chuvas intensas, apesar de o modelo não ter simulado a chuva “em si”. Esses resultados motivam na direção de uma nova proposta de trabalho (já em andamento) e apresentada aqui: desenvolver uma linha de pesquisa baseada em índices de instabilidade (ou indicadores de tempestades). Esta proposta é a de, além de se estudar melhor o comportamento deste índice introduzido no presente trabalho (CK), também elaborar outros novos indicadores que combinem efeitos termodinâmicos e mecanismos forçantes. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CHEN, C. e W. R. COTTON, 1983, “A one-dimensional simulation of the stratocumulus-capped mixed layer”, Boundary-Layer Meteorol., v 25, pp. 289-321. KUO. H. L., 1965, “On the formation and intesification of tropical cyclones through latent heat release by cumulus convection”, Journal of Atmospheric Science, v 22, pp 40-63. KUO. H. L., 1974, “Further studies of the parametrization of the influence of cumulus convection on large-scale flow”, Journal of Atmospheric Science, v 31, pp. 1232-1240. MELLOR, G. L. e T. YAMADA, 1982, “Development of a turbulence closure model for geophysical fluid problems”, Review Geophysics and Space Physics, v 20 (4), pp. 851-875. MENEZES, F. W., 1998, Tempestades Severas: Um modelo para latitudes subtropicais. Tese de Doutorado, IAG/USP, São Paulo, SP, Brasil. MOLINARI, 1985, “A general form of Kuo’s cumulus parametrization”, Monthly Weather Review, v 113, pp. 1411-1416. ORLANSKI, I., 1975. “A rational subdivision of scales for atmospheric processes”, Bulletin of American Meteorological Society, v.56(5), pp. 527-534. 1) [email protected]; 2) [email protected]; 3) [email protected]