A RELAÇÃO MATERNO INFANTIL E O DESENVOLVIMENTO AFETIVO EM CRIANÇAS DE 0 A 3 ANOS MOTHER AND CHILD RELATIONSHIP AFFECTIVE DEVELOPMENT IN CHILDREN FROM 0 TO 3 YEARS Maryellen Hortiz – [email protected] Mayara Cristina Costa – [email protected] Regislaine Cristina dos Santos – [email protected] Graduandas em Psicologia – UNISALESIANO Lins Profª. Ma. Ana Elisa Silva Barbosa de Carvalho – UNISALESIANO – [email protected] RESUMO Este artigo apresenta uma revisão bibliográfica sobre o desenvolvimento da criança de 0 a 3 anos, com informações sobre a formação do vínculo mãe-bebê por meio de autores que são referências nesta área, como Freud, Winnicott, Klein e Erikson. Posteriormente, apresenta-se uma pesquisa cujo objetivo foi identificar o desenvolvimento afetivo da relação materno infantil, buscando saber quais os aspectos desse desenvolvimento que as mães dão mais atenção, e se as mesmas possuem conhecimento referente ao cuidado emocional dos seus filhos. Foram aplicados um questionário com cinco perguntas fechadas e um protocolo de avaliação do vínculo mãe-filho em 30 mães. Os resultados da pesquisa demonstraram que as mães pesquisadas se importam tanto com os aspectos físicos quanto com os psicológicos, evidenciando assim que há um interesse da mãe em tentar ser uma mãe suficientemente boa mesmo sem ter um conhecimento avançado sobre o desenvolvimento infantil. Obteve-se também que 23,33% das mães entrevistadas apresentaram vínculo fraco podendo ser ocasionado por conflitos pré e pós-gestacionais. Palavras-chave: Cuidado emocional. Desenvolvimento infantil. Relação maternoinfantil. Vínculo mãe bebê. Winnicott. ABSTRACT This article presents a bibliographic review on the development of children from 0 to 3 years, with information about the formation of the mother-baby bond through authors who are references in this area, such as Freud, Winnicott, Klein and Erikson. Subsequently, we present a research aimed at identifying the emotional development of the mother-child relationship, seeking to know what aspects of this development are more attentive to the mothers, and whether they have knowledge regarding the emotional care of their children. We applied a questionnaire with five closed questions and a protocol for the assessment of the mother-child bond in 30 mothers. The search’s results showed that the surveyed mothers care as much about the physical aspects as they care about the psychological ones, showing that there is an interest in the mother trying to be a good enough mother, even without an advanced knowledge of child development. Was also obtained that 23.33% of the interviewed mothers showed a weak bond, which may be caused by conflicts and Universitári@ - Revista Científica do Unisalesiano – Lins – SP, ano 4., n.9, jul/dez de 2013 207 post-pregnancy. Keywords: Emotional Care. Child Development. Mother-child. Mother-baby bonding. Winnicott. INTRODUÇÃO Diante de uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (2012) em parceria com a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, onde foram entrevistadas aproximadamente 2 mil mães, apenas 12% referem se preocupar em dar o carinho e afeto, ou seja, concluiu-se que as mães com filhos de 0 a 3 anos de idade acham mais importante cuidar da saúde do filho do que dar carinho, brincar, ou seja, valorizam mais os aspectos relacionados ao desenvolvimento físico, tais como andar, falar, sentar, do que os aspectos do desenvolvimento psicológico. Confrontando com o descrito por Borsa (2007) que afirma que o vinculo mãebebê vai muito além do interesse em dar o alimento e/ou cuidar de suas necessidades básicas. A empatia e o cuidar do bebê favorece a construção desse vínculo para que as necessidades físicas e emocionais sejam atendidas. Há um investimento emocional dos pais que influencia fortemente o bebê. Compreende-se a importância da relação materno infantil e os prejuízos que uma falha nessa relação pode causar. De acordo com Winnicott (2008, p. 118): [...] se a mãe não souber ver no filho recém-nascido um ser humano, haverá poucas probabilidades de que a saúde mental seja alicerçada com uma solidez tal que a criança, em sua vida posterior, possa ostentar uma personalidade rica e