TerraBrasil 2006 4 a 8 de Novembro de 2006 - Ouro Preto - Minas Gerais ARQUITETURA DE TERRA PROJETO E CONSTRUÇÃO DE CONDOMÍNIO HABITACIONAL Ruy Arini (1) Renato Nascimento (2) (1) Escola de Engenharia Universidade do Minho, Campus de Azurém, 4800-058 - Guimarães, Portugal, Tel: (351) 253510200/4 – Fax (351) 253510217, [email protected] (2) [email protected] Tel: (55 11) 31206610 – (55 11) 93424438 Palavras-chave: arquitetura, terra, tecnologia, ecologia, cooperativa RESUMO O trabalho consiste na apresentação do resumo do Programa Social para a construção e implantação de um Condomínio Habitacional edificado pela Cooperativa Habitacional das Associações Ambientalistas – COHAMB, em Guarulhos, município localizado na Região da Grande São Paulo, utilizando a Tecnologia de Construção Ecológica em Arquitetura de Terra. A Cooperativa foi idealizada, criada e constituída por mulheres que representam as principais lideranças das associações populares, mantidas pela população de baixa renda, que estão localizadas na Zona Leste da Região da Grande São Paulo, ainda não atendidas pelos organismos governamentais responsáveis por esse segmento habitacional. Os parâmetros financeiros adotados para a construção deste condomínio habitacional elegeram a Tecnologia de Construção Ecológica, devido ao seu baixo custo, elevada qualidade técnica, de construção fácil e rápida e muito boa aceitação por parte da população, que busca melhorar a sua qualidade de vida e a qualidade do meio ambiente da cidade de Guarulhos. Construir uma residência com melhor qualidade construtiva, estética, arquitetônica, dimensões e custos compatíveis com o poder aquisitivo daquela população, foram as principais exigências para que a Cooperativa Habitacional das Associações Ambientalistas – COHAMB, uma Organização Não Governamental, pudesse construir residências com dimensões físicas mais generosas, uma vez que as famílias de baixa renda sempre apresentam maior número de pessoas na sua composição familiar. A COHAMB também sugeriu que o condomínio tivesse uma diversificação de tipologias e, conseqüentemente, de fachadas, utilizando, para isso, implantações diferenciadas das habitações no lote, construção de floreiras, jardineiras e/ou jardins, que ajudam a personalizar todas as unidades de habitação. Para o preparo do terreno e todo o movimento de terra necessário para a preparação dos lotes e das ruas dentro do condomínio, a Prefeitura Municipal de Guarulhos colocará à disposição da Cooperativa os equipamentos do Setor de Pavimentação. Os aspectos técnicos de implantação foram estudados e definidos juntamente com os técnicos das Secretarias Municipais, responsáveis pela criação do Programa Social do Condomínio, em conjunto com as lideranças das Associações, caracterizado pela criação de hortas, pomares, granjas comunitárias, visando sempre o abastecimento das famílias do condomínio em primeiro lugar. Garantindo uma alimentação mais adequada, o que deverá proporcionar uma vida mais saudável àquela população e, conseqüentemente, melhor aproveitamento e rendimento educacional para as crianças e adolescentes. Os produtos excedentes do consumo interno deverão ser comercializados externamente, proporcionando um aumento do fundo de caixa da cooperativa. O Programa Social, no aspecto educacional prevê a montagem de creches, escolas pré-primária, e de ensino fundamental, além do ensino profissionalizante de formação e capacitação de mão-de-obra para diversas atividades profissionais que a região necessita, controladas pelas Secretarias Municipais e pela COHAMB. No Setor de Saúde, a Prefeitura Municipal de Guarulhos se propõe instalar postos de saúde e um centro de saúde municipal dentro do condomínio. I Seminário de Arquitetura e Construção com Terra no Brasil IV Seminário Arquitectura de Terra em Portugal 1. INTRODUÇÃO Alterar o conceito dos projetos de arquitetura e a efetiva construção das habitações de interesse social produzidas pelos órgãos governamentais, por si só, justifica o trabalho desenvolvido pela Cooperativa Habitacional das Associações Ambientalistas – COHAMB, que vem, neste momento histórico, representar as lideranças da população de baixa renda, localizada na Zona Leste do município de São Paulo, para implantar este Programa Social que, além de planejar uma melhor qualidade de vida para seus