Estudo sobre o Golfe no Algarve Diagnóstico e Áreas Problema Volume I Março de 2004 Universidade do Algarve COORDENADOR GERAL DO ESTUDO Manuel Victor Martins COORDENAÇÃO DAS ÁREAS Economia Regional Antónia Correia Fernando Perna Ambiente Nuno Videira Gestão Agro-ambiental José Beltrão Eugénio Faria Negócio Antónia Correia Recursos Hídricos José Paulo Monteiro COLABORADORES Ambiente Inês Alves Renato Martins Catarina Ramires Rui Subtil Gestão Agro-ambiental Manuel Costa Diamantino Trindade Negócio José Alberto Mendes Pedro Pintassilgo Paulo Rodrigues Edição Gráfica Ricardo Baptista COMISSÃO DE ACOMPANHAMENTO AHETA - Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve Algarve Golfe - Associação Regional de Golfe do Sul Almargem - Associação de Defesa do Património Cultural e Ambiental AMAL - Associação de Municípios do Algarve APPEV - F. Sousa Neto, Ldª. AREAL - Agência Regional de Energia e Ambiente do Algarve CCRA - Comissão de Coordenação da Região do Algarve CEAM - Centro de Educação Ambiental de Marim DRAA - Direcção Regional de Agricultura do Algarve DRAOT - Direcção Regional do Ambiente e Ordenamento do Território DREA - Direcção Regional de Economia do Algarve DREAlg - Direcção Regional de Educação do Algarve FETESE - Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores de Serviços FPG - Federação Portuguesa de Golfe Globalgarve - Cooperação e Desenvolvimento SA ICN - Instituto de Conservação da Natureza IEFP - Instituto de Emprego e Formação Profissional PNCV - Parque Natural da Costa Vicentina QUERCUS - Associação Nacional de Conservação da Natureza RTA - Região de Turismo do Algarve Ualg - Universidade do Algarve 4 Estudo Sobre o Golfe no Algarve AGRADECIMENTOS A Universidade do Algarve e a Equipa de Projecto reconhecem e agradecem a colaboração das várias entidades que tornaram possível a realização do Estudo, em particular à Comissão de Coordenação da Região do Algarve; Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve; Região de Turismo do Algarve; Algarve Golfe - Associação Regional de Golfe do Sul. Igualmente, reconhecem o papel que a Comissão de Acompanhamento desempenhou como interlocutora e crítica dos relatórios que foram sendo produzidos. Finalmente agradecem às pessoas que se prestaram a responder aos longos questionários e a participar nas entrevistas com membros ou colaboradores da Equipa. 5 Universidade do Algarve 6 Estudo Sobre o Golfe no Algarve GLOSSÁRIO AAT Área de Aptidão Turística AHETA Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve AMAL Associação de Municípios do Algarve AutoCADMap Programa informático de desenho BENCHMARKING Análise comparada de vários destinos em termos competitivos BUGGIES Veículos de transporte de dois jogadores de golfe e respectivo equipamento BUNKERS Obstáculos artificiais de areia CAD Computer Aided Drawing CAMPO EQUIVALENTE Campo de 18 buracos, um campo de 9 buracos representa 0,5 campos equivalentes e um campo com 27 buracos representa 1,5 campos CASH FLOW Excedente líquido gerado pela actividade da empresa CCRA Comissão de Coordenação da Região do Algarve CCDR Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional CEE Comunidade Económica Europeia CHIPPING AREA Zona de treino de pancadas por aproximação CLUB HOUSE Edifício principal de um campo/clube de golfe CLUSTER Método de classificação de objectos e pessoas COI Comité Olímpico Internacional COMMITTED TO GREEN Fundação dedicada ao desenvolvimento e reconhecimento de programas ambientais em infra-estruturas desportivas DGA Direcção Geral do Ambiente DGT Direcção Geral de Turismo DIA Declaração de Impacte Ambiental DRAOT Direcção Regional do Ambiente e Ordenamento do Território EGA European Golf Association EIA Estudo de Impacte Ambiental ETAR Estação de tratamento de águas residuais 7 Universidade do Algarve EUA Estados Unidos da América FAIRWAYS Espaço do campo de golfe que liga o local de saída (tee) ao buraco (green) PFG Federação Portuguesa de Golfe GOLFISTA Jogador de golfe que viajou em férias ou em negócios e que jogou pelo menos uma vez durante essa deslocação GREEN Zona do campo onde estão implantados os buracos GREENGLOBE Programa de âmbito mundial do World Travel and Tourism Council na área do desenvolvimento sustentado, equilíbrio ambiental e protecção da natureza GREEN FEES Custo de uma volta (partida) de golfe GREEN KEEPERS Responsáveis pela manutenção das condições do terreno de jogo (relva) HANDICAP Abono concedido aos jogadores de golfe amadores IAGTO International Association of Golf Tour Operators ICEP Instituto Comércio Externo Português ICN Instituto de Conservação da Natureza IND Instituto do Desporto INE Instituto Nacional de Estatística INDICADOR Parâmetro seleccionado com o objectivo de reflectir determinadas condições do sistema em análise. Os indicadores são normalmente definidos com recurso a um tratamento dos dados (parâmetros) originais, tais como médias, percentis, medianas, máximos, mínimos, entre outros. Neste estudo definiram-se indicadores para as áreas do negócio, sócio-economia regional, agro-ambiental e ambiental INPUTS Dados originais que entram num processo de transformação LAYOUT Desenho do campo MERCHANDISING Forma de comercialização MIX Conjunto MODELO PER Modelo Pressão-Estado-Resposta MP Ministério do Planeamento NGF National Golf Foundation NORMA ISO 14001 Norma da série ISO 14000, publicada pela International Standardization Organization, relativa à implementação e certificação de Sistemas de Gestão Ambiental. Tem por finalidade a prevenção da poluição e a melhoria contínua do desempenho ambiental das organizações 8 Estudo Sobre o Golfe no Algarve NUTS Nomenclatura das Unidades Territoriais para fins Estatísticos equivalentes às 7 regiões: Norte, Centro, Lisboa e Vale Tejo, Alentejo, Algarve, RA Madeira e RA Açores OCDE Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico OMT Organização Mundial de Turismo OPEN Torneio desportivo aberto a todos os participantes enquadrados nas regras da respectiva modalidade OPPORTUNITIES Oportunidades OVERBOOKING Sobre ocupação PACKAGE Combinação de dois ou mais elementos de serviços turísticos, vendidos como um único produto por um único preço, não sendo identificáveis os preços individuais dos componentes PDM Plano Director Municipal PEDRA Plano Estratégico de Desenvolvimento da Região do Algarve PGA Professional Golfers Association PIB Produto Interno Bruto PIDDAC Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central PIQTUR Programa de Intervenções para a Qualificação do Turismo PP Plano de Pormenor PRAXIS Actividade ordenada para um resultado PRIME Programa de Incentivos e Modernização à Economia PROA Plano Regional Operacional do Algarve PROTAL Plano Regional de Ordenamento do Território do Algarve PRTA Plano Regional de Turismo do Algarve PU Plano de Urbanização PUT Pancada curta efectuada sobre o green PUTTING GREEN Zona de treino do Put RAN Reserva Agrícola Nacional REN Reserva Ecológica Nacional RESORTS Locais de férias ROUGHS Zona de relva mais comprida que a do fairway 9 Universidade do Algarve RTA Região de Turismo do Algarve RYDER CUP Competição quadrienal de golfe entre os EUA e a Europa onde participam os melhores jogadores de cada um dos grupos SCE Sistema Cartográfico do Exército SHAPE FILE Formato dos ficheiros cartográficos SHORT HAUL Viagens de curto curso SIG Sistema de Informação Geográfica SIVETUR Sistemas de Incentivos a Produtos Turísticos de Vocação Estratégica SPSS Statiscal Package for Social Sciences – Programa informático de tratamento de dados em ciências sociais STAKEHOLDERS Grupo de entidades com interesse, envolvimento ou tendo investido directamente em determinada actividade, por exemplo, empregados, accionistas, fornecedores e clientes STRENGHTS Forças SURROUNDINGS Zonas envolventes do campo de golfe não integradas na zona de jogo SWOT Técnica de estudo da competitividade de uma organização segundo quatro variáveis: strengths (forças), weaknesses (fraquezas), opportunities (oportunidades) e threats (ameaças) TEE Zona onde se inicia o jogo em cada um dos 18 buracos TEE TIMES Horas de saída para as voltas de golfe TIR Taxa Interna de Rendibilidade THREATS Ameaças TRANSFER Transporte do turista entre dois pontos: Hotel/Campo de golfe, Hotel/Aeroporto TROLLEYS Suporte para sacos de golfe com rodas que é puxado pelo golfista UALG Universidade do Algarve UNEP United Nations Environment Program UOPG Unidade Operativa de Planeamento e Gestão USGA United States Golf Association VAB Valor Acrescentado Bruto VAL Valor Actual Líquido VRSA Vila Real de Santo António WEAKNESSES Fraquezas 10 Estudo Sobre o Golfe no Algarve WTTC World Travel Tourism Council WTO World Tourism Organization WWF World Wide Fund for Nature International ZOT Zonas de Ocupação Turística ZEC Zona Especial de Conservação ZPE Zona de Protecção Especial 11 Universidade do Algarve ÍNDICE GERAL Agradecimentos 5 Glossário 7 VOLUME I - DIAGNÓSTICO E ÁREAS PROBLEMA Índice do Volume I 13 Índice de Quadros, Gráficos e Figuras 15 Introdução Geral 17 Capítulo I Enquadramento do Estudo, Objectivos e Metodologia 27 Capítulo II Diagnóstico da Actividade do Golfe no Algarve 41 Capítulo III Identificação das Áreas Problema Conclusão 113 133 VOLUME II - CENÁRIOS DE DESENVOLVIMENTO Índice do Volume II 141 Índice de Quadros, Gráficos e Figuras 143 Introdução 145 Capítulo IV Metodologia para a Cenarização 149 Capítulo V As Variáveis dos Cenários 157 Capítulo VI Elaboração dos Cenários e Variantes 175 Capítulo VII Avaliação dos Cenários Ensaiados 189 Capítulo VIII O Golfe e os Recursos da Região 223 Capítulo IX Conclusão e Perspectivas de Desenvolvimento Futuro 247 Referências Bibliográficas 257 Bibliografia 263 Anexo I Quadros de Apoio 269 Anexo II Indicadores 291 Anexo III Características Gerais dos Campos de Golfe Existentes no Algarve 297 12 Estudo Sobre o Golfe no Algarve ÍNDICE DO VOLUME I Introdução Geral A. Uma Indústria em Crescimento A1. O Turismo no Mundo A2. O Golfe como Fenómeno Global B. O Quadro Nacional B1. O Turismo em Portugal B2. O Golfe em Portugal C. Organização do Estudo 17 17 17 20 22 22 24 25 Capítulo I I.1. I.2. I.3. I.3.1. I.3.2. I.4. I.4.1. Enquadramento do Estudo, Objectivos e Metodologia Análise Histórica do Desenvolvimento da Actividade na Região Uma Indústria Amplamente Estudada sob Várias Perspectivas Objectivos do Estudo Objectivo Geral do Estudo Objectivos do Volume I – Diagnóstico e Áreas Problema A Metodologia O Quadro Metodológico Geral 27 27 30 34 34 34 35 35 Capítulo II II.1. II.1.1. II.1.2. II.1.3. II.1.4. II.2. II.2.1. II.2.2. II.2.3. II.2.4. II.3. II.3.1. II.3.2. II.3.3. II.4. II.4.1. II.4.2. II.4.3. II.4.4. II.4.5. Diagnóstico da Actividade do Golfe no Algarve Golfe na Economia Regional A Perspectiva dos Planos Estratégicos: Economia e Sazonalidade Impactos Directos e Indirectos Confronto com Regiões Concorrentes: O Caso das Ilhas Baleares Indicadores de Medida de Impactos Regionais Incidências Ambientais Tipologia dos Impactes Ambientais da Actividade do Golfe Caracterização da Situação de Referência do Golfe no Algarve Análise dos Estudos de Impacte Ambiental de Campos de Golfe do Algarve Indicadores Ambientais Gestão das Práticas Agro-Ambientais Características dos Relvados Recursos Hídricos Fertilização O Negócio do Golfe A Procura de Golfe Oferta de Golfe no Algarve As Empresas Os Recursos Humanos Impacto Económico e Financeiro da Actividade 41 41 41 50 56 59 60 61 65 73 77 82 83 84 92 96 96 99 103 105 106 13 Universidade do Algarve II.4.6. Capítulo III III.1. III.2. III.3. III.4. III.5. III.5.1. III.5.2. Conclusão 14 Matriz de Indicadores do Negócio do Golfe 109 Identificação das Áreas Problema Na Óptica da Sustentabilidade Económico-Social e Institucional Na Óptica do Ambiente Na Óptica da Gestão das Práticas Agro-Ambientais Na Óptica do Negócio As Expectativas dos Stakeholders quanto ao Futuro do Golfe no Algarve Matriz SWOT Vantagens Competitivas 113 113 116 121 123 126 129 131 133 Estudo Sobre o Golfe no Algarve ÍNDICE DE QUADROS, GRÁFICOS E FIGURAS Quadro A.1. Quadro A.2. Quadro A.3. Quadro A.4. Exportações Mundiais de Bens e Serviços, 2000 Os Dez Maiores Destinos Turísticos Internacionais Receitas do Turismo Campos e Jogadores dos Países Europeus, 2002 17 19 19 21 Quadro B.1. Quadro B.2. Quadro B.3. Caracterização da Actividade Turística em 2001 Caracterização da Actividade Turística, por NUTS II em 2002 Principais Destinos dos Golfistas Europeus 23 23 25 Quadro I.1. Estruturas Turísticas Inauguradas na Década de 60 com Influência no Algarve 27 Quadro II.1. Quadro II.2. Quadro II.3. Quadro II.4. Quadro II.5. Quadro II.6. Documentos Estratégicos da Região do Algarve O Golfe na Execução Física do PRTA 95-99 O Golfe no PRTA Anos 2000 Eventos de Golfe no Algarve de Impacte Nacional/Internacional Dados Gerais de Partida Gastos Directos e Indirectos Agregados do Golfe por Tipo de Despesa. Algarve: 1999/2002 Percentagem dos Gastos de Golfe no Total de Gastos Atribuídos ao Turismo na NUT II Algarve Gasto Médio por Turista de Golfe - Algarve Alguns Indicadores de Comparação de Golfe Baleares - Algarve Matriz de Indicadores de Enquadramento Económico do Sector do Turismo Matriz de Indicadores de Enquadramento Económico do Golfe Matriz de Indicadores dos Impactes Económicos do Golfe Matriz-síntese da Tipologia de Impactes Ambientais de um Campo de Golfe Principais Resultados dos Estudos de Impacte Ambiental de Projectos de Campos de golfe no Algarve (Fase de Construção) Principais Resultados dos Estudos de Impacte Ambiental de Projectos de Campos de Golfe no Algarve (Fase de Exploração) Indicadores Ambientais Para o Golfe no Algarve Espécies mais Representativas dos Campos de Golfe Produtividade, Usos e Perdas das Águas Subterrâneas e de Superfície no Algarve Valores Médios Mensais para o Litoral Algarvio de Temperatura do Ar, de Evapotranspiração Potencial (ETp) e de Precipitação Origens e Destinos dos Recursos Hídricos nos Campos de Golfe em Geral e nos Greens Comparação do Uso dos Diversos Recursos Hídricos nos Campos de Golfe e nos Restantes Sectores Consumidores Consumo Médio Anual de Fertilizantes Quantidade de Buracos por Zonas, 2002 Indicadores de Emprego Directo Principais Rubricas de Investimento Indicadores Económico-Financeiros 43 46 47 49 51 Quadro II.7. Quadro II.8. Quadro II.9. Quadro II.10. Quadro II.11. Quadro II.12. Quadro II.13. Quadro II.14. Quadro II.15. Quadro II.16. Quadro II.17. Quadro II.18. Quadro II.19. Quadro II.20. Quadro II.21. Quadro II.22 Quadro II.23. Quadro II.24. Quadro II.25. Quadro II.26. 54 55 56 57 59 59 60 62 75 76 78 84 86 86 88 91 93 100 105 107 109 15 Universidade do Algarve Quadro II.27. Indicadores de Competitividade e Sustentabilidade para o Negócio do Golfe no Algarve 110 Quadro III.1. Quadro III.2. Quadro III.3. Quadro III.4. Quadro III.5. Pontos Fortes e Fracos na Óptica do Consumidor Pontos Fortes e Fracos dos Campos na Óptica do Empresário Obstáculos ao Investimento Matriz SWOT (Strenghs, Weaknesses, Opportunities and Threats) Vantagens Competitivas e Estratégias Concorrenciais 124 125 125 130 132 Gráfico A.1. Gráfico A.2. Chegadas de Turistas por Continentes, 1990-2001 Evolução do Golfe na Europa: 1985-2002 18 21 Gráfico B.1. Distribuição dos Campos de Golfe em Portugal, 2002 24 Gráfico I.1. Gráfico I.2. Oferta de Campos de Golfe e Capacidade de Alojamento - Algarve 1992/2001 Evolução da Procura de Campos de Golfe, Dormidas em Alojamento e Movimento de Passageiros no Aeroporto de Faro: Algarve 1992/2002 29 Gráfico II.1. Gráfico II.2. Gráfico II.3. Gráfico II.4. Gráfico II.5. Gráfico II.6. Gráfico II.7. Gráfico II.8. Gráfico II.9. Gráfico II.10. Gráfico II.11. Gráfico II.12. Figura II. 1 Figura II.2. Figura II.3. Figura II.4. Figura II. 5. Figura II.6. 16 Dormidas na Hotelaria Classificada versus Voltas em Campos de Golfe. Algarve, 2002 Campos de Golfe em Funcionamento e Projectos Existentes no Algarve, Dezembro de 2001 Variações Marginais Anuais do Número de Campos e Voltas: Algarve, 1996 – 2002 Campos de Golfe Existentes e Previstos nos Concelhos do Algarve Curvas de Precipitação e de Evapotranspiração Potencial - Médias Mensais (mm) Condutividade Eléctrica da Água de Rega dos Diferentes Campos e Origens Dotações de Rega Médias Mensais (m3/ ha) Dotação de Rega Total Anual para cada um dos 10 Campos Analisados Intensidade de Adubação: Tees e Greens Intensidade de Adubação: Fairways e Roughs Quantidade de Voltas por Nacionalidade Percentagem de Reservas por Origem Distribuição Percentual dos Campos de Golfe Existentes no Algarve Localização dos Campos de Golfe Existentes e das Pretensões relativamente às Áreas de Aptidão Turística Localização dos Campos de Golfe Existentes e das Pretensões relativamente aos Sistemas Aquíferos Localização dos Campos de Golfe Existentes e Previstos relativamente às Áreas de REN Localização dos Campos de Golfe Existentes e das Pretensões relativamente às Zonas de Protecção Especial, Áreas Protegidas e Rede Natura 2000 Localização do Alojamento dos Golfistas relativamente aos Campos de Golfe 30 42 45 52 67 87 89 90 91 94 95 104 105 66 68 69 71 73 99 Estudo Sobre o Golfe no Algarve INTRODUÇÃO GERAL O golfe é uma actividade económica que deve a sua origem à natureza de forma que poder-se-ia, com propriedade, afirmar que a sua principal sustentação é o capital natural. No entanto, como acontece com outras actividades, as condições económicas e sociais transformaram este desporto numa importante indústria, associada com o turismo, e com um potencial de desenvolvimento muito elevado. Esta introdução procura, de forma muito sucinta, dar uma ideia da importância do golfe numa dimensão global e nacional, enquadrando-o no fenómeno mais vasto do turismo. A organização do Estudo "O Golfe no Algarve" será, em seguida, apresentada como uma etapa importante para o conhecimento e o desenvolvimento da actividade na Região do Algarve. A. A1. UMA INDÚSTRIA EM CRESCIMENTO O TURISMO NO MUNDO De acordo com a Organização Mundial de Turismo (OMT), o número de pessoas que viaja no mundo é quase de 693 milhões, representando cerca de 6,6% do valor das exportações mundiais a que corresponde um volume de negócios de 442 mil milhões de dólares e à quarta posição dos maiores sectores exportadores (Albuquerque e Godinho, 2001: 11), apenas ultrapassado por sectores fortemente globalizados como a indústria automóvel, química e alimentar. Acresce que face ao ritmo de crescimento previsto a nível mundial pela OMT, cerca de 4,1% para o período 1995-2020, o primeiro quartel do século XXI contém a forte possibilidade de verificar a ascensão do turismo aos três primeiros lugares dos sectores exportadores mundiais. Quadro A.1. Exportações Mundiais de Bens e Serviços, 2000 Exportações Mundiais de bens e serviços: (Mil milhões de USD) 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. Sector automóvel Químicos Alimentares Turismo internacional Combustíveis Computadores e equipamento de escritório Têxteis e vestuário 6 738 100 525 503 443 442 344 399 331 17 Universidade do Algarve Exportações Mundiais de bens e serviços: (Mil milhões de USD) 6 738 100 8. Equipamento de telecomunicações 9. Produtos minerais, excepto combustíveis 10. Ferro e aço 283 158 141 Fonte: OMT, Organização Mundial de Turismo, 2000 O Continente Europeu, sendo o maior mercado emissor de turistas e simultaneamente o maior destino, lidera o ranking dos continentes em termos de chegadas de turistas. De facto, do número estimado de 699 milhões de chegadas internacionais em 2000, a Europa acolhe 403 milhões, isto é cerca de 57%. Juntamente com a América, constituem as maiores regiões receptoras do planeta, posição que devem manter no horizonte de 2020, embora regiões como a Ásia e o Pacífico devam crescer a ritmos relativamente superiores, face à sua emergência como destinos turísticos internacionais. Gráfico A.1. Chegadas de Turistas por Continentes, 1990-2001 450 400 350 300 250 200 150 100 50 0 1990 1995 África Américas 1999 Ásia Europa 2000 2001 Extremo Oriente Fonte: OMT, Organização Mundial do Turismo, 2000 Especificamente no interior da União Europeia, estima-se que dois milhões de empresas turísticas são responsáveis por cerca de 5 % do PIB e mais de 8 milhões de postos de trabalho. Quer a nível da União Europeia quer a nível mundial, este mercado tem sido dominado pela França em termos do ranking dos principais países de destino (chegadas internacionais), com mais de 76 milhões de turistas estimados em 2001. 18 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Quadro A.2. Ranking 2001 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 (...) Os Dez Maiores Destinos Turísticos Internacionais Países França Espanha Estados Unidos Itália China Reino Unido Federação Russa México Canadá Áustria Portugal Chegadas 2001* Chegadas 2000 76,5 49,5 45,5 39,0 33,2 23,4 19,8 19,7 18,2 Nd 75,6 47,9 50,9 41,2 31,2 25,2 21,2 20,6 19,7 18,0 12,0 Quota Mercado 2001 11,0 7,1 6,6 5,6 4,8 3,4 2,9 2,8 2,6 1,8** 2002/2001 (%) 1,2 3,4 -10,6 -5,3 6,2 -7,4 -4,0 -0,1 1,1 -5,9 nd Fonte: OMT, Organização Mundial de Turismo, 2002 * Valores provisórios; ** valor referente ao ano 2000; nd - não disponível. Na óptica das receitas obtidas com o turismo, os países apresentam uma ordenação diferente, demonstrando assim diferentes rentabilidades/segmentos, conforme se verifica no quadro seguinte. Quadro A.3. Ranking 2001 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 (...) Receitas do Turismo Países Estados Unidos Espanha França Itália China Alemanha Reino Unido Áustria Canadá Grécia Turquia México Hong Kong Austrália Suíça Portugal Receitas 2001* Receitas 2000 Quota Mercado 2001 2002/2001 (%) 72,3 32,9 29,6 25,9 17,8 17,2 15,9 12,0 8,9 8,4 8,2 7,6 7,6 Nd 82,0 31,5 30,7 27,5 16,2 17,9 19,5 10,0 10,7 9,2 7,6 8,3 7,9 8,0 7,5 5,2 15,6 7,1 6,4 5,6 3,8 3,7 3,4 2,6 1,9 1,8 1,8 1,6 1,6 1,1** 11,9 4,5 -3,7 -5,7 9,7 -3,7 18,8 19,7 17,0 1,3 4,5 -4,8 1,6 nd Fonte: OMT, Organização Mundial de Turismo, 2002 * Valores provisórios; ** valor referente ao ano 2000; nd - não disponível. 19 Universidade do Algarve O maior volume de turistas não está directamente correlacionado com as maiores receitas turísticas. A posição da Europa é explicada pelo grande volume de turistas intra espaço europeu e com as receitas de transporte relativamente mais baixas do que as regiões da América e Ásia. No caso específico de Portugal, esta situação deve ser desde já enfatizada, uma vez que tendo como referência o ano de 2000, Portugal capta 1,8% da quota de mercado mundial em termos de chegadas internacionais, mas faz corresponder a essa quota apenas 1,1% das receitas mundiais, logo em clara desvantagem em termos de valorização (receita) por unidade de chegada internacional. Realçando as já citadas e previsíveis altas taxas de crescimento das regiões Ásia e Pacífico, que deverão ocupar uma maior quota-parte deste mercado, a Organização Mundial de Turismo aponta alguns factos que possivelmente condicionarão o futuro do turismo à escala mundial, onde se destaca a consolidação do direito a férias nos países desenvolvidos, o surgimento de novos viajantes oriundos dos países em desenvolvimento, o aparecimento de novas áreas de destino em países emergentes e a concentração da fileira produtiva através da chamada canibalização dos médios operadores e agentes de viagens pelos mega-operadores. Saliente-se que o turismo internacional pela natureza elástica da sua procura, tende a ser dos primeiros sectores a reagir negativamente a situações de instabilidade, como por exemplo a Guerra no Iraque, mas também, uma vez ultrapassada a fase de instabilidade, tem demonstrado ser um dos sectores com maior capacidade de recuperação económica. A2. O GOLFE COMO FENÓMENO GLOBAL O golfe é um negócio reconhecido a nível mundial, sobretudo quando associado ao turismo. "A taxa de aumento de praticantes de golfe, à escala mundial, situa-se próximo dos 10% ao ano, que pode conduzir a uma evolução impressionante da procura se atendermos a que, neste momento, o número de praticantes é de cerca de 25 milhões nos EUA, de 15 milhões no Japão e de 2,5 milhões na Europa. A manter-se este ritmo, o número de praticantes duplicará, no prazo de aproximadamente 8 anos" (FPG, 2000). Os principais mercados do golfe situam-se na Europa, Japão e Estados Unidos da América. 20 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Gráfico A.2. Evolução do Golfe na Europa: 1985-2002 5.000 7.000 4.500 6.000 4.000 n.º de campos 3.500 3.000 4.000 2.500 3.000 2.000 1.500 2.000 n.º de jogadores (x1000) 5.000 1.000 1.000 500 Campos 2002 2001 2000 1999 1998 1997 1996 1995 1994 1993 1992 1991 1990 1989 1988 1987 1986 0 1985 0 Jogadores Fonte: EGA, European Golf Association, 2002 Os países com maior número de jogadores e de campos na Europa concentram-se no Reino Unido, seguidos pela Alemanha, França e Suécia, conforme se verifica no quadro seguinte. De imediato saliente-se a liderança do Reino Unido, o qual constitui simultaneamente o maior importador de golfe para a região do Algarve, como será posteriormente quantificado. Quadro A.4. Países Inglaterra Alemanha Escócia França Suécia Irlanda Espanha Itália País de Gales Dinamarca Holanda Portugal Campos e Jogadores dos Países Europeus, 2002 Nº Campos 1892 619 542 513 418 400 263 220 157 135 122 59 Nº Jogadores 877.682 399.016 265.500 301.902 503.786 231.733 195.096 63.534 71.567 104.720 175.000 12.000 Campos 31,6% 10,3% 9,1% 8,6% 7,0% 6,7% 4,4% 3,7% 2,6% 2,3% 2,0% 1,0% Jogadores 24,7% 11,2% 7,5% 8,5% 14,2% 6,5% 5,5% 1,8% 2,0% 2,9% 4,9% 0,3% Fonte: EGA, European Golf Association, 2002 21 Universidade do Algarve Da análise deste quadro, resulta também que Portugal embora dispondo de uma oferta de campos relativamente significativa, nomeadamente pela sua concentração territorial, tem ao nível da procura interna um potencial de crescimento que importa assinalar, como se analisa no ponto seguinte. B. B1. O QUADRO NACIONAL O TURISMO EM PORTUGAL Portugal pela sua localização e pelas condições climatéricas e naturais assume-se como um destino turístico natural. No espaço português, as regiões litorais assumiram desde sempre um papel fundamental no desenvolvimento turístico nacional. O Algarve, a Madeira e o Alentejo Litoral surgem como os principais motores de desenvolvimento turístico do país. O número de turistas cresceu a uma taxa média anual de 3,5%, na última década. Os turistas provêem sobretudo da União Europeia e, em particular de Espanha, a proximidade geográfica conduz a que a via de acesso privilegiada no acesso ao país seja a terrestre. O turismo em Portugal é marcadamente um fenómeno de exportação, sendo que 70% das dormidas em 2001 pertencem a turistas residentes no estrangeiro, dos quais 70% são residentes no Reino Unido, Alemanha, Espanha, Holanda e França. 22 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Quadro B.1. Caracterização da Actividade Turística em 2001 Dormidas (%) Total 33.563.000 Estrangeiros 23.578.000 Reino Unido Alemanha 7.266 4.532 Espanha 1.913 Holanda França 1.756 1.046 Residentes 70,2 9.985.000 29,8 Capacidade de Alojamento (%) Total 225.665 Hotéis 104.439 46,3 30.403 31.413 13,5 13,9 Aparthotéis Apartamentos Taxa de Ocupação (%) 40,7 Fonte: INE, Instituto Nacional de Estatística, 2001 A actividade turística não se distribui de forma igual por todo o espaço português, nem em termos de capacidade de alojamento nem no que se refere à procura turística, tal como é possível verificar no Quadro B.2 as regiões do litoral e em particular o Algarve, Lisboa e Vale do Tejo e Madeira, surgem como os principais pólos dinamizadores da actividade turística no país. Se no Algarve e Madeira o produto turístico dominante é o sol e praia, Lisboa enquanto capital urbana tem neste tipo de turismo a sua principal âncora, embora possua em termos de litoral uma das primeiras zonas turísticas estruturadas do país. Quadro B.2. Caracterização da Actividade Turística, por NUTS II em 2002 NUTs II Nº Camas Nº Dormidas Taxa de ocupação Norte Centro Lisboa e Vale do Tejo Alentejo Algarve Continente Madeira Açores 29.523 20.099 53.628 7.318 86.751 197.319 26.532 4.814 3.046 1.957 7.608 898 13.900 27.409 5.438 716 28,27 26,68 38,87 33,62 43,90 38,06 56,15 40,75 Fonte: INE, Instituto Nacional de Estatística, 2001 23 Universidade do Algarve B2. O GOLFE EM PORTUGAL No final de 2002 existiam em Portugal aproximadamente 59 campos de golfe com uma média de 18 buracos cada, dos quais cerca de 45% localizados no Algarve, e 8,5 nos Açores e na Madeira. Os principais clientes destes equipamentos dividem-se em dois grandes grupos: mercado interno e mercado externo. O turismo doméstico tem uma fraca expressividade no mercado relativamente ao exterior. Apesar da fraca tradição da prática de golfe pelos nacionais, o seu potencial como mercado consumidor revela mais um factor com capacidade para compensar a sazonalidade do golfe. Em 2002, a repartição dos principais campos de golfe receptores desta procura no território nacional encontrava-se distribuída da seguinte forma: Gráfico B.1. Distribuição dos Campos de Golfe em Portugal, 2002 8 Norte 2 Centro Lisboa e V. T. 18 2 Alentejo 3 R. A. da Madeira 2 R. A. dos Açores 27,5 Algarve 0 5 10 15 20 25 30 n.º de campos Fonte: FPG, Federação Portuguesa de Golfe, 2002 Nota: Número de campos equivalentes a 18 buracos O turismo de golfe nacional caracteriza-se por um segmento de mercado de nível económico superior ao do turista médio estrangeiro. O mercado estrangeiro é o que apresenta maior importância económica, sendo constituído maioritariamente por turistas ingleses. De facto, pelas condições climatéricas existentes e pela imagem de qualidade da oferta, Portugal tornou-se num destino privilegiado para os jogadores de golfe europeus, como pode ser verificado pelos dados da IAGTO (2002). 24 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Quadro B.3. Principais Destinos dos Golfistas Europeus Ranking Mercado Inglês Mercado Alemão Mercado Sueco Mercado Francês 1 Inglaterra Espanha Suécia França 2 Espanha Portugal Espanha Marrocos 3 Escócia USA USA Espanha 4 Portugal Alemanha Irlanda USA 5 França Marrocos Tailândia Escócia 6 USA Tunísia Itália Tunísia 7 Irlanda Turquia Inglaterra Caraíbas 8 Gales Africa Sul Portugal Irlanda Fonte: IAGTO, International Association of Golf Tour Operators , 2002 Paralelamente o interesse dos canais de distribuição turística neste produto é enorme. No trabalho produzido pelo ICEP (2002) verifica-se que é significativo o número de operadores especializados em golfe que comercializam o produto em Portugal. É relevante que Portugal não entrando no ranking dos 10 ou 15 maiores destinos turísticos internacionais, quer em termos de volume de chegadas quer em termos de receitas, quando a análise incide sobre este produto específico – golfe – surge em segundo lugar como destino de preferência dos países com maior número de praticantes na Europa, Inglaterra e Alemanha. A relevância deste produto não poderia ser assim por demais evidente em termos de competitividade do turismo em Portugal e do conjunto dos sectores exportadores nacionais. C. ORGANIZAÇÃO DO ESTUDO Na proposta apresentada pela Universidade do Algarve para a realização do Estudo reconhece-se que "... a concepção do estudo sobre o Golfe no Algarve resulta da AHETA e Associação de GOLFE, unidas pelo interesse comum de perceber e minimizar os efeitos negativos do golfe, maximizando os seus efeitos positivos" . Foi, neste espírito, que a Equipa de Projecto procurou realizar o trabalho, organizado em dois volumes. Um primeiro de diagnóstico e identificação de áreas problemas, o segundo com os cenários de desenvolvimento. Um trabalho desta natureza, multidisciplinar e de grande abrangência, exige competências de várias áreas e um conjunto de informações, a maioria das quais tem de ser criada a partir de entrevistas e de inquéritos cujo universo é constituído pelos vários agentes envolvidos: empresas, técnicos, jogadores, especialistas da modalidade, entre outros. 