estável, suscetível não só de adaptar-se ao mundo, mas também de participar de um mundo que exige adaptação. O autor ainda afirma: Para que os bebês se convertam, finalmente, em adultos saudáveis, em indivíduos independentes, mas socialmente preocupados, dependem totalmente de que lhes seja dado um bom principio, o qual está segurado, na natureza, pela existência de um vínculo entre a mãe e o seu bebê: amor é o nome desse vínculo. (WINNICOTT, 2008, p. 17) Atitudes corriqueiras que são importantes e essenciais para um bom estabelecimento do vinculo mãe-bebê passam despercebidas, um exemplo disso é o holding, termo criado por Winnicott, que quer dizer segurar. Esse termo é explanado Universitári@ - Revista Científica do Unisalesiano – Lins – SP, ano 4., n.9, jul/dez de 2013 208 na maioria de suas obras e é um ato tão importante e por vezes não é dado a devida atenção pelas mães e por isso o autor faz um alerta a elas: “Vocês não permitam que uma pessoa segure o seu bebê se sentirem que, para ela, não se trata de uma experiencia importante” (WINNICOTT, 2006, p.15). De acordo com o autor a forma como se segura um bebê interfere no estado emocional do mesmo. O objetivo desse trabalho foi identificar o desenvolvimento afetivo da relação materno infantil, avaliando quais são os aspectos do desenvolvimento que as mães dão mais atenção, identificando se em relação ao desenvolvimento é dado prioridade aos aspectos físicos ou psicológicos, e ainda verificar o conhecimento que as mães possuem referente ao cuidado emocional. Para atingir o objetivo foi realizada uma revisão bibliográfica e uma pesquisa de campo com 30 mães, que possuem filho de 0 a 3 anos de idade da cidade de Lins. 1 O DESENVOLVIMENTO DA PRIMEIRA INFÂNCIA A primeira infância corresponde aos primeiros anos de vida de um ser humano, mais especificadamente aos três primeiros anos, que são frisados por profundos processos de desenvolvimento, assim servindo de base para todas as aprendizagens humanas. A UNESCO (2007) afirma que a primeira infância é fundamental para o desenvolvimento físico, cognitivo e psicossocial. 2 TEORIAS PSICANALÍTICAS Incluem se as teorias psicanalíticas para que facilite a compreensão do desenvolvimento humano, principalmente de crianças do nascimento aos 3 anos de idade, já que o presente estudo foca nessa faixa etária. O desenvolvimento da personalidade de um indivíduo é interferido por frustrações, medos, ansiedades, ganhos, deixando marcadas as vivências e experiências da infância contribuindo para a construção da identidade, entretanto há eventos, principalmente traumáticos, na vida do ser humano que por causa grande transtorno psíquico são reprimidos e ficam inconscientes, podendo posteriormente produzir sintomas somáticos ou psíquicos e até atingir a consciência. Desta maneira Universitári@ - Revista Científica do Unisalesiano – Lins – SP, ano 4., n.9, jul/dez de 2013 209 a concepção psicanalítica se atenta para as forças inconscientes que impulsionam o comportamento humano. 2.1 Teoria Psicossexual de Freud Freud focando seus estudos sobre a sexualidade estabeleceu cinco fases no desenvolvimento humano, se denominando como teoria psicossexual. A primeira fase Freud dá o nome de oral, onde a libido se concentra na zona de erotização primária, a boca. Ele denominou esse período de narcisismo primário, pois ainda não existe relação com o mundo externo do bebê sendo tudo relacionado com o processo de satisfação interna, ou seja, a maneira de sentir o mundo é através da incorporação. (BIAGGIO, 1988) A segunda fase é denominada como anal-sádica, pois a energia está voltada na função excretora e é a partir dessa fase que os dentes começam a nascer e a satisfação em torno da agressão, pois a libido baseia-se nos impulsos agressivos. De acordo com a maturidade surge o controle dos esfíncteres, e atenção da criança é focada na zona anal. O terceiro processo é conhecido como fase fálica onde começam a se desenvolver a forma final da vida sexual. É a partir desse momento que a criança começa uma atividade de conhecimento do próprio órgão genital, no caso dos meninos, eles possuem fantasias referentes a mãe com possibilidades que poderiam acontecer com aquele pênis e ao