associados, também está preocupada com a preservação do Meio Ambiente e da Ecologia. A proposta utilizará a Tecnologia de Construção Ecológica em Arquitetura de Terra, caracterizada pela utilização de BTC, blocos de terra compactada, para construir habitações dimensionadas, segundo a capacidade financeira mensal da família. As diversas opções de programa escolhido pela família determinaram os parâmetros dos projetos de arquitetura, que permitem, em qualquer proposta, utilizar como opção secundária, uma proposta de habitação que pode ser construída em duas etapas: a primeira, com dimensões menores, e conseqüentemente de menor custo, permitindo a família se mudar rapidamente para o Condomínio; a segunda etapa, quando houver melhores condições financeiras, a família pode concluir sua residência. Estas atividades construtivas contarão sempre com a orientação e apoio técnico da Diretoria Técnica da COHAMB. Os blocos utilizados na edificação possuem um design que permitem serem assentados e encaixados na estrutura projetada com perfis metálicos, que também é utilizada na construção da forma que apóia os blocos na edificação da cobertura. O elevado índice de compacidade das partículas, característica dos BTC, retarda a transmissão de energias incidentes na cobertura e nas paredes externas, funcionando como material térmico e acústico, permitindo, com isso, eliminar o forro dos cômodos, sem perder a qualidade do conforto ambiental da edificação, que utiliza a cor branca para as partes externas e internas da laje de cobertura, ajudando, com isso, a refletir o calor incidente na sua parte externa, e uma melhor iluminação na parte interna. Com a redução do custo final do metro quadrado construído, sem perder a qualidade construtiva, podemos propor uma habitação com dimensões mais adequadas, outra estética arquitetônica, melhor acabamento e maior durabilidade, quando comparada às unidades habitacionais produzidas pelos organismos governamentais, e um custo final compatível com a renda familiar da maior parte da população brasileira. 2. TERRENO O terreno escolhido está localizado próximo a Serra da Cantareira, vizinha às Áreas de Mananciais, o que garante extensa área verde nas suas proximidades, tem área de 726.000 metros quadrados, onde estão localizados o Clube de Campo Santa Mônica e o Clube de Campo dos Cabos e Soldados da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Com relevo suave, intensa vegetação e uma flora rica e bastante diversificada, conta também com a existência de um lago, de média extensão, e do Rio Cabuçu, que determina a divisa do terreno. A existência de árvores frutíferas garante a presença de diversos pássaros, que deverão emprestar os nomes de suas espécies às ruas do condomínio. 3. PROJETO DE ARQUITETURA 3.1. Definição As famílias optaram pelas plantas térreas básicas, com dois dormitórios, sala, cozinha, banheiro de uso múltiplo, que tem área construída de aproximadamente 50,00 m², conforme figura 1. A primeira etapa da construção propõe a entrega da sala, cozinha e banheiro, e posteriormente a construção dos dois quartos. No caso da família ser maior e se definir, posteriormente, por um projeto assobradado, é necessário planejar uma escada interna e, na primeira etapa, a casa térrea coberta com laje plana. Todas as alterações serão acompanhadas pela Diretoria Técnica da COHAMB, para que se mantenha a perfeita I Seminário de Arquitetura e Construção com Terra no Brasil IV Seminário Arquitectura de Terra em Portugal homogeneidade das edificações quando concluídas, primando pela qualidade estética das fachadas, dos jardins e do paisagismo do Conjunto Habitacional. Desenho Ruy Arini Figura 1 – Casa térrea / planta básica Para diferenciar as diversas associações, as famílias que vão habitar no condomínio escolherão jardins, que utilizarão flores com cores definidas para cada Associação e uma cerca viva de altura baixa, como forma de integração urbana, porém sem perder sua identificação, conforme figura 2, que demonstra um conjunto de casas térreas. Desenho Ruy Arini Figura 2 – Perspectiva das casas térreas Estão previstos edifícios de escolas, creches, postos de saúde, escolas profissionalizantes, ensino fundamental e ensino do primeiro grau, além de edifícios comerciais, supermercado, mini-shopping, serviços, laser e um pequeno hotel. Para compor com os