ÍNDICE
Dedicatória
7
Prefácio.
9
Os Novos Caminhos
13
Retrato da Vila .
15
O Marco do Jaurú.
20
Homem de Negócios
23
Ordem Militar de Santiago da Espada
24
A Família.
27
A Reforma
30
Fundação de Vila Maria
30
Fronteiro Indormido
33
As Insígnias
36
Jacobina.
36
Ordem Militar de Avis
41
O Engenho da Estrada Real
41
Economia Latifundiária.
43
Galeria de Arte
54
Baronesa de Vila Maria.
66
Patriarca Austero
83
Símbolo Perene.
87
O Perfil do Líder.
91
Glorificação do Protetor.
92
A Ordem Militar de Cristo
93
O Crepúsculo do Chefe
95
Artilheiro Valoroso
96
Ordem da Rosa,
99
Fenecido Botão
100
Perfil Espiritual.
109
Perlustre dos Três Poderes
114
Missão do Padrinho
122
Bela Amizade.
126
Beneméritos Franciscanos
132
Vila Maria dos Meus Maiores
140
Epopéia Albuquerqueana.
141
Futuro Promissor
142
Bibliográficas.
151
Apreciações
152
Biblioteca Virtual José de Mesquita
http://www.jmesquita.brtdata.com.br/bvjmesquita.htm
8
9
Ao nobre e bravo espírito português, dilatador da fé e do
império.
À bi-centenária Cáceres, a mui leal Vila Maria dos meus
antepassados paternos.
À memória dos meus pais, brasíleos frutos da colonização e
da transmigração.
Preito
de
admiração, respeito, e afeto
do
Autor.
10
PREFACIO
Pedira ao dileto confrade Antônio Lopes Lins, cearense
muito ligado à Cáceres e que é hoje elemento de escol nos meios
políticos e intelectuais de Mato Grosso, que me fizesse o prefácio
desta modesta obra. Comprometera-se a fazê-lo registrando as
passagens mais interessantes da vida do autor que, no entanto, melhor
refletindo, optou pela mensagem que aqui consigna.
O bi-centenário que vamos celebrar foi por mim sonhado e
vivido há muitos anos. Ao sussurro paterno dos 150 anos despertavase em mim a visão do bi-centenário. Tantas cousas estudei, pesquisei,
imaginei e busquei. Nem tudo saiu como me propusera. Debruçado
sobre tantas vidas passadas, admirei os ancestrais e os amei com
amor e respeito mais profundos. Muitas vezes parei para orar e para
chorar diante dos seus serviços e do seu amor.
Não somente os antepassados dos Pereira Leite estiveram no
dia da fundação de Vila Maria; muitos outros ali estiveram e nós
confiamos na juventude e na mocidade cacerense para que
aprofundem os seus estudos e nos possam dar, igualmente, a história
de tantas vidas generosas que enriquecem e embelezam a rica e bela
vida de nossa dileta Cáceres.
O autor
11
Os novos caminhos do mar, abertos pelas importantes
descobertas marítimas dos séculos XV e XVI, obrigaram os
navegadores da época e em particular os Portugueses e os Espanhóis
a cuidar da efetiva ocupação da terra,do seu desbravamento e da sua
colonização.
Incursões eram feitas em todos os sentidos e a partir do
litoral eram aprofundadas com maior intensidade e vigor.
O Brasil não fugiu à regra desde que foi descoberto no ano
de 1500 por Pedro Álvares Cabral. O reino português envidou todos
os esforços no sentido de colonizar a rica região descoberta e a partir
de Martim Afonso de Souza em 1532 o processo colonizador recebeu
novo impulso. Outros povos vigiavam o litoral tentando ocupar a
terra descoberta e a vigia se tornou mais premente, pois que a faixa
litorânea era por demais extensa.
Já no século XVI a exploração interiorana produzia
excelentes resultados, obrigando a colonizadora a ir sempre para
frente para lograr novas e valiosas conquistas para o reino. Vez por
outra chocavam-se os Portugueses com os Espanhóis na porfia
gloriosa da conquista e da colonização.
Na região de Mato Grosso assinalados foram os choques,
mas os Portugueses levaram a melhor na luta árdua que se travou
durante quase dois séculos.
A descoberta das ricas minas do Cuiabá foi ponto de partida
para profundas modificações na política de colonização no conselho
ultramarino do reino português. O mundo de então foi assombrado
pela riqueza e pela porção de ouro que se extraiu da mais produtiva
mina de então. Para ela acorreram os mineradores mais destemidos e
o seu trabalho possibilitou a consolidação rápida do arraial, a sua
institucionalização e erecção em Vila Real do Senhor Bom Jesus de
Cuiabá, em 10 de janeiro de 1727, perante D. Rodrigo César de
12
13
Menezes, governador da Capitania de S. Paulo, que fora
desmembrada da Capitania das Minas Gerais, tornando-se autônoma
com o áureo achado das minas do Cuiabá. Prosperou o arraial tão
rapidamente pela abundância do ouro e pela severa fiscalização do
quinto, de tal modo que o reino português, que discutia com a
Espanha as Bases de um próximo Tratado de limites, decidiu criar a
Capitania de Mato Grosso pela Carta Régia de 9 de maio de 1748.
Da fundação de Cuiabá em 8 de abril de 1719 pelo
Bandeirante Pascoal Moreira Cabral, à elevação da capitania, nem
trinta anos eram decorridos, circunstância que comprova a
importância das minas do Cuiabá no esforço colonizador português,
nestes longes da colônia que enriquecia e engrandecia o reino.
Antônio Rolim de Moura Tavares, destacado primeiro
governador Geral e Capitão General da Nova capitania, obedecendo
ordens do reino, segue de imediato o seu destino, buscando local na
região guaporeana para a sede da Capitania. Pareceu-lhe melhor a
Vista Alegre, logo transformada, em 19.3.1752, em Vila Bela da
Santíssima Trindade e ali instalou o seu governo e tomou as
primeiras medidas administrativas. Como é óbvio, por terra e por
água, procurou consolidar e ampliar a ligação com as minas do
Cuiabá, o que deu origem a estabelecer, a meio caminho e à margem
do Paraguai, o registro fiscal para impedir a evasão e facilitar a
cobrança do quinto devido ao erário. Após 1772, juntava-se ao
registro o posto militar para defesa da fronteira. Pouco além e já no
caminho para Cuiabá, desde 1769, meu tetravô, o português
Leonardo Soares de Souza, que viera para as Minas acompanhado de
seu Pai, Jerônimo Soares de Souza, estabelecia-se nas flexas e
fundava Jacobina, de onde foi convocado para subscrever, em 6.10.
de 1778, a ata de fundação de Vila Maria do Paraguai, à margem
esquerda do mesmo Rio e que iria assumir as funções até então
exercidas pelo registro e posto supra citado. Começava a florescer a
Vila que Luís de Albuquerque sonhara coroando as muitas outras
como Ínsula, no Araguaia, Coimbra no fecho dos Morros, no Rio
Paraguai, Príncipe da Beira, no Guaporé, Viseu, quase em frente à
barra do Crumbiara, a meia distância entre o Forte e Vila Bela, e
Albuquerque, também no Rio Paraguai, hoje Corumbá, vilas que ele
implantara com o escopo de defender a Capitania e de consolidar as
suas linhas fronteiriças.
14
RETRATO DA VILA
Em setembro de 1827, HÉRCULES FLORENCE, que
integrava a missão do Barão de Langsdorff, que de 1825 a 1829
percorreu detidamente as províncias de São Paulo, Mato Grosso e
Pará, assim retratava Vila Maria no seu “VIAGEM FLUVIAL DO
TIETÉ AO AMAZONAS”, págs. 137 a 139.
... “Ao romper do dia (6.9.1827), chegávamos a Vila Maria
assente à margem esquerda do Paraguai.
Do mesmo modo que os outros povoados de Mato Grosso,
não merece este a qualificação de Vila. Um renque de casas em mau
estado, de cada lado de uma grande praça, uma igrejinha sob a
invocação de São Luiz de França, muros de separação por trás das
casas, eis tudo. Mas o grande rio aí está cercando a O. a praça e a
povoação, e ao qual se desce por uma barranca em curva reentrante.
Do outro lado estende-se uma praia de areia fina orlada de lindo e
verdejante matagal, cortado pelo caminho que vai ter a Mato Grosso.
Além disto quanto prazer em ver o Paraguai, rio sempre
calmo e majestoso até escoar-se no mar! Também, depois de tomado
algum descanso na casa chamado do governo e que nos deram por ser
a melhor da localidade, entrei numa piroga quando a hora começava
15
a refrescar, e voguei águas acima, atraído não só pela sombra que já
se estendia por sobre o rio, como pelos encantos da corrente que sai
silenciosa de entre cheias de belas e altanadas árvores. Em breve vi à
minha direita furos que levavam a enseadas, que banham a povoação
pelo lado setentrional. Penetrei neles e vaguei num labirinto de
canais, ínsuas e árvores, a surgirem de dentro d’água. É uma floresta
inundada, onde reinam o frescor e a escuridão, e as águas são fundas
e piscosas. Num passeio desses respira o peito com expansão, pois a
alma sente-se calma como a paisagem que a cerca e infunde-lhe
benéficas impressões.
A custo obrigou-me a noite a deixar esses lugares, onde o ar,
a água e a floresta concorriam para a serenidade e paz de espírito.
Minha piroga, que nenhuma corrente impelia, cedia ao movimento da
pá que com mão lerda eu manejava em direção ao povoado. Nas
trevas da noite, as árvores inundadas semelhavam grandes navios
ancorados. O céu enchia-se de estrelas, e um ou outro planeta
brilhava já com vivacidade entre as franças da floresta, deitando
bruxoleante esteira sobre as águas.
Cortei a larga baía e, entrando no rio, entreguei-me à
correnteza que me levou à barranca, donde, em dois pulos, alcancei a
casa.
De manhã, ao raiar do dia, o tambor da praça, que aliás não
tem guarnição, tocou, metido em umas calças, à nossa porta a
alvorada. O que me causou admiração, foi que, tendo ouvido
tambores de tropa francesa e sarda, no mar e em terra, não me
recordo ter apreciado execução melhor nem mais variada.
Seis ou sete homens brancos, trezentos Caburés
descendentes de índios aldeados no tempo de D. Maria I, mulatos e
negros, eis toda a população da Vila. Muitos homens e mulheres
andam nus da cintura para cima.
Vila Maria, sita à margem do Paraguai e no caminho de
Cuiabá, a Vila Bela, está destinada a tornar-se num ponto importante
para o comércio, logo que cessem os óbices da campanha política
moderna.
Em 1º de maio de 1977, escreve-me o Arq. Carlos Francisco
Moura: “... Estive em Cáceres, que achei uma cidade
interessantíssima. De passagem, vi o Engenho da Estrada Real e sua
monumental Roda D’água. Infelizmente, por ir de ônibus, não me foi
possível tirar fotografias.
No Rio, estive com o Dr. Edgard Jacinto, do Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e falei-lhe no Engenho.
Ele achou que deveria ser tombado. Disse-lhe que o Sr. estava
tratando disso, e dei-I he seu endereço. Quando ele for a Cuiabá
deverá procurá-lo.
Conforme lhe havia prometido, estou remetendo anexo à
presente foto da gravura do século XVIII da praça principal de
Cáceres. Saiu publicada no meu livrinho As Artes Plásticas em Mato
Grosso nos Séculos XVIII e XIX.
É documento iconográfico valiosíssimo do Século XVIII,
pertencente ao Arquivo da Casa da Ínsua, em Portugal (portanto, é do
período albuquerquino, sem nenhuma dúvida).
Por cima do desenho está manuscrito o título - “Villa Maria
do Paraguai”. Representa uma perspectiva da praça principal da vila,
tirada do rio. Em primeiro plano aparece uma embarcação com vários
remeiros e soldados. Na popa arvora uma bandeira, e há uma câmara
onde se vêem duas pessoas dentro. Na margem do Rio há vários
índios e índias (estas vestidas de camisolão e eles com calções),
alguns brancos. Na grande praça há dois renques de casas térreas,
16
17
um à direita e um à esquerda. Ao fundo da praça há igreja, e próximo
a ela um grande mastro com bandeira.
A praça é sem dúvida a praça principal da vila, tal qual eu a
vi na semana passada, e a grande igreja hoje existente está no mesmo
lugar da pequena igreja que aparece na pintura.
Aliás, retifico o que disse acima — trata-se de uma pintura
(possivelmente a aquarela), e não gravura, no sentido técnico desse
termo. Só disponho de uma reprodução em preto e branco dessa
perspectiva.
Estou remetendo uma foto da pintura completa. Como ela é
pouco nítida, remeto também um detalhe mais nítido em que aparece
a margem e várias pessoas, e a igrejinha ao fundo.
Sou de opinião que deve publicar ambas (a pintura completa
e o detalhe da praça)”
O parente e amigo Sebastião Frederico Teixeira, bisneto de
Luís Benedito Pereira Leite e que muito me tem ajudaria na
elaboração da trilogia cacerense, obteve na seção de iconografia da
Biblioteca Nacional uma interessante planta da cidade de Cáceres
quando esta contava 100 anos da sua fundação, documento que
inserimos neste trabalho para o estudo comparativo do seu progresso
e do seu desenvolvimento.
18
Planta de Cáceres em 1876
Seção de iconografia da Biblioteca Nacional — Rio
19
FIDELÍSSIMO
O MARCO DO JAURU
Rica peça arquitetônica, lavrada em mármore e secionada
em duas partes, cada uma a cargo das coroas portuguesa e espanhola,
foi implantado à Margem do Jaurú em 1754 pelo então Capitão
General e 10 Governador da Capitania de Mato Grosso, D. Antônio
Rolim de Moura Tavares; é o mais belo monumento que nos ficou da
era colonial, hoje respeitosa e orgulhosamente erguido na praça
principal de Cáceres.
Hércules Florence, no seu interessante trabalho “Viagem
Fluvial do Tietê ao Amazonas”, tradução do Visconde de Taunay,
Edições Melhoramentos, págs. 139 a 144, assim o surpreende e
descreve:
10 de Setembro de 1827, antes do dia estávamos de pé, à
espera da canoa que da barranca do rio devia levar-nos à embocadura
do Jaurú, onde íamos ver a pirâmide do Paraguai” célebre no país e
conhecida de alguns geógrafos.
11 de Setembro de 1827, partindo às duas horas da
madrugada, às nove da manhã chegamos ao rio Jaurú, à direita. Em
vão procuramos a princípio enxergar a pirâmide que vínhamos ver:
descobrimo-la afinal à direita da embocadura, por trás de árvores que
a ocultam das vistas.
É a pirâmide quadrangular e tem 15 e meio pés de alto,
incluindo o pedestal e a cruz de pedra que a coroa.
No lado N. 54º O., estão gravadas as armas de Espanha sob
as quais se lê esta inscrição:
Falta de todo a coroa.
Lê-se no lado N. 36º E.:
EX PACTIS
FINIVM RE
DVNDORVM
CONVENTIS
MADRITI
IDIB IANVAR
M.DCCL
Enfim no quarto lado:
IVSTITIA
ET PAX
OSCVLATAE
SVNT.
SVB
IOANNE V
LVSIT ANORVM
REGE
As duas coroas das armas de Espanha e Portugal estão
mutiladas, pelo tempo ou pelos homens; Na minha infância vi os
sinais da realeza destruídos pelos revolucionários de 92. Inclino-me a
crer que o mesmo sentimento impeliu os americanos a apagarem o
assinalamento da antiga servidão.
A pirâmide compreende o pedestal, é de alto a baixo
separada em duas metades, ambas de uma só pedra. A junção forma,
nos lados N. 36º E. e S. 36º O., duas linhas que marcam a direção de
um raio de mais de léguas de limites. Dizem que uma metade foi feita
em Lisboa e outra em Cadiz.
Hércules Florence.
Em 13 de janeiro de 1950, celebrava-se em Cuiabá o
Bicentenário do Tratado de Madrid. Na Catedral Metropolitana,
perante o Governador do Estado, Dr. Arnaldo Estevão de Figueiredo,
altas autoridades, inclusive o Dr. Plínio Travassos, Procurador Geral
da República, em missão especial do Supremo Tribunal Federal para
dirimir o grave problema de dualidade da Presidência do Egrégio
Tribunal da Justiça do Estado, D. Aquino Correa, o grande e imortal
arcebispo de Cuiabá proferia formosa oração gratulatória, enfatizando
a certa altura:
20
21
SVB
FERDINANDO VI
HISPANIAE
REGE
CATHOLICO
A coroa está quebrada; só restam os florões.
No lado S. 54º E., estão as armas de Portugal e esta inscrição
“Por último, Senhores, o que justifica plenamente esta liturgia sacra
de ação de graças, é o espírito que presidiu à elaboração desse
tratado, do qual, com a sua ímpar autoridade, escreveu o Barão do
Rio Branco, que deixa no ânimo de quem o estuda, “a mais viva e
grata impressão da boa fé, lealdade e grandeza de vistas, que,
inspiram esse ajuste de antigas e mesquinhas querelas, consultandose unicamente os princípios superiores da razão e da justiça e as
conveniências da paz e da civilização da América”.
Deste nobre ideal luminoso de justiça e paz internacional,
temos a ventura, os matogrossenses, de possuir o mais expressivo e
solene monumento, para o qual hoje, nesta festiva data jubilar,
voltam-se espontaneamente as nossas almas, numa romaria evocativa
e poética, através de dois séculos. É o Marco do Jaurú!
Marco do Jaurú! Rico padrão de pedra-mármore, encimado
pela Cruz! Primeira baliza do nosso Estado Natal, que os comissários
do Capitão General Gomes Freire de Andrade e do Marquês do Vai
de Lírios, executores do tratado, levantaram em meio a florestas
virgens, poucos quilômetros à jusante da foz, onde o selvático rio
Jaurú aflui nas majestosas e históricas águas do Paraguai!
Marco do Jaurú! Velha pirâmide, minúscula e solitária, que
ao longo de tantos anos, no silêncio sagrado e imenso daquelas
regiões ainda bravias, assinalaste, numa orla selvagem da terra
matogrossense a fronteira das duas gloriosas nações, que pareciam
então partilhar entre si o domínio do mundo!
Marco do Jaurú! Com que emoção e encantamento, nós te
saudamos hoje, mesmo ao longe, por entre as flores desse jardim, ao
sol da praça principal de Cáceres, aonde foste transladado, e relemos
as tuas vetustas inscrições, na solenidade e elegância dos seus dizeres
latinos, bem dignos do mármore clássico, em que foram gravados: ex
pactis finium regundorum conventis!
Marco do Jaurú! Tu perpetuaste, para sempre nos relevos
artísticos das tuas quatro páginas, os nomes das duas augustas
realezas, que foram as altas partes contratantes de Madrid, a
majestade fidelíssima de D. João V de Portugal e a majestade católica
de D. Fernando VI de Espanha; mas nos lembras também, no teu
sugestivo silêncio, todos quantos colaboraram no memorável pacto,
que ora festejamos, e sobre os quais paira, excelsa e inconfundível,
22
como alma que foi dessas negociações políticas, honrando
sobremaneira a nossa Pátria e a nossa gente, a figura de Alexandre de
Gusmão, o grande diplomata brasileiro.”
Plínio Travassos, ao sair do templo, tomou-se pelo braço,
profundamente entusiasmado com a inteligência do orador e a
formosura da sua oração. D. Aquino, delicada e inteligentemente,
apelara para a paz no poder judiciário matogrossense ao realçar e
explicar o texto latino Justitia et pax osculatae sunt, inscrito no
histórico marco do Jaurú, ponto de realce daquelas comemorações
bicentenárias.
HOMEM DE NEGOCIOS
O HOMEM
Leonardo Soares de Souza, natural de Portugal, filho de
Jerônimo Soares de Souza, estabelece-se nas minas de Cuiabá por
volta de 1769, donde transferiu a sua residência, como consta de uma
justificação procedida em 1782, para as Minas de Mato Grosso,
fundando uma fazenda de criação na paragem Servo ou Flechas. Fora
mal sucedido nos negócios e nisso a razão de sua mudança brusca de
residência.
Em 1772, requer as terras conhecidas por Jacobina, distante
40 Km aproximadamente de Vila Maria, S. Luiz de Cáceres, e hoje
Cáceres simplesmente e o faz do próprio punho e com o teor
seguinte:
Ilmo. e Exmo. Sr.
Capitão da Sesmaria Villa Bella
“Diz o Ilmo. Sr. Leonardo Soares de Souza que V. Excia. foi
servido conceder-lhe licença para o suplicante usar de seu engenho de
cana situado na paragem chamada Jacobina, junto a um Ribeirão que
deságua para os Pantanais do Paraguai no que tem algumas restingas
de matos cultiváveis e para o estabelecimento do mesmo engenho
deseja o suplicante que V. Excia. lhe recomende meia légua de terras
nos ditos matos que forem cultiváveis ressalvando os pantanais e
alagadiços que entre eles tem; principiando-se a medir desde o
mesmo engenho um quarto para cima dele e outro para baixo pelo
mesmo Ribeirão.
23
Aguarda que V. Excia. lhe faça mercê conceder a sesmaria
que requer.
E.R.M.
Datado em 28 de outubro de 1772..
O pedido de concessão da sesmaria Jacobina, formulado
pelo Alferes Leonardo Soares de Souza, obteve deferimento
consoante o documento a seguir transcrito:
“Ilmo. e Exmo. Sr.
O Ilmo. e Exmo. Sr. Luiz de Albuquerque de Melo Pereira e
Cáceres nos ordenou em uma Carta de Ofício dos 10 de outubro do
ano passado que depois de feitos os exames necessários
informássemos ao mesmo Sr. a respeito do requerimento junto do
Alferes Leonardo Soares de Souza em que pede meia légua de terras
lavradias na paragem denominada Jacobina junto a um Ribeirão que
deságua nos pantanais do Paraguai em obediência do que fizemos
todas aquelas diligências que nos pareceram necessárias e achamos
que os referidos matos estão devolutos e nos termos de obter a graça
implorada.
É o que podemos informar a V. Excia. que mandará o que
for servido por muitos e felizes anos, como tanto desejamos.
Cáceres.
Cuiabá, em começo dos 9 de abril de 1790.
Ilmo. e Exmo. Sr. João de Albuquerque de Meio Pereira e
Do Juiz Presidente e mais oficiais da comarca.
José Paes Falcão das Neves
João Sá Guimarães
Francisco Xavier da Silva Pereira
João Martins Macedo.”
ORDEM MILITAR DE SANTIAGO DA ESPADA
A Chancelaria Portuguesa fez editar em 1968 o compêndio
de todas as ordens portuguesas, fixando a história de cada uma delas,
as suas origens e o papel desempenhado no seu tempo. Nele se lê
que, em 1170, Fernando II de Leão fundou a Ordem de Santiago,
também chamada de Cáceres, sua sede originária, ou de Uclés, em
Castela, para onde aquela se transferiu.
24
Pouco depois a Ordem entrava em Portugal, possivelmente ainda no
reinado de D. Afonso Henrique ou, ao certo, no de D. Sancho I. O
seu primeiro assento no nosso país foi no Mosteiro de Santos, em
Lisboa, onde freires se conservaram até ao reinado de D. Afonso 11.
Nesse tempo mudaram-se para Alcácer do Sal; daqui, reinando D.
Sancho II, se transferiram para Mértola. Data de 1482 o seu
estabelecimento definitivo no Convento de Pai meia.
A Ordem de Santiago teve uma ação preponderante nas lutas
da reconquista, em especial no do Algarve, e na questão dinástica
entre D. Sancho II e seu irmão D. Afonso, em que tomou
declaradamente o partido do conde de Bolonha. Os primeiros
cavaleiros que vieram ao nosso país cá deixaram a boa semente da
sua Ordem. Cá também os espatários vieram acrescidos, com a sua
piedade e intrepidez, o seu prestígio e poder.
Os freires de Portugal tinham como chefe imediato um
comendador-mor. As primeiras diligências de que há notícias para
que àqueles fosse concedido o direito de terem um mestre
exclusivamente seu, data dos fins do século XIII, já no reinado de D.
Dinis. A circunstância de esta concessão da Cúria Pontifica ter sido
obtida sem dúvida contra a vontade dos Castelhanos e quando em
Roma ainda se não tinha chegado à composição do clero com D.
Dinis dá especial valor ao êxito das nossas diligências. A divisão da
Ordem foi decretada numa bula do franciscano Nicolau IV de 17 de
setembro de 1288 e renovada em 1290. Mas o mestre-geral impugnou
esta decisão e a demanda arrastou-se durante os pontificados de
Bonifácio VIII, Clemente V e João XXII.
Finalmente, em 1440 foi definitivamente estabelecida a
independência absoluta da ordem portuguesa e em 1452 Nicolau V
declarou extensivos à Ordem de Santiago de Portugal todos os
privilégios, isenções e prerrogativas concedidos à de Castela.
O primeiro mestre eleito depois da separação da Ordem foi
D. João Fernandes. Com a união dos mestrados à Coroa, no reinado
de D. João 111, passou a Ordem a ser governada pelo próprio rei. A
seguir à dignidade de mestre vinha a de prior-mor. O prior-mor de
Palmela (como veio a chamar-se depois da mudança para esta vila)
desfrutava de uma das mais autorizadas dignidades do reino, tendolhe sido concedida pelo Papa Leão X uma jurisdição quase episcopal,
25
limitada, embora, ao Convento daquela vila.
A Carta de Lei de 19 de Junho de 1789 determinava que “em
regra, do despacho em benefício de pessoa que sirva na magistratura
até o lugar de desembargador dos agravos da Casa da Suplicação,
inclusive, será o hábito de Santiago. Além dos magistrados, seriam
premiados com esta Ordem outros serviços que parecessem dignos
dela, segundo a qualidade e importância das pessoas, dos empregos e
dos, serviços.
Por alvará de 31 de Outubro de 1862 era de novo reformada
a Ordem de Sant’lago da Espada, que passaria a intitular-se “A
antiga, nobilíssima e esclarecida Ordem de Sant’lago do mérito
científico, literário e artístico”, e se destinava unicamente a galardoar
o assinalado merecimento pessoal e relevantes serviços prestados às
ciências, às letras e às boas artes, tanto no ensino público como em
obras escritas e obras artísticas. O legislador entendeu conveniente e
parece que com bem fundadas razões explicar as novas finalidades
que passavam a ser atribuídas à concessão da Ordem de Sant’lago.
Lê-se no relatório do alvará: “Reformada em 1789, a Carta de Lei de
19 de junho designou-a para recompensar os serviços relevantes do
mérito civil. Restringindo-se hoje por especial e exclusiva aplicação a
remunerar os serviços científicos, literários e artísticos, as obras do
engenho, a eloqüência e as vigílias da erudição no magistério,
primores do cinzel e da palheta, e todas as manifestações da arte em
que sobressaírem talentos distintos, ninguém dirá que, por se
acomodar às circunstâncias atuais, ela se aparte do seu verdadeiro
espírito. Obreiros de uma missão de conquista e liberdade são
também aqueles que nas fadigas do estudo e nas meditações da
ciência trabalham incansáveis, procurando alargar os domínios
intelectuais da Pátria, e granjear-lhe as simpatias e o respeito da
Europa. Os seus graus e dignidades seriam: grão-mestre (sempre o
soberano); oficiais-mores (comendador-mor, que era sempre o
príncipe .herdeiro presuntivo do reino; chanceler e alferes) grãcruzes; comendadores; oficiais e cavaleiros (todos em número
limitado).
O Governo Provisório da República extinguiu, em 15 de
Outubro de 1910, as antigas ordens nobiliárquicas, com exceção da
Torre e a Espada, mas, algum tempo depois, o Decreto n. 5.030, de 1
de Dezembro de 1918, restabelecia, entre outras, a Ordem de
26
Sant’lago da Espada, destinada a premiar, em nacionais ou
estrangeiros, o mérito científico, literário ou artístico. O Regulamento
das Ordens Militares Portuguesas de 8 de Novembro de 1919
preceituava que a Ordem de Sant’lago da Espada era destinada a
premiar os indivíduos da classe civil e militar, nacionais e
estrangeiros, que se distinguissem por assinalado merecimento
pessoal e relevantes serviços prestados às ciências, às letras e às artes,
tanto em ensino público como em obras escritas e obras artísticas, e
os estabelecimentos de ensino ou corporações científicas que se
assinalassem por notáveis e relevantes serviços, sendo os seus
diversos graus conferidos em harmonia com o valor dos trabalhos e a
categoria social do agraciado.
Na Capitania de Mato Grosso, Leonardo Soares de Souza,
que, em 1772, requeria a concessão das terras de Jacobina e seis anos
mais tarde subscrevia, em destaque, ata oficial de fundação de Vila
Maria, figura entre raros dignitários da Ordem Militar de Sant’lago e
já vergado ao peso dos anos recebeu da mercê Imperial outra
distinção, aliás a derradeira que seria a sua reforma no posto de
Coronel.
A FAMÍLIA
Casou-se Leonardo Soares de Souza com Ana Maria da
Silva, filha de José Gomes da Silva, natural de Aveiro e D. Rita de
Campos Maciel. Desse consórcio originou-se Maria Josefa de Jesus
Leite, única filha do casal e que se consorciou com o Coronel de
Milícias, João Pereira Leite, no ano de 1813, sendo o casamento
precedido de interessante carta endereçada por Leonardo Soares de
Souza em 1812 ao Cap. General João Carlos Augusto D’Oyenhausen
de Gravenberg, oitavo Governador da Capitania e vazada nos
seguintes termos:
Ilmo. e Exmo. Sr.
“Tenho em vistas a minha avançada idade e pouca saúde que
no presente desfruto e desejando antes que morra deixar arrumada a
minha casa, tenho assentado ao tempo dar a minha filha e criado, e
afilhada de V. Excia., e para isto tenho eleito ao Capitão João Pereira
Leite, Comandante de Vila Maria por me persuadir acho todos os
requisitos impecáveis para a conservação desta grande casa e tenho
27
contratado com ele neste respeito acho conforme com a vontade de
que levo muito em gosto assim como minha mulher e menina,
provem apurar de que tudo esteja nos termos de se efetuar, não o farei
certamente sem primeiro consultar a Exma. pessoa de V. Excia.,
pedindo primeiramente a licença para poder fazer se V. Excia. o
aprovar, e em segundo lugar, fazer ver a V. Excia. que sendo-lhe um
homem militar por modo algum me faz conta que ele fique no atual
serviço com que presentemente existe, maiormente (1) estando com
tempo vencido de poder pedir a S.AM. a sua competente reforma, por
haver servido efetivamente vinte e cinco anos e serviço vivo; nestes
termos pois vou implorar o patrocínio respeitável e alto poder,
favorecendo-me nesta tão justa empresa em que tanto interessa a
minha casa, e que tão bem da mesma forma não deixará de interessar
a Fazenda de S.A.M. conservando-se ela como em desejo para o
futuro.
Tenho toda a certeza de que olhando V. Excia. com reflexo
amor este meu grande zelo e a grande necessidade que tenho de assim
o fazer não deixará de me ajudar pondo a Real, a presença de S.AM.,
o que me parecem lhe dar razão e justiça, conservando entretanto por
algum legítimo título essa que faça força, o emprego em que está o
referido Capitão, afim de assim se poder cuidar em tudo mais a tarefa
que é preciso.
Desejarei saber tudo mesmo da generosa bondade de V.
Excia. fazei-me a honra de uma procuração em que faça de Padrinho
para seu recebimento, isto é, caso V. Excia. não tenha intenção de vir
passar as águas em Cuiabá, pois a não ser assim eu esperarei com
grande gosto ter tal ocasião em que V. Excia. pessoalmente me honre.
Deus Guarde V. Excia. por muitos anos.
Jacobina, 5 de outubro de 1812
Ilmo. Exmo. Sr.