25 Universidade do Algarve Este Relatório assumindo o estatuto de diagnóstico pretende responder às duas questões de base sobre a actividade: Qual a situação actual do golfe nos vários domínios: ambiental, económico-social, como negócio e ambiental? Quais os pontos críticos e os problemas estruturais da actividade na Região do Algarve? O Relatório Final estrutura-se em oito volumes. Um primeiro de diagnóstico e identificação de áreas problema, um segundo volume com a identificação dos cenários de desenvolvimento e um conjunto de seis estudos específicos onde se pormenorizam aspectos determinantes do golfe como a procura, a oferta, os impactes ambientais, os recursos hídricos e os procedimentos metodológicos adoptados para a recolha de informação. A bibliografia consultada é apresentada no final do volume II. Os vários pontos do relatório são apoiados por ANEXOS, onde são desenvolvidos os temas de forma mais detalhada e justificadas algumas das opções retidas no texto do Relatório. Em termos de organização deste Relatório optou-se por tratar três pontos: No Capítulo I abordam-se as razões que justificam um estudo desta natureza, os objectivos e a metodologia; No Capítulo II apresenta-se o diagnóstico da situação do golfe no Algarve focando as áreas essenciais: a economia regional, as incidências ambientais e a gestão agro-ambiental e, finalmente, o negócio; No Capítulo III são colocados os problemas que de uma forma pontual ou mais estruturante são colocados à economia do golfe na Região. Algumas das situações são objecto de recomendação. A Conclusão estabelece a ligação com a parte prospectiva que será objecto do volume II. 26 Estudo Sobre o Golfe no Algarve CAPÍTULO I ENQUADRAMENTO DO ESTUDO, OBJECTIVOS E METODOLOGIA Neste capítulo procurou-se um enquadramento do Estudo sob uma perspectiva de análise histórica do golfe na Região do Algarve. Embora seja um tema tratado em vários estudos considerou-se útil fazê-lo para ilustrar a dinâmica de crescimento que a actividade teve nos últimos dez anos. Em seguida, abordam-se os objectivos do Estudo e deste volume, bem como os procedimentos metodológicos que foram utilizados para os diversos domínios de análise: económico-social, ambiental e empresarial. Considerou-se importante iniciar a abordagem das áreas temáticas com uma breve revisão de literatura, onde preocupações do mesmo tipo têm sido tratadas quer numa óptica académica quer numa óptica mais voltada para a definição de estratégias, públicas e ou privadas, dirigidas para o desenvolvimento da actividade do golfe. I.1. ANÁLISE HISTÓRICA DO DESENVOLVIMENTO DA ACTIVIDADE NA REGIÃO A emergência do golfe no Algarve data da década de 60, com a abertura do primeiro campo de golfe em 1966, o “Golfe da Penina”, o qual beneficiou da visão de Sir Henry Cotton, cujo contributo para o desenvolvimento da modalidade é internacionalmente reconhecido. Esta década de 60 constitui um verdadeiro take-off da economia do turismo do Algarve, assistindo-se à inauguração de uma série de estruturas no Algarve ou com influência sobre este, as quais paralelamente à oferta de meios de alojamento, vêm transformar o Algarve rural e piscatório da década de 50 num destino turístico por excelência no espaço de 20/30 anos. Quadro I.1. Estruturas Turísticas Inauguradas na Década de 60 com Influência no Algarve Infraestrutura Data de inauguração Aeroporto Internacional de Faro 1965 Ponte 25 Abril (antiga Ponte Salazar) 1966 Campo de Golfe da Penina 1966 27 Universidade do Algarve De facto, é durante as décadas de 60 e 70 que são estruturados e licenciados um conjunto de empreendimentos turísticos que vêm “ancorar” o Algarve como destino turístico, designadamente Penina, Quinta do Lago, Vale do Lobo e Vilamoura, cuja localização a barlavento acompanha também, desde logo, a localização dos vários campos de golfe que vão surgindo. De um único campo de golfe na década de 60, o qual surge quase 80 anos depois do primeiro implantado em território nacional (Oporto Niblicks Club – Espinho 1890), o golfe cresce no Algarve a um ritmo assinalável. De facto, 30 anos depois do seu aparecimento na região, o Algarve possui em 1996 um total de 18,5 campos (equivalentes a 18 buracos) e em Dezembro de 2001 um total de 24 campos que oferecem 432 buracos aos praticantes, representando nessa data cerca de 41% da oferta nacional de campos de golfe. Isto é, à semelhança da actividade turística no seu todo, também em termos do produto golfe o Algarve torna-se o maior destino nacional. Situando a análise no período referente aos últimos onze anos (1992-2002), importa referir que o ritmo de crescimento da oferta de golfe, quantificada em termos do número de campos, acompanhou durante a década de 90 o ritmo de crescimento da capacidade de alojamento da região, quantificada em termos de número de camas nos estabelecimentos classificados. No entanto, nos primeiros anos de 2000, é visível que o número de campos tem crescido mais do que proporcionalmente face à evolução da oferta de alojamento, facto que se analisado do ponto de vista do esforço de atenuar a sazonalidade constitui um factor positivo, mas que se observado do ponto de vista da procura efectiva por campo/buraco pode questionar desenvolvimentos futuros da oferta. 28 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Gráfico I.1. Oferta de Campos de Golfe e Capacidade de Alojamento Algarve 1992/2001 25 88 24 86 23 84 n.º de campos 82 21 80 20 78 19 76 18 17 74 16 72 15 n.º de camas (x1000) 22 70 1992 1993 1994 1995 1996 Campos de golfe 1997 1998 1999 2000 2001 Capacidade de alojamento Fonte: Algarve Golfe e INE, Instituto Nacional de Estatística, 1991/2001. Nota: Alojamento considerado: Hotéis, Hotéis-Apartamentos, Aldeamentos Turísticos, Apartamentos Turísticos, Motéis, Estalagens e Pousadas, Pensões. Capacidade de alojamento para 2002 estimada pela UALG. Focando agora a análise no lado da procura, recorre-se ao cruzamento entre o golfe (voltas vendidas), alojamento (número de dormidas) e associa-se ainda a evolução anual do número de passageiros movimentados no Aeroporto Internacional de Faro. Expressas estas variáveis no Gráfico I.2, é possível detectar que embora com ritmos diferentes e algumas oscilações, existe um crescimento constante nas três variáveis até 1999, sendo que desde então o número de dormidas nos meios de alojamento regista uma diminuição, prevendo-se cerca de 13,2 milhões para 2002. Porém, nesse mesmo período pós 1999, o crescimento das voltas vendidas mantém-se, atingindo as 930 mil em 2002 e o número de passageiros transportados parece estabilizar em redor dos 4,7 milhões/ano. 29 Universidade do Algarve Gráfico I.2. Evolução da Procura de Campos de Golfe, Dormidas em Alojamento e Movimento de Passageiros no Aeroporto de Faro: Algarve 1992/2002 16.000.000 1.000.000 900.000 14.000.000 800.000 12.000.000 n.º de voltas 10.000.000 600.000 8.000.000 500.000 400.000 6.000.000 300.000 n.º de dormidas n.º de passageiros 700.000 4.000.000 200.000 2.000.000 100.000 0 0 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 Voltas vendidas golfe Dormidas alojamento Passageiros Aeroporto de Faro Fonte: Algarve Golfe e INE, Instituto Nacional de Estatística, 1991/2001. Nota: Alojamento considerado: Hotéis, Hotéis-Apartamentos, Aldeamentos Turísticos, Apartamentos Turísticos, Motéis, Estalagens e Pousadas, Pensões. Dormidas para Dezembro de 2002 estimadas pela UALG com os restantes meses desse ano baseados em dados provisórios do INE. Por conseguinte, através deste passado recente do produto golfe, numa história também ela recente do turismo no Algarve, é possível detectar que na última década e início dos anos 2000, o produto golfe tem crescido a ritmos superiores aos registados noutras variáveis do sector do turismo, quer em termos de oferta quer em termos de procura, demonstrando assim um dinamismo que importa acompanhar e monitorizar tendo em vista o seu planeamento e desenvolvimentos futuros no âmbito da matriz económica, social e ambiental da região. I.2. UMA INDÚSTRIA AMPLAMENTE ESTUDADA SOB VÁRIAS PERSPECTIVAS Estudos sobre o golfe de carácter científico centram-se essencialmente nas questões ambientais relacionadas com os impactes sobre os recursos hídricos e sobre a fauna e flora das zonas de implantação dos campos. 30 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Em Portugal os estudos desenvolvidos no domínio da actividade golfe estão relacionados com o binómio golfe - turismo sustentável. Neste contexto, destaca-se a título de exemplo, o estudo realizado por Partidário (2002) “Novos Turistas e a procura da Sustentabilidade - Um Novo Segmento do Mercado Turístico”, o trabalho síntese sobre “Licenciamento de Campos de Golfe”, desenvolvido pelo Ministério das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente (MCOTA) em colaboração com a Direcção Regional do Ambiente e Ordenamento do Território-Algarve (DRAOT-Algarve, 2002), apresentado no âmbito do simpósio “Licenciamento de Campos de Golfe”, realizado na Universidade de Lisboa. Salientam-se ainda, estudos de carácter mais abrangente realizados pela Associação Portuguesa de Golfe, Direcção Regional do Ambiente - Algarve e pelo Instituto do Ambiente. Ao nível internacional, destacam-se estudos realizados pela Agência Europeia do Ambiente, Agência Norte Americana de Protecção do Ambiente, Organização Económica para o Desenvolvimento e Cooperação, Organização Mundial do Turismo, Associação Norte Americana de Golfe, Associação Europeia de Golfe. As organizações, agências e associações referidas desenvolveram estudos específicos de carácter rigoroso, científico e aprofundado, objectivando a desmistificação da problemática associada aos impactes ambientais do golfe. De uma forma geral, estes estudos pretendem identificar os principais impactes associados à actividade, propor medidas eficientes de mitigação e/ou potenciação desses mesmos impactes e avaliar o seu desempenho ambiental. Neste contexto, refere-se o estudo realizado por Koch (1998), que propõe, pela primeira vez, o desenvolvimento de indicadores de desempenho ambiental para o sector do golfe. Salientam-se ainda vários estudos realizados por várias associações que desenvolveram e promoveram um conjunto de directrizes de apoio à gestão, objectivando a melhoria do desempenho ambiental dos campos de golfe. Na perspectiva económica, os estudos de mercado e posicionamento da National Golf Foundation (NGF) e da European Golf Association (EGA), surgem claramente destacados no actual quadro de investigação. As áreas do marketing, da competitividade das áreas destino e do grau de satisfação dos golfistas constituem o corpo teórico de investigação. No campo da segmentação destaca-se o trabalho da NGF (1995), que identifica 5 clusters baseados na segmentação psicográfica. Os seg- 31 Universidade do Algarve mentos identificados são os seguintes: “Serious Competitors” - gastam muito tempo e dinheiro no golfe; “Leisure Lovers”- jogam sobretudo nas férias, consumindo TV e revistas da especialidade; “Active Singles” - o golfe é uma das muitas actividades que praticam; jogam em viagens de negócios; “Homebodies” - pais de família com reduzidos rendimentos; bastante sensíveis aos preços; “Dabblers” - praticam golfe para estar perto da família; sensíveis aos preços mas com altos rendimentos. Para todos, o golfe não é uma actividade relaxante comparativamente a outras actividades, o que contraria a ideia do golfe ser um jogo calmo. Numa óptica económica, surgem análises efectuadas a nível das áreas destino de golfe. Patronato Turismo da Costa del Sol (2002) reflecte as preocupações da economia turística da Costa do Sol. Analisando a situação do golfe na região, relaciona os fluxos da oferta e da procura em Málaga, destacando o peso económico e social. Também Stynes, D. J., Y. Sun e D. R. Talhelm (2001) contribuem para a análise económica do golfe, debruçando-se sobre os visitantes na zona de Michigan. Recorrendo a dados primários, comparam as percepções do lado da oferta e da procura, quantificando o resultado económico desta actividade para a região. Na sua dissertação para obtenção do grau de Doutor, Petrick (1999) analisa os efeitos nos turistas que jogam golfe, das variáveis relacionadas com os campos e estuda a satisfação dos golfistas relacionando-a com a intenção de voltar à área destino. Conclui que os golfistas que estão mais próximos da "experiência de golfe" apresentam um grau de correlação mais elevado com a qualidade da experiência geral da deslocação e do valor percebido. Petrick (2002) analisa as relações entre os turistas que jogam golfe (golf vacationers) e o conceito de novidade (novelty) como forma de melhorar os desempenhos dos destinos turísticos de golfe. Na mesma linha, Petrick et al (2001, 2002), aprofunda o estudo da percepção da experiência do golfista, da sua lealdade para com o campo e as intenções de regressar. Melvin (2000) aplica as técnicas de análise dos preços hedónicos de Rosen (1974) sobre os serviços oferecidos numa amostra dos 17.000 campos de golfe dos Estados Unidos entre os anos de 1995 e 1997. Conclui que com a correlação das 100 variáveis utilizadas, é possível estimar de forma muito aproximada os preços dos bens e serviços transaccionados num campo de golfe e a sua característi- 32 Estudo Sobre o Golfe no Algarve ca compósita, o que confirma que o golfe não é um produto dotado de utilidade própria, mas são as suas características próprias que o dotam de uma utilidade própria. O golfe representa, de per si, uma importante actividade económica e simultaneamente indutora de outras actividades, principalmente os empreendimentos turístico - imobiliários construídos na sua periferia. Martinez (1992) lista os sub-sectores da economia relacionados com o golfe: - produtivo, emprego, imobiliário, realização de campeonatos de golfe e o turismo de golfe. Afirma o autor que esta interligação provoca a diminuição relativa dos campos de golfe públicos em favor dos privados. Aponta a crescente dificuldade de alguns dos novos campos construídos em locais montanhosos, os quais, parecem contribuir para a diminuição da procura do cliente de golfe com idade média superior a 45 anos. Malpezzi (1999) utilizando o mercado de golfe dos Estados Unidos, propõe modelos econométricos baseados na população e na quantidade de buracos, de forma a estimar a necessidade de novos campos. Este trabalho parece confirmar as conclusões de Martinez (1992), pois evidencia a elevada propensão de crescimento da actividade, face aos aumentos da idade média da população mundial e da esperança de vida. Pelos impactos sobre o meio ambiente, a exploração de um campo de golfe é sempre geradora de conflitos com a população residente, principalmente pela área ocupada e pelo consumo de água. Na análise de um case study de uma região carenciada em água, Markwick (2000) sugere a elaboração de uma matriz de conflitualidade como forma de ultrapassar as diferentes perspectivas entre os actores. Não constituindo o objecto de análise principal dos trabalhos realizados sobre a região Algarve, o golfe é referenciado na maioria dos trabalhos sobre turismo realizados por alunos e docentes da Universidade do Algarve e da Escola Superior de Hotelaria e Turismo. Catalão (2001) aborda o Golfe na perspectiva da oferta, identificando a sua importância em termos de planeamento, refere as questões dos impactes do golfe e conclui que a sustentabilidade surge como eixo fundamental para um turismo desportivo de qualidade. Horwath Consulting, (1992) e Pinheiro (1994) referem as vantagens da actividade na economia do país e da sua importância como estratégia de dessazonalização. 33 Universidade do Algarve Na mesma linha Correia (1994) enquadra o golfe como um dos possíveis modelos de inversão da sazonalidade do turismo no Algarve, produzindo uma análise SWOT da actividade. A Algarve Golfe (2000) analisa a actividade na região na óptica da oferta, levantando questões relacionadas com o negócio global do golfe, referindo quais as actividades económicas onde os impactes directos e indirectos do golfe são mais prementes no Algarve. Pedro e Alves (1993) publicam um compêndio sobre o golfe em Portugal, onde se destacam dados relevantes sobre a história do golfe e a sua relação com o desporto e a actividade turística. I.3. OBJECTIVOS DO ESTUDO Os termos de referência incluem uma justificação detalhada do Estudo bem como a enumeração dos objectivos a alcançar e as questões que devem ser objecto de esclarecimento. A seguir, propõe-se o seu resumo. I.3.1. OBJECTIVO GERAL DO ESTUDO O objectivo geral do estudo aponta para a definição de um conjunto de critérios e indicadores (uma matriz ou modelo de avaliação) que possibilite a análise da actividade do golfe na região do Algarve, integrando as vertentes socio-económica, patrimonial e ambiental. A análise deve concentrar-se não só nas questões que condicionam essas vertentes no momento actual, mas também no estudo das condições da sua sustentabilidade no longo prazo. De uma forma simplista o estudo concretiza esses objectivos em duas fases: uma fase de análise do diagnóstico e de avaliação da actividade do golfe no Algarve e das suas áreas-problema e, numa segunda fase, construção de cenários de sustentabilidade para o desenvolvimento da actividade na região. Os resultados de cada uma das fases concretizam-se nos dois volumes do relatório final apresentados e discutidos com os agentes económicos e sociais, com os representantes da administração do Estado e com o público em geral. I.3.2. OBJECTIVOS DO VOLUME I – DIAGNÓSTICO E ÁREAS PROBLEMA Os objectivos deste volume centram-se em duas áreas: o diagnóstico da situação e a identificação de áreas-problema. 34 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Assim, quanto ao diagnóstico procurou-se: 1. Situar a actividade do golfe no contexto internacional, nacional e regional e mostrar a sua importância estratégica no desenvolvimento da região do Algarve; 2. Avaliar a importância das incidências do sector do golfe no conjunto das actividades económicas regionais que interferem com o uso do território e dos recursos; 3. Avaliar o desempenho socio-económico e ambiental das unidades turísticas de suporte à prática do golfe (campos de golfe, country clubes e respectivos empreendimentos turísticos) com base nos indicadores seleccionados e no modelo de avaliação; 4. Avaliar as incidências ambientais da actual dimensão da actividade do golfe na Região bem como o consumo e a gestão dos recursos naturais a ela associados. Quanto às áreas-problema: 1. Identificar, em cada um dos domínios de análise, as preocupações e os problemas que foram identificados pela análise e aqueles que constituem também preocupações dos agentes envolvidos na indústria; 2. O Relatório conclui com um conjunto de recomendações que possam contribuir para uma gestão sustentada das unidades existentes, incentivando a comunidade golfista a atingir os objectivos empresariais e regionais num quadro de elevados padrões de desempenho ambiental. I.4. I.4.1. A METODOLOGIA O QUADRO METODOLÓGICO GERAL Um estudo sobre o golfe exige uma abordagem multidisciplinar e métodos de trabalho específicos para cada uma das áreas científicas envolvidas. 35 Universidade do Algarve O esquema abaixo sintetiza as diferentes vertentes analíticas que intervêm na prática do golfe. Componente Socio-económica Economia Regional Economia Empresarial Impactos Sócio-económicos Prática do Golfe Componente Ambiental Localização Recursos Naturais Incidências Ambientais O conteúdo destas áreas cobre as seguintes preocupações: ü Ambiente e Recursos Naturais Quadro legal, recursos, biodiversidade, impactes. ü A Economia do Golfe Vantagens comparativas e vantagens competitivas, produtos e mercados, impactes sociais e económicos, efeitos externos, comparação internacional. ü O Negócio do Golfe O tecido empresarial existente, as condicionantes da actividade, a competitividade das empresas no quadro regional ibérico, as estratégias empresariais, as expectativas. ü A Economia Regional O modelo de desenvolvimento regional, o ordenamento territorial, as actividades concorrentes e complementares e os impactos directos e indirectos da actividade. Cada uma das áreas tem aspectos metodológicos específicos, no entanto, para a caracterização da situação de referência e identificação das áreas problema – conteúdo deste volume – foram seguidos procedimentos comuns e que se podem resumir em: • 36 elaboração de inquéritos e entrevistas com questões relativas a todas as áreas; Estudo Sobre o Golfe no Algarve • avaliação dos efeitos e das incidências da actividade através de indicadores; • construção de matrizes de impacte da actividade. A diversidade de recolha de informação realizada não permitiu chegar a consenso sobre o número de campos de golfe. Ao longo do estudo encontram-se números que oscilam entre 24 e 30, dependendo da óptica de análise utilizada. Na óptica ambiental é importante considerar as diferentes fases de ampliação do campo, na medida em que a forma de projectar e construir os “buracos” têm incidências ambientais completamente diferentes. Na óptica económica, desde que o campo seja propriedade da mesma empresa, as diferentes ampliações distinguidas pelo ambiente não são relevantes. Elementos específicos da metodologia de cada uma das áreas de estudo serão referidos no capítulo seguinte ou então, quando se tratar de aspectos técnicos dos métodos estatísticos que foram aplicados, a sua apresentação será objecto de anexos. A informação relativa à área ambiental baseou-se num conjunto de dados de âmbito nacional e internacional, nomeadamente Planos, Programas e Estratégias relacionados com o ambiente; estudos de caracterização das actividades golfe e turismo, estudos de impacte ambiental (EIA); estudos de desempenho ambiental dos campos de golfe; legislação vigente; instrumentos de gestão ambiental; visitas aos clubes de golfe, bem como no contacto com associações de golfe, nomeadamente com a Associação Europeia de Golfe (EGA). Foram analisados todos os PDM’s correspondentes às áreas que coincidem com os campos de golfe existentes e propostos. Analisaram-se onze PDM’s, que aquando da sua aprovação, regulamentaram o uso e ocupação do solo das suas áreas de intervenção. Os PDM’s consultados são referentes aos seguintes concelhos do Algarve: Vila do Bispo, Lagos, Portimão, Lagoa, Silves, Albufeira, Loulé, Faro, Tavira, Vila Real de Santo António, e Castro Marim. Em relação aos estudos nacionais que se debruçam sobre a actividade do golfe há que distinguir a presente abordagem nos seguintes aspectos: no estudo das incidências ambientais do golfe numa perspectiva integrada, analisando diversos aspectos que incluem o licenciamento da actividade, a sua integração nos instrumentos de gestão territorial e o contributo para a avaliação do desempenho ambiental do sector, através da definição de um sistema de indicadores ambientais. Quanto às abordagens realizadas no estrangeiro e com objectivos semelhantes aos deste estudo importa frisar que: 37 Universidade do Algarve • Reconhecendo a importância dos trabalhos desenvolvidos na área da certificação ambiental da actividade, o presente estudo permite avançar novos conhecimentos como resultado do desenvolvimento e aplicação de um sistema de indicadores que permita a avaliação contínua do sector do golfe no Algarve, através da utilização de indicadores de pressão-estado-resposta. Os dados necessários ao estudo do enquadramento económico externo e interno da actividade, são obtidos através de diferentes origens e tipos de informação. Como enquadramento geral, a nível internacional e nacional, recolheram-se dados secundários publicados maioritariamente pela Organização Mundial de Turismo (OMT), European Golf Association (EGA) e Instituto Nacional de Estatística (INE). Posteriormente, já no estudo específico do golfe no Algarve, as principais fontes de dados secundários residiram na Algarve Golfe, AHETA (Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve) e pontualmente o Departamento de Marketing do Aeroporto de Faro, cujos valores incidem maioritariamente sobre a quantificação física da actividade do turismo e/ou do golfe em particular. A componente económica associada e esta dinâmica física, resulta do recurso e articulação de fontes primárias de informação. Em termos de procura, analisam-se os 600 questionários efectuados aos praticantes, em termos de oferta ponderam-se os dados recolhidos sobre os diferentes preços e segmentos da oferta dos campos de golfe. Esta relação económica da procura e oferta, dimensionada quer em termos físicos quer em termos monetários, constitui o aspecto central da metodologia adoptada na fase de diagnóstico. Em relação aos estudos nacionais que se debruçam sobre a actividade do golfe há que distinguir a presente abordagem nos seguintes aspectos: a integração entre diferentes domínios do conhecimento científico, a pluridisciplinariedade do mesmo. É a primeira vez que se compila num mesmo documento a abordagem económica e social, empresarial e ambiental mantendo as divergências próprias de quem olha para o fenómeno Golfe em ópticas completamente diferentes. Quanto às abordagens realizadas no estrangeiro e com objectivos semelhantes aos deste estudo importa frisar que todos eles se centram ou numa análise das elasticidades da procura/oferta ou numa análise de constituição de preços. O pressuposto de base é sempre a lei da oferta e da procura. Sobre os efeitos económicos e sociais, os estudos focam apenas a identificação dos sectores relacionados com o golfe a montante e a juzante. Nestas matérias o estudo, que agora se apresenta também não irá muito mais longe, na medida em que os efeitos colaterais desta actividade poderão apenas ser definidos, em rigor, com a Conta Satélite do Turismo. Na óptica ambiental destaca-se a matriz de 38 Estudo Sobre o Golfe no Algarve conflitualidade da utilização da água de Markwick (2000) como um dos principais esforços para integrar diferentes perspectivas. Como conclusão deste capítulo importa distinguir um aspecto essencial da metodologia deste estudo em relação a outros e que consiste em abordar a actividade do golfe de forma integrada, colocando no mesmo plano os factores empresariais, os impactes ambientais e o interesse económico e social da actividade. Trata-se de um estudo sobre a sustentabilidade presente e futura da actividade como um dos factores estratégicos do desenvolvimento do Algarve. 39 Universidade do Algarve 40 Estudo Sobre o Golfe no Algarve CAPÍTULO II DIAGNÓSTICO DA ACTIVIDADE DO GOLFE NO ALGARVE Este capítulo tem como finalidade a descrição da situação actual da actividade do golfe na Região do Algarve nas suas múltiplas perspectivas: económica e social, ambiental, de gestão das práticas agro-ambientais e como negócio. O último ponto contendo os resultados de uma consulta feita aos vários stakeholders em que se auscultaram opiniões não só sobre a situação actual do golfe no Algarve, mas também sobre a sua eventual expansão, permitiu elaborar o quadro competitivo da indústria do golfe no Algarve, sintetizado na conhecida matriz SWOT. II.1. II.1.1. GOLFE NA ECONOMIA REGIONAL A PERSPECTIVA DOS PLANOS ESTRATÉGICOS: ECONOMIA E SAZONALIDADE O território nacional é em termos turísticos suficientemente heterogéneo para integrar diferentes tipos de turismo, resultantes da capacidade de resposta às diversas motivações e intenções dos viajantes. No caso específico da região do Algarve, o turismo de recreio é sem dúvida a âncora do destino turístico, onde o produto sol e praia marca o ritmo de crescimento desde a década de 60 do século passado. No entanto, este ritmo contém dois problemas na sua própria essência: a sazonalidade da procura e a tendência para gerar mercados e fluxos massificados. Consequentemente, é hoje consensual nos vários planos de estratégia de desenvolvimento nacional e regional, quer globais quer sectoriais (turismo), a necessidade de observar, quantificar e estabelecer as devidas análises de custo e benefício entre os efeitos benéficos provenientes das economias de escala e os custos/riscos da sua prossecução, isto é, o conhecimento das deseconomias resultantes da ultrapassagem de níveis de capacidade de carga, sejam eles naturais, sociais, institucionais ou económicos. Felizmente, o destino turístico Algarve tem hoje na sua economia um segundo tipo de turismo, devidamente reflectido no conjunto de instrumentos estratégicos regionais, o turismo desportivo, o qual assume progressivamente um papel dada vez mais destacado. Está em causa um tipo particular de turismo desportivo onde os turistas assumem uma atitude activa perante as actividades, satisfazendo necessidades que se materializam no Algarve em produtos turísticos de referência como, entre outros, os desportos náuticos, o ténis e o golfe. 41 Universidade do Algarve No caso concreto do golfe, os 27,5 campos de golfe existentes em Dezembro de 2002, e as mais de 900.000 voltas vendidas no ano de 2002, não só certamente reflectem um significativo valor económico que importa quantificar, como traduzem um ritmo de contraciclo face à sazonalidade do produto sol e praia, factores que por si justificam a pertinência da análise deste produto. Por exemplo, no ano de 2002, enquanto nos estabelecimentos hoteleiros classificados 42% das cerca de 13,2 milhões de dormidas no Algarve são vendidas durante os meses de Junho, Julho e Agosto (INE 2003), regista-se, em clara oposição temporal, que 43% das voltas vendidas nos campos de golfe do Algarve são realizadas nos meses de Fevereiro, Março, Outubro e Novembro. Gráfico II.1. Dormidas na Hotelaria Classificada versus Voltas em Campos de Golfe. Algarve, 2002 140 2.500 120 100 1.500 80 60 1.000 40 n.º de dormidas (x1000) n.