espaços vazios, serão projetadas praças, parques, laser descoberto, esportes coletivos, pesqueiro, caminhadas ecológicas e bosques. I Seminário de Arquitetura e Construção com Terra no Brasil IV Seminário Arquitectura de Terra em Portugal 3.2. Design do BTC, bloco de terra compactada O design do BTC com encaixes horizontais e verticais, utilizado para edificar as paredes, foi desenvolvido com o objetivo de resistir aos esforços horizontais e verticais, e que possam ser assentados com pequena quantidade de cola à base de PVA junto às estruturas metálicas. Os BTCs terão um formato diferenciado, com duas aberturas internas redondas, exatamente idênticas, de tal forma que possam ser assentados com junta a prumo ou com junta cruzada, reduzindo o seu peso final e facilitam a colocação das instalações elétricas e hidráulicas nas paredes, conforme figura 3. Bloco de base inicial dos vedos Bloco de base final dos vedos Bloco tipo Alvenaria resultante Desenho Ruy Arini Figura 3 – Blocos de terra compactada As estruturas metálicas, que compõem as vigas baldrames, os pilares e as cintas de amarração superior, são projetadas em chapas de aço dobrado, de forma a receber os blocos que definem as paredes de canto, paredes de dois lados, cruzamento de três paredes, e de cruzamento de quatro paredes. As vigas, os pilares e as cintas de amarração superior, projetadas em chapa de aço dobrada, serão fixadas entre si, através de parafusos. Os pilares são parafusados nas vigas baldrames, em sua parte superior e nas cintas de amarração, em sua parte superior, conforme figura 4 e 5. Uma vez concluídas todas as paredes verticais com os BTCs assentados nas armações das estruturas, inicia-se a construção da cobertura, que terá sua descrição e caracterização no item 4.4 deste trabalho. I Seminário de Arquitetura e Construção com Terra no Brasil IV Seminário Arquitectura de Terra em Portugal PERSPECTIVA VIGA BALDRAME E DA BROCA / PILAR DE AÇO LAMINADO ENTRE DUAS PAREDES EM LINHA Desenho Ruy Arini Figura 4 – Detalhe da viga baldrame x broca / pilar PLANTA ESQUEMÁTICA DE PILAR DE AÇO LAMINADO PARA TRÊS PAREDES Desenho Ruy Arini Figura 5 – Planta do pilar específico para encontro de 3 paredes 4. SISTEMA CONSTRUTIVO 4.1. Fundações Para que as obras das fundações sejam iniciadas, é necessário a fazer a limpeza, a regularização e a demarcação da obra no terreno. Em seguida, conforme a definição do sistema construtivo, que objetiva a construção de um pilar em cada cruzamento de paredes, são escavadas cavas com 30 centímetros de diâmetro e com profundidade de aproximadamente 100 centímetros, onde serão colocados os perfis metálicos correspondentes à função estrutural de cada pilar na edificação. As chapas metálicas das fundações serão assentadas sobre um berço de terra socada, pedra britada 1, argamassa de assentamento, onde serão construídas as vigas baldrames que é preparada com três blocos em espelho, assentados com concreto, utilizando quatro ferros de 12,7 mm (1/2”) estribados a cada 15 centímetros com ferros 8 mm (5/16”), que serão ancorados a cada encontro com pilares ao longo das paredes, dando total estabilidade à construção, conforme figura 6. I Seminário de Arquitetura e Construção com Terra no Brasil IV Seminário Arquitectura de Terra em Portugal VIGA BALDRAME UTILIZANDO TIJOLO COMO FORMA PERDIDA Desenho Ruy Arini Figura 6 – Corte esquemático da viga baldrame 4.2. Estrutura A estrutura é composta de pilares de canto, de passagem, de cruzamento de 3 paredes e cruzamento de 4 paredes. Todos os pilares serão fixados nas vigas baldrames e nas cintas de amarração. Esta etapa de trabalho consome aproximadamente 120 minutos para uma edificação de 50 metros quadrados. Finalizada a etapa de fixação dos pilares, das vigas baldrames e das cintas de amarração da estrutura, é despejado o concreto nas valas que estão abaixo da superfície, concluindo as brocas, que acima da superfície, sustentam os pilares. Nos vãos das paredes onde estão previstas as esquadrias, são colocadas as vergas, também projetadas em perfis metálicos, onde serão fixadas as portas e as janelas. Para as janelas são colocadas, na sua parte inferior, as contravergas, que são parafusadas junto aos pilares laterais que determinam o vão, e as vergas, que são colocadas na sua parte superior, que são parafusadas junto aos pilares laterais