UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ ALDEMIZA CORREIA DA SILVA AS ESTRATÉGIAS DE TRADUÇÃO PARA A DUBLAGEM DO HUMOR DO SERIADO CHAVES Fortaleza 2013 ALDEMIZA CORREIA DA SILVA AS ESTRATÉGIAS DE TRADUÇÃO PARA A DUBLAGEM DO HUMOR DO SERIADO CHAVES Monografia apresentada como requisito parcial para obtenção do título de especialista no Curso de Especialização em Formação de Tradutores, da Universidade Estadual do Ceará. Orientação: Profa. Dra. Renata de Oliveira Mascarenhas Fortaleza 2013 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Universidade Estadual do Ceará Biblioteca Central CENTRO DE HUMANIDADES Bibliotecário Responsável – Dóris Day Eliano França – CRB-3/726 S586e Silva, Aldemiza Correia da. As estratégias de tradução para a dublagem do humor do seriado Chaves / Aldemiza Correia da Silva. – 2013. CD-ROM. 44 f. ; il. (algumas color.) : 4 ¾ pol. “CD-ROM contendo o arquivo no formato PDF do trabalho acadêmico, acondicionado em caixa de DVD Slim (19 x 14 cm x 7 mm)”. Monografia (Especialização) – Universidade Estadual do Ceará, Centro de Humanidades, Curso de Especialização em Formação de Tradutores, Fortaleza, 2013. Orientação: Prof. Dr. Renata de Oliveira Mascarenhas. 1. Tradução audiovisual. 2. Humor. 3. Seriado Chaves. 4. Dublagem. Título. CDD: 418.02 AGRADECIMENTOS Sempre e para sempre a Deus, por ouvir meus apelos e mostrar misericórdia e generosidade para com minha vida. A minha família que nunca deixou de ser meu porto seguro, onde posso descansar das enfadonhas ondas da vida. A Professora Renata Mascarenhas por sua dedicação e profissionalismo para com esta aluna que precisou de muita orientação. RESUMO Este trabalho objetiva descrever e analisar as estratégias de tradução para a dublagem das situações cômicas de natureza linguística e sociocultural do seriado mexicano Chaves. Assim, busca-se colaborar com os estudos de tradução do humor no campo da dublagem em relação às especificidades culturais e linguísticas atreladas ao idioma espanhol. Para tanto, iniciamos nosso trabalho com a busca dos episódios do Chaves em suas versões originais (espanhol) e dubladas (português), exibidas pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), que apresentassem elementos cômicos de natureza linguística e sociocultural que dificultassem a tradução. Após uma seleção de episódios mais representativos, fizemos a transcrição do áudio em espanhol de determinadas cenas, seguida pela transcrição do áudio dublado em português das mesmas cenas. Montado esse corpus, iniciamos a descrição e a análise das estratégias tradutórias de dublagem usadas pelo profissional responsável por estes textos audiovisuais. Desta forma, foi possível perceber que as estratégias mais recorrentes na tradução do humor do seriado Chaves são as que privilegiam a manutenção do humor na língua de chegada adequando o texto audiovisual a cultura a que se destina. Palavras-chave: tradução audiovisual, dublagem, humor, seriado Chaves. RESUMEN Este trabajo tiene como objetivos describir y analizar las estrategias traductoras para el doblaje de las situaciones cómicas referentes a aspectos lingüísticos y socioculturales del seriado mexicano Chaves; Así, se busca colaborar con los estudios de traducción del humor en la parte del doblaje en relación a las especificidades culturales y lingüísticas del idioma español. Para tanto, iniciamos nuestro trabajo con la busca de los episodios del Chavo Del Ocho en sus versiones originales (español) y dobladas (portugués), exhibidas por el Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) que presentasen elementos cómicos de naturaleza lingüística y socioculturales que dificultasen la traducción; Hecha una selección de episodios más representativos, hicimos la transcripción del audio en español de determinadas escenas, seguida por la transcripción del audio doblado en portugués de las misma escenas; Después de formado ese corpus, iniciamos la descripción y análisis de las estrategias traductoras de doblaje usadas por el profesional responsable por estos textos audiovisuales. Así que, fue posible percibir que las estrategias más recurrentes en la traducción del humor del seriado Chavo del Ocho son las que privilegian la manutención del humor en la lengua de llegada adecuando el texto audiovisual a la cultura a que se destina. Palabras- llave: traducción audiovisual, doblaje, humor, seriado El Chavo Del Ocho. SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ............................................................................................. 8 2. A DUBLAGEM E A TRADUÇÃO DO HUMOR ............................................ 10 2.1 Dublagem: um processo multicompartilhado .............................................10 2.2 A tradução do humor ................................................................................. 