º de voltas (x1000) 2.000 500 20 0 0 Jan Fev Mar Abr Mai Jun Voltas Golfe Jul Ago Set Out Nov Dez Dormidas Hotelaria Fonte: INE, Instituto Nacional de Estatística, 2003; AHETA, Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve, 2002 Nota: Dormidas com valores provisórios para Janeiro a Novembro de 2002 disponibilizados pelo INE (não publicados); valor de Dezembro referente ao apuramento de 2001 dado ainda não se dispor dos dados para este mês em 2002. É pela sua característica de sazonalidade distinta do produto sol e praia, bem como pelo perfil económico do seu mercado (que importa detalhar), que o golfe é hoje consensualmente apontado como um produto estratégico para o desenvolvimento sustentável do turismo. Este posicionamento é demonstrado a nível nacional pelas posições assumidas pela Secretaria de Estado do Turismo, onde o golfe surge como um produto turístico diferenciado e ajustado às tendências da procura nacional e 42 Estudo Sobre o Golfe no Algarve internacional (Ministério da Economia 2002: 11), reflectindo-se assim na desejável integração do produto golfe na articulação entre turismo, ambiente, emprego e ordenamento do território, por forma a garantir um turismo competitivo e de qualidade. Esta determinação surge reafirmada na sequência do documento de Estratégia Nacional de Desenvolvimento Sustentável 2002, da responsabilidade do Ministério das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente e transversal aos diferentes sectores de actividade da economia portuguesa, onde se assume a necessidade de uma política de turismo integrada em termos ambientais, culturais, sociais e económicos. Este posicionamento é aderente a todo o cenário do III Quadro Comunitário de Apoio, cujo enquadramento é assegurado através do Plano de Desenvolvimento Regional 2000-2006 elaborado pelo Ministério do Planeamento. Neste Plano, o módulo de Intervenção Operacional Regional do Algarve é explícito na aposta da competitividade económica regional centrada no complexo das actividades do turismo e do lazer (Ministério do Planeamento, 1999: 160), onde certamente o produto golfe desportivo tem uma importante palavra a dizer, tal como é assumido pelos principais agentes regionais. De facto, a concretização no terreno desta integração é particularmente relevante na escala regional, sendo decisiva em regiões como o Algarve onde o turismo é o sector de actividade preponderante da matriz económica e social. Assim, perante o enquadramento nacional e face às especificidades regionais, cumpre destacar no Algarve em matéria de documentos estratégicos, cinco referências constantes no Quadro II.1, onde não só se obtém uma visão de conjunto do Algarve e das perspectivas de evolução, como importa desde já referir a explícita presença do golfe desportivo como um produto em destaque e considerado de elevado potencial económico. Quadro II.1. Documentos Estratégicos da Região do Algarve Documento estratégico Responsável Data MP 1999 Estratégia de Desenvolvimento do Algarve CCRA 2000 Plano Estratégico de Desenvolvimento da Região do Algarve AMAL 1999 Plano Regional de Turismo do Algarve Anos 2000 RTA 2001 Plano de Acção Plurianual do Turismo do Algarve 2002 - 2004 RTA 2002 Plano de Desenvolvimento Regional 43 Universidade do Algarve Consensual a todos os documentos, é a referência ao efeito de combate à sazonalidade (verificável) que o golfe introduz na economia do turismo regional, bem como a mais valia financeira e económica (estimada) face a outros produtos turísticos comercializados na região, em particular ao sol e praia. No texto de Estratégia de Desenvolvimento do Algarve elaborado pela Comissão de Coordenação da Região do Algarve em 2000, o golfe é apontado como um ponto forte da actividade económica, constituindo em conjunto com os estágios de alta competição, terceira idade e recuperação, uma das mais importantes linhas de acção na redução da sazonalidade temporal do turismo. Aliás, o alargamento da oferta de animação, congressos e incentivos e golfe, é mesmo apontado como um factor que traduz uma desvantagem em declínio referente à sazonalidade das actividades turísticas (CCRA, 2000: 46). Para tal, torna-se necessário dotar e qualificar a região com os equipamentos desportivos de apoio ao turismo e ao lazer, sendo frequentes neste documento as referências ao golfe, náutica de recreio e espaços para a alta competição, bem como programas de animação em eventos regulares. Quanto ao documento estratégico elaborado pela Associação de Municípios do Algarve (AMAL) em 1999, o Plano Estratégico de Desenvolvimento da Região do Algarve (PEDRA), também este é explícito ao afirmar que para além do produto sol e praia, tem-se afirmado desde finais da década de 60 um eixo de desenvolvimento turístico baseado num produto de inequívoco interesse para a região, não só pelo poder de compra que habitualmente lhe está associado mas, igualmente, pelo seu contributo para a atenuação da sazonalidade turística (AMAL, 1999: 45). Quanto à repartição territorial dos campos de golfe ao longo do território do Algarve, a apetência continuará a ser pelos espaços próximos do litoral (existe uma imagem do golfe associado ao cenário do litoral atlântico que está claramente assumida pelo produto). Ainda na opinião da AMAL, embora a maioria dos campos de golfe se situem a oeste de Faro, esperar-se-á um crescimento significativo a este, em particular nos concelhos de Castro Marim e Tavira, o que, segundo a AMAL, conduzirá a uma cobertura mais equilibrada da região. Esta tendência perspectivada em finais de 1999, poderá confirmar-se, existindo neste momento três campos de golfe no município de Tavira e um campo em Castro Marim. Configura-se, no entanto, uma forte intenção de acréscimo desta oferta, dado o conjunto de projectos existentes para o território do sotavento algarvio. Existem projectos para fazer crescer a oferta nos concelhos de Olhão, Tavira, Castro Marim, Vila Real de Santo António e Alcoutim, de acordo 44 Estudo Sobre o Golfe no Algarve com o levantamento efectuado em Fevereiro de 2002 pela Região de Turismo do Algarve junto das respectivas Câmaras Municipais. A concretizar-se este conjunto de projectos, ter-se-ia que a relação de distribuição territorial de campos de golfe entre o barlavento e o sotavento do Algarve tornar-seia mais equilibrada, sabendo-se porém que desde a entrada do projecto nos serviços das autarquias até à sua efectiva construção e entrada em funcionamento, existe um processo de validação e avaliação, que pode inclusivamente implicar alguns anos de estudo para a (não) aprovação do projecto. Gráfico II.2. Campos de Golfe em Funcionamento e Projectos Existentes no Algarve, Dezembro de 2001 30 n.º de campos (18 buracos) 25 20 15 10 5 0 Barlavento Existentes Sotavento Em projecto Fonte: DRAOT, Direcção Regional de Ordenamento do Território, 2001 Refira-se que os projectos para o barlavento do Algarve estão particularmente concentrados no concelho de Silves e concelho de Loulé, sendo que neste último o quinto campo de Vilamoura encontra-se em construção e um outro campo de 27 buracos na zona do barrocal está em apreciação pelo Instituto de Conservação da Natureza. É perante esta dinâmica que o planeamento estratégico sectorial para o turismo no Algarve, vem atribuindo desde 1994 uma particular atenção ao produto golfe, dotando-o de um programa de desenvolvimento específico e de acções no domínio da promoção. Actualmente, o plano sectorial por excelência consiste no Plano Regional de Turismo do Algarve Anos 2000, elaborado pela Região de Turismo do Algarve e publicado em 2001. Este Plano surge 45 Universidade do Algarve na continuidade de um primeiro documento estratégico, o Plano Regional de Turismo do Algarve 1995-1999, o qual acompanhou o período de execução do II Quadro Comunitário de Apoio. O Plano Regional de Turismo do Algarve constitui um plano estratégico e de acção responsável quer pela execução de medidas directamente ligadas com o sector turístico, quer pelo acompanhamento das acções exógenas ao sector. De acordo com a Região de Turismo do Algarve, a implementação deste instrumento tem por objectivo a requalificação e sustentabilidade do turismo algarvio, tendo em vista o progresso e a competitividade do sector e da região. Num balanço da execução do Plano entre 1995-1999, o golfe insere-se no terceiro domínio estratégico, denominado por “qualificação e diversificação da oferta/produtos”, sendo mesmo o primeiro programa em destaque neste domínio, após o referente ao já designado produto âncora sol e praia. O golfe surge também referenciado no quinto domínio estratégico, “promoção turística”. De acordo com a avaliação efectuada pela equipa do PRTA Anos 2000, em RTA (2001: 64-65): Quadro II.2. Domínio estratégico 3. O Golfe na Execução Física do PRTA 95-99 Programas 3.2. Qualificação e Desenvolvimento diversificação da do Golfe oferta/produtos Medidas 3.2.1. Dinamização da oferta integrada de golfe: 3.2.2. Incentivo à manutenção da qualidade da oferta de golfe: 5. 5.2 5.2.2. Promoção turística Planeamento integrado de marketing Melhoria da coord.. entre os agentes envolvidos na promoção do Algarve: Fonte: RTA, Região de Turismo do Algarve, 2001 46 Avaliação Qualitativa Considera-se importante continuar a dinamizar a oferta integrada de golfe, uma vez que este se tem revelado o produto turístico mais eficaz no combate à sazonalidade. Deverão ser dinamizadas actividades complementares do golfe, tal como previsto no PRTA. Os incentivos financeiros existentes, como foi o caso de SIFIT permitiram remodelar alguns campos de golfe da região contribuindo para o desenvolvimento da modalidade. O grau de execução desta Medida pode considerar-se elevado. Encontram-se em execução acções conjuntas de promoção, nomeadamente no que diz respeito à promoção do golfe e de locais de especial interesse. A medida deverá ter continuidade. Estudo Sobre o Golfe no Algarve Os incentivos que foram criados para desenvolver o golfe (programa 3.2) deram origem a vários investimentos, nomeadamente a construção de novas estruturas, não sendo apresentado o volume total de investimento executado no programa neste período de tempo. Conhece-se no entanto o valor global do domínio estratégico 3, cuja execução financeira atingiu os 11,8 milhões de contos, sendo as três maiores origens de financiamento público o PROA (2,5 milhões de contos), seguido do PIDDAC (1,5 milhões de contos) e Fundo de Turismo (1,3 milhões de contos). Quanto à promoção turística do sector, o PRTA regista uma despesa de 1,4 milhões de contos, aos quais devem ser acrescidos os gastos promocionais de outras entidades públicas e privadas (ICEP, entre outros). Não sendo exclusivamente centrada no golfe, é no entanto visível o seu destaque nas campanhas promocionais e acções de marketing efectuadas. Na vigência do III Quadro Comunitário de Apoio, mantêm-se as acções com incidência sobre o golfe a desenvolver no âmbito do Plano Regional de Turismo Anos 2000. Cumpre destacar que o golfe não só mantém a sua posição em termos da qualificação e diversificação do destino turístico Algarve, como surgem detalhadas um conjunto de acções que vêm consolidar este produto na estratégia de desenvolvimento regional, com particular atenção para as suas dinâmicas e incidências económicas e ambientais. Quadro II.3. Domínio estratégico 1. O Golfe no PRTA Anos 2000 Programas 1.2 Enquadramen Melhoria das to da oferta infraestruturas e turística equipamentos 3. 3.2. Medidas Acções 1.2.2 Desenvolvimento da investigação aplicada e formação técnica no âmbito do Melhoria do tratamento e reutilização das águas sistema de águas residuais (para rega de golfe, jardins, residuais: espaços públicos, etc.) 3.2.1. Qualificação e Desenvolvimento Dinamização da diversificação do Golfe oferta integrada de golfe: da oferta /produtos (1) Incentivo ao desenvolvimento de complexos turísticos integrando campos de golfe; (2) Desenvolvimento das actividades complementares do golfe; (3) Criação de programas de golfe incluindo diferentes opções. 3.2.2. Incentivo à manutenção da qualidade da oferta de golfe: Incentivo à criação de recuperação dos campos de golfe. 47 Universidade do Algarve Quadro II.3. Domínio estratégico O Golfe no PRTA Anos 2000 Programas Medidas 5. 5.2 5.2.2. Promoção turística Planeamento integrado de marketing Melhoria da coord. entre os agentes envolvidos na promoção do Algarve: Acções Sem referência explícita ao produto golfe, este está forçosamente presente nas acções de coordenação dos agentes envolvidos, adequação e requalificação dos materiais promocionais (acção nova), entre outras. Fonte: RTA, Região de Turismo do Algarve, 2001 O financiamento das acções sobre o produto golfe resultam maioritariamente de medidas endógenas ao turismo, isto é, da actuação de entidades com responsabilidades directas na gestão do sector (Direcção Geral do Turismo, Instituto de Apoio e Financiamento ao Turismo,...), existindo ainda um conjunto de incentivos financeiros dirigidos à actividade privada. No PRTA Anos 2000, o domínio estratégico 3 “qualificação e diversificação da oferta/produtos” tem orçamentados 50,7 milhões de contos para 2000-2006, sendo que a fonte de financiamento fundamental é o Programa Operacional da Economia. A medida 3.2 “desenvolvimento do golfe” tem orçamentado 1 milhão de contos, valor cuja dimensão final dependerá em muito das parcerias público/privadas a efectuar. Finalmente, em termos de actividades/eventos promocionais, refira-se que o Plano de Acção Plurianual do Turismo do Algarve 2002 – 2004, também elaborado pela Região de Turismo do Algarve, define a concretização de eventos no âmbito das acções de enquadramento definidas pelo PRTA. Uma vez mais o papel do produto golfe é destacado como instrumento de atenuação da sazonalidade do mercado turístico regional (RTA 2002: 29), particularmente pelo contraciclo que verifica face à época média/baixa da hotelaria global, bem como pelos efeitos indirectos positivos sobre o ordenamento e desenvolvimento dos núcleos receptores. De facto, é referido que se por um lado os campos de golfe são utilizados como factores estruturantes e promocionais de urbanizações turísticas de qualidade, por outro, constituem um potencial factor de atracção e animação. O “espectáculo” associado ao golfe tem, actualmente, um efeito gerador de notoriedade e de qualificação da imagem do destino turístico, com repercussões mediáticas a nível mundial (RTA 2002: 75). Do conjunto dos eventos previstos para a promoção da notoriedade e da qualificação da oferta do destino, há a destacar, em primeiro lugar, o início dos desenvolvimentos necessários à captação a 48 Estudo Sobre o Golfe no Algarve longo prazo de um grande evento mundial na área do golfe, especificamente a proposta de organização em 2016 da Ryder Cup. A curto prazo e no período 2002-2004, cumpre referenciar os seguintes eventos de impacte nacional/internacional (RTA 2002: 89-91), resumidos no quadro seguinte. Quadro II.4. Acções Eventos de Golfe no Algarve de Impacte Nacional/Internacional Objectivos Fontes Financiamento Estimativa Orçamental (euros) 2000 2003 2004 Total Algarve Open Promover o golfe a de Portugal nível nacional e internacional desporto todo ano. PIQTUR Open Tap em Promover o Algarve Golfe a nível Internacional RTA - apoio 5.000 5.200 5.400 15.600 Presidente’s Cup RTA - apoio 3.800 4.000 4.200 12.000 Promover o Algarve a nível Internacional. 1.000.000 1.040.000 1.081.600 3.121.600 RTA Fonte: RTA, Região de Turismo do Algarve, 2002 A realização deste conjunto de eventos é mesmo apontada como uma potencialidade do produto, a par da amenidade climática ao longo do ano, a qualidade do alojamento e dos campos, surgindo como contraponto (estrangulamento), a elevada concentração no mercado britânico e a existência de preços mais baixos em regiões concorrentes. Sobre este último aspecto permitimo-nos colocar um ponto de interrogação, pois uma eventual política de baixos preços não será consentânea com uma região que recebe o Open de Portugal, ou que tem nos seus objectivos de longo prazo a organização da Ryder Cup, entre outros aspectos de carácter mais estrutural relacionados com diferenciação e não massificação do destino. Note-se também que nos últimos anos a pressão sobre os empresários, mas também a sua própria disponibilidade para em parceria com o sector público envolverem-se na promoção externa do produto golfe – o Algarve como destino de golfe – materializou-se no designado Plano de Promoção Conjunta do Golfe no Algarve, em que o sector privado participa com metade dos investimentos. Se bem que nas grandes cadeias do sector a promoção pode ser assegurada por elas próprias, a ideia de um destino no seu todo como área de resort consolidada e qualificada, assente numa matriz empresarial onde para além dos grandes grupos existem muitas pequenas empresas, necessita que o Estado seja o catalisador duma acção de promoção global mas cujos resultados implicam a inclusão de uma componente comercial – privada – que forçosamente tem que ser parte integrante em todas as fases do processo. 49 Universidade do Algarve Como nota conclusiva da análise do golfe nos diferentes documentos de estratégia para a região do Algarve, referira-se que no estudo da imagem do destino Algarve na óptica do turista, o desempenho dos atributos associados à escolha do Algarve como destino de férias, tem no golfe um importante destaque (Universidade do Algarve, 1998). De facto, os principais mercados de origem do turismo no Algarve – Reino Unido, Alemanha e Holanda – são unânimes em considerar o golfe como um atributo positivo na escolha do Algarve como destino. Ao associarmos que 53% das dormidas nos meios de alojamento classificados no Algarve em 2002 são preenchidas por estes três mercados (AHETA, 2002) e mesmo sem entrar em consideração com as segundas residências, temse de facto um potencial de consolidação do produto no destino a que, felizmente, os documentos de estratégia analisados conferem o devido posicionamento e relevância. II.1.2. IMPACTOS DIRECTOS E INDIRECTOS A análise dos impactes económicos do golfe na economia do Algarve, resultam da análise dos questionários efectuados à procura (praticantes) sobre os seus comportamentos económicos dentro e fora do campo de golfe enquanto turistas na região, bem como do cruzamento com dados da oferta relativos a preços praticados aos diferentes segmentos, número de campos existentes, entre outras. Está em causa a quantificação do peso do golfe na economia regional, bem como os efeitos (multiplicadores) que gera sobre as restantes áreas do sector turístico, como o alojamento e a restauração, entre outros. Tendo como base os números da oferta do produto golfe mensurados através do número de campos e buracos entre 1999 e 2002, e os dados da procura obtidos nos 600 questionários efectuados no presente estudo em 2002, são analisadas um conjunto de variáveis que permitem avançar para um valor que pode ser considerado como o padrão mínimo de despesa média que um turista de motivo golfe efectua no Algarve. Rasteada a despesa, terá de existir por detrás toda uma fileira de produção que coloca os bens e serviços no mercado. À semelhança de quase todos os produtos do mercado turístico, o golfe não foge às regras específicas de: simultaneidade de produção e consumo, obrigatoriedade de deslocação do consumidor até ao local de produção e impossibilidade de constituição de stocks. A volta de golfe é um produto que todos os dias perece e que todos os dias é produzido. Tendo por objectivo identificar e quantificar as despesas efectuadas do turista de golfe no âmbito desta actividade no Algarve, são contempladas nesta fase do estudo as despesas sobre os bens e serviços transaccionados no campo (a volta) e no mercado imediatamente próximo e intimamente relacionado, isto é, os principais bens e serviços que se comercializam junto ao jogo: alimentação e 50 Estudo Sobre o Golfe no Algarve bebidas, aluguer de material, formação/aulas e um conjunto de outras despesas incluída na categoria de diversos. Tem-se assim, desde já, um volume de impactes directos (volta) e um volume de impactes indirectos sobre outros bens e serviços cuja complementaridade surge com naturalidade no interior dos campos do golfe. Os dados de partida do modelo de análise económica consistem no cruzamento entre a variável física de estruturação da oferta (n.º de campos e buracos) e a correspondente variável da procura (n.º de voltas efectuadas), cujos dados se encontram resumidos no Quadro seguinte: Quadro II.5. Dados Gerais de Partida N.º total de campos (equivalentes a 18 buracos) N.º total de voltas efectuadas / ano N.º médio de voltas por jogador N.º total de jogadores / ano 1999 2000 2001 2002 Fonte 19,5 21 24 27,5 (a) 837.853 877.007 904.623 913.090 4,5 4,5 4,5 4,5 186.190 194.890 201.027 202.909 (a) (b) (b) Fonte: (a) Algarve Golfe, 2002; (b) Universidade do Algarve, 2003 Nota: Em itálico: dados estimados. Aceitando-se a permanência do valor médio de voltas por jogador, verifica-se que o acréscimo mais recente entre 1999 e 2002 do número de campos (equivalentes a 18 buracos), significou um aumento de cerca de 41% no conjunto dos quatro anos, sendo que o acréscimo do número total de voltas vendidas nesse período também cresceu, mas a um nível mais pequeno, cerca de 9,4% para o mesmo espaço temporal. Ao recuarmos no tempo, verifica-se que esta tendência de crescimento em ritmos divergentes é um fenómeno recente, cujas implicações económicas têm que ser devidamente interiorizadas por todos os agentes envolvidos. De facto, em termos de variações marginais anuais entre 1996 e 2002, representadas no Gráfico II.3, é possível detectar 4 zonas de comportamentos distintos: A, B, C e D. Assim, verifica-se uma primeira fase de crescimento até ao ano de 1998, onde o número de campos cresce a um ritmo linear de cerca de 2%, enquanto o número de voltas anual cresce a um nível muito superior, chegando a atingir os 10,4% em 1998. 51 Universidade do Algarve Gráfico II.3. Variações Marginais Anuais do Número de Campos e Voltas: Algarve, 1996 – 2002 35% 30% variação anual 25% 20% 15% 10% 5% B A D C 0% 1996/1997 1997/1998 1998/1999 Campos golfe 1999/2000 2000/2001 2001/2002 Voltas vendidas golfe Fonte: Algarve Golfe, 2003; Universidade do Algarve, 2003 Após 1998 a taxa de crescimento anual do número de campos reforça-se, quase atingindo os 8% de 1999 para 2000. No entanto, esta fase demonstra uma importante inflexão do comportamento da procura, isto é, embora o número de voltas continue a crescer anualmente, cresce pela primeira vez menos que proporcionalmente, demarcando-se assim claramente do comportamento da oferta, dado que esta se mantém marginalmente crescente. Numa fase seguinte, sensivelmente de 1999 a 2001, o comportamento de retracção do crescimento da procura acentua-se ainda mais, com a taxa de crescimento do número de voltas em 2001 face a 2000 a situar-se ligeiramente abaixo do ponto percentual. Neste mesmo período o crescimento do número de campos também abranda, registando taxas de crescimento anuais praticamente iguais à procura. No entanto, após 2001, o crescimento anual do número de campos “explode”, atingindo em 2002 face a 2001, valores acima dos 14%. Neste mesmo período a procura assume alguma recuperação, voltando a assumir um ritmo positivo de crescimento, mas com um intervalo face à oferta que, a manter-se, poderá ser preocupante em termos de perspectivas futuras para o desenvolvimento do mercado do produto golfe, dada a potenciação de uma oferta que a manter-se, poderá não ter, nas actuais condições internas e externas, ritmos de procura equivalentes. Este é um aspecto que impor- 52 Estudo Sobre o Golfe no Algarve tará detalhar em termos futuros, não só no sentido de identificar causas endógenas e exógenas do comportamento da procura, mas também monitorizar de forma prospectiva os possíveis impactes na estrutura de negócio e na indústria do golfe na região, nomeadamente políticas de preços e produção na óptica dos benefícios e mais valias regionais. Em termos de preços e centrando a análise nos comportamentos mais recentes – 1999 a 2002 – identificados pelos questionários realizados pela Universidade do Algarve no âmbito do presente estudo, existe uma tendência positiva mas que face ao explicitado no parágrafo anterior implica questionar a sua sustentabilidade futura. É possível identificar em termos de preços médios praticados pelas empresas, um crescimento global na ordem dos 7% a 9% ao ano para os preços médios ao balcão e operadores, bem como um crescimento superior para sócios que quase atinge os 20% ano durante este período dos últimos 3 anos. Claramente acima da taxa de inflação e num período que já incorpora a tendência de valorização do euro face à libra (moeda dominante da procura), esta evolução positiva traduz uma valorização económica do recurso golfe que importa assinalar e procurar manter interna às estratégias de desenvolvimento do produto na região. Recaindo deste ponto em diante a análise sobre as componentes dos gastos dos turistas, a metodologia seguida permite disponibilizar um conjunto de informação sobre estes gastos numa óptica directa, isto é sobre o campo de golfe, mas também numa perspectiva mais abrangente e associada, isto é, as despesas realizadas fora do campo de golfe mas indirectamente associadas, dado que completam a estrutura de despesas do turista durante a sua permanência. Numa óptica agregada referente ao total dos gastos dos cerca de 200.000 praticantes que concretizam a procura de golfe no Algarve, a tabela seguinte resume as principais conclusões: 53 Universidade do Algarve Quadro II.6. Gastos Directos e Indirectos Agregados do Golfe por Tipo de Despesa. Algarve: 1999/2002 Tipo de Despesa 1999 2000 euros % euros 64.303.133 24,0% 73.592.527 2001 % euros 2002 % euros % Directa: Campo de golfe Despesa total no campo de golfe 24,9% 79.344.450 25,3% 86.706.144 25,7% Indirecta: Fora do campo de golfe por tipo de gasto Alojamento 71.545.126 26,7% 77.761.669 26,3% 82.202.057 26,2% 87.826.548 26,0% Transportes internos 16.596.515 6,2% 18.038.583 6,1% 19.068.632 6,1% 20.373.360 6,0% Alimentação e bebidas 31.954.201 11,9% 34.730.696 11,8% 36.713.906 11,7% 39.225.973 11,6% Recreio e cultura 35.410.602 13,2% 38.487.423 13,0% 40.685.152 13,0% 43.468.942 12,9% Bens e serviços diversos 48.617.580 18,1% 52.841.953 17,9% 55.859.362 17,8% 59.681.413 17,7% Despesa pelo total de gastos fora do campo 204.124.024 76,0% 221.860.324 75,1% 234.529.109 74,7% 250.576.237 74,3% Total Directa + Indirecta 268.427.157 100,0% 295.452.851 100,0% 313.873.559 100,0% 337.282.381 100,0% Fonte: Universidade do Algarve, 2003 Tomando como referência para análise o ano de 2002, constata-se em primeiro lugar que o golfe é responsável por uma receita total na região de cerca de 337 milhões de euros, a qual reparte-se em 25,7% de gastos dentro do próprio campo de golfe, mas sobretudo com um efeito induzido sobre outros domínios do sector turístico (alojamento, transportes internos, alimentação e bebidas, entre outros) que importa assinalar, isto é, 74,3% das despesas são concretizadas fora do campo, em efeitos indirectos sobre os domínios assinalados. Para além desta constatação, deve ainda retirar-se que quando confrontada a despesa realizada pela comercialização do produto golfe versus o total de gastos atribuídos ao turismo, é possível concluir que a indústria do golfe quando mensurados os seus impactos directos e indirectos, representa cerca de 8,5% das receitas totais da NUT II Algarve em matéria de turismo para os dados consolidados de 2001. Este é um dado a todos os níveis assinalável para um produto que, como referido, tem os seus picos de procura fora da época alta de veraneio. 54 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Quadro II.7. Percentagem dos Gastos de Golfe no Total de Gastos Atribuídos ao Turismo na NUT II Algarve 2001 euros Total de Gastos dos Turistas 2002 % euros % (a) 3.739.000.000 100,0% (b) 3.949.718.081 100,0% Gastos Golfe Directos 79.344.450 2,1% 86.706.144 2,2% Gastos Golfe Indirectos 234.529.109 6,3% 250.576.237 6,3% Total Gastos Golfe (directos + indirectos) 313.873.559 8,4% 337.282.381 8,5% Fonte: (a) DGT, Direcção Geral do Turismo, Boletim de Conjuntura nº 54, Dezembro 2002; (b) Universidade do Algarve, 2003 (valores estimados) Acresce que a maioria deste impacto, isto é, 6,3% dos 8,5%, acontece fora do campo de golfe, nos já comentados efeitos indirectos sobre outros gastos turísticos, nomeadamente o alojamento, transportes internos, alimentação e bebidas, entre outros. Nesta sequência, é também pertinente analisar a componente do gasto médio diário do turista de golfe versus o turista genérico que visita o Algarve, na procura de detectar diferenciações entre este segmento específico e a despesa média que regularmente ocorre no Algarve por cada turista/dia. Tomando como referência o ano de 2001, para o qual já se encontram publicados os dados da Direcção Geral de Turismo, verifica-se que na NUT II Algarve o gasto médio por turista/dia se situa nos 91,78 euros, abaixo da média nacional que é de 98,76 euros para o mesmo ano. Tendo presente os valores obtidos pela Universidade do Algarve para o turista de golfe, verifica-se que em 2001 o gasto médio diário total (directo e indirecto), atinge os 164,13 euros, logo cerca de 1,74 vezes superior ao gasto médio do turista genérico no Algarve e sempre superior à média nacional. A importância destes números para a economia do turismo regional é por demais evidente. 