que determinam o vão. Para a colocação das portas, os batentes são fixados nas vigas baldrames, em sua parte inferior e, na parte superior da porta, o batente é fixado na verga superior, que são parafusadas entre os pilares laterais que determinam o vão. 4.3. Alvenaria Esta etapa se caracteriza pelo assentamento dos blocos, utilizando uma fina demão de cola à base de PVA, nos vãos definidos entre os pilares laterais e entre as vigas baldrames e às cintas de amarração superior. Os blocos que são encaixados e travados, horizontal e verticalmente, devido às reentrâncias e saliências horizontais e verticais definidas pelo seu design. Para produção dos blocos, será utilizado o equipamento hidráulico da LC Ferramentas, instalada em Mauá, que tem a capacidade de compactação de 20 toneladas no sentido vertical, de baixo para cima, e 20 toneladas no sentido vertical de cima para baixo. O equipamento possui ainda um moedor, um elevador, um misturador e a prensa hidráulica / mecânica, que permite uma excelente e rápida compactação de 18000 unidades, em média, a cada 8 horas de produção. A estabilização dos blocos terá 3% de cimento e 3% de cal, para 94% de terra; a primeira hidratação dos blocos deverá ocorrer 4 horas após a sua compactação. O molde, que dá o formato ao bloco, será produzido com aço, e que, depois de fundido, é colocado no alto forno, aonde é submetido à elevada temperatura, o que aumenta sua I Seminário de Arquitetura e Construção com Terra no Brasil IV Seminário Arquitectura de Terra em Portugal durabilidade por maior resistência à abrasão. Para a produção de blocos diferentes, deverá ser produzido novo molde, mas sempre com o mesmo equipamento. 4.4. Cobertura Os blocos que compõem a cobertura, quando colocado em “espelho”, possuem a forma trapezoidal, com uma altura igual a 11 centímetros. Estes têm, na parte superior, uma largura igual a 5 centímetros e, na parte inferior, uma largura igual a 4 centímetros, e seu comprimento é de 23 centímetros. Uma vez concluída a etapa do respaldo, é colocada uma forma com formato em arco abatido, produzida em aço laminado, sobre as cintas de amarração superior, alinhando-se horizontal e verticalmente. Em cada um dos quatro cantos da forma é colocada uma cunha, que eleva a forma em 1 centímetro. Os blocos são apoiados e assentados, em espelho, com uma fina demão de cola à base de PVA, até preencher o espaço definido pela forma, conforme figura 7. Para dar continuidade à construção do arco, depois de preenchida toda a forma, as cunhas são retiradas, a forma é baixada e pode ser deslocada até o alinhamento da metade da última fiada de bloco assentada, quando, de novo, são colocadas as cunhas, de forma cuidadosa, para conseguir o alinhamento paralelo e dar continuidade à construção do arco. O procedimento deve ser repetido até que se complete aquela parte da edificação, conforme figura 8. Na parte da cobertura em que a cinta de amarração está apoiada sobre uma parede externa da edificação, os primeiro blocos devem ser colocados em pé, apoiados na parte elevada da cinta de amarração superior, que tem um formato triangular em toda sua longitude, com altura igual a 23 centímetros, diferente dos 11 centímetros dos demais blocos da cobertura. Dessa forma se criam os espaços para canalizar as águas de chuva, substituindo as calhas convencionais. Sobre o arco construído, aplica-se uma demão de argamassa preparada com terra, água e material impermeabilizante, que funciona como camada de regularização dos arcos da cobertura. Depois de seca, aplicam-se duas demãos de tinta plástica ou acrílica, de cor branca. Esse mesmo produto deve ser aplicado na parte superficial interna da cobertura, diretamente sobre os blocos. DETALHE DE ASSENTAMENTO DOS TIJOLOS NA FORMA DE COBERTURA EDIFICIO SHOW ROOM CERÂMICA SELETA – ITU / SÃO PAULO Foto Ruy Arini Figura 7 – Assentamento da forma de cobertura I Seminário de Arquitetura e Construção com Terra no Brasil IV Seminário Arquitectura de Terra em Portugal Desenho Ruy Arini Figura 8 – Forma da cobertura 4.5. Instalações As tubulações elétricas e hidráulicas serão colocadas no sentido vertical durante à construção das paredes, nos furos que existem na parte interna dos blocos e, para sua distribuição no sentido horizontal, as tubulações deverão percorrer as partes internas do triângulo existente das cintas de amarração superior até encontrar as tubulações verticais, anteriormente colocadas quando da edificação das paredes. Exceção é feita para a colocação das caixas de tomadas, de interruptores e saídas de água, quando se prepara um bloco com dimensões especiais. O projeto prevê a iluminação da edificação com pontos de luz nas partes laterais internas, nas sancas criadas entre o final da cinta de amarração e o início da cobertura, conforme figura 8, caracterizando uma iluminação indireta do ambiente. 