mesmo tempo surge o medo da castração. A ocorrência no sexo feminino é a visão da falta desse órgão sexual masculino, gerando um trauma, no qual esse período entra em latência, pois ela sente-se inferior em reconhecer essa ausência e surge então esse desapontamento em relação a vida sexual. (FREUD, 1996) 2.2 Teoria do Desenvolvimento Psicossocial de Erikson A teoria do desenvolvimento psicossocial foi desenvolvida por Erik Erikson, onde propõe que “a personalidade é influenciada pela sociedade e se desenvolve-se através de uma série de crises.” (PAPALIA et al., 2006, p.68) Erikson (1998) nessa teoria divide o ciclo de vida do desenvolvimento humano Universitári@ - Revista Científica do Unisalesiano – Lins – SP, ano 4., n.9, jul/dez de 2013 210 em oito idades ou estágios, os primeiros quatro estágios ocorrem no período de bebê, na infância inicial, idade do brincar e idade escolar, e os últimos quatro estágios decorre durante a adolescência, a idade adulta jovem, a idade adulta e a velhice. Os oitos estágios são: confiança básica versus desconfiança básica: esperança; autonomia versus vergonha e dúvida: vontade; iniciativa versus culpa: propósito; diligência versus inferioridade: competência; identidade versus confusão de identidade: fidelidade; intimidade versus isolamento: amor; generatividade versus estagnação: cuidado; e integridade versus desespero e desgosto: sabedoria. Sendo que a primeira característica de cada estágio fornece o crescimento, e a expansão, e sustentam o indivíduo quando desafiado por elementos desagradáveis que surge ao longo da vida, entretanto algumas ocasiões evidencia em nós características mais distônicas. 2. 3 Teoria Kleiniana Para Klein (1996) o trabalho sempre partia da ansiedade, acreditando que a partir do momento que o bebê acaba de nascer surgem as ansiedades, que são chamadas ansiedade persecutória e depressiva, por estar entrando em um ambiente onde as imagens são todas diferentes do que já havia vivido ate então. E assim durante todo o seu desenvolvimento vai descobrindo sentimentos e vivências que vão causando cada vez mais a ansiedade como o seio materno, que é ao mesmo tempo amado e odiado. Inicialmente ele ama, é o momento em que sacia sua fome e da um contentamento e lhe apresenta um prazer naquele momento da sucção, sendo este o que chega rápido. No entanto, quando esse bebê sente fome e suas necessidades não são saciadas imediatamente, gera uma sensação ruim, é quando o estado das coisas muda, o bebê sente ódio ficando agressivo ao mamar, como se fosse uma forma de maltratar o seio que não supriu suas necessidades rapidamente. Este se dá pelo impulso de destruir, mesmo que esse seja o objeto que também lhe faz bem, não se dando conta de que os mesmos, bons e ruins são um só objeto. A esta primeira posição se dá o nome de esquizo-paranóide. (KLEIN, 1996) Para diminuir este estado de revolta inconsciente do bebê, é importante a Universitári@ - Revista Científica do Unisalesiano – Lins – SP, ano 4., n.9, jul/dez de 2013 211 presença da mãe, de forma que acolha e de apoio ao seu bebê para que ele possa se sentir seguro e possa se espelhar em algo seguro, pois inicialmente é a única figura imediata que pode acolhê-lo. (ZIMERMAN, 1999) O bebe percebe que é a mesma voz o mesmo cheiro e percebe então que o seio mau é o mesmo que ele ama, causando um sentimento inconsciente de culpa e ansiedade por medo de ter danificado o seio bom. Para Klein essa ansiedade junto á defesa é a segunda posição que é chamada de posição depressiva. Desta forma coloca-se o importante papel da mãe no desenvolvimento da criança. É o primeiro vínculo afetivo a primeira relação de amor e o primeiro objeto de segurança. 