Anais do XIX Encontro de Iniciação Científica – ISSN 1982-0178
Anais do IV Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação – ISSN 2237-0420
23e 24 de setembro de 2014
TRATAMENTO COM NANDROLONA E REATIVIDADE
VASCULAR EM RATOS SUBMETIDOS À NATAÇÃO
Giovana De Gobbi Azevedo
Faculdade de Medicina
Centro de Ciência da Vida – PUC-Campinas
[email protected]
Resumo:Esteróides anabólicos androgênicos têm
sido excessivamente utilizados em associação ao
exercício físico com a finalidade de melhorar o
desempenho atlético, aumentar a massa
muscular, a força física, a agressividade e a
motivação. Considerando que esta prática vem se
popularizando entre indivíduos jovens, o objetivo
deste estudo foi avaliar os efeitos da associação
do exercício físico e administração de esteróide
anabólico, na aorta isolada de ratos jovens. Ratos
Wistar machos, com 30 dias de idade, no início
do experimento, foram aleatoriamente separados
em dois grupos experimentais: 1) Natação
Veículo e 2) Natação Nandrolona. Os animais dos
grupos Veículo e Nandrolona receberam
respectivamente uma injeção i.m. de veículo (óleo
vegetal-0,2mL/Kg de peso corporal) ou de
esteróide anabólico (5mg/Kg de peso corporal)
duas vezes/semana, por 6 semanas. Os animais
dos dois grupos foram submetidos a um período
de adaptação, com uma sessão de natação
diária, por 5 dias. O tempo de cada sessão foi
aumentado gradativamente (15, 20, 30, 40 e 50
minutos), do 1º ao 5º dia. Nas semanas
seguintes, os animais passaram por uma sessão
diária de natação (5 dias/semana) de 50 minutos.
Na 7ª semana, os animais foram eutanasiados, a
aorta torácica isolada e de cada uma foi retirado
um anel (3-5 mm). Os anéis foram montados em
cuba para órgão isolado em solução de KrebsHenseleit para obtenção de curvas concentraçãoefeito à fenilefrina. Não houve alteração de
sensibilidade à fenilefrina entre os grupos.
Palavras-chave:exercício, esteróides anabólicos,
aorta
Área do Conhecimento: Fisiologia – Fisiologia
de Órgãos e Sistemas.
1.INTRODUÇÃO
Os esteróides anabólicos (EAA) constituem um
grupo de compostos naturais ou sintéticos que
incluem a testosterona e seus derivados que
Profa. Dra. Maria José Costa Sampaio
Moura
Estudos metabólicos e fisiológicos em diferentes
condições experimentais
Centro de Ciência da Vida – PUC-Campinas
[email protected]
podem desempenhar diferentes funções incluindo
efeitos anabólicos que ocasionam retenção de
nitrogênio, um constituinte básico da proteína,
promovendo
assim
crescimento
e
desenvolvimento de massa muscular. Desta
forma, estas substâncias têm sido utilizadas em
altas doses por atletas, visando o aumento da
massa muscular, com o objetivo de melhorar o
desempenho físico [1, 2].
Porém, existem
estudos mostrando que altas doses de esteróides
anabólicos podem causar danos em muitos
órgãos e tecidos, inclusive no sistema
cardiovascular
tais
como,
alterações
eletrocardiográficas [3] e aumento da pressão
arterial [4, 5]. Em contrapartida há poucos
estudos sobre os efeitos dos EAA na reatividade
vascular com ou sem associação ao exercício
físico. Por outro lado, muitos estudos mostram os
efeitos do exercício físico sobre a reatividade
vascular, com evidências de que o exercício
crônico promove um aumento na resposta
vasodilatadora induzida pela acetilcolina [6, 7, 8,
9]).Considerando o uso freqüente de doses
excessivas de esteróides anabólicos e os
potenciais riscos ao sistema cardiovascular
resultantes desta prática, o objetivo deste
trabalho foi estudar os efeitos da associação do
esteróide anabólico, nandrolona, e do exercício
físico sobre a reatividade da aorta torácica de
ratos jovens.
2.METODOLOGIA
Foram utilizados ratos Wistar machos, com 30
dias de idade, no início do experimento,
fornecidos pelo Biotério da PUC-Campinas. Os
animais foram mantidos no Biotério do
Laboratório de Fisiologia e Biofísica, do Centro de
Ciências da Vida, do Campus II da PUCCampinas alojados em gaiolas coletivas, com 4
animais, no máximo, com ciclo claro/escuro de
12/12h (luzes acendendo às 6:00 h). Receberam,
durante todo o período, água e ração para ratos à
vontade. Todos os procedimentos utilizados na
realização deste trabalho estão de acordo com as
normas do Colégio Brasileiro de Experimentação
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Animal (COBEA) e aprovados pela Comissão de
Ética da PUC-Campinas (CEUA - Prot. Nº
006/2012).