4.6. Pisos Para a construção dos pisos das áreas consideradas secas, os blocos serão produzidos sem os furos internos, de forma maciça. São assentados em espelhos, de tal forma que a espessura do piso fique com 11 centímetros, no formato “espinha de peixe”, deixando entre o um bloco e outro, um espaço lateral de 1 centímetro, que deve ser preenchido com argamassa de assentamento convencional, conforme figura 9. A argamassa de assentamento deve deixar um espaço de 1 centímetro na altura. Este espaço será posteriormente preenchido com argamassa preparada com cimento colorido, areia e uma quantidade maior de água, cujo excesso deverá ser retirado com um puxador de água junto à superfície dos blocos, aumentando a resistência das partes externas dos blocos assentados e de suas respectivas arestas, resultando um piso resistente e colorido. Depois de concluído, devem ser aplicadas duas demãos de cera de carnaúba incolor. Para a construção dos pisos das áreas consideradas molhadas, serão utilizados pisos de cerâmica vitrificada, de cor contrastante às cores das louças sanitárias, que deve ser rejuntado com massa de cor preta. I Seminário de Arquitetura e Construção com Terra no Brasil IV Seminário Arquitectura de Terra em Portugal DETALHE DO ASSENTAMENTO DOS TIJOLOS COM ARGAMASSA NO PISO RESIDÊNCIA ILHA BELA / SP Foto Ruy Arini Figura 9 – Assentamento do piso 4.7 Revestimentos Uma vez concluída a edificação, suas paredes externas, para melhor caracterizar a alvenaria aparente, recebem duas demãos de verniz acrílico incolor opaco. As paredes internas, objetivando maior qualidade de iluminação no interior da edificação, recebem duas demãos de verniz acrílico branco opaco. Na parte externa da cobertura, são aplicadas duas demãos de pintura plástica, de cor branca sobre a argamassa de regularização devidamente seca. Na parte interna da cobertura, são aplicadas duas demãos de verniz acrílico branco ou massa acrílica branca, diluída em água, diretamente sobre os blocos. 5. COMPOSIÇÃO FINANCEIRA DO AUTO - FINANCIAMENTO 5.1. Parâmetros econômicos As famílias, caracterizadas pela sua baixa renda, encontram muitas dificuldades para obter financiamento bancário devido a baixa renda familiar que possuem e às dificuldades encontradas para fazer os pagamentos de suas contas. Elas encontram seus nomes inscritos em órgãos específicos, que impedem a obtenção de novos financiamentos junto aos bancos e, mais especificamente junto à Caixa Econômica Federal, entidade que tem a finalidade de atender essa população, uma vez que herdou do Banco Nacional da Habitação essa responsabilidade. Por outro lado, a empresa estadual Companhias de Desenvolvimento Habitacionais e Urbano, CDHU, e as companhias municipais de habitação, COHAB´s, não conseguem atender a demanda, sempre crescente, de novas habitações, apesar de ter uma política mais flexível em relação ao financiamento. De acordo com essas dificuldades financeiras, a COHAMB decidiu assumir o auto financiamento. Escolheu um terreno bem localizado e com um custo compatível, e reuniu as famílias que fazem sua adesão junto à Cooperativa, iniciando o pagamento das parcelas mensais que irão quitar o terreno e todos os custos dos projetos de arquitetura, de estrutura, de urbanismo, de paisagismo, de instalações hidráulica, elétrica e de esgotos, além da assessoria para sua aprovação junto aos demais organismos municipais, estaduais e federais. No estudo preliminar do terreno com 726.000 m², a Prefeitura Municipal exige que 30 a 35%, da área do terreno sejam destinados às áreas institucionais, o restante do terreno será analisado pela Secretaria do Meio Ambiente, que definirá o percentual de ocupação, definindo o percentual de área que poderá ser construída sobre o terreno. Nas áreas livres, estão previstas as praças, os espaços de lazer descoberto, as