3 Conceitos Winnicottianos 3.1 A dependência Ao longo do processo de maturação ou de socialização o indivíduo passa da dependência absoluta para a independência, sendo que essa independência nunca que se tornará absoluta visto que o indivíduo não há como se tornar um ser isolado, sem ao menos depender do ambiente. Assim Winnicott (1983), classifica essa evolução do ego e do self (a essência/totalidade do sujeito) em três categorias: dependência absoluta, dependência relativa e rumo à independência. Inicialmente a criança se encontra numa dependência absoluta necessitando totalmente dos cuidados maternos, ao longo dos dois anos de idade o bebê vai gradativamente passando pelos processos de maturação e com isso deixando essa situação de total dependência para uma dependência relativa, na qual não necessita mais completamente dos cuidados maternos, e após os dois anos de idade a criança caminha rumo a independência, lembrando que dificilmente um adulto conseguirá alcançar a maturidade por inteira, mas provavelmente atingirá uma situação confortável e benéfica ao seu bem estar. (WINNICOTT, 1983). 3.2 A preocupação materna primária A preocupação materna primária é um estado psicológico da mãe, que a coloca sensível às necessidades básicas de seu filho. Esse estado é descrito por Universitári@ - Revista Científica do Unisalesiano – Lins – SP, ano 4., n.9, jul/dez de 2013 212 Winnicott (1956, p. 401) como: Gradualmente, esse estado passa a ser o de uma sensibilidade exacerbada durante e principalmente ao final da gravidez. Sua duração é de algumas semanas após o nascimento do bebê. Dificilmente as mães o recordam depois que o ultrapassaram. Eu daria um passo a mais e diria que a memória das mães a esse respeito tende a ser reprimida. No estado de preocupação materna primária a mãe toma uma posição regressiva, com uma sensibilidade tão intensa, que se equipara a uma doença, tendendo a recuperar-se posteriormente. Assim o estado de preocupação materna primária é fundamental para que o desenvolvimento do bebê seja saudável, já que a mãe desenvolverá empatia pelo bebê desde a gestação. Com isso atenderá as todas as suas necessidades básicas, sabendo o que realmente o bebê está sentindo e do que ele precisa. 3.3 Mãe suficientemente boa O desenvolvimento emocional da criança não tem como evoluir a não ser tenha uma mãe suficientemente boa. Esta não se trata apenas da mãe biológica, mas sim a pessoa que cuidará das necessidades do bebê e que ajudara a elaborar as frustrações presentes no desenvolvimento. (WINNICOTT, 1975) No começo do desenvolvimento o ego fragilizado do bebê é confortado pelo ego materno. Tornar-se forte sempre que a mãe supre suas necessidades correspondendo à dependência. A mãe não suficientemente boa apresenta imperfeições no cuidar não atendendo as necessidades do bebê, e a integração de si mesmo se torna falha, por causa dessa incapacidade da mãe entender as necessidades. (WINNICOTT, 1983) A mãe suficientemente boa apresenta três funções: holding, handling e a apresentação dos objetos. (ROCHA, 2006; MONTEIRO, 2003) O holding significa a maneira como se segura um bebê no colo, o modo como é amparado e sustentado no colo, demonstrando ao bebê o amor que sente por ele, e traz não apenas uma experiência física, mas também uma experiência emocional, simbolizando o amor que a mãe sente e o desejo de tê-lo como filho, que fornecerá um embasamento saudável para a sua saúde mental, e esse contato também tornase um ambiente confiável para que o bebê possua circunstâncias satisfatórias e Universitári@ - Revista Científica do Unisalesiano – Lins – SP, ano 4., n.9, jul/dez de 2013 213 facilitando o processo de maturação. (WINNICOTT, 1983; WINNICOTT, 2006; MONTEIRO, 2003) O handling se caracteriza pelo manejo adequado da mãe e isso irá refletir na maneira como o bebê é tratado, manipulado e cuidado. (ROCHA, 2006; MONTEIRO, 2003) E a apresentação de objetos, na qual a mãe começa a apresentar o mundo exterior, esta fase pode ser chamada de realização, pois é estimulada no bebê a criatividade e a criação. (ROCHA, 2006; MONTEIRO, 2003) 4 A PESQUISA A pesquisa de campo foi realizada com 30 mães, de 18 a 58 anos, que tinham filhos de 0 até 3 anos e 11 meses, com abordagem no momento de entrada e saída dos filhos de oito creches do município de Lins teve como objetivo testar a hipótese que as mães se importam mais com os aspectos físicos do que os psicológicos, buscando comprovar e/ou constatar novos fenômenos ou ideias. Elaborou-se um questionário com 5 perguntas fechadas sobre o tema, em que fosse possível avaliar e testar a hipótese. Com o objetivo de obter informações e avaliar a formação do vínculo mãe-bebê se fez útil a aplicação de mais um instrumento o „Protocolo de avaliação do vínculo mãe-filho‟ empregado por Campos et al. (1997) que classifica o vínculo como bom ou fraco de acordo o número de respostas positivas ou negativas. Em síntese do trabalho científico, pôde-se constatar que a hipótese principal foi comprovada parcialmente, pois em algumas questões as mães valorizam os aspectos psicológicos e em outra elas priorizam aspectos físicos e hipotetiza-se que diante dos dados obtidos pode ter havido influência do curso das pesquisadoras, pois pelo fato de estar cursando psicologia já faz com que elas fiquem receosas quanto a análise que poderia ser feita pelas mesmas, querendo demonstrar a figura de uma mãe perfeita. A primeira pergunta do questionário cujo objetivo foi saber o que as mães consideravam mais importantes, resultou com 93,33%, nos itens brincar, passear, ter bons exemplos dos pais, receber carinho e afeto, tomar cuidado com a higiene da criança e levar ao pediatra regularmente, percebe-se que os primeiros itens se Universitári@ - Revista Científica do Unisalesiano – Lins – SP, ano 4., n.9, jul/dez de 2013 214 tratam de comportamentos que influem no psicológico, enquanto os dois últimos no físico, não priorizando demais itens tão importantes para o desenvolvimento psicológico, como receber a atenção dos adultos e conversar com a criança. Observa-se ainda nessa questão que as mães acham mais importante que a criança viva em um ambiente adequado (segurança, ventilação, higiene etc), com 86,67% ao invés de receber a atenção dos adultos (76,67%) ou conversar com a criança (83,33%), que se trata de características da mãe suficientemente boa, que segundo Winnicott (1997, p.24): Só na presença dessa mãe suficientemente boa pode a criança iniciar um processo de desenvolvimento pessoal e real. Se a maternagem não for boa o suficiente, a criança torna-se um acumulado de reações à violação; o self verdadeiro da criança não consegue formar-se, ou permanece oculto por trás de um falso self que a um só tempo quer evitar e compactuar com as bofetadas do mundo. De acordo com Winnicott (1983) a mãe ao segurar, manipular, tocar, aconchegar ou falar com seu bebê estimula uma organização entre o físico e o psíquico, o que fornece um arranjo da psique própria que dará suporte aos sonhos e as relações. As mães ao valorizarem os itens „viver em um ambiente adequado (segurança, ventilação, higiene, etc)‟ e „tomar cuidado com a higiene da criança‟ cometem o equivoco de achar que é forma como o ambiente se encontra que irá definir o vínculo ou o desenvolvimento psicológico do bebê. Para Araújo (2005, p. 41) “inicialmente, esse ambiente é a mãe e seu papel tem importância vital” que tem a finalidade de dar o amor ao seu bebê, estar com ele, alimentá-lo, protegê-lo, enfim, oferecer o cuidado materno favorável. Assim segundo Winnicott (1965, p. 81), “o ambiente favorável torna possível o progresso continuado dos processos de maturação. Mas, o ambiente não faz a criança. Na melhor das hipóteses, possibilita à criança concretizar seu potencial”. Na questão onde pergunta quais os sinais que a mãe considera importante para demonstrar o bom desenvolvimento do seu filho, nota-se que foi considerado tanto aspectos físicos quanto psicológicos, demonstrando que ela reconhece os sinais de que um criança está tendo um desenvolvimento saudável, concordando com Papalia (2006, p. 52): Universitári@ - Revista Científica do Unisalesiano – Lins – SP, ano 4., n.9, jul/dez de 2013 215 Todos os sentidos funcionam no nascimento em graus variados. O cérebro aumenta de complexidade e é altamente sensível à influência ambiental. O crescimento e o desenvolvimento físico das habilidades motoras são rápidos. As capacidades de aprender e lembrar estão presentes, mesmo nas primeiras semanas. O uso de símbolos e a capacidade de resolver problemas desenvolvem-se ao final do segundo ano de vida. A compreensão e o uso da linguagem desenvolvem-se rapidamente. Desenvolve-se um apego a pais e a outras pessoas. Desenvolve-se a autoconsciência. Ocorre uma mudança da dependência para a autonomia. Aumenta o interesse por outras crianças. Na terceira pergunta que questiona as mães sobre suas atitudes para estimular o desenvolvimento de seu