Os animais (10/grupo) foram separados em dois
grupos experimentais: 1) Natação Veículo e 2)
Natação Nandrolona. Os animais dos grupos
Veículo e Nandrolona foram mantidos no
laboratório de experimentação, tendo o peso
corporal avaliado semanalmente às segundas
feiras e receberam respectivamente uma injeção
i.m. de veículo (óleo vegetal-0,2 mL/Kg de peso
corporal) ou de esteróide anabólico (Deca
Durabolin©, Organon – 5mg/Kg de peso corporal)
duas vezes/semana (entre 8:00 e 12:00 hs), por 6
semanas. Este esteróide anabólico tem sido
amplamente consumido no Brasil e a dose de 5
mg/Kg, aqui utilizada, é equivalente àquela
geralmente utilizada em academias[10, 11].Os
animais dos dois grupos foram submetidos a uma
1ª semana de adaptação, com uma sessão de
natação diária, por 5 dias, com início entre 9:0013:00 hs em tanque (50 cm X 50 cm X 50 cm),
contendo água a 28 ±1º C, à profundidade de 38
cm, suficiente para evitar que os animais
encostassem a cauda no fundo do tanque. O
tempo de cada sessão foi aumentado
gradativamente (15, 20, 30, 40 e 50 minutos), do
1º ao 5º dia. Durante as próximas 5 semanas, os
animais passaram por uma sessão diária de
natação (5 dias/semana) de 50 minutos, no
mesmo horário. Ao término de cada sessão, os
animais foram secos e colocados de volta em
suas gaiolas, permanecendo no laboratório por
mais 30 minutos, antes de retornarem para o
biotério. Na 7ª semana, os animais foram
eutanasiados por decapitação. O coração foi
removido e pesado. A aorta torácica foi
cuidadosamente isolada para preservação do
endotélio e do terço medial de cada aorta foram
obtidos anéis (3-5 mm), que foram montados sob
2 g de tensão inicial, em câmara para órgão
isolado, contendo 20 mL de solução de KrebsHenseleit, com a seguinte composição [mM]:
NaCl 115.0; KCl 4.7; CaCl2.2H2O 2.5; KH2PO4
1.2; MgSO4.7H2O 2.5; NaHCO3 25.0; glicose
11.0; ácido ascórbico 0.11. O líquido de
incubação foi borbulhado continuamente com
95% de O2 e 5% de CO2 e a temperatura mantida
em 36.5 ± 0.1 ºC, com auxílio de uma bomba de
perfusão [12]. Antes da adição de qualquer
substância, os anéis da aorta permaneceram no
banho para equilíbrio por 60 min. e a solução de
Krebs foi trocada a cada 15 min. Após o
equilíbrio, uma curva concentração-efeito (CCE) à
fenilefrina foi obtida em cada anel, de acordo com
o método cumulativo, com incrementos da
concentração molar de 0,5 unidade logarítmica. O
efeito máximo foi determinado quando três
concentrações sucessivas e crescentes do
agonista não alteraram a resposta obtida com a
concentração imediatamente anterior. Ao final do
experimento, os anéis foram pesados e as
respostas à fenilefrina foram expressas como
gf/100mg de tecido.
As CCE foram analisadas por regressão não
linear, usando-se o programa GraphPADprism
(San Diego, CA, USA – Licença G3-A 14920-830)
de acordo com a equação E = Emax/((1+(10c/10x)n)
+ Φ), onde E representa o aumento na resposta
contrátil induzida pelo agonista; Emaxé o efeito
máximo do agonista; c é o logaritmo da
concentração do agonista que produz 50% do
Emax; n representa o coeficiente angular e Φ, o
efeito na ausência do agonista. A sensibilidade da
aorta foi avaliada pela determinação do valor pD2,
que corresponde ao logaritmo negativo da
concentração molar do agonista que determina
um efeito igual a 50% da resposta máxima (CE50)
em experimentos individuais[13].
A significância estatística foi estabelecida pelo
emprego de análise de variância (ANOVA), e
teste t de Student, sendo considerados
estatisticamente significantes os valores de p
menores que 0,05.
3.RESULTADOS
Não
houve
diferenças
estatisticamente
significantes nos pesos iniciais e finais entre os
grupos (p>0,05, Tabela 1). Também não houve
diferença nos pesos dos corações de ratos
tratados com veiculo ou nandrolona. Também
não houve diferença significativa no peso relativo
do coração, expresso pela relação peso do
coração/peso
corporal
final
[14]
foi
significativamente maior nos animais tratados
com nandrolona (p<0,05, Tabela 1).
TABELA 1. Parâmetros de peso em ratos
submetidos à natação e tratados com veiculo ou
nandrolona
Parâmetro
Natação
Natação
Veículo
Nandrolona
corporal
134,00± 8,19
139,80 ± 2,81
corporal
327,50±14,46
339,00 ± 9,00
Peso coração (g)
1,356± 0,090
1,470 ± 0,013
Pc/PCf (mg/g)
4,125± 0,155
4,300 ± 0,108
Peso
inicial (g)
Peso
final (g)
Pc/PCf = razão de peso do coração/peso corporal final.