15 3. O SERIADO HUMORÍSTICO CHAVES: CONSIDERAÇÕES GERAIS ..... 21 3.1 O Seriado .................................................................................................. 21 3.2 O Autor ...................................................................................................... 23 3.3 A constituição das personagens ................................................................ 23 3.4 O Tradutor ................................................................................................. 25 4. AS ESTRATÉGIAS DE TRADUÇÃO NA DUBLAGEM DO SERIADO CHAVES ...................................................................................................... 27 4.1 Procedimentos metodológicos .................................................................. 27 4.1.1 Constituição do corpus ........................................................................... 28 4.2 Análises do corpus ..................................................................................... 29 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................ 44 REFERÊNCIAS ........................................................................................ 45 8 1. INTRODUÇÃO O interesse por estudar as estratégias de tradução do humor no seriado Chaves surgiu quando assistia, com meus alunos, a um de seus episódios (em espanhol) e as personagens fizeram um trocadilho que não faria sentido traduzi-lo literalmente para o português. Fiquei imaginando as possibilidades para essa tradução e notei o quão difícil deveria ter sido a solução para tal caso. Busquei, então, o episódio traduzido para saber que estratégia o tradutor havia usado. Confesso que não me agradou o resultado, mas confesso também que não consegui pensar em algo melhor naquele momento. Por esse motivo, quero ressaltar que a intenção do presente trabalho não é criticar e apontar “erros”, mas levantar discussões sobre situações conflitantes para o processo tradutório e analisar as estratégias usadas pelos tradutores do seriado Chaves. No Brasil, não apenas o seriado tem grande público, como também sua exibição em desenhos e seus livros como O Diário de Chaves e Foi sem Querer Querendo. Essa difusão de produtos culturais estrangeiros não é uma situação específica do seriado Chaves, pois a programação televisiva brasileira conta com vários programas estrangeiros para compor sua grade e é a dublagem a ferramenta de acessibilidade mais disponibilizada para espectadores que não dominam determinado idioma. No entanto, em algumas situações, a dublagem encontra obstáculos para a transmissão da informação da língua de partida por diferentes motivos, seja por questões linguísticas de ordem semântica ou gramatical, por questões culturais dificultadas por traços muito peculiares de determinado povo, por questões econômicas, geográficas ou políticas ou por qualquer outra especificidade. Para diminuir esse transtorno diante dessas situações conflitantes, utilizam-se técnicas como domesticação ou estrangeirização (Venuti, 1998), omissão ou acréscimo no nível lexical e/ou sintático, reformulação do texto, entre outras. Existem casos que vão além da criatividade do tradutor e já foram considerados textos intraduzíveis, tamanho grau de dificuldade em encontrar equivalência entre língua de partida e de chegada. No entanto, o termo intraduzível merece bastante cuidado para seu uso quando se trata de tradução, pois há que se avaliar qual o objetivo do texto, do dono do produto (texto), ou seja, o comprador e os interesses em questão, pois uma vez 9 estabelecida a comunicação e atendida a expectativa dos envolvidos no processo tradutório, a tradução terá sido realizada. Quando tratamos de textos humorísticos, mais que encontrar equivalência linguística, é necessário avaliar uma gama de aspectos em diferentes áreas, desde questões relacionadas ao léxico e à sintaxe até a repercussão junto ao público a que o produto se destina. No caso do texto cômico, por exemplo, é pertinente saber se o que é engraçado no texto de partida também o é no de chegada, ou ainda se o motivo do riso não se constituirá agressão para a cultura do texto de chegada. E para essa discussão, a tradução do humor é campo fértil que apesar de muito comentado por profissionais e estudiosos da área de tradução, é um assunto ainda não esgotado. A profissão de tradutor é um caminho árduo, pois qualquer inadequação não só é notada e examinada, como ressaltada; porém, quando o trabalho é bem sucedido, sequer é mencionado o bom desempenho ou nem sequer é despertado o interesse de saber quem traduziu. Este trabalho objetiva descrever e analisar as estratégias de tradução na dublagem do seriado mexicano Chaves para traduzir situações