55 Universidade do Algarve Quadro II.8. Gasto Médio por Turista de Golfe - Algarve Tipo de Despesa 1999 2000 euros % euros 2001 % euros 2002 % euros % Directa: Campo de golfe Despesa total no campo de golfe 35,27 24,0% 38,73 24,9% 41,49 25,3% 45,08 25,7% Indirecta: Fora do campo de golfe por tipo de gasto 39,24 26,7% 40,93 26,3% 42,98 26,2% 45,66 35,0% 9,10 6,2% 9,49 6,1% 9,97 6,1% 10,59 8,1% Alimentação e bebidas 17,53 11,9% 18,28 11,8% 19,20 11,7% 20,39 15,7% Recreio e cultura 19,42 13,2% 20,26 13,0% 21,27 13,0% 22,60 17,3% Bens e serviços diversos 26,66 18,1% 27,81 17,9% 29,21 17,8% 31,03 23,8% Despesa pelo total de gastos fora do campo 111,95 76,0% 116,77 75,1% 122,64 74,7% 130,28 74,3% Total Directa + Indirecta 147,22 100,0% 155,51 100,0% 164,13 100,0% 175,36 100,0% Alojamento Transportes internos Fonte: Universidade do Algarve, 2003 Concluindo, tem-se assim que não só o golfe contribui com 8,5% dos gastos totais do turismo na região, como estes gastos ocorrem maioritariamente fora da época alta de veraneio e através de um segmento de turistas cujo gasto diário é 1,74 vezes superior à média regional. Trata-se de um produto cujos efeitos de comercialização não são fechados sobre si próprio, pois como expresso através do Quadro II.8, apenas cerca de 1/3 das despesas são directamente afectas ao campo de golfe, resultando os restantes 2/3 em despesas indirectas sobre os restantes domínios da actividade turística. O peso económico do produto golfe é claramente demonstrado por estes números, cuja importância para o Algarve importa preservar e potenciar de forma sustentável, tendo inclusivamente presente aspectos de dinamismo de outras regiões concorrentes, como é o caso das Ilhas Baleares que se apresenta no ponto seguinte. II.1.3. CONFRONTO COM REGIÕES CONCORRENTES: O CASO DAS ILHAS BALEARES O desenvolvimento do golfe nas Ilhas Baleares tem sido configurado pelas autoridades locais e regionais como uma das estratégias de posicionamento das Ilhas como um destino de qualidade, procurando realizar esforços para captação de segmentos de turistas com maior valor acrescentado que os consignados ao tradicional produto de sol e praia (Confederación d’Associacion Empresarials de Baleares, 2002). Em tudo semelhante à região do Algarve, está presente o objectivo de complemen- 56 Estudo Sobre o Golfe no Algarve tar e diversificar a actividade turística, com uma especial incidência na atenuação da sazonalidade e dos respectivos efeitos negativos. O Quadro II.9 estabelece algumas das comparações que podem ser efectuadas entre estes dois destinos, mediante as informações recolhidas pela presente investigação da Universidade do Algarve e da consulta dos relatórios produzidos pela referida confederação empresarial das Baleares para o Govern de les Illes Baleares e Institut Balear del Turisme, em 1997 e 2001. De imediato ressalta que o crescimento do número de campos de golfe (oferta) tem sido quase homogéneo entre as duas regiões, embora o ritmo de aumento do número de voltas vendidas (procura) se verifique ser superior nas Ilhas Baleares. Tendo como referência para análise o ano de 2001, este facto pode estar eventualmente associado a um potencial de jogadores por campo ainda por preencher nas Baleares (se for essa a estratégia a seguir), bem como a uma estada média do turista de golfe ligeiramente mais elevada nas Baleares, isto é 9,9 dias contra 9,3 dias do golfista no Algarve, observando-se ainda que os gastos médios diários do turista de golfe são também superiores aos verificados no Algarve, respectivamente 200,20 euros/dia nas Baleares e 164,13 euros/dia no Algarve. Quadro II.9. Alguns Indicadores de Comparação de Golfe Baleares - Algarve Campos de golfe Voltas total Dias de prática de golfe (assumindo 1dia=1volta) Voltas por residentes Turistas de golfe Estada média do turista de golfe (dias) Destinos considerados concorrentes Ano Baleares Algarve 1987 8 9 2001 21 24 1995 285.000 539.487 2001 605.000 904.769 1997 7,1 --- 2001 5,7 4,5 1997 85.000 --- 2001 150.000 --- 1997 46.806 --- 2001 79.270 201.060 1997 10,28 --- 2001 9,9 9,3 1997 França, Costa do Sol e Algarve 2001 França, Costa do Sol, Canárias e Algarve 57 Universidade do Algarve Quadro II.9. Alguns Indicadores de Comparação de Golfe Baleares - Algarve Gastos totais dos turistas de golfe (euros) Gasto médio diário do turista de golfe (euros) Gasto médio diário do turista geral (euros) Ano Baleares Algarve 1997 89.414.286 --- 2001 187.770.000 313.873.559 1997 165,71 --- 2001 200,20 164,13 1997 --- --- 2000 73,59 91,78 Fonte: Confederación d’Associacion Empresarials de Baleares, 2002; Universidade do Algarve, 2003 Num indicador possível de receita económica regional gerada por campo (directa mais indirecta), tem-se que em 2001 os 21 campos das Baleares geraram 187,7 milhões de euros de gastos na região (média de 8,9 milhões por campo), enquanto os 24 campos do Algarve geraram 306,1 milhões de euros (média de 12,75 milhões por campo), facto que só pode ser explicado pelo maior número de jogadores por campo no Algarve versus Baleares, respectivamente 3.775 jogadores contra 8.936 jogadores. Esta maior rentabilidade económica e social por jogador no destino concorrente ao Algarve como é o caso das Ilhas Baleares, constitui um indicador que importa ter presente em cenários de análise da rentabilidade económica e social de novos campos no Algarve, cujo espaço e oportunidade económica existem, mas que importa questionar de um ponto de vista do crescimento marginal dos benefícios líquidos para a região e respectivos custos de oportunidade. Deve-se apontar que o benefício económico e social líquido para a região é perspectivado mais através do benefício obtido por jogador e menos pela observação do benefício por campo. A resolução deste eventual paradoxo entre as perspectivas económica e empresarial aqui presentes, desempenhará um papel central na elaboração de cenários de desenvolvimento do golfe no Algarve âmbito da presente investigação, a debater no volume II. Por fim, é importante referir que este tipo de informação sobre as Ilhas Baleares tem sido produzido de forma regular numa parceria público/privado, quer para o golfe quer, por exemplo, para o turismo náutico, permitindo desta forma uma monitorização sobre a evolução do produto e dos seus impactes na região que, admite-se, deverá ser em termos de investigação um exemplo para o Algarve e respectivos agentes com responsabilidades no turismo e em particular no produto golfe desportivo. 58 Estudo Sobre o Golfe no Algarve II.1.4. INDICADORES DE MEDIDA DE IMPACTOS REGIONAIS Quadro II.10. Matriz de Indicadores de Enquadramento Económico do Sector do Turismo Indicadores a Definição (valores anuais) Relevância b Valor Tipo c Gastos atribuídos ao turismo em Portugal Despesa total atribuída ao turismo * 6.119.000.000 € Gastos atribuídos ao turismo Despesa total atribuída ao turismo *** 3.739.000.000 € Movimento passageiros no Aeroporto de Faro Número de passageiros desembarcados no Aeroporto de Faro ** 4.658.206 Dormidas em todos os meios de alojamento classificado Total de dormidas em todos os meios de alojamento classificado ** 13.900.192 Tempo de estada do turista (dias) Estada média do turista ** 7,2 dias d Despesa média por turista/dia Despesa média por turista/dia (euros) ** 91,78 € Fonte: Universidade do Algarve, 2003 a) Quando não é realizada qualquer referência geográfica, o indicador reflecte-se sobre a NUT II Algarve. b) * Relevância média, ** Relevância elevada, *** Relevância muito elevada c) Valores referentes a 2001 d) Estada média dos visitantes residentes no Reino Unido Quadro II.11. Matriz de Indicadores de Enquadramento Económico do Golfe Indicadores a Relevância b Valor Tipo c Campos de golfe no país Número total de campos no país ** 59 Campos de golfe na região Número total de campos no Algarve *** 28 Jogadores nacionais em Portugal Número total de jogadores nacionais (FPG) ** - Total de jogadores Número total de jogadores *** 201.060 Voltas vendidas Número total de voltas vendidas *** 904.769 Média de voltas por jogador Número médio de voltas por jogador ** 4,5 Voltas vendidas a nacionais Número de voltas vendidas a jogadores nacionais * - Total de jogadores por campo Número total de jogadores por campo ** 8 272 Definição (valores anuais) Fonte: Universidade do Algarve, 2003 a) Quando não é realizada qualquer referência geográfica, o indicador reflecte-se sobre a NUT II Algarve. b) * Relevância média, ** Relevância elevada, *** Relevância muito elevada c) Valores referentes a 2001 59 Universidade do Algarve Quadro II.12. Matriz de Indicadores dos Impactes Económicos do Golfe Indicadores a Definição (valores anuais) Relevância b Valor Tipo c Despesa total dos golfistas fora dos campos de golfe (indirecta) Despesa indirecta total dos golfistas fora do campo de golfe (euros) *** 234.529.109 € Despesa total atribuída ao golfe (directa + indirecta) Despesa total (directa + indirecta) atribuída à permanência do turista de golfe *** 313.873.559 € Percentagem da despesa Percentagem da despesa total afecta fora fora do campo em do campo de golfe (indirecta) em relação relação ao total à despesa total de permanência *** 74,7% Percentagem da despesa total atribuída ao golfe (directa + indirecta) em relação aos gastos totais atribuídos ao turismo Percentagem da despesa total por motivo golfe (directas + indirectas) em relação ao total de gastos dos turistas na NUT II Algarve *** 8,4% Despesa média por golfista/dia fora do campo de golfe Despesa média (indirecta) por golfista/dia fora do campo de golfe *** 122,64 € Despesa média total por Gasto médio diário por turista de golfe golfista/dia (euros) *** 164,13 € Despesa média para o golfista com viagem Gasto Médio em packages por pessoa organizada **** 1.011 € Fonte: Universidade do Algarve, 2003 a) Quando não é realizada qualquer referência geográfica, o indicador reflecte-se sobre a NUT II Algarve. b) * Relevância média, ** Relevância elevada, *** Relevância muito elevada c) Valores referentes a 2001 II.2. INCIDÊNCIAS AMBIENTAIS O golfe, enquanto actividade desportiva especializada (Decreto-Lei n.º 317/97, de 25 de Novembro) constitui, de entre os jogos que utilizam o solo como suporte, aquele que provavelmente terá uma interacção mais forte com o ambiente (Stubbs, 1997). O reconhecimento da significância de alguns impactes potenciais do golfe no ambiente tem motivado, nos últimos anos, uma resposta das entidades reguladoras e dos empresários do sector. Por um lado, na legislação nacional definiu-se um processo de licenciamento suportado pela participação de diversas entidades, contemplando a eventual obrigatoriedade de proceder a um processo formal de Avaliação de Impacte Ambiental de novos projectos de golfe. Paralelamente, os gestores de campos de golfe, começaram a desenvolver novas estratégias de sustentabilidade, aceitando a ideia de que 60 Estudo Sobre o Golfe no Algarve um conhecimento adequado dos aspectos de incidência ambiental é fundamental para uma correcta gestão dos campos de golfe. O progresso na aplicação de diversos instrumentos voluntários, tais como Sistemas de Gestão Ambiental (e.g. ISO 14001 e o Sistema Comunitário de Ecogestão e Auditoria) e Programas de Gestão Ambiental (e.g. Audubon; Comprometidos com o Ambiente e Green Globe 21), demonstra que o sector se encontra sensibilizado para a necessidade de contrariar as pressões sobre os stocks de capital natural (i.e. os “reservatórios” de recursos ambientais, ecossistemas e seus serviços) dos quais depende de forma directa. A avaliação integrada das interacções entre o ambiente e o golfe, nas fases de licenciamento, construção, exploração e desactivação dos campos, permitiu desenvolver um quadro de indicadores ambientais para o golfe no Algarve. Considerou-se ainda como fundamental para a análise das incidências ambientais do sector, integrar a informação sobre as pressões resultantes das intenções de localização de novos campos de golfe nos instrumentos de gestão territorial, com a caracterização do estado dos campos de golfe actuais e com as respostas dos gestores dos campos face à necessidade de melhorar, de forma contínua, o seu desempenho ambiental. II.2.1. TIPOLOGIA DOS IMPACTES AMBIENTAIS DA ACTIVIDADE DO GOLFE Num projecto de campo de golfe, podem-se distinguir, essencialmente, seis tipos distintos de áreas: área de jogo (inclui tees, greens, surroudings, fairways, roughs, bunkers e lagos), campo de prática, Clubhouse e zonas de comércio e lazer (incluindo restauração, armazém e primeiros-socorros), infra-estruturas de suporte à manutenção dos campos de golfe, caminhos e acessos para buggies e parques de estacionamento (US EPA, 1999). Recentemente, diversas organizações a nível mundial (e.g. United States Environmental Protection Agency, European Golf Association, United States Golf Association, World Tourism Organization e United Nations Environment Programme) realizaram estudos sobre os impactes ambientais do golfe. Verifica-se que as principais categorias de impacte associadas a projectos de campos de golfe, sem prejuízo de outras incidências específicas de cada local, incluem as seguintes categorias de impacte ambiental: clima, geologia, solos, topografia, hidrogeologia, recursos hídricos superficiais, resíduos, qualidade do ar, ruído, ecologia, paisagem, património construído e arqueológico, orde- 61 Universidade do Algarve namento e uso do solo e factores socio-económicos (Stubbs, 1995a; Stubbs, 1995b; Smith, J., 1996; EPA, 1999). Apresenta-se no Quadro II.10, uma matriz-síntese dos principais impactes ambientais potencialmente gerados, em cada uma destas categorias, pelas operações das fases de construção, exploração/manutenção e desactivação de um campo de golfe (AEA, 1993; Stubbs, 1995a; Stubbs, 1995b; Smith, J., 1996; EPA, 1999; Ecossistema/Mãe d’Água, 2001; Ecossistema, 2001; Ecossistema/IBER BIO, 2002; NEMUS, 2002; UNEP, 2003). Quadro II.13. Matriz-síntese da Tipologia de Impactes Ambientais de um Campo de Golfe Categorias de Impacte Fase de construção Clima Fase de exploração Fase de Desactivação Haverá impacte, embora pouco relevante em termos de microclima, devido à irrigação dos campos de golfe e à instalação dos lagos. O fim desta actividade, implica a cessação da irrigação dos campos, podendo alterar novamente o microclima desta área. Geologia Resultam da movimentação, escavação e aglomeração de terras; modelação das diversas áreas do campo, remoção do coberto vegetal; construção de caminhos e melhoramento de acessos; implementação da rede de rega e de drenagem e infraestruturas associadas. Em áreas mais permeáveis, a irrigação dos campos e a ocorrência de precipitação pode potenciar a transferência de contaminantes por perculação entre as diferentes camadas do solo. As operações associadas à fase de desactivação, geralmente não provocam alterações significativas neste descritor. Solos A maioria das operações efectuadas Existência de ferti-irrigação. e operações de intervencionam directamente o solo. perfuração (vertidrain, slitting e topdressing) Estas operações incluem a desmatação, a limpeza dos terrenos, a escavação, movimentação de terras e modelação das diversas áreas de jogo. Outras operações passíveis de comportar impactes são a fumigação das áreas a semear e a fertilização do solo antes da sementeira. Operações semelhantes à fase de construção, se forem retiradas as infraestruturas do campo de golfe. Outra operação a considerar é a replantação utilizando espécies características das zonas adjacentes. Topografia É alterada pela modelação do terreno, Existência de pequenas movimentações de Se for considerada a efectuada com recurso a aterros e terras com o objectivo de construir novos retirada das infraescavações. bunkers. estruturas do campo de golfe, as operações a efectuar são semelhantes à fase de construção. 62 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Quadro II.13. Matriz-síntese da Tipologia de Impactes Ambientais de um Campo de Golfe Categorias de Impacte Fase de construção Fase de exploração Fase de Desactivação Hidrogeologia Os impactes esperados relacionam-se com as operações de desmatação e limpeza do terreno e com o aumento da circulação de máquinas associadas à implementação de acessos e infraestruturas. A aplicação de fertilizantes e o tratamento fitossanitário também poderão alterar a qualidade da água subterrânea. Nesta fase as actividades de fertilização e Cessação das operações de tratamento fitossanitário e manutenção de fertilização, tratamento dos lagos são consideradas fontes adicio- fitossanitário e rega. nais de contaminação das águas subterrâneas. Recursos hídricos superficiais As operações de desmatação e limpeza do campo, modelação do terreno, construção de lagos e acessos e a sementeira, introduzem modificações na rede de drenagem natural da área de implementação do campo. Nesta fase os impactes estão relacionados Cessação das operações com a irrigação constante dos relvados, de fertilização, tratamento aplicação de fertilizantes e produtos fitos- fitossanitário e rega. sanitários e manutenção das redes de rega e drenagem. Resíduos Nesta fase existe um conjunto de operações que geram resíduos de diferentes tipos e perigosidade. As principais operações que merecem destaque em projectos deste tipo são respectivamente, a desmatação, movimentação geral de terras, funcionamento de estaleiros e manutenção de máquinas e equipamentos. Alguns dos resíduos produzidos são semelhantes aos resíduos gerados na construção, nesta fase têm origem nas operações de manutenção do campo e maquinaria associada, nomeadamente operações mecânicas do relvado e irrigação do campo, operações de fertilização e tratamento fitossanitário, manutenção de máquinas, equipamento e edifícios. Considerando como cenário provável a remoção das infra-estruturas do campo de golfe, esta é considerada a fase em que existe uma maior produção de resíduos. Qualidade do ar As principais fontes susceptíveis de causar a degradação da qualidade do ar têm origem na circulação de máquinas e veículos e nas operações de demolição, movimentação de terras, inerentes à construção dos campos de golfe. Também a aplicação de produtos fitossanitários e fertilizantes com elevadas taxas de volatilização, podem constituir uma fonte de perturbação. Nesta fase são consideradas como principais fontes de perturbação da qualidade do ar o funcionamento de equipamentos utilizados em operações de manutenção, a pulverização de produtos fitossanitários, a utilização de fertilizantes, como por exemplo o azoto, e o aumento do tráfego automóvel nas vias de acesso ao campo de golfe. Nesta fase as principais fontes de degradação da qualidade do ar terão origem em operações similares à fase de construção, isto se for considerada a remoção de infraestruturas. Ruído As principais fontes de ruído incluem a circulação de veículos. A mobilização de terras, a existência de estaleiros e a execução de infra-estruturas, nomeadamente ao nível da instalação da rede de rega e da utilização de máquinas e equipamentos, são considerados trabalhos susceptíveis de gerar ruído. As actividades de manutenção como sejam a circulação de veículos e a utilização de máquinas de corte de relva, constituem importantes fontes de ruído. Também o aumento do tráfego rodoviário induzido pelos utilizadores dos campos poderão provocar o aumento do nível sonoro na envolvente do campo. Considerando a remoção das infra-estruturas de projecto do campo de golfe, as principais fontes sonoras estarão associadas ao trânsito de pesados e à utilização de máquinas e equipamentos ruidosos. 63 Universidade do Algarve Quadro II.13. Matriz-síntese da Tipologia de Impactes Ambientais de um Campo de Golfe Categorias de Impacte Fase de Desactivação Fase de construção Fase de exploração Ecologia Todas as operações que constituem esta fase poderão ser consideradas potenciais geradoras de impactes, pois alteram profundamente a estrutura da vegetação reduzindo a disponibilidade de habitats para as comunidades animais. A construção de lagos pode constituir locais adequados para a instalação de espécies autóctones e de comunidades animais diversificada. A manutenção dos sistemas de rega e de drenagem dos campos de golfe, a aplicação de fertilizantes e de produtos fitossanitários, bem como o aumento da presença humana constituem as principais acções geradoras de impactes. Considerando uma alteração do uso do solo, devem ser avaliados os impactes daí decorrentes. Caso exista a retirada do relvado e das estruturas de rega e drenagem, podem ser gerados impactes sobre as comunidades que ali se estabeleceram. Paisagem Na fase de execução da obra processar-se-ão alterações da paisagem induzidas por diversas acções, como por exemplo: a presença de estaleiros e acessos à obra; desmatação e limpeza do terreno, decapagens, terraplanagens e modelação do terreno; drenagem, rega, construção de lagos, de caminhos e de outras estruturas; limpeza de bunkers e colocação de areias; e arrelvamento das plataformas e plantação de vegetação. Nesta fase a área intervencionada será alterada praticamente na sua totalidade. O facto dos espaços verdes se encontrarem construídos, tornará efectiva a grande transformação da paisagem resultante da implementação do campo de golfe. A existência de um espaço sempre verde irá reflectir-se na paisagem envolvente. Se existir um abandono da área, pressupõe-se a deterioração das estruturas e elementos existentes e consequente degradação da paisagem; uma outra alternativa é o reaproveitamento da área com um uso diferente. Património construído e arqueológico Todas as operações que constituem a fase de construção, são potencialmente geradoras de impactes no património (arqueológico, etnográfico), nomeadamente as operações de modelação do terreno, terraplanagens, escavações, construção de infra-estruturas associadas, vias de acesso, entre outras. As actividades que tenham como objectivo a preservação do património arqueológico, na fase de construção, constituem um impacte positivo. Os potenciais impactes negativos, estão associadas às operações de manutenção do campo e ao aumento da circulação de pessoas e veículos na área envolvente. Todas as operações e/ou actividades de preservação e manutenção do património constituem impactes positivos, nesta fase de projecto. A desactivação do campo de golfe tem como consequência o término de todas as operações que constituem impactes positivos e negativos no património. Ordenamento do território e uso do solo Os impactes no ordenamento do território estão relacionados sobretudo com a atribuição de novas funções ao espaço, sendo que estas têm de estar de acordo com os instrumentos de ordenamento em vigor que vinculem a área de implantação do campo de golfe. A eventual remoção de infra-estruturas associada à cessação do campo de golfe, pode implicar impactes positivos caso seja retomada a actividade que melhor se adequa à área. 64 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Quadro II.13. Matriz-síntese da Tipologia de Impactes Ambientais de um Campo de Golfe Categorias de Impacte Factores socioeconómicos Fase de construção Fase de exploração Os impactes negativos nesta fase do projecto estão relacionados com a diminuição da qualidade de vida das populações que habitam as imediações do campo e dos próprios trabalhadores, em resultado dos trabalhos de construção e do aumento do tráfego na área. Contudo, estas actividades constituem também um impacte positivo, pois estão relacionadas com o aumento do número de postos de trabalho no local de implementação do campo. Todas as actividades relacionadas, de uma forma directa ou indirecta com a exploração e manutenção do campo de golfe constituem impactes positivos, uma vez que estimulam outras actividades económicas e consequentemente contribuem para a criação de emprego. Os impactes negativos, estão associados ao ruído provocado pelo equipamento de manutenção do campo e ao aumento de tráfego na área de implementação do campo. Fase de Desactivação Aquando da desactivação do campo de golfe, as operações e actividades associadas à sua manutenção e exploração, tendem a desaparecer, bem como os impactes (positivos e negativos) associados. Contudo à que referir, que os impactes dependerão das actividades e do uso a desenvolver na área após a desactivação do campo. Fonte: Universidade do Algarve, 2003 II.2.2. CARACTERIZAÇÃO DA SITUAÇÃO DE REFERÊNCIA DO GOLFE NO ALGARVE II.2.2.1. LOCALIZAÇÃO DOS CAMPOS DE GOLFE EXISTENTES E PREVISTOS NOS CONCELHOS DO ALGARVE Foram identificados 30 campos de golfe (Anexo – Estudo Específico de Análise das Incidências Ambientais) em funcionamento na região do Algarve, na sua maioria circunscritos por empreendimentos turísticos. De acordo com os pedidos de informação prévia e/ou pedidos de licenciamento recebidos (Direcção Regional de Ambiente e Ordenamento do Território do Algarve – DRAOT, 2003), estão previstos cerca de 25 campos novos e a ampliação de um dos campos existentes. Os campos de golfe actualmente existentes no Algarve localizam-se preferencialmente no litoral. De acordo com a informação recolhida, referente à localização dos campos previstos, verifica-se que existe uma tendência de aproximação ao interior, diminuindo assim as assimetrias de oferta entre o interior e o litoral. Por forma a facilitar uma melhor visualização da distribuição dos campos actualmente existentes no Algarve, considerou-se a sua distribuição pelos concelhos do Barlavento (Vila do Bispo, Lagos, Aljezur, Monchique, Portimão, Albufeira, Lagoa e Silves) e do Sotavento (Loulé, Faro, Olhão, São Brás de Alportel, Tavira, Castro Marim, Vila Real de Santo António e Alcoutim). Da análise da 65 Universidade do Algarve Figura II.1. verifica-se que 64% dos campos de golfe existentes estão integrados na zona do Sotavento. Relativamente à sua distribuição por concelho, existem algumas assimetrias entre o número de campos existentes por concelho, como se pode verificar na Figura II.2. Figura II. 1 Distribuição Percentual dos Campos de Golfe Existentes no Algarve 10km 17% 46% 36% Zona Ocidental Zona Central Zona Oriental Fonte: RTA (2003); DRAOT (2003) 66 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Gráfico II.4. Campos de Golfe Existentes e Previstos nos Concelhos do Algarve 0 2 4 6 8 10 12 0 2 4 6 8 10 12 Vila do Bispo Lagos Portimão Lagoa Silves Albufeira Loulé Faro São Brás de Alportel Tavira Castro Marim Alcoutim Vila Real de Santo António Campos existentes Campos previstos Construção Fonte: DRAOT-Algarve (2001); RTA (2003); DRAOT-Algarve (2003) Comparativamente com os outros concelhos, Loulé é o que apresenta o maior número de campos (11 existentes e 1 em construção), seguindo-se Portimão com 5, Tavira com 4 e Albufeira com 3 campos. Nos concelhos de Vila do Bispo e Castro Marim existe apenas 1 campo de golfe. Pode ainda observar-se que o concelho de Loulé é aquele onde está previsto um maior número de campos de golfe (11), enquanto que os concelhos de São Brás de Alportel e Alcoutim registam o menor número de pretensões (1 campo em cada concelho). Para outros concelhos, como é o caso de Silves, Faro, Vila Real de Santo António, onde não existe qualquer campo em funcionamento, observa-se um total de 8 novas pretensões de campos de golfe. Apresenta-se em seguida a localização dos empreendimentos com campos de golfe associados (a cartografia disponível apenas considera 25 campos, pois agrega as diferentes ampliações de campos localizados na mesma área e pertencentes à mesma empresa) e previstos no Algarve relativamente às Áreas de Aptidão Turística (AAT), sistemas aquíferos, Reserva Ecológica Nacional (REN), Zonas de Protecção Especial, Áreas Protegidas e Rede Natura, 2000. II.2.2.3. LOCALIZAÇÃO DOS CAMPOS DE GOLFE RELATIVAMENTE ÀS ÁREAS DE APTIDÃO TURÍSTICA De acordo com os Planos Directores Municipais (PDM) que vinculam a região algarvia, os campos de golfe devem integrar-se (relativamente ao zonamento/regras de utilização, ocupação e edificabi- 67 Universidade do Algarve lidade) em zonas de enquadramento desportivo definidas em Áreas de Aptidão Turística (AAT). Na Figura II.3 apresenta-se a sobreposição dos campos de golfe existentes e previstos no Algarve, relativamente às AAT. Figura II.2. Localização dos Campos de Golfe Existentes e das Pretensões relativamente às Áreas de Aptidão Turística 10km KT KZ KD KU D KB KA A B C E F KF KV KS G KG KC P KW KJ I H Áreas de aptidão turística Empreendimentos de golfe previstos N O KX J KM KO L KL KQ KR KH KI M KN KP Empreendimentos de golfe em funcionamento Campos de golfe existentes: A – Parque da Floresta; B - Boavista; C – Penina (Resort, Academy e Championship); D – Morgado do Reguengo I; E – Quinta do Gramacho; F - Vale da Pinta; G – Salgados; H – Pine Cliffs; I – Lusotur Golfes (Old Course, Millenium; Laguna e Pinhal); J – Vila Sol; L – Vale de Lobo (Royal e Ocean); M – Quinta do Lago (Quinta do Lago, Ria Formosa, Pinheiros Altos e San Lorenzo); N – Benamor; O – Quinta da Ria e Quinta de Cima; P – Castro Marim Campos de golfe previstos: KA – Sinceira; KB – Espiche; KC - Montinhos da Luz; KD - Mexilhoeira Grande; KE Morgado do Reguengo; KF - Quinta da Lameira; KG - Praia Grande; KH - Dunas Douradas; KI – Garrão; KJ - Quinta da Ombria; KL – Muro do Ludo - Pinheiros Altos; KM – Laranjal; KN - Muro do Ludo; KO - Parque das Cidades; KP Quinta das Navalhas; KQ – Pontal I- UOP 6; KR - Pontal II- UOP 8; KS - Colina da Rosa; KT - Herdade Finca Rodilhas; KU – Sesmarias; KV - Ponta da Areia; KX – Verdelago; KZ - Almada de Ouro; KW - Quinta do Vale Fonte: DRAOT-Algarve, 2000a II.2.2.3 LOCALIZAÇÃO DOS CAMPOS DE GOLFE RELATIVAMENTE AOS SISTEMAS AQUÍFEROS Em face das características morfológicas e hidrodinâmicas e de menor vulnerabilidade dos aquíferos, os recursos subterrâneos são considerados como estratégicos em situações de acidentes de poluição de origens superficiais ou de seca anormal (INAG, 2000), devendo ser utilizados preferencialmente no abastecimento de pequenos sistemas e como reserva em situações de emergência. Em termos do licenciamento do domínio hídrico e dependendo das especificidades de cada campo de golfe, terão que ser requiridas licenças de pesquisa e captação de águas subterrâneas e/ou licen- 68 Estudo Sobre o Golfe no Algarve ças de captação de águas superficiais, de acordo com o estipulado no Decreto-Lei n.º 46/94, de 22 de Fevereiro. De acordo com Delgado (2002), existem condicionamentos importantes ao licenciamento na captação de águas subterrâneas no Algarve, em particular junto ao litoral, devido a fenómenos de intrusão salina, traduzidos por um elevado teor de cloretos. Este facto levou à delimitação de uma área crítica à extracção de água subterrânea nesta região. A Figura II.4 ilustra a sobreposição dos campos de golfe existentes e previstos no Algarve, relativamente aos sistemas aquíferos. Figura II.3. Localização dos Campos de Golfe Existentes e das Pretensões relativamente aos Sistemas Aquíferos 10km KT KZ KD KU D KB KA A KC B C P KW KJ E F KF G KG KV KS I H Sistemas aquíferos Empreendimentos de golfe previstos N O KX J KM KO L KL KQ KR KH KI M KN KP Empreendimentos de golfe em funcionamento Campos de golfe existentes: A - Parque da Floresta; B - Boavista; C - Penina (Resort, Academy e Championship); D - Morgado do Reguengo I; E - Quinta do Gramacho; F - Vale da Pinta; G - Salgados; H - Pine Cliffs; I - Lusotur Golfes (Old Course, Millenium; Laguna e Pinhal); J - Vila Sol; L - Vale de Lobo (Royal e Ocean); M - Quinta do Lago (Quinta do Lago, Ria Formosa, Pinheiros Altos e San Lorenzo); N - Benamor; O - Quinta da Ria e Quinta de Cima; P - Castro Marim. Campos de golfe previstos: KA - Sinceira; KB - Espiche; KC - Montinhos da Luz; KD - Mexilhoeira Grande; KF Quinta da Lameira; KG - Praia Grande; KH - Dunas Douradas; KI - Garrão; KJ - Quinta da Ombria; KL - Muro do Ludo - Pinheiros Altos; KM - Laranjal; KN - Muro do Ludo; KO - Parque das Cidades; KP - Quinta das Navalhas; KQ - Pontal I- UOP 6; KR - Pontal II- UOP 8; KS - Colina da Rosa; KT - Herdade Finca Rodilhas; KU - Sesmarias; KV - Ponta da Areia; KX - Verdelago; KZ - Almada de Ouro; KW - Quinta do Vale. Fonte: DRAOT-Algarve, 1997 69 Universidade do Algarve II.2.2.4 LOCALIZAÇÃO DOS CAMPOS DE GOLFE RELATIVAMENTE ÀS ÁREAS DE RESERVA ECOLÓGICA NACIONAL A Reserva Ecológica Nacional (REN) é regulamentada pelo Decreto-Lei n.º 93/90, de 19 de Março, alterado pelo Decreto-Lei n.