MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO 1999-2005 © Edison Puig Maldonado Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES PROF. DR. EDISON PUIG MALDONADO http://www.puig.pro.br/home [email protected] Bibliografia Livro texto: Laser-Tissue Interactions : Fundamentals and Applications Markolf H. Niemz Springer-Verlag Berlin Heidelberg (1996) Outros livros: Lasers in Dentistry Leo J. Miserendino, Robert M. Pick, ed. Quintessence Publishing Co, Inc. (1995) Proceedings of Lasers in Dentistry II Harvey A. Wigdor, John D. B. Featherstone, Joel M. White, Joseph Neev, ed. Proc. SPIE 2672 (1996) Algumas fotos contidas nesta apostila (p.ex., págs. 9, 15, 21, 28, 29) foram retiradas do livro texto adotado e de outras fontes, e são utilizadas apenas em caráter didático. MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 1 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Índice 1. INTRODUÇÃO 3 Transformações do feixe laser ao interagir com o tecido: Absorção óptica dos principais componentes dos tecidos biológicos Principais lasers médicos 4 5 6 2. CARTA DE INTENSIDADE E TEMPOS DE EXPOSIÇÃO 7 3. INTERAÇÕES TÉRMICAS 8 Origem microscópica Efeitos térmicos da radiação laser Disposição dos efeitos térmicos dentro do tecido Diagrama com os parâmetros importantes para as interações térmicas Geração de Calor Transporte do Calor Profundidades de penetração térmica Tempo de relaxação térmica Efeitos da taxa de repetição dos pulsos Questões 8 8 10 11 11 11 12 12 13 14 4. 15 ABLAÇÃO EXPLOSIVA Descrição esquemática para a ablação de tecido duro do dente: Modelo do estouro Modelo da camada líquida Modelo da microexplosão da gota d’água Modelos envolvendo cálculos numéricos Cuidados e problemas relacionados com este mecanismo de ablação Leituras complementares Leituras complementares Questões 16 17 17 18 18 19 20 20 20 5. 21 FOTOABLAÇÃO Princípios da fotoablação Energia de dissociação de algumas ligações químicas típicas Comprimentos de onda e energias de fóton para alguns lasers Modelo do estouro Questões 21 22 22 23 23 6. 24 ABLAÇÃO MEDIADA POR PLASMA Estados da matéria Ruptura dielétrica Colapso óptico Limiar de ablação por pulsos ultracurtos para tecido duro do dente Espessura de material extraído Efeitos cumulativos entre pulsos Exemplos Testes de penetração de corante Sistemas de entrega de feixe Análise dos parâmetros do plasma Sistemas comerciais (exemplos) Leituras complementares Questões 24 25 26 26 27 28 28 29 29 30 30 31 31 7. 32 FOTODISRRUPÇÃO Efeitos secundários do plasma Limiar aproximado para fotodisrrupção Limiar aproximado para fotodisrrupção Escala de tempo aproximada para os processos contribuindo para a fotodisrrupção Resumo Resumo Questões MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 33 34 34 34 34 35 35 2 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES 1. Introdução Espectro de radiação eletromagnética Algumas constantes físicas Quantidade Símbolo Valor Velocidade da luz no vácuo Constante de Plank Constante de Boltzmann c h k 3 . 108 m / s 6,6 . 10-34 J s 1,4 . 10-23 J / K Quantidade Símbolo Unidade Comprimento de onda Freqüência Energia Potência Área irradiada Intensidade (densidade de potência) Fluência (densidade de energia) Dose de energia Tempo de exposição Coeficiente de absorção Coeficiente de espalhamento Massa Pressão Conteúdo de calor Temperatura Índice de refração Refletividade Transmissão λ ν ( ou f ) E P A m Hz J W cm2 I W / cm2 F q τ α s m p Q T n R T J / cm2 J / cm3 s cm-1 cm-1 kg N / m2 J K — — — Grandezas físicas utilizadas Fatores de conversão Energia) (Densidade óptica) 1 J = 0,24 cal 1 eV = 1,6 . 10-19 J T = 10-D MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 3 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Transformações do feixe laser ao interagir com o tecido: A luz laser interage com um tecido biológico de quatro formas. Parte da luz pode ser refletida. Parte da luz pode ser transmitida através do tecido sem atenuação. Parte da luz remanescente pode ser absorvida pelos componentes do tecido, levando neste caso a uma transferência de energia para o tecido, caso dos processos ressonantes. Finalmente, pode ser espalhada dentro do tecido, ocasionando em alguns casos danos térmicos em regiões distantes da região de aparente propagação da luz. z espalhamento para trás espalhamento para diante feixe laser reflexão direta absorção transmissão Tecido: • propriedades ópticas (coeficientes de reflexão, absorção e espalhamento) • propriedades térmicas (condutividade térmica e capacidade térmica) Radiação laser: • comprimento de onda • energia aplicada • potência de pico • área focalizada (densidades de energia e de potência) • tempo de exposição Coeficiente de absorção óptica: α A intensidade da luz transmitida ao longo de um meio absorvedor é descrita pela Lei de Beer, que apresenta uma dependência exponencial com o comprimento: I(z) = I0 e (- α z ) A profundidade de transmissão, também chamada de profundidade de penetração óptica, ou comprimento de absorção é definida pelo inverso do coeficiente α, e corresponde ao comprimento no qual 63% da luz é absorvida: z óptico = 1 / α O comprimento de extinção é definido como o comprimento no qual 90% da luz é absorvida, e corresponde a aproximadamente 2,3 comprimentos de absorção. MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 4 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Absorção óptica dos principais componentes dos tecidos biológicos 10 5 10 4 10 3 10 2 0,1 µm DOPA-Melanina 1 10 0 10 µm Melanina 0,1 mm Adenina 10 1 µm Água Photofrin 1 mm Hemoglobina Oxihemoglobina 1 cm Proteína Hidroxiapatita 10 -1 10 cm 10 -2 1m 10 -3 10 m 10 -4 Profundidade de Transmissão Coeficiente de absorção (cm-1) Sistemas biológicos são complexos e compostos de uma grande variedade de elementos celulares e fluidos teciduais, cada qual com diferentes características de absorção. Uma vez que o corpo humano é maioritariamente constituído por água, a absorção da luz pela água é de fundamental importância para aplicações biomédicas. Os elementos do tecido que exibem um alto coeficiente de absorção de um particular comprimento de onda ou por uma região do espectro são chamados cromóforos. Além da água, cromóforos como a melanina, a hemoglobina, as proteínas, e no caso de tecidos dentais duros, a hidroxiapatita, exercem influência significante sobre a interação da radiação e o tecido. 