filho, teve-se uma grande variação na porcentagem das respostas. Os itens com maiores porcentagens foram: “dou carinho e estímulos através de conversas, cantos e leituras” (90%), “respeito o tempo da criança para descanso e lazer” (70%), “quando falo com ele procuro sempre olhar nos olhos para que se sinta confiante” (83,33%), “estímulo para que ele se alimente sozinho desde pequeno para adquirir autonomia” (63,33%), ou seja, os maiores itens assinalados correspondem ao psicológico. O item “dou carinho e estímulos através de conversas, cantos e leituras” notase que há uma contradição das respostas no critério importância e atitudes, pois esse item foi o mais assinalado nessa questão enquanto que na primeira questão o item “receber atenção dos adultos” e “conversar com a criança” teve uma baixa porcentagem, questionando-se assim sobre o significado dos itens para ela, supondo que haja uma interpretação distorcida sobre esses conceitos, já que elas têm atitudes que nem sempre consideram importantes e vice-versa. Quanto ao respeitar o tempo da criança para descanso e lazer, observa-se que a mãe além de respeitar esse tempo, também procura brincar e passear com a criança a fim de promover um momento de lazer que traz benefícios aos aspectos psicológicos. Segundo Erikson (1998) a promoção da confiança na criança normalmente é por meio da própria mãe, através de sentimentos de compreensão e amor, sendo prestativa, e confiável e demonstrando a criança um senso de confiança, o que pode ocorrer pelo comportamento de abaixar-se e olhar nos olhos da criança quando fala com ela. A estimulação do filho para que ele se alimente sozinho desde pequeno para adquirir autonomia, como assinalado por 63,33% das mães, é importante, contudo, Bee (2003, p.309) parafraseando sobre a teoria psicossocial de Erikson evidencia Universitári@ - Revista Científica do Unisalesiano – Lins – SP, ano 4., n.9, jul/dez de 2013 216 que: (...) se os esforços de independência da criança não forem orientados com cuidados pelos pais e se experienciar repetidos fracassos ou o ridículo, os resultados de todas as novas oportunidades de exploração podem ser a vergonha e a dúvida, em vez de um senso de básico de autocontrole e autovalor. Ainda nessa pergunta uma mãe (3,33%) acredita que “A criança de 0 a 1 ano não precisa de estímulos porque aprende sozinha” ressaltando um possível equivoco nessa afirmação, pois “as capacidades de aprender e lembrar estão presentes, mesmo nas primeiras semanas” (PAPALIA, 2006, p. 52). Conforme Winnicott (2006) para que a criança tenha um ambiente favorável é necessário uma maternagem suficientemente boa que compreende-se três funções: holding, handling e apresentação de objetos, essas fazem parte de estímulos tanto psicológicos como físico, pois fortalecendo o ego, e oferecendo confiança e autonomia, consequentemente favorecerá para o aprendizado necessário desde o inicio da vida. Por meio do questionário compreende-se que a maioria das mães entrevistadas são as que passam maior tempo com seu filho, mostrando que os cuidados que a criança recebe são mais precisamente maternos, corroborando com Winnicott (1990, p. 40) que coloca que “não existe essa coisa chamada bebê” o que mostra a importância da maternagem, pois sempre que houver um bebê haverá um cuidado materno, e sem tal cuidado não poderá haver um bebê, já que esse se encontra em total dependência, necessitando de um ambiente facilitador que vem a ser a própria mãe. Todavia, quando existe um ambiente que não seja favorável para que o bebê tenha um desenvolvimento saudável, isso pode tornar-se uma experiência de despedaçamento e desconfiança em relação ao mundo externo, pois este proporcionou uma realidade, no qual, não foi satisfatória. O bebê tem a capacidade de identificar a falha materna, no qual, o resultado dessa falhas é o cessamento da „continuidade do ser‟, resultando assim, no enfraquecimento do ego. (ROCHA, 2006; MONTEIRO, 2003) Na utilização do „Protocolo de avaliação do vínculo mãe-filho‟ obteve-se o resultado das 30 mães entrevistadas, dentre elas 7 apresentaram um vínculo fraco, Universitári@ - Revista Científica do Unisalesiano – Lins – SP, ano 4., n.9, jul/dez de 2013 217 representando 