JOAO CARLOS AUGUSTO DE OYENHAUSEN
De V. Excia,
O mais humilde Súdito
a) Leonardo Soares de Souza.
O contrato de casamento de Maria Josefa deu a Leonardo
relativa tranqüilidade, porque, até então, se encontrava
profundamente
--------(1) Devia ser: Mormente.
28
preocupado em deixá-la órfã, em tenra idade, a ponto de em fins de
1811 encaminhar à corte a petição seguinte:
“Diz o Capitão Leonardo Soares de Souza, Cavalheiro da
Ordem de S. Tiago, morador no seu Engenho da Jacobina, distrito da
Villa de Cuiabá, Capitania de Mato Grosso, que sendo senhor, e
possuidor de um dos melhores estabelecimentos daquela Capitania,
cuja situação, e subsistência é muito necessária e vantajosa tanto a
Real Fazenda como ao público por se achar no meio da estrada Real,
que vai da Villa de Cuiabá à Capital, como o suplicante mostra
legalmente a V.A.R., pela justificação que com este apresente, e por
que se acha em uma idade muito avançada, carregado de moléstias,
incapaz da administração da sua mulher D. Ana Maria da Silva, cuja
capacidade tem igualmente provado, e teme a mente que pode ser
funesta à sua mesma Casa por ter uma única filha a quem pretende
assegurar a sua subsistência; e por isso que o suplicante roga a
V.A.R, em atenção ao que relata, e ao mais que provado tem, V.A.R.
lhe conceda a especial graça de nomear Tutora de sua filha Maria
Josefa, a sua mãe, mulher do suplicante D. Ana Maria da Silva,
continuando esta na Administração da sua própria casa, uma vez que
sobreviva ao suplicante.
Pede a V.A.R. seja servi-lo havê-lo assim por bem, não só
em atenção ao que expende, como ao que prova pela justificação que
oferece.
Espera receber mercê.
Como procurador
José de Artiaga Soutto Maior.
Recebi os documentos constantes deste requerimento como
Procurador. Rio, 30 de agosto de 1812.
aa) João de Artiaga Soutto Maior.
O Despacho exarado na petição retro transcrita foi vazado
no seguinte teor: “Pede o Suplicante marido, nomear em meio de
testamento para tutora de seus filhos a sua própria mulher se lhe
parecer e depois (ilegível)
Distribuído em mesa 16 de março de 1812. Rubrica ilegível,
(documentação arquivada no Passo Real no dia 30/8/1812, por João
29
O Engenho de Leonardo Soares de Souza já produzia os
primeiros frutos e, ao seu lado, também florescia o povoado de Vila
Maria; contudo, era mister erigi-lo, oficialmente, em Vila e o fato não
passou despercebido à clarividência de um estadista do porte de Luiz
de Albuquerque Meio Pereira e Cáceres, quarto capitão general de
Mato Grosso, que ali despachou o seu lugar tenente, Antônio Pinto
do Rego e Carvalho, tenente de Dragões, que convocou para o ato as
personalidades mais eminentes da Vila, fazendo lavrar a ata do teor
seguinte: “Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de
1778, aos seis dias do mês de outubro do dito ano, neste distrito do
rio Paraguai e margem oriental dele, no lugar onde presentemente se
dirige a estrada que se seguia a Cuiabá desde Vila Bela, sendo
presente tenente de dragões Antonio Pinto do Rego e Carvalho, por
ele foi dito que tinha passado este lugar por ordem do Ilmo. Snr. Luiz
de Albuquerque de Meio Pereira e Cáceres, governador e capitão
general desta capitania de Mato Grosso, para com efeito fundar, erigir
e consolidar uma povoação civilizada, aonde se congregasse todo o
maior número de moradores possíveis, compreendidos todos os
casais de índios castelhanos proximamente desertados para estes
domínios portugueses da província de Chiquitos, que fazem o
número de 78 indivíduos de ambos os sexos, a que juntando todo o
número das pessoas congregadas para o dito fim o total de 161
indivíduos de ambos sexos; cuja povoação, segundo as ordens do dito
governador, se denominará de hoje em diante, em obséquio do real
nome de Sua Majestade — Vila Maria do Paraguai, esperando-se que
de semelhante estabelecimento haja de resultar grande utilidade ao
real serviço e comodidade pública: e porque suposto o plano do
terreno para a dita vila se acha com alguma disposição para continuar
a fundar-sé com regularidade: contudo como alguns dos
alinhamentos não estão conformes ao projeto da boa polícia, como
deveria ser, determinou ele dito tenente a todos os moradores em
nome de S. Excia. que, deixando de fazer mais algum benefício a
várias cabanas existentes só nelas assistissem enquanto fabricavam
casas em novo arruamento que lhes fica prescrito, e balizado por ele
tenente com marcos sólidos de pau de lei; sendo obrigados a não
excederem e nem diminuírem a dita construção na altura de 14
palmos de pé direito na frente de todas as casas que se levantarem e
24 palmos de altura no cume: outrossim determinou que
precisamente chamaria para regular os ditos pés direitos ao
carpinteiro João Martins Dias, e na falta deste outro, algum
inteligente no ofício, a fim de conservar sem discrepância, segundo o
risco, a largura de 600 palmos de ruas que estão assinadas por ele dito
tenente: cujas atualmente demarcadas e abalizadas terão os
seguir:1tes nomes, a saber: a primeira contando do norte rua
d’Albuquerque, a imediata para o sul rua de Meio, as quais ambas
vão desembocar na praça e cada uma delas faz face a mesma do norte
e do sul; assim como também as travessas de 30 palmos, que dividem
os quartéis das ditas ruas e se denominarão estas travessas, a primeira
contando do poente para o nascente, travessa do Pinto, e a que se
segue contando para o nascente: Travessa do Rego e no alto da praça
da mesma banda do nascente, cuja frente fica riscada entre ruas e
travessas, com 360 palmos, cujo número tem também as mais
quadras poderão os moradores erigir a sua igreja por ficar a porta
principal dela para o poente, como o determinarão os rituais; e o mais
terreno desta frente da praça por agora se não ocuparia em casas,
deixando-o livre para as do conselho e cadeia, quando se
30
31
de Artiaga de Soutto Maior e o seu original acha-se arquivado na
Seção de Documentação História — Cx. n. 106, doc. 62, — do
arquivo Nacional).
A REFORMA
Leonardo Soares de Souza foi reformado como Coronel e a
patente respectiva de 4 de julho de 1813, assinada pelo Príncipe
Regente D. João, do seguinte teor: “D. João, por graça de Deus,
Príncipe Regente de Portugal e dos Algarves etc. tendo posto na
Minha Real Presença o Governador e Capo General da Capitania de
Mato Grosso os distintos serviços que aí tem prestado Leonardo
Soares de Souza Capitão de Milícias da mesma Capitânia, com
dispêndio da sua fazenda ao que atendendo, e aos muitos anos que
serve, e a sua avançada idade, ou serviço por graças especial que não
servirá de exemplos de o Reformar, como por esta o reformo, o posto
de Coronel das mesmas Milícias.
FUNDAÇAO DE VILA MARIA
deverem fabricar. Cada morada dos ditos povoadores não terá mais
do que 100 palmos de comprimento para quintal, que lhes ficam
determinados para o centro de cada um dos quartéis. O que tudo
assim executado pelo dito tenente de dragões na presença de todos os
moradores, mandou a mim Domingos Ferreira da Costa, fiel deste
registro, que servindo de escrivão fizesse este termo para constar do
referido o qual assinou com as testemunhas seguintes,: Leonardo
Soares de Souza, homem de negócio; Ignácio de Almeida Lara; João
Marques d’Avila; Ignácio José Pinto, soldado dragão; e Antonio
Pereira de Matos; Antonio da Costa Rodrigues Braga; José Francisco;
Agostinho Fernandes; Antonio Xavier de Moura; Antonio Teixeira
Coelho. E eu, Domingos Ferreira da Costa, fiel deste registro, que o
escrevi. — O Tenente de Dragões comandante Antonio Pinto do
Rego e Carvalho; Leonardo Soares de Souza; Ignácio de Almeida
Lara; João Marques d’Ávila; Ignácio José Pinto; Manoel Gonçalo
Ferreira; Antonio Pereira de Matos; José Francisco; Antonio da Costa
Rodrigues Braga; Agostinho Fernandes; Antonio Xavier de Moura;
Antonio Teixeira Coelho; Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e
Cáceres”.
Mui judicioso o comentário que, a respeito, formula Estevão
de Mendonça, em Datas Matogrossenses, 11, págs. 200/201 : “1778
— É fundada à margem esquerda do rio Paraguai a povoação de Vila
Maria aos 1603’30” de latitude e 14º34’30” de long. Occ. do Rio de
Janeiro. Foi elevada a cidade por lei provincial de 1874 com a
denominação de São Luiz de Cáceres, em homenagem a Luiz de
Albuquerque de Mello Pereira de Cáceres, seu fundador.
Como Albuquerque (hoje Corumbá), Casalvasco e Corixa,
também a ocupação de Vila Maria teve por fim a segurança e amparo
da fronteira, na conformidade da política portuguesa em face do
tratado de 1761. E evidente que para semelhante obra diplomática
tornava-se indispensável o concurso inteligente de um delegado da
coroa na região ocidental do Brasil. Essa delegação recaiu por
escolha do severo Pombal, na pessoa de Luiz de Albuquerque, cuja
ação em Mato Grosso foi extraordinariamente eficaz.”
D. Aquino Correa, consagrado orador e poeta, cantou, como
ninguém, a beleza, a riqueza e a opulência de Mato Grosso,
32
Grosso, principalmente nas páginas memoráveis de Terra Natal.
Celebrou a flora, a fauna, o homem, com seus feitos e a história da
terra. Ninguém o fez com mais inteligência,mais sensibilidade e mais
habilidade. A fundação de Vila Maria mereceu do insigne príncipe da
Igreja e das letras pátrias, versos admiráveis quais os consignados
em:
CACERES
Essa que aí vês, à flor da bruta praia,
Vila Maria apelidada outrora,
Foi a primeira, que a onda paraguaia
Beijou neste áureo tálamo de Flora.
Em suas matas virgens, Pluto mora,
No tapete aromal da verde praia,
E além, na aberta do seu campo afora,
O belo gado inúmero se espraia.
Hoje o seu nome rememora ao mundo
O grande, que a fundou, gênio fecundo,
Novo Hércules de feitos opulentos.
E o amplo rio, a cismar a sós consigo,
Como um fragmento de poema antigo,
Cáceres! Cáceres! murmura aos ventos.
FRONTEIRO INDORMIDO
No derradeiro Quartel do Século XVIII, dois jovens portugueses, na
sede principal da colônia, se dispõem a prestar ser: viço militar de lei.
Irresistível é a vocação miliciana dos Pereira Leite. Aqueles dois
moços, João e Antônio, ingressam, decididamente, na Milícia
Colonial, sendo Antônio Pereira Leite destacado para a capitania de
São Paulo, onde se fixa em definitivo, prestando os mais relevantes
serviços à corporação, deixando prole, cuja genealogia foi estudada
por Aureliano Leite, Presidente do Instituto Histórico de São Paulo.
A João Pereira Leite, coube em sorte, encargo mais difícil, pesado e
distante: foi designado para servir na recém-fundada capitania de
33
Mato Grosso, na qual se desenrolou toda a sua vida militar, afanosa e
gloriosa até culminar no último posto da Hierarquia Miliciana, vindo
a reformar-se como Coronel, já após os acontecimentos que
determinaram a independência no Brasil.
João Pereira Leite transforma-se, desde logo, em sentinela
da fronteira, deslocando-se de Vila Bela à Vila Maria e desta às
minas do Cuiabá e vice e versa, num desdobramento rude,
eternamente através de agrestes e perigosos caminhos, sujeito às
intempéries e às variações da natureza caprichosa nem sempre
favorável.
Os fatos e os acontecimentos marcantes da sua vida foram
apontados e descritos, com maestria insuperável, pela pena admirável
de José de Mesquita, cuja autoridade incontestável se deve ao critério
que colocou nas suas pacientes, longas e meditadas pesquisas nos
mais diferentes arquivos; na comunicação que lhe fez, durante muitas
décadas, o seu venerando e querido sogro, João Carlos Pereira Leite,
segundo (II), que foi, deputado Federal em Mato Grosso,
Desembargador do Egrégio Tribunal de Justiça do mesmo Estado e
Secretário do Governo Lauro Muller em Santa Catarina; e, ainda,
pela admiração profunda que sempre manifestou pela família Pereira
Leite na qual buscou as esposas de duas núpcias: Ana Jacinta e
Laura, que deixou viúva em 22/06/1961.
A genealogia dos Pereira Leite consta às fls. 92 e seguintes
da fabulosa revista do Instituto Histórico de Mato Grosso, que
Mesquita ilustrou como ninguém, Ano VIII, 1926, n. XV.
È roteiro obrigatório para quem pretenda rememorar as figuras
marcantes e os fatos assinalados no apogeu da era colonial até os
primórdios e floresci mento da era imperial do Brasil.
Escreve José de Mesquita: “A Baroneza de Vila Maria
pertencia como vimos, à família Pereira Leite, oriunda de João
Pereira Leite, português, filho de José Leite Pereira, nascido na
freguesia de S. Maria do Outeiro, Arcebispado de Braga,que veio
para o Brasil nos fins do século XVIII, tendo entrado para a
milícia como soldado raso a 23 de outubro de 1788, no 1° Regimento
de Infantaria do Rio de Janeiro, galgando todos os postos até Coronel
efectivo da mesma milícia.
A 10 de maio de 1796, foi despachado Porta-Bandeira para
servi r nesta então Capitania, onde permaneceu até a sua morte a 6 de
setembro de 1833, constituindo a sua fé de ofício o mais honroso
documento que pudesse legar aos seus pósteros.
Foi Pereira Leite um dos mais notáveis de seu tempo,
gozando de grande prestígio pessoal junto aos magnatas, sendo da
privança do Cap. General João Carlos de Oyenhausen, com quem
freqüentemente se carteava e que o distinguia com especial estima.
A sua carreira militar atesta exuberantemente o seu
merecimento pessoal e, ao mesmo tempo, a valia em que era tido
perante os poderes públicos, num período de incertezas e alternativas,
coincidindo o desdobramento de sua atividade na milícia como uma
das fases mais importantes de nossa história política.
Assim é que em 1810 em pleno regime colonial o
encontramos alferes de Dragões, promovido, a 13 de novembro desse
ano, a Capitão de Pedestres da Capitania de Mato Grosso, logo 3
anos após, por patente de 24 de julho de 1813, é promovido a
Sargento-mor, sob proposta do Governador João Carlos, é nomeado
Comandante do Corpo de Caçadores Reais do Paraguai e, em 1818,
promovido a Ten. Cel., graduado da infantaria de Milícias,
confirmado por patente de 5 de julho de 1825.
Trouxe-lhe o ano imediato a promoção a Tent. Cel. efetivo,
com graduação de Coronel (8 de agosto de 1826), posto em que foi
efetivado por patente de 17 de julho de 1828.
Pedindo a sua reforma, alegando ser já avançado em idade e
doente, foi lhe concedida por Dec. de 17 de março de 1830,
confirmado pela patente de 3 de outubro de 1832, que traz a
assinatura dos membros da Regência trina, Lima e Silva, Costa
Carvalho e Braulino Muniz.
Fora da carreira das armas não menores nem menos
expressivas foram as honras que culminaram em sua pessoa, pois
tendo tomado o hábito de cavaleiro da Ordem de S. Bento d’Avis, em
1825, por Dec. Imperial de 17 de dezembro de 1828, que traz a
referenda de José Clemente Pereira, o Monarca “tendo em
consideração os relevantes serviços do Coronel de Milícias, João
Pereira Leite, Comandante do Distrito de Vila Maria, em que tem
mostrado singular patriotismo, e querendo por isso distingui-lo e
honrá-lo “ o nomeou Comendador dessa Ordem honorífica.
34
35
Como se fossem poucas as distinções com que o vinha
cumulando a munificência governamental, nesse mesmo ano de 1828,
o primeiro Imperador lhe fez mercê de o tomar no foro de Fidalgo
Cavaleiro da Imperial Casa, por alvará de 20 de outubro.
INSIGNIAS DA ORDEM DE SAO BENTO DE AVIZ,
conferidas, em 1828, ao Cel. João Pereira Leite, pelo Governo
Imperial, e pertencentes à Senhorinha ESTER ESTEVES, sua
descendente, residente em Corumbá-MT, em 1975 e falecida em 13
de maio de 1977.
JACOBINA
1827 - 02 de setembro - Novo aspecto do País: é uma
planície cortada de montanhas alongadas e paralelas umas às outras.
Se ela fosse inundada formaria um arquipélago lírico.
Depois de andarmos três léguas no meio dessas montanhas
por estrada plana como um caminho “de ferro e sempre no
36
sentido de seu comprimento chegamos à base de uma delas, chamada
CRIMINOSA, por ser de difícil acesso, e com caminho tão mau que,
ainda a pé, há risco de quebrar as pernas entre grandes penhascos
cortantes.
Antes de empreendermos a subida, paramos junto a um
córrego chamado Guacurizal, porque passa por uma floresta dessas
palmeiras. Matamos um jacaré. Eu não esperava encontrar esse
anfíbio perto de um córrego que não tinha quase água. O pouco que
corre é salobre, mas muito perto há outro de água doce.
Depois de subirmos ao alto da Criminosa, fizemos ainda
légua e meia por declive suave e chegamos à Jacobina, alvo de
nossos maiores desejos, não só por causa das comodidades Que
esperávamos encontrar e que se prodigalizavam segundo diziam, a
todas as classes de viajantes, como também pela sua importância,
cada vez mais exaltada neste caminho, à medida que as distâncias se
iam encurtando.
O aspecto da fazenda desmentiria essas informações, quanto
à segunda parte, comparada com estabelecimentos desse gênero em
outras províncias do Brasil, mas a Jacobina era a mais rica fazenda da
província e por conseqüência não tínhamos razão de achar que nada
fosse exagerado.
Atravessando um grande pátio, fomos parar diante de uma
casa de sobrado, à espera, conforme a regra brasileira, que nos
viessem convidar para pormos pé em terra. Apressaram-se em nos
dirigir esse convite e nos fazer subir ao alpendre do sobrado, onde o
tenente-coronel nos recebeu como hóspedes, título bastante de
recomendação. Depois de trocarmos algumas palavras de polidez,
tomamos assento entre outros comensais, alguns dos quais eram
nossos conhecidos de Cuiabá.
O alpendre é uma grande e comprida varanda ao longo da
fachada da casa. O lado que deita para o pátio é aberto e
simplesmente guarnecido de parapeito. Dois esteios de madeira
sustentam nesta parte o telhado.
.
Uma mesa de 20 pés de comprido, cercada de bancos
pesados e maciços, achava-se no meio do alpendre; ficava, porém,
muito espaço ao redor dela.
Aí se pôs a jantar, ao qual não assistiu a família do tenentecoronel.
Gozávamos ao mesmo tempo da vista do céu e do campo.
37
Depois da refeição, retirou-se o tenente-coronel, e o vigário, tio da
mulher dele, levou-nos para o primeiro pavimento, onde entramos
num grande edifício, cujas portas abriam para o terreiro (pátio da
frente). Mais de cem pessoas entre escravos e gente forra, na maior
parte do sexo feminino, aí se achavam em movimento, e cada qual
ocupado com sua tarefa. O vigário apresentou-nos ao chefe dessa
grande oficina, que dirigia tudo; tudo vigiava, obras, engenhos,
plantações, gado, escravos, agregados, enfim a fazenda inteira, sem
esquecer o tenente-coronel e sua família. Esse chefe, atlético no
corpo e no espírito, era a sogra do tenente-coronel e irmã do nosso
vigário, matrona de cinco pés e oito polegadas e de corpo
proporcionado à altura. Sua cara de queixo tríplice parecia confundirse com o largo pescoço, cercados de muitas voltas de colares de
contas grossas de ouro. Sua voz de estentor dominava quase
incessantemente todos os ruídos, não direi o vozear dos que
trabalhavam, pois todos estavam em silêncio ou falavam baixinho,
mas os estrondos das máquinas, da água que as movia, das grandes
caldeiras onde fervia a garapa, etc. O que havia, porém, de notável,
era essa mulher, tão corpulenta e que mostrava ter cinqüenta anos,
andava e mexia-se com a agilidade de uma garrida mocetona. Sua
fisionomia, seu olhar e boca exprimiam simultaneamente a energia, a
franqueza e a bondade. Todos os escravos e agregados a estimavam
tanto quanto a temiam, sendo com efeito a mãe de toda a redondeza,
principalmente pelos cuidados com que tratava os enfermos e pelos
socorros que com pródiga mão distribuía aos necessitados.
“Não quero que meu genro se ocupe da lavoura, disse-nos D.
Ana; isto é bom para mim que nasci no meio dos trabalhos do
campo”. E com efeito João Pereira Leite, cujo porte baixo e ar
fanadinho, apesar de ser assaz robusto, contrastavam com os de sua
sogra, tão devotada à sua felicidade, não pensava senão em fazer
figura e viver à fidalga de suas rendas.
E saudoso tempo, esse bom tempo colonial (saudoso para
alguns retrógrados, felizmente já raros e que desapareceram em
brevE:) , em que os portugueses da Europa achavam ricas herdeiras
com quem casarem só pelo fato de serem brancos. O tal nosso
tenente-coronel não tinha só esta qual idade: quando chegara a
província, vindo pelo Amazonas, Tapajós, etc., era tenente de 1ª linha
e, como se sabe, na antiga monarquia, esse posto não se dava a todos.
38
A Jacobina era a mais rica fazenda da província, com
território de quatro léguas em quadra, das quais dois quartos, quando
muito, cultivados: o resto, de florestas virgens, lezírias e pastarias. A
parte oriental é montanhosa: um ribeirão piscoso a corta de E. para O.
e vai lançar-se no Paraguai, que dista umas quatro léguas. A fazenda
é ainda abastecida de águas por diversos córregos que vão ter no
ribeirão ou ao Paraguai.
Duzentos escravos de trabalho dos dois sexos e sessenta
crianças formavam toda a escravatura desse estabelecimento; mas
havia quase igual número de gente forra entre agregados, crioulos,
mulatos e índios, que trabalhavam mais ou menos para si, ou pagos
pelo proprietário.
Além da Jacobina, possuía João Pereira Leite ainda dezoito
sesmarias, das quais a menor de três léguas em quadra, mas incultas e
só em seis ou sete delas, chamadas fazendas, havia um rancho
miserável, o feitor com sua família, alguns camaradas e gados.
A posse de tantas sesmarias fazia com que o tenente-coronel
dissesse que tinha tantas terras quantas o rei de Portugal. Vê-se que
ele pouco sabia de geografia.
Gado imenso cobria as ricas pastagens da Jacobina e outras
fazendas. O dono avaliava seu número em 60.000 reses: a maior
parte, porém, tornara-se selvática.
Eram todos da terra, os cavalos e uns duzentos a trezentos
mais ou menos. Vi cinco jumentinhos de raça miúda, que as fazendas
possuem para a produção das bestas, muitos cabritos, e alguns
carneiros importados de pouco e que não serviam senão para dar um
bocado de lã e para regaló do tenente-coronel sozinho, pois sua
família e mais gente, como aliás todos os habitantes de Cuiabá e há
pouco o geral dos brasileiros, tinham horror ao leite e carne de
carneiro.
Uma tropa de um cento de burros de carga era quanto
bastava para transportar os produtos da fazenda, ou para Cuiabá,
Poconé, Diamantino ou Vila Bela de Mato Grosso. Grande parte era
exportada pelas tropas que vinham de fora buscá-los na fazenda.
A província possui o mais belo caminho do mundo, o
Paraguai: poderia ter excelentes estradas de rodagem, mas ali estão
ainda no século da barbaria.
O principal gênero de cultura era o da cana de açúcar, da
39
qual se extraía também aguardente. Seguiam depois a mandioca,
feijão, milho, etc., e o café para o consumo somente local. O cacau dá
maravilhosamente, mas só se viam raros pés, sendo o pouco que se
consumia na província proveniente do Pará e Rio de Janeiro.
Eram os meios de transporte tão pouco proporcionados à
produção da Jacobina, que no ano anterior D. Ana mandara seis
grandes canoas cheias de víveres à Nova Coimbra no Paraguai para
sustento gratuito da guarnição. “Não sabia que destino dar aos
mantimentos, disse-nos ela, e preferi a perdê-los presentear o
governo”. E entretanto a Jacobina demora duas léguas do Paraguai, o
rio mais navegável do mundo! Disse-nos o vigário que a Criminosa
havia uma abundante mina de cobre, e mostrou-nos uma barra muito
pura desse metal tirado no lugar.
Estão os campos cheios de salitre.
A Habitação ficava agradavelmente colocada. Além da
morada de João Pereira leite e das oficinas adjacentes, à direita, trinta
ou quarenta casas cobertas de telhas cercavam um vasto pátio
retangular, mais para o comprido. No meio erguia-se uma igrejinha
com o seu campanário. Grandes armazéns, quatro engenhos de
açúcar, dois tocados a água e dois por bois, uma olaria, uma máquina
de socar milho, ranchos, tudo isso dava ao estabelecimento as
aparências de uma aldeia.
Pelo meio da habitação passa um córrego piscoso; jardins e
pomares a embelezam, vasto açude perto, belas matas e montanhas ao
longe tornam a paisagem sobremaneira pitoresca.
1827 — 5 de setembro. — “As 11 horas da noite partimos
com efeito para Vila Maria. Cheios de obséquios da parte do tenentecoronel e de sua sogra, levamos uma lembrança repassada de
gratidão. Para a viagem, mandou D. Ana carregar nossos animais de
mantimentos de excelentes qualidades.”
Hércules Florence afeiçoou-se de tal sorte à família Pereira
leite que poucos dias após, ou seja no dia 22 ainda de setembro de
1827 retornou a Jacobina com o fim especial de participar do
batizado de Leonardo, sétimo filho do coronel com apenas quarenta e
cinco dias de nascido, eis viera a luz do mundo no passado 7 de
agosto.
ORDEM MILITAR DE AVIS
Teve os seus primeiros estatutos datados de Coimbra em 13
de agosto de 1162, e é uma das mais antigas ordens honoríficas
portuguesas. Sempre destinada a galardoar feitos militares, foi criada
com o escopo de premiar os que valorosamente haviam pugnado pela
defesa do solo pátrio e em especial pela libertação da capital do
Reino. Transferida a sua sede para Évora, fixou-se depois em Avis.
Manteve-se durante mais de sete séculos a tradição deixada
pelo primeiro rei de Portugal, e se a evolução dos costumes lhe fez
perder o caráter primitivo, que se não coadunava com o espírito da
moderna civilização, conserva entretanto a Ordem de S. Bento de
Avis a sua feição essencial de constituir um honroso distintivo para
os oficiais militares que souberam distinguir-se por brilhantes feitos
de armas ou, ao menos, pela constante e nunca desmentida dedicação
pelo serviço e pela disciplina. ‘
Reformada pelo alvará de 13 de agosto de 1894, passou a
denominar-se Real Ordem Militar de S. Bento de Avis. Extinta em
1910, foi a ordem de Avis restabelecida pelo Decreto n. 3.384, de 25
de setembro de 1917, passando a intitular-se Ordem Militar de Avis.
No preâmbulo do decreto são enaltecidos os prestigiosos
antecedentes dessa Ordem, uma das que mais diretamente se
inspiravam “Nas tradições e grandezas do passado nacional li. O
Decreto n. 5.030, de 01 de dezembro de 1918, remodelou a Ordem de
Avis.
O Coronel de Milícia João Pereira leite mereceu do Governo
Imperial o reconhecimento do seu valor militar em Vila Maria ao
receber a sua inscrição como comendador da Ordem de Avis, através
do honroso título.
O ENGENHO DA ESTRADA REAL
VIRGILIO CORREA FILHO, na sua valiosa contribuição
para a História de Mato Grosso, intitulada “Pantanais
Matogrossenses” , págs. 66 a 70, estuda com muita precisão a vida e
o desenvolvimento da Jacobina. Diz o abalizado Historiador na sua
admirável monografia:
“Entre Cuiabá e Vila-Maria (Cáceres, atual), não seria
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“Não sabia que destino dar aos mantimentos”, ouviu-lhe a
declaração o forasteiro espantado, e “preferi a perdê-las presentear o
governo”.
Era Jacobina por muitos aspectos o modelo das fazendas dos
pantanais, embora boa porção das suas terras da serra de que tomou o
nome. (143).
menos intensa a infiltração forasteira, acaudilhada por afoitos
pioneiros.
Dos portugueses André Alves da Cunha, José Gomes da
Silva, Leonardo Soares de Souza, João Pereira Leite, derivaria
fecunda prole, de cujos esforços resultou a fundação de afamados
estabelecimentos agro-pastoris pelo Vale do Paraguai.
Do primeiro, (140) era filho, além de outros, o padre Manuel
Alves da Cunha, a cujo respeito Hercules Florence, (141) recolheu a
fama de ser um dos homens mais instruídos da província, da qual fora
presidente, eleito pelo governo provisório, por ocasião da
Independência.
Apesar de alçado pelos conterrâneos a postos de relevo,
jamais deixou totalmente a sua propriedade rural, no caminho de
Poconé a Cáceres.
Leonardo acampa em Jacobina, onde funda sítio, que teve
sua época de nomeada, por mais de meio século. Casado com Ana
Maria, e portanto genro de José Gomes da Silva, a sua filha única,
Maria Josefa de Jesus, recebeu por marido o sargento-mar João
Pereira Leite, natural de Braga.
Os seus afazeres militares não lhe permitiam permanência
ininterrupta em Jacobina, que Ana Maria se orgulhava de dirigir,
conforme os ensinamentos do fundador, que a deixou viúva.
“Não quero que meu genro se ocupe da lavoura, teria
confidenciado a Florence, isto é bom para mim, que nasci no meio
dos trabalhos do campo”.
Na opinião do sagaz viajante, era a mais rica fazenda da
província, tanto em área como em produção.
Pelos seus campos sem fim, avaliava-se que pastassem mais
de 60.000 reses.
Para o custeio de tão numeroso rebanho, Jacobina dispunha,
em 1825, de duzentos escravos dos dois sexos e sessenta crianças,
cuja energia se aplicava igualmente nas roças, que abrangiam
canaviais, plantações de mandioca, feijão, cereais e café, para
abastecimento dos núcleos circunjacentes.
Por vezes, sobejava de tal maneira a colheita que se fazia
mister enviar a Coimbra, embora sem vantagem pecuniária, como
registrou Florence ter ocorrido no ano anterior, quando Ana Maria
despachara seis grandes canoas acoguladas de víveres para o Forte,
destinados ao sustento gratuito da guarnição.
O regime de trabalho adotado em Jacobina, como nas
demais fazendas, que lhe imitaram o exemplo, resultava das próprias
condições geográficas e sociais causadas pela imensidão territorial de
escassa densidade demográfica.
Em contraste com as sesmarias da região serrana,
consideradas de lavoura, onde não costumavam ultrapassar de uma
légua quadrada, e comumente abrangiam apenas área compreendida
entre 1.000 a 3.000 hectares, pela estimativa moderna, a vastidão dos
pantanais, com grande parte submersa durante os meses das cheias,
exigia correspondente zona de terreno inacessível às inundações, que
abrigasse o gado egresso das baixadas.
Generalizou-se como unidade territorial nessas paragens a
sesmaria de uma légua de frente por três de fundo, ou equivalente a
13.068 hectares.
Raramente, porém, cada proprietário rural contentar-se-ia
com uma única, indício de insignificantes haveres.