100 m 0.2 0.4 0.6 0.8 1 2 3 4 6 8 10 Comprimento de onda (µm) Janelas de absorção: ¾ 200-350 nm (UV) proteínas e DNA dominam absorção ¾ 600-1300 nm geralmente, menores coeficientes de absorção óptica alta penetração - efeitos térmicos profundos (ou) terapias mediadas por processos fotoquímicos ¾ 2000 nm (IR) água é o principal absorvedor MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 5 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Principais lasers médicos Os tecidos moles são largamente compostos de água, o que determina o uso predominante de lasers emitindo no infravermelho, para interações ressonantes (que envolvem absorção). Desta forma o laser de CO2 emitindo em 10,6 µm e o laser de Er:YAG emitindo em 2.94 µm, têm pouca penetração no tecido, sendo fortemente absorvidos. Esta característica faz com que estes lasers sejam uma excelente ferramenta de corte, vaporização e hemostasia. Na região de emissão do laser de Nd:YAG (1,064 µm) a água é praticamente transparente, levando a uma penetração mais profunda no tecido. Apesar da região de maior transparência da água situar-se ao redor da emissão do laser de argônio (514,5 nm), os pigmentos melanina e hemoglobina interagem fortemente com comprimentos de onda nesta região, o que justifica a grande habilidade para coagulação e hemostasia deste laser e principalmente do laser de kriptônio operando nas linhas de 531 e 568 nm. 10 5 10 4 10 3 10 2 10 Kr F Xe C Xe l F Ar gô Nd nio Va (2ω p ) He or C -N u Kr e ip Ru tô bi nio Tm Ho Er Nd CO2 0,1 µm 1 µm Água DOPA-Melanina 10 µm Melanina Adenina 1 0,1 mm Photofrin 1 mm Hemoglobina Proteína 10 Oxihemoglobina 0 1 cm Hidroxiapatita 10 -1 10 cm 10 -2 1m 10 -3 10 m 10 -4 Profundidade de Transmissão Coeficiente de absorção (cm-1) Ar F Excimer 100 m 0.2 0.4 0.6 0.8 1 2 3 4 6 8 10 Comprimento de onda (µm) Além destes, destacam-se os seguintes lasers sintonizáveis: • • • • • Corantes - 350 nm a 900 nm Semicondutores (diodo) - 600 nm a 1200 nm Ti:safira - 750 nm a 1100 nm Cr:LiSAF - 800 nm a 900 nm Elétrons livres - 300 nm a ... MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 6 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES 2. Carta de intensidade e tempos de exposição Os mecanismos de interação de luz laser com tecidos não são sempre dependentes de processos ressonantes. Apesar de que os mecanismos fotoquímicos e térmicos envolvem necessariamente (ou predominantemente) absorção da energia luminosa por componentes do tecido biológico, e sua posterior transformação em outra forma de energia (por exemplo, térmica), outros processos tais como a fotoablação e os processos mediados por plasma (incluindo fotodisrrupção) dependem fundamentalmente de outros fenômenos físicos, tais como dissociação molecular, efeitos não-lineares, avalanche de elétrons, formação de plasma, ondas de choque, etc. Intensidade (W/cm2) 1 fs 10 15 10 12 1 ps 1 ns 1 µs 1 ms 1s 15 minutos 1 PW/cm2 Fotodisrrupção 10 10 Ablação Induzida Por Plasma 1 TW/cm2 1 GW/cm2 9 Fotoablação (UV) 1 MW/cm2 6 Interações térmicas 10 10 10 3 1000 J/cm2 (IR) 1 W/cm2 0 Interações fotoquímicas (vis / IR) -3 1 mW/cm2 1 J/cm2 10 -15 10 -12 10 -9 -6 10 10 -3 1 kW/cm2 10 0 10 3 Tempo de exposição (s) MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 7 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES 3. Interações Térmicas (interações onde o parâmetro significativo é o aumento na temperatura local) A utilização de lasers contínuos ou pulsados para uma dada aplicação deve ser discutida em termos de considerações termodinâmicas de fluxo de calor. O tecido circundante ao tecido aquecido pelo laser estará mais frio, de forma que o fluxo de calor ocorrerá da região irradiada para a circunvizinha, podendo acarretar danos térmicos. Para minimizar os danos térmicos é necessário minimizar o fluxo de calor, depositando energia suficiente no volume absorvedor para vaporizá-lo em menos tempo que o calor leva para se difundir. Assim, por exemplo, a água será vaporizada explosivamente, carregando o tecido remanescente junto com a pluma de ablação. Esta pluma poderá então ser removida por um sistema de sucção ou por um fluxo de água. Origem microscópica absorção em bandas rotacionais-vibracionais moleculares, seguida por decaimento nãoradioativo: absorção (fóton) → colisões inelásticas → aumento da energia cinética. Processo altamente eficiente : • absorção facilitada pelo grande número de estados vibracionais acessíveis na maioria das biomoléculas. Decaimento térmico facilitado pelo grande número de canais disponíveis. Energias típicas: CO2 laser 10,6 µm Er:YAG laser 2,94 µm Nd:YAG laser 1,06 µm energia cinética média de uma molécula a 25oC ⇒ ⇒ ⇒ ⇒ hν hν hν kT = 0,12 eV = 0,35 eV = 1,2 eV = 0,025 eV Efeitos térmicos da radiação laser • destruição de ligações • alterações nas membranas • fração do tecido sofre necrose Temperatura • redução na fração de células sobreviventes 37oC 42oC 50oC • necrose • empalidecimento do tecido 60oC • destruição do equilíbrio de concentrações químicas 80oC 100oC • grande aumento de volume, bolhas de gás, rupturas mecânicas • decomposição térmica • vapor gerado carrega o excesso de calor e evita o aumento de temperatura do tecido adjacente >150oC >300oC Efeito Biológico Normal Hipertermia Redução na atividade de enzimas, Imobilidade celular Desnaturação de proteínas e colágeno, Coagulação Permeabilização de membranas Vaporização, Ablação Carbonização Fusão MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado • escurecimento do tecido • fumo • pode ser evitado pelo resfriamento do tecido com gás ou água • derretimento do tecido 8 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Coagulação Exemplo: Córnea humana vaporizada e coagulada com 120 pulsos de um laser de Er:YAG (90 µs, 5 mJ, 1 Hz) Ablação explosiva Exemplo: Dente humano vaporizado com 20 pulsos de um laser de Er:YAG (90 µs, 100 mJ, 1 Hz) Carbonização Exemplo: Dente humano carbonizado com um laser contínuo de CO2 (1 W) Fusão Exemplo: Dente humano fundido com 100 pulsos de um laser de Ho:YAG (3,8 µs, 18 mJ, 1 Hz) MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 9 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Regra geral (radiação laser) : Intensidades acima de 10 W / cm2 radiação contínua (CW) ou com duração de pulsos acima de aproximadamente 1µs Temperatura crítica (oC) Temperaturas críticas para a ocorrência de necrose celular como função do tempo de permanência (observações empíricas) na epiderme, 80 70 Efeitos irreversíveis no tecido 60 50 Efeitos reversíveis 40 1 10 100 1000 Duração da temperatura (s) Eichler, J. e Seiler, T.: Lasertechnik in der Medizin - Springer-Verlag, Berlin (1991) Disposição dos efeitos térmicos dentro do tecido Feixe laser Vaporização Carbonização Coagulação Hipertermia Tecido MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 10 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Diagrama com os parâmetros importantes para as interações térmicas Parâmetros ópticos do tecido e do laser Parâmetros térmicos do tecido • intensidade laser • tempo de exposição • coeficiente de absorção GERAÇÃO DE CALOR • condutividade térmica • capacidade térmica TRANSPORTE DO CALOR Tipo do tecido EFEITOS DANO NO TECIDO Geração de Calor •O calor é gerado no tecido durante a exposição laser. A deposição de calor é devida apenas à luz que é absorvida no tecido. A fonte de calor dentro do tecido exposto, a cada instante e em cada posição, é dada por: S (r,z,t) = α . I (r,z,t) onde: α é o coeficiente de absorção óptica, z denota o eixo óptico, r é a distância a partir deste eixo e I(r,z,t) é a intensidade do feixe laser naquela posição e instante temporal, t Transporte do Calor S(r,z,t) = Calor (energia) gerado, por unidade de volume, por unidade de tempo Mas, esse calor gerado vai causar efeitos térmicos apenas naquela unidade de volume? Na prática, nas interações laser-tecido, existem perdas de calor: • convecção de calor: transmissão do calor, nos líquidos ou nos gases, pelo movimento ou circulação das partes aquecidas. • • irradiação do calor: emissão de energia radiante. condução de calor: transmissão do calor diretamente entre as partes aquecidas em contato. MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 11 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES • convecção de calor: fluxo sangüíneo? Baixa taxa na maioria dos tecidos Apenas importante para longas exposições ! • irradiação do calor: potência irradiada é proporcional à quarta potência da temperatura. Mas as temperaturas atingidas com o laser são moderadas ! • condução de calor: mecanismo importante de perda de calor para as estruturas não expostas do tecido. Usualmente, o cálculo preciso da condução do calor no tecido envolve uma avaliação numérica (p.ex., utilizando recursos de computação) !! Profundidades de penetração térmica Aproximação importante: Supondo que o feixe laser aqueça apenas um ponto no tecido, com um pulso de duração muito pequena, qual é a extensão espacial da transferência de calor, em função do tempo? A partir de equações fundamentais da termodinâmica, pode-se definir uma profundidade de penetração térmica: z térmico = 4 κ t onde: t é o tempo e κ (lê-se kapa ) é a difusividade térmica do material Por exemplo, κ = 1,4.10-3 cm2 /s para a água, κ = 4,7.10-3 cm2 /s para o esmalte. ztérmico é a distância na qual a variação de temperatura tem 37% do seu valor máximo Exemplo: Profundidades de penetração térmica da água: tempo Profundidade de penetração 1 µs 100 µs 10ms 1s 0,7 µm 7 µm 70 µm 0,7 mm Tempo de relaxação térmica No caso de decomposição térmica de tecidos (ablação), a maior parte do calor gerado pelo pulso laser é removida com os fragmentos ejetados. Mas: é importante ajustar a duração do pulso laser para minimizar o dano térmico às estruturas adjacentes, obtendo-se assim a menor necrose possível. Previamente, definimos a profundidade de penetração óptica como o inverso do coeficiente de absorção óptica como zóptico = 1 / α. Igualando-se a profundidade de penetração térmica à profundidade de penetração óptica, define-se o parâmetro: tempo de relaxação térmica: τtérmico = Assim, 1 4κα 2 se τ pulso < τ térmico ,o calor não difunde além da penetração óptica. se τ pulso > τ térmico ,o calor pode difundir para um múltiplo da penetração óptica. MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 12 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Tempo de relaxação térmica Tempos de relaxação térmica da água e da hidroxiapatita 15 min Água 1s Hidroxiapatita 1ms Região de interesse para ablação térmica 1µs 0.2 0.4 0.6 1 2 3 4 6 8 10 Comprimento de onda ( µm) Efeitos da taxa de repetição dos pulsos No caso de aplicação repetitiva de pulsos laser (para ablação por exemplo), cada pulso laser