cômicas atreladas a aspectos linguísticos e culturais da língua de partida. Desta forma, buscamos colaborar com os estudos sobre a tradução do humor em relação a seus aspectos culturais e linguísticos. Além desta introdução, este estudo está divido em outras três seções. A segunda seção discute as principais teorias relacionadas aos estudos de Dublagem e da Tradução do Humor. A terceira seção é voltada para maiores esclarecimentos sobre o seriado Chaves, com finalidade de apresentar especificidades sobre o nosso corpus de pesquisa, apontando aspectos sobre seu autor e personagens, bem como sobre o tradutor do seriado no Brasil, figura relevante neste trabalho. A quarta e última seção explica os procedimentos metodológicos deste estudo e apresenta nossa análise propriamente dita. 10 2. A DUBLAGEM E A TRADUÇÃO DO HUMOR Esta seção é dedicada à discussão das principais teorias relacionadas aos estudos de Dublagem e da Tradução do Humor. Na primeira subseção, trataremos da dublagem e dos aspectos pertinentes a seu uso. Falaremos sobre as etapas que envolvem o processo de dublagem, assim como os profissionais e suas responsabilidades inerentes a esta atividade. A segunda subseção discute a Tradução do Humor e suas dificuldades, sejam elas as herdadas pelo pouco estudo direcionado à área, ainda vista com certo preconceito acadêmico, ou por questões linguísticas e/ou socioculturais que envolvem as mais variadas estratégias para que o humor possa se manifestar também na língua de chegada. 2.1 Dublagem: um processo multicompartilhado O cinema apresentava-se mudo até 1927, quando apareceu o filme The Jazz Singer (O Cantor de Jazz) com partes dubladas. Pouco depois, finalmente o filme Luzes de Nova York foi exibido completamente dublado. Em 1930, graças à invenção de Jacob Karol, que consistia em sincronizar áudio e imagem, pode-se melhorar a sonorização dos filmes. Com este aprimoramento da sonorização do cinema americano nasce também a necessidade de atender às dificuldades linguísticas do público estrangeiro que não falava inglês. Nascia, então, a dublagem - processo pelo qual ocorre a substituição das vozes originais de uma produção audiovisual por vozes e interpretação em outra língua ou na mesma língua para melhoramento do som - que com o tempo se tornaria regra em alguns países mais exigentes para exibição de filmes estrangeiros. Segundo Oliveira (2011), nessa perspectiva, a dublagem objetiva tornar um produto audiovisual estrangeiro acessível a um público que não domina a língua de origem da obra. No entanto, nem sempre ela foi usada apenas com esta finalidade, pois o processo já foi usado, diversas vezes, em alguns países para distorcer, por intenções ideológicas e políticas, a mensagem original do texto. Temos como exemplo Alemanha, Espanha e Japão, quando os regimes ditatoriais eliminaram, na dublagem, tudo considerado ofensivo para o regime. 11 Diferentemente da legendagem que permite ao espectador acesso a todas as informações do texto original, tendo apenas a tradução do que é dito como apoio para possíveis dificuldades com a língua original do produto (texto audiovisual), a dublagem permite que conteúdos sejam adicionados ou omitidos sem que o espectador perceba, pois trabalha com o apagamento total da trilha sonora do texto de partida, e este recurso pode ser usado tranquilamente como forma de manipulação dependendo dos objetivos do dono (comprador) do texto audiovisual. Segundo Chaume (2004), a escolha de um país entre dublagem e legendagem se dá por alguns fatores além destes já mencionados, que variam desde o nível de alfabetização da população, ao simples deleite em aprender outro idioma, como podemos observar nas especificações que seguem: 1- Nível de alfabetização: quanto menor o grau de instrução e maior a dificuldade em acompanhar a legendagem, maior será a preferência pela dublagem por questão de comodidade e de melhor aproveitamento do objeto audiovisual; 2- Nível econômico: alguns países escolheram a legendagem porque sua indústria não podia dublar os filmes, pois o custo financeiro seria muito alto. 3- Nível cultural: Para o público mais seleto, que além de aprender outra língua a partir do objeto audiovisual, também é de seu interesse desfrutar do produto em sua versão original, a dublagem representa um atentado maior a arte do que a legendagem. 4- Reivindicação política da língua: em alguns países a dublagem é usada para preservação total da língua de chegada, daí a obrigatoriedade da dublagem, como é o caso da França, pois a dublagem impede a invasão linguística, política e cultural. 