Adquirida, mediante concessão do governador, a primeira
sesmaria que servisse de núcleo, em torno dela seriam requeridas as
terras contíguas, até que perfizessem conjunto grandioso como o de
Jacobina, cujo proprietário se vangloriava de possuir “tantas terras
quantas o rei de Portugal”. (144).
Ademais, os limites mencionados abrangiam habitualmente
superfície muitas vezes maior que a devida quando não se
processasse a medição de acordo com os dispositivos legais.
A facilidade na aquisição por título gratuito de Glebas
Imensas cujas divisas os vizinhos longínquos respeitavam, por não
lhes minguar terreno bruto, à disposição de quem o pretendesse
fecundar pelo trabalho, o transbordamento periódico dos rios, que
tornavam por alguns meses inabitável faixa larga das várzeas
submersas, explicam mais do que a ambição de domínio ilimitado, a
formação de latifúndios, afeiçoada às peculiaridades regionais.
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ECONOMIA LATIFUNDIARIA
Equivaliam, sem dúvida, a prova de força e poderio dos seus
mantenedores.
No ermo, vigiados pelo selvícola bravio, (145) não havia
lugar para os fracos e os solitários, ainda que destemidos.
Multíplices perigos abreviavam-lhes a existência, cuja
conservação exigia a composição de forças coordenadas pela
solidariedade humana.
Somente aos condutores de homens que evidenciassem
capacidade incontrastável de agremiá-los e dirigir, seria dado povoar
o deserto, com o centro de interesse assinalado pelo seu próprio
estabelecimento agropastoril.
Deviam possuir e exercitar altas qualidades de comando,
cuja carência lhes seria fatal.
Daí se causou a espontânea formação senhoril, que repetia
em um recanto do Brasil imperial aspectos anacrônicos de
feudalismo.
Assim, Jacobina, bem que relativamente mais próxima da
Capital do que outra qualquer propriedade semelhante, diligenciava
enquadrar-se no regime de economia confinada, imposta pelas
circunstâncias de núcleo povoado r, cujo governo particular por vezes
dispensava, quando não rechaçava, a assistência oficial.
Os paióis, acogulados de produtos agrícolas, atendiam as
solicitações dos consumidores, não raro longínquos.
As moendas de cana, torneadas de jatobá, ou análoga
madeira de Lei, pelos seus carapinas, competiam com a maquinaria
simples, em que se enformava a rapadura, o açúcar de barro, ou
alambicava a aguardente:
O algodão arbóreo, rim-de-boi, Gossypium brasiliensis,
fornecia matéria-prima aos teares manobrados por hábeis escravos,
que teciam os panos destinados ao uso geral.
Seleiros e forjadores cuidavam dos seus ofícios não raro
acumulados em um só operador, como igualmente alfaiates e
carpinteiros.
Era um povoado que dispensava artigos de importação, além
do mínimo indispensável, constituído principalmente por sal,
ferramentas, bebidas e tecidos finos adquiridos com diminuta parcela
proveniente da exportação de gêneros alimentícios e de gado em pé.
O saldo anual concorria para acrescer o prestígio do
proprietário, que podia ufanar-se de governar o seu domínio à
maneira dos barões feudais, com a mesma supremacia na vizinhança
e pompas em cerimônias comprobatórias da sua opulência.
As festanças do Espírito-Santo, em particular, maravilhavam
a assistência, pelo esplendor, comparável ao de Vila Maria, quando
não lhe levassem vantagem.
Por vários dias, alternavam-se os atos sagrados com os
profanos, “havendo missa cantada, corridas de cavalos, touros, as
quais concorria grande multidão de povo”, consoante relembrou J. de
Mesquita, ao desdobrar a genealogia de sua gente. ( 147).
Em outras oportunidades estadeava-se-lhe a influência
política, rompente de episódios análogos ao da proteção concedida ao
Dr. Sabino Vieira (148) ou da defesa do distrito contra o contágio da
varíola, que se alastrou pela capital e circunjacências, após o regresso
das forças expedicionárias de Corumbá, onde adquiriram o germe
morboso. (149).
De Jacobina irradiaria a gente aventureira, que tomou conta
dos pantanais, entre o Taquari, o Paraguai e o Negro, onde se
afazendou (150) o genro de João Pereira Leite, de nome Joaquim José
Gomes da Silva” “Menino Diabo”, em moço, e barão de Vila Maria,
por decreto de 21 de junho de 1862.
Ao longe, o neto de André Alves, José Alves Ribeiro, ou
Juca da Costa, marido da viúva de João Pereira Leite, Maria Josefa de
Jesus, por evitar malignas conseqüências da sua participação na
Rusga de 1834, preferiu exilar-se voluntariamente no Vale do
Taboco, onde se apossou de área, cuja legitimação abrangeria
244.023 hectares.
Na mesma região estabelecer-se-iam os descendentes de
Estêvão Alves Correa, lavrador em Quitanda, nas imediações de
Rosário-Oeste, aos quais já não agradaria a labuta naqueles rincões
sobranceiros às enchentes, preteridos pelos pantanais do Aquidauana
e Miranda.
Resolução igual encaminhou para as margens do São
Lourenço, no trecho em que lhe foi o título arrebatado pelo Rio
Cuiabá, (151) e do Piquiri, o Major Metelo, possivelmente desviado
de anteriores atividades mercantis.
A estrada boiadeira pela qual enviava o seu gado aos
compradores Uberabenses estendia-se para Leste, sem lhe transpor os
limites da propriedade, até alcançar as escarpas do planalto,
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e prosseguia em rumo do Taboado na travessia do Paranaíba.
Despejavam-se de Cuiabá, como de Vi Ia Bela, onde se
fixou o primeiro Estêvão Alves Correa, oriundo de Portugal, os
indivíduos destemidos, a quem os pantanais proporcionavam ensejo
de aplicação eficaz de suas energias.
André A. da Cunha, antes de falecer a 2 de agosto de 1973,
casou duas de suas filhas com os portugueses Manuel Antônio Nunes
da Cunha e Francisco da Costa Ribeiro, cujos descendentes se
afazendaram nos pantanais entre os rios Paraguai e Cuiabá.
Hércules Florence nasceu em Nice, a 29 de fevereiro de
1804. Achava-se no Rio de Janeiro, quando o Cônsul Langsdorff o
convidou para acompanhar a comissão que organizara, por conta do
governo russo, para explorar os sertões brasileiros. Seguiu as pegadas
bandeirantes até Cuiabá, conheceu Cáceres e continuou pelo Rio
Arinos e Tapajós, em rumo de Belém. Desenhista hábil e escritor
consciencioso, a narrativa do que observou meticulosamente mereceu
tradução do Visconde de Taunay, que a estampou na Revista do
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, com o titulo de: Esboço
da viagem feita pelo Sr. de Langsdorff no interior do Brasil, desde
setembro de 1825 até março de 1829”. Em 1941, o Dr. Guilherme e o
professor Paulo Florence, dignos filhos do artista, promoveram
reedição da sua obra, que saiu a lume com o título de Viagem Fluvial
do Tietê ao Amazonas, com i lustrações do próprio autor,
proporcionadas pelos desenhos em que ia esboçando aspectos
interessantes do caminho percorrido. (142) H. Florence — Viagem.
Registrou Ricardo Franco em seu Diário de Reconhecimento
do Paraguai: “Em 16 de outubro de 1786, saímos de Jacobina, roça
do dito Leonardo, légua e meia andamos de leste e outra légua e meia
a quase norte, atravessando por formados Vales a dita serra até
sairmos por uma bocaina no fim dela; tem esta serra seis léguas e é
altíssima, é a mesma que acompanhando o Paraguai desde as suas
cabeceiras pelo lado do Nascente vai terminar no morro Escalvado
com mais de 60 léguas de extensão de Norte a Sul, formando uma
formosa Cordilheira denominada serras do Paraguai. Enfim, tendo
cortado esta serrania e saído no campo com mais légua
e meia e cinco do caminho total fomos pousar em Vila Maria”.
É a comparação que H. Florence ouviu e registrou.
Decorrido mais de meio século, coube a vez a F.A. Pimenta Bueno, a
quem o governo imperial incumbiu de missões técnicas em Mato
Grosso, de renovar informações estonteantes acerca de Jacobina em
cuja direção e posse então se achava o segundo filho de João Pereira
Leite.
Em sua Memória Justificativa consignaria o engenheiro
militar, por volta de 1880: “Dentre os criadores da província, os mais
importantes são: 1º o Sr. João Carlos Pereira Leite, dono de uma área
de 240 léguas quadradas e 600.000 cabeças de gado, na maior parte
alçado, por falta de cavalos”. O 2º é o Sr. Major Metelo, cuja fazenda
se estende das margens do São Lourenço até o Piquiri e possui
também alguns milhares de cabeças de gado.
Somente no crepúsculo do Império alcançou-se a
pacificação definitiva dos bororos, que tinham recentemente
destruído a residência do fazendeiro Figueiredo, nas imediações do
Ichuzinho e exterminado a sua família, enquanto ele mourejava na
roça com os trabalhadores. .
As peças metálicas só foram introduzi das, quando em meio
século conforme declarou A. Leveger, Presidente da Província em
seu relatório de 13 de janeiro de 1852: “Ha pouco tempo que apenas
dois ou três engenhos principiaram a fazer uso de moendas de ferro”.
José de Mesquita, em Nobiliário Matogrossense, menciona a
descendência de André Alves da Cunha, José Gomes da Silva,
Leonardo Soares de Souza, João Pereira Leite, e proporciona valiosas
informações, de que se utiliza copiosamente este resumo.
O Dr. Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira, derrotado
na revolução baiana que chefiou, foi condenado por sentença de 2 de
junho de 1838, à prisão, comutada por degredo no Forte do Príncipe
da Beira. A caminho de Vila Bela, adoeceu na vizinhança de
Jacobina, onde encontrou cordial hospitalidade e proteção. Oculto por
algum tempo, é informação registrada nas datas Matogrossenses de
Estêvão de Mendonça, as autoridades não querendo, ou mesmo não
podendo abrir luta com o major João Carlos, de bom ou mau grado
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fizeram vista grossa sobre o caso e em Jacobina continuou a
permanecer o Dr. Sabino, exercendo com muita competência a sua
profissão de médico, constantemente consultado por enfermos de
toda a província”.
Datas — 1º vol., pág. 293.
(149) — Como é sabido, a retomada de Corumbá, a 13 de
junho de 1867, enlutou—se com o contágio de varíola que as forças
expedicionárias vitoriosas levaram de regresso, para Cuiabá, donde
irradiou para circunvizinhança. Ciente da aproximação da epidemia
horrível, João Carlos barrou a passagem na estrada, pela qual não
mais transitou viajante algum de Cuiabá. E assim livra Cáceres da
terrível calamidade.
(150) — A Fazenda Firme legitimidada a 27 de junho de
1899 acusou a área de 176.853 hectares.
(151) — Ver, na Revista Brasileira de Geografia, ano IV n. I
— 1942, o artigo: Cuiabá, afluente do Paraguai.
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GALERIA DE ARTE
Pendiam das coloniais paredes do antigo solar de Jacobina, à
margem da estrada que ligava as minas do Cuiabá a Vila Bela, sede
da Capitania de Mato Grosso, artísticas telas, retratando as figuras
dos mais eminentes moradores daquele engenho, que, ao seu tempo,
foi o mais importante estabelecimento rural dos lindes fronteiriços.
Infelizmente, a história não registrou o nome dos seus
autores, porquanto as telas não foram assinadas. Leonardo Soares de
Souza, com ares de Sr. feudal, aparece com as vestes da Ordem de
Santiago, da qual era Comendador, num fundo escuro, tão a gosto da
época, quase sem destaque para a sua efígie. O Major João Carlos
Pereira Leite, neto do primeiro, pela linhagem materna, aparece já
grisalho, sentado numa poltrona, braço direito apoiado sobre a mesa,
tendo na mão carta endereçada à sua genitora Maria Josefa de Jesus
Leite. Pedro Nolasco Pereira Leite aparece na terceira tela, num
inStante de sua mocidade esplendorosa, prestes a conquistar a láurea
de primeiro matogrossense a doutorar-se em medicina pela faculdade
do Rio de Janeiro. João Pereira Leite, Cel. de Milícias, Comandante
do Destacamento Militar de Vila Maria, por dilatados anos, aparece
imponente na quarta tela, com o seu uniforme de gala, ostentando a
condecoração da Ordem de Avis. É bem uma figura da era
napoleônica e foi a única das quatro telas que conseguiu vencer a
ação implacável das travessuras infantis e dos tempos.
Coube-me em sorte encontrar um pintor de rara
sensibilidade que não somente retocou a tela de João Pereira Leite
como fez novas para os outros três antepassados mencionados, e é
bom que eu registre para a história o seu nome e o seu currículo.
Trata-se de VICTOR HUGO ZAMORA, filho do diplomata
equatoriano Ovidio Zamora e da destacada dama da sociedade
Peruana Maura Bradwait; nasceu em 24 de setembro de 1940, teve
seus primeiros estudos na República do Equador donde, depois de
cursar dois anos de Seminário, viajou para a República da Argentina
onde se graduou em Belas Artes e Jornalismo.
Após sua graduação, dirigiu-se a vários paises latinos
americanos recopilando dados e temas de informações folclóricas,
tanto para suas pinturas como para seus artigos relacionados
LEONARDO SOARES DE SOUZA
Co-fundador de Vila Maria, Atual Cáceres.
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JOÃO PEREIRA LEITE
Coronel de Milícias da Ordem de Cristo e de Avis
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PEDRO NOLASCO PEREIRA LEITE
Doutor em medicina
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com arte, e radicou-se na república da Venezuela, onde permaneceu
pelo tempo de dez anos. Após apresentar várias exposições em
Caracas, saiu pela segunda vez a visitar todos os paises sulamericanos, aproveitando nesta ocasião para apresentar exposições de
arte nos paises de sua predileção, entre os quais está o Brasil.
Entre as destacadas personalidades que foram retratadas pelo
artista estão o ex-Presidente da República, Emílio Garrastazu Médici,
o nosso atual Presidente Ernesto Geisel, o mundialmente conhecido
escritor brasileiro Jorge Amado e outras personalidades de destaque
internacional.
Após apresentar várias exposições em distintas cidades do
Brasil, fascinado pelas belezas Matogrossenses que são fontes de
inspiração para suas obras, resolveu fixar residência na terra de
Rondon.
Vitor Hugo sentiu-se feliz quando deu os últimos retoques
na tela relativa ao meu trisavô João Pereira Leite. Eu o realizei
conforme desejei, disse-me o artista, que fez reprodução idêntica da
tela do meu tio bisavô Pedro Nolasco Pereira Leite, com base na
fotografia da tela primitiva tirada, faz alguns anos, pelo meu mano
José Venâncio. O Major João Carlos Pereira Leite e Leonardo Soares
de Souza, que subscreveu a ata de fundação de Cáceres, foram
reproduzidos de modo diferente do original, pois somente os seus
bustos apareceram nas novas telas. Também a tia bisavó Maria da
Glória Pereira Leite, mais tarde Baronesa de Vila Maria, mereceu
bela reprodução de Victor Hugo, de uma das fotos que me foram
ofertadas pela gentileza do parente e amigo, Nheco Gomes da Silva,
abastado fazendeiro no pantanal corumbaense.
JOÃO CARLOS PEREIRA LEITE
Grande propuguinador do desenvolvimento de Vila Maria
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Pedro Nolasco Pereira Leite
Luís-Philippe Pereira Leite e
Vitor Hugo Zamorra
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Major João Carlos Pereira Leite
Baronesa de Vila Maria
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Cel. João Pereira Leite
Leonardo Soares de Souza
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BARONESA DE VILA MARIA
O BARAO DE VILA MARIA
Escrevendo sobre os primórdios de Vila Maria, não é
possível esquecer o segundo titular matogrossense na ordem
cronológica da criação dos respectivos baronatos. Realmente, por
decreto de 21 de junho de 1862, o governo imperial houve por bem
outorgar a Joaquim Gomes da Silva, fazendeiro e lavrador em
Albuquerque, província de Mato Grosso, o título nobiliárquico de
Barão de Vila Maria.
José de Mesquita, que é o roteiro e mestre nosso na
elaboração deste modesto trabalho, acentua, de par com o Arquivo
Nobiliárquico brasileiro, de Vasconcelos, que o brasão d’armas do
Barão de Vila Maria é o mais característico e original pela feição
regionalista que o reveste e assim descrito na mencionada obra, à
pág. 540:
“Em campo de ouro, um índio ao natural cortando a cana de
açúcar com podão de azul, em um canavial de verde. Campanha azul
carregada de piraputanga (peixe) de prata, com barbatanas e cauda de
goles. Divisa: “Forum extendere factis hoc virtutis opus”.
Comenta, judiciosamente, José de Mesquita que, no armorial
da nobreza brasileira certo nem sempre se ostentaria com tanto acerto
e expressão o simbolismo vivo do trabalho agrícola casado a imagens
da terra-mãe, pois o Barão de Vila Maria não fez daquelas figuras
insculpidas no seu brasão meras idealizações destinadas a atrair a
atenção e sim demonstrou, com rude sinceridade, que fora no amanho
do solo, na faina nobilitante do trabalho que se solidificara a sua
fortuna e se alicerçara o seu prestígio.
Prossegue José de Mesquita na sua monumental genealogia,
que filho legitimado do P. Joaquim José Gomes da Silva, (24) Carta
de confirmação de legitimação do extinto Tribunal do Desembargo
do Paço, de janeiro de 1823, personalidade de destaque nos dias
agitados que precederam e se seguiram à Rusga, teve o depois Barão
de Vila Maria por mãe Rosa Thereza Inocência do Nascimento, e
uma única irmã de nome Augusta Amália Carolina do Nascimento.
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Perdendo o pai ainda jovem, em 1839, entrou com sua irmã,
na posse do pequeno espólio constituído de alguns escravos, móveis,
livros e 305$ de “diárias de ser Deputado provincial” que a Fazenda
ficara devendo ao seu pai.
É o que consta do pequeno inventário mandado proceder em
12 de Março desse ano, pelo juiz de órfãos e ausentes, Joaquim
Mendes Malheiros, no qual figura como Curador aos menores
Fernando de Barros Figueiredo. Nesse mesmo ano Gomes requeria
no juízo eclesiástico dispensa de impedimentos a fim de casar com
sua prima pela parte materna, Benedicta Justina Fausta de Campos,
de quem logo se enviuvava, pois a mesma faleceu, a 6 de agosto de
1846, em Poconé, deixando um filho de 5 anos de nome Firmino.
Entregou-se o jovem Gomes à vida de negócios, e viajando
constantemente para Cáceres a serviço de sua profissão, tinha ocasião
de fazer demoradas escalas no famoso sítio da Jacobina, então de
propriedade de sua prima, Dª Maria Josepha de Jesus Leite, viúva do
Coronel João Pereira Leite e filhado Coronel de milícias Leonardo
Soares de Souza, que fora casado com D. Anna Maria da Silva, irmã
do P. Gomes.
Com pouco tempo as relações de parentesco e as
continuadas paradas no sítio estabeleceram uma recíproca inclinação
entre o moço e sua prima em segundo grau, Maria da Glória Pereira
Leite, ainda muito criança nesse tempo, pois nascida a 22 de abri I de
1831, teria, então por volta de 1844 ou 45, pouco mais de 13 anos.
O romance desse enlace, que a tradição oral conserva em
ambos os ramos da família, valeria contado numa forma graciosa de
novela daqueles tempos ainda aromados de um perfume das eras
medievais da cavalaria.A família Pereira Leite,de nobre linhagem,
cujos membros tinham honras de fidalgos da casa imperial, não sorria
a perspectiva daquela união e daí a oposição, velada de começo, e,
após tenaz e franca, oposta pela mãe e irmãos de Maria da Glória, aos
desejos do “Minino Diabo” como, pelas suas aventuras, era chamado
Joaquim José Gomes da. Silva.
Tomou a impugnação caráter tão sério ante a insistência do
pertinaz enamorado, que não tardou se lhe opusessem os parentes de
Maria da Glória a passagem pelo terreiro da Jacobina..
O amor, porém, vence tudo e contornadas as dificuldades
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por um truque engenhoso que aos jovens se deparou como única
saída ao caso, a 29 de janeiro de 1847 se aliavam pelos laços
conjugais nesta cidade (25) “Em a mesma data requeriam os nubentes
Joaquim José Gomes da Silva, viúvo, e Maria da Glória Pereira Leite,
filha do finado Coronel Pereira Leite dispensa do impedimento por
parentesco afim de se casarem.
Gomes, dotado de extraordinária atividade, daqui seguiu
para a zona sul onde, com esforço e inteligência fora do comum,
fundou a sua fazenda do “Firme”, tradicional propriedade que,
dominando a solidão dos pantanais, vale ainda hoje em poder dos
seus descendentes o mais nobre atestado de sua capacidade e tino
administrativo. Acerca desta fazenda, fundada em 1847, convido o
leitor a ler o interessante estudo “A Pecuária nos pântanos de Mato
Grosso”, da lavra do Dr. Barros Maciel, que contém ligeiro histórico
do “Firme” e do papel que representou o seu fundador na fase da
guerra contra o Paraguai, vendo os seus campos tomados pelo invasor
a fim de suprir-se de gado e donde “arrostando todos os obstáculos
naturais, vencendo pântanos, vadeando rios, e desafiando imensos
sertões e a inclemência do tempo, foi levar à Corte, em 1865, a
notícia da invasão de Mato Grosso, pelas tropas de Solano Lopes”.
Faleceu o Barão de Vila Maria em Montevidéu, a bordo do
transporte “Madeira”, que o conduzia de regresso a Mato Grosso, a 4
de abril de 1876.
Era político militante, filiado ao partido Conservador, e
ocupou vários cargos de destaque na administração provincial.
Maria da Glória Pereira Leite, Baronesa de Vila Maria,
nascida na Jacobina do casal João Pereira Leite e Maria Josepha de
Jesus Leite, veio a falecer na cidade de Corumbá em 22/09/1903 e os
seus restos mortais se encontram no cemitério local.
A Sra. Maria Mercedes Gomes da Silva Figueiredo teve a
nímia gentileza de me ofertar .foto de bela imagem da N. S. das
Dores, que pertenceu à Baronesa de Vila Maria, acompanhada dos
seguintes dizeres: “Esta bela pintura a óleo de Nossa Senhora das
Dores pertenceu à Baronesa de Vila Maria, foi-lhe doada por Frei
Mariano, da ordem dos Franciscanos e um dos heróis da guerra do
Paraguai. Ele era venerado numa das salas da Fazenda Firme, a
primeira estância da imensa zona pantaneira a qual pertencia ao
Barão de Vila Maria, esposo da já referida Baronesa.
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Após o falecimento de ambos ficou a estância para o filho
do casal, Joaquim Eugênio Gomes da Silva (Nheco) e sua esposa, Da.
Maria das Mercês Gomes da Silva.
Este quadro ou melhor tela os acompanhou por toda vida,
somente após o falecimento da minha avó, nora da Baronesa, ele me
foi entregue nos seguintes termos: Sua avó recomendou que após a
sua morte ele deveria ser seu. Fiquei bastante emocionada e o recebi
com toda devoção e carinho. Foi-me grande honra ser distinguida
com esta imemorável relíquia dos meus antepassados, pois sou
bisneta da Baronesa de Vila Maria. Sou Corumbaense, resido em
Corumbá, casei-me com um rapaz Cuiabano, Armindo Pinto de
Figueiredo (médico).
Ass. MARIA MERCEDES GOMES DA SILVA
FIGUEIREDO.
O Nheco Gomes da Silva, conceituado criador da
Nhecolândia, também descendente dos Barões de Vila Maria,
também ofereceu-nos interessantes subsídios, afirmando:
“O Barão de Vila Maria (José Joaquim Gomes da Silva)
descendia dos Pereira Leite, de Cáceres. Era bastardo, pois seu pai
era o padre Gomes, irmão de D. Ana Maria que por sua vez, era filha
de José Gomes da Silva.
Os Pereira Leite não apoiavam o namoro da filha de Nhanhá
da Jacobina, Maria da Glória. com o primo pobre José Joaquim, que
mais tarde vêm ser os Barões de Vila Maria.
O Barão de Vila Maria tinha o apelido de Menino Diabo por
ter urinado no cálice do vinho do padre, quando sacristão, e bebido o
vinho.
Contava vovó Xêxê, que a Maria da Glória, de combinação
com José Joaquim, fazendo corda dos lençóis, desceu o sobrado.
galgou a garupa do matungo que o noivo cavalgava e sumiram na
escuridão.
Foi um escândalo.
O Major João Carlos, homem austero, caudilho da época,
com pompa de nobreza, não admitia tamanha ofensa para a família.
Mandou uma escolta para capturar a irmã e liquidar com o
atrevido.
Porém quando esta os alcançou em Poconé, já encontrou os
noivos casados.
José Joaquim Gomes da Silva se estabeleceu em Corumbá.
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Com bastante trabalho e tino comercial, logo se faz dono de
grandes propriedades rurais.
Na época da guerra do Paraguai ele possuía as Fazendas
Palmeiras, Firme, Barranco Branco e Piraputanga, tendo sido o
primeiro concessionário das minas do Urucum.
Com a invasão dos paraguaios, comandados por Vicente
Barrios, Corumbá foi tomada, saqueada e os que não conseguiram
sair, foram presos e levados para Assunção.
O Barão de Vila Maria é quem, após uma viagem de 3 a 4
meses, levou à corte a notícia que a província havia sido ocupada.
A capa duma Revista da Semana, da época, estampava o
Barão montado numa égua, levando a triste notícia da invasão
Paraguaia.
Suas fazendas foram ocupadas.
Ele perdeu tudo com a guerra.
Da fazenda Firme um vapor paraguaio chamado Japorá
transportou todo o gado que pôde para o Paraguai.
Dos filhos do Barão de Vila Maria sobressaiu o Joaquim
Eugênio Gomes da Silva, que tinha o apelido de Nheco. Este é o meu
avô paterno.
Com a guerra do Paraguai o Barão perdeu tudo e morreu
muito moço.
O Nheco, meu avô. é que desbravou novamente, fundou e
povoou a Nhecolândia.
Dos filhos do Nheco o que mais se salientou por espírito
público, filantropismo, patriotismo, coragem física e cívica, foi o meu
pai, Paulino Gomes da Silva.
CASO DO NANICO
Nanico era o apelido de um capataz do Barão que ficando
revoltado em ver a Fazenda Firme ocupada por paraguaios provocou,
entre eles, numa noite escura, um entrevero.
Ele conseguiu entrar na casa onde se alojavam os
paraguaios. Foi vagueando e saltando e gritando, em guarani,
xingamentos que enfureciam os inimigos.
O pânico foi criado. Estes foram se esfaqueando até que
verificaram que brigavam entre eles, pois Nanico já bem mutilado
71
conseguiu sair da casa, alcançar o cavalo e os dois companheiros que
não quiseram participar do entrevero.
Estes levaram Nanico para o acampamento dos foragidos da
Fazenda Firme, que ficava do lado de Coxim.
Anos após, Nanico perambulava pelas ruas de Corumbá
como um desiludido, bêbado, sem lar, e quando o interpelavam
porque andava assim, se tinha sido da confiança do Barão, por que
não procurava outro patrão? Levantando o olhar cansado, como para
recordar, respondia: Sim, patrão era aquele, o que sobra por aí são
uma éguas.
Muitos anos mais tarde perguntaram a D. Geraldo, um
paraguaio velho, em Corumbá, se ele sabia a história do Nanico.
Sim, yo si, pero Nanico não era um hombre, era o diabo.
Seria interessante salientar as qualidades másculas e
positivas desses varões para mostrar às novas gerações que o
caminho certo é a luta, a dedicação e o amor ao próximo.
Não é com revolta e inativo que se consegue o que se deseja.
Para se conseguir é bom lembrar a máxima positivista de
Augusto Conte: “O Amor por princípio, a ordem por base progresso
por fim.”.
A proverbial gentileza do Nheco, fiquei devendo algumas
fotos de grupos nos quais aparece a Baronesa, fotos que me valeram
reproduzi-Ias em tela, g(aças ao pincel do artista Peruano Vitor Hugo
Zamora,que lhes pôs leve sorriso nos lábios, pois que a achou muito
sizuda nas fotos que lhe serviram de modelo. Também alguns
destaques de figuras ilustres da linhagem dos Barões de Vila Maria,
figuras mais recentes que enobrecem os seus antepassados. Assim é
que o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro de 07/10/1956, sob o
título “Centenário de um Pioneiro”, escrevia:
Quando, faz um século nasceu Joaquim Eugênio Gomes da
Silva. Corumbá estava apenas pressentindo o surto que iria dar-lhe
fama, depois das cruciantes provações, a que se viu submetida a sua
população. A situação privilegiada, que lhe confere o Paraguai, ao
abrir-se pelos afluentes, em ampla rede fluvial, alongada por distantes
rincões, escassamente lhe aproveitava, à mingua de tráfego, impedido
à jusante do Fecho dos Morros. Apenas transitavam, pela “excelente
via de comunicação,
72
73
os batelões que transportavam mercadorias e pessoal para o Forte de
Coimbra, ou regressavam a Cuiabá, quando não infletiam para
Cáceres. Mas em 1833 o Water-Witon sob o comando do capitão Th.
Jefferson Page, conseguiu licença do governo paraguaio para
ultrapassar a faixa fronteiriça, pois que se achava incumbido de
empreender observações hidrográficas nos tributários platinos.
Para completar os resultados colhidos até a povoação que
ainda trazia o nome do seu fundador — Albuquerque — voltaria em
1859, com menores navios, Alpha, que o levou a Cuiabá e Argentina.
Nesse interregno, de pouco mais de um qüinqüênio, ocorrências
memoráveis relacionaram-se com o desenvolvimento futuro da
região.
Primeiramente, decreto de 11 de abril de 1853 criou a Mesa
de Rendas, como auspicioso ensaio de providências mais eficazes,
que não tardariam a mostrar o empenho do Império em atender
àquela região fronteiriça.
Era prematura, todavia, a iniciativa de fiscalização de
inexistente comércio estrangeiro. Ao revés, emborrascavam-se os
horizontes ao Sul, onde a desastrada missão confiada a Pedro Ferreira
necessitava do reforço em Mato Grosso. Como lhe fosse
recomendado prestasse o auxílio que se fizesse necessário, o
Presidente da Província, Augusto Leverger, não titubeou em mudar
temporariamente a sede governativa, pois que era Presidente da
Província, para o Forte de Coimbra, onde se alojou em uma pequena
sala que servia ao mesmo tempo de secretaria, sala de ordens e dois
aposentos, o maior do qual tem vinte palmos em quadra. Distanciado
de Cuiabá, por dez dias de descida, em canoa escoteira, que, de
arrepio, consumiria o dobro de tempo, assinalou que não posso
receber da Capital, em prazo menor de 30 a 40 dias, resposta a
qualquer ofício meu.
Aí. penou, como se estivesse em campanha, por meses
martirizantes, conforme explicou, a 2 de janeiro de 1856, ao receber
pedido de informações do ministro Nabuco de Araújo.
“Há quase um ano que estou forte, com um punhado de
militares, sempre dispostos a marchar de um dia para outro para este
ou aquele ponto”. Embora se amainasse a ameaça de luta, ainda
Leverger permaneceria no reduto incômodo até novembro, quando
regressou a Cuiabá.