deixa uma certa energia residual no tecido. Uma alta taxa de repetição dos pulsos pode provocar um aumento cumulativo na temperatura se a taxa de remoção do calor é menor que a taxa de geração de calor. Para quantificar esse efeito, é necessário o conhecimento da energia residual por pulso (para o caso específico), e realizar cálculos numéricos da condução do calor. MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 13 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Conclusões e comentários adicionais i. Apenas a luz que é absorvida é útil. ii. Uma parte da luz transmitida é espalhada dentro do tecido, o que em alguns casos leva a danos longe da região desejada. iii. É interessante utilizar lasers de comprimento de onda ressonantes, cujo feixe é fortemente absorvido pelo tecido. Nesse caso, o espalhamento não tem efeito significativo e a deposição de calor (distribuição de temperatura) acompanha a distribuição de intensidades do feixe laser (conhecida e controlada). iv. Se a duração do pulso laser é curta comparada com o tempo de relaxação térmica, o transporte de calor é insignificante durante o pulso laser. Nesse caso, o efeito térmico é predominantemente produzido na região de penetração óptica. v. Para altas taxas de repetição dos pulsos, um aumento cumulativo na temperatura pode produzir danos extensos no tecido. Questões 1. Baseado na sua compreensão das últimas aulas, quais são as grandezas físicas mais importantes ou relevantes para a aplicação de lasers em Odontologia (em ordem de prioridade)? E as constantes físicas? 2. Os componentes dos tecidos biológicos que têm relevância para a absorção de radiação luminosa são chamados cromóforos. Considerando a concentração destes componentes nos principais tecidos humanos (pesquise), e considerando a radiação eletromagnética na faixa do ultravioleta ao infravermelho próximo, como você classificaria opticamente os diversos tecidos (moles e duros) do corpo humano para cada região espectral? (transparente, fracamente absorvedor, etc...) 3. Por quê o comprimento de absorção, definido como o inverso do coeficiente de absorção, corresponde ao comprimento no qual 63% da luz é absorvida? 4. Irradiando-se um tecido biológico com um feixe laser apropriado para interação térmica, de quais parâmetros, de maneira geral, depende a geração do calor no tecido? E o transporte do calor? 5. De quê depende a profundidade de penetração térmica? Essa grandeza é uma constante do material (tecido)? 6. Calcule algumas profundidades de penetração térmica no esmalte, supondo que o feixe laser aqueça apenas um ponto no tecido, com um pulso de duração muito pequena. 7. Qual o significado do tempo de relaxação térmica? Qual a utilidade deste parâmetro? MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 14 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES 4. Ablação Explosiva Ablação Laser (Med.): Remoção cirúrgica de tecido utilizando radiação laser, seja por mecanismos térmicos, mecânicos, de fotodecomposição ou mediados por plasma. Ablação Térmica : Ablação laser por vaporização de tecido ou por mecanismo termomecânico (ablação explosiva) Por ser um processo térmico, depende da absorção da radiação laser pelo tecido. A água é o principal cromóforo para este fim, seja pela sua concentração nos tecidos, pela sua absorção intensa no infravermelho ou ainda pela sua localização sob camadas do tecido. • • Em geral, remoção explosiva de tecido mediada pela água. Altas pressões são geradas pelo rápido aquecimento de camadas de água confinadas abaixo da superfície do tecido, levando a microexplosões. Pode ocorrer a temperaturas bem abaixo (~250oC) do ponto de fusão dos tecidos duros (900°C a 1200°C). Processos dominados pela água: Temperatura (oC) Efeito Biológico 100 + Formação de bolhas de vapor (extracelulares) > 100 Ruptura das bolhas: efeito “pipoca” ? Ablação do tecido por fragmentação explosiva MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 15 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Descrição esquemática para a ablação de tecido duro do dente: A pluma gerada pelo material removido pode interferir com a radiação laser incidente, causando absorção, espalhamento, refração, reflexão e formação de plasma feixe laser feixe laser Camada dessecada superficial Pluma de ablação O laser pode aquecer a pluma diretamente Camada subsuperficial contendo água Tecido duro Tecido duro (dente) Este é o processo que remove a maior quantidade de tecido por pulso. Confinamento da água pela matriz de tecido duro leva a: • rápido equilíbrio de temperatura entre o tecido duro e a água (<< 1 µs) • pressões de centenas de atmosferas → rompimento do material (resistência ≈ 400 atm) penetração pequena (µm) na H-A ⇒ o Laser de CO2 : calor que irá produzir a ablação é entregue por condução térmica no esmalte. Lasers de érbio : penetração na H-A é maior que 0,1 mm. Laser de elétrons-livres : entre 4 < λ < 6 µm, penetração na H-A é aproximadamente 1 cm. Lasers de Ho, Tm : penetração na H-A é maior que 50 cm. (desconsiderando espalhamento) MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 16 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Modelo do estouro Assume que a ablação ocorre instantaneamente e se estende a uma profundidade na qual a fluência do laser cai para um certo valor de limiar. Ignora: • • • mudanças transientes nas propriedades ópticas do tecido efeitos da pluma de ablação condução de calor no tecido Características: prevê corretamente a forma e profundidade da cratera como função da fluência para valores próximos do limiar, mas não leva à descrição da uniformidade do dano gerado nas paredes e no fundo da cratera. Descrição Matemática: d (r , φ) = ⎞ 1 ⎛ F (r , φ) ⎜⎜ − 1⎟⎟ α ⎝ FL ⎠ Profundidade da cratera (µm) onde : d (r,φ) é a profundidade da cratera, F (r,φ) é a distribuição de fluência do pulso, FL é a fluência de limiar e α é o coeficiente de absorção Exemplo: laser de Er:YAG (2,94 µm) com pulso de fluência dada por 25 J/cm2. 