Os dados são apresentados como médias ± EPM. n = 6.
*Diferença significante em relação ao grupo Nandrolona
(p < 0.05)
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Não se observou diferença na evolução do peso
corporal entre os grupos, durante o período de
tratamento. A Figura 1 ilustra este resultado.
400
Nat Veic
Nat Nand
peso (g)
300
TABELA 3. Resposta Máxima à fenilefrina em anéis
de aorta torácica de ratos dos Grupos Sedentário
Veículo e Sedentário Nandrolona.
Grupo
a
b
Natação Veículo
200
c
N
RM (± SEM)
5
34,25 ± 1,63
Natação Nandrolona 6
33,61 ± 3,21
b
c
ªGrupo experimental; Número de animais; Resposta
Máxima à PHE
100
0
1
2
3
4
5
6
7
semana
Figura 1. Peso corporal (g) dos animais submetidos à
natação e tratados com veiculo (Nat Veic) ou
nandrolona (Nat Nand).
Avaliou-se a sensibilidade à fenilefrina das aortas
com endotélio, provenientes de ratos tratados
com veiculo ou nandrolona e submetidos à
natação. Os resultados da sensibilidade à
fenilefrina nos grupos 1) Natação Veículo e 2)
Natação Nandrolona foram expressos como a
média dos valores de pD2 obtidos em
experimentos individuais, acompanhadas de seus
respectivos erros padrão. Não houve diferença
nos valores médios de pD2 em resposta à
fenilefrina nos experimentos realizados em anéis
de aorta provenientes de animais submetidos à
natação e tratados com veículo, quando
comparados com anéis de aorta de animais
submetidos à natação e tratados com nandrolona
(Tabela 2).
TABELA 2. Valores pD2 da fenilefrina em anéis, com
endotélio, de aorta torácica isoladas
de animais
tratados com veículo ou nandrolona.
a
b
Grupo
Natação Veículo
6,45 ± 0,12 (5)
Natação Nandrolona
a
pD2 (N)
6,87 ± 0,15 (5)
b
Grupo experimental; Valores médios ±erro-padrão das
médias. (N)=Número de experimentos.
Também foram avaliadas as respostas máximas
à fenilefrina nos animais tratados com veículo ou
nandrolona e submetidos à natação. A análise
destes dados mostra que não houve diferença
significativa nas respostas máximas à fenilefrina
entre os grupos. A Tabela 3 mostra estes
resultados.
Assim os resultados indicam que o tratamento de
ratos jovens com nandrolona, por 6 semanas,
associado à natação não alterou a resposta da
aorta torácica à fenilefrina. A Figura 2 ilustra estes
resultados.
40
gf/100mg
0
Nat Veic
Nat Nand
30
20
10
0
-10
-9
-8
-7
-6
-5
-4
-3
log M [PHE]
Figura 1. Curva concentração-efeito à fenilefrina
obtidas em anéis de aorta torácica, de ratos do grupo
Natação Veículo e do grupo Natação Nandrolona.
4.DISCUSSÃO
A nandrolona tem sido um dos esteróides
anabólicos androgênicos mais utilizados com a
finalidade de aumentar a massa muscular tanto
por atletas quanto por não atletas [15]. A
preferência por esta substância baseia-se no fato
de que, comparativamente à testosterona,
apresenta maior atividade anabólica do que
androgênica [16], que numa solução muscular
injetável, pode atuar no organismo por até três
semanas. A despeito deste efeito desejado, a
literatura mostra efeitos danosos pelo uso na
nandrolona em vários órgãos e tecidos, que
podem ser dose-dependentes.
Neste trabalho não observamos alteração de
sensibilidade, nem alteração de resposta máxima
da aorta de ratos à fenilefrina, em associação da
nandrolona ao exercício físico e, em animais
jovens. Contudo, em trabalho paralelo observouse um aumento de resposta máxima à fenilefrina
em ratos sedentários tratados com nandrolona,
quando comparados aos animais tratados com
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nandrolona e submetidos à natação. Este
aumento da resposta máxima à fenilefrina,
causado pela nandrolona em animais sedentários
pode ser resultado de uma diminuída resposta
vasodilatadora, como observado por outros
autores [17]. Os efeitos benéficos do exercício
físico são bem discutidos e podem depender do
tipo, duração e intensidade do exercício. Estes
efeitos podem incluir aumento da função
endotelial com maior liberação de fatores
dilatadores [18, 19], que poderiam minimizar os
efeitos na alteração de resposta máxima à
fenilefrina.
AGRADECIMENTOS
Ao Fundo de Apoio à Iniciação Científica FAPIC/REITORIA pelo apoio financeiro.
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