º 213/92 de 12 de Outubro, e integra zonas costeiras e ribeirinhas, águas interiores, áreas de máxima infiltração e zonas declivosas. Nestas áreas são proibidas as acções de iniciativa pública ou privada, incluindo as localizadas em terrenos do Domínio Público Marítimo e Fluvial, que se traduzem em operações de loteamento, obras de urbanização, construção de edifícios, obras hidráulicas, vias de comunicação, aterros, escavações e destruição do coberto vegetal. Na Figura II.5 apresenta-se a sobreposição dos campos de golfe existentes e previstos para o Algarve com as áreas delimitadas pela REN. 70 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Figura II.4. Localização dos Campos de Golfe Existentes e Previstos relativamente às Áreas de REN 10km KT KZ KD KU D KA A KB B C E F KF KV KS G KG KC P KW KJ I H Reserva Ecológica Nacional (REN) J N O KX KM KO L KL KQ KH KI KR M KN KP Empreendimentos de golfe previstos Empreendimentos de golfe em funcionamento Campos de golfe existentes: A - Parque da Floresta; B - Boavista; C - Penina (Resort, Academy e Championship); D - Morgado do Reguengo I; E - Quinta do Gramacho; F - Vale da Pinta; G - Salgados; H - Pine Cliffs; I - Lusotur Golfes (Old Course, Millenium; Laguna e Pinhal); J - Vila Sol; L - Vale de Lobo (Royal e Ocean); M - Quinta do Lago (Quinta do Lago, Ria Formosa, Pinheiros Altos e San Lorenzo); N - Benamor; O - Quinta da Ria e Quinta de Cima; P - Castro Marim. Campos de golfe previstos: KA - Sinceira; KB - Espiche; KC - Montinhos da Luz; KD - Mexilhoeira Grande; KF Quinta da Lameira; KG - Praia Grande; KH - Dunas Douradas; KI - Garrão; KJ - Quinta da Ombria; KL - Muro do Ludo - Pinheiros Altos; KM - Laranjal; KN - Muro do Ludo; KO - Parque das Cidades; KP - Quinta das Navalhas; KQ - Pontal I- UOP 6; KR - Pontal II- UOP 8; KS - Colina da Rosa; KT - Herdade Finca Rodilhas; KU - Sesmarias; KV - Ponta da Areia; KX - Verdelago; KZ - Almada de Ouro; KW - Quinta do Vale. FONTE: DRAOT-ALGARVE, 1996 II.2.2.5 LOCALIZAÇÃO DOS CAMPOS DE GOLFE RELATIVAMENTE ÀS ÁREAS DE CONSERVAÇÃO DA NATUREZA Em termos do direito comunitário, a regulamentação relativa à conservação da natureza alicerça-se em torno da Directiva Aves e da Directiva Habitats, de âmbito complementar e objectivos substantivamente idênticos, que serão consubstanciados na Rede Natura 2000. Esta rede ecológica europeia de zonas especiais de conservação, englobará as Zonas Especiais de Conservação (ZEC) e as Zonas de Protecção Especial (ZPE). Quando, através da realização da avaliação de impacte ambiental ou análise de incidências ambientais, se conclua que a acção ou projecto implica impactes negativos para um sitio de importância comunitária para uma ZEC ou para uma ZPE, o mesmo só pode ser autorizado quando se verifica a ausência de solução alternativa e ocorram razões imperativas de interesse público, reconhecidas 71 Universidade do Algarve mediante despacho conjunto do Ministro do Ambiente e do Ministro competente em razão da matéria. Na região do Algarve encontra-se uma diversidade de zonas naturais classificadas, instituídas por diversos instrumentos de gestão territorial. Desta forma, encontram-se classificados o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, o Parque Natural da Ria Formosa, a Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António, os sítios da Rocha da Pena e Fonte da Benémola, e mais 10 sítios pertencentes à lista da Rede Natura 2000. Na Figura II.6 apresenta-se a sobreposição dos campos de golfe existentes e previstos no Algarve relativamente às zonas pertencentes às áreas protegidas, à Rede Natura 2000 e às ZPE. 72 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Figura II. 5. Localização dos Campos de Golfe Existentes e das Pretensões relativamente às Zonas de Protecção Especial, Áreas Protegidas e Rede Natura 2000 10km VI KT IX I X A KD D KB A B KC V C C I D KA KZ IV II E IV F II KF KS G KG VIII I H Empreendimentos de golfe previstos Empreendimentos de golfe em funcionamento Rede Natura 2000 Áreas Protegidas Zonas de Protecção Especial P KU KJ KW KV KX III J KM KO L KL KQ KH KI 1 KR M KN KP N O B VII E III Rede Natura 2000: I - Barrocal; II - Arade/Odelouca; III - Cerro da Cabeça; IV - Caldeirão; V - Ria de Alvor; VI - Guadiana; VII Ria Formosa/Castro Marim; VIII - Ribeira de Quarteira; IX - Monchique; X - Costa Sudoeste Áreas Protegidas: A - Rocha da Pena; B - Sapal de Castro Marim e Vila Real de Sto. António; C - Fonte da Benémola; D - Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina; E - Ria Formosa Zonas de Protecção Especial: I - Costa Sudoeste; II - Sapais de Castro Marim; III - Ria Formosa; IV - Leixão da Gaivota Campos de golfe existentes: A - Parque da Floresta; B - Boavista; C - Penina (Resort, Academy e Championship); D - Morgado do Reguengo I; E - Quinta do Gramacho; F - Vale da Pinta; G - Salgados; H - Pine Cliffs; I - Lusotur Golfes (Old Course, Millenium; Laguna e Pinhal); J - Vila Sol; L - Vale de Lobo (Royal e Ocean); M - Quinta do Lago (Quinta do Lago, Ria Formosa, Pinheiros Altos e San Lorenzo); N - Benamor; O - Quinta da Ria e Quinta de Cima; P - Castro Marim. Campos de golfe previstos: KA - Sinceira; KB - Espiche; KC - Montinhos da Luz; KD - Mexilhoeira Grande; KF - Quinta da Lameira; KG - Praia Grande; KH - Dunas Douradas; KI - Garrão; KJ - Quinta da Ombria; KL - Muro do Ludo - Pinheiros Altos; KM - Laranjal; KN - Muro do Ludo; KO - Parque das Cidades; KP - Quinta das Navalhas; KQ - Pontal I- UOP 6; KR - Pontal IIUOP 8; KS - Colina da Rosa; KT - Herdade Finca Rodilhas; KU - Sesmarias; KV - Ponta da Areia; KX - Verdelago; KZ - Almada de Ouro; KW - Quinta do Vale. Fonte: DRAOT-Algarve, 1992; DRAOT-Algarve, 2000b; DRAOT-Algarve,2001 II.2.3. ANÁLISE DOS ESTUDOS DE IMPACTE AMBIENTAL DE CAMPOS DE GOLFE DO ALGARVE O Decreto-Lei n.º 317/97, de 25 de Novembro, estabelece o Regime de instalação e funcionamento das instalações desportivas de uso público, independentemente da sua titularidade ser pública ou privada e visar ou não fins lucrativos. Segundo este diploma, constituem instalações desportivas os espaços de acesso público organizados para a prática de actividades desportivas, constituídos por espaços naturais adaptados ou por espaços artificiais ou edificados, incluindo as áreas de serviços anexos e complementares. Os campos de golfe, são definidos como instalações desportivas especia- 73 Universidade do Algarve lizadas, uma vez que são instalações concebidas e organizadas para uma actividade desportiva monodisciplinar. Após apresentação dos pedidos de informação e eventual autorização prévia de localização, os proponentes de um projecto de campo de golfe necessitam de um conjunto de pareceres de diversas entidades até obterem o alvará final da licença de funcionamento do campo. O licenciamento da construção do campo está condicionado à realização de um Estudo de Impacte Ambiental (EIA), obrigatório para projectos com mais de 18 buracos (área mínima exigida 50 ha), com mais de 45 ha de área ou se inseridos em áreas sensíveis. A tramitação processual da apreciação técnica do EIA conclui-se com a elaboração de uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA), com carácter vinculativo, emitida pela autoridade de EIA (Instituto do Ambiente e Direcções Regionais do Ambiente e Ordenamento do Território). A construção de um campo de golfe, está ainda condicionado pela posse de uma licença e respectivo alvará de construção, emitido pela câmara municipal após parecer favorável do Instituto do Desporto (IND). Após a construção do campo, a licença e alvará de funcionamento são emitidos pelo IND, após uma vistoria às instalações, que tem como objectivo a verificação e adequação das instalações, do ponto de vista funcional, aos usos previstos, bem como a verificação do cumprimento de todas as normas estabelecidas no Decreto-Lei n.º 317/97, de 25 de Novembro. Efectuou-se uma revisão dos cinco EIA realizados em 2001 (dois EIA) e 2002 (três EIA) com o objectivo de identificar e analisar alguns dos principais impactes associados à implementação de campos de golfe no Algarve. Os EIA consultados eram referentes a projectos de campo de golfe a localizar nos concelhos de Loulé (2 projectos), Vila Real de Santo António, Faro e Castro Marim. Regra geral, todos os EIA identificam a mesma tipologias de impacte ambiental associadas à construção e exploração do projecto, recomendando um conjunto de medidas que minimizam os impactes negativos e potenciam os positivos. Verificou-se ainda uma concordância na generalidade dos EIA relativamente às categorias onde os impactes são mais significativos. Os resultados da revisão efectuada aos EIA encontram-se resumidos no Quadro II.11 e no Quadro II.12. Da consulta dos pareceres elaborados para os EIA destes campos de golfe, verifica-se que a emissão de parecer favorável a dois dos estudos foi condicionada à implementação de um conjunto de medidas de minimização em várias categorias de impacte, nomeadamente: recursos hídricos superficiais - aspectos qualitativos/qualidade (controlo dos fenómenos de eutrofização; controlo do uso de ferti- 74 Estudo Sobre o Golfe no Algarve lizantes por forma a evitar a contaminação das águas subterrâneas e superficiais); ecologia (medidas de recuperação de espécies e habitats naturais); hidrogeologia (Plano de monitorização da hidrogeologia); paisagem (integração paisagística); património (acompanhamento arqueológico); resíduos (apresentação de alternativas para gestão de resíduos, nomeadamente para resíduos verdes; impermeabilização dos locais de armazenagem e manutenção de combustíveis e resíduos); ambiente sonoro (recolha de dados acústicos). A emissão de um parecer desfavorável, devido ao incumprimento de um ou mais critérios, verificou-se para as propostas de implementação dos campos de golfe não previstas em Unidades Operativas de Planeamento e Gestão (UOPG), Planos de Pormenor (PP) ou Planos de Urbanização (PU), e/ou inseridas em sítios de interesse comunitário para a conservação da natureza. A origem do abastecimento de água, nomeadamente a existência de zonas críticas sob o ponto de vista da qualidade dos recursos hídricos subterrâneos, condicionaram igualmente a emissão de parecer favorável. Quadro II.14. Principais Resultados dos Estudos de Impacte Ambiental de Projectos de Campos de golfe no Algarve (Fase de Construção) Categorias de impacte ambiental Principais impactes identificados na fase de construção Clima Em todos os estudos analisados, as operações ou acções realizadas na fase de construção não constituem impacte no clima. Geologia Os impactes na geologia são referidos como impactes negativos e irreversíveis, mas de pouco significado. Os impactes neste descritor resultam das operações de modelação do terreno, que envolvem reduzidas profundidades e a sua significância depende da natureza das formações geológicas onde o campo foi implementado. Solos Todos os estudos, consideram que as operações realizadas na fase de construção, constituem impactes negativos no solo, contudo a significância deste impacte resulta da maior ou menor área desmatada, bem como do volume de terras movimentado ou terraplanagens necessário. Hidrogeologia Na fase de construção, de um modo geral, todas as operações constituem impactes negativos na hidrogeologia, quer ao nível da qualidade, quer ao nível da quantidade. Resultam da compactação e impermeabilização do solo, alteração da rede de drenagem natural e consequente diminuição da capacidade de recarga dos aquíferos. Recursos Hídricos Superficiais Neste descritor os impactes são considerados negativos, em todos os estudos. A magnitude deste impacte, bem como a sua significância depende da necessidade ou não de interferir com linhas de água (ribeiras), volume de terras movimentado e terraplanagens a efectuar. Resíduos A produção de resíduos constitui um impacte negativo pouco significativo em todos os estudos. Qualidade do ar Todas as operações que ocorrem na fase de construção de um campo contribuem de forma negativa para a qualidade do ar na zona de implementação do campo. Os impactes negativos neste descritor estão relacionados com a circulação de veículos, movimentação de poeiras, entre outras. Ruído O ruído constitui um impacte negativo e temporário em todos os estudos analisados. A magnitude deste impacte, está relacionada com o tipo de máquinas e veículos utilizados nas operações de construção, bem como com a existência ou não de núcleos habitacionais próximos da área intervencionada. 75 Universidade do Algarve Categorias de impacte ambiental Principais impactes identificados na fase de construção Ecologia As operações de construção interferem de forma negativa com as formas ecológicas (fauna, flora, habitats) da área de implementação do campo, constituindo assim um impacte negativo para as formas anteriormente referidas, que podem ser afectadas de forma permanente ou temporária, dependendo da acção que originou o impacte. Estes impactes resultam, na sua maioria, da destruição e interferência de habitats, o que pode condicionar a manutenção e existência de muitas espécies. Paisagem Segundo todos os estudos consultados a paisagem é afectada de forma negativa e permanente. Este impacte resulta da perda de biodiversidade e das alterações das características intrínsecas da paisagem, na área intervencionada. Património Construído e Arqueológico O impacte no património construído e arqueológico é negativo e permanente, para três dos estudos consultados. A magnitude deste impacte difere de acordo com as áreas afectadas. Ordenamento Território e Uso do solo Relativamente ao ordenamento e uso do solo, apenas um dos estudos considera que não se verifica impacte neste descritor. Os demais consideram o impacte negativo e permanente estando este relacionado com o cumprimento das directrizes de ordenamento do território e com a manutenção do equilíbrio na utilização do território. Factores sócioeconómicos Em todos os estudos os factores sócio-económicos constituem um impacte positivo temporário, dependendo a sua magnitude da existência de populações na envolvência do campo, do desenvolvimento económico, entre outros factores. Fonte: EIA, Estudos de Impacte Ambiental, 2001 - 2002 Quadro II.15. Principais Resultados dos Estudos de Impacte Ambiental de Projectos de Campos de Golfe no Algarve (Fase de Exploração) Categorias de impacte ambiental Principais impactes identificados na fase de manutenção/exploração Clima As operações que integram as fases de manutenção e exploração dos campos, nomeadamente a irrigação do campo, a manutenção do sistema de rega e a presença de lagos, constituem um impacte positivo e permanente no clima local. Geologia Neste descritor, os impactes são considerados inexistentes nesta fase do projecto. Solos No solo os impactes considerados são permanentes. Dos estudos consultados, um considera como negativos os impactes neste descritor e outro considera-os inexistentes. Nos restantes estudos os impactes são positivos, resultando das actividades de irrigação e tratamento fito-sanitário do relvado. Hidrogeologia Os impactes neste descritor, estão associados a aspectos qualitativos e/ou quantitativos. Todos os estudos consideram que os impactes na hidrogeologia são negativos e de carácter permanente. Os impactes neste descritor resultam das operações de irrigação (quantitativo), fertilização e tratamento fito-sanitário (qualitativo), entre outras. De referir, que todos os EIA consideram a reutilização de águas residuais na rega contudo, apenas um deles avalia o seu impacte, sendo este considerado positivo e permanente. Recursos Hídricos Superficiais As operações de fertilização, tratamento fito-sanitário, irrigação, entre outras constituem impactes negativos e permanentes nos recursos hídricos em todos os estudos. De referir, que em três dos estudos a análise dos impactes deste descritor desagrega-se em qualidade dos recursos hídricos, regularização do regime de escoamentos e preservação das formas fluviais. Resíduos Todas as actividades de manutenção e exploração do campo de golfe são potenciais fontes de resíduos, sendo as operações mecânicas do relvado, a aplicação de fertilizantes e tratamento fito-sanitário, aquelas em que os impactes têm maior magnitude. Este impacte é negativo e permanente. Qualidade do Dois dos estudos consideram que o impacte na qualidade do ar é indiferente, os restantes avaliam o impacte ar como negativo e permanente, sendo este resultado da circulação de veículos. 76 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Categorias de impacte ambiental Principais impactes identificados na fase de manutenção/exploração Ruído Em todos os estudos o impacte negativo e de carácter permanente, resulta de operações de manutenção do campo e da circulação de veículos. Ecologia Este descritor engloba os impactes associados à fauna, flora, habitats, resultando os impactes das operações da irrigação do campo, da presença e manutenção de lagos, de operações de fertilização e tratamento fito-sanitário, de trabalhos mecânicos e preservação de habitats. As operações de manutenção, fertilização e tratamento fitosanitário constituem um impacte negativo e permanente, em todos os estudos. A preservação de habitats constitui um impacte positivo e permanente em dois dos estudos consultados. A avaliação do impacte provocado pela presença de lagos nos campos, apenas foi efectuada em dois estudos, sendo considerado este impacte permanente em ambos, positivo num caso, e negativo no outro. Paisagem O impacte associado à construção de acessibilidades ao campo de golfe foi considerada apenas num campo e avaliado como impacte negativo e permanente Nos restantes estudos os impactes associados a este descritor (preservação de habitats), constituem um impacte positivo e permanente. Património Em quatro dos EIA, a avaliação dos impactes neste descritor considera que estes são inexistentes ou sem Construído e significado. Apenas um estudo considera e operação de recuperação do património arqueológico, avaliando-a Arqueológico como um impacte positivo e permanente. Ordenamento Neste descritor, três dos EIA avaliam os impactes do uso sustentável do solo e do cumprimento das directrizes de ordenamento do território. Constitui um impacte positivo e permanente o cumprimento das directrizes de Território e Uso do solo ordenamento do território em quatro dos estudos, sendo considerado como nulo apenas num EIA. O uso sustentável do solo é avaliado como um impacte negativo e permanente num EIA, considerado positivo em dois e inexistente nos restantes estudos. Factores sócioeconómicos Em dois estudos os impactes nesta categoria são positivos e permanentes. Nos restantes três EIA analisados, os impactes neste descritor, desagregam-se na avaliação dos impactes na qualidade de vida das populações locais e no desenvolvimento económico, resultantes da implementação do campo de golfe. Na qualidade de vida o impacte é negativo e permanente, estando associado à movimentação e circulação de veículos, bem como a operações de manutenção. No desenvolvimento económico o impacte é positivo e permanente. Fonte: EIA, Estudos de Impacte Ambiental, 2001 - 2002 II.2.4. INDICADORES AMBIENTAIS A utilização de indicadores constitui uma ferramenta essencial nos processos de tomada de decisão em ambiente. A Direcção Geral do Ambiente (2000) definiu indicadores ambientais como “parâmetros seleccionados e considerados isoladamente ou combinados entre si, sendo especialmente pertinentes para reflectir determinadas condições dos sistemas em análise (normalmente são utilizados com pré-tratamento, isto é, são efectuados tratamentos aos dados originais, tais como médias aritméticas simples, percentis, medianas, entre outros). O modelo Pressão-Estado-Resposta (PER), definido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE, 1993), distingue três tipos diferentes de indicadores ambientais (DGA, 2000): • Indicadores de pressão - descrevem as pressões impostas sobre os sistemas ambientais pelas actividades humanas e podem ser traduzidos por indicadores de emissão de contaminantes, intervenção no território e de impacte ambiental; 77 Universidade do Algarve • Indicadores de estado - reflectem a qualidade do ambiente num dado horizonte espaço/tempo; são, por exemplo, os indicadores de sensibilidade, risco e qualidade ambiental; • Indicadores de resposta - avaliam as respostas das organizações às alterações e preocupações ambientais, bem como à adesão a programas e/ou à implementação de medidas em prol do ambiente. Com base na metodologia Pressão-Estado-Resposta, desenvolveu-se inicialmente uma matriz genérica de indicadores ambientais para o golfe, com cerca de 75 indicadores tipo. Tendo em conta a informação apresentada anteriormente e os resultados do inquérito específico realizado aos gestores dos campos de golfe, foi possível quantificar a maioria dos indicadores estabelecidos na matriz genérica, de forma a caracterizar a situação actual no Algarve. Considerando a informação dos inquéritos recebidos, que constituem 70% dos campos de golfe que se encontram em funcionamento, apresenta-se no Quadro II.16, os valores obtidos para os indicadores ambientais mais relevantes. Pode observar-se que na determinação destes indicadores foram utilizados diferentes factores de normalização (área total do empreendimento, a área do campo, o número de praticantes, o número de voltas e o número total de campos de golfe existentes) por forma a permitir comparar o desempenho dos diferentes campos. Refira-se ainda que não foi possível determinar um conjunto de indicadores definidos na matriz genérica, uma vez que a informação necessária para o seu cálculo não foi fornecida nas respostas ao inquérito, tais como qualidade das águas superficiais e subterrâneas, produção de água residual, qualidade da água residual, produção total de resíduos perigosos e não perigosos e investimentos anuais em ambiente. Quadro II.16. Indicadores Ambientais Para o Golfe no Algarve Definição Tipo Descritor Nome Pressão Consumo de fitofármacos Solos Consumo de fertilizantes Energia 78 Consumo de combustíveis Indicador Unidade Mínimo Média Máximo Mediana kg/ha de campo 1,92 7,76 19,00 5,75 kg/volta 8,33E-04 7,12E-03 1,70E-02 6,28E-03 kg/ha de campo 4,00E+01 6,13E+02 1,39E+03 5,58E+02 kg/volta 1,20E-01 8,66E-01 2,60 6,69E-01 m3/ha de empreendimento 4,52E-02 3,86E-01 1,05 3,11E-01 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Quadro II.16. Indicadores Ambientais Para o Golfe no Algarve Definição Tipo Descritor Nome Consumo de electricidade Consumo de óleos Consumo total de água superficial para rega Consumo total de água subterrânea para rega Pressão Água Indicador Unidade Mínimo Média Máximo Mediana m3/ha de campo 3,38E-01 8,58E-01 3,73 5,67E-01 m3/volta 7,82E-05 7,14E-04 2,24E-03 4,66E-04 kWh/ha de empreendimento 1,74 E+02 3,86 E+03 1,20E+04 2,80E+03 kWh/ha de campo 4,02E+02 5,74E+03 1,4E+04 4,64E+03 kWh/volta 4,98E-01 5,50 2,19E+01 3,07 l/ha de empreendimento 7,30 E-01 4,03 1,08E+01 3,32 l/ha de campo 2,91 9,76 3,00E+01 6,25 l/volta 7,33E-04 1,34E-02 5,60E-02 5,80E-03 m3/ha de empreendimento 0 3,97E+02 3,64E+03 0 m3/ha de campo 0 1,33E+03 1,08E+04 0 m3/volta 0 1,17 1,00E+01 0 m3/ha de empreendimento 0 3,41E+03 1,09E+04 2,67E+03 m3/ha de campo 0 8,61E+03 5,06E+04 6,33E+03 m3/volta 0 7,19 1,88E+01 6,46 m /ha de empreendimento 0 3,50E+02 3,78E+03 0 m3/ha de campo 0 5,97E+02 6,30E+03 0 m3/volta 0 6,29E-01 1,00E+01 0 m /ha de empreendimento 0 2,93E+01 3,10E+02 0 m3/ha de campo 0 4,11E+02 3,42E+03 0 m3/volta 0 3,31E-01 4,22 0 3 Consumo total de água de abastecimento público para rega 3 Consumo total de água residual tratada para rega Campos que utilizam água residual para rega Produção total de resíduos Resíduos Produção de resíduos verdes Ordenamento do Território e Uso do Solo Área dos concelhos do Algarve a ocupar por empreendimentos com campos de golfe % 14 t/ha de empreendimento 8,48E-01 2,28 4,65 1,32 t/volta 7,48E-04 2,09E-03 7,15E-03 1,01E-03 t/ha de empreendimento 2,83E-01 1,81 5,71 1,04 t/volta 2,75E-04 2,95E-03 1,60E-02 6,19E-04 % 0,78 79 Universidade do Algarve Quadro II.16. Indicadores Ambientais Para o Golfe no Algarve Definição Tipo Descritor Estado Estado Energia 80 Ordenamento do Território e Uso do Solo Ordenamento do Território e Uso do Solo Indicador Nome Unidade Mínimo Média Máximo Área dos concelhos da Zona Ocidental do Algarve a ocupar por empreendimentos com campo de golfe % 0,95 Área dos concelhos da Zona Central do Algarve a ocupar por empreendimentos com campo de golfe % 2,25 Área dos concelhos da Zona Oriental do Algarve Ocidental a ocupar por empreendimentos com campo de golfe % 0,89 Campos de Golfe com Buggies a combustível % Campos de Golfe com Buggies eléctricos % Área dos concelhos do Algarve ocupada por empreendimentos com campo de golfe % 0,73 Área dos concelhos da Zona Ocidental do Algarve ocupada por empreendimentos com campo de golfe % 0,78 Área dos concelhos da Zona Central do Algarve ocupada por empreendimentos com campo de golfe % 2,25 Área dos concelhos da Zona Oriental do Algarve ocupada por empreendimentos com campo de golfe % 0,33 Área de empreendimentos com campos de golfe localizados em AAT % 13,1 Área de empreendimentos com campos de golfe localizados sobre sistemas aquíferos % 71,7 Área de empreendimentos com campos de golfe localizados em Áreas Protegidas % 14,5 48 75 Mediana Estudo Sobre o Golfe no Algarve Quadro II.16. Indicadores Ambientais Para o Golfe no Algarve Definição Tipo Descritor Resposta Gestão Ambiental Resíduos Indicador Nome Unidade Mínimo Média Máximo Área de empreendimentos com campos de golfe localizados em ZPE % 17,3 Área de empreendimentos com campos de golfe localizados em sítios da Rede Natura 2000 % 14,8 Área de empreendimentos com campos de golfe localizados na REN % 23,5 Campos de golfe com sistema de gestão ambiental certificado % 17 Campos de golfe com Política ambiental % 37 Campos de golfe com Programas ambientais % 30 Campos de golfe que investiram na protecção e gestão do ambiente % 36 Campos de golfe que investiram na replantação de árvores e arbustos autóctones % 40 Campos de golfe que implementaram medidas de conservação de fauna e flora % 50 Campos de golfe com informação de carácter ambiental e ecológico e circuito de interpretação da natureza % 50 Campos de golfe que procedem à recolha selectiva dos resíduos % 57 Campos de golfe que realizam compostagem dos resíduos verdes % 14 Mediana Fonte: Universidade do Algarve, 2003 Da área total ocupada pelos campos de golfe em funcionamento, apenas 13,1% está inserida em AAT, 23,5% na REN, 14,5% insere-se em Áreas Protegidas, 14,8% na Rede Natura 2000, 17,3% em ZPE e 71,7% sobre sistemas aquíferos. 81 Universidade do Algarve Ao comparar os indicadores consumo total de água subterrânea para rega, consumo total de água de abastecimento público para rega e reutilização de águas residuais para rega, pode-se verificar que 71 % dos campos de golfe inquiridos têm captação própria, o que se traduz num uso substancialmente superior de águas subterrâneas em detrimento das restantes fontes de abastecimento. É de realçar que somente 14 % dos campos de golfe que responderam ao inquérito utilizam águas residuais tratadas na rega dos campos. A comparação do valor médio e da mediana do indicador consumo de combustíveis com o valor deste indicador para campos de golfe com sistemas de gestão ambiental permite verificar que os campos certificados ambientalmente apresentam valores inferiores. Em todos os campos de golfe existem buggies movidos a electricidade, sendo 48 % do número total de buggies movidos a combustível e 75 % a energia eléctrica, não existindo, no entanto campos com buggies que possuam como fonte, energia renovável (e.g. energia solar). Relativamente aos consumos de matérias-primas num campo de golfe, verifica-se que os maiores consumos estão relacionados o consumo de fertilizantes (613 kg/ha de campo) e o consumo de fitofármarcos (7,76 kg/ha campo). No que respeita à produção de resíduos, observa-se que apesar de mais de metade dos resíduos produzidos serem verdes e 57 % dos campos realizarem recolha selectiva, somente 14 % dos campos procedem à sua compostagem. No que respeita às práticas de gestão ambiental, 17 % dos campos que responderam ao inquérito encontram-se certificados ambientalmente, 37 % definiram políticas ambientais e 30 % implementaram programas ambientais. Entre 40 e 50 % investiram e implementaram medidas de protecção e informação ambiental, incluindo a replantação de árvores e arbustos autóctones, medidas de conservação da fauna e flora, e disponibilização aos utilizadores de informação de carácter ambiental e ecológico. II.3. GESTÃO DAS PRÁTICAS AGRO-AMBIENTAIS INTRODUÇÃO O sistema de gestão agro-ambiental implementado nos campos de golfe do Algarve permite conduzir a uma estratégia operacional de modo a estabelecer melhorias e priorida- 82 Estudo Sobre o Golfe no Algarve des nos procedimentos das práticas culturais (sistemas de rega e de fertirrega, fertilizações, tratamentos fitossanitários, sistemas de corte dos relvados e descompactação do solo) para a manutenção dos relvados e identificar oportunidades para a sua realização de forma a minimizar os impactos da poluição difusa. As potenciais agressões ambientais causadas pela aplicação daquelas práticas culturais em face das características deste tipo de exploração podem causar certas formas de poluição susceptíveis de serem transferidas para as águas subterrâneas. Mas, é fácil verificar que tais fenómenos permitem conciliar a implantação de relvados com a defesa da qualidade do ambiente, desde que tais práticas sejam correctamente adaptadas aos condicionalismos edafo-climáticos, através de uma gestão criteriosa aos aspectos ambientais da manutenção dos campos de golfe. Para o efeito, foi necessário realizar um estudo técnico-científico baseado em inquéritos que foram efectuados a 24 empresas de golfe, localizados em toda a sua extensão, desde Castro Marim a Vila do Bispo. No entanto, pode verificar-se nestes inquéritos, que o primeiro campo a iniciar actividade data de 1966, enquanto que o mais recente iniciou a sua actividade em 2002. Verifica-se ainda que 50% dos campos de golfe analisados iniciaram actividade na década de 90. O tempo de construção é, na grande maioria dos casos, de 2 anos. II.3.1. CARACTERÍSTICAS DOS RELVADOS As características especiais da relva implantada nos campos de golfe do Algarve permitiram uma selectividade criteriosa em função das suas aptidões exigíveis por este tipo de actividade, identificadas por um relvado com predomínio de gramíneas que conferem aos solos uma espécie de “filtro biológico”, com tendência para contrariarem a velocidade de infiltração subterrânea e dotadas de elevada aptidão de absorverem nutrientes. As gramíneas que constituem os relvados dos campos de golfe distribuem- se de forma consolidada (Quadro II.17) em função das suas aptidões, que se caracterizam pela sua compatibilidade ambiental (consumo de água, utilização de nutrientes e de fitofármacos) e pelos seus aspectos funcionais (resistência ao pisoteio, pragas e doenças e ao stress hídrico) distribuídas diferencialmente pelas várias zonas do campo. 