0 20 esmalte 40 60 -0.6 dentina -0.4 -0.2 0.0 0.2 0.4 Raio (mm) 0.6 A fluência de limiar para este laser é de 10 J/cm2 para o esmalte e 1 J/cm2 para a dentina, de acordo com : SEKA,W.; FEATHERSTONE, J.D.B.; FRIED,D.; VISURI,S.R.; and WALSH, J.T.; SPIE, v.2672, p.144-158, 1996. Foi necessário assumir coeficientes de absorção α = 800 cm-1 para o esmalte e α = 4500 cm-1 para a dentina, para obter resultados do cálculo coerentes com os reportados na referência acima. Modelo da camada líquida Considera que o aquecimento pelo laser gera, além da vaporização de tecido, uma camada líquida que pode ser expelida da cratera pela variação de pressão radial, originada devido ao perfil Gaussiano do feixe laser. Limitações: • é um modelo tipicamente aplicável a durações de pulso da ordem de várias centenas de microsegundos. • é melhor aplicado para tecidos moles Avanços: prevê uma camada de dano uniforme nas paredes e no fundo da cratera, em concordância com os experimentos. MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 17 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Modelo da microexplosão da gota d’água Este modelo foi desenvolvido por Paulo. A. Bonk, Denise M. Zezell e Carlos P. Eduardo para o cálculo de parâmetros envolvidos no caso de ablação laser de tecidos duros do dente. Considera que a água presente no tecido está concentrada em uma gota no centro da cratera que será gerada pela explosão. Pôde-se demonstrar que a razão ótima entre o diâmetro da cratera (2.rk ) e a sua profundidade (W) é 2,8, para ablação de esmalte com laser de Ho:YLF. Além disso, pôde-se calcular a massa de tecido removida por pulso. Bonk, P.A.; Zezell, D.M.; Eduardo, C.P.; “Study of Physical Properties of Dental Enamel Surface Irradiated with Ho:YLF Laser”, Proceedings, I Congresso Latino Americano de Órgãos Artificiais e Biomateriais, Belo Horizonte, Brasil, 10 a 13 de dezembro de 1998. Modelos envolvendo cálculos numéricos Combina os comportamentos termodinâmicos da água do tecido biológico com a resposta elástica dos componentes sólidos do tecido. Consegue verificar a dependência da fluência e duração do pulso no desenvolvimento do perfil de temperatura, limiar de ablação e profundidade do dano térmico. MAJARON,B.; PLESTENJAK,P.; LUKAC,M.; "Thermo-mechanical laser ablation of soft biological tissue: modeling the micro-explosions", Appl.Phys. B, v.69, p.71-80, SpringerVerlag, 1999. MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 18 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Cuidados e problemas relacionados com este mecanismo de ablação Fluências abaixo do limiar de ablação: • calor acumula-se no tecido. • carbonização ou fusão devido ao superaquecimento pode ocorrer. • pode ocorrer necrose da polpa. O IDEAL DE TRABALHAR COM MENORES POTÊNCIAS, NO INTERESSE DE SEGURANÇA E PRECISÃO PODE PRODUZIR EXATAMENTE O RESULTADO OPOSTO Ondas de choque / fortes ondas acústicas podem causar danos e fraturas mais intensas com maiores velocidades de ablação (taxas de repetição) Temperaturas de superfície no limiar de ablação (esmalte): Laser Er:YAG Er:YSGG CO2 Comprimento de onda 2,94 µm 2,79 µm 9,6 µm Temperatura 300 oC 800 oC 1000 oC Dos laser atualmente disponíveis para ablação explosiva (termomecânica) de tecidos duros, os lasers de érbio, especialmente Er:YAG, são os mais adequados. Outros lasers levam a danos térmicos, em maior ou menor escala, e/ou menores velocidades de ablação. Entretanto, mesmo com o laser de Er:YAG, freqüentemente produz-se efeitos indesejados, tais como fraturas (esmalte), e regiões de carbonização e necrose (dentina). LASER LASER LASER carbonização esmalte dentina necrose necrose rachaduras A carbonização A B Efeitos térmicos: zonas massivas de carbonização e necrose, assim como rachaduras em tecidos duros B Efeitos termomecânicos: no esmalte freqüentemente são encontradas rachaduras; na dentina, não há rachaduras, mas danos térmicos como carbonização e necrose são comuns MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 19 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Leituras complementares • MAJARON, B. and LUKAC, M.; Calculations of Crater Shape in Pulsed Laser ablation of Hard Tissues ; Las. Surg. And Medicine, v.24, p.55-60, 1999. • Barton,T.G.; Foth,H.J.; Christ, M.; Hörmann,K.; Interaction of Holmium Laser radiation and cortical bone: ablation and thermal damage in a turbid medium, Applied Optics. V.36, n.1, p.32-43, January 1997. • STEVENS,B.H.; TROWBRIDGE,H.O.; HARRISON,G.; SILVERTON,S.F.; "Dentin Ablation by Ho:YAG Laser: Correlation of Energy Versus Volume Using Stereophotogrammetry", Journal of endodontics, v.20, n.5, May 1994. • WANOOP,N.W.; DICKISON,M.R.; FARRAR,S.R.; KING,T.A.; Ablation studies of erbium:YAG laser radiation with pellethane, J.Phys.D:Appl.Phys., v.29, p.2735-2339, 1996. • JEFFREY,I.W.M.; LAWRENSON,B.; LONGBOTTOM,C.; SAUNDERS,E.M.; Dentinal Temperature Transients Caused by Exposure to CO2 Laser Irradiation and Possible Pulpal Damage; J.Dent., v.18, p. 31-36, 1990. • JEFFREY,I.W.M.; LAWRENSON,B.; LONGBOTTOM,C.; SAUNDERS,E.M.; CO2 laser application to the mineralized dental tissues-the possibility of iatrogenic sequelae, J.Dent.; 18: p.24-30, 1990. • BROWN,W.S.; DEWEY,W.A.; JACOBS,H.R.; Thermal Properties of Teeth, Journal of Dental Research, v.49, n.4, p.752-755, Jul-Aug, 1970. Questões 8. Descreva o processo de ablação laser explosiva. 9. Por quê se deve utilizar comprimentos de onda fortemente ressonantes para ablação laser explosiva? 