Já lhe tinha, então, chegado ao conhecimento a notícia
74
do Tratado de 6 de Abril, que franqueou o Paraguai aos navios
brasileiros. Mercê da permissão obtida, o vapor de guerra Maracanã
sulcou a extensa via fluvial até Cuiabá, acompanhado pelo mercante
Corça. Zarpou da Guanabara a 28 de outubro, mas somente a 24
seguinte alcançou Assunção. Em marcha morosa, à falta de práticos
do rio e paradas necessárias para fazer e tomar lenha, escoaram-se
meses cansativos de avanço pelo rio, em que os navios brasileiros
estreavam a navegação. Afinal, fundou Maracanã em Melgaço e,
aproveitando o repiquete, atingiu o porto de Cuiabá, a 7 de março,
precedido pelo Corça, de menor caIado, que a 20 de fevereiro
inaugurou a extensa linha navegável, distendida do Rio de Janeiro à
Capital de Mato Grosso. Para que, porém, se tornassem efetivos os
dispositivos ajustados entre os plenipotenciários, fez-se mister o
complemento interpretativo, de 12 de fevereiro de 1858, que
possibilitou o trânsito de embarcações brasileiras pelo rio no trecho
sob jurisdição lopesina.
Corumbá começou por essa época a prosperar, atraindo
negociantes estrangeiros, que lobrigaram as vantagens decorrentes da
abertura de porto à navegação.
De minguada duração, entretanto, manteve-se-lhe o
florescimento, que a invasão desencadeada por Solano Lopes refreou.
A ocupação militar deportou-lhe, como presa de guerra, a população
válida, que não conseguira atropeladamente retirar-se para Cuiabá, e
confiscou-lhe todos os haveres.
Entre os prejudicados, incluiu-se Joaquim José Gomes da
Silva, a quem decreto de 21 de junho de 1862 concedera o título de
“Barão de Vila Maria”. O seu brasão ostentava em campo de oiro um
índio ao natural cortando a cana de açúcar com um podão de azul, em
um canavial de verde, consoante assinalou J. de Mesquita. Assim
demonstraria o seu apego à vida rural, que forcejou por nobilitar em
Corumbá, ao estabelecer-se no pantanal próximo.
Enganara-se de princípio, ao julgar sobranceiro às
inundações o local escolhido, donde enchente maior do que as
observadas anteriormente o impeliu para o interior, cerca de quatro
léguas da margem esquerda do Paraguai, no local que designou pelo
expressivo título de “Firme”.
Não tardou, resoluto, em montar o seu estabelecimento
pastoril que prosperava, quando sobreveio a catástrofe, em que
75
Maria da Glória Pereira Leite
Baronesa de Vila Maria
76
soçobrou. Nessa ocasião, recordaria J. de Barros Maciel, “arrostando
todos os obstáculos naturais, vencendo pântanos, vadeando rios, e
desafiando imensos sertões e a inclemência do tempo, foi levar à
Corte, em 1865, a notícia da invasão de Mato Grosso pelas tropas de
Solano Lopes”.
Não mais reconstruiria a sua fazenda assolada pelos
vaqueiros da usurpação, que lhe danificaram as benfeitorias, depois
de se locupletarem com os resultados colhidos facilmente pelo
preparo de carne seca, sebo, couro, e gado em pé, enviado para
Assunção.
Antes que pudesse revê-Ia, sucumbiu, “a bordo do transporte
Madeira, que o conduzia de regresso a Mato Grosso, a 4 de Abril de
1876”.
Competiria a um dos filhos, Joaquim Gomes da Silva,
Nheco de apelido, nascido a 22 de Setembro de 56, em Cáceres,
retomar a iniciativa arruinada pela guerra.
Esposando, em 1879, D.Maria das Mercês, filha do casal
Francisco Leite de Barros e D. Antônio de Arruda, apressou-se em
reivindicar a propriedade rural, que lhe coubera por herança.
Destemeroso, arriscou-se aos perigos de toda a laia, que
avultavam naquelas brenhas, cujo abandono por mais de uma década
fortaleceu o domínio das onças, cujo atrevimento perseguia a criação
até nos currais e chiqueiros. Com o regresso do último contingente de
Lopes, despovoara-se o “Firme”, cujo gado fora dizimado
implacavelmente. O primitivo sítio entaperara, sufocado pela
vegetação. Nenhum indício mais havia de criação mansa.
Não obstante, Nheco decidiu afazendar-se naquela gleba,
que se ligava a Corumbá por meio de via mista de comunicação. Dáse ao porto do Conde, se as águas amantavam as baixadas, ou ao da
Manga, à margem esquerda do rio Paraguai, quando o terreno, já
liberto da inundação, permitisse o trânsito seguiam os viajantes, a
cavalo ou em carro de bois. Acomodavam-se, com a sua bagagem,
em canoa, mais ligeira, ou batelão de maior porte, ou chalana, para os
três dias de marcha morosa, de arrepio à corrente. Por acaso,
poderiam tomar algum navio dos que faziam a linha para
Montevidéu, se passasse na ocasião. Comumente, porém, recorriam à
zinga e ao remo, destramente manejados por hábeis canoeiros, que os
transportavam até a cidade onde entregavam as mercadorias,
77
em suas viagens de fins comerciais.
Para o couro de boi, a cotação era de duzentos réis cada
quilo, a arroba de carne seca, de dois mil e quinhentos a três mil réis,
e a dúzia de queijos, seis mil réis, e os outros artigos, em escala
correspondente. Por fim, a remessa não seria suficiente para pagar as
encomendas relacionadas pelo fazendeiro, que necessitava de tecidos,
roupas feitas, e artigos de armarinho. A confiança no futuro, porém,
não só lhe mantinha o entusiasmo como ainda a comunicava aos
conterrâneos, que procurava
atrair para a sua vizinhança.Um dos primeiros, porém
Francisco Gomes da Silva, baqueou em plena luta desbravadora.
Alcançado pelo bote de cobra temível, contra cuja peçonha não havia
ainda soro anti-ofídico, pereceu em breves horas, causando geral
desânimo. Nesse lance lutuoso, que ameaçou de malogro o
empreendimento, sobressaiu a energia de Da. Maria das Mercês,
capaz de incutir em todos, a começar do marido aflito, a firmeza das
suas esperanças em melhores dias futuros. E assim perseveraram,
através de contratempos de várias espécies, até transformarem as
terras brutas, domadas pertinazmente, em paragens aprazíveis, que
maravilham os turistas modernos. Com o auxílio estimulante da
esposa, inspiradora das suas mais abnegadas decisões, Nheco pôs em
prática singular sistema de política rural, que lhe aconselhava a
intuição.
Uma vez verificada a excelência das pastagens criadoras,
servidas de abundantes aguadas, a que não rareavam as lagoas
denominadas salinas, decidiu repartir com os amigos e parentes as
vantagens oferecidas pela região que desbravara, entre o Paraguai, o
Taquari, e o rio Negro. Já se considerava triunfante, quando, de
passagem por Laranjeiras, no município de Cáceres, a caminho de
Cuiabá, onde pretendia internar os seus filhos Mário, Paulino e
Eugênio, no Ateneu Cuiabano, de nível secundário, instou com José
de Barros e seu irmão Gabriel Patrício de Barros, para se
aproveitarem dos benefícios prometidos pelos pantanais contíguos ao
Firme. Ajudá-los-ia no transporte, que não lhes seria demasiado
oneroso.
O crédito que merecia a palavra do hóspede e a força
persuasiva de sua propaganda evidenciaram-se nesse episódio,
relembrado por quem, depois de volvido meio século, não teve
motivo de arrependimento da transplantação.
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79
Fixou-se em Laranjeiras, onde, por trabalhoso setênio, construíra
casas, cobertas de capim, montara currais, abrira roças, para a
manutenção do pessoal necessário a cuidar do gado. O número de
reses a ambos pertencentes já passava de mi I, quando
empreenderam, seduzidos pelo que ouviram, abandonar a sua posse
com as benfeitorias para imitar exemplo de outro irmão, João Batista
de Barros, que os precedera, enraizando-se em São Francisco por
onde passariam. No dia 13 de outubro de 1894, iniciaram o êxodo, ao
conduzirem a primeira partida, de cerca de 900 cabeças, que
atravessaram o São Lourenço, o Taquari e ao fim de 34 dias,
terminaram a marcha em campos do “Firme”.
A confiança nos oferecimentos de Nheco bastou para que
trocassem a experiência adquirida em Cáceres pela aventura de
mudança para distantes paragens, que lhes eram desconhecidas.
Também a seu convite, trasladaram-se de “Passagem Velha”, de
Livramento, os parentes Vicente Alexandre de Campos, com sua
família, e também Antônio José Mendes, José de Souza Mendes. De
outra feita, conforme narrativa de Eugênio Gomes da Silva, nas
recordações evocativas dos tempos da sua mocidade, chegaram
Manuel Gomes da Silva e seu irmão José Mariano da Costa,
experientes na labuta pastoril, de que se incumbira o primeiro, como
administrador da imensa fazenda de J. M. Metelo, dilatada do São
Lourenço do Pequiri, por 684.705 hectares.
Ao adquiri-la, a “Companhia Produtos Cibils” mostrou-se
mais interessada em servir-se do gado existente como simples
matéria-prima para a sua indústria de extrato de carne, montada no
município de Cáceres, do que em aumentar o rebanho bovino.
Fechava-se numeroso rodeio em qualquer largo, e, sem apartação,
todas as reses seguiam para o curral, a caminho do abatedouro.
Manuel Gomes, ao contrário, cultivava, com esmero, a sua vocação
de criador, e não podia conformar-se com a devastação impiedosa
dos rebanhos de que se orgulhava, como se fossem seus próprios.
Transferiu-se, então, para a zona, em que Nheco se esforçava por
agremiar a sua parentela e amigos prediletos. Ao contrário dos
latifundiários, que não consentiam a aproximação de estranhos à sua
propriedade, de cuja imensidão se gabavam como J. C. Pereira Leite
de Cáceres cuja fazenda, segundo assinalou F. A. Pimenta Bueno, em
1880, abrangia “área de 240 léguas quadradas e 600.000 cabeças de
80
gado, na maior parte alçado, por falta de cavalos”, incentivou Nheco
a formação de estabelecimentos pastoris nas vizinhanças do seu, do
qual cederia mais de um quinhão, além de indicar glebas ainda
devolutas, que os interessados poderiam adquirir por quantias
diminutas. Possuía quanto lhe bastava, ao legalizar, a 27.7.1899, a
sua propriedade rural cuja medição acusara 176.853 hectares, e não
pretendia açambarcar o pantanal de sua querência. Queria, ao
contrário, vê-lo repartido e utilizado pelos amigos, a quem se
esforçava por transmitir os próprios anseios de engrandecimento
daquelas paragens, cujo florescimento concretiza na atualidade o
acerto de suas diretrizes.
Ao sucumbir, em 1909, podia ufanar-se de ter fecundado,
com o trabalho produtivo, a região que encontrara em condições
bravias, à margem da vida civilizada.
Certo, não lhe faltaram colaboradores, do naipe de Mário
Gomes da Silva, sem filho e sucessor, que, até baquear em 1914,
revelou-se o maior auxiliar de Nheco, tanto pela formidável
capacidade de trabalho e espírito coordenador como pela honestidade
e pela retidão em suas atitudes sempre francas e sinceras, como
registrou C. Vandoni de Barros no informativo opúsculo:
Nhecolândia; de José de Barros Maciel, seu genro, defensor ardoroso
de Nhecolândia, e um dos principais pioneiros do seu progresso atual.
Por sugestão sua, indicativa de preito de reconhecimento,
começou a propagar-se a denominação de “Nhecolândia”, para
designar a região, de cujo desbravamento e ocupação eficaz foi, sem
dúvida, Nheco o mais operoso agente. A ressonância que lhe apoiou a
proposta, manifestou-se na toponímia estadual, que designou por
“Nhecolândia” um dos distritos do município de Corumbá. É um dos
mais prósperos de Mato Grosso, que abrange não somente a área
primitiva da fazenda “Firme”, atualmente subdividida entre os
herdeiros, como as aquisições contíguas, pelo Taquari acima,
conforme aconselhava o abnegado pioneiro, a quem se aliaram
dezenas de conterrâneos. Convictos das vantagens da união
fundaram, em 1928, o “Centro de Criadores da Nhecolândia”, de que
foi J. Barros Maciel o primeiro Presidente e um dos seus mais
fervorosos paladinos.
Antes de sucumbir, a 14 de junho de 1932, participaria de
todas as campanhas beneficiadoras da vida rural, a que se afeiçoou de
81
de seu filho Nheco Gomes da Silva, fundou em 8 de outubro de 1946
a Sociedade Cooperativa Agro-Pecuária de Corumbá Ltda. Alguns
anos depois, foi ela destruída por um incêndio. O seu ânimo, porém,
não se arrefeceu, encorajando aos companheiros quase
desesperançados. E cuidou da reorganização da sociedade, de sorte a
tornar a vir a ser, em nossos dias, uma cooperativa forte e
consolidada.
Paulino Gomes da Silva passou a ter, por isso, além de
expressão econômica, conceito social e político. E, falecido em 1952,
com 71 anos de idade, deixou esse exemplo construtivo do quanto
pode a tenacidade de um homem associado à cooperação de
companheiros que souberam encontrar, no Cooperativismo, o
caminho da redenção econômica e da compreensão social”.
tal maneira que em uma das cláusulas testamentárias assinalou o seu
apego à terra.
Entre outras recomendações, “declarou a sua vontade de que
suas propriedades rurais ficassem inalienáveis, para que os seus
descendentes e herdeiros mantivessem sempre vivo e acentuado amor
por essa região privilegiada do Estado, desbravada pelas seus sogros
com esforços sobre-humanos, devotamento, fé e confiança no futuro,
além de notável resistência contra adversidades e sacrifícios”.
A lição do desbravador frutificou. Além do amor ao trabalho
produtivo e perseverança em praticá-la, ainda nas quadras adversas
que não faltam em geral, a nenhum empreendimento, conseguiu
Nheco transmitir à sua descendência, direta ou não, o apego à vida
rural. E assim, as gerações pósteras completaram-lhe as conquistas
pacificas, e transformaram ampla área bravia, em que se refugiavam
onças devoradoras da bezerrada, em aprazível região, mosqueada de
residências, indicativas de opulentos haveres de seus proprietários,
em geral aparentados entre si. Automóveis trafegam de uma a outra,
na época da estiagem, ao passo que maiores distâncias são
percorridas por aviões aos quais se deparam, a espaços, apropriados
campos de pouso.
Inequívoca, a influência na economia de Corumbá, como
igualmente em sua vida social e cultural, que exerce a Nhecolândia,
mercê dos esforços progressistas dos seus moradores, fiéis à
prossecução dos anseias criadores do operoso pioneiro. a) VIRGILIO
CORREA FILHO”.
Infelizmente, ainda não se fez a atualização da genealogia
dos Barões de Vila Maria, mas é de se esperar que logo possa ela ser
realizada. Até lá, deve-se contentar com destaque dos seus
personagens como aqueloutro que se vê da revista Unasco — Março
de 1967, pág. 9, sob o título “Cooperativista do Mês”, e sub título
“PAULINO GOMES DA SILVA — Exemplo de abnegação e
trabalho”:
Homenageamos neste mês a Paulino Gomes da Silva, um
pioneiro do Estado, que se deslocou para o pantanal matogrossense.
Habituado ao rigor do trabalho, enfrentou a região hostil e bravia,
pregando a união de todos os que trabalhavam no campo. Sentiu, a
principio, a indiferença e a incompreensão do ambiente demasiado
conservador que via, nas suas idéias cooperativistas, a ação de um
visionário. Todavia, contra a vontade de muitos, e com o auxílio
Fazendo a Biografia dos Pereiras Leites, José de Mesquita
nos lega magistral história dos fatos e acontecimentos envolvendo os
personagens mais eminentes de. Mato Grosso, desde a fase da
mineração e da preia ao índio até a deflagração do movimento
republicano, precedido da progressiva legislação visando a libertação
do escravo e a consagração do trabalho livre. Vale transcrita a lição
do magnífico historiador e homem de letra: “Na pessoa do segundo
filho do Coronel João Pereira Leite se caracterizou o tipo do grande
senhor rural que Oliveira Vianna, nos seus curiosos estudos de
sociologia brasileira, com tamanha acuidade de visão focalizou
recentemente.
Tudo convergia, de resto, a emprestar ao Major João Carlos
essa feição peculiar àquelas fases de formação histórica nos paises
onde se opera a lenta sedimentação das raças e a grã dativa evolução
82
83
PATRIARCA AUSTERO
“Sobe a morada celeste
D’esse espaço corta os véus,
E pede ao Deus das tormentas
Que afaste as máguas cruentas
Que impressas deixas aos teus”
(Do jazigo da família)
O SR. FEUDAL
dos costumes: filho de opulenta família, proprietário de enormes
glebas de terra, servido por numerosa escravaria, em zona pouco
povoada e distante da Capital, por certo não fossem as qualidades
naturais de energia que lhe vincavam o temperamento, imprimindolhe esses traços de mando e autoritarismo, difícil lhe fora manter,
como manteve, solidificando-o, o renome dos seus e o ascendente
familiar a que se não constatava nenhum outro desde os confins de
Vila Bela até Poconé.
No estudo que um dia se fizer desse estágio social
intermediário entre o período inicial da mineração e da preia ao índio
e o atual, do trabalho livre, fase de transição caracterizada pela
constituição das grandes propriedades, engenhos e fazendas, que o
braço negro fazia prosperar, o vulto do Major João Carlos servirá de
índice curioso, espécimen representativo através do qual o historiador
penetrará a íntima psiquê dos homens dessa época.
Espécie de senhor feudal que, na vastidão de seus domínios,
quase ultrapassantes das próprias raízes da Província, tinha o direito
insofismável de braço e cutelo; diga-se, todavia, em honra de sua
memória, jamais exercitou a sua atividade contra os interesses
coletivos, antes a fez sentir sempre em beneficio à terra do seu berço
e dos seus filhos.
Político militante, era o esteio do partido conservador em
toda essa região que da Jacobina irradiava por Vila Maria a
Descalvado, Jaurú, Cambará e as várias sesmarias que compunham a
propriedade dos Pereiras Leites e que só com a morte de D. Maria
Josepha, ocorrida em 3 de novembro de 1888 e dele que se dera a 3
de outubro de 1880, se desmembrou e começou a perder a sua antiga
importância.
Disse Estêvão de Mendonça que a sua individualidade
conserva ainda o aspecto impenetrável de um enigma, (datas II 196)
querendo, talvez, aludir à sua íntima estrutura moral, dificilmente
apreciável para nós que, distanciados no tempo e no espaço, jamais
conseguiremos reconstruir ao vivo o cenário em que ele agiu numa
preponderante atuação sobre os seus contemporâneos.
Pode-se-lhe esgarçar, porém, um ou outro curioso traço
psicológico, por entre as tradições orais que a família mantém e se
não traçar-lhe nitidamente o perfil, ao menos, num esfumado,
84
deixar-lhe esboça da a personalidade interessante e típica.
Foi-lhe berço o sítio histórico dos seus ancestrais, onde veio
à luz no dia 4 de novembro de 1816, sendo batizado na Capela de
Jacobina pelo então P. Manoel Alves da Cunha, recebendo por
Padrinho o Capitão General João Carlos, cujo nome se lhe deu em
razão da muita amizade entre o mesmo e o seu pai João Pereira Leite.
Quando o Cel. João Pereira Leite se casou já era homem de
idade provecta e falecendo, em 1833, deixou a prole numerosa ainda
carecedora de cuidados, com a sua educação por ultimar.
João Carlos, o segundo filho, mas a quem de fato competia o
morgadio, seja pela predileção a seu respeito manifestada pela viúva
D. Maria Josepha, pouco mais de 16 anos tinha quando se orfanou de
pai e ainda assim, foi o braço direito de sua mãe na áspera tarefa que
lhe ficara de criar e manter os dez filhos de João Pereira Leite.
Muito jovem e algo inexperiente, pois em vida da sogra
(vivia ainda em 1837, pois foi madrinha de Generoso, filho de D.
Maria em segundas núpcias) e do marido jamais se envolvera na
gestão da fazenda e mesmo da casa, grandes deveriam ter sido os
óbices a vencer por parte da pobre senhora até se transformar na
corajosa matrona que, ao que rezam os recontos de testemunhas
presenciais, percorria todo o sítio, chapéu largo à cabeça, chicote em
punho, dirigindo os serviços com a sua presença, animando-os com a
sua voz estentórica e fazendo sentir, quando mister, o corretivo
enérgico.
Para que, porém, da delicada filha de Leonardo Soares,
surgisse a “Nhanhá” da Jacobina, ríspida, autoritária, imperiosa, que
só no amor dos filhos ameigava, muito contribuiu a constante atuação
do seu imediato auxiliar, do seu amigo de confiança, o filho de João
Carlos.
O malogro de um casamento irrefletido, cujas conseqüências
breve se fizeram ver, a blindaria do aço da experiência contra as
seduções que, na sua idade e com a sua riqueza, coalham o caminho
da vida.
O segundo esposo de D. Maria foi José Alves Ribeiro, já
referido no Título I, deste ensaio, a quem se refere Taunay, no seu “A
85
Cidade de Mato Grosso”, como parte nos fatos de 1837, de que
resultou a morte de Poupinho Caldas.
Obrigado a buscar outras paragens onde melhor pudesse
viver, deixou Ribeiro a sua esposa, com um filho recém-nascido,
Generoso, acarretando esse fato não pequeno desgosto à família.
Outros acontecimentos vieram a perturbar a placidez da
“Jacobina”, mas já encontraram retemperada a energia de Maria
Josepha, servida pela de seus filhos, já maiores, entre os quais João
Carlos sempre exerceu inconteste hegemonia.
Tais fatos, semelhantes circunstâncias com que topara
justamente nessa fase de cristalização mental em que o espírito se
plasma à mercê do ambiente que o envolve, deveriam ter contribuído
e muito para imprimir ao espírito de João Carlos essa máscara
aparente, misto de reserva e severidade, que o caracterizou o resto da
existência.
Não tiveram, porém, o efeito de o tornar um misantropo ou
um insaciável, pois o seu trato foi sempre atencioso e delicado, mas o
puseram de sobreaviso contra possíveis acontecimentos e precavido,
diante dos estranhos, na luta contra os seus adversários e de sua
gente, na emergência de futuros golpes.
Caldeado, desta arte, pelas adversidades que rodearam no
período róseo das ilusões mais belas, o Major João Carlos passou a
desconfiar dos homens, mas não a odiar a humanidade, como soem,
numa estúpida generalização, agir os tímidos Alcestesque a pena de
Moliêre imortalizou.
A sua filantropia se derramou, ao invés, em pródigos atos de
benefício, muitos dos quais inesquecíveis na memória popular,
concretizados em melhoramentos com que dotou Vila Maria, hoje
cidade de S. Luís, onde o seu nome respeitado até o presente, a
despeito de todas as convulsões partidárias que têm agitado aquele
velho burgo, se ostenta ligado à grande Praça central da cidade.
Foi o construtor do Cemitério S. João Batista, feito a suas
expensas e doado ao Município e em mais de uma oportunidade
aflitiva para a Província o seu coração boníssimo se derramou em
inequívocas provas de humanitarismo.
Assim foi quando, desencadeado o tufão da guerra contra o
Paraguai, cujos desastrosos efeitos logo se fizeram sentir nesta
Província, e, ainda, ao irromper, pouco depois, a calamitosa epidemia
das “bexigas”, graças à sua energia e habilidade, evitou que
penetrasse em Cáceres, que assim se viu poupada dos estragos
ocasionados pelo terrível morbo em Cuiabá, Diamantino e outras
localidades flageladas.
Nem regateou o Major João Carlos a sua atividade de
patriota quando da invasão de Mato Grosso pelas forças de Lopes,
sendo o homem de confiança de Couto de Magalhães, não obstante
pertencerem a políticas opostas e extremadas.
O contributo valioso que prestou nessa ocasião ao País
mereceu-lhe do Governo Imperial a nomeação de Cavaleiro da
Ordem de Cristo, em carta imperial de 22 de junho de 1868,
assinaladora dos “serviços militares prestados em relação à guerra
com o Paraguai, na Província de Mato Grosso” e a medalha de
campanha conferida pelo Título de 2 de junho de 1861 “ao Sr. João
Carlos Pereira Leite, Fidalgo cavaleiro da casa Imperial, (Por alvará
de 2 de setembro de 1864, fez o Imperador mercê de o tornar no foro
de Fidalgo Cavaleiro de sua Imperial Casa, por ser este o foro de que
gostava seu falecido pai) que, na qualidade de Major de Comissão,
fez parte das forças que de Vi Ia Maria marcharam para operar contra
Corumbá. .
De par com esses rasgos de solidariedade humana e
altruísmo, transparecia-lhe, entretanto, na energia indomável, nos
impulsos de paixão partidária, às vezes, levados ao excesso, no seu
próprio viver particular, esse ar de originalidade que o fazia algo de
estranho perante o juízo dos seus temporâneos, como se um
intransponível abismo o isolasse, na altivez desmedida do seu
orgulho, do meio e da sociedade em que vivia” (Rev. do Instituto
Histórico de Mato Grosso, Cit. págs. 96-100) .
86
87
SIMBOLO PERENE
O fim do século XV foi assinalado por importantíssimas
descobertas marítimas, cabendo a glória delas aos portugueses e
espanhóis, sobretudo os portugueses que foram os primeiros que as
iniciaram e com o seu exemplo impulsionaram as navegações dos
outros povos.
Natural que surgissem disputas fronteiriças entre os povos
lideres das descobertas e a autoridade espiritual e supra terrena da
Igreja se fez sentir como árbitro nas demandas fronteiriças,
54º O. estão gravadas as armas de Espanha, sob as quais se lê esta
inscrição:
através de bulas papais, as quais procuravam, quando possível,
definir o direito dos povos soberanos que demandam, até que os
próprios estados soberanos decidiram defini-Ias e devolvê-las através
de tratados bilaterais, notáveis documentos registrados pela História
durante muitos séculos.
Destacado instrumento definidor de tais direitos foi, sem
dúvida, o Tratado de Tordesilhas, celebrado na cidade espanhola do
mesmo nome em 7.6.1494 e ratificado na cidade portuguesa de
Setúbal em 5.9.1494; estabelecia a divisão do mundo conhecido e a
descobrir em hemisférios, por um meridiano distante 370 léguas das
ilhas do Cabo Verde, deixando à Espanha tudo o que ficasse a
Ocidente e a Portugal o que se contivesse no Oriente.
Durante dois séculos e meio a linha imaginária de
Tordesilhas permaneceu vigendo a fronteira entre os povos
navegantes e conquistadores, até que Portugal e Espanha, num alto
propósito de melhor definir os seus contornos, se dispuseram a
celebrar em 13 de janeiro de 1750 o Tratado de Madrid, ponto de
partida para outros instrumentos diplomáticos definidores do Direito
das Altas Partes contratantes, sempre fruto de meditados estudos dos
seus estadistas, convenientemente assessorados pelos seus sábios e
técnicos.
A Vila Maria vai caber a honra ímpar de ostentar à margem
do Rio Jaurú o mais belo e mais expressivo monumento dedicado
àquele tratado que dignifica as partes contratantes e põe em relevo a
boa fé na elaboração do imponente instrumento.
Em meio à selva agreste Hércules Florence, escrivão da
missão Langsdorff, vai surpreendê-lo em 11.9.1827 e a sua
caminhada foi assim reconstituída:
“— 11 de setembro de 1827 - Partindo às 2 horas da
madrugada, às 9 da manhã chegamos ao Rio Jaurú, à direita.
Em vão procuramos a princípio enxergar a pirâmide que
vínhamos ver: descobrimo-la afinal à direita da embocadura, por traz
de árvores que a ocultam das vistas.
Não é possível enxergar com indiferença um monumento
qualquer de mármore branco e de arquitetura regular que de repente
se nos depara no meio dessas vastas regiões, onde sem partilha reina
a natureza.
É a pirâmide quadrangular e tem 15 e meio pés de alto,
incluindo o pedestal e a cruz de pedra que a coroa. No lado N.
As duas coroas das armas de Espanha e Portugal estão
mutiladas. Pelo tempo ou pelos homens? Na minha infância vi os
sinais da realeza destruídos pelos revolucionários de 92. Inclino-me a
crer que o mesmo sentimento impeliu os americanos a apagar o
assinalamento da antiga servidão.
88
89
SVB
FERDINANDO VI
HISPANIAE
REGE
CATHOLICO
A coroa está quebrada; só restam os florões.
No lado S. 54º E. estão as armas de Portugal e esta inscrição:
SVB
IOANNE V
LVSITANORVM
REGE FIDELISSIMO
Falta de todo a coroa.
Lê-se no lado N. 360 E:
EX PACTIS
FINIVM. RE
VNDORVM
MADRITI
IDIB IANVAR
M.DCCL
Enfim no quarto lado:
IVSTITIA
ET PAX
OSCVLATAE
SVNT.
A pirâmide, compreendendo o pedestal, é de alto a baixo
separada em duas metades, ambas de uma só pedra. A junção forma,
nos lados N. 360 E O., duas linhas que marcam a direção de um raio
de mais de 100 léguas de limites. Dizem que uma metade foi feita em
Lisboa e outra em Cadiz. Contaram-me que não tendo sido aprovado
pelo gabinete de Lisboa o rumo de limitação, o tenente-coronel
português desterrou-se para Buenos Aires, e aí acabou seus dias feito
mestre-escola.
Como as duas peças da pirâmide não juntaram bem e, para
facilidade de transporte da Espanha para Buenos Aires, e pelo Prata
daquela cidade até ao lugar marcado, não foram feitas maciças, há
sempre no interstício colméias de abelhas. Na fenda introduzimos um
facão e de pronto correu delicioso mel que encheu uma cabaça e
misturado com farinha deu-nos ótimo regalo.
As 2 horas da tarde, fizemo-nos na volta de Vi Ia Maria.”
(VIAGEM DO TIETE AO AMAZONAS - HI:RCULES
FLORENCE - Págs. 142 a 144)
Anos mais tarde, o Major João Carlos Pereira Leite
trasladaria o imponente monumento do Jaurú para o coração de Vila
Maria, erigindo-o na Praça Principal da Cidade, entre a Catedral e o
majestoso Rio Paraguai, para testemunhar, perenemente, a
inteligência e a amizade simbolizadas no lavor do mármore frio e
eterno.
Quando do bicentenário do Tratado de Madrid, o imortal
Arcebispo de Cuiabá, Dom Aquino Correa, fúlgida glória da Igreja e
da Pátria, proferiu na Sé Catedral magnífica oração gratulatória,
perorando:
“Por último, Senhores, o que justifica plenamente esta
liturgia sacra de ação de graças, é o espírito que presidiu à elaboração
desse tratado, do qual com a sua ímpar autoridade, escreveu o Barão
do Rio Branco, que deixa no ânimo de quem o estuda, “A mais viva e
grata impressão da boa fé, lealdade e grandeza de vistas, que
inspiram esse ajuste amigável de antigas e mesquinhas querelas,
consultando-se unicamente os princípios superiores da razão e da
justiça e as conveniências da paz e da civilização da América.”
Deste nobre ideal luminoso de justiça e paz internacional,
temos a ventura, os matogrossenses, de possuir o mais expressivo e
solene monumento, para o qual hoje, nesta festiva da ta jubilar,
voltam-se espontaneamente as nossas almas, numa romaria
evocativa e poética, através de dois séculos. E o marco do Jaurú!
Marco do Jaurú! Rico padrão de pedra mármore, encimado
pela Cruz! Primeira baliza do nosso Estado natal que os comissários
do Capitão-General Gomes Freire de Andrade e do Marquês do Val
de Lírios, executores do tratado, levantaram em meio a florestas
virgens, poucos quilômetros a jusante da foz, onde o selvático rio
Jaurú aflui nas majestosas e históricas águas do Paraguai!
Marco do Jaurú! Velha pirâmide minúscula e solitária, que
ao longo de tantos anos, no silêncio sagrado e imenso daquelas
regiões ainda bravias, assinalaste, numa orla selvagem da terra
matogrossense, a fronteira das duas gloriosas nações, que pareciam
então partilhar entre si o domínio do mundo!