83 Universidade do Algarve Quadro II.17. Espécies mais Representativas dos Campos de Golfe Greens Tees Fairways Roughs Agrotis stolinifera Lolium perenne Cynodon dactilon Festuca spp. Poa annua Poa pratensis Lolium perenne Lolium perenne Festuca spp. Cynodon dactilon Poa pratensis Poa pratensis Festuca spp. Festuca spp. Cynodon dactilon Fonte: Universidade do Algarve, 2003. Na realidade, nestes relvados podemos considerar um tipo de cultura intensiva numa pequena fracção do campo da ordem dos 4% (ocupada pelos “tees” e pelos “greens”) onde predominam as espécies Agrostis stolonifera (var. Penn A4, Providence e Penncross), Poa annua e Festuca spp. nos greens e as espécies Lolium perenne, Poa pratensis e Cynodon dactylon e Festuca spp. nos tees. No entanto, a parte mais representativa dos campos corresponde a 40% da área ocupada (fairways) estabelecida como cultura extensiva, levando a conceber fertilizações com carácter intensivo somente nos tees e nos greens. As zonas de roughs apresentam um aspecto e uma organização muito diversa e próxima do meio natural podendo-se distinguir dois tipos, um que contém fitocenosis fundamentalmente autóctones, e outro basicamente artificiais realçando as espécies Festuca spp., Lolium perenne, Poa pratensis e Cynodon dactylon. Salienta-se, por fim, que a Agrostis stolonifera que predomina nos greens tem um elevado consumo de água mas apresenta uma série de vantagens em formar superfícies com propriedades dinâmicas para o jogo. Por outro lado, o Cynodon dactylon que predomina nos tees e nos fairways apresenta propriedades resistentes à salinidade, calor e ao pisoteio e pouco tolerantes ao frio e à sombra, com a vantagem de ser muito menos exigente no consumo de água, que normalmente se associa culturalmente com o Lolium perenne pela sua versatilidade e rápido crescimento, apesar da maior exigência em água, possibilitando a manutenção do campo com aspecto estético nas zonas de «Bermudas» quando estas aparentam formas de secura nos meses mais frios. II.3.2. RECURSOS HÍDRICOS O desenvolvimento da agricultura, dos fluxos turísticos, dos campos de golfe e de outros espaços verdes de lazer têm vindo a aumentar o consumo de água. Como se pode deduzir, o consumo de água nos últimos anos aumentou dez vezes mais no Algarve, em função do desenvolvimento do turismo e da agricultura de regadio nas últimas três décadas. O 84 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Algarve encontra-se ciclicamente em situação de carência hídrica devido aos anos de seca e ao aumento das áreas regadas, que se tem acentuado nos últimos anos, quer na agricultura (citrinos, culturas hortícolas), quer nos espaços verdes de lazer (campos de golfe), sem esquecer o aspecto urbano-turístico, devido ao aumento das áreas regadas. OS RECURSOS HÍDRICOS DO ALGARVE Considera-se que a agricultura de regadio no Algarve, com particular incidência no Litoral, se reparte por cerca de 20.000ha (INE, 2001), nomeadamente os citrinos com 18.000ha, incluídos ou não em perímetros de rega. Admitindo um valor teórico de 30 campos de golfe com uma dimensão média de 50ha por campo, e supondo ainda, como valores médios de dotação de rega para as áreas agrícolas de 900mm anuais e de 1000mm anuais para os campos de golfe, o volume total de água de rega para satisfazer estas áreas será da ordem de 195 x 106m3 anuais, respectivamente, 180 x 106m3 anuais para a agricultura e 15 x 106m3 anuais para os campos de golfe. A população residente de 400.000 habitantes, para uma capitação equivalente diária de 160L, consumirá anualmente cerca de 25 x 106m3. Quanto à população flutuante sazonal (10 x 106 habitantes), considerando-se a permanência individual média de duas semanas, estimam-se os gastos anuais igualmente em 25 x 106m3, para idêntica capitação. Deste modo, o consumo anual de água no Algarve, em especial no Litoral, excede os 245 x 106m3, dos quais 73,5% se destinam à agricultura, 6,1% aos espaços verdes de lazer e 10,2% são gastos equitativamente com as populações residente e turística, num total de 20,4%. A capacidade útil máxima de armazenamento das grandes barragens do Algarve (Bravura, Arade, Funcho, Beliche e Odelouca) ronda cerca de 270 x 106m3 anuais (Direcção Regional do Ambiente do Algarve, 1999). O poder de armazenamento é, no entanto, irregular ao longo do ano, de modo que a capacidade útil é na realidade bastante mais baixa, podendo-se considerar um valor médio de 170 x 106m3. Como o aproveitamento da capacidade útil das barragens está longe dos 100%, obviamente que grande parte das necessidades hídricas da região continuam a ser supridas recorrendo ao sistema de aquíferos subterrâneos, os quais além de serem limitados – cerca de 200 x 106m3 por ano, são vulneráveis à contaminação salina quando se situam no litoral, devido a avultadas captações aí efectuadas. O Quadro II.18 refere os valores da produtividade e dos gastos anuais. Como se poderá observar, a maior parte das necessidades hídricas continua a ser colmatada recorrendo-se às águas subterrâneas, encontrando-se as águas de superfície insuficientemente consumidas em relação às disponibilidades. 85 Universidade do Algarve Quadro II.18. Produtividade, Usos e Perdas das Águas Subterrâneas e de Superfície no Algarve Origem Águas Subterrâneas Águas de Superfície Produtividade (m3 ano-1) 200 * 106 (a) 170 * 106 (b) Uso (m3 ano-1) 182 * 106 (c) 53 * 106 (c) 8 * 106 (c) 27 * 106 (c) 190 * 106 (c) 80 * 106 (c) Perdas (m3 ano-1) total Total gasto - uso + perdas (m3 ano-1) Fonte: (a) Centro de Geologia e Águas de Portugal, 2000; (b) Direcção Regional do Ambiente do Algarve, 1999; (c) Universidade do Algarve, 2003. Quadro II.19 apresenta para o Litoral Algarvio os valores médios mensais relativos da temperatura do ar (ºC), da evapotranspiração potencial (ETp Penman (mm)) e da precipitação (mm). Quadro II.19. Valores Médios Mensais para o Litoral Algarvio de Temperatura do Ar, de Evapotranspiração Potencial (ETp) e de Precipitação Mês Temperatura (ºC) Evapotranspiração potencial ETp (mm) Precipitação (mm) Média dos últimos 40 anos Janeiro 11,3 33 60,9 Fevereiro 12,2 39 52,1 Março 14,3 81 71,6 Abril 15,2 117 30,0 Maio 17,8 164 20,5 Junho 20,9 183 5,2 Julho 23,8 208 0,6 Agosto 23,4 189 0,4 Setembro 21,5 120 17,5 Outubro 18,4 84 61,3 Novembro 14,9 36 65,4 Dezembro 12,6 25 67,2 Ano 17,2 1280 452,7 Fonte: Instituto de Meteorologia e Geofísica, 2003 86 Estudo Sobre o Golfe no Algarve O Gráfico II.5 apresenta as curvas relativas dos valores médios mensais de precipitação e de evapotranspiração potencial (ETp), ao longo do ano, para o Litoral Algarvio, onde se pode observar que a situação de escassez hídrica ocorre no período estival, entre Março e Outubro. Gráfico II.5. Curvas de Precipitação e de Evapotranspiração Potencial Médias Mensais (mm) 250 mm / mês 200 150 100 50 0 Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Evapotranspiração Ago Set Out Nov Dez Precipitação Fonte: Instituto de Meteorologia e Geofísica OS RECURSOS HÍDRICOS NO GOLFE E O CICLO DA ÁGUA Dos 15 campos de golfe analisados, 6 utilizam apenas águas subterrâneas de captações próprias; 5 utilizam águas subterrâneas de captações próprias juntamente com águas de superfície; 1 utiliza unicamente águas residuais de origem doméstica; 2 utilizam águas subterrâneas de captações próprias juntamente com água residual de ETAR própria; e 1 outro utiliza água da rede pública juntamente com águas de superfície da própria exploração. O Quadro II.20 refere as origens e destinos dos recursos hídricos nos campos de golfe em geral e nos greens. 87 Universidade do Algarve Quadro II.20. Origens e Destinos dos Recursos Hídricos nos Campos de Golfe em Geral e nos Greens Destinos Origens Campo em geral (m3 ano-1) Greens (m3 ano-1) Instalaçóes de Apoio (m3 ano-1) 12,5 x 106 1 x 106 0 0 0 Subterrâneas Part. superficiais Rede superficiais Residuais 6 0,9 x 10 6 0,45 x 10 0 6 0,1 x 10 6 0,05 x 10 insignificante 0 Fonte: Universidade do Algarve, 2003 O destino das águas de drenagem é geralmente para os lagos distribuídos pelos campos de golfe, sendo em poucos casos outras linhas de água utilizadas como bacias de recepção, como é o caso de ribeiros. DRENAGEM De uma forma geral, nos campos de golfe analisados foram observados sistemas de drenagem artificial, principalmente nas zonas nobres de jogo, como nos greens, devido ao facto de estarem assentes sobre solos modificados com textura arenosa que lhe conferem maior permeabilidade em relação ao solo natural. Não se verifica qualquer sistema de drenagem nos roughs. Os sistemas de drenagem mais utilizados são constituídos por tubagem, normalmente envolvida em brita, sendo a água drenada para caixas de recolha, tendo geralmente como destino os lagos paisagísticos distribuídos pelos campos de golfe. Nalguns casos, as águas de drenagem são reutilizadas na rega. A QUALIDADE DA ÁGUA Os valores obtidos para a qualidade da água de rega, expressa em termos de condutividade eléctrica (ECw), é apresentada no Gráfico II.2. Verifica-se que, dos 10 campos observados, relativamente ao nível de perigo de salinização do solo, 3 possuem nível médio (ECw < 0.75 dS/m), 5 nível alto (0.75 dS/m < ECw < 2.25 dS/m), e 2 nível muito alto (ECw > 2.25 dS/m), de acordo com o Diagrama para a Classificação da qualidade de águas de rega de Richards, 1954. 88 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Gráfico II.6. Condutividade Eléctrica da Água de Rega dos Diferentes Campos e Origens 2,5 condutividade eléctrica ECw (dS/m) 2,25 2 1,5 1 0,75 0,5 0 Campos Média Alta Muito alta Fonte: Universidade do Algarve, 2003 O controlo da salinização do solo é geralmente efectuado através da lixiviação dos sais, com o respectivo sistema de rega; por vezes os sais são apenas infiltrados através das águas das chuvas. REGA Em climas Mediterrânicos, como no Algarve, assiste-se a um período de seca estival. Nestas condições, torna-se conveniente recorrer à prática da rega para colmatar as necessidades hídricas das plantas. Em geral, tanto na agricultura como nos campos de golfe e noutros espaços verdes de lazer, que têm vindo a ser incrementados na Região, é necessário contrariar a carência hídrica sazonal, por meio da rega. Dos campos analisados, existem diferenças tecnológicas consideráveis ao nível do controlo da rega. Deste modo, apenas 4 campos dispõem de estação meteorológica que permitem a determinação dos factores que condicionam o cálculo dos parâmetros de rega. Quanto aos sistemas de rega utilizados nos campos de golfe, verifica-se que dos 15 campos analisados, 14 são regados por aspersão e um apresenta um sistema de rega gota a gota subterrânea (tubo poroso de borracha) nos tees, fairways e roughs e de rega gota a gota subterrânea complementada com um sistema de rega por aspersão nos greens. 89 Universidade do Algarve À excepção do campo regado gota a gota, onde a rega se faz quer no período diurno, quer no nocturno, denota-se que em todos os outros campos as regas são nocturnas, uma vez que o efeito do vento é menor durante a noite; também existe uma menor evaporação, o que leva a uma maior eficiência no uso da água, acrescentando-se o facto de que durante a noite o campo não está ocupado por jogadores. Constata-se assim haver menores caudais na rega gota a gota e menores perdas por evaporação e por acção do vento. Os valores das dotações de rega para os 15 campos de golfe são apresentados no Gráfico II.7. No que se refere às dotações totais mensais, verifica-se que apenas dois campos apresentam leituras separadas por área relvada (greens, tees, fairways e roughs). Dotações de Rega Médias Mensais (m3/ ha) Gráfico II.7. 2500 dotação de rega (m3/ha) 2000 1500 1000 500 0 Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Fonte: Universidade do Algarve, 2003 Analisando o Gráfico II.7 pode observar-se que a dotação de rega diária é muito maior nos meses de Verão, como aliás seria de esperar. No entanto, verifica-se que a variabilidade dos valores apresentados é bastante elevada. Assim, para o mês de Julho (mês de máximas necessidades hídricas) pode observar-se que o valor da dotação de rega média diária varia entre 2,2 e 9,2 mm. Os valores da dotação de rega total anual (m3/ha) estão indicados no Gráfico II.8. 90 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Gráfico II.8. Dotação de Rega Total Anual para cada um dos 10 Campos Analisados 16.000 dotação de rega (m3/ha) 14.000 12.000 10.000 8.000 6.000 4.000 2.000 0 Fonte: Universidade do Algarve, 2003 No Quadro II.21 apresentam-se os valores do uso dos diversos recursos hídricos nos campos de golfe e nos restantes sectores consumidores. Mais uma vez se nota que a maior parte da água consumida tem como origem os aquíferos, apesar de haver um défice elevado de utilização das águas superficias. Quadro II.21. Comparação do Uso dos Diversos Recursos Hídricos nos Campos de Golfe e nos Restantes Sectores Consumidores Sector Agricultura (m3 ano-1) Sector doméstico (m3 ano-1) (d) Sector turismo (m3 ano-1) (e) Campos de golfe (m3 ano-1) (b) 156 x 106 (a) 9,2 x 106 3,5 x 106 13,5 x 106 Part. superficiais Insignificante (b) 0 0 0 Rede superficiais 17,8 x 106 (c) 14,1 x 106 20,5 x 106 1 x 106 Insignificante (b) 0 0 0,5 x 106 Usos Origens Subterrâneas Residuais Fonte: (a) Instituto Nacional de Estatística / Direcção Regional de Agricultura do Algarve, 2000; (b) Universidade do Algarve (valores estimados), 2003; (c) Direcção Regional de Agricultura do Algarve, 2003; (d) Ambio, Águas de Portugal, 2001; (e) Direcção Geral do Turismo, 2000. 91 Universidade do Algarve II.3.3. FERTILIZAÇÃO O elevado interesse económico e social que o Golfe apresenta no Algarve, justifica que se dispense maior atenção aos fenómenos associados ao binómio fertilização-poluição, no que respeita a uma maior eficiência na utilização dos adubos e correctivos orgânicos mais directamente associados à produção de relva com a defesa da qualidade do ambiente. No entanto, para que a fertilização proporcione os efeitos desejados é preciso efectuá-la racionalmente, implicando uma correcta definição dos objectivos a atingir e um suficiente conhecimento dos meios de forma a garantir uma melhor qualidade das águas superficiais e subterrâneas no âmbito da implantação de campos de golfe. É evidente, que as acções benéficas potencialmente desempenhadas pelos fertilizantes só poderão, de facto, verificar-se, desde que associadas a técnicas de aplicação mais recomendáveis de forma a não contribuir para ocorrência de alguns fenómenos nocivos à qualidade do ambiente. UTILIZAÇÃO DOS FERTILIZANTES É indispensável, quer em termos agronómicos quer ecológicos, fornecer aos relvados as quantidades de nutrientes que, sendo as necessárias, não ultrapassem as suficientes. Para isso, é indispensável avaliar, com rigor as necessidades das culturas, as disponibilidades nutritivas dos meios de cultura e a taxa de utilização dos nutrientes. Quanto aos valores resultantes do inquérito infere-se que, na maioria dos campos de golfe, as quantidades de fertilizantes que são aplicadas, nomeadamente os adubos azotados, fosfatados e potássicos, não se consideraram que sejam exageradas mas a utilização das técnicas de aplicação e a sua frequência poderão não ser as mais adequadas em face aos problemas de poluição dos solos. Deste modo, no Quadro II.22 que a seguir se apresenta, podemos observar que as quantidades médias de nutrientes, aplicadas aos relvados durante o ano, aproximam-se dos valores tecnicamente aconselháveis para a generalidade dos campos de golfe nas regiões mediterrânicas, embora se possa considerar que adubação azotada é aplicada por excesso (nível médio – 150Kg N/ha/ano) nos fairways e roughs, enquanto que nos greens e tees a adubação fosfatada é utilizada por defeito (nível médio – 100Kg P2O5/ha/ano). Mais se verifica que, nos fairways os níveis de potássio são inferiores aos aconselháveis (nível médio – 200Kg K2O/ha/ano). 92 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Quadro II.22 Consumo Médio Anual de Fertilizantes unidade: Kg/ha Azoto Fósforo Potássio Greens 239 ± 25 77 ± 15 245 ± 39 Tees 248 ± 88 58 ± 10 133 ± 59 Fairways 254 ± 88 60 ± 9 129 ± 32 Roughs 200 ± 72 68 ± 15 135 ± 30 Nota: Média ± desvio padrão Fonte: Universidade do Algarve, 2003 De um modo geral, aqueles nutrientes (azoto, fósforo e potássio) são veiculados por adubos granulados que também, em menor quantidade contêm outros elementos nutritivos essenciais à nutrição das plantas, cuja solubilidade e subsequente lixiviação de nutrientes tendem a ser menores. Em alguns casos aqueles adubos são aplicados de uma forma enriquecida, principalmente com ferro e magnésio, mas quando utilizam micronutrientes, estes poderão ser adicionados sob a forma líquida. Por outro lado, as combinações que são utilizadas para a manutenção dos campos resumem-se a diferentes adubos minerais simples e compostos por serem os mais económicos. Com menor frequência também são utilizados adubos de libertação lenta para as áreas mais nobres como sejam os greens e os tees de forma a reduzir o efeito poluidor, apesar das médias anuais não ultrapassarem o limite médio admissível (nível médio – 250 kg N/ha/ano). Por outro lado, a intensidade das adubações nas distintas épocas do ano, em qualquer uma das zonas do campo de golfe, são respectivamente apresentadas nos Gráfico II.9 e Gráfico II.10. 93 Universidade do Algarve Gráfico II.9. Intensidade de Adubação: Tees e Greens aplicação de nutrientes (Kg/ha) 160 140 120 100 80 60 40 20 0 Dez-Fev Mar-Mai Jun-Ago Set-Nov Dez-Fev Tees Azoto - N Mar-Mai Jun-Ago Set-Nov Greens Fósforo - P2O5 Potássio - K2O Fonte: Universidade do Algarve, 2003 Deste modo, enquanto que, nos tees as adubações mais acentuadas verificam-se entre os meses de Março-Agosto, realçando as azotadas e observando-se uma moderação nas aplicações fosfatadas e potássicas, nos greens as fertilizações azotadas e potássicas concentram-se mais entre os meses de Dezembro-Fevereiro e entre os meses de Junho-Agosto (Gráfico II.9). No entanto, torna-se evidente um maior fraccionamento das adubações, principalmente das azotadas sob a forma nítrica naquele período invernal (Dez.–Fev.) de maior intensidade pluviométrica, de forma a reduzir perdas de nutrientes por lixiviação ou mesmo anuladas quando os adubos minerais forem incorporados na água de rega (fertirrega). 94 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Gráfico II.10. Intensidade de Adubação: Fairways e Roughs aplicação de nutrientes (Kg/ha) 160 140 120 100 80 60 40 20 0 Dez-Fev Mar-Mai Jun-Ago Set-Nov Dez-Fev Fairways Azoto - N Mar-Mai Jun-Ago Set-Nov Roughs Fósforo - P2O5 Potássio - K2O Fonte: Universidade do Algarve, 2003 Apesar de nos fairways se verificarem adubações fosfatadas e potássicas moderadas, mantêm-se em relação às outras zonas nobres aplicações mais concentradas de azoto (Março-Agosto). No entanto, nos roughs apresentam-se com teores quase equivalentes de N-K mas com concentrações significativas entre Março e Novembro (Gráfico II.10). Contudo, mediante a análise das considerações efectuadas sobre os resultados apurados, conclui-se que a fertilização, pela influência que exerce sobre o crescimento das plantas, é de facto susceptível de constituir um factor determinante da transformação estética dos relvados nos campos de golfe. Acontece, porém, à semelhança do que se verifica com outras práticas e/ou técnicas agrícolas, que a utilização dos fertilizantes só produzirá os efeitos desejados quando convenientemente articulada com os outros factores de produção, em particular no que se refere à rega e drenagem e aos tratamentos fitossanitários, e poderá, eventualmente, não produzir efeitos nefastos para a qualidade do ambiente. 95 Universidade do Algarve II.4. O NEGÓCIO DO GOLFE Neste ponto caracteriza-se o negócio do golfe em termos de oferta e procura. Quem compra, porquê e em que condições são os aspectos centrais para o desenvolvimento de qualquer negócio. A caracterização da procura em cada um destes domínios é, todavia, dificultada pela diversidade que apresentam no seu interior e pela generalizada ausência de elementos de análise e reconhecimento detalhados e actualizados. É conhecida a dependência dos padrões de consumo face a variáveis como a idade, as habilitações ou os rendimentos, mas também face à atractividade e a um conjunto de atributos dos campos de golfe. Nos pontos seguintes procede-se a uma caracterização dos “Golfistas” no Algarve, recorrendo à análise dos inquéritos directos realizados à procura e às fontes estatísticas que permitam extrapolar conclusões pertinentes nestes domínios. No que se refere à oferta, face ao reduzido tamanho do universo em estudo, 27,5 campos de golfe situados na região e à importância de recolhermos a opinião e dados de todos os empresários do sector, optou-se por analisar todos os elementos do universo. Uma vez que a recolha de informação junto dos empresários não foi muito profícua, em particular nas questões económicas e financeiras, foram realizadas um conjunto de entrevistas pessoais e dirigidas aos stakeholders do sector. O principal objectivo destas entrevistas era inferir a rendibilidade do negócio e as condições de exploração das empresas existentes, bem como as perspectivas de evolução futura. Foram contactadas mais de 50 entidades, incluindo empresas nacionais e internacionais do sector, administração regional, autarquias, agências de desenvolvimento local, associações de defesa do ambiente e associações nacionais ligadas ao golfe. II.4.1. A PROCURA DE GOLFE PERFIL DO GOLFISTA A análise do perfil do golfista (cf. Anexo – Estudo Específico sobre a Procura de Golfe no Algarve) resultou de uma análise em que foram privilegiados: a segmentação do mercado, a identificação dos 96 Estudo Sobre o Golfe no Algarve factores de escolha do destino, a que se seguiu uma caracterização geográfica, demográfica e económica. A partir das dezoito opções disponíveis no inquérito, ficaram claramente identificados quatro factores de escolha: o ambiente social associado à prática do golfe; as condições de lazer oferecidas pela região; os campos de golfe e as condições jogo; o preço e a proximidade/acessibilidade. A identificação dos segmentos de mercado foi realizada pela análise de clusters, a qual consiste num conjunto de procedimentos estatísticos que agrupa uma amostra em grupos relativamente homogéneos. Os três clusters identificados e a sua relação com os factores de escolha do destino sugerem a existência de três segmentos de mercado: o turista de golfe, cujas preocupações se centram, nas condições do campo e do jogo, o turista familiar que valoriza o alojamento, a gastronomia, a paisagem, o clima, o preço e as acessibilidades, e, finalmente, o turista sol e praia que, naturalmente, se preocupa com a animação turística (eventos, animação e praias). De um modo geral, o turista do golfe tem um perfil característico. Trata-se de um turismo de nível sócio-económico superior à média. A proporção do montante do rendimento familiar gasto em actividades desportivas ronda 7,13% /ano, contra 6,45% para o turista em geral. Outra das suas características relevantes é que se hospedam maioritariamente em hotéis, aparthotéis e aldeamentos turísticos de 4 e 5 estrelas. Os dados amostrais revelam que os residentes no Reino Unido e na Irlanda originam mais de 74% da procura, seguidos da Alemanha que, apesar do forte decréscimo de turistas desta nacionalidade registado na região, ainda é responsável por 7,3% dos jogadores. Em relação aos dados demográficos, os resultados amostrais permitem-nos concluir que o golfe no Algarve é, predominantemente, uma actividade masculina (77% dos jogadores) e que a idade média dos jogadores é elevada (a proporção de inquiridos com mais de 46 anos de idade é de cerca de 63%). Importa, ainda, destacar que a idade média dos jogadores do segmento turista de golfe é inferior à dos outros segmentos. O golfista pertence maioritariamente (67%) às classes média (B) e alta (A). De salientar que o segmento turista de golfe apresenta, em termos relativos, uma menor proporção de indivíduos da classe operária (C). 97 Universidade do Algarve O golfe constitui uma prática corrente para os golfistas que utilizam os campos de golfe algarvios – praticam-no em média há cerca de 16 anos e jogam pelo menos, cinco vezes por mês. Em média o jogador de golfe permanece no Algarve 9,5 dias, joga 4,5 voltas e faz-se acompanhar no jogo por 3 pessoas. Relativamente aos segmentos de mercado, é de salientar que, tal como seria de esperar, o turista de golfe joga um número superior de voltas. Quanto aos dias de permanência no Algarve, o valor máximo corresponde ao turista sol e praia. No que se refere ao número de anos de prática de golfe, o valor mínimo é assumido pelo segmento turista de golfe - o que, certamente, está associado ao facto deste segmento apresentar uma idade média inferior aos restantes. No que se refere ao alojamento, os turistas que nos visitam para jogar golfe instalam-se, sobretudo, em hotéis (41%), vilas (23%), apartamentos (21%) e em casas próprias (10%). É de destacar que cerca de 21% dos jogadores de golfe com residência na Alemanha utilizam casa própria, proporção apenas superada pelos jogadores de nacionalidade portuguesa (50%). Em termos de segmentos de mercado, é de realçar que o turista de golfe utiliza menos os hotéis e mais apartamentos e vilas que os outros dois segmentos. Em termos comparativos realce, ainda, para o facto do turista familiar apresentar a maior proporção de utilização de casa própria e o turista sol e praia apresentar a maior proporção de alojamento em casas de familiares e amigos. O regime de alojamento que inclui apenas o pequeno almoço é o mais frequente para os praticantes de golfe no Algarve. Segue-se, a grande distância, o regime de meia-pensão, pequeno-almoço e uma refeição (habitualmente o jantar), utilizado, sobretudo, por jogadores provenientes do Reino Unido. O regime de pensão completa é muito pouco utilizado. Os golfistas instalam-se, maioritariamente, no Concelho de Loulé, nas suas zonas de excelência para esta actividade: Vale do Lobo, Vilamoura e Quinta do Lago. Apesar da existência de 4 campos em funcionamento na zona Oriental da região, regista-se que apenas 6 jogadores declararam estar alojados nesta zona - Olhão e Manta Rota. De um modo geral os golfistas utilizam mais do que um campo durante a sua estada - a uma distância média de 12,3 km do alojamento. 98 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Figura II.6. Localização do Alojamento dos Golfistas relativamente aos Campos de Golfe Concelhos Localização dos campos de golfe em funcionamento Localização do Alojamento Fonte: Universidade do Algarve, 2003 O conhecimento pessoal, as brochuras e as referências de familiares e amigos constituem as fontes privilegiadas na recolha de informação. No que se refere aos segmentos de mercado, não existem diferenças significativas entre os mesmos. No entanto, há a realçar que o turista familiar é aquele para o qual a obtenção de informação através de familiares e amigos assume maior relevo. As reservas de alojamento e do campo são, maioritariamente, realizadas em agências de viagens ou directamente. Esta característica verifica-se nos três segmentos de mercado. Os turistas para além do golfe preferem a gastronomia e actividades ao ar livre e desportos. A animação nocturna não surge no quadro de prioridades deste tipo de mercado. II.4.2. OFERTA DE GOLFE NO ALGARVE CARACTERIZAÇÃO GERAL O primeiro campo de golfe no Algarve surgiu em 1966. Recentemente assistiu-se a um crescimento substancial da actividade, sendo que cerca de 45% da oferta de campos de golfe portugueses se localiza no Algarve. Uma região pode ser considerada um destino de golfe se reunir na sua superfície um número mínimo de 5 campos. No Algarve podem identificar-se claramente 3 zonas como potenciais subdestinos de golfe, ainda que com níveis de desenvolvimento diferentes. 99 Universidade do Algarve As zonas identificadas são: a zona Ocidental que compreende toda a linha litoral entre Loulé e Vila do Bispo; a zona Central compreende o concelho de Loulé e a zona Oriental que vai de Faro a Vila Real de Santo António. Por zonas, os campos de golfe começaram a surgir na zona Ocidental e Central (concelhos de Loulé e Portimão). Durante a década de 70 apenas se instalaram campos na zona Central. O alargamento da “mancha verde” para Ocidente só se concretiza nos anos 90, anos em que se registou o maior crescimento de campos de golfe no Algarve. Na década de 00, a tendência mantêm-se, mas apenas para Oriente. Em 2002, o Algarve contava com um total de 495 buracos, com a seguinte distribuição por zonas. Quadro II.23. Quantidade de Buracos por Zonas, 2002 Nº campos equivalentes buracos Zona Ocidental 11,5 207 Zona Oriental 4,5 81 Zona Central 11,5 207 Total 27,5 495 Fonte: Federação Portuguesa de Golfe, 2002 A economia de um campo de golfe é algo complexo e a sua rentabilidade está sujeita a vários factores e condicionantes de um investimento vultoso, os quais podem determinar o fracasso ou o sucesso do negócio do golfe. A localização é fundamental e, no entanto, o preço de terrenos bem localizados pode inviabilizar o negócio. Os factores a considerar para determinar a adequação do solo à implementação de um campo de golfe são: a superfície, a topografia, o tipo de solo e drenagem, a água, o clima, a acessibilidade e a vegetação. A superfície mínima para um campo de golfe de qualidade com 18 buracos é de 50 ha. De um modo geral, os campos de golfe algarvios excedem a área mínima exigida de 50 ha, para um campo de 18 buracos. A topografia óptima corresponde a um relevo adequado, que permita garantir o interesse do jogo, o atractivo visual e a sua conservação. 100 Estudo Sobre o Golfe no Algarve O relevo adequado permite a drenagem natural. O tipo de solo deve permitir o crescimento da vegetação e tornar possível a drenagem. Para a manutenção das boas condições exigidas pelo jogo e para o prolongamento da vida útil do próprio campo, é crucial a existência de um bom sistema de drenagem. Cada um dos campos, possui um sistema diferente de drenagem. Os terrenos onde se encontram implantados os campos são principalmente argilosos. O layout dos campos de golfe normalmente inclui obstáculos de água, lagos, linhas de água, cascatas. Além do impacto visual, estes obstáculos servem também como reservatórios de água para rega das zonas verdes. Os campos que dispõem de reservatórios de água têm em média uma capacidade de 138.900m3 de água. No golfe turístico, o clima e a acessibilidade assumem uma importância fundamental. A arquitectura do campo de golfe deverá ser idealizada por forma “a que seja fácil para os maus jogadores e difícil para os bons” (Mitchell, 1990). Isto é, uma volta não deve levar demasiado tempo, mas também não pode ser demasiado fácil. Pelos dados recolhidos constata-se que, em média nos campos observados, demora-se cerca de 4 horas e 15 minutos a concluir uma volta. Todos os campos apresentam os mesmos tipos de equipamentos excepção seja feita a alguns menos comuns, tais como, clínicas de golfe, academia e chipping area. CAPACIDADE E NÍVEL DE UTILIZAÇÃO DOS CAMPOS DE GOLFE A capacidade de um campo depende de cinco parâmetros nem sempre fáceis de quantificar: traçado, relevo, obstáculos e dificuldade do jogo em geral, tipo de jogadores e modalidade do jogo. Igualmente, a latitude e o clima determinam o número de horas de sol e a quantidade de dias de chuva. Os campos algarvios caracterizam-se por um clima que proporciona um número de horas de sol superior a 2.750 horas/ano, o que permite um elevado potencial na utilização da capacidade instalada, superior a 340 dias/ano. 101 Universidade do Algarve A capacidade potencial de um campo de golfe pode ser estimada através da seguinte fórmula: CP = d * h * s * j Em que: CP - capacidade potencial, em número de voltas/ano; d - número de dias/ano de funcionamento do campo; h - número médio de horas/dia em que se efectuam saídas; s - número de saídas/hora; j - número de jogadores por saída. No cálculo da capacidade potencial dos campos de golfe algarvios considerou-se que: i) funcionam 365 dias/ano; ii) o número médio de horas/dia em que se efectuam saídas é de 5. Este valor foi calculado através de uma média ponderada, assumindo que o número de horas de saídas é de 5 (das 8h às 13h) no Outono e Inverno, de 7 (das 8h às 15h) na Primavera e de 3 (das 8h às 10h e das 16h às 17h) no Verão; iii) o intervalo entre saídas é de 15 minutos, pelo que o número de saídas por hora é de 4; iv) o número de jogadores por saída é de 4. Donde: d = 365 ; h = 5 ; s = 4 ; j = 4 pelo que CP = 365 * 5 * 4 * 4 = 29200 O valor obtido para a capacidade potencial é ligeiramente inferior aos registos históricos máximos para os campos de golfe algarvios - que se situam próximos das 30 000. Tendo por base estes dados, optou-se por considerar 30 000 voltas como valor para a capacidade potencial. 