10. Com relação ao gráfico de tempos de relaxação térmica da água e da hidroxiapatita (H-A), qual a importância do pequeno valor (0,01µs) desse tempo para a H-A em 10µm? E do pequeno valor (1µs) desse tempo para a água em 3µm? Por quê os pulsos laser utilizados para ablação térmica (explosiva) têm, em geral, durações entre pouco menos de 1µs (10-6s) e pouco mais de 1ms (10-3s)? 11. Por quê a taxa de repetição deve ser limitada para a utilização de ablação laser explosiva (p.ex. no caso de tecido duro do dente)? 12. Quais os cuidados que se deve tomar, e quais os problemas ainda existentes na técnica de ablação térmica explosiva de tecidos do dente? MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 20 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES 5. Fotoablação Fotoablação: - rompimento direto das ligações moleculares por fótons de alta energia (UV) - ablação limpa, associada com pequeno ruído e fluorescência - durações de pulso: 10 a 100 ns - intensidades: 107 a 1010 W/cm2 - aplicação mais importante: cirurgias de correção refrativa da córnea Exemplo: Fotoablação de tecido da córnea por laser de ArF (excimer). Duração do pulso 14 ns, fluência 180 mJ/cm2) Princípios da fotoablação Molécula orgânica e- A Ligação covalente Vamos denominar a energia do sistema pelo símbolo AB B vibração fóton A Absorção de fótons de alta energia (UV) e- B vibração A Estado excitado instável e- B AB + hν → (AB)* vibração Ligação quebrada Dissociação Átomos livres ablação A B (AB)* → A + B + Ecinética MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 21 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Diagrama de níveis de energia estado excitado (AB)* Energia energia de ligação hν estado fundamental AB Distância radial Energia de dissociação de algumas ligações químicas típicas S-H C-S C-N C-C C-O energia (eV) → 2,7 3,0 3,6 N-H 4,1 O-H C=C 4,8 6,4 C=O 7,1 Comprimentos de onda e energias de fóton para alguns lasers Laser Comprimento de onda (nm) Energia do fóton (eV) ArF KrF Nd (4w) XeCl XeF Argônio Nd (2w) He-Ne Diodo Nd Ho Er CO2 193 248 263 308 351 514 526 633 800 1050 2080 2940 10600 6,4 5,0 4,7 4,0 3,5 2,4 2,4 2,0 1,6 1,2 0,6 0,4 0,1 MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 22 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Modelo do estouro Profundidade de ablação (µm/pulso) Mas: a profundidade de ablação é determinada pela energia do pulso até um limite de saturação 1,0 0,5 0,0 2 3 10 10 2) Fluência (mJ/cm 4 10 Exemplo: ablação de córnea de coelho com laser de ArF Vantagens : • • • Precisão Previsibilidade Completa ausência de dano térmico aos tecidos adjacentes (para laser de ArF - 193 nm) Desvantagens : • • • Componente térmica significativa para comprimentos de onda maiores que 193 nm. Baixa velocidade de ablação (menos que 1 µm por pulso e taxas de repetição moderadas) Citotoxidade - DNA absorve intensamente entre 240-260 nm. Danos ao DNA decrescem na ordem: 248 nm (KrF) > 193 nm (ArF) > 308 nm (XeCl) Questões 13. Qual é o mecanismo de interação laser-tecido que leva ao efeito conhecido como fotoablação? Descreva. 14. Quais as vantagens de se utilizar modelos de estouro para se avaliar a profundidade da cratera nos processos de ablação estudados? Qual a validade destes modelos? 15. Por quê o mecanismo de fotoablação não é utilizado em Odontologia? Qual seu principal uso médico? Quais as vantagens que ele apresenta? E desvantagens? 16. Se você tivesse que escolher apenas um laser para cada um dos seguintes mecanismos de interação com tecido biológico: fotoquímico, térmico e fotoablação, quais você escolheria? (não vale laser de elétrons livres) MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 23 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES 6. Ablação mediada por plasma - ablação laser pela formação de um plasma ionizante - praticamente sem dependência com comprimento de onda - ablação limpa, associada com pequeno ruído e clarão azulado - durações de pulso: 100 fs a 500 ps - intensidades: 1011 a 1013 W/cm2 - aplicações mais importantes: cirurgias da córnea, odontologia. (principais lasers usados: Nd:YLF, Ti:Safira, Cr:LiSAF) Estados da matéria Sólido Líquido Gás Plasma - estado de agregação da matéria que se caracteriza pela existência de uma disposição espacial regular (ou semi-regular) de suas partículas constitutivas (átomos, íons ou moléculas), com forma própria, rigidez e elasticidade - estado de agregação da matéria que se situa entre o sólido e o gasoso. Fluído muito pouco compressível, sem forma própria, mas com volume definido. Muitos líquidos com viscosidade elevada assemelham-se a sólidos, como é o caso dos vidros. Outra característica importante de um líquido é a sua tensão superficial, que determina as propriedades da sua superfície livre. - um dos estados de agregação da matéria, caracterizado pela desorganização espacial de suas partículas e, em escala macroscópica, por ocupar todo o volume finito que se lhe oferece. Em geral, têm um elevado coeficiente de compressibilidade. - gás consistindo de íons, elétrons, e partículas neutras (todos livres). As partículas têm energias elevadíssimas (milhares ou milhões de graus). Para se manter este estado é necessário fornecer energia continuamente para impedir a recombinação. Geralmente isso é feito através de um campo elétrico. O comportamento desse gás é dominado pela interação eletromagnética entre as partículas carregadas. MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 24 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Ruptura dielétrica (Dielectric Breakdown) Em geral, a geração de um plasma devido a um campo elétrico intenso é denominada ruptura (ou