Marco do Jaurú! Com que emoção e encantamento, não te
saudamos hoje, mesmo ao longe, por entre as flores desse jardim, ao
sol da praça principal de Cáceres, aonde foste transladado, e relemos
as tuas vetustas inscrições, na solenidade e elegância dos seus dizeres
latinos, bem dignos do mármore clássico, em que foram gravados: ex
pactis finium regundorum conventis!
Marco do Jaurú ! Tu perpetuaste para sempre, nos relevos
artísticos das tuas quatro páginas, os nomes das duas augustas
realezas, que foram as altas partes contratantes de Madri, a majestade
fidelíssima de D. João V de Portugal e a majestade católica de D.
Fernando VI de Espanha; mas nos lembras também, no teu sugestivo
silêncio, todos quantos colaboraram no memorável pacto, que ora
festejamos, e sobre os quais paira, excelsa e inconfundível, como
alma que foi dessas negociações políticas, honrando sobremaneira a
nossa Pátria e a nossa gente, a figura de Alexandre de Gusmão, o
grande diplomata brasileiro.”
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91
O PERFIL DO LIDER
Fatores naturais e ambientais, interferem, como é óbvio, na
formação da personalidade de João Carlos: a resistência e a pertinácia
do avô materno, o espírito de serviço e o senso de responsabilidade
do Pai; a autoridade materna, mais acentuada após a viuvez.
Por outro lado, conta apenas 17 anos quando perde o Pai e
encara a família constituída de dez filhos, todos menores. Considera,
ainda, a inaptidão do seu mano, Joaquim, mais velho que ele.
João Carlos, todavia, foi contemplado com raros dotes de
inteligência e de coração e não se deixa vencer. Ele é temido pela sua
autoridade, mas amado pela justiça das suas decisões.
Ele é o comandante-chefe da política em toda a região e a
sua palavra oracular é ouvida e acatada nas assembléias partidárias ao
tempo do Império; administrava a Jacobina fazendo-a atingir período
de esplendor e fastígio, jamais vivido pelo engenho de Leonardo
Soares de Souza e de João Pereira Leite. Todos os agregados
respeitam e amam aquele patriarca austero, no qual se transforma
com o passar dos tempos.
Num encontro casual no Parque Gráfico Nossa Senhora de
Fátima em 13 de maio de 1975, disse-me o engenheiro agrônomo
Gabriel Júlio de Mattos Muller, coordenador do PRODEPAN, que,
ainda em nossos dias, os moradores do Pantanal Matogrossense, por
certo descendentes daquele meio milhar de agregados, falam com
admiração e respeito sobre a figura do major João Carlos,
reproduzindo, com fidelidade e carinho, marcantes traços da sua
personalidade máscula e austera, sem deixar de ser humana e
compreensiva.
Pedro Nolasco, seu mano caçula, ainda muito’ menino,
despede-se dele no Olho D’Água; João Carlos é todo ternura naquela
cena de despedida. Está diante do irmão mais novo que ele educa
como se fora o próprio filho, do qual vai separar-se por largo período
de tempo. Não sei se reencontraram em vida, mas a figura humana do
João Carlos também aqui foi fixada.
GLORIFICAÇAO DO PROTETOR
Na eloqüência do seu estilo de homem de letras, historiador
e político, Luis Viana Filho, hoje figura destacada da Academia
Brasileira e do Senado da República, fez o perfil do herói da
Sabinada e como que nele inscreve o profundo significado da
acolhida que, ao revolucionário baiano, emprestou o Major João
Carlos Pereira Leite, na Fazenda Jacobina, onde Francisco Sabino
92
Álvares da Rocha Vieira viveu os derradeiros dias da sua existência.
Esta bela página põe em relevo a paz que o grande inconformado
encontrou na Jacobina, tudo proporcionado pelo seu austero protetor
e amigo dedicado: “E a 25 de Dezembro − triste Natal! − quase
repentinamente, Sabino Vieira faleceu. Morte tão rápida, que nem
permitiria que administrassem os Sacramentos ao moribundo. Era o
fim. O fim duma vida de sofrimentos e de angústia. Sabino Vieira, o
agitado, o irrequieto, o rebelado, o criminoso, ia descansar. Na
pequena e humilde capela da fazenda Jacobina, sob a invocação de S.
Antônio − santo guerreiro −, abriu-se uma cova rasa para receber os
despojos do chefe da república baiana de 1837. Cobriu-a uma campa
de madeira, comovente lembrança de um amigo, um desses amigos
como os muitos que ele soubera cativar e conquistar. Nela se
inscreveu a seguinte dedicatória:
Tributo ao Saber e à Amizade. Aqui dorme
o Sono dos Mortos O Dr. F. Sabino A. da R.
Vieira. Nascido na Província da Bahia. Faleceu aos 25 dias do mês de Dezembro de
1846. Deixando após a sua morte saudosas
recordações. Ao meu companheiro e amigo
J. C. P. Leite.
A morte dava a Sabino Vieira isso que a vida lhe negara
sempre: “A paz”. (A Sabina - ed. 1938 - pág. 200).
João Carlos sabia ser amigo.
A ORDEM MILITAR DE CRISTO
A atual ordem honorífica representa a Ordem de Cavalaria
de Jesus Cristo, instituída em 1319, pela bula Ad ea ex quibus, do
Papa João XXII, a pedido do rei D. Dinis.
Essa Ordem sucedeu em Portugal à Ordem do Templo,
extinta em 1311, no Concílio de Viena, pelo Papa Clemente V,
herdando todos os bens que os templários possuíam no País.
A sua primeira sede foi na Igreja de Santa Maria do Castelo,
de Crato Marin, e os primeiros estatutos foram promulgados pelo
mestre D. Gil Martins, após confirmação régia em 11 de junho de
1321.
93
Os mestres da Ordem eram eleitos pelo capítulo dos freires
dentre os cavaleiros professos. Mas, para suceder ao 70 mestre, D.
Lopo Dias de Sousa, foi designado pelo Papa Martinho V o infante
D. Henrique (1420), que não era cavaleiro professo por não poder
fazer voto de pobreza, como duque de Viseu e senhor de várias terras
no reino. Recebeu, pois, o título de “governador e administrador” da
Ordem e a sua nomeação foi justificada pela necessidade de dar
melhor aplicação do que até aí aos respectivos rendimentos. O infante
utilizou os recursos da Ordem no pagamento de grandes despesas
acarretados pelas navegações para exploração dos mistérios
oceânicos, ligados assim à empresa dos Descobrimentos.
Por esse motivo, a Ordem de Cristo passou a exercer
jurisdição espiritual sobre os territórios descobertos, sendo como
administradores dela que os reis afetaram os respectivos rendimentos
às novas dioceses que, a partir da do Funchal (1514), foram sendo
criadas no ultramar português e exerceram o padroado sobre as
igrejas aí erguidas.
Ao infante D. Henrique sucedeu, também como governador
e administrador, seu sobrinho e filho adotivo D. Fernando. O Filho
deste D. Manoel, que exercia as mesmas funções após seu irmão D.
Diogo, foi aclamado rei em 1495, continuando a governar a Ordem
de Cristo.
Foi no reinado de D. João II que, como ficou dito, os
mestrados das ordens militares portuguesas (com exceção do priorato
de Crato) foram anexados perpetuamente à Coroa (1551), passando o
soberano a intitular-se sempre “governador e perpétuo administrador
da Ordem de Cavalaria de N. S. Jesus Cristo.
Continuou a Ordem de Cristo a ser uma ordem religiosa
militar, embora com o decurso dos anos se obliterassem os seus fins
iniciais, até ao século XVIII. No reinado de D. Maria I, a rainha
entabulou negociações com a Cúria Romana para a reforma da
Ordem, obtendo do Papa Pio VI o breve Qualqunque a majoribus, de
18 de agosto de 1789, que, confirmando aos soberanos portugueses o
grão-mestrado e a perpétua administração das três ordens militares,
concede à rainha a faculdade de reformar a. Ordem de Cristo,
extinguindo os conventos dela, regulando as suas rendas e aplicando
a obras pias as que sobrassem da reforma. Este breve confirmou a
94
reforma entretanto operada pela Carta de Lei de 19 de junho de 1789;
que abriu o caminho da secularização, e da sua transformação em
ordem meramente honorífica.
Como distinção honorifica dispunha dela o pontífice
romano, que, pelo fato de se tratar de uma ordem instituída por bula
pontifícia, entendia ter o direito de a conceder também. Assim, em
Roma, no século XVIII, surgiram numerosos cavaleiros de Cristo
criados pelo Papa, embora nos respectivos breves de nomeação se
acentuasse: cujus ordinis magnus magister est Rex Lusitaniae.
Contra este uso pontifício reclamaram, mais de uma vez, os
reis portugueses, mas sem resultado, provindo daí o fato de continuar
hoje em dia a Santa Sé a conceder as mesmas insígnias que no século
XVIII pertenciam à Ordem portuguesa embora, a partir de 1905, o
Papa Pio X tenha instituído a Ordem Suprema de Cristo, como a mais
nobre das ordens pontifícias, reservando-a para condecorar chefes de
Estado e altas personalidades.
Em Portugal, a partir da reforma de 1789, o hábito de Cristo
(expressão que provinha do uso pelos membros da antiga ordem
religiosa de um manto branco onde se destacava a cruz vermelha)
passou a ser atribuído para recompensar os serviços prestados nos
“maiores postos e cargos políticos, militares e civis”.
Com este caráter se manteve durante o século XIX.
Proclamada a República, foi extinta com as restantes ordens, até que
o decreto n. 5.030, de 10 de dezembro de 1918, a restabeleceu para
premiar serviços relevantes de nacionais e estrangeiros prestados ao
País ou à humanidade, tanto militares como civis.
A ordem militar de Cristo, consoante os dados extraídos de
publicação oficial de chancelaria portuguesa, datada de 1968,
comprova a prestigiosa Ordem remonta à Idade Média. Entre nós, o
Major João Carlos Pereira Leite mereceu ter o seu nome escrito entre
os comendadores da Ordem de Cristo. Na Capitania de Mato Grosso,
raro os que mereceram o galardão.
O CREPÚSCULO DO CHEFE
Estêvão de Mendonça registra com muita propriedade, a
95
morte de João Carlos Pereira Leite, em 03 de outubro de 1880 e
assim o consigna em data, 11. pág. 196.
“Falece em São Luiz de Cáceres o major João Carlos Pereira
Leite.
Nascido no sítio da Jacobina, e filho do Coronel João Pereira
Leite, foi fundador da fazenda de criação denominada Descalvados, a
mais próspera do município. Era homem de mediana cultura, mas
inteligente e empreendedor.
Chefe político de incontestável prestígio, filiado ao partido
conservador, prestou à cidade de Cáceres serviços que jamais serão
esquecidos, entre os quais deve ser particularizado o de haver
impedido, em 1867, a invasão da epidemia da varíola no respectivo
distrito.
Atencioso e calmo, dedicado ao sacrifício, deixou um vasto
círculo de amigos, ao mesmo tempo que inimigos irreconciliáveis.
Figura de destaque no seio da sociedade matogrossense, a
sua individualidade conserva ainda o aspecto impenetrável de um
enigma.
Para muitos a memória do Major João Carlos somente
desperta recordações afetuosas, ao passo que para outros ainda
perduram ódios incontidos. Repousa no cemitério de São João
Batista, o único existente em Cáceres, que foi construído à sua custa e
por ele oferecido a cidade”.
ARTILHEIRO VALOROSO
A progênie do Cel. João Pereira Leite e de D. Maria Josepha
de Jesus Leite foi enriquecida de outro varão ilustre, da mesma
estirpe do seu mano, o Major João Carlos, na pessoa de Luiz
Benedito, o filho mais longivo dos Pereira Leite. José de Mesquita
sobre ele escreve magistral trabalho na revista do Instituto Histórico
mencionada, dedicando-lhe as páginas de 109 a 111. Como já
afirmei, mais do que ao se referir aos outros, ele colheu informes de
fontes fidedignas do seu sogro João Carlos Pereira Leite II, o
desembargador. A personalidade de Luiz Benedito é realçada por
Mesquita, de modo a colocá-la de par com o Major João Carlos.
Efetivamente, diz ele: “Nasceu Luiz Benedito Pereira de Souza Leite,
como consta dos assentamentos do Cel. João Pereira Leite, no dia
96
21/01/1830, na Jacobina, tendo sido batizado na Capela desse
estabelecimento rural pelo Vigário Pe. José da Silva Fraga, a 19 de
março do mesmo ano, tendo por padrinhos seu tio, P. Joaquim José
Gomes da Silva, representado por seu irmão, alferes João Carlos e
sua irmã, Da. Senhorinha Thereza da Silva.
Luiz Benedicto, como o seu irmão João Carlos,
desempenhou importante papel na vida política de Mato Grosso,
tendo ascendido às mais elevadas posições, gozando sempre
merecido prestígio quer na sua terra de nascimento, quer em outras
localidades matogrossenses.
Oriundo de uma família tradicional, possuidora de invejável
renome e avultados haveres, não o cegava a vaidade nem lhe
obscurecia as vistas a ambição, antes fazia da lhaneza do trato e da
bondade de maneiras o segredo dessas múltiplas vitórias na vida
pública.
Fidalgo cavaleiro da imperial casa (alvará de 30 de junho de
1856), Cavaleiro da Ordem da Rosa (carta imperial de 19 de abril de
1858), coronel honorário do exército brasileiro (carta patente de 15
de janeiro de 1890), chefe prestigioso do partido conservador em
Cáceres, tendo substituído o seu irmão João Carlos na direção desse
partido, a benemerência do Cel. Luiz Benedicto pôs-se evidente nos
dias calamitosos que atravessou a então província de 1864 a 1870,
assolada pela guerra e pela varíola, dois terríveis flagelos que tantas
vítimas e prejuízos causaram.
Os seus estudos primários foram feitos em Vila Maria, tendo
seguido, em 1842, para a Corte, onde, depois de cursar algum tempo
um estabelecimento de instrução secundária, se matriculou na Escola
Militar, em 1846.
O pendor para a carreira das armas se lhe revelou desde
cedo, conseguindo galgar com rapidez os vários postos da milícia,
pois, sendo alferes aluno em 1849, foi, por patente de 6 de setembro
do mesmo ano, promovido a segundo tenente, para o 30 Batalhão de
Artilharia a pé do Exército, por patente de 24 de maio de 1852;
promovido a primeiro tenente para o corpo de artilharia de Mato
Grosso, e por patente de 17 de dezembro de 1855, promovido a
Capitão da 3a. Bateria do 1º Regimento de Artilharia a Cavalo, posto
este em que se reformou, em 30 de maio de 1862.
Abandonando a vida ativa do Exército, aos 32 anos, estavam
97
é a sua passagem pela Guarda Nacional, instituição que tão relevantes
serviços prestou ao país no antigo regime, principalmente durante a
guerra com o Paraguai. A sua primeira nomeação para essa
corporação data de 8 de janeiro de 1866, tendo sido designado para
ocupar o posto de Major em comissão comandante do 60 Batalhão
estacionado em Vila Maria, assumindo igualmente a 16 do mesmo
mês e ano, o comando do respectivo distrito militar.
O Ofício da Presidência da Província datado de julho de
1870 mandou elogiá-lo pelo patriotismo, préstimo e dedicação que
nas mais difíceis conjunturas em que tem estado a Província nunca
deixou de com a maior prontidão e boa vontade concorrer com os
seus serviços”.
Depois da proclamação da República filiou-se ao partido
nacional de que foi um dos chefes, tendo sido eleito Vice Presidente
do Estado, exercendo a Presidência de 10 de fevereiro a 10 de abril
de 1892 e de 18 a 24 deste mês e ano.
Com a ascenção ao poder dos seus adversários, em virtude
da contra revolução de 7 de maio de 1892, retirou-se à vida privada,
ficando a sua residência em S. Luiz de Cáceres, onde faleceu em 15
de janeiro de 1910.
reservadas ao Capitão reformado maiores trabalhos no período que
se ia abrir com a invasão paraguaia, e nos quais se houve com raro
brilho e dedicação.
São de um documento oficial que faz parte do arquivo da
família Pereira Leite as seguintes palavras referentes à conduta do
Cel. Luiz Benedicto naquela fase agitada da nossa história.
“Na quadra calamitosa por que passou esta província por
ocasião da cruel e vandálica invasão paraguaia, da tremenda epidemia
das bexigas, que a devastou e doutros flagelos que lhe sobrevieram
como sejam a inundação, a fome e o serviço de guerra por 5 anos, foi
o Ten. Cel. Luiz Benedicto Pereira Leite, comandante do 6º Batalhão
de Guardas Nacionais, então destacado, um dos oficiais mais
prestigiosos e que mais coadjuvaram a administração desta província,
e tendo sido agraciados muitos outros por serviço talvez menos
importantes, não foi ele até hoje contemplado. Em ofício n. 56 de 01
de agosto de 1870 que incluso por cópia tenho a honra de levar às
mãos de V. Excia. fez esta Presidência presentes a S. Excia. o Sr.
Ministro da Guerra os importantes serviços prestados por este distinto
oficial, o qual nenhuma solução teve. Como V. Excia. verá do citado
ofício contribuiu o Cel. Luiz Benedicto (que é Cavaleiro da Ordem da
Rosa há muitos anos, capitão reformado da artilharia do Exército e
Fidalgo Cavaleiro da Casa Imperial) com metade dos seus soldados
para as urgências do Estado, comandou o seu batalhão em serviço de
corpo destacado e o distrito militar de Vila Maria durante todo o
tempo da guerra, com grande zelo, probidade e economia dos
dinheiros públicos e por sua benéfica influência e estima de que goza
naquele distrito facilitava as expedições e o serviço de que era
incumbido. Por ocasião da epidemia das bexigas foram premiados
muitos que enterraram os mortos, mas não foi premiado o Supte. que
salvou os vivos. Ameaçado o distrito de Vila Maria da terrível peste,
pela sua proximidade com a fronteira boliviana, onde ela fazia
espantosos estragos, e com os distritos de Diamantino e Poconé, onde
a mortandade era aos centos, pôde o Ten. Cel. Luiz Benedicto vedar,
por suas acertadas e enérgicas providências, que o flagelo ali
penetrasse salvando assim centenas de vidas (Off. n. 9 de 23 de
fevereiro de 1875, da Presidência da Província ao Ministro do Estado
dos Negócios do Império).
Não menos brilhante que a sua curta carreira no Exercito
A versão oficial sobre a Ordem da Rosa é das mais
românticas que se conhece na história das honorificências: a fim de
perpetuar a memória do seu faustíssimo consórcio com Da. Amélia
de Leuchtenberg e Eischstaedt, por uma instituição útil, que,
assinalando essa época feliz, a conservasse com glória na lembrança
da posteridade, estabeleceu D. Pedro I, por decreto de 17 de outubro
de 1829, mais essa ordem brasileira militar e civil.
É a versão do Visconde de Taunay, referida pelo seu ilustre
descendente, Sr. Affonso de E. Taunay: “Ao avistar a Imperatriz
Amélia, que desembarcou com um vestido de gaze branca, salpicado
de rosas meio abertas, veio-lhe incontinente ao espírito, exagerado e
cavalheiroso, a idéia de constituir mais essa Ordem, batizando-a com
as qualidades, ou uma das qualidades de que era menos capaz, a
Fidelidade”.
As insígnias desta ordem são assim descritas: uma estrela
98
99
ORDEM DA ROSA
Na linhagem de Luís Benedito Pereira Leite surgiria logo
após a sua morte, em 1910, expressivo botão, que logo murcharia.
Quando visitei Cáceres pela vez primeira em 12.04.1950, fui ao
Cemitério São João Batista para reverenciar a memória dos meus
diletos antepassados paternos, que ali têm um lugar na parte superior
direita de quem nele penetra. Antiga doação do benemérito tio-bisavô
João Carlos Pereira Leite à comunidade, aquele campo santo muito
me fala à alma e ao coração e, em meio a tantas tumbas, minha
atenção voltou-se para aquela que está sempre coberta de flores e de
velas: a de um menino cuja vida a morte cedo ceifou. Seu pai era
primo do meu e foi o meu padrinho, aquele que me levou à pia
batismal em 25 de fevereiro de 1917, aos ,5 dias de nascido e quase à
morte.
A vida edificante desse jovem, sob o título “Uma florzinha
de Cáceres” ou “Um exemplo edificante”, foi assim, delicadamente
escrita, por Frei Francisco Maria Herail:
“Estava na flor da idade e contava apenas 14 anos. Acabava
de prestar brilhantemente exame e já iam principiar as férias,
quando foi acometido da doença terrível que o levou em poucos dias.
Aos 28 de novembro, tinha-se ferido levemente no pé direito
e a ferida parecia tão insignificante que até se descuidou dela.
No domingo, 30, apesar de leve dorzinha que sentia no pé
ferido, calçou-se e foi assistir à publicação dos prêmios e teve a
alegria de se ver proclamado o primeiro de sua aula com a menção de
distinção.
Durante os quatro dias seguintes, com o pé levemente
inchado, continuou a ajudar seus pais sem se queixar, quando de
repente, na sexta-feira, 4 de dezembro, teve um longo acesso de
febre, sem que esse sintoma trouxesse suspeitas sobre a gravidade do
mal.
No sábado, tendo repetidas vezes manifestado o desejo de
ver o seu professor, foram chamá-lo, e este, chegando logo,
entreteve-se muito tempo com seu aluno, em palestra, pensando
também que a sua moléstia não tinha gravidade.
Caíram as ilusões quando, ao anoitecer do sábado, o doente
teve uma crise terrível, em que a febre, por muito tempo, se manteve
acima de quarenta graus.
No Domingo, transcorria o dia com relativa calma para o
enfermo, até às 4,30 da tarde, quando lhe sobreveio nova crise e
agravada, que fez temer um desenlace imediato.
Outro período de aparente calma registrou-se, em que a
despeito de ligeira inquietação, que sofria, se manteve lúcido o seu
juízo.
Como não lhe aparecesse melhora e temendo-se nova crise
na segunda-feira, ministraram-lhe o Santo Viático, que tantas vezes
pedira e ungiram-no.
A crise receada não veio; mas a doença seguia implacável a
sua marcha destruidora e a febre que o consumia obrigava a lhe
darem repetidos banhos que o acalmavam um pouco.
Enfim, chegou a manhã do dia 8 de dezembro em que ele
desejava muito receber a Santa Eucaristia. Infelizmente o seu estado
não permitia esse socorro; notava-se, pouco a pouco, que os seus
sentidos se extinguiam.
As 9 horas, chamou por todos os membros da sua família e
pelo seu professor; abraçou, pela última vez, seus pais e seus irmãos e
reconheceu ainda o seu mestre, quando, pouco tempo depois, pôde
vir à sua cabeceira.
100
101
la de seis pontas, esmaltadas de branco e marchetadas de ouro,
assente sobre uma grinalda de rosas folhadas e em sua cor. No disco
central do anverso, em ouro cinzelado, o monograma AP (Amélia e
Pedro), circundado pela legenda AMOR E FIDELIDADE. No
reverso, a data: 2.8.1828 (data do casamento em Munique)
circundada pela legenda PEDRO E AMÉLIA nos mesmos esmaltes.
A coroa imperial decora a insígnia dos Cavaleiros,
Comendadores, Grandes Dignitários e Grão-cruzes, honorários e
efetivos, sendo que a jóia destes últimos pende de um colar de rosas
folhadas em sua cor, intercaladas de escudos de ouro com as iniciais
do imperador e sua consorte.
Fitas de bandas rosa-claro com duas orlas de branco.
Destinava-se a premiar militares e civis, nacionais e
estrangeiros, que se distinguissem por sua fidelidade à pessoa do
imperador e por serviços prestados ao Estado.
Luiz Benedito Pereira Leite, penúltimo filho varão de João
Pereira Leite e Maria Josepha de Jesus Leite, foi galardoado com a
Ordem da Rosa.
FENECIDO BOTAO
Aos seus, fez as suas últimas recomendações e passou para o dedo de
sua mãe um anel que há muito tempo usava.
Pouco antes do meio dia, foi tomado de insensibilidade
quase completa, apenas a leve e acelerada respiração e o bater do
pulso indicavam ainda a vida do enfermo.
Nesse estado viveu até as nove horas da noite quando, sem
esforço, como uma aragem que passa, sereno, exalou o último
suspiro.
SEU AMOR A DEUS
Deus o levava na flor dos anos. Nesse pouco tempo,
entretanto, quantos belos exemplos ele não nos deu!
O primeiro amor é o amor de Deus, porque Deus, por sua
excelência, tem que ser o primeiro em tudo.
Esse amor que lhe tinham ensinado os seus pais desde os
seus mais tenros anos, desenvolveu-se com o tempo e com o
conhecimento mais esclarecido da sua religião, para dar flores
abundantes, desde o dia em que teve a felicidade de fazer a sua
primeira comunhão.
Há apenas sete meses, o dia 17 de maio, quando em Roma se
efetuava a canonização da Santa Terezinha do Menino Jesus, chegouse ele alegre e convicto à sagrada mesa Eucarística.
Daquele dia em diante, nunca deixou passar uma semana
sem receber de novo o seu Jesus, e quando, outras vezes, pôde assistir
à missa, sempre comungou.
Durante a sua curta doença, quantas vezes não falou ele de
Comunhão! Ao seu mestre, que o fora visitar, queixou-se que não lhe
tinham deixado fazer a Comunhão, na sexta-feira, a primeira do mês
de dezembro, interrompendo assim o costume de comungar todas as
primeiras sextas feiras, como fazia, em honra do Coração de Jesus.
Quando lhe falaram em lhe dar o Viático, anuiu logo, com
alegria e devoção o recebeu. A seu pai que lhe perguntara se sabia o
que acabava de receber, respondeu: “Sim, papai, é Nosso Senhor”,
102
e voltando-se para sua mãe, acrescentou: Toma-O mamãe, toma-O
também, toma, toma! ...
Não quis, deitado, receber o seu Deus e pediu que o
pusessem de joelhos e como lhe dissessem que não era possível, fez
esforços para levantar-se um pouco, até que seu pai o ajudou a sentarse.
Deliciava-se com assistir e ajudar as sagradas funções.
Quis logo aprender as rezas da Missa para poder responder
ao Sacerdote e nas bênçãos do Santíssimo Sacramento queria também
sempre ajudar.
No mês de Maria, no do Sagrado Coração e depois do mês
do Rosário, nunca faltou às cerimônias religiosas e quando não as
ajudava permanecia de terço na mão, rezando as Ave-Marias. Orava
sempre de olhos baixos ou completamente fechados.
Durante a sua longa agonia, quando já não mais podia falar,
ainda repetia várias orações, entre as quais se notava, sobretudo, a
Santa Maria, tão apropriada ao seu estado.
.Sugerindo-lhe, o padre completava, e ele depois repetia
jaculatórias. As suas últimas palavras inteligíveis foram de orações.
SEU AMOR FILIAL
É impossível que quem ame verdadeiramente a Deus não
ame também seus pais.
Dimas não podia fazer excepção, e não o fez, porque amava
seus pais com entranhado amor. Quantas vezes, durante a sua curta
enfermidade, não chamou por seu pai e sua mãe que o assistiam, com
todo o desvelo e muitas vezes, com mais carinho ainda, repetia:
Paezinho... Mãezinha ...
Ele que durante a sua vida tanto cuidado punha em não
desagradar seus pais, não lhes poupou mostras de carinho; muitas
vezes tomava e beijava as mãos de seu pai e sua mãe e muitas outras,
ajuntando as enfraquecidas mãozinhas trêmulas pela febre que o
torturava, pedia-lhes a bênção.
Quando presentiu o epílogo da sua vida, abandonado
103
aos poucos que ia sendo das suas forças, chamou-os para os abraços
pela última vez.
A sua obediência era exemplar. Bastava uma palavra de seus
pais para dispensar o mais atraente divertimento e cumprir as suas
determinações.
Antes da sua doença, várias vezes convidado por seu mestre
para passeios, apesar de muito desejo que tinha, nunca procurou
escapar à vigilância do pai e nunca se queixou por não obter essa
licença.
Obedecia solícito e sem signal de mau humor.
Se algum trabalho é que dava causa à recusa da licença e à
perda do passeio, ao invés de fazer como muitos, exercia-o com o
mesmo cuidado e ardor como se nada lhe tivessem recusado.
SEU AMOR AO PROFESSOR
Que um bom filho ame seus pais, e natural. Dimas tinha para
com os seus um amor fora do comum; mas ele também dedicava -o
que, talvez, é muito raro − um grande amor, um verdadeiro culto ao
seu professor.
Faltando-lhe ocupação em casa, corria logo ao Colégio, onde
passava algumas horas brincando com os colegas se lá os encontrava
ou conversando com os mestres.
Os Domingos ou dias de festas, quando podia, passava-os no
Colégio.
Esse amor mais se revelou na sua doença.
De cama, no segundo dia, sentindo a falta do seu mestre
junto dele, perguntou ao seu irmão: “Luiz, você não falou ao Padre
Francisco que eu estava doente? − Falei, respondeu o irmão, e ele
insistiu: − “Ora Luiz, você não falou, senão ele já teria vindo”.
De outra feita, ouvindo seu pai dizer à sua mãe que o lugar
deles deveria ser junto do enfermo, acrescentou − “o do professor
também” − Tanto desejo de ver o mestre mostrou, até queixando-se,
que foram chamá-lo.
104
Dimas, então, alegre, conversou muito tempo com o
professor que acudira ao chamado.
Quase não parecia doente e esta aparência levou o professor
a supor que a doença não traria graves conseqüências.
Depois quantas vezes, durante os três últimos dias não falou
do seu mestre, chamando-o repetidas vezes.
O mestre sempre que podia, visitava-o com grande
contentamento para o doente, que o queria sempre ao seu lado, com
seus pais.
No último dia, sentindo aproximar-se o fim, chamou seu pai
e sua mãe, acrescentando − “e o professor também deve estar aqui”
−, como se se queixasse por não o terem chamado.
Este veio pouco depois e na cabeceira do seu aluno, assistiu
triste e impotente aos progressos da doença que lho roubou.
Uma das últimas palavras do doente foi, ainda, para o seu
mestre. Como estivesse segurando o terço que o padre trazia à
cintura, seu pai lhe perguntou:
“Para quem o queres dar?
E ele, em voz já apenas perceptível, respondeu:
Para o padre Francisco ...”
Algumas horas depois, entregava a Deus a sua alma,
deixando o seu professor triste por sua morte; mas feliz pelo
heroísmo do aluno e cheio de esperança, porque se o aluno o amara
tanto durante a sua vida, não haveria de esquecê-lo lá no céu, onde
iria gozar d’uma certa participação do Poder de Deus.
SEU AMOR AO TRABALHO
Amando a Deus, a seus pais e ao seu mestre, deveria
também naturalmente ter amor ao trabalho, que é a regra comum da
humanidade pecadora. Isso também não lhe faltou.
Amava tanto ao trabalho que chegando à escola uns meses
depois dos seus condissípulos, não tardou a alcançá-los, o que depois
105
da sua aplicação, deve ser atribuído à sua assiduidade, pois nunca
perdia uma aula. A sua escrita era bem apurada, suas tarefas limpas e
sua carteira asseda.
Mas não era só durante as aulas que o seu amor ao trabalho
se revelava.
Quantas vezes se ofereceu ao mestre para varrer a sala ou
para o ajudar em outros pequenos serviços. Nunca este lhe pediu uma
cousa que ele não o fizesse logo.
O seu trabalho era constante.
Enquanto muitos outros alunos brincavam depois da aula,
ele quase sempre ia logo para casa auxiliar seus pais.
Todos que o viram na sua enfermidade puderam notar um
fato bem raro em outros da sua idade − as mãos calosas que
indicavam que sabia fazer trabalhos; a sua inteligência, também se
ocupava de serviços humildes, pesados, porém necessários.
deveria anotar, todos os dias, as suas diversas vitórias, e não havia
um dia em que não registrasse vários atos de paciência.