5- Questões políticas: Em alguns casos a dublagem serve para proteger a política, pois barra qualquer influencia externa, pois depois de apagado o áudio original, veicula-se aquilo que é condizente com a política local. E, dessa forma, a dublagem e a legendagem disputam espaço e preferências; estas serão determinadas, como podemos ver, pelas diversas 12 condições de um povo. É notável que no Brasil, a dublagem – apesar de não ser obrigatória para a exibição - é a modalidade de tradução mais aceita pelo mercado, principalmente no que se refere à tevê aberta. E quando pensamos em dublagem, nos vêm à mente os textos verbais traduzidos e o empréstimo das vozes de atores conhecidos às personagens. Como disse Chaume (2004), a dublagem: [...] consiste na tradução e ajuste de um roteiro de um texto audiovisual e na posterior interpretação desta tradução por parte dos atores, sob a direção do diretor de dublagem e os conselhos do assessor linguístico, quando esta figura existe. (CHAUME, 2004, p. 32) 1 A partir desta definição de Chaume temos pontos a serem comentados: o primeiro é que vemos, então, que o tradutor não trabalha sozinho, que outros profissionais são necessários nesse processo de ajuste e que, geralmente, é uma equipe que decide e finaliza a dublagem. Além de outros profissionais envolvidos, devemos levar em consideração também que os elementos visuais e sonoros fazem parte do processo de tradução podendo interferir, inclusive, de modo determinante, para o produto final da dublagem. É importante levarmos em conta que o texto audiovisual que será traduzido e dublado depende de vários elementos, não só do código linguístico, influenciado por questões linguísticas, sociais, culturais e econômicas, mas também o código visual que implica a justificativa dos elementos visuais na dublagem. De acordo com Chaume, podemos definir o texto audiovisual: [...] formalmente como um texto que se transmite através de dois canais de comunicação, o canal acústico e o canal visual, e cujo significado se tece e se constrói a partir da confluência e interação de diversos códigos de significação, não somente o código linguístico. [...] (CHAUME, 2004, p. 15).2 1 El doblaje consiste en la traducción y ajuste de un guión de un texto audiovisual y la posterior interpretación de esta traducción por parte de los actores, bajo la dirección del director del doblaje y los consejos del asesor lingüístico, cuando esta figura existe. Todas as traduções, neste trabalho, são de nossa autoria. 2 (...) formalmente como un texto que se transmite a través de dos canales de comunicación, el canal acústico y el canal visual, y cuyo significado se teje y construye a partir de la confluencia e interacción de diversos códigos de significación, no solo el código lingüístico.(…) 13 Para que a dublagem desse tipo de texto obtenha sucesso na língua de chegada, são necessários cuidados e conhecimentos específicos da área de tradução. Assim, deve se ater às etapas de um processo tradutório peculiar que são de acordo com Chaume: 1. Compra por parte de uma empresa, pública ou privada, de um texto audiovisual estrangeiro, com a intenção de emiti-lo no país ou países da cultura meta. 2. Contratação de um estúdio de dublagem para tradução, adaptação e dramatização (dublagem propriamente dita) do referido texto. Em alguns casos, as empresas, verdadeiras iniciadoras do processo, dispõem de estúdios de dublagem próprios e não necessitam efetuar a contratação. 3. Contratação de um tradutor, por parte do estúdio de dublagem, para a tradução – e em algumas ocasiões adaptação – do texto audiovisual. 4. Adaptação da tradução inicial. 5. Dublagem propriamente dita (ou dramatização) por parte dos atores no estúdio de gravação, sob a supervisão do diretor de dublagem e do assessor linguístico. 6. Mistura das diferentes trilhas sonoras por parte do técnico de som, assim como criação de trilhas sonoras, de ambientes etc. O autor está obrigado a conhecer todas estas fases ou, de outro modo, seu produto final carecerá do rigor que lhe é exigido. Uma simples tradução de roteiro que ignore o processo descrito acima não leva em consideração, por exemplo, os problemas fonéticos que podem afetar a correta dicção dos atores (cacofonias, palavras de difícil pronunciação, termos estrangeiros sem pronuncia fonética simulada para ajudar aos atores, etc.), não costuma considerar o registro oral da língua de chegada e, especialmente, os diferentes tipos de sincronia praticados no ajuste. (CHAUME, 2004, p. 62)3 3 1. Compra por parte de una empresa, pública o privada, de un texto audiovisual extranjero, con la intención de emitirlo en el país o países de la cultura meta. 2. Encargo a un estudio de doblaje de la traducción, adaptación y dramatización (doblaje propiamente dicho) de dicho texto. En ocasiones, las empresas, verdaderas iniciadoras del proceso, disponen de estudios de doblaje propios y no necesitan efectuar el encargo. 3. Encargo a un traductor, por parte del