ruas e os lotes, que foram I Seminário de Arquitetura e Construção com Terra no Brasil IV Seminário Arquitectura de Terra em Portugal pré-dimensionados em 150 m², sendo 7,50 metros de frente e 20,00 metros de fundos, o que permite a implantação de uma residência geminada, com frente de até 6,00 metros, e um recuo de 1,50 metros, respeitando a exigência municipal. Concluído o estudo preliminar, que determinou a implantação de, aproximadamente, 3000 unidades habitacionais, além das áreas de serviços, de comércio, de educação e de laser coberto. Durante o período em que os projetos são apresentados e aprovados pelos organismos responsáveis, as famílias estarão finalizando o pagamento do terreno, e poderá se dar inicio ao processo de construção das unidades habitacionais. De acordo com custo total do terreno e o número de unidades habitacionais/famílias, determinou-se que seriam necessárias 16 parcelas mensais de US$ 79,50 para o pagamento do terreno, que teve um custo de US$ 2.714.018,00, resultado de US$ 3,73 por metro quadrado multiplicado pela área do terreno, e uma parte para pagamento dos projetos iniciais. Para a construção das casas, segundo o projeto e o orçamento das obras, custarão US$ 164,00 por metro quadrado, perfazendo US$ 8,200.00 a construção civil e US$ 1,400.00 para a infra-estrutura de guia, sarjeta, luz, água, luz e esgoto, serão necessários 120 prestações mensais para concluir o pagamento do financiamento, que poderá ser abreviado com o pagamento de parcelas intermediárias, e/ou aumento do valor das prestações quando a família se livrar do aluguel. Também serão consideradas possibilidades de utilizar o trabalho dos cooperados, que por alguma razão perderam seu emprego, para trabalhar na cooperativa, nas obras, no caso dos homens, ou nos serviços complementares que compõem a montagem da cooperativa, no caso das mulheres. Está previsto ainda, dentro do pagamento das mensalidades, o seguro de morte, que quita a dívida no caso de morte do cooperado. 5.2. Análise de custos Itens de Construção Mão de Obra (%) Material (%) Total (%) Custos US $ Fundação 6,30 9,28 15,58 1,277,56 Estrutura Metálica 3,57 10,71 14,28 1,170,96 Alvenaria 2,27 5,25 7,52 616,64 Revestimentos Internos 2,13 2,90 5,03 412.46 Revestimentos Externos 1,86 2,26 4.12 337,84 Cobertura 11,80 6,29 18,09 1,483,38 Esquadrias 1,38 7,83 9,21 755,22 Instalação Elétrica 4,12 8,61 12,73 1,043.86 Instalação Hidráulica 4,18 5,82 10,00 820,00 Piso 1,38 2,06 3,44 282,08 38,99 61,01 100,00 8,200.00 TOTAL Não está incluída, nos valores acima descritos, a montagem das estruturas metálicas dentro do canteiro de obras, uma vez que seu custo já está incluído nos custos da estrutura. Estão incluídos nos custos da alvenaria, a produção dos blocos e, nos custos dos pisos, os pisos de alvenaria e os pisos cerâmicos que serão utilizados nas áreas molhadas. O valor de US$ 8,200,00 para a construção de uma residência de 50,00 m² define um custo de US$ 164,00 por metro quadrado de área construída. O grande volume de área construída facilita a negociação de compra dos materiais e equipamentos. Existem ainda as possibilidades de utilizar a mão-de-obra dos cooperados nos diversos itens da construção e para produzir todas as esquadrias, numa oficina construída dentro do canteiro de obras, utilizando os equipamentos adquiridos pela Cooperativa. I Seminário de Arquitetura e Construção com Terra no Brasil IV Seminário Arquitectura de Terra em Portugal BIBLIOGRAFIA AGARVAL, A. Bâtir en terre. Le potentiel des materiaux à base de terre pour l'habitat du Tiers Monde. Londres – Earthscan, 1981. ALVARENGA, Maria A.A. Arquitetura de terra – Uma opção tecnológica de baixo custo. In: III Simpósio Ibero-Americano sobre Técnicas Construtivas Industrializadas para Habitação de Interesse Social. São Paulo – IPT, 1993, p 508 -516. ARINI, Ruy. Avaliação de sistema construtivo em solo-cimento – Sistema construtivo para habitações de interesse social. São Paulo, FAUUSP, 1994. Dissertação (Mestrado). 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Tese (Doutorado) AUTORES Ruy Arini, arquiteto, mestre e doutor FAUUSP São Paulo, Brasil, cursando pós doutorado na Escola de Engenharia da Universidade do Minho em Guimarães, Portugal, Renato Nascimento, engenheiro civil, mestre pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.