Enquanto outros meninos brigavam por qualquer motivo ou
mesmo sem motivo, ele nunca o fazia, preferindo suportar com
paciência as injúrias a se vingar, o que lhe seria fácil em se tomando
em consideração que não lhe faltavam forças.
Os outros poderiam chamar de fraqueza, era pelo contrário,
um grande exemplo de força moral.
CONCLUSAO
vimos?
A glória dos filhos redunda na de seus pais.
Como é que o nosso jovem chegou ao ponto em que o
Aceitar a morte com paciência e amor, na flor dos anos,
quando se tem pais estremecidos, amigos dedicados, confiança e a
simpatia de todos, parece uma cousa muito difícil. O nosso doente,
entretanto, conformava-se com tudo. Entregara-se às mãos de Deus e
confiante aceitava qualquer cousa que lhe aprouvesse mandar.
Sofria dores acerbas, sua cabeça ardia em fogo, porém nunca
uma impaciência, nunca uma queixa escapava dos seus lábios;
aceitava tudo quanto lhe davam e se às vezes hesitava um pouco a
sua hesitação era passageira.
Ao Sacerdote que lhe sugeria oferecer a Deus a sua vida,
para da mão Dele aceitar o que Ele quisesse, respondia que sim e
repetia sem hesitação o ato de oferecimento que este lhe ditava.
Mas de onde lhe poderia vir essa paciência e essa
resignação?
Seria ele acaso um fraco? Muito pelo contrário, a educação
paterna e a religião lhe tinham fortalecido o caráter.
Seu professor lhe confeccionara uma caderneta na qual
Será que Deus, de repente, o fez assim?
Não, Deus não faz desses milagres; quase sempre se morre
como se viveu.
Tudo o que vimos era o resultado de uma educação
pertinente, desvelada e que infelizmente se torna cada vez mais rara.
Com que esmero cuidaram seus pais da sua educação! Não
lhe deram essa liberdade ampla que vai se fazendo moda e da qual os
filhos, sem inteligência suficiente para dela usar bem, passam a
abusar.
Salvo algumas festas em família, não freqüentava outras.
Não o viam nessas festas ruidosas do mundo em que a virtude
encontra tantos perigos; não o viam nas representações perigosas
como as do Cinema; não o viam vagar pelas ruas em companhias
duvidosas. Só o achavam em dois lugares − em casa, junto dos seus
pais ou na escola com os seus professores.
Esse caráter foi o resultado da acurada educação paterna,
educação aperfeiçoada depois na aula, uma aula religiosa e cristã
onde a sua alma aprendeu a conhecer e a robustecer a sua força pelo
contacto com Deus, que só pode dar fortaleza e virtude.
Por isso durante a sua longa agonia, mesmo nas crises
106
107
SUA PACIENCIA
mais terríveis, nunca se lhe ouviu uma palavra, não digo
inconveniente, mas até menos elevada.
Não tinha ele medo da morte, porque a Religião lhe ensinara
onde iria e a sua consciência lhe dizia que estava pronto para partir.
Oh! como bem a propósito o deitaram no meio de rosas,
coberto de rosas!
Não era pois ele também uma rosa?
Rosa ele era e durou o que duram as rosas: o espaço de uma
manhã.
Desabrochou na primavera da vida e murchou aos primeiros
sopros do estio.
Mas como as rosas deixam atrás de si o seu perfume, que
nos penetra e nos embalsama, ele nos deixa o modelo da sua vida e
de sua morte, para nos servir de exemplo.
É bem o caso de dizer as palavras do Espírito Santo ao
homem justo: Consummatus in brevi, implovit tempora multa,
expressão que o pai sem a conhecer de certo traduzia bem quando
dizia:
Deus o levou. Consola-nos, porém, o coração de pais o
poder dizer que a sua vida, embora curta, foi modelar e a sua morte,
um verdadeiro e dignificante exemplo de fé cristã.
S. Luís de Cáceres, 8-12-925.
Frei Francisco Maria Herail.”
A pequena tiragem deste opúsculo não permitiu que
chegasse a todas as mãos. Pediram-me muitos que eu o reproduzisse,
o que faço de bom grado nas comemorações do bi-centenário de
Cáceres, reverenciando a memória do mimoso botão e do seu
estremecido genitor, meu dileto padrinho Hyldebrando Esteves, cujas
mãos eu osculava sempre, sem respeito humano, com amor e
veneração, onde quer que eu o encontrasse.
Maria Josepha Pereira Esteves e Hyldebrando Esteves,
saudosos pais de Dimas Alexandrino, faleceram em Cuiabá em 1951
e 1956, respectivamente, mas seus restos mortais foram reunidos aos
de Dimas, no jazigo perpétuo da família, em Cáceres, onde Dimas
viveu de 15.01.1912 a 8.12.1925.
108
PERFIL ESPIRITUAL
João Carlos que faleceu aos 72 anos, no dia seguinte ao
centenário da morte do seu avô, Coronel de Milícias, João Pereira
Leite, foi uma alma sensível, como se depreende da correspondência
política, quando adversários, pretendiam alijá-lo da representação
federal, da qual fez largos círculos de amigos, entre os quais Lauro
Muller, que o levou a formar o Secretariado do seu governo em Santa
Catarina. Nos livros da procuradoria Fiscal do Estado, encontra-se o
seu testamento assim redigido:
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Bendicto e louvado seja a Santíssima e Individua Trindade, agora e
sempre por todos os séculos dos séculos sem fim. Amém. Este é o
meu testamento de última vontade, que faço com quasi 72 anos de
idade, mas em perfeito estado de saúde mental, para declarar: 1º —
Que sou Cathólico, Apostólico romano, em cuja santa e única
religião verdadeira tenho vivido e espero em Deus piedosamente
morrer; 2º — que peço perdão a todas as pessoas a quem eu, ainda
que de leve, tenha offendido, tratado com expressões grosseiras e
irosas ou prejudicado n’alguma causa, assim como também que tenho
perdoado de todo o meu coração a todos aquelles que por qualquer
modo me hajam offendido ou prejudicado.
Não desejo levar para a vida de minha alma no além túmulo,
resquício algum de ressentimentos pessoais, bem como não quero
deixa-los no coração dos que me sobreviveram e com os quais tenho
convivido neste vale de lágrimas.
Declaro que sou filho legítimo do Coronel Luis Benedicto
Pereira Leite e de D. Anna Jacintha de Sampaio Leite.
Declaro que sou casado com Dona Amélia de Cerqueira
Caldas, filha do Barão de Diamantino e da Baroneza do mesmo
título, de saudosíssimas memórias, a qual por effeito do nosso
consórcio passou a chamar-se Amélia de Cerqueira Pereira Leite.
Declaro que do nosso casamento, celebrado religiosamente e
civilmente a 12 de julho de 1892, dia em que completei 31 anos de
idade, tivemos quatorze filhos, dos quais vivem actualmente dez,
cujos nomes serão descriptos na respectiva declaração de herdeiros,
109
opportunamente, quando se fizer meu inventário. Os 4 que Deus
levou em bôa hora para a sua Glória, chamavam-se: Luiz Benedicto,
João Carlos, Maria da Glória e Luiza da Conceição. Desta, fallecida
já moça de 20 annos, no Rio de Janeiro, a 10 de julho de 1925, tenho
em meu poder e da minha família os veneráveis restos mortaes.
Declaro que não deixo dinheiro para ser inventariado e repartido
entre os meus herdeiros, nem tão pouco jóias e adereces de ouro e
brilhantes e que os únicos bens que possuo constam de algumas
moradas de casas de pouco valor, por assim dizer — únicos salvados
do grande naufrágio econômico-financeiro que soffri, mas que me
produziu um beneficio incomparavelmente maior, qual o de avivar
mais a minha fé na Providência Divina e firmar mais a minha
esperança no futuro. Declaro que nada devo a quem quer que seja,
nem aqui nesta praça e nem em qualquer outra, dentro ou fóra do
Estado. Declaro que instituo herdeiro da terça parte dos meus bens,
minha mulher Dona Amélia de Cerqueira Pereira Leite,excluindo-se
dela duas pequenas casas, uma em São Luiz de Cáceres, sito à antiga
rua da Cadeia d’aquella cidade com outra denominação hoje, no valor
de um conto e oitocentos mil réis, que deixo para patrimônio do
referido Bispado com a condição de mandar este celebrar todos os
annos no mez de Novembro quatro missas: uma para todas as almas
do purgatório; outra para as almas de todos os meus parentes
ascendentes, descendentes, collateraes e affins e igual e
conjuntamente para as almas dos parentes de minha mulher nos
mesmos graos; outra para as almas das pessoas que foram trucidadas
na triste chacina da “Bahia do Garcez”, em Novembro de 1901 e
finalmente a quarta para todos os viventes humanos que estiverem
sofrendo quaisquer males corporais ou moraes, afim de que quanto
mais soffram se lhes avive mais a esperança e mais se lhes cresça o
amor e temor a Deus. Declaro que a outra casa também excluída da
sua terça é a que deixa para a Senhora Rosa Theodula Barboza e sua
sobrinha Joaquina de Souza Barbosa, sita à Travessa de Santo
Antonio desta Cidade, afim de gozarem e usufruírem della enquanto
viverem, não podendo por modo algum da mesma dispôr.
Desapparecidas as beneficiadas essa casa a que dou o valor de dois
contos de réis, passará em plena propriedade a Nossa Senhora do
Carmo, cuja Imagem se venera na Igreja do Rosário também nesta
cidade, devendo ser ella então entregue à respectiva irmandade. Estas
duas deixas que faço são excluídas do número de outras casas que
possuo afim de que não fique prejudicada a terça parte dos meus
bens, que deixo a minha mulher. Dona Roza Theodula e sua Sobrinha
ficam com o ônus de pagar as décimas do prédio enquanto viverem e
te-lo sempre em bom estado de conservação. Declaro que desejo e
faço questão disto, seja o meu enterro o mais modesto possível e o
meu caixão mortuário o mais pobre que se possa fazer. O meu corpo
será sepultado no cemitério da Irmandade do Senhor Bom Jesus, a
que pertenço, junto do qual irão também os restos mortaes da minha
filha Luiza, e será devidamente previlegiada por minha mulher e
igualmente para si. A Missa do 7º dia em meu sufrágio será
simplesmente rezada, sem música e apenas com dobres de sino, na
Capela de N. S. da Piedade. Não deixando para a minha família senão
pouquíssimo em bens materiais, lego-lhe todavia um bem espiritual
supremo, o maior e o melhor de todos os bens do mundo: a fé em que
nasci, vivi e graças à Deus, morro e o amor ao Sacratíssimo Coração
de Jesus a que nos consagramos lithurgicamente a 29 de outubro de
1926. Cultuem os meus herdeiros este amor como Elle quer e deve
ser amado e nada lhes faltará — tudo o mais se lhes advirá por
accréscimo. Quero que o meu corpo seja levado à sepultura por 6
praças de preto da força da linha ou da polícia, como a última prova
de estima à classe militar a cujo patriótico sacerdócio pertenceu meu
pae. Não quero que ninguém procure notícias minhas no espiritismo,
depois da minha morte, porque não adoto essas práticas condenadas
pela Igreja Cathólica a que pertenço e a quem presto obediência.
Marco o prazo de dois annos para ter inicio o inventário dos meus
bens. Nomeio meus inventariantes testamentários: 1º — minha
mulher Dona Amélia de Cerqueira Pereira Leite, 2º — meu genro
Desembargador José Barnabé de Mesquita e 3º — meu filho Doutor
Antonio de Cerqueira Pereira Leite, Médico, aos quaes peço
aceitarem o encargo sem benefício de inventário, por ser muito
pequeno o monte partível. Declaro que tenho um Montepio
obrigatório da Fazenda Federal, cuja contribuição acha-se paga até 31
de dezembro do corrente ano de 1933 e outro já remido na Instituição
do M.G.D.E. dos servidores do Estado, sendo a metade de ambos de
minha mulher e outra metade dos meus herdeiros, na forma dos
respectivos regulamentos.
110
111
Testamento que faz o Senhor DESEMBARGADOR JOAO
CARLOS PEREIRA LEITE, conforme adiante se declara. Saibam
quantos esta publica escriptura de testamento virem que, no anno do
Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil novecentos e trinta
e treis, aos oito dias do mez de Agosto, nesta cidade de Cuiabá,
Capital do Estado de Mato Grosso, na residência do testador à rua
Barão de Melgaço número noventa e dois, onde a chamado vim, por
me ser distribuída esta, e sendo ahi, perante mim tabellião e as cinco
testemunhas adiante nomeadas e assignadas, compareceu o Senhor
DESEMBARGADOR JOAO CARLOS PEREIRA LEITE, com
setenta e dois annos de idade, casado, magistrado aposentado,
residente nesta mesma casa; o qual se achava doente, deitado, a quem
reconhecemos pelo próprio e nos certificamos estar em seu perfeito
juízo e livre de toda e qualquer coação. E por elle foi dito, perante
mim tabelião e as mesmas cinco testemunhas, que, por sua livre e
própria vontade, em data de sete de Julho ultimo, fez as declarações
de sua ultima vontade em testamento cerrado, o qual foi devidamente
approvado em dezenove daquelle mesmo mez com as solenidades
legaes; que por este Instrumento confirma todas as disposições
constantes do referido testamento, additando-lhe as seguintes: — Que
quer que, depois de sua morte, a sua família mantenha o
compromisso por elle testador assumido para com o Senhor JOAO
PAULO DE FARIA, constante da escriptura de dação de pagamento,
de vinte cinco de outubro de mil novecentos e vinte nove lavrada em
minhas notas; Que as cinco apólices da dívida pública estadual que
transferiu ao seu genro JOAQUIM DO ESPÍRITO SANTO
FIGUEIREDO, como adiantamento á legítima de sua mulher Dona
MARIA JOSE DE FIGUEI REDO, quer que fiquem dispensados da
collação, devendo a sua importância sahir da metade disponível de
seus bens; Que, o adiantamento em dinheiro, feito por elle testador ao
seu empregado AUG USTO ALVES LOPES, elle o deve pagar com
seus serviços, cuidando da limpeza e plantações nos quintaes da
Praça General Mallet esquina da rua Commandante Costa, no
segundo distrito, até que os mesmos sejam partilhados de acordo com
o seu testamento cerrado. E de como assim disse, eu tabellião dou fé,
sendo testemunhas os Senhores CORONEL JOSINO VIEGAS DE
OLIVEIRA PAES, viúvo, capitalista, AURELIANO PINTO
BOTELHO, casado, proprietário, HILDEBRANDO ESTEVES,
casado, proprietário, LUIZ FRANCISCO DE NORONHA, casado,
funcionário público e JOAO BATISTA PULCHERIO, casado,
negociante, todos brasileiros, residentes nesta cidade, os quais todos
assinam comigo este testamento, depois de lido por mim em voz alta,
em presença das testemunhas e do testador que também o assina.
Foram praticadas todas as formalidades recomendadas pelo artigo
1.632 do Código Civil, o que orto por fé. Eu, João Pereira Leite,
segundo tabelião, o escrevi e assino em público e razo. Em
testemunho (sinal público) da verdade. O 2º tabelião JOÃO
PEREIRA LEITE, JOAO CARLOS PEREIRA LEITE, JOSÍNO VI
EGAS DE OLIVEIRA PAES, AURELIANO PINTO BOTELHO,
HILDEBRANDO ESTEVES, LUIZ FRANCISCO DE NORANHA,
JOAO BATISTA PULCHERIO. (Selado com 2$200). —
Transladado em seguida. Eu, JOAO PEREIRA LEITE, segundo
tabelião, o fiz dactilografar, subscrevo e assino.
112
113
Também tenho um seguro de vida na Sul-América de dez contos,
remido desde 27 de junho de 1926 e que pertence exclusivamente à
minha mulher Dona Amélia de Cerqueira Leite, a quem será pago
pela Companhia, sem ônus algum, não fazendo parte de minha
herança, e isto logo que se prove óbito meu. Não quero que se forre
de preto a sala mortuária onde estiver o meu corpo, que é a do
Sagrado Coração de Jesus e nem quero que se chore com
espalhafatosas lamurias em torno delle ao ser feixado o caixão
fúnebre. Quem sentir deveras a minha morte que não a lamente mas
que reze a Deus por minha alma. Antes de ser sepultado o meu corpo
deverá ser feita a encomendação lithurgica pelo vigário da Boa
Morte. A minha mortalha está feita — é a minha beca de Magistrado.
Façam vestir ao meu corpo com ella, atando-se à minha cintura um
cordão de fio de algodão branco, com quatro nós nas extremidades de
um lado e treis do outro, symbolisando as sete dores da Santíssima
Virgem Maria.
— Cuiabá, 7 de Julho de 1933 — João Carlos Pereira Leite.
Mais tarde, João Carlos, sempre preocupado e zeloso, faria um termo
aditivo ao seu testamento, através de instrumento público lançado a
folhas 150 e 151v do livro competente da Procuradoria Fiscal e no
livro n. 146, fls. 31 e 32 das notas do 2º Ofício da Capital, a cargo do
seu primo e afilhado João Pereira Leite, com o seguinte teor:
Em testemunho (sinal público) da verdade. O segundo tabelião JOAO
PEREI RA LEITE. A vida retilínea de João Carlos é verdadeiro
patrimônio para a família, que dele se orgulha como homem justo,
que sempre viveu a simplicidade da vida familiar.
PERLUSTRE DOS TRES PODERES
Na linhagem de Luís Benedito Pereira Leite destaca-se o seu
filho João Carlos, homônimo do Tio paterno deste. A sua figura
austera desdobra-se nos documentos que nos foram confiados pelo
seu dileto neto mais velho, Sebastião Frederico Teixeira, que possui
valioso repositório a respeito do político, do magistrado e do homem
de Estado que foi o Des. João Carlos Pereira Leite. A própria carta
que acompanhou os documentos enviados já constitui o roteiro:
Meu caro Luiz Philipe.
Conforme você sugeriu estamos lhe enviando algumas
lembranças de nossa convivência com o ilustre, muito querido e
saudoso antepassado João Carlos Pereira Leite. Fazemo-la ao correr
da pena, sem qualquer preocupação, ficando a seu critério selecionar
o mais interessante. Inicialmente vamos lembrar o entusiasmo dele
pela carreira militar. Em decorrência desse entusiasmo sempre
manteve ou procurou manter excelente relacionamento com os
militares, aos quais sempre teve na conta de seus melhores e mais
leais amigos. Entre estes, lembramo-nos do Mal. Marçal Faria, do
Mal. Fontoura, do Gal. Celestino Alves Bastos, do Gal. Caetano,
Maior Ricardo de Oliveira, para citar somente alguns coestaduanos.
Lembramo-nos, também neste momento, do Gal. Newton (e não
Milton) Cavalcanti; o qual, sendo ainda da Cap. de Cavalaria,
servindo no 1º R.C., hoje Dragões da Independência, com seu colega
Ten. Nestor Penha Brasil — que era, ao tempo noivo de uma das
filhas do Gal. Celestino, com quem se consorciou — vez por outra,
visitava o então deputado Pereira Leite, conhecido como defensor e
amigo da classe militar, como membro da Comissão de Defesa
Militar ou Comissão de Assuntos Militares (não sei bem a
denominação), da Câmara dos Deputados. Cito o fato apenas para
ilustrar que não foi por acaso, segundo nos parece, que o Gal.
Newton, na ocasião Comandante da Região Militar, compareceu aos
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funerais do nosso João Carlos Pereira Leite, afastado, há muito, de
qualquer atividade social. Queremos, de igual modo e para o mesmo
efeito, recordar o fato de ter escolhido para padrinhos de Rita e Luiza,
respectivamente, o Mal. Câmara — cujo nome nos foge, no
momento, e o Gal. Lauro Muller, de cujo Governo, em Santa
Catarina, foi o Secretário da Justiça, e o fato de ser ele mesmo, João
Carlos, padrinho de uma das filhas do Gal. Celestino, se bem nos
lembramos, de nome Amelinha. A Rita deve lembrar-se de todos
esses fatos. A margem breve comentário nosso: Lendo no “Engenho
de Vila Real” a genealogia da família, passamos a entender melhor o
grande desejo dele parece-nos já ter feito referência a isso,
anteriormente — em fazer seu primeiro neto e afilhado seguir a
carreira militar, carreira que fora de seu pai — Luiz Benedito Pereira
Leite e a qual, diga-se de passagem, ele muito dignificou, conforme
se pode deduzi r de seus assentamentos, transcritos em seu precioso
livro. A alegria que lhe não pudemos dar — deixamos a Escola
Militar de Realengo, no 1º ano, em 1931, onde fomos colegas, entre
outros, do Dilermando, do Nestor Cuiabano, dos Curvos certamente
ele a teve, numa das “moradas do Pai” em que sobrevive, como
espírito, vendo seu bisneto, Luís Frederico de Barros Teixeira,
envergar a farda de nossa marinha de Guerra e, hoje, como Capt.Ten.,
comandando o navio “Abrolhos”, em Aratu, navio esse que integra a
moderna equipagem de nossa Marinha, adquirido à Alemanha, e,
como amplamente noticiado, inspecionado, em data recente, pelo
Presidente ,Geisel. Outro aspecto de sua personalidade: sua lealdade
ao partido em que militou, chefiado pelo Pedro Celestino, a quem
(não sei se sabe) estava ligado sentimentalmente, desde que o
escolheu e a Da. Corina, padrinhos de Amélia. Embora conciliador,
por natureza, nunca lhe faltava energia e espírito de combatividade,
na defesa de seu partido ou para repelir ataques dos adversários. Sob
esse aspecto, sua atuação jornalística não há de ser vista, apenas,
como colaborador do “A Cruz”, como comumente se lembra. Foi,
também, jornalista político, atuante, escrevendo no jornal do Tito
Calhao: “O Mato Grosso” — “O Democrata” — não me lembra mais.
Quanto à atividade jornalista vale lembrar aqui, a título de ilustração,
o testemunho de Catão das Neves, que, certa vez, presente seu primo
Deocleciano, em conversa sobre jornalistas, espontaneamente, se
115
referiu à “extraordinária facilidade de escrever do Dr. João Carlos”,
que o fazia, sempre, na redação do jornal, de uma assentada, com
simplicidade e objetividade, o que muito o impressionara, a ele,
Catão, modesto empregado no jornal. O testemunho coincide, aliás,
com o que já sabíamos, pelo Benedito London, saudoso amigo,
Secretário ou Tesoureiro, não me lembra, do “A Cruz”, desde sua
fundação.
Outro breve comentário sobre o que acima ficou dito: A
intransigência e combatividade do deputado Pereira Leite na defesa
de autoridade do órgão central de seu partido valeu-lhe o
reconhecimento do velho Chefe Pedro Celestino, mas grangeou-lhe,
de outra parte, a animosidade de alguns próceres azeredistas, os
quais, atingidos pelas críticas que mereceram, aliaram-se a
celestinistas aproveitadores, quando ocorreu a fusão das duas
correntes, passando, então, uns e outros, a hostilizar o deputado
Pereira Leite, rasteiramente, junto aos diretórios municipais, com o
objetivo de ver o seu nome e o do deputado Severiano Marques,
riscado da chapa, na fase de renovação dos mandatos (anexo alguns
tópicos de cartas, do próprio punho, umas e copiadas pela Rita,
outras, todas contidas em caderno, em meu poder.). Pela leitura
desses tópicos pode-se ajuizar das manobras mesquinhas nos
bastidores da política e a sobranceira e energia com que o deputado
Pereira Leite se contrapõe a seus opositores, defendendo, não só o
seu, mas o direito de o seu colega deputado Severiano Marques, de
ambos, enfim, serem conservados na chapa de deputados).
Aspecto outro que dispensa qualquer comentário diz respeito
ao seu espírito de religiosidade. Lembramo-nos, — a Maria
Figueiredo, minha tia, recordava comigo, há dias o que às Sextasfeiras, consagrado ao Coração de Jesus — sua maior devoção —
qualquer que fosse o tempo, lá ia ele assistir a sua missa, na Igreja de
S. Cristóvão, que freqüentava. Mas, além dessa, era fervoroso devoto
de Sto. Antônio e S. Benedito. Neste momento em que relembramos
estes pormenores, parece-nos vê-lo, recostado em sua rede de largas
varandas, mão direita segura ao punho e o braço esquerdo, pendido, a
balançá-la suavemente, enquanto, com sua voz branda, procurava nos
alertar — na ocasião lhe anunciamos nosso breve ingresso, no serviço
público, nos idos de 32 — para a virtude da obediência, que nos dizia
ser a que mais se evidenciava na vida gloriosa de S. Benedito. Estava
116
sempre — era um grande ledor da vida dos santos - a alertar-nos com
exemplos, que colhia em suas leituras, ele que, sendo
reconhecidamente um homem de bem, cristão autêntico, já se
constituía, guardadas, as proporções, um modelo vivo e digno para
todos nós. Anote-se, nesta altura, que essa virtude da obediência era a
tônica de seu comportamento, como religioso e como político, de
forma tal que, hoje, pensando nisso, por associação, somos levados a
crer que, se vivo fosse, como católico, estaria acatando, sem qualquer
dissentimento, as inovações ou atualizações evangélicas, não sei bem
como diga, recomendadas pelo último Concílio, assim como na
condição de político militante, acatava rigorosamente as decisões de
cúpula partidária. Existem outras facetas de sua vida exemplar que
nos foram reveladas pelo Major Ricardo de Oliveira, de saudosa
memória, cuiabano cem por cento, caracter adamantino, que foi
grande e dedicado amigo do nosso João Carlos. En passant: Ao
regressar para Cuiabá, foi o Major Ricardo o escolhido para nosso
responsável junto à direção do Colégio Militar, onde estudávamos, e
foi, no honrado lar desse inolvidável e bondoso cuiabano, na
convivência de Da. Chiquinha, também cuiabana, sua virtuosa esposa
para nós uma segunda mãe — e na de seu amado filho Geraldo de
Oliveira, que praticamente fomos criados. Permita-me uma digressão:
O Geraldo de Oliveira — relembro-o com infinita saudade — foi
aquele brioso militar que, como Tenente — post mortem Capitão por
bravura - tombou, à frente de sua coluna de combate, em 27 de
novembro de 1935, no assalto final de reconquista do 3º R. I.,
sublevado por comunistas.
Existem, como acima dissemos, outras facetas da personalidade
do querido antepassado nosso João Carlos Pereira Leite — como, por
exemplo, sua extraordinária bondade, antes, dir-se-ia, seu espírito de
servir a todos, não interessadamente, como político, mas como
católico praticante, que sempre procurou viver, evangelicamente, e da
melhor maneira possível os ensinos de sua religião. Revejo as folhas
escritas e me espanto, com as dimensões que tomou o relato. Fomos
mandando braza porque tínhamos em mente estas lembranças mas
sem atentar pela sua extensão. É que, também, estávamos
preocupados em não retardar ainda mais nossa correspondência, o
que, infelizmente ocorreu, porque a Eunice e eu tivemos que ir à
Salvador, onde permanecemos cerca de 35 dias, dando assistência à
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nora, submetida à operação de urgência, felizmente bem sucedida.
Vamos, pois, por hoje, pôr um ponto final. Quanto ao que ainda
poderíamos dizer fica para outra oportunidade. — Ou, quem sabe, o
faremos, pessoalmente, num bate papo informal, que é mesmo o de
que gostamos muito? A minha caçula Lúcia Maria, último ano de
arquitetura, deseja muito conhecer os parentes cuiabanos, as férias se
aproximam e vai tornando corpo nosso projeto de uma viagem a
Cuiabá... É o caso, então, de matar dois coelhos de uma só cajadada...
O Luiz Frederico e a Leda, também desejam conhecer os nossos
parentes cuiabanos mas, somente, para o ano pensam em fazê-lo,
sendo que o Luiz provavelmente, o fará primeiro, porque deve ir para
Brasília fazer um curso de Comando e Estado Maior e de Brasília a
Cuiabá fica mais fácil ... O opúsculo “Dom José” foi entregue à
Biblioteca Nacional e seu “Furquilha” do qual tínhamos, ainda,
alguns exemplares, oferecemo-los às Bibliotecas da Escola Naval,
Escola Militar e Associação Ex-alunos dos Colégios Militares.
Vamos procurar a Jovita a ver se nos cede alguns exemplares de
“Capitães — Generais” que ela conserva, para oferecê-los às
bibliotecas do Club Naval e Club Militar. Se você ainda dispuser de
alguns queira mandar-nos quando tiver portador. Finalmente o nosso
muito obrigado pela certidão de casamento de meu pai. Meu objetivo
era saber se constava, nesse documento, o nome de meu avô paterno,
pai, também, de Salvador da Costa Teixeira e Custódia Teixeira, os
quais, segundo sabemos, por volta dos anos 15 ou 16 transferiram-se
para Uberaba, onde constituíram família. O primeiro vim a conhecer,
ainda estudante, no Rio, onde ele vinha à miúdo e levava-me sempre
a passear pela cidade; no entanto, nunca cogitei do assunto e, pois,
nenhum esclarecimento lhe pedi. O Adolfo, por outro lado, como
Instrutor de Tiro de Guerra, em suas andanças por diversas cidades de
Minas, incluída Uberaba, conheceu a ambos e respectivos
descendentes, nossos primos, com os quais, agora, vamos procurar
entrar em contacto. Anexo segue também, o xerox do discurso do
deputado Pereira Leite, de que eu me lembrava, fora feito, e fiz
referência em minha última carta. Sem mais, pedindo excusas pela
extensão, envio-lhe cordial abraço e as recomendações da Eunice
para você e todos os seus. aa) Sebastião.
A sua atividade política pode estar resumida nas cartas que
escreveu ao Dr. Tomás Dulce, em Cáceres; ao Cel. Antônio Antero
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Paes de Barros, hoje nonagenário, então em Campo Grande e ao
chefe político de Livramento, Tenente Antônio Estêvão de
Figueiredo, com quem conversamos pessoalmente na lucidez dos
seus 86 anos. Vejamo-las:
1 — “Meu Caro Amigo Sr. Cel. Antero. Rio, 7 de junho de 1923. Há
de lembrar-se de nossa curta palestra à Rua Uruguaiana e durante a
qual tive de falar-lhe sobre minha reeleição. Pois bem,
posteriormente, um amigo meu avisou-me que algo se trama contra a
conservação do meu nome na chapa do nosso partido e agora acabo
de receber uma carta de um amigo íntimo nosso de Cuiabá, dizendo
que meus desafetos pretendem bloquear-me junto aos diretórios
locais, a fim de que estes proponham a minha exclusão e a do
Severiano da chapa e que lhe parecia conveniente eu fazer o meu
trabalho junto dos mesmos diretórios, a fim de neutralizar ou conjurar
qualquer tentativa que eles fizerem contra mim. Desafetos políticos
no mesmo partido eu felizmente não tenho, mas é possível que,
dentre os nossos amigos políticos de hoje, aqueles que se juntarem ao
nosso partido por efeito da fusão, existam alguns desafetos pessoais
meus, que não obstante nossos correligionários, ainda conservam
ódio em mim e desejo de fazer-me todo o mal possível. Mas o amigo
vê que isso é uma cousa pessoal, puramente. Os que me conservam
ódio que se vinguem de mim como puderem, mas não podem fazê-lo
por intermédio do nosso partido, ao qual tenho dedicado e ao Estado,
todas as minhas melhores energias... aa) João Carlos Pereira Leite.”
2 — Carta ao Sr. Dr. Thomás Dulce, em 8 de junho de 1923.