102 Estudo Sobre o Golfe no Algarve II.4.3. AS EMPRESAS ESTRUTURA DE MERCADO As empresas que exploram os campos de golfe no Algarve dividem-se entre sociedades por quotas e anónimas. Os clientes de golfe são de classe média – alta, de sublinhar o peso registado pelos jogadores nacionais na classe de rendimentos elevada comparativamente com os residentes no estrangeiro. O jogador estrangeiro, além de jogar mais vezes por estadia, utiliza mais campos que o jogador nacional. Aparentemente, utiliza a deslocação para conhecer o maior número de campos possível. A ACTIVIDADE O valor médio encontrado nas respostas obtidas para o tempo de início da exploração após o início do investimento, é de seis anos. Isto é, a preparação e construção de um campo ronda os seis anos. No entanto, existem dados relativos aos três empreendimentos situados a Ocidente que apresentam um tempo médio de construção que se cifra nos dois anos. De um modo geral, o negócio do golfe necessita de 6 anos para iniciar a exploração e 8 anos para recuperar o investimento, o que quer dizer que este negócio só começa a ser rentável ao fim de 14 anos. Naturalmente que isto significa que a empresa que se propõe iniciar um negócio deste género necessita de uma situação financeira consolidada, quer pelo avultado investimento, quer pelo prazo elevado de recuperação do investimento. Aspectos que constituem barreiras, à entrada, fortes. Quantificar o volume de receitas efectuadas por jogador e por nacionalidade, permite antever o potencial de mercado. 103 Universidade do Algarve Gráfico II.11. Quantidade de Voltas por Nacionalidade (x1000) 600 500 400 300 200 100 Reino Unido Alemanha Holanda Escandinávia Outros Fonte: Universidade do Algarve, 2003 Verifica-se que o jogador estrangeiro, além de jogar mais vezes por estadia, utiliza mais campos que o jogador nacional. Aparentemente, utiliza a deslocação para conhecer o maior número de campos. FORMAS DE COMERCIALIZAÇÃO O produto golfe é comercializado sobretudo por operadores e por protocolos com unidades hoteleiras. 104 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Gráfico II.12. Percentagem de Reservas por Origem % 50 45 40 35 30 25 20 15 10 5 0 Balcão Agências Viagens Op Nacionais Op Estrangeiros Outros Fonte: Universidade do Algarve, 2003 II.4.4. OS RECURSOS HUMANOS A criação de emprego directo pelo golfe surge das seguintes actividades: instalações próprias, restaurantes e bares anexos ao golfe, comercialização de equipamento desportivo, dormidas dos turistas de golfe nos resorts turísticos e manutenção do campo de golfe. Um campo médio de 18 buracos emprega 30 pessoas. Ao nível regional o golfe representa cerca de 6% do volume de emprego gerado no sector turístico. Ao nível do emprego e a manterem-se as actuais condições de exploração, com o mesmo padrão de qualidade, quanto maior for o número de campos maior é o impacto do golfe na geração de emprego. Quadro II.24. Indicadores de Emprego Directo Unidades Indicadores médios para um campo de 18 buracos Emprego N.º 30 Participação do emprego na região % 0,22% Euros 1.532 Designação Custo médio empregado/campo/mês Fonte: Universidade do Algarve, 2003 Para além destas actividades, o golfe gera emprego directo e indirecto de mais difícil quantificação em outras actividades, como sejam: agências imobiliárias, actividades turísticas não hoteleiras, tais como intermediários turísticos, restaurantes e bares, táxis, agências de aluguer de automóveis sem 105 Universidade do Algarve condutor e comércio, construção de urbanizações e hotéis. O emprego gerado por outras actividades é de valor superior, na medida em que movimenta quase toda a estrutura económica da região. Devido às boas condições atmosféricas é possível manter abertos os campos durante todo o ano, garantia da estabilidade dos empregos gerados. A criação de emprego associada à relativa estabilidade do mesmo, constituem valor acrescentado do golfe para o desenvolvimento económico e social da região. No Algarve o custo médio por empregado no turismo é de 900 euros/mês. Na actividade de golfe um empregado custa em média 1500 euros, o que significa uma remuneração superior à média em cerca de 50%. Facto que indicia melhores condições de exploração e menor rotatividade dos funcionários. II.4.5. IMPACTO ECONÓMICO E FINANCEIRO DA ACTIVIDADE INVESTIMENTO O investimento para a construção de um campo de golfe é proporcionalmente pequeno face ao investimento necessário em urbanizações e hotéis. Um campo de 18 buracos necessita para a sua construção de um mínimo de 50 ha. O preço do solo é normalmente a parte principal do custo. Partes também significativas são o desenho e a construção do campo, que habitualmente requerem um mínimo de 2,5 milhões de euros, custo que varia em função das características do solo e custo dos desenhadores e construtores. O custo do solo, a construção bem como todos os gastos necessários em licenças, infraestruturas, edificação, equipamento e instalações complementares determina um investimento mínimo de 7,5 milhões de euros. No caso dos campos instalados no Algarve, apesar da parca informação recolhida pode estimar-se que o investimento realizado cifra-se já em 195 milhões de euros, do qual os terrenos e o desenho e construção do campo representam mais de 83%. 106 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Quadro II.25. Principais Rubricas de Investimento % Terreno Campo 11,17 Terreno Instalações 0,31 Licenças 0,04 Alteração e Consolidação de Solos 0,80 Infraestruturas de Rega 6,96 Acessos 0,44 Edificações 4,41 Maquinaria 3,37 Desenho e Construção do Campo Outros Investimentos 72,18 0,33 Fonte: Universidade do Algarve, 2003 Este investimento tem um efeito induzido nos sectores a montante e a jusante, sendo de particular relevo a construção e obras públicas. EQUILÍBRIO FINANCEIRO No ano de 2002 o turismo gerou uma receita de cerca de 1 462 milhões de euros, foi o Algarve e a Costa de Lisboa, as regiões com maior peso no total das receitas. O golfe é responsável por uma percentagem significativa da receita total gerada pelo Algarve. Note-se que não são os campos de golfe os principais beneficiários do turismo de golfe. A componente principal do gasto corresponde às despesas extra-hoteleiras, formadas pelos gastos realizados em restauração e bebidas, aluguer de carros, táxis, espectáculos e outras animações, excursões e souvenirs. A segunda componente corresponde à viagem e ao alojamento, a qual é contratada no país de origem, pelo que só uma parte deste gasto reverte para Portugal. Finalmente surgem os gastos directamente ligados ao golfe que geralmente representam cerca de 25% dos gastos totais. Considerando a estrutura da receita gerada pelos turistas não existe dúvidas que o Golfe é um elemento gerador de importantes economias externas repercutindo-se fundamentalmente na restauração e bebidas, no alojamento e no comércio local. Estima-se que o golfe possa gerar no Algarve uma receita média ano de 48,6 milhões de euros. 107 Universidade do Algarve Ascendendo os custos de exploração a aproximadamente 2 milhões de euros, é possível antever os efeitos deste volume de gastos no quadro económico regional. O sector de serviços e o emprego surgem como os principais beneficiários desta actividade. Atendendo a que o nível de qualificação do pessoal se centra no ensino básico, pode assumir-se que esta seja uma das vias para resolver o problema do desemprego. A RENDIBILIDADE DO NEGÓCIO Uma análise acurada do funcionamento do mercado permite identificar claramente três modelos de exploração do negócio do golfe: 1.º - Surge com os primeiros campos na década de 60 como âncora do negócio imobiliário, a existência de um campo de golfe tornava as habitações de férias mais aprazíveis, era pois apenas um elemento de “decoração”. As casas eram vendidas com títulos de direito de utilização dos campos. As grandes consequências foram um comprometimento do campo da ordem dos 50%, um efeito especulação que fez subir não só o preço do alojamento mas também o dos terrenos. O negócio imobiliário é um negócio com uma rendibilidade elevada mas extremamente circunscrito no tempo e no espaço, após esgotar o stock, o negócio termina e a rendibilidade dilui-se; 2.º - Um segundo modelo de desenvolvimento surge associado ao Hotel e ou Aparthotel, naturalmente que o golfe, porque tem uma sazonalidade inversa à verificada para o turista sol e praia, constitui um excelente catalisador da procura turística. Neste caso os campos de golfe surgiram para melhorar as taxas de ocupação dos hotéis associados, que chegam a atingir taxas de ocupação da ordem dos 80%. O negócio é o hotel e não o campo de golfe; 3.º - O último modelo resulta da exploração do campo independente do alojamento. Os indicadores de rendibilidade recolhidos demonstram a viabilidade do negócio em qualquer uma das situações. O actual modelo de desenvolvimento adoptado no Algarve conta com 5 campos que dispõem de alojamento associado, 60% dos quais são servidos por hotéis de 5 estrelas, com uma dimensão média de 296 camas (valor modal) e um desvio padrão de 73,5. A maioria dos campos estão envolvidos por empreendimentos turísticos, no entanto, a gestão dos campos e dos empreendimentos é autónoma. 108 Estudo Sobre o Golfe no Algarve No quadro seguinte apresentam-se alguns dos indicadores económico-financeiros utilizados para avaliar a rendibilidade do negócio do golfe, passíveis de serem comparados com a hotelaria. Conclui-se que o golfe é uma actividade rentável e com uma performance económico-financeira muito próxima da alcançada pelos estabelecimentos hoteleiros. Quadro II.26. Indicadores Económico-Financeiros Actividade Golfe Hotéis Euros 47,94 33,58 Rendibilidade das vendas % 37 7,0 Pessoal ao serviço nº 825 9.657 75.318 39.450 Euros 37.966.555 26.782.675 % 25 29 Preços médios Produtividade média por unidade Euros/Ano de exploração Cash flow de exploração Custos com pessoal Fonte: Universidade do Algarve, 2003 e INE, Estatísticas das empresas 2000. Uma análise cruzada do quadro permite ainda verificar que a rendibilidade das vendas de voltas de golfe é bastante superior à rendibilidade dos hotéis, o peso da mão de obra é sensivelmente o mesmo. Um cash flow superior ao gerado na hotelaria em 1,41 vezes demonstra um efeito alavanca na economia regional bastante elevado. II.4.6. MATRIZ DE INDICADORES DO NEGÓCIO DO GOLFE O mercado do golfe pode caracterizar-se como um mercado que funciona em condições de concorrência monopolística, o esforço de diferenciação e a relativa concentração de mercado num conjunto de empresas justifica o modo de funcionamento deste mercado. Apesar do esforço de diferenciação das empresas em laboração, existe a consciência de que esta situação é temporária, pois a procura também apresenta condições de funcionamento muito peculiares. O equilíbrio entre a oferta e a procura pode ser caracterizado por um conjunto de indicadores que permitem medir a viabilidade e a sua sensibilidade a variações da oferta e da procura. 109 Universidade do Algarve Quadro II.27. Indicadores de Competitividade e Sustentabilidade para o Negócio do Golfe no Algarve Domínio de Análise Indicadores Competitividade Caracterização Empresarial EconómicoFinanceiros Designação N.º de campos equivalentes a 18 buracos Unidades 27,5 Gasto médio por volta Euros 121 Preço médio por volta Euros 61 Receita média directa ano por campo de golfe Euros 3 721 521 Custo variável médio por campo de golfe Euros 722 626 nº de voltas 17 502 Euros 42 nº de voltas 7 796 % 12 VAL (Valor Actual Líquido) Euros 652 446 Prazo Médio Recuperação do Investimento Anos 8 anos e 3 meses Unidades 0,92 % 37 Limiar de rendibilidade Gasto médio mínimo Limiar de encerramento TIR (Taxa Interna de Rendibilidade) Rácio Custo Benefício Rendibilidade das vendas 110 Unidade de medida Estudo Sobre o Golfe no Algarve Quadro II.27. Indicadores de Competitividade e Sustentabilidade para o Negócio do Golfe no Algarve Domínio de Análise Indicadores Efeitos económicos – Investimento Designação Investimentos Directos 10 6Euros 7,5 Investimentos Induzidos 10 6Euros 3,5 10 6Euros 2,2 % 33 % 29 VAB Empresas % 38 Emprego Nº 30 Participação do emprego na região % 6 Euros 1 532 Peso dos campos no VAB da região % 0,07 Coeficiente capital/produto Nº 0,3 Taxa Interna Social % 22 Coeficiente capital/emprego Euros 250 000 Produtividade Média Euros 75 318 % 44 Efeitos em VAB termos de valor VAB Famílias acrescentado VAB Estado Efeito em termos de emprego Custo médio empregado/campo/mês Efeito Social Efeito Distributivo Efeito no desenvolvimento regional Unidade de medida Necessidades de alojamento Camas 150 111 Universidade do Algarve 112 Estudo Sobre o Golfe no Algarve CAPÍTULO III IDENTIFICAÇÃO DAS ÁREAS PROBLEMA A análise da situação do golfe no Algarve permitiu detectar, em cada uma das áreas, elementos de sustentabilidade, mas também situações que podem constituir problemas, quer a curto prazo, quer de natureza mais estruturante. A sustentabilidade de uma actividade humana requer uma integração entre os elementos económicos sociais e ambientais e requer igualmente que as empresas para serem sustentáveis tenham de ser competitivas. Tendo em conta estas premissas, foram identificadas ao longo do capítulo anterior áreas-problema, entendidas como elementos que podem dificultar o desenvolvimento sustentável do golfe na Região do Algarve. Algumas dessas áreas-problema podem ser ultrapassadas no curto prazo e sem custos, outras, porém, exigem uma reflexão estratégica mais aprofundada. Será na óptica de cada um dos domínios estudados que são apresentados os problemas inventariados. III.1. NA ÓPTICA DA SUSTENTABILIDADE ECONÓMICO-SOCIAL E INSTITUCIONAL Os desafios da indústria do golfe na economia regional do Algarve, enquadram-se numa múltipla perspectiva, na qual a dinâmica da actividade na região interage com um território e recursos onde a escassez é característica dominante. Como analisado nos pontos prévios, o golfe à semelhança das restantes actividades turísticas, constitui já hoje um (sub)sector incontornável em termos económicos na região, gerando mais valias directas e efeitos indirectos que afectam toda a sociedade. O desafio que emerge no produto (é comum às próprias preocupações à escala planetária), consiste na compatibilização e orientação de um crescimento que gera outputs de bem-estar e riqueza, com a utilização racional e duradoura dos inputs de produção do golfe, por forma a sustentar no tempo, no espaço e de forma participada o seu processo de desenvolvimento. No turismo e com particular incidência no golfe, este desafio da sustentabilidade é maximizado pela íntima relação com os recursos naturais, cuja conservação é condição necessária para a prossecução de uma relação positiva entre a economia e a ecologia, da qual depende a evolução do próprio produto. Um território degradado reduz a atracção turística, mas um património natural preservado e 113 Universidade do Algarve valorizado é uma vantagem competitiva, sobre a qual as acções de promoção turística não se cansam de insistir. É este o paradoxo do turismo e do produto golfe, quanto melhor sucedido for um local na oferta de um ambiente agradável para férias e lazer, mais visitantes atrairá e maior será o potencial de impactes negativos na qualidade ambiental do destino. Aos ganhos proporcionados pelas economias de escala do lado da produção, opõem-se as perdas e riscos associadas ao decréscimo marginal da mais valia económica e social por unidade de golfe consumida no território. O ponto de equilíbrio entre estes “dois lados” do paradoxo é o desafio que importa resolver. Na temática da sustentabilidade, é hoje consensual que a sua prossecução depende da acção conjunta sobre quatro domínios inter-relacionados: economia, ambiente, social e institucional. O domínio ambiental é objecto de análise detalhada noutro ponto do Estudo, focando o presente texto alguns tópicos sobre as áreas problema detectadas em matéria económico-social e institucional. Em termos gerais e tendo presente o diagnóstico efectuado ao longo do ponto 2.1, consideram-se os seguintes aspectos como os principais a ter em atenção na resolução dos problemas do desenvolvimento sustentável do produto na região: • O produto golfe tem crescido a ritmos superiores aos registados noutras variáveis do sector do turismo, quer em termos de oferta quer em termos de procura. Esta dinâmica, reconhecida pelos documentos de estratégia regionais, conferem o devido posicionamento e relevância ao produto mas não devem proporcionar uma situação de sobreinvestimento, pois outras variáveis, quer internas ao próprio golfe como por exemplo a comparação das taxas de crescimento marginais anuais da oferta e da procura, quer variáveis exógenas como por exemplo as relações com as restantes áreas concorrentes e com a própria economia do turismo e território, colocam questões no domínio da estratégia da sustentabilidade e mais valia regional que importa monitorizar cuidadosamente. • Em 2001 face ao ano anterior, o crescimento do número potencial de voltas situou-se ligeiramente acima dos 14%, taxa que face ao número de intenções em projecto, tende a manter-se elevada nos próximos anos. Neste mesmo período, a variação anual da procura é de apenas 1%. Este intervalo de 13 pontos percentuais face à oferta, a manter-se, poderá ser preocupante em termos de perspectivas futuras para o desenvolvimento do mercado do produto de golfe, dada a potenciação de uma oferta que pode não encontrar nas actuais condições internas e externas, ritmos de procura equivalentes. Este é um aspecto que importa detalhar em termos futuros, não só no sentido de identificar causas endógenas e exógenas do comportamento da procura, mas também monitorizar de forma 114 Estudo Sobre o Golfe no Algarve prospectiva os possíveis impactes na estrutura de negócio e na indústria do golfe na região, nomeadamente políticas de preços e produção na óptica dos benefícios e mais valias regionais. • Uma eventual política de baixos preços (do golfe) num produto cuja época alta já coincide com uma época de menor preço do alojamento, não se afigura consentânea com uma região que se tem afirmado internacionalmente com base na excelência dos seus campos, alguns entre os melhores da Europa e do Mundo, dificilmente compatíveis com uma possível estruturação da oferta baseada na massificação do produto. Os preços médios praticados pelas empresas, verificaram entre 1999 e 2002 um crescimento global na ordem dos 7% a 9% ao ano para os preços médios ao balcão e operadores. Claramente acima da taxa de inflação e num período que já incorpora a tendência de valorização do euro face à libra (moeda dominante da procura), esta evolução positiva traduz uma valorização económica do recurso golfe que importa assinalar e procurar manter interna às estratégias de desenvolvimento do produto na região. • Em termos de efeitos indirectos, urge ainda quantificar em termos de alojamento a dimensão económica das segundas residências (e respectiva classificação de um ponto de vista turístico), pois o seu peso na estrutura de acolhimento do turista de golfe não é negligenciável. Este facto é ainda mais relevante numa região que se vai afirmando como uma área de resort por excelência, cuja compatibilização com os meios de alojamento tradicionais não constitui um problema mas sim uma oportunidade de sustentação. • Este conjunto de desafios constitui hoje uma preocupação que importa internalizar pelos agentes com responsabilidades na gestão e planeamento do sector na região (e no país). A promoção e qualificação do produto como prioridade na actuação das entidades públicas, deve ter um equivalente na parceria com o sector privado (de que é exemplo o Plano de Promoção Conjunta do Golfe), resultando desta cooperação uma mais valia para a qualidade do destino e respectiva comercialização. • Finalmente, referira-se que este tipo de monitorização económica deverá constituir um instrumento válido para o desenvolvimento sustentável do sector. A sua produção periódica em parceria público/privado, deve disponibilizar informação de apoio aos processos de decisão na evolução do produto e dos seus impactes na região, em particular para os agentes com responsabilidades no turismo e em particular no produto golfe desportivo. 115 Universidade do Algarve III.2. NA ÓPTICA DO AMBIENTE No sentido de complementar a análise da sustentabilidade do sector do golfe, consideraram-se dois tipos de problemas de incidência ambiental sobre os quais importa reflectir: • áreas críticas (relacionadas com os problemas de desempenho ambiental dos campos de golfe, ao nível da gestão interna dos aspectos ambientais da actividade); • problemas estruturantes (de carácter institucional, relacionados com a posicionamento externo do golfe em relação aos instrumentos de gestão do território). ÁREAS CRÍTICAS A melhoria do desempenho ambiental dos campos de golfe depende do levantamento dos aspectos ambientais relacionados com a actividade. Os aspectos ambientais do golfe devem ser entendidos como quaisquer elementos desta actividade que possam interagir com o ambiente. Estes aspectos podem dividir-se em aspectos operacionais e aspectos de gestão. Os primeiros relacionam-se com o desempenho ambiental das diferentes operações e actividades do golfe, enquanto que os segundos dizem respeito aos esforços dos gestores na implementação de medidas que permitam melhorar o seu desempenho ambiental. Com base na informação resultante do diagnóstico da situação de referência das incidências ambientais do golfe sintetizada no capítulo anterior, apresentam-se em seguida as principais áreas críticas relacionadas com o desempenho ambiental dos campos de golfe. A definição de um sistema de indicadores ambientais para o golfe constituiu uma ferramenta essencial para a prossecução deste objectivo. ASPECTOS AMBIENTAIS OPERACIONAIS As operações e actividades cujo desempenho ambiental se apresenta como crítico, mas que pode ser melhorado mediante a adopção de boas práticas e das melhores tecnologias disponíveis, incluem os seguintes aspectos operacionais: • o consumo de água para rega; A par do problema da quantidade extraída considera-se crítico o facto de a origem do abastecimento depender, em muitos campos, da captação de águas subterrâneas. Dada a 116 Estudo Sobre o Golfe no Algarve problemática associada à exploração destes recursos, a reutilização de águas residuais na rega (consagrada no art.º 19 e 32 do Plano de Bacia Hidrográfica das Ribeiras do Algarve (INAG 2000) e na medida 49 do Plano de Uso Eficiente da Água (INAG 2001)), surge como medida preventiva de questões ligadas à sobreexploração de aquíferos (nomeadamente a intrusão salina). • o consumo de fitofármacos e de fertilizantes; Considera-se essencial que os campos de golfe associem o controlo das quantidades consumidas com a informação sobre as quantidade de nutrientes aplicadas (no caso dos fertilizantes) e ainda que se proceda a um controlo integrado dos produtos químicos utilizados nas operações de manutenção dos campos. • o consumo de electricidade e de combustíveis; O recurso a fontes de energia renováveis, nomeadamente solar, para os buggies, considera-se uma medida importante, de modo a minimizar os consumos de electricidade e combustíveis, bem como as emissões de poluentes associadas; • a produção de resíduos verdes; Dada a grande percentagem de resíduos verdes produzidos, considera-se que a compostagem destes resíduos permite não só mitigar o impacte negativo gerado pela produção total, bem como os associados ao elevado consumo de fertilizantes comerciais. • a produção de resíduos perigosos; Constitui por si só um aspecto que importa gerir, face à incerteza da quantidade de resíduos perigosos produzida e ao risco de contaminação associado. • a monitorização dos solos, da qualidade do ar, ruído e qualidade da água; Monitorizar e relatar a qualidade do ambiente deve constituir-se como um procedimento formal e contínuo e informador das acções de gestão tomadas. 117 Universidade do Algarve ASPECTOS DE GESTÃO AMBIENTAL Em resposta às pressões ambientais induzidas pela actividade, os gestores de campos de golfe devem implementar um conjunto de medidas integradas com vista à melhoria do seu desempenho ambiental. As áreas críticas relacionadas com estes aspectos para os campos de golfe do Algarve incluem: • a certificação ambiental de sistemas e programas de gestão; Actualmente apenas 5 campos possuem um sistema de gestão ambiental certificado (de acordo com a Norma IS0 14001), enquanto que 7 campos possuem um programa de gestão ambiental (de acordo com o Committed to Green e com o Green Globe) encontrando-se três campos a implementar programas de gestão ambiental de acordo com o Audubon. O princípio da melhoria contínua do desempenho ambiental está subjacente à implementação destes instrumentos voluntários pelo que estes constituem um bom indicador do grau de comprometimento das organizações para com a gestão ambiental. A esta vantagem acrescente-se ainda o facto de a certificação ambiental facilitar a avaliação de conformidade com a legislação, a definição de uma política ambiental para os campos, o levantamento dos aspectos e impactes ambientais da actividade, a definição de metas quantificáveis e a comunicação dos resultados da gestão a todos os agentes interessados. • Implementação de medidas de conservação da fauna e flora; Mais de metade dos campos avaliados implementou medidas de conservação das espécies de fauna e repovoamento de espécies vegetais autóctones, revelando uma preocupação pela protecção dos valores naturais da região. Entende-se que estas acções devem constituir uma preocupação efectiva de todos os campos. • A sensibilização e educação ambiental; A disponibilização de informação de carácter ambiental e ecológico e a definição de circuitos de interpretação da natureza constituem exemplos de indicadores que permitem avaliar o empenho dos campos na sensibilização e educação ambiental dos visitantes. Um outro exemplo de boas práticas nesta matéria inclui a formação dos trabalhadores. Considera-se que estas acções se apresentam ainda sub-exploradas em muitos dos campos avaliados pelo inquérito realizado. 118 Estudo Sobre o Golfe no Algarve PROBLEMAS ESTRUTURANTES As questões do licenciamento da actividade, da integração dos campos com os instrumentos de gestão territorial, a sua localização e a integração dos aspectos ambientais desde a fase de concepção, constituem alguns dos principais problemas estruturantes do golfe, no que respeita às incidências ambientais. O licenciamento desta actividade é condicionado por um conjunto de diplomas, obrigações e restrições definidas em instrumentos de ordenamento do território e uso do solo. De acordo com o PROTAL, os campos de golfe deverão integrar zonas de enquadramento desportivo definidas em Áreas de Aptidão Turística (AAT), regulamentadas pelos Planos Directores Municipais (PDM) e concretizadas pelos PP e PU. Na ausência destes instrumentos de planeamento, o licenciamento destes equipamentos requer um pedido de autorização prévia de localização à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região do Algarve, referente a instalações desportivas (Decreto-Lei n.º 317/97, de 25 de Novembro). As diferentes incidências ambientais da actividade reflectem-se na necessidade de obtenção de um conjunto diversificado de pareceres, tais como o licenciamento do domínio hídrico e gestão dos resíduos. O requisito legal de avaliação dos impactes ambientais de um projecto de golfe foi introduzido no ano 2000 através do Decreto - Lei n.º 69/2000, de 3 de Maio. À semelhança dos restantes sectores de actividade económica, o golfe ocupa um espaço no território, consome recursos e possui benefícios e custos ambientais que devem ser avaliados à partida. Todos os projectos de campos de golfe situados em áreas sensíveis (que incluem áreas protegidas e sítios da Rede Natura 2000) devem ser sujeitos à avaliação do conjunto de alterações favoráveis e desfavoráveis produzidas em parâmetros ambientais e sociais, resultantes da realização do projecto. Nesta perspectiva, nem os projectos de novos campos devem ser encarados à partida como uma ameaça nem os proponentes devem encarar o ambiente como um custo. A valorização do ambiente deve ser cada vez mais reconhecida como uma oportunidade de negócio, tanto mais que a qualidade ambiental é um dos factores de atractividade para os desportistas. Os conflitos de interesses observados entre os promotores de projectos e os avaliadores dos seus impactes ambientais estão relacionados com a frequente incompatibilidade de benefícios entre o desenvolvimento e a conservação de áreas protegidas e outros tipos de bens públicos. No entanto, o entendimento desta discrepância não deverá colocar-se tanto ao nível do carácter restritivo da legis- 119 Universidade do Algarve lação mas antes na definição de alternativas e esquemas de compensação para as desigualdades criadas pelas diferenças entre as escalas dos benefíciários e pagadores pela conservação dos valores naturais. No Algarve, verifica-se que dos empreendimentos turísticos com campos de golfe associados, que entraram em funcionamento antes do ano 2000, cerca de 16% localizam-se em áreas protegidas e sítios classificados na Rede Natura 2000 e cerca de 20% em Zonas de Protecção Especial. Esta situação reforça a necessidade de continuar a desenvolver sinergias entre os gestores destes campos e os das áreas protegidas, de forma a implementar estratégias eficientes de conservação dos recursos e de prevenção da poluição. A necessidade do reforço da cooperação institucional faz-se sentir igualmente noutras áreas estruturantes tais como a reutilização de águas residuais para rega dos campos. A utilização de água residual tratada proveniente de uma Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) necessita de um contrato/protocolo prévio entre o campo de golfe e as entidades que gerem a ETAR (e.g. um município). O abastecimento será garantido por uma conduta cujo traçado e construção estará a cargo do município, ou de outras entidades, de acordo com o estabelecido entre os intervenientes. Posteriormente, a qualidade da água a utilizar na rega será da responsabilidade dos campos de golfe, tendo esta que cumprir os requisitos necessários para o seu emprego na rega (Decreto-Lei n.