23,33% do total de mães. Observa-se a semelhança nas respostas dessas mães no que considera importante e o que faz, na qual assinalaram a maioria dos itens na pergunta sobre o que acha importante e na terceira pergunta que se refere a atitudes que tem para estimular tal desenvolvimento diminuíram consideravelmente à quantidade de itens assinalados, ou seja, isso ocorre possivelmente pelo fato das mães possuírem um vínculo fraco na relação mãe-bebê. Tem-se também nessa escala de avaliação que das 7 mães que apresentam vínculo fraco, 5 delas, disseram que seu filho passa maior parte do tempo com parentes/familiares, trabalho e escola/creche. Analisando tal protocolo tem-se que a maioria dos itens que receberam resposta afirmativa foram primeiramente o termo “ausência de modelos parentais” que faz parte ao modelo disfuncional familiar, referente a conflitos conjugais dos pais, seguido por “gravidez indesejada”, “falta de apoio familiar na gestação” e “problemas emocionais na gestação”. Tais problemas comprovam uma possível causa do vínculo fraco, pois Borges (2005, p. 30) parafraseando Winnicott (1999) descreve: (...) sobre as expectativas e desejos dos pais em relação à criança como aspectos importantes para um bom desenvolvimento desta. A função materna e paterna parece ser necessária, bem mesmo antes do nascimento do bebe, através do desejo no qual insere o filho. Bowlby (1989) contribuindo com os autores acima considera que uma personalidade estruturada depende na sua maioria do vínculo que teve com suas figuras de apego, assim sendo, a criança que foi desdenhada pelos pais, vai supor que todos a desprezam, sendo que a que recebeu afeto pelos pais terá a concepção de que é e merece ser amada por todos. Portanto, o vínculo fraco pode ser ocasionado por conflitos pré e pósgestacionais, ou ainda situações disfuncionais da infância, que demarcam os papeis parentais por toda a vida. CONCLUSÃO Em suma, todo o exposto do trabalho, explora o desenvolvimento afetivo, tentando mostrar a qualidade da relação e a afetividade que as mães disponibilizam Universitári@ - Revista Científica do Unisalesiano – Lins – SP, ano 4., n.9, jul/dez de 2013 218 aos seus filhos, e no que pode interferir a falta desse afeto na relação mãe-bebê. Como já exposto anteriormente, as mães apresentaram no questionário que se importam com o desenvolvimento psicológico da mesma forma que com o físico. Entretanto, percebeu-se que as suas ações não são influenciadas pela sua concepção de importância de tais atitudes. Ressalta-se, no entanto, que as mães dão mais importância do que desempenham na prática, notando assim momentos de contradições em algumas questões, que interferem nos fatores da relação prática versus importância. Em momentos que deixaram de assinalar aspectos psicológicos para assinalar o físico também assinalaram outros aspectos psicológicos que talvez sejam mais relevantes para o contexto em que vive, e o fato de ter equilibrado a categoria dos itens não indica que ela não seja uma mãe suficientemente boa, já que essa deve dar o mínimo de atenção nem que seja pelos cuidados físicos, que o bebe a principio entende apenas como cuidado materno. A partir dos resultados obtidos por meio da pesquisa pode-se concluir e verificar também o quanto a ausência de modelos parentais, falta de apoio familiar na gestação, problemas emocionais na gestação, gravidez indesejada, agrava a vida do bebê, pois as mães que apresentaram deficiência nesses itens revelaram um vínculo mãe-filho fraco, confirmando a literatura estudada. REFERÊNCIAS ARAUJO, C. A. S. O ambiente em Winnicott. Winnicott E-Prints, v. 4, n. 1, 2005, p. 21-34. BALMANT, O.; LENHARO, M. (Colab.). Mães não valorizam carinho e lazer na primeira infância, mostra pesquisa. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 14 set. 2012. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,maes-nao-valorizamcarinho-e-lazer-na-primeira-infancia-mostra-pesquisa--,930502,0.htm>. Acesso em: 20 set. 2012. BEE, H. A criança em desenvolvimento. Tradução Maria Adriana Veríssimo Veronese. 9. ed. Porto Alegre: Artmed, 2003. BIAGGIO, A. M. B. Psicologia do desenvolvimento. v. 15. 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