... “Não acredito que hoje, quando ainda melhores serviços poderei
prestar ao nosso partido e quanto mais eu necessito da sua assistência
benfazeja, no último quartel da vida, que alguém, a não ser algum
desafeto pessoal meu, por mera vingança, se lembre de afastar-me da
representação do nosso Estado na Câmara, criando-me uma situação
de angústia e sofrimentos, para gáudio daqueles contra quem lutei e a
quem, mercê de Deus, venci, consolidando a situação do nosso
partido de tal forma que o adversário, desanimado, procurou fazer
conosco a paz. Tenho certeza absoluta de que o nosso partido não
119
consentirá no meu afastamento ... Quando eu propus-me a defendê-lo
(refere-se ao partido) num tempo cheio de dúvidas e apreensões,
quando a situação era precária em 1916, fui procurado por um amigo
meu que veio dizer-me — “que eu estava mal orientado, apoiando o
Gal. Caetano que era ainda tempo de recuar e retomar o bom
caminho mesmo porque o general cairia infalivelmente e eu não
voltaria mais à Câmara. Eu lhe respondi que “entre voltar à Câmara e
a minha queda, se o partido que estava defendendo fosse vencido, eu
preferiria o ostracismo”. Como é, pois, que agora, que vencemos em
toda a linha com a capitulação do adversário, que veio unir-se a nós,
é que eu devo ser relegado ao ostracismo, no último quartel de minha
vida, reduzido à quase pobreza, e não podendo auferir dessa
tranqüilidade que a paz da família matogrossense trouxe a todos nós?
Quando eu não posso ocupar-me mais de outro mister?
3 — Carta dirigida ao Sr. Antônio Estêvão Filho, de 9 de junho de
23. Nunca tive ocasião de vir a presença do meu estimado amigo para
tratar de minha recondução ao mandato de deputado federal, que o
nosso glorioso partido tem me confiado e que eu sempre tenho
procurado honrar e dignificar durante oito anos consecutivos, com
inexcedível dedicação e lealdade, de que tenho plena consciência.
Achava que era desnecessário ... Propriamente não sei quem é que se
propõe a conter-me. Seja quem for, porém, não lhe assiste razão
alguma de ordem politica para o fazer, porquanto na minha
consciência ainda não desmereci do conceito que conquistei no seio
do nosso partido pelos bons e oportunos serviços ao mesmo por mim
prestados quando periclitava a estabilidade de sua situação política,
toda então cheia de dúvidas e incertezas. Pela mercê de Deus, mais
do que pelo acerto e felicidade das manobras que empreguei na luta,
consegui “forçar o adversário a propor-nos a paz, dessa paz que tanto
precisava o nosso torrão natal para o seu futuro engrandecimento.
Sempre tenho dado as melhores provas da minha dedicação, sempre
pronto, sempre disposto a interessar-me pelo progresso do nosso
Estado, bem como pelo bem estar de cada um de nossos
correligionários. Meu afastamento, agora ... etc... Na luta os meus
serviços foram proveitosos, porque então, no período da paz é que eu
devo ser dispensado e atirado ao ostracismo, quando mais não posso
ir ocupar-me de outro mister? ...
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Estou nas melhores relações possíveis com o Chefe da Nação, bem
como com os ilustres ministros, das diversas pastas do seu honrado
Governo, sendo sempre muito considerado por eles, todas as vezes
que me cabe tratar de qualquer assunto de interesse de nosso Estado e
dos nossos estimados amigos. Qual a vantagem política de eu ser
substituído? Qual é o correligionário nosso com mais serviços, com
mais sacrifícios, com melhor fé-de-ofícios de que eu? Temos, é
verdade, alguns amigos nossos que prometem e que apenas começam
de se iniciar na política, mas nenhum deles pode concorrer comigo,
para me preterir. Pode qualquer deles ocupar minha vaga quando esta
se dê naturalmente.”
4 — Carta dirigida ao seu sobrinho Hildebrando. Em 10 de junho de
1923...Como você sabe, no fim deste ano termina o meu mandato de
deputado federal, no qual, por muitas razões, políticas e particulares,
eu desejo muito ser reconduzido, pelo menos por mais estes três anos
de 1924 a 1926, quando não seja sempre, enquanto Deus me der vida
e eu possa prestar os meus serviços ao meu partido, como venho
prestando, não tendo receio de ser considerado falta de dedicação.
Parece-me até que, não seja falta de modéstia da minha parte, ser
talvez o partidário mais dedicado, mais esforçado que o partido tem
tido até agora, não temendo confronto com outro qualquer dos meus
companheiros. O nosso eminente amigo, chefe e meu bondoso
compadre Pedra Celestino, quando foi da eleição de 1921, me
declarou: “no meio do nosso partido não haveria ninguém que, por
melhores serviços que ao mesmo tivesse prestado, pudesse me
preterir na minha reeleição, serviços tais que tinham conquistado para
mim um lugar que outro qualquer não poderia preencher, com o
mesmo proveito para o nosso partido e para o Estado, para o qual eu
tinha um devotamento quase excepcional, pouco comum”. Portanto,
não vejo razão alguma de ordem política para que alguém, seja quem
for, possa combater a minha reeleição de Fevereiro do ano vindouro,
para deputado federal, porquanto à minha consciência, reflexo dos
meus atos, não desmereci ainda do conceito que conquistei no seio do
nosso glorioso partido pelos bons e oportunos serviços ao mesmo por
mim prestados, quando periclitava a estabilidade de sua situação
política, toda então cheia de apreensões, dúvidas e incertezas ...
121
Daí para cá são evidentes as provas de dedicação que lhe tenho dado,
cada vez mais me esmerando por agradá-lo, tornando digno de sua
confiança ... Assim sendo, não vejo motivo político para a minha
substituição, hoje que melhores serviços posso ainda lhe prestar por
estar de muito boas relações com o nosso preclaro Presidente da
República Dr. Artur Bernardes e com a quase totalidade da Câmara
dos Deputados. Não devia temer hostilidade alguma à minha pessoa
tão bem como me acho com o nosso Presidente do Estado, com o
Diretório Central e com o governo federal. Mas é que ouço dizer que
se pretende trabalhar contra a conservação do meu nome na chapa,
nos municípios diversos de nosso Estado e perante os nossos
diretórios locais, a fim de que estes proponham a minha exclusão e a
do Severiano. Por que razão? Já faltamos algum dia com o
cumprimento do nosso dever político para com o partido? Se não
faltamos, o razoável é que acha seja mantida como está. Por que
estamos em paz? Pois não é paz que mais direito tem de serem
conservados na chapa aqueles que mais trabalharam pela nossa
vitória, vitória esta conseguida pela capitulação do adversário? o
nosso direito pois, de sermos conservados na chapa em quanto bem
serviços ao nosso partido, é inconcusso, insofismável, é evidente.
Assim peço confabular aí com outros amigos do diretório no sentido
de, no ânimo de cada um ficar assentado que se não modifique a
chapa a despeito mesmo de querer algum desafeto pessoal nosso, que
o temos dentre os amigos novos, trabalhar contra nós. Achando o
nosso diretório aí, no firme propósito de sustentar a conservação do
meu nome na nossa chapa, como desejo e espero aconteça, ninguém,
seja azeredista ou pedrista, como somos, se animará a pleitear nos
municípios a minha exclusão e a do Severiano. Tenho sobejas razões
para afirmar que o compadre Pedro Celestino é a meu. favor, bem
como o Diretório Central do nosso partido. ... aa) João Carlos Pereira
Leite.
Estes documentos por si só revelam a postura e a grandeza
d’alma do sobrinho e homônimo do Major João Carlos Pereira Leite.
MISSAO DO PADRINHO
João Carlos era sobrinho carnal da minha bisavó Ana Maria
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da Silva, mãe de José Venâncio, sendo este primo daquele,
contemporâneos, amigos e compadres. Os meus avós paternos,
Hermínia Alves da Cunha e José Venâncio Pereira Leite morreram
muito cedo, em 1888 e 1893, respectivamente, deixando órfãos Maria
Josefa e João. Estes contavam quatro e nove anos quando perderam
os pais. O padrinho assumiu a educação do afilhado que veio na sua
companhia de Cáceres para Cuiabá, onde chegaram em 9.1.1896.
Contava meu pai que no mesmo vapor viajaram muitos dos materiais
que serviram para a construção do Edifício sede da firma Orlando &
Cia., na esquina da antiga Rua de Baixo com a Travessa da
Assembléia, dando fundos para a Prainha. Esta casa comercial
desempenhou papel influente nos áureos tempos da Borracha e
funcionava como se fosse Banco, quando nenhum existia na praça e o
próprio Banco do Brasil só viria instalar-se na década de 20.
Lembrava-se meu pai da morte de sua mãe Hermínia Alves
da Cunha, na Jacobina, em cuja Igreja, sob o patrocínio de Santo
Antônio, foi sepultada bem ao lado da do revolucionário baiano chefe
da Sabinada, o médico Francisco Sabino da Rocha Vieira.
Recordava-se de quando penteavam seus longos cabelos para sepultála. Eram familiares a ele “Nambi” o “Paiol” e a Jacobina, lugares que
lhe povoaram o sonho de menino e nos quais nas cavalgadas com o
seu pai era-lhe permitido tocar em todas as folhas pretendidas,
inclusive o cansanção.
Matriculado pelo padrinho no recém-fundado Liceu de São
Gonçalo, inaugurado em 1894 pelos Padres Salesianos de Dom
Bosco, ali completou seus estudos. Duas figuras ficaram na sua
memória: a do Padre Cassimiro, admirado pelas suas excelsas
virtudes e a do Mestre Sampaio. Este era o terror das crianças das
primeiras letras e certo dia alguém falou ao meu pai: “Joãozinho,
Mestre Sampaio quer falar com você.” Meu pai devia contar 6 anos e
pouco e foi até a casa do Mestre e o encontrou morto por sobre a
mesa funerária. Voltou correndo contente e feliz, ele que partira
nervoso e preocupado. Ao padre Cassimiro chegou a ajudar nas
coletas mensais que fazia para o próprio sustento, entregando o
supérfluo aos mais necessitados do que ele. No cabeçalho do pedido
de esmola e para justificá-la, Padre Cassimiro fazia escrever mais ou
menos assim: “O Pároco desta freguesia desde 15 de Novembro de
1899, não recebe do Governo, pensão, côngrua ou estipêndio de
123
espécie alguma por isso recorre à caridade pública para o seu próprio
sustento ...” Na memória do menino de 11 anos aquelas palavras
ecoaram por todo e sempre. Não voltou à Cáceres a não ser quando
faleceu a sua irmã Maria Josefa, cheia de filhos em 19.7.1914. Ela era
casada com João Cavalcanti e desejava muito ver o irmão mais novo
e único antes de morrer. Mas meu pai somente ali pôde chegar depois
que ela morrera.
Concluídos os estudos elementares no Colégio Salesiano foi
admitido como aprendiz de tipógrafo no estabelecimento comercial
de Avelino Siqueira, onde fez carreira e onde se fez homem no dizer
de Estêvão de Mendonça, quando elogiou a sua arte tipográfica nos
trabalhos elaborados para a exposição de 1908, centenário de
Chegada de Dom João Sexto no Brasil e do gesto do Visconde de
Cairu, abrindo os portos do Brasil ao comércio com as nações amigas
na era napoleônica.
Na família Pereira Leite vale destacada a constante
reprodução dos nomes dos ancestrais. Hermínia e José Venâncio
deram aos filhos o nome dos avós Maria Josefa e João. João Pereira
Leite deu aos filhos os nomes de Hermínia e José Venâncio, obtidos
dos avós paternos. Além de Luís-Philippe, que sendo homenagem ao
Almirante Saldanha da Gama, não deixou de reproduzir o nome do
filho do Major João Carlos que mais tarde se fez Oficial da Polícia
Militar do Rio, onde faleceu no século passado. João Pereira tornouse excelente tipógrafo e compositor de primeira qualidade. Revisor
cuidadoso e mais tarde teve Oficina própria que deixou em 1922,
após a morte do Tabelião Manoel Nunes de Barros, conhecido pelo
vulgo de Mané Sola, para assumir o Cartório do 2º Ofício de Notas
de Cuiabá, que fora instalado em 25.01.1821, antes da Independência
do Brasil, como constam das notas do livro n. 1, perfeitamente
conservado no respectivo arquivo. A testa do Cartório permaneceu
cerca de 29 anos, aposentando-se em 12 de julho de 1951, sendo
substituído pelo filho Luís-Philippe que, para tanto, acabava de
deixar a Chefia do Ministério público Estadual.
Dotado de excelente memória, era João Pereira um
dicionário vivo da cidade. Com o passar dos anos mesmo ao falar aos
jovens constatava o seu ancestral imediato ou mesmo de nível
superior para melhor dissertar com pleno conhecimento de causa
sobre os da velha guarda que ele tão bem conhecia. Ao expirar, na
manhã de 8.5.1959, teve a assistência dedicada dos diletos médicos
124
José Monteiro de Figueiredo e Luís Alves Correa, este colega do
meu irmão José Venâncio desde o primeiro ano primário até o último
da Faculdade de Medicina da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, na
qual colaram grau em 7.12.1944. Luís Alves não deixou de lamentar:
perdemos a nossa grande cabeça. Os jornais assim se manifestaram:
“... O Sr. João Pereira Leite, cuja vida foi um exemplo de dedicação e
amor ao trabalho, era estimadíssimo nesta Capital, pelos seus dotes
de caráter e boníssimo coração ... (“O Estado de Mato Grosso, edição
de 10.05.1959); “Faleceu na manhã do dia 8 do corrente, nesta
Capital, o Sr. João Pereira Leite, tabelião aposentado. O extinto que
era pessoa muito estimado nesta cidade, teve o seu sepultamento no
Cemitério da Piedade com grande acompanhamento. Conhecedor
profundo da história da nossa cidade, sua palestra era culta e
agradável.” (O Social Democrata); “No dia 8 do corrente, tomamos
conhecimento da infausta notícia do falecimento, após grave
enfermidade, do nosso prezado amigo Sr. João Pereira Leite.
Serventuário de Justiça aposentado, antigo titular do Cartório do 20
Ofício, João Pereira era, por assim dizer, uma crônica viva não só da
cidade como de todo o norte do Estado, senhor de extraordinária
memória que o notabilizou pela facilidade em esclarecer situações de
parentesco e propriedade, com absoluta precisão de dados históricos.
Cacerense de nascimento, radicou-se nesta capital, perfeitamente
ambientado e em pouco integrado na estima e consideração dos
cuiabanos, como um patrimônio social.” (O Combate); “...
Serventuário de Justiça durante longos anos, o saudoso Escrivão João
Pereira era um padrão de capacidade, e de rigor no cumprimento do
Dever, de critério funcional e de absoluta honestidade. Aposentado
quando já contava mais de 40 anos de bons serviços à Justiça do
Estado e à causa pública, João Pereira havia, não há muito,
transmitido o seu conceituado Cartório ao seu dileto filho, o Doutor
Luís-Philippe Pereira Leite, membro destacado da Academia
Matogrossense de Letras e do Instituto Histórico”. (Jornal do
Comércio); “No dia 8 de Maio, tendo recebido todos os confortos da
nossa Santa Religião, carinhosa e espiritualmente assistido pelo
Revmo. Pe.Vanir Delfino César, passara à melhor vida, o Snr. João
Pereira Leite, pai do Exmo. Sr. Dr. Luís-Philippe, que vem tendo
uma atuação intensa e vital para com o nosso bi-centenário, “A
125
João Villasboas, Mário Motta e João Pereira Leite viveram
sólida amizade jamais interrompida através dos tempos. Advogado
recém-formado, Villasboas veio estabelecer-se em Cuiabá com
escritório, no qual sempre contou com o auxílio eficiente de João
Pereira Leite. Ainda pequeno lembrava-me dos escritórios na Rua 13
em frente à atual igreja Presbiteriana e na Pedro Celestino, esquina
com a Trav. da Assembléia, onde, em certo período, funcionou a sede
local do Banco do Brasil, a primeira especialmente construída para
isto. Em 10 de junho de 1920, Mario Motta escrevia de Cáceres para
João Pereira: “Prezado , Amigo João Pereira. Desejo a continuação
da sua preciosa saúde e da sua exma. família, a quem apresento meus
respeitosos cumprimentos. Eu e minha senhora muito agradecemos a
gentileza da participação do nascimento de mais um filhinho, a quem
fazemos votos de muitas felicidades, desejando-lhe um risonho porvir
para alegria dos seus dignos e distintos progenitores, Agradeço-lhe
muito a sua boa amizade, o seu desinteressado empenho tomado por
mim, comunicando-me as dificuldades que têm surgido com relação à
minha fiança e o seu reforço na Delegacia.
Até aquela data ignorava por completo o que se passava. Com o seu
telegrama provoquei uma resposta dos meus procuradores Orlando,
Irmãos, que, até então silenciosos, responderam-me que não podiam
reforçar a minha fiança porque esta não existia na Delegacia, que o
Villasboas retirara de lá o respectivo processo. Passei-lhes nova
procuração com poderes para prestar fiança e reforçá-la, e ontem
recebi um telegrama deles, avisando-me que a procuração foi
registrada na Delegacia. Não sei a que atribuir tudo isso, peço ao
amigo orientar-me nesse emaranhado de cousas. Nesta data escrevo
ao Dr. Euphrósio nesse assunto e peço-lhe também por sua vez pedir
ao deputado Faria Albernaz e remeter-me com brevidade uma novena
de procuração a fim de solucionar de uma vez por todas este tão
complicado caso de fiança. Esperamos aqui o Villasboas até o dia 20
ou 22. Está demorada a decisão da sua causa. Estou ansioso por isso,
apesar de saber que o direito, a razão e justiça estão do nosso lado.
Como sempre, ao seu inteiro dispor aqui fica o sempre agradecido e
obrigado. aa) Mario Motta.”
A velha carta não deixa de ser uma página da nossa história.
Ela ressalta a função da Casa Orlando como se fora um Banco de
vital importância na vida dos negócios de Cuiabá. Por todos
procurada e a todos servindo. Revela a amizade sincera e leal que
permaneceria crescendo. Antes de sepultado João Pereira,
Mario Motta, durante as últimas horas, fez questão de afirmar querer
passar as derradeiras horas ao seu lado. Quanto desci para estudar,
concluído o secundário, vali-me da companhia do casal amigo cuja
viúva bondosa e veneranda cercada do nosso respeito e do nosso
carinho, na companhia do único filho que sobra de quantos deu a luz,
vive à vigília dos seus noventa anos.
Com Villasboas mantinha parceria avícola. No quintal da
Pedro Celestino, esquina da Trav. da Assembléia onde ele e Mário
Motta residiam, em diagonal com a casa assobradada de Dona Nenê
Palma, nascida Addor e viúva do saudoso homem do Comércio de
outros tempos, Manoel Rodrigues Palma, Villasboas e eu tínhamos
criação comum de galinhas. O seu galo pescoço pelado era
multicolorido, forte e bonito. Certa manhã, levei um frangão para
soltar no quintal e com ele provoquei o pescoço pelado e este
avançou sobre nós e me deu solene bicada nas costas da mão
esquerda. O braço teve que ficar na tipóia vá rios dias e eu tive de
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Cruz”; sendo, ao mesmo tempo, abnegado edificante em todas as
atividades da Causa Santa de Cristo Nosso Senhor. As preces de
sufrágios pela alma do Snr. João Pereira, as condolências ao
digníssimo Sr. Luís-Philippe, e esposa, extensivas aos demais filhos,
e a todos os membros dessa tradicional família.” (A Cruz — edição
de 15.05.1959).
Através da vida, João Carlos, padrinho de Crisma, assumiu a
missão dos de Batismo Pedro Gabriel Alves da Cunha e Da.
Francelina Alves da Costa Garcia, falecidos logo após aquele 27 de
janeiro de 1885, quando o inolvidável Pe. Casimiro Ponce Martins
impôs os santos óleos a João Pereira Leite, nascido em 4 de março de
1884, conforme consta das folhas 54 do livro n. 15 da Paróquia de
Cáceres. Por isso mesmo sempre mereceu de nós outros a amizade, a
gratidão, o respeito e a admiração e também por isso lá estávamos no
Cemitério da Piedade, naquela manhã de 8.9.1933, levando João
Carlos, comovidamente, até a última morada, consoante já o fixamos
nas páginas de “O Engenho da Estrada’ Real”.
BELA AMIZADE
tomar a única injeção anti-tetânica da minha vida, receitada por este
outro médico venerando, amigo e compadre, Dr. Antônio de Pinho
Maciel Epaminondas, o decano dos médicos cuiabanos que também
está na glória dos seus quase noventa anos.
Villasboas zombava do fato e ria a não poder dizendo que o
seu pescoço pelado passara a cantar: “Eu biquei um menino e ainda
bico outro”, referindo-se ao mano José Venâncio. Na casa do
Villasboas, quando esquecíamos em cima da mesa caderno, régua,
lápis ou borracha nos quais colocava o nome para identificação,
Villasboas não perdia tempo, fazendo acrescentar em todos eles a
palavra “merda” para ver a nossa indignação. Político hábil, no
Governo ou na Oposição, sempre teve o respaldo de largos círculos
de amigos fiéis e de um grupo mais reduzido que até lhe era mais fiel
nos momentos de amargura do que nos próprios de opulência e neste
círculo menor papai sempre se colocou. Na saúde e na doença, no
trabalho, na política sempre ao seu lado, aborrecendo-se quando em
1946 fui nomeado para o Conselho Administrativo do Estado e ele,
por política partidária não respeitou nos seus comentários a dignidade
do filho do seu grande e inalterável amigo. No fundo do coração a
mágoa não encontrou raízes, tão bela e tão nobre aquela amizade
assim confirmada em 1959; “Profundamente ferido pela dolorosa
notícia passamento meu velho querido amigo João Pereira envio seu
digno filho demais membros desolada família meus sinceros pêsames
cordiais saudações — Senador Villasboas”.
na pequena Igreja de Santo Antônio a sepultura humilde de um
médico Baiano, Francisco Sabino da Rocha Vieira, chefe da
revolução Sabinada, em 1837, e Villasboas, emocionado,
testemunhava que ali naquele momento e naquela circunstância ele
aprendera a amar a Bahia.
Villasboas é um dos grandes filhos de Cáceres, onde nasceu
em 21.04.1891 e a sua vida gloriosa será um dia escrita com amor e
carinho pelos filósofos dos nossos dias, como expressão destacada da
geração que sucede a cada passo. Em 1923 Mário Motta mudava-se
de Cáceres para Cuiabá e os de casa fomos os primeiros amigos dos
seus filhos e juntos, naquela noite distante, sem luz fomos à Rua do
Meio, no Armazém do João Cabral, comprar vela e fósforo para
iluminar a casa dos que acabavam de chegar para ficar em Cuiabá.
Mário Motta e João Pereira tão amigos tiveram os seus nomes
perpetuados nos respectivos netos varões e por coincidência, embora
em anos diferentes, foram nascer no mesmo dia 4 de fevereiro.
Elegâncias da providências. Cousas de Deus...
Nem se esqueça neste capítulo de saudade e de amizade que Mário
Motta é filho do inolvidável Marechal Aníbal da Motta, herói da
retomada de Corumbá de 13.07.1867.
Na noite em que Villasboas assumiu a sua Cadeira na
Academia Matogrossense de Letras, em 5 de dezembro de 1975, em
virtude de compromisso simultâneo, não me foi dado ouvir o seu
discurso de posse e nem o de saudação proferida pelo nosso confrade
Demóstenes Martins, mas o alcancei na recepção posterior que se fez
no Clube Esportivo Dom Bosco; sentei-me ao seu lado e ficamos
longo tempo conversando e revivendo fatos felizes e marcantes do
passado. Recordou, com emoção, a saudação que fizera ao velho
político Baiano — Jota Seabra, quando este completou noventa anos
e recebeu a consagração dos seus amigos.
Nas caminhadas que fazia a cavalo, ainda moço, em Cáceres
na Companhia do seu pai, Benedito Pio Villasboas, chegou certa feita
até o sítio da Jacobina dos Pereira Leite e ali o seu pai lhe mostrou,
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Hermínia Alves Cunha
José Venâncio Pereira Leite
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BENEMÉRITOS FRANCISCANOS
No começo do século XX, o operoso Dom Carlos Luís
D’Amour, segundo bispo de Cuiabá, que, após 12 anos de lutas
ingentes, obtivera, em 1894, os primeiros salesianos para a sua
Diocese, conseguia dos superiores da cidade francesa de Alby, os
primeiros franciscanos para Cuiabá, depois irradiados para Cáceres e
Poconé.
No primeiro grupo destacava-se a figura inconfundível de
Frei Luís Maria de Gallibert.
A Diocese de São Luís de Cáceres foi erigida em 8 de abril
de 1910, por S.S. o Papa Pio X, que pelas letras Apostólicas “Novas
Constituere”, elevou à categoria de archidiocese a sede Episcopal de
Cuiabá, dando-lhe por sufragâneas as novas sedes de Santa Cruz de
Corumbá e de São Luís de Cáceres e assim constituindo a Província
Eclesiástica de Cuiabá.
Esta, bula de instituição foi posta em execução pelo Decreto
da Nunciatura Apostólica de 22 de outubro do referido ano de 1910,
assinado pelo Núncio no nosso País, o Exmo, Reverendíssimo Senhor
D. Alexandre Bavona, arcebispo de Thassalia,
O primeiro bispo da nova diocese de São Luís de Cáceres,
foi o Senhor D. Modesto Augusto Vieira, anteriormente vigário de
Caratinga, na arquidiocese de Mariana, o qual foi nomeado em março
de 1911, mas não tomou posse da sua sede, que finalmente resignou.
Para preencher a sede vacante foi eleito por S. S. o Papa
Bento XV o Reverendíssimo Frei D. Luís Maria Gallibert, provincial
então neste Estado, da ordem Terceira Regular de São Francisco de
Assis do Brasil. A notificação desta nomeação foi feita pelo Exmo.
Senhor Núncio Apostólico no dia 18 de dezembro de 1914 e a
confirmação no dia 15 de março de 1915.
Devido a circunstâncias excepcionais, principalmente à
guerra monstruosa que então assolava a Europa, e cujos sinistros
reflexos atingiram o mundo inteiro, tornando as comunicações
excessivamente difíceis, o novo bispo foi autorizado não esperar as
Bulas de nomeação.
E, assim, em virtude de um Mandato Apostólico expedido
pela Nunciatura Apostólica de 13 de fevereiro de 1915, o
Reverendíssimo Frei Luís Maria Gallibert recebeu a sagração
episcopal em 15 de agosto de 1915, das mãos do Exmo. Senhor D.
Carlos Luís D’Amour, Arcebispo Metropolitano de Cuiabá, assistido
pelos Exmos. Revendíssimos D. Cyrillo de Paula Freitas, Bispo de
Corumbá, e Dom Francisco de Aquino Correa, Bispo de Prussiade e
auxiliar de Cuiabá.
E tomou posse da diocese no dia 3 de outubro de 1915, com
grande manifestação de júbilo do povo desta cidade.
Conta a diocese quatro paróquias: a da Santíssima Trindade
de Mato Grosso, criada pela Lei Provincial de 1733; a de São Luís de
Cáceres em 16 de setembro de 1779, por provisão confirmada pelo
Prelado Diocesano, de 4 de agosto de 1780; a de Nossa Senhora de
Poconé, pela Resolução Provincial de 09 de agosto de 1817 e de
Nossa Senhora do Livramento, pela Lei Provincial de 28 de agosto de
1835.
Pela Constituição “Inter-Nostri”, de 10 de maio de 1928,
S.S. o Papa Pio XI erigiu a Prelazia Nullius de Porto Velho que
abrange o Município de Santo Antônio do Rio Madeira, que
pertenceu à Paróquia da Santíssima Trindade de Mato Grosso, desta
diocese.
Pela Constituição “Animarum Causa”, de 10 de março de
1929, o Santo Padre, Pio XI, erigiu a Prelazia Nullius de Guajará
Mirim, cujo território foi também desmembrado da Paróquia da
Santíssima Trindade de Mato Grosso.
O Reverendíssimo Frei Dom Luís Maria Gallibert, Bispo de
São Luís de Cáceres, nasceu no dia 31 de dezembro de 1877, em
Lasfaillades, Locanato de Anglés, Diocese de Alby, República
Francesa.
Fez ele na escola S. João Ambialet os seus estudos
secundários e alcançou o grau de bacharel em letras que lhe foi
conferido pela Faculdade de Toulóuse.
Entrou na Ordem Terceira de São Francisco de Assis e fez a
sua profissão de religioso em 1894, conquistando com muito brilho,
em 1897, o Doutorado em Letras na Faculdade de Chermont. .
Em 24 de Junho de 1902, recebeu a ordenação sacerdotal e
foi sucessivamente professor de Letras e de Filosofia nos Colégios de
São João de Ambiolete Sainte Marie — Alby.
Em setembro de 1908, desembarcou em Cuiabá a fim de
reunir-se aos companheiros da Ordem que o tinham precedido em
1904 e foi logo nomeado Superior com poderes de Provincial.
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Gallibert pertence a uma importante família cristã que já deu
à Igreja um bispo na pessoa de um primo, Monsenhor Gallibert, bispo
de Eno, e missionário na China, já falecido.
Dom Luís Maria Gallibert dirigiu o seminário de Cuiabá
onde foi sempre admirado e respeitado pelas suas acrisoladas
virtudes, a ponto de a Santa Sé o distinguir com o episcopado, que ele
exerceu com bondade e descortino durante mais de 40 anos. Já
avançado em idade, acometido pelas enfermidades próprias da
velhice, resignou o cargo, retornando à França, sua pátria e berço da
sua Ordem Terceira, sendo antes merecidamente galardoado com a
Legião de Honra. Era o reconhecimento maior da sua pátria ao filho
dedicado e dileto que prestara os mais acentuados serviços ao Brasil,
sua pátria de adoção.
Quando elevado ao episcopado a gente cuiabana brindou
Dom Gallibert, oferecendo as suas jóias e os seus adereços para que
se transformassem na sua cruz peitoral e na corrente de ouro que ele
portava com muita humildade e muito reconhecimento aos ofertantes
cuiabanos. A vida de Dom Gallibert foi edificante em todos os
sentidos. Percorria as regiões mais inóspitas da sua extensa diocese,
com freqüência e exemplar paciência, a todos ministrando os
socorros espirituais da religião e até mesmo os materiais, pois do
pouco que possuía tudo dava ao próximo no seu abnegado espírito
franciscano.
Na imprensa cuiabana, sob o título “Merecida recompensa”,
escrevia a propósito: “Acaba de regressar da Europa, em
peregrinação a Lourdes, no ano centenário da aparição da Virgem à
Santa Bernadete, o meu particular amigo, Dom Máximo Biennes,
administrador apostólico da Diocese de Cáceres, terra dos meus
ancestrais paternos, que a ajudaram fundar nos idos de 1778,
subscrevendo a ata histórica que lhe assinala o nascimento em 6 de
outubro daquele ano, com o notável Capital General Luiz de
Albuquerque de Meio Pereira e Cáceres.
Na sua cidade natal, célebre pelas disputas dos albigenses,
esteve com o Dom Luís Maria Gallibert, francês de estirpe, que
durante 40 anos dirigiu a Diocese de Cáceres, que apresenta uma
extensão territorial maior do que muitos países europeus. No seu
retiro de Alby, no Convento da sua querida Ordem Franciscana, o
Venerando Prelado, filho também da gloriosa terra de Rei São Luiz,
sofre as conseqüências das privações nas suas vigilias e
caminhadas pelos inóspitos sertões matogrossenses, no seu apostólico
trabalho pastoral.