º 236/98, de 1 de Agosto). No que respeita à área ocupada por campos de golfe, e respectivos empreendimentos, assiste-se a uma localização preferencial dos campos no litoral dos concelhos situados no Sotavento. Destaca-se o concelho de Loulé pelo facto de apresentar o maior número (11) e a maior área de concelho ocupada por empreendimentos com campos de golfe associados. Registe-se contudo que, de acordo com a informação sobre os novos campos de golfe previstos, verifica-se uma tendência para a exploração de áreas mais interiores e mais dispersas no território algarvio. Refira-se ainda, como aspecto estruturante da actividade, a necessidade de integrar os aspectos ambientais desde o início da fase de concepção e arquitectura dos campos, por forma a permitir a sua máxima integração na paisagem e ao mesmo tempo facilitar a melhoria do desempenho ambiental das operações na fase de exploração. Desta forma, o comprometimento dos gestores com a gestão ambiental dos campos pode ser facilitado através da definição de um plano coerente e orientado por metas e objectivos ambientais bem definidos e entendidos por todos os agentes relacionados com a organização. 120 Estudo Sobre o Golfe no Algarve III.3. NA ÓPTICA DA GESTÃO DAS PRÁTICAS AGRO-AMBIENTAIS Os principais aspectos que devem ser considerados para a defesa da qualidade das águas superficiais e subterrâneas, no âmbito da implantação de campos de golfe serão aqueles que são susceptíveis de existir entre fertilizantes, produtos fitossanitários e certas formas de poluição do solo por se basearem numa forma intensiva da exploração da terra. Nestas condições a gestão dos recursos hídricos deve ser orientada e baseada nos seguintes aspectos: conservação dos recursos hídricos, reutilização de águas residuais, eficiência de rega, manutenção dos lagos, controlo da contaminação – uso adequado de fertilizantes e pesticidas. Na agricultura, em campos de golfe e em espaços verdes de lazer, uma atenção especial deverá ser prestada à rega, por meio da aplicação de sistemas de rega mais adequados e pela utilização de águas residuais depuradas como alternativa, tanto mais que o período de rega coincide com a maior produção de efluentes como consequência do aumento da população flutuante no Verão. Considerando para o habitante-equivalente médio uma produção de efluente de 160 L diários, nos seis meses que constituem a época alta, período este que coincide com as necessidades de rega mais elevadas, o caudal máximo teórico disponível de água residual no Algarve aproxima-se dos 18 x 106 m3 por ano (Águas de Portugal-Ambio, 2001) ou seja o necessário para suprir as necessidades de rega de um máximo de 44 campos de golfe em situação normal. Três aspectos importantes deverão ser tomados em consideração: • O primeiro aspecto refere-se ao uso de técnicas culturais evoluídas, no sentido de aumentar a eficiência da rega para promover uma maior economia de água. • O segundo aspecto diz respeito ao facto de as águas residuais poderem desempenhar um papel importante como fontes alternativas de abastecimento de água e de nutrientes, devendo libertar recursos hídricos de melhor qualidade para outros fins mais exigentes. • O terceiro aspecto refere-se à origem da água. Verifica-se que as águas subterrâneas estão a ser utilizadas em excesso (problemas de contaminação salina gradual das águas e do solo), enquanto que as águas de superfície, de muito melhor qualidade, são subaproveitadas. A variação da dotação de rega total anual (m3/ha) verificada ao nível do consumo de água nos vários campos, no mês de Julho (mês de máximas exigências hídricas), pode dever-se ao facto dos campos estarem em locais sujeitos a microclimas diferentes (desde o Sotavento ao Barlavento); 121 Universidade do Algarve diferenças nas características edafo-climáticas e do relevo do próprio campo e sistema de rega utilizado. Quanto a análises da salinidade da água de rega, verifica-se que as amostras são recolhidas em épocas diferentes, tornando assim difícil a realização de estudos comparativos. Através dos valores das análises efectuadas, será de temer salinização dos solos e/ou contaminação de aquíferos em dois dos campos de golfe (ECw > 2250dS/m), em cinco outros campos poderá haver problemas (2250 < ECw < 750dS/m), e finalmente nos três restantes não é de temer contaminação salina ECw < 750dS/m. Uma das consequências nefastas da aplicação de adubos na agricultura intensiva associada à rega pode ser também a salinização gradual dos solos e das águas subterrâneas. Os cloretos encontram-se presentes em todas as águas naturais com grande amplitude de concentrações. Para contrariar o processo de salinização provocado pela rega têm-se utilizado quatro técnicas: • Problemas relacionados ao nível radicular por meio de lixiviação do solo – duas opções podem ocorrer – quando ocorre um horizonte impermeável, os sais concentrar-se-ão acima desse horizonte; por outro lado, quando não existe horizonte impermeável, pode ocorrer contaminação do aquífero; • Uso de rega gota a gota enterrada – economia de água e por conseguinte menos sal adicionado; contudo, o problema da contaminação da água subterrânea subsiste, devido à chuva ou a lixiviação provocada; • A fertilização aumenta a tolerância das plantas à salinidade, mas por outro lado pode provocar poluição como acontece com o nitrato; • Utilização de culturas tolerantes à salinidade – esta técnica é muito eficiente em relação às culturas, mas não resolve o problema da contaminação do solo e das águas subterrâneas. A fertilização que é efectuada nos campos de golfe permitiu-nos observar que se distingue entre a que é efectuada à instalação e a que é necessária para a manutenção e, num e noutro caso, entre as zonas da exploração intensiva que deve ser merecedora de maiores cuidados na utilização fundamentalmente dos adubos azotados. Neste sentido, supomos que convirá, obviamente, não exagerar o uso de fertilizantes e ter presente que o interesse económico e social dos campos de golfe permite, 122 Estudo Sobre o Golfe no Algarve com certeza, pelo menos nas zonas “nobres” aumentos de encargos, tais como um maior fraccionamento dos adubos azotados que são aplicados com maior frequência deverá, tanto quanto possível, ser efectuado através de fertirrega para garantir uma melhor gestão ambiental. Neste sentido, a fertirrega contribuirá para uma melhor racionalização do uso dos fertilizantes, pelo facto da sua aplicação ser efectuada nas quantidades suficientemente necessárias para o crescimento dos relvados, evitando assim perdas por lixiviação. Dadas as características particulares deste tipo de exploração, as potenciais agressões ambientais causadas pela aplicação de determinadas quantidades e tipos de fertilizantes nos campos de golfe podem ser praticamente nulas por se verificar um predomínio de gramíneas e de estas serem dotadas de elevada aptidão de absorverem principalmente o azoto, permitindo deste modo que a maioria dos nutrientes se acumule menos nos solos e, por tal motivo, seja menos provável que vá poluir as águas de superfície e subterrâneas. De facto, não pode negar-se a possibilidade de os fertilizantes (ex.: nitratos e fosfatos) e pesticidas, quando aplicados aos solos que suportam os campos de golfe, poderem causar certas formas de poluição susceptíveis de serem transferidas para as águas; no entanto, é fácil demonstrar que tais fenómenos podem ser contrariados, ou mesmo eliminados desde que a aplicação dos fertilizantes e produtos fitossanitários, em termos de quantidade e, de épocas e de técnicas de aplicação, seja correctamente adaptada a este condicionalismo. III.4. NA ÓPTICA DO NEGÓCIO O PONTO DE VISTA DOS CONSUMIDORES A identificação das áreas problema começa por sistematizar as percepções da oferta e da procura. Na óptica do consumidor, os pontos fortes percebidos são os atributos do campo e o clima. 123 Universidade do Algarve Quadro III.1. Pontos Fortes e Fracos na Óptica do Consumidor Pontos Fortes Pontos Fracos Áreas Críticas Design campo Preço Sobrecarga dos campos existentes (Mais Campos/Redução nº jogadores; Só Jogadores C/ Handicap) Manutenção/Qualidade Demasiados jogadores Preço/Qualidade (Redução do Preço; Gestão/Manutenção) Clima Elevada Temperatura/Vento Diversificação e promoção (Programas para Jovens; Mais Marshals no Campo; Melhor Sinalética; Mais Informação) Beleza/Paisagem Jogadores com handicaps altos Fonte: Universidade do Algarve, 2003 Os pontos fracos não se correlacionam com as condições do campo, mas sim com a sua taxa de ocupação e com o preço. A partir das sugestões indiciadas pelos consumidores identificam-se claramente três áreas críticas: A saturação dos campos; o binómio preço/qualidade e a diversificação e promoção. A preocupação existente com o preço e com o overbooking dos campos existentes, sugere a necessidade de mais campos, quer para forçar a diminuição do preço, quer para aliviar a sobrecarga dos existentes. O PONTO DE VISTA DOS EMPRESÁRIOS Com base na percepção que os gestores possuem das principais críticas e dos principais pontos favoráveis dos seus campos na óptica dos seus clientes, identificam-se os pontos fortes e fracos, bem como as áreas criticas na óptica do empresário. 124 Estudo Sobre o Golfe no Algarve Quadro III.2. Pontos Fortes e Fracos dos Campos na Óptica do Empresário Pontos Fortes Pontos Fracos Áreas Criticas Paisagem Construção Imobiliária/ Ambiente Layout Jogo Lento na Estação AltaJogadores com altos handicaps Saturação dos campos Manutenção Greens Difíceis; Demasiados Obstáculos Água, Fairways Estreitos Design dos campos Localização Acessibilidades, Estradas Localização/ Acessibilidades Fonte: Universidade do Algarve, 2003 De reter a acessibilidade como um dos principais pontos fracos em contrapartida do layout e da paisagem como principais pontos fortes. As grandes áreas problema percebidas pelos empresários centram-se em três grandes domínios: localização e acessibilidades (estradas); problemas de rentabilização do negócio, (a imobiliária associada e o seu impacto em termos de paisagem) e o design dos campos, de um modo geral os campos de golfe apresentam um layout conivente com campos de alta competição, afastando assim, o turista comum que utiliza o golfe como actividade complementar ao lazer. Na óptica da rentabilização do negócio identificam-se no quadro seguinte um conjunto de obstáculos ao investimento. Quadro III.3. Obstáculos ao Investimento N Média Moda Desvio Padrão Desadequação dos sistemas de incentivos 12 3,00 3,00 0,85 PROTAL/PDM 12 2,92 1,00 1,56 9 3,11 4,00 1,62 Desadequação da estratégia de promoção do turismo de golfe no Algarve 10 3,00 3,00 1,15 Elevado período de recuperação do investimento 12 2,83 2,00 1,34 Legislação ambiental 12 2,25 1,00 1,54 9 3,67 3,00 1,32 12 67,25 99,00 46,91 Escala: 1 mau...5 sem importância Elevada concorrência Barreiras à entrada Outros Fonte: Universidade do Algarve, 2003 125 Universidade do Algarve Os principais obstáculos ao investimento surgem relacionados com a legislação ambiental portuguesa e os planos de ordenamento do território. Nas preocupações dos investidores surgem ainda os sistemas de incentivo, que se encontram desadequados, o elevado período de recuperação do investimento e a estratégia promocional do país e em particular da região. OS PROBLEMAS ESTRUTURANTES A dinamização da actividade do golfe na região pressupõe: • Uma maior dinâmica ao nível das infraestruturas de apoio regionais e, em particular, dos transportes internos; • Programas de promoção conjunta do Algarve em mercados diversificados, por forma a aligeirar a concentração da quota de mercado nos países habituais; • A flexibilização burocrática dos programas de incentivos e dos processos de licenciamento dos campos; • A diversificação de mercados para, captar novos segmentos que de alguma forma aliviem a sazonalidade do golfe e permitam utilizar o campo nas horas e dias de menor saturação; • Manter o binómio qualidade/preço. III.5. AS EXPECTATIVAS DOS S TAKEHOLDERS QUANTO AO FUTURO DO GOLFE NO ALGARVE No sentido de introduzir neste Estudo um dos pilares da governação sustentável - a consulta e participação dos interessados nos processos de planeamento e gestão - realizou-se um conjunto de entrevistas junto dos empresários do sector e outros agentes relacionados, de alguma forma, com a actividade do golfe. Foram contactadas mais de 50 entidades, incluindo empresas nacionais e internacionais do sector, administração regional, autarquias, agências de desenvolvimento local, associações de defesa do ambiente e associações nacionais ligadas ao golfe. Apresentam-se em seguida, uma síntese das ideias-chave recolhidas, na perspectiva da economia regional, do negócio e do ambiente. O número de campos de golfe passíveis de instalação na região, na óptica dos stakeholders, seria de 20 sem restrições ambientais e de 40 com restrições ambientais. Como justificações principais, são 126 Estudo Sobre o Golfe no Algarve apontadas razões de ordem comercial, reforço do posicionamento internacional da região e de ordem promocional da modalidade. Os novos empreendimentos necessitariam de manter elevados níveis de qualidade bem como de hotéis de 4 e 5 estrelas associados, em média seriam necessários mais 20 hotéis. Quanto à perspectiva de instalação de campos municipais, existe uma clara divisão de opiniões entre os entrevistados. Os defensores desta opção defendem que este seria um veículo para promover a prática da modalidade junto das populações. Para tal, sugerem a criação de campos essencialmente de treino, distribuídos pelas zonas Ocidental, Central e Oriental do Algarve, que não impliquem custos elevados para as autarquias nem criem situações de desvantagem competitiva face às restantes empresas do sector. Os entrevistados com opinião contrária à implementação de campos municipais referiram que não cabe às autarquias a criação e gestão deste tipo de infra-estruturas, que existem outras carências prioritárias de equipamentos desportivos na região, que poder-se-ía observar um decréscimo da qualidade da oferta e que o mercado do golfe é suficientemente competitivo para que seja necessária uma intervenção do Estado e das autarquias na disseminação e desenvolvimento da actividade. A análise das respostas obtidas junto da concorrência espanhola permitem concluir que é expectável uma tendência expansionista na região da Andaluzia. No entanto, é interessante realçar que o mercado de golfe Algarvio é entendido como sendo de elevada qualidade, situação que já não se verifica na globalidade desta região vizinha. Esta situação foi considerada como uma vantagem competitiva para o Algarve. Foi ainda referido que é esperado um contínuo aumento da procura, motivado pelo aumento de jogadores dos mercados emissores, em especial do Norte da Europa. No que respeita ao processo de licenciamento em Espanha, este é considerado excessivamente burocrático, segue a reboque do desenvolvimento urbanístico, registando-se uma forte necessidade de um planeamento integrado para a região. Na opinião de metade dos empresários entrevistados no Algarve, o consumo elevado de água e as más práticas de gestão associadas ao uso excessivo de fertilizantes e fitofármacos, são apontados como os principais impactes ambientais negativos de um campo de golfe. Em termos de impactes positivos, todos os empresários referiram a criação de novos ecossistemas e a conservação de espécies. 127 Universidade do Algarve Dos restantes stakeholders entrevistados, cerca de 10% refere que as actividades associadas aos campos de golfe só representam impactes positivos no ambiente (e.g. requalificação de zonas degradadas, menores necessidades de água, pesticidas e fertilizantes comparativamente à agricultura), enquanto que 90% considera que a sua implementação e exploração, gera impactes negativos (e.g. o elevado consumo de água, a localização geográfica dos campos e os aspectos estruturantes associados à sua implementação, a alteração e artificialização da paisagem e a transformação do uso do solo). Quanto a um possível efeito cumulativo destes impactes ambientais negativos com a implementação de novos campos de golfe, 20% dos stakeholders considerou que existirá um agravamento da qualidade ambiental, nomeadamente no que se refere à exploração dos recursos naturais (e.g. pressão sobre os recursos hídricos), sendo que 15% considerou que esse agravamento será dependente do número de campos a implementar. Os restantes inquiridos consideraram que a qualidade ambiental não diminuirá se for considerado um conjunto de pressupostos, nomeadamente, o uso conjunto de diferentes fontes de água, nomeadamente residual e superficial, a distribuição uniforme dos campos por todos os concelhos da região e a realização de estudos de carácter ambiental que possibilitem o conhecimento dos impactes, a implementação de medidas de monitorização e a existência de entidades fiscalizadoras do cumprimento dessas medidas. Relativamente aos processos de implantação e licenciamento dos campos, os empresários referiram como principais dificuldades sentidas, a burocracia associada ao elevado número de entidades envolvidas, a falta de informação destas entidades sobre o modo de estruturar todo o processo, emitindo muitas vezes informações contraditórias e os períodos de tempo muito alargados para emissão de pareceres. Neste sentido, reforçaram a necessidade de criar uma entidade coordenadora, que facilite o controlo e acompanhamento dos processos, desde a fase de projecto à fase de implementação e exploração de um campo de golfe. Em contrapartida, a maioria dos restantes stakeholders entrevistados considerou que os recursos ambientais são actualmente salvaguardados pela existência de várias entidades responsáveis pela emissão de pareceres e pela existência de legislação rigorosa. Alguns referiram, no entanto, que as pressões económicas bem como a ausência de monitorização e de alternativas de localização nos projectos sujeitos a Estudo de Impacte Ambiental, contribuem para a não salvaguarda dos recursos. Refira-se ainda que dois dos empresários inquiridos, sugeriram a definição de zonas específicas para implementação de campos de golfe nos diferentes instrumentos de ordenamento do território, 128 Estudo Sobre o Golfe no Algarve de modo a possibilitar um conhecimento prévio das zonas possíveis de implementação, por parte dos investidores e facilitar a emissão dos pareceres, por parte das entidades envolvidas. A este respeito, a opinião dos restantes stakeholders permite acrescentar que os critérios ambientais condicionantes à implementação de um campo de golfe deveriam incluir, essencialmente, a localização dos campos, o consumo de água e a conservação da natureza. A implementação preferencial dos campos de golfe deveria ser próxima de áreas urbanas (de modo a expandir o “verde urbano” e a valorizar áreas suburbanas) e deveria permitir a descentralização dos campos para o sotavento e barlavento algarvio. Acrescentou-se ainda que a revisão do Plano Regional de Ordenamento do Território do Algarve (PROTAL) e dos Planos Directores Municipais (PDM) deveriam estabelecer critérios de localização das Áreas de Aptidão Turística (AAT) de modo a salvaguardar os interesses económicos, sociais e ambientais e a minimizar as assimetrias entre o litoral e o interior. III.5.1. MATRIZ SWOT A competitividade do produto golfe resulta das suas vantagens e desvantagens competitivas no ambiente externo e interno. No sentido de identificar claramente, o posicionamento competitivo do Algarve, enquanto destino de golfe apresenta-se neste ponto a já conhecida matriz SWOT, seguida de uma análise de benchmarking que, ainda que limitada, permitiu concluir sobre as vantagens competitivas do destino. A partir da informação acima apresentada, que sintetiza os principais resultados do diagnóstico realizado na primeira fase do Estudo, bem como as opiniões dos empresários e outros stakeholders sobre os principais problemas e desafios para o futuro, foi possível elaborar uma “Matriz SWOT” que integra as forças (Strengths), fraquezas (Weakenesses), oportunidades (Opportunities) e ameaças (Threats) para o golfe no Algarve, sob a perspectiva da oferta, procura, enquadramento regional e ambiente. Nesta análise, as “forças” e as “fraquezas” são entendidas como atributos internos da actividade que podem contribuir, respectivamente, para o reforço ou enfraquecimento da vantagem competitiva sustentável do golfe. As “ameaças” e as “oportunidades” constituem características com implicações externas que, no primeiro caso, ameaçam o desenvolvimento sustentável desta actividade e, no segundo, apresentam uma janela de oportunidade para incrementar a vantagem competitiva do golfe. 129 Universidade do Algarve Quadro III.4. Matriz SWOT (Strenghs, Weaknesses, Opportunities and Threats) Oferta Qualidade dos campos § Atendimento § Diversidade § Gastronomia Procura Região § Forças § Alojamento § Formação § Animação § Massificação da oferta Fraquezas § Sazonalidade § Notoriedade § Short haul § § § § § Concentração nos mercados ingleses e alemães § Mercado Nacional § Preços § § § § § § Acessibilidades Clima Hospitalidade Estabilidade político/social Localização Ligações aéreas Ordenamento Sinalética Comércio Promoção Ambiente § § § § § § § § § § § § Ameaças § Crescimento da oferta em destinos alternativos § Deterioração da qualidade § Dependência do mercado Europeu § Concorrência Espanhola § § § Pressão urbanística § § § § Procura de destinos integrados § Emergência do mercado do Norte da Europa § Redução progressiva da duração das viagens § Penetração no mercado nacional Desporto de contacto com a natureza Reflorestação das áreas dos campos Criação de lagos Criação de zonas corta-fogos Protecção da fauna e flora Requalificação das áreas envolventes Consumo de água Consumo de fertilizantes e fitofármacos Alteração do uso do solo Alteração dos habitats Produção de resíduos Planeamento ambiental Localização em áreas protegidas e/ou sensíveis Risco de contaminação de aquíferos e solos Depleção dos recursos Escassez de água Degradação da qualidade ambiental Pressão urbanística Oportunidades § § Desenvolver no Algarve a “Florida” europeia § § § Facilidade de acesso Complementaridade com o produto sol e praia § § § § § Localização em zonas ambientalmente degradadas Uso de águas residuais tratadas Reciclagem e compostagem de resíduos Monitorização ambiental Certificação ambiental Desenvolvimento urbanístico controlado Fonte: Universidade do Algarve, 2003 A leitura da matriz SWOT permite tirar ilações importantes sobre a forma como deve ser encarado o desenvolvimento do golfe no Algarve e perspectivado o seu futuro. Com efeito: As “forças”, entendidas como condições vantajosas para o incremento da actividade do golfe, residem fundamentalmente nos recursos naturais e ambientais e humanos da Região e no seu adequado aproveitamento como factor de qualidade e de diferenciação; As “fraquezas”, entendidas como factores que podem degradar a qualidade do produto, residem fundamentalmente na falta de capacidade organizativa dos vários agentes envolvidos, na ausência de planeamento e ordenamento do espaço e em comportamentos menos sustentáveis de curto prazo; 130 Estudo Sobre o Golfe no Algarve As “ameaças” são de dois tipos: por um lado, a possibilidade de uma gestão inadequada dos recursos naturais com consequências muito graves para o futuro da actividade e, por outro lado, a concentração da procura num reduzido número de países o que a torna muito vulnerável dificultando um crescimento sustentável da actividade; As “oportunidades” traduzem a capacidade de transformar as ameaças e as fraquezas em factores competitivos da actividade do golfe na Região, através de políticas sustentáveis aos vários níveis: de desenvolvimento regional, de ordenamento do espaço e de eficácia nas decisões sobre o futuro do golfe que são tarefas dos poderes públicos, enquanto do lado das empresas se esperam estratégias voltadas para a sustentabilidade ambiental, para a qualidade do produto e para a afirmação da Região como destino de golfe. A análise que se segue inspira-se também na leitura desta matriz. III.5.2. VANTAGENS COMPETITIVAS As comparações estabelecidas entre o Algarve e as Ilhas Baleares, (cf. Relatório Volume I, pág. 56) mostram um crescimento quase homogéneo ao nível da oferta. Embora o ritmo de aumento do número de voltas vendidas (procura) seja superior nas Ilhas Baleares, o número médio de voltas por campo estabiliza nas 28 800 voltas, enquanto que no Algarve a pressão da procura permite vender, em média, mais 10 000 voltas por campo. Se esta situação for sinónimo de capacidade de instalação de mais campos, então a questão que se coloca é de saber se os outros destinos concorrentes vão acompanhar este crescimento. Um indicador da qualidade dos campos é o número de voltas/ano realizadas. Tomando como base a média de voltas no mercado relevante para o Algarve, fixámos um valor de 30.000 voltas/ano. Este indicador sugere, de forma indirecta, a capacidade económica do turista traduzida nos gastos: o gasto médio diário do turista de golfe, nas Ilhas Baleares, é superior ao verificado no Algarve, respectivamente 200,20 euros/dia e 164,13 euros/dia, enquanto o número médio de voltas é muito superior na Região do Algarve ao das Ilhas Baleares. 131 Universidade do Algarve Quadro III.5. Vantagens Competitivas e Estratégias Concorrenciais Vantagens Competitivas da concorrência Acessibilidades Estratégias da Concorrência Estratégias dos Campos de golfe do Algarve Comércio e Serviços Preços Economias de escala Qualidade Redução de custos Imagem Fonte: Universidade do Algarve, 2003 Os principais concorrentes dos campos da Região localizam-se no próprio concelho e no estrangeiro. A concorrência de outros países provém principalmente da Espanha e em menor escala da Turquia. As estratégias da concorrência e as vantagens competitivas são essencialmente factores alheios à exploração do próprio campo: Acessibilidades, Comércio e Serviços. O preço e as instalações constituem também factores de atracção relevantes para a concorrência. As vantagens competitivas no mercado, recaem sobre as economias de escala – redução de custos e a imagem que já possuem no mercado. As estratégias prosseguidas pelos directores dos empreendimentos algarvios centram-se na manutenção da qualidade do campo e na redução de custos. Note-se que apesar de uma das vantagens competitivas da concorrência ser o preço, não parece ser essa a política no Algarve. O facto da qualidade surgir como primeira prioridade indicia uma vontade de competir não pelo preço, mas pela diferenciação do produto. As vantagens competitivas dos campos não dependem apenas das estratégias prosseguidas pelos gestores, mas também da sua localização. Inerente à localização surgem como principais factores de atractividade a Envolvente do Campo, a Proximidade da Praia e as Acessibilidades. Os principais eixos estratégicos onde o Algarve surge numa posição de vantagem em relação à concorrência estão relacionados com a qualidade e a fidelização de clientes, nomeadamente: - Diversificação de produtos, Controlo de qualidade, Controlo de custos, Capacidade de inovação, Qualidade de atendimento dos clientes, Taxa de ocupação e fidelização. Uma posição menos favorável surge relacionada com a promoção, formação profissional, estratégia de comunicação e promoção conjunta, acessibilidades e infraestrutura hoteleira e turística. 132 Estudo Sobre o Golfe no Algarve CONCLUSÃO A fase de diagnóstico permitiu identificar um conjunto de áreas problema associadas à actividade do Golfe na Região do Algarve nas suas várias dimensões, da mesma forma que reconhece que esta actividade proporciona benefícios de natureza económica, social e empresarial que são muito positivos. As conclusões específicas e também recomendações para cada uma das áreas foram apresentadas em detalhe no Capítulo III. Como conclusões gerais, do diagnóstico, podemos afirmar, em síntese: • Encontram-se estabelecidas, de uma forma sintética, as grandes questões com que se confronta a actividade do Golfe no Algarve e a forma como se insere na estratégia de desenvolvimento da Região; • A actividade do Golfe e os seus impactos directos e indirectos que induz podem estabelecer uma lógica de complementaridade com a principal indústria da Região: o turismo, ou mesmo inserir-se num quadro mais vasto do cluster lazer-turismo; • Essa lógica de complementaridade não se constitui num factor acessório dessa actividade, mas justifica, só por si, uma abordagem individualizada com prioridades estratégicas e objectivos enunciados de forma clara e consistentes com as potencialidades de desenvolvimento sustentável da Região; • O Golfe é uma actividade que depende do capital natural, do seu uso e da sua valorização, mas pode também produzir impactes negativos que, ao não serem objecto de mitigação, podem implicar danos ambientais de natureza irreversível; • O diagnóstico da situação actual da actividade, face à informação tratada, não detectou situações de risco ambiental significativo, embora tivessem sido assinaladas áreas críticas, resultantes, na maioria das vezes, da ausência de boas práticas de gestão, não só ambiental, mas também económica; • A competitividade da indústria do golfe e das empresas que a promovem deve ser objecto de maior aprofundamento no que se refere a algumas variáveis: estrutura de mercado, rendibilidade financeira e económica, tipologia da segmentação e modelos de oferta conjunta. O 133 Universidade do Algarve desenvolvimento da actividade do golfe surge num quadro de complementaridade com outros produtos, no entanto, esta relação carece de um estudo específico. Concluído o diagnóstico e identificadas as áreas problema confrontamo-nos com a análise prospectiva do golfe na Região do Algarve, isto é, com o seu desenvolvimento num quadro de sustentabilidade. A análise do desenvolvimento sustentável da indústria do golfe será objecto de vários cenários que incluam: • O levantamento das intenções de instalação de novas unidades de prática do golfe na Região do Algarve; • A análise da procura potencial e dos seus vários segmentos; • Os impactos potenciais económicos e sociais do desenvolvimento da actividade, mediante variantes de maior ou menor optimismo na prossecução das novas intenções de investimento; • As estratégias de localização e as acessibilidades associadas; • Os impactes ambientais nos diferentes recursos: água, solo, paisagem, biodiversidade, ruído e ar; • Os impactos na estrutura produtiva da Região, nomeadamente a configuração e quantificação dos efeitos indirectos sobre os restantes domínios turísticos de suporte à estada do turista de golfe. 134