colapso) dielétrico. Esfera de plasma (globo de vidro preenchido com gás nobre no qual são realizadas descargas elétricas de alta freqüência) MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 25 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Colapso óptico (Optical Breakdown) Ruptura dielétrica causada por um pulso laser de alta intensidade focalizado em um gás, líquido ou na superfície de um sólido. Ocorre para intensidades acima de 1011 W/cm2 em sólidos e líquidos, ou 1014 W/cm2 no ar. O plasma gerado absorve fortemente a radiação UV, visível e IR → “plasma quente”. Para sólidos, o pulso laser também causa ablação do material. Laser Q-switched (ns) emissão termiônica etc. Laser Mode-locked (ps-fs) tipo de pulso laser ionização multi-fotônica ou por efeito túnel iniciação avalanche de elétrons Densidade de elétrons livres criada no foco do feixe laser : tipicamente entre 1018 / cm3 e 1021 / cm3 Temperatura do plasma : tipicamente de algumas dezenas de milhares de oC A energia do pulso ultracurto é depositada em uma camada bastante fina de material : esse processo tem coeficientes de absorção típicos acima de 104 cm-1 A energia dos elétrons é transferida para os íons, e acontece a ejeção do material. escala de tempo característica 100 ps Limiar de ablação por pulsos ultracurtos para tecido duro do dente MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 26 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Espessura de material extraído (fórmula aproximada para a ablação por pulsos de femtosegundos) d= FP 5. E E onde: FP é a fluência do pulso laser ; EE é a energia de evaporação do material por unidade de volume. Profundidade de ablação (µm / pulso) Exemplo: Laser de Nd:YLF : duração 30 ps, foco 30 µm 40 Esmalte cariado Dentina sadia Esmalte sadio 30 20 10 0 0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 Energia do pulso (mJ) Ablação seletiva ! Define-se a eficiência de ablação como a profundidade de material removido por unidade de fluência de energia. A eficiência de ablação decresce para fluências maiores, devido ao efeito de superaquecimento das camadas superficiais e reflexão da energia do pulso pelo plasma. eficiência de ablação [µm / (J/cm2)] Eficiências de ablação em tecido do dente, usando-se pulsos de 350 fs, no comprimento de onda de 1µm 0.3 0.2 0.1 0.0 0.1 1 10 Fluência (J/cm2) MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 100 27 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Efeitos cumulativos entre pulsos Processamento eficiente do material: taxa de repetição por volta de 1KHz (taxa de remoção de 1mm/s para o esmalte) Energia do pulso: refletida pelo plasma ejetada com os vapores quebra das ligações do material aquecimento do material Demonstrou-se que o aquecimento da superfície frontal, com o uso de um sistema de f = 1 kHz, τ = 0,6 ps, E = 0,8 mJ, 2w0 = 100 µm, é menor que 10OC da temperatura ambiente. Reduções no diâmetro do feixe, no tempo do pulso ou na taxa de repetição produzem ainda menores elevações de temperatura. Resumo: Etapas do processo de remoção de material por pulsos ultracurtos : • Duração do pulso (10 s) → deposição de energia no material • 10 s → a energia absorvida causa a ablação do tecido -12 -10 (a quantidade de tecido removida é tipicamente ao redor de alguns µm) efeitos cumulativos de altas taxas de repetição devem ser considerados Exemplos Cavidade em esmalte sadio obtida pela aplicação de 160 000 pulsos de um laser Nd:YLF de picosegundos (1,05 µm). Duração dos pulsos: 30 ps. Energia dos pulsos: 1 mJ A ablação mostrada na foto é resultado da varredura dos feixes focalizados sobre o tecido MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 28 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Cavidade em esmalte cariado obtida pela aplicação de 16 000 pulsos de um laser Nd:YLF de picosegundos (1,05 µm). Duração dos pulsos: 30 ps. Energia dos pulsos: 1 mJ A ablação mostrada na foto é resultado da varredura dos feixes focalizados sobre o tecido. Testes de penetração de corante Resultados de máxima profundidade de penetração de corante depois de ablação com três diferentes tipos de laser ou perfuração com broca mecânica (avaliação de micro-fissuras induzidas) 3000 µm 300 µm 30 µm 20 µm Ho:YAG Er:YAG Laser 30ps Broca (Nd:YLF) Mecânica Sistemas de entrega de feixe Fibras ópticas: · · altas potências de pico (intensidades da ordem de TW/cm2): efeitos não-lineares produzem danos no núcleo da fibra. duração muito curta dos pulsos: alargamento da duração temporal devido a efeitos de dispersão e auto-modulação de fase. Outras técnicas de entrega de feixe que tem potencial de uso para pulsos ultracurtos de alta energia são fibras de núcleo oco e braços articulados. MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 29 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Análise dos parâmetros do plasma Por meio de uma análise espectroscópica da centelha de plasma, a densidade de elétrons livres e a temperatura do plasma podem ser avaliadas. Além disso, uma informação detalhada da composição química do alvo pode ser obtida, levando portanto a um controle do tecido sofrendo ablação. SHG Plasma sistema laser de pulsos ultracurtos filtro detetor Espectrômetro Sistemas comerciais (exemplos) Empresa: Clark-MXR, Inc. (Michigan, USA) Modelo: CPA-2001 energia por pulso > 0,8 mJ largura de pulso < 150 fs comprimento de onda: 775 nm taxa de repetição: 1kHz Alimentação: 110V Sem necessidade de sistema externo de refrigeração PREÇO: ∼ US$ 300 000.00 (sem sistema de entrega de feixe) Empresa: Spectra-Physics (California, USA) Modelo: Hurricane energia por pulso > 0,8 mJ largura de pulso < 130 fs comprimento de onda: ~ 825 nm taxa de repetição: 1kHz (5kHz disponível) Tamanho: 93.6 x 64.8 x 22.8 cm Alimentação: 110V Sem necessidade de sistema externo de refrigeração PREÇO: ∼ US$ 300 000.00 (sem sistema de entrega de feixe) MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 30 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Leituras complementares Rubenchik, Alexander M.; Da Silva, Luiz B.; Feit, Michael D.; Lane, Stephen M.; London, Richard A.; Perry, Michael D.; Stuart, Brent C.; Neev, Joseph, Dental tissue processing with ultrashort-pulse laser, in Lasers in Dentistry II, Harvey A. Wigdor, D.D.S., John D. Featherstone, Joel M. White, D.D.S., Joseph Neev, Editors, Proc. SPIE vol. 2672, p. 222-230 (1996) Neev, Joseph; Huynh, Daniel S.; Carrasco, William A.; Wilder-Smith, Petra B.; Da Silva, Luiz B.; Feit, Michael D.; Perry, Michael D.; Rubenchik, Alexander M.; Stuart, Brent C., Thermal and noise level characteristics of hard dental tissue ablation with 350-fs pulse laser, in Lasers in Dentistry II, Harvey A. Wigdor, D.D.S., John D. Featherstone, Joel M. White, D.D.S., Joseph Neev, Editors, Proc. SPIE vol. 2672, p. 262-270 (1996) F.H. Loesel, A.-C. Tien, S. Backus, H. Kapteyn, M. Murnane, R.M. Kurtz, S. Sayegh, T. Juhasz: Effect of Reduction of Laser Pulse Width from 100 ps to 20 fs on the PlasmaMediated Ablation of Hard and Soft Tissue, In: Thermal Therapy, Laser Welding, and Tissue Interaction, Proc. SPIE 3565, 1998 Questões 17. Como você descreveria um plasma? 18. Quais os processos que levam à formação de um plasma na superfície de um tecido sendo irradiada por um pulso ultracurto? 19. Considerando um pulso ultracurto com intensidade acima do limiar para colapso óptico incidindo em um tecido duro, qual é o coeficiente de absorção óptica desta radiação, aproximadamente? Existe dependência com o comprimento de onda? Esta é uma interação ressonante ou não-ressonante? 20. Qual é o limiar de ablação por pulsos ultracurtos de 300 fs para o esmalte? 21. Dada a expressão aproximada para a espessura de material extraído na ablação induzida por plasma com pulsos de femtosegundos, calcule as profundidades das crateras geradas por pulsos ultracurtos de 300 fs com fluência de 3 J/cm2, considerando as energias de evaporação: 6000 J/cm3 (para esmalte sadio), 600 J/cm3 (para esmalte cariado) e 2000 J/cm3 (para dentina). 22. Na questão anterior, considerando uma taxa de repetição de 1 kHz dos pulsos ultracurtos, calcule a taxa de perfuração dos tecidos propostos. 23. Como você avaliaria a qualidade das crateras geradas pela ablação com pulsos ultracurtos em tecidos do dente, comparando com outros métodos? MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 31 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES 7. Fotodisrrupção (ABLAÇÃO POR ONDAS DE CHOQUE) • • • • • fragmentação e corte de tecido por forças mecânicas. formação de plasma; geração de ondas de choque; cavitação; formação de jato durações de pulso: 100 fs a 100 ns intensidades: 1011 a 1016 W/cm2 aplicações mais importantes: fragmentação de cristalino, destruição de cálculos urinários Fotos de crateras produzidas por ablação com pulsos laser de diferentes durações temporais em tecido do dente. ← 1000 ps laser 0.35 ps laser → MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 32 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Face anterior de uma placa de vidro, exposta a dez pulsos de um laser de Nd:YLF, com pulsos de 30 ps de duração e energia de 1 mJ, focalizados em 30 µm. Efeitos secundários do plasma Em energias de pulso maiores (maiores energias de plasma), efeitos mecânicos tornam-se significativos, e determinam o efeito global sobre o tecido. Optical Breakdown Formação de plasma - ionização do volume focal - confinado espacialmente - 70% a 99% da energia Geração de onda de choque - alto gradiente de pressão - movendo a velocidade supersônica - 1% a 5% da energia Cavitação Formação de jato - vapor induz tensões mecânicas - sucessiva expansão e colapso - 10% a 15% da energia - próximo a interfaces sólidas - durante colapso de cavitação Ablação induzida por plasma Fotodisrrupção Ablação do tecido MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 33 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Limiar aproximado para fotodisrrupção (Distinção da ablação induzida por plasma e fotodisrrupção de acordo com a energia aplicada - fronteira aproximada) Fluência (J/cm2) 100 Fotodisrrupção 10 Ablação induzida por plasma 1 0.1 10-14 10-13 10-12 10-11 10-10 10-9 10-8 Duração do pulso (s) Assim, para pulsos de nanosegundos, o colapso óptico está sempre associado com ondas de choque, mesmo no limiar. Escala de tempo aproximada para os processos contribuindo para a fotodisrrupção (assumindo pulsos de 30 ps) Formação de jato Cavitação Onda de choque Plasma Pulso laser 10-12 10-9 10-6 10-3 Tempo (s) MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 34 Mestrado Profissionalizante Lasers em Odontologia INTERAÇÃO DA LUZ LASER COM TECIDOS BIOLÓGICOS: APLICAÇÕES Resumo • Ablação induzida por plasma: zona de interação confinada à região de colapso óptico. • Fotodisrrupção: os efeitos mecânicos se propagam no tecido adjacente. Assim, para pulsos de nanosegundos, a extensão espacial do dano no tecido pode ser da ordem de milímetros, mesmo no limiar da geração de plasma. Fotodisrrupção tem se tornado uma ferramenta bem estabelecida para cirurgias minimamente invasivas. Duas das mais importantes aplicações são: capsulotomias posterior do cristalino (freqüentemente necessária após cirurgias de catarata, e litostripsia de cálculos urinários. Questões 24. Qual a diferença entre ablação induzida por plasma e fotodisrrupção? MECANISMOS DE INTERAÇÃO LASER-TECIDO - Junho/2003 © Edison Puig Maldonado 35