Ao renunciar a Diocese, octogenário e enfermo, quis a
França premiar o seu grande filho, conferindo-lhe a sua mais alta
condecoração - a Legião de Honra. Resta ao Brasil, que foi
testemunha e beneficiário dos seus labores, conceder a Dom Luís
Maria Gallibert, também, em sinal de gratidão, a Ordem Nacional do
Cruzeiro do Sul. Fica o apelo e a sugestão às autoridades
competentes, que serão sensíveis à justiça e ao merecimento da
recompensa devida a quem tanto fez pelo Brasil.” (A Cruz - 8.02.59)
Anos mais tarde, a propósito do centenário do nascimento do
ínclito missionário, tive a oportunidade de escrever na Imprensa
cuiabana, sob o título abnegado missionário, novo louvor a Dom
Gallibert: “Abre-se no dia 31 de dezembro de 1976 o centenário do
nascimento de um ilustre da França, que passou a maior parte da sua
vida no Brasil, ou mais precisamente nas cidades matogrossenses de
Cuiabá e Cáceres. Humilde franciscano, filiado à congregação de
Alby, cidade francesa que se tornou célebre na história pela disputa
dos albigenses, Frei Luís Maria de Gallibert veio para o Brasil no
começo do século com o primeiro contingente trazido da Europa pelo
saudoso Arcebispo de Cuiabá, Dom Carlos Luís D’Amour.
Estabelecidos no Seminário da Conceição, cuja direção foi logo
confiada ao Frei Luís, tornou-se estimado e respeitado pela gente
cuiabana, pela sua humildade e pelo seu saber, permanecendo à frente
do modelar estabelecimento fundado pela clarividência de Dom José
Antônio dos Reis, primeiro Bispo de Cuiabá, até que a Santa Sé, em
face da renúncia de Dom Modesto, primeiro bispo designado para a
Diocese de Cáceres, nomeou Frei Luís para aquele importante
múnus. Sagrado em Cuiabá, em 15.08.1915, Dom Gallibert tornouse, de fato, primeiro Bispo de Cáceres, iniciando um episcopado
fecundo de intensos trabalhos apostólicos. A gente cuiabana
lamentou a ausência de Frei Luís, mas presenteou-o, de modo
carinhoso, ofertando-lhe o anel e a Cruz peitoral, em campanha que
ficou memorável pela grandeza e pela generosidade do coração
cuiabano, que sensibilizou o infatigável missionário e os seus irmãos
de hábito. Dom Gallibert percorreu muitas vezes a sua Diocese,
fazendo-o a cavalo ou em embarcações singelas, durante mais de 40
anos, ou seja, durante todo o seu bispado.
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Já alquebrado pela doença e pelo cansaço, rogou à Santa Sé a sua
resignação ao posto e somente em 1958 logrou o seu intento,
passando a Diocese a contar com o administrador apostólico na
pessoa de Dom Máximo de Biennes. A França não se esqueceu dos
notáveis serviços prestados nos ínvios sertões da Pátria irmã, pelo seu
ilustre filho, sob o hábito humilde de franciscano e enviou-lhe a sua
mais alta condecoração, a Legião de Honra, que ele passou a ostentar
como prêmio da sua vida missionária. Regressando à Pátria, lá
faleceu quase nonagenário, rodeado pelos seus conterrâneos e irmãos
de hábito, guardando sempre na mente e no coração, naqueles
derradeiros dias, a imagem dos seus diocesanos e dos matogrossenses
que ele tanto amou e que muito lhe devem. Ao ensejo do nascimento
de Dom Gallibert, filho da terra do Rei São Luís, Rei de França,
Bispo da Diocese de São Luís de Cáceres e ele mesmo, também, Luís
ilustre, deixo consignado nestas linhas a mais imorredoura.
lembrança do abnegado missionário.” (Diário de Mato Grosso.
Cuiabá, 3 de dezembro de 1976)
A Diocese de Cáceres, em 27 de abril de 1975, rejubilava-se
pelos 60 anos de sacerdócio de outro franciscano francês, Pe. Paulo
Maria Cabrol, que foi o primeiro sacerdote ordenado pelo saudoso
Dom Francisco de Aquino Correa, Arcebispo de Cuiabá, logo após a
sua sagração episcopal em 1º.1.1915. Era a comunidade cacerense
convidada, então, a dar graças a Deus pelo feliz evento, ressaltandose que o jubilado granjeara incontáveis méritos, estima e amizade do
povo cacerense. De fato, acentuava o convite, por ocasião de um
batismo, de um casamento, de uma primeira Comunhão, de uma
confissão, de uma bênção, de uma visita, de uma palavra amiga ... o
Padre Paulo Maria Cabrol tornara-se presença da Graça para todas as
famílias cacerenses.
Nos últimos anos com ele mantive correspondência, pois
através dele, em pesquisa nos assentamentos dos batizados da
Paróquia, fizemos a reconstituição de todos os vigários assim
dispostos: Manoel Alves da Cunha, de maio de 1799 a fevereiro de
1813; Joaquim José Gomes da Silva, de maio de 1825 a novembro de
1829; José da Silva Fraga, de dezembro de 1829 a agosto de 1840;
Benedito d’Araújo Filgueira, de dezembro de 1840 a setembro de
1841; Manoel Pinto Siqueira, de setembro de 1841 a setembro de
1844; Benedito Braz de Carvalho, de 25.12.1844 a maio de 1845;
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Antônio Joaquim Seixas, de dezembro de 1852 a junho de 1857;
Domingos Carkis da Cunha, de 1857 a 1858; Francisco Pereira de
Moraes Jardim, de janeiro a maio de 1859; Antônio Rufino da Costa
Vianna, de maio de 1859 a 1862; João Leocádio da Rocha, de janeiro
de 1863 a setembro, quando volta o Padre Francisco e fica de 1863 a
1864; Casimiro Ponce Martins, de junho de 1865 a setembro de
1902; Constantino Taésio de 1903 a junho de 1906. Padres da Ordem
Terceira Regular de São Francisco: Boaventura Bertrac, de agosto de
1906 a junho de 1909; Sebastião Rainaud, de 1909 a 1910; João-Luís
Bourdoux, de 1910 a outubro de 1921; Paulo Maria Cabrol, de 1921
a junho de 1925; Athanasio Flottes, de 1925 a 1.928; Ambrósio
Daydé, de 1928 a abril de 1945; Jerônimo Sacase Badi, de 1946 a
1947; Henrique Maynadier, de 1947 a 1949; Severino Rouquette, de
1949 a 1957; Elie Mas, de 1957 a 1970 e Ivo Terral, de 1970 até os
dias que correm.
Cumpre destacar que o primeiro da freguesia de Cáceres,
Padre Manoel Alves da Cunha, foi muito ligado aos Pereira Leite,
batizando alguns deles nos impedimentos do segundo Pároco, Padre
Joaquim José Gomes da Silva, que batizou os demais e que era
parente dos Pereira Leite pelo lado materno, por ser cunhado de
Leonardo Soares de Sousa, que subscreveu a ata de fundação de
Cáceres, em 6 de outubro de 1778. O Padre Manoel Alves da Cunha
era homem muito preparado, pertencendo à sua linhagem minha avó
paterna Hermínia Alves da.Cunha, sepultada na Jacobina, em 1888,
deixando viúvo José Venâncio Pereira Leite.
Com a letra bastante trêmula, assim me escrevia, em 10 de
setembro de 1975: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. De
certo voltou a Cuiabá, aborrecido por não ter tido encontro comigo.
Bem verdade, mas me descuidei no Sábado de procurá-lo e no
Domingo nem soube onde estavam reunidos. E logo nesta
madrugada, regressaram à Capital. S. Sa. me perdoará, porque talvez
fosse a última ocasião de conversar juntos, nesta terra. O encontro
definitivo será lá no céu, eis a nossa esperança na Bondade e
misericórdia de nosso Pai. Tinha recebido a sua atenciosa carta e
procurei atender seus desejos - segue a lista dos Padres Vigários que
constam no Registro de batizados. Quanto aos casamentos,
infelizmente não encontrei nada. Felicitando a S. Sa. pelo seu zelo e
atividades, peço a Deus que o conserve ainda muitos anos nessa
137
luta para ganhar muitas almas e fortalecê-las com seu exemplo e
oração. Desculpe-me mais uma vez. Junto uma lembrança dos 60
anos, rezando por todos os amigos. Cordial abraço. aa) Frei Paulo
Maria Cabrol”.
O testamento espiritual do Padre Paulo Cabrol pode ser
considerado pelo autógrafo que me deixou no verso da lembrança do
seu jubileu, enfeixado nestas belas palavras: “Neste momento de
profunda alegria, confio no amor de Cristo — imolado nas minhas
mãos, todos os parentes, amigos e necessitados. Assim Deus seja
louvado e reúna a todos no céu. Cáceres 28.02.75”.
Sob o título “Meritórios Feitos”, escrevi sobre ele: “A
vizinha cidade de Cáceres foi palco, nos derradeiros dias de outubro
de acidente automobilístico no qual perdeu a vida o venerando
missionário francês Frei Paulo Maria Cabrol, da Ordem Franciscana
de Alby, primeiro sacerdote ordenado por Dom Aquino, logo após a
sua sagração em 10 de janeiro de 1915. Frei Paulo que contava 61
anos de missa, estava prestes a atingir o nonagenário e grande parte
da sua vida decorreu nas missões de Mato Grosso, Estado que foi
sempre cenário da sua atuação sacerdotal benemerente. Apesar da sua
avançada idade, Frei Paulo era de uma dedicação incomparável e
sabia atender a quantos o procuravam. Muito me ajudou na coleta de
dados para os meus levantamentos históricos. Sintetizou, a meu
pedido, toda a atividade franciscana em Mato Grosso desde os
primórdios do século, forneceu-me dados valiosos sobre a paróquia
de Cáceres cujo primeiro pároco foi o Pe. Manoel Alves da Cunha,
considerado o homem mais inteligente de seu tempo e que na era
colonial integrou uma das juntas governativas que substituíram o
deposto Francisco de Paula Magessi Tavares de Carvalho, 90 e
último Capitão General de Mato Grosso. Pertencia à linhagem da
minha avó paterna, descendente dos Alves da Cunha. Outros
elementos teve oportunidade de me fornecer, inclusive para o estudo
das cartas de liberdade das alforrias que, no século passado, eram
concedidas aos escravos pelos senhores, seja em reconhecimento aos
serviços prestados, seja. porque tenham conseguido amealhar o
quanto necessário estipulado nas leis imperiais. Encontrou ele em
Cáceres, para mim, batistério de 1845 nos quais os cabritinhas, filhos
escravos, já no ato do batismo, recebiam a liberdade, tudo em
antecipação, verdadeiramente marcante, às leis do ventre livre
e outras, inclusive a Lei Áurea. Relevantes os serviços prestados à
comunidade pelo sacerdote, ora desaparecido, que recebeu em abril
de 1975 merecida homenagem dos cacerenses, ao celebrar os 60 anos
de vida sacerdotal. Em resposta aos cumprimentos, ele me agradecia:
“Neste momento de profunda alegria, confio ao amor de Cristo
imolado nas minhas mãos todos os parentes, amigos e necessitados.
Sim, Deus seja louvado e reúna todos no Céu.” Esta mensagem não
foi a derradeira que dele recebi, pois nesta, ainda se referindo ao
acontecimento, ele pedia a Deus que suscitasse muitas vocações para
que se ampliasse a messe em Mato Grosso que ele tanto amava.
Tombou no campo de serviço e não chegou a receber a condecoração
brasileira que amigos, merecidamente, pleiteavam para ele. O Senhor
galardou-o com o prêmio maior, na eternidade. (Diário de Mato
Grosso - Cuiabá, 25.11.1976).
Outra figura de prol da Ordem Terceira de São Francisco,
foi o Frei Carlos Vallete, cuja vida benemérita decorreu toda ela em
Cuiabá e Poconé, onde faleceu quase nonagenário. Dele já falei com
muito carinho, pois foi aquele que oficiou no meu batismo 75 dias de
nascido e. quase à morte. Bondoso, Frei Carlos dedicava-se à
radiestesia, descobrindo poços de água potável para serem abertos
pelos interessados, valendo-se de pequeno galho de árvore, à guisa de
pêndulo; estudava as plantas medicinais de Mato Grosso das quais
possuía interessante fichário enriquecido de valiosas informações, por
ele colhidas ao longo dos tempos e deixou um trabalho a respeito, o
qual é muito lido e procurado pela gente pobre da zona rural. Foi
sepultado em Poconé, cercado de respeito e admiração da
comunidade.
Outra figura franciscana de prol foi Frei Ambrósio Daydêe.
Dotado de fibra de guerreiro, a sua característica foi a luta sem
tréguas em prol dos ideais católicos. Exerceu a sua atividade em
Cuiabá, onde fundou, em 15.05.1910, o Jornal “A Cruz”, ao lado dos
saudosos desembargadores João Carlos Pereira Leite e Joaquim
Pereira Ferreira Mendes, falecidos em 8 e 25 de setembro de 1933,
respectivamente. A polêmica era o forte de Frei Ambrósio, que foi
vigário capitular após a morte do Arcebispo Dom Carlos Luís
d’Amour, em 9 de julho de 1921. Transferido depois para Cáceres, ali
foi vigário da Paróquia até falecer, em 14.04.1945, em São Paulo,
para onde seguira em tratamento de saúde.
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Não se esqueça também, entre outros tantos, a figura forte e
irradiante de Frei Francisco Maria Herail, que escreveu sobre Dimas
e exerceu grande parte do seu apostolado em Poconé. Em certo
período de sua vida foi o responsável pela conservação das estradas
que ligavam Cuiabá a Poconé e Cáceres. Entendia de construção e foi
também o responsável pela edificação do Colégio São Francisco de
Poconé.
Mutilado pela diabete, insuficiente visual, e nonagenário,
vivendo no convento de Nossa Senhora de Fátima, na Capital
paulista, é bem o representante digno da velha geração de abnegados
Franciscanos. No seu peito outrora forte brilha a Condecoração da
Ordem do Cruzeiro do Sul, merecido pleito brasileiro aos seus
abnegados labores e aos da sua benemérita ordem franciscana que, na
pessoa também abnegada de D. Máximo de Byênes, segundo bispo
de Cáceres, prossegue a obra evangelizadora de D. Gallibert e dos
seus denodados irmãos franciscanos.
parte o meu tetravô, Leonardo Soares de Souza. Tornei-me desde
então um cacerence de Coração, regado pelo sangue de cacerense de
quatro costados.
Aquelas maravilhosas histórias viveram sempre na minha
mente e no meu coração, os quais coloquei agora a serviço da bela
terra Cacerence, hoje sob novas perspectivas para o desenvolvimento
e o progresso da região num ritmo de causar admiração. As suas
terras ubérrimas estão a serviço da técnica para lograr a maior
produtividade. Todos se unem no esforço criador, considerando a
terra e o homem e o resultado opera maravilhas.
Ao completar 198 anos, quero saudar a histórica Vila Maria,
hoje florescente Cáceres, as suas dignas autoridades cônscias do seu
dever na hora presente e o seu povo generoso e trabalhador, todos
voltados para prosperidade do Município, vale dizer para grandeza do
Mato Grosso do Brasil.
(Folha Matogrossense de Cuiabá de 6.10.1976)
VILA MARIA DOS MEUS MAIORES
EPOPÉIA ALBUQUERQUEANA
Nos últimos tempos, tenho-me dedicado, particularmente, ao
estudo da História do Município Matogrossense de Cáceres,visando o
seu próximo bicentenário de fundação. Há vários anos, venho
pesquisando os arquivos daqui e d’lhurés, e a matéria está sendo
distribuída em três volumes:o 1º já impresso, “O Engenho da Estrada
Real”, é aceno e apelo para as comemorações bicentenárias.
Brevemente, será divulgado convenientemente. O segundo, “O
Médico da Jacobina”, no prelo em S. Paulo, é a biografia do tiobisavô, Pedro Nolasco Pereira Leite, o primeiro matogrossense a
doutorar-se em medicina, sobremodo enriquecido pela própria tese de
doutoramento de 1860 e do interessante “Compêndio de História
Natural”, que deixou manuscrito. O terceiro volume, que receberá o
título em epígrafe, acha-se em final de elaboração e deverá estar
lançado até 6 de outubro de 1978, a grande data bicentenária. .
Nascido na cidade de Cuiabá, no arraial Monções dos
Bandeirantes, Pascoal Moreira Cabral e Miguel Sutil de Oliveira,
cujas cinzas se reúnem agora na Cripta — Monumento da Basílica do
Senhor Bom Jesus de Cuiabá, ouvi sempre, desde criança, dos lábios
do meu saudoso pai, cacerense como todos os seus ancestrais, as mais
belas e evocativas histórias sobre Cáceres, em cuja fundação tomou
A linha de Tordesilhas, dividindo o Mundo Antigo entre os
grandes navegadores da época, foi decisiva para fixação das
fronteiras do Reino Português.
Os entendimentos e as conversações preliminares ao Tratado
de Madrid, firmado em 13 de janeiro de 1750, possibilitaram a
criação da capitania de Mato Grosso, pela Carta Régia de 9 de maio
de 1748.
É interessante notar a precaução e o zelo do Conselho
Ultramarino, certo e determinado, nos mínimos detalhes.
Rolim de Moura, primeiro Capitão General da recém-criada
capitania, recebe todo um programa a cumprir, inclusive o roteiro de
viagem, perseguindo a mesma rota das Bandeiras. João Pedro da
Câmara tem acesso a Vila Bela através do Pará e Luís de
Albuquerque a atinge pela I’nsula, ou seja, pelo Araguaia, passando
por Cuiabá.
A ação do grande estadista, Luiz de Albuquerque Meio
Pereira e Cáceres, nos 17 anos à frente da Capitania, teve o condão de
plasmar as linhas duradouras da Capitania, que se fundara ao influxo
das lavras do Sutil, com o propósito de utilizar o braço índio e da
ocupação do solo pelo Ut Possidetis.
O vigoroso estadista foi o grande plantador de cidades,
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lembrando, quase todas, os lugares mais assinalados do reino ou seus
personagens: Albuquerque, Coimbra, Casalvasco, Poconé, Vila
Maria, são, disso, a prova.
A última delas, hoje Cáceres, formoso jardim à margem do
Paraguai, tem o seu bicentenário à vista.
Nós, antevivemos aquela efeméride gratíssima porque
participamos de sua fundação, nas pessoas dos nossos ancestrais.
Os nossos pensamentos e propósitos, estão assim planejados:
a) publicar o livro de nossa autoria “Vila Maria dos Meus Maiores”,
em preparo; b) motivar povo e governo para a erecção, em praça
pública, da estátua de Luiz de Albuquerque; c) cunhar Medalha
comemorativa em bronze, com a efígie do fundador, tendo no verso
as armas da cidade, ou do Estado ou, ainda, ambos os brasões; d)
fazer uma exposição histórica alusiva ao grande acontecimento.
Esperamos que o povo cacerense, unido, dê ao bicentenário,
a expressão e o sentido que tem como fundamento e base a integração
que a epopéia albuquerqueana reservou para o Brasil dos nossos dias.
FUTURO PROMISSOR
O ano de 1977, nos bastidores matogrossenses, foi agitado
pelo problema da divisão do Estado, que se efetivou pela lei
complementar n. 31, de 11 de outubro de 1977, cujo artigo 2º assim
dispôs: “A área desmembrada do Estado de Mato Grosso do Sul,
situa-se ao sul da seguinte linha demarcatória: das nascentes mais
altas do Rio Araguaia, na divisa entre os Estados de Goiás e Mato
Grosso, segue, em linha reta, limitando os Municípios de Alto
Araguaia, ao norte, e Coxim, ao Sul, até às nascentes do córrego das
Furnas; continua pelo córrego das Fumas abaixo, limitando, ainda, os
Municípios de Alto Araguaia, ao norte, e Coxim, ao sul, até sua foz
no rio Taquari; sobe o rio Taquari até a barra do rio do Peixe, seu
afluente da margem esquerda, continuando por este até sua nascente
mais alta, tendo os Municípios de Alto Araguaia, ao leste, e Pedro
Gomes, ao oeste; segue daí, em linha reta, às nascentes do Rio
Correntes, coincidindo com a linha divisória dos Municípios de Alto
Araguaia e Pedro Gomes; desce o rio Correntes até a sua confluência
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com o rio Piquiri, coincidindo com os limites dos Municípios de
Itiquira, ao norte, e Pedro Gomes, ao sul; continua pelo rio Correntes,
coincidindo com os limites dos Municípios de Itiquira, ao norte, e
Corumbá, ao sul, até sua junção com o rio Itiquira; da junção do rio
Correntes com o rio Itiquira, segue coincidente com a divisa dos
Municípios de Barão de Melgaço, ao norte, e Corumbá, ao sul, até a
foz do rio Itiquira no rio Cuiabá; da foz do rio Itiquira no rio Cuiabá,
segue por este até a sua foz no rio Paraguai, coincidindo com a divisa
entre os Municípios de Poconé, ao norte, e Corumbá, ao sul; da
confluência dos rios Cuiabá e Paraguai sobe pelo rio Paraguai até o
sangradouro da lagoa Uberaba, coincidindo com os limites dos
Municípios de Poconé, ao leste, e Corumbá, ao oeste; da boca do
sangradouro da lagoa Uberaba segue sangradouro acima até a lagoa
Uberaba, continuando, por sua margem sul, até o marco Sul Uberaba,
na divisa do Brasil com a Bolívia, coincidindo com os limites dos
Municípios de Cáceres, ao norte, e Corumbá, ao sul. “
Face à divisão acima consubstanciada, Cáceres permaneceu
na porção territorial tradicional de Mato Grosso, de cujo progresso é
hoje um dos baluartes mais sólidos. A árvore bissecular deita
frondosos galhos e propicia belos renovos a constituírem
comunidades outras plenas de vigor e de desenvolvimento dentro da
técnica mais avançada dos nossos dias. A primitiva estrada real que
ligava as minas do Cuiabá à Vila Bela, então sede da Capitania, ainda
guarda a retificação e o asfalto para que mais rápido se faça e em
melhores condições o escoamento da sua riqueza. Não só o Rio cujo
caminho encantava a alma de Hércules Florence faz 150 anos, mas
todos os setores da hodierna comunicação são acionados visando a
sua grandeza. A inteligência dos seus administradores e dos seus
homens públicos vem correspondendo ao que dela se esperava, de
modo que Cáceres será amanhã a grande terra da esperança, do
serviço e do amor, estribada no seu passado e na figura augusta dos
que a construíram.
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BIBLIOGRAFICAS
LUIS-PHILIPPE PEREIRA LEITE
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LUIS-PHILIPPE PEREIRA LEITE é figura bastante
conhecida nos meios culturais de Mato Grosso, membro destacado
que é da Academia Matogrossense de Letras e do Instituto Histórico
e Geográfico de Mato Grosso, cuja Presidência exerce atualmente.
Recentemente participou da campanha contrária à divisão territorial
de Mato Grosso. Nascido em Cuiabá, em 12.12.1916, filho de João
Pereira Leite e de Jovita Valladares Pereira Leite, é Bacharel em
Ciências Jurídicas e Sociais e Notário Público. No Estado
desempenhou cargos de relevo, como sejam: Procurador Fiscal,
Procurador Geral da Justiça e Procurador Eleitoral. Integrou os
Conselhos: Fiscal, Administrativo, Penitenciário, de Desportos, da
Ordem dos Advogados do Brasil. Deputado à Assembléia Legislativa
do Estado, subscreveu a Carta Magna de Mato Grosso, em
11.07.1947. Segundo Ten. R-2, foi vice-presidente da FMD e
Secretário do Aero Clube de Maio Grosso.
Publicou as seguintes obras: “Palestras Acadêmicas”,
“Elogio de Corsino do Amarante”, “Instantes Vivos”, “A Capitania
de Mato Grosso” e a “Independência”, “Capitães Generais de Mato
Grosso”, “Forquilha, o Fundador e a Padroeira”, “O Engenho da
Estrada Real” e “O Médico da Jacobina”, estes dois últimos
integrando a trilogia para celebrar do bicentenário de Cáceres,
estando em final de elaboração o terceiro volume “Vila Maria dos
Meus Maiores”, além de “Coração Peregrino”.
Tem pronto para entrega ao prelo “Bispo do Império” e
conclui outra trilogia “Três Sorocabanos no Arraial”, constituída de
três monografias: I - “O Guarda-Mor”, II - “O Lavrador-Mor”, III “O Orago-Mor”, recordando os primeiros dias do Arraial e das Minas
de Cuiabá.
Cidadão honorário de N. S. do Livramento, Sócio honorário
do Instituto dos Cegos de Mato Grosso e Sócio Correspondente do
Instituto Histórico e Geográfico do Amazonas e do de São Paulo, é
possuidor de mais de uma dezena de medalhas e condecorações,
dentre as quais se destacam: “As Pontifícias da Ordem de S. Gregório
Magno e a Pro Ecclesia et Pontifice; a da Universidade Federal de
Mato Grosso; a da Soberana Ordem Militar de Malta e as das
Sociedades Brasileiras de Geografia de São Paulo e Rio”.
Pertence ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo,
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ao Instituto Histórico e Geográfico do Amazonas, à Academia
Sergipana de Letras e ao Instituto Histórico e Genealógico de
Sorocaba (SP).
APRECIAÇOES
1 — “Rio, 15 de fevereiro de 1978. Caríssimo Amigo, Prof.
Luís-Philippe. Muito grato por me haver oferecido, com amável
dedicatória manuscrita, um exemplar da Revista do Instituto
Histórico e Geográfico de Mato Grosso — ano 77 — Tomos CVII —
CVIII. Gosteio de que trouxesse inserto, na pág. 57, o meu artigo
sobre retificações à História do Forte de Coimbra, pois a isso era
conveniente, por tratar-se de um episódio da Velha Província.
Gosteio de apreciar seus trabalhos anteriores, revividos nas páginas
iniciais da revista, porque o que é bom precisa mesmo de vivência,
para conhecimento das gerações que se sucedem. Sua fortaleza de
espírito, sua tenacidade heróica de sobrepor-se a injunções da
natureza são uma lição e um exemplo para a reabilitação física e
moral de quantos se vejam inibidos de instrumentos vitais
indispensáveis para a luta pela existência. São votos ao bom Deus
que eu formulo, ao concluir estas linhas pela sua magnífica
personalidade. Com afetuoso abraço. aa) Gen. Silveira de Mello.”
mansamente por aí. Mais feliz do que, e de que qualquer outro,
porque tem a força de ânimo para se manter no mundo das cogitações
culturais e de solidariedade cristã, feito por si e para si próprio, na
polarização de toda a bondade e todo o desprendimento individual. A
Revista me trouxe pois uma profunda emoção. Traz-me prazer sua
leitura que, por outro lado, entretanto, acentua aquele aperto de
coração que você sabe quanto amargura o meu destino. t que tão cedo
me vi privado da ventura de viver ligado à terra e à gente de minha
origem; privado da vida tranqüila e amorosa de uma cidade
interiorana e modesta, mas repleta de bondade e de solidariedade
humana. Obrigado Luís-Philippe. Achei admirável a feitura e a
matéria incluída na Revista; e quero, por seu intermédio, felicitar
nossa Academia por abrigar e, de certa forma, propiciar o primoroso
trabalho em apreço. Receba este agradecimento, incomparável amigo,
e, se possível, transmita—o a toda a Diretoria da Revista, bem como
à Academia Matogrossense de Letras, a qual tanto me orgulho de
integrar e à qual consagro meu melhor afeto. Estou esperando nova
oportunidade para ir aí revê—Io, rever amigos e de rever, ungido e
respeitoso, o reduto cultural da Casa Barão de Melgaço. Oxalá
possam estas palavras, na sua humildade, ressoar por momentos no
ambiente da admirada e tão afastada Academia... Abraços do Mal.
Joaquim Justino Alves Bastos. “
2 — “Rio, 13 de fevereiro de 1978. Estimadíssimo LuísPhilippe, envio-lhe estas linhas em agradecimento pela remessa que
me fez da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Mato
Grosso (1977). Vou saborear a leitura da mesma com emoção que
traz tudo quanto diz respeito à nossa querida Cuiabá, máxime com
origem nas suas mãos, na sua bondade e no seu obstinado sentido
cultural, devotado principalmente à vida e à história de nosso Estado.
Sensibiliza-me infinitamente receber suas periódicas demonstrações
de presença, de afeto e de fidalguia. Mais feliz do que eu, em certos
pontos, é você, Luís-Philippe, que viu e sente o passar dos dias de sua
preciosa existência no próprio seio do torrão natal, onde tudo e todos
o cercam do mais justo respeito e admiração. Invariavelmente ligado
a essa terra generosa em que nós ambos abrimos os olhos, terra de
panoramas infinitos, cortadas sempre pelas caudais poéticas e
acolhedoras de nossos rios Cuiabá e Coxipó, sempre a correrem
3 — “Niterói, 5 de abril de 1978. Prezado amigo e confrade,
Luís-Philippe. Ainda, sob a gostosa impressão dos bons dias passados
na saudosa e querida Cuiabá, onde estive em visita estritamente
afetiva, depois de tantos anos, e revi amigos, conterrâneos e parentes,
escrevo-lhe esta carta para agradecer-lhe a gentil acolhida que me
proporcionou em sua casa. Eu, que tive sempre admiração pelo seu
talento, pela sua cultura e pela sua personalidade excepcional, fiquei,
ainda, mais encantado pelo vigor das suas idéias e pela produtividade
literária desenvolvida nesta saudável maturidade, cheia de
entusiasmo, de esperanças e realizações. Gostei de vê-lo esgrimindo
palavras e idéias, com a mesma eloqüência, com a mesma sinceridade
e o mesmo calor de quando o conheci há 30 anos, em a nossa heróica
Assembléia Legislativa, de 1947, da qual você participou
vibrantemente e, mais que isso, leal e patrioticamente.
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Agora, ao encontrá-lo entregue à faina literária, a que se dedica
febrilmente, estou convicto de que a nova tarefa, tão cuidadosamente
elaborada, em torno da vida e da obra dos Generais-mores do nosso
glorioso Estado, assegurar-lhe-á o merecido renome de historiador
máximo da nossa vitoriosa terra natal. O trabalho de recuperação dos
‘quadros desses vultos extraordinários dos fatos matogrossenses, que
tive ocasião de comprovar e sobre um dos quais, inclusive vi,
externei, pessoalmente, a minha opinião de ignorante da arte,
mostrou-me o quanto de amor e desprendimento cívico vem
colocando nessa iniciativa, a qual contará, incondicionalmente, com
os meus mais veementes aplausos. Parabéns. I: mais uma dádiva que
você dedica à inteligência e à cultura da gente matogrossense, ávida
de conhecer, em profundidade, a fecunda e estóica história política do
nosso Estado, desde a promoção de Paschoal Moreira Cabral a
Capitão-mor, de que nos dá notícias Paulo Setúbal, no seu gostoso
livro: “Ouro de Cuiabá”. Hoje, é meu único propósito levar-lhe a
manifestação do meu agradecimento pelos momentos de fraterno
convívio com que me obsequiou em sua tenda de trabalho.
Aproveito-me do ensejo para formular votos de que “as cifras
tensionais” referidas por você, não tenham outro significado senão o
de uma natural reação fisiológica, produzida pela intensa e fecunda
atividade intelectual, a que se encontra entregue, pois esse é o tributo
pago por todos à agilização da nossa mente, das nossas idéias, das
nossas emoções, do nosso psiquismo - fonte da vitalidade criadora do
nosso espírito, energia misteriosa que levou o filósofo a enunciar a
genial afirmativa: “penso, logo existo”. Você existe, logo não há
como fugir a ‘essas episódicas variações da pressão arterial. Talvez
pudéssemos criar, quiçá, uma nova modalidade de hipertensão: A
hipertensão Acadêmica... Com a minha amizade e admiração, aqui
fico ao seu dispor, enviando-lhe, com os melhores cumprimentos,
augúrios de todos os êxitos. Abraços do Jary Gomes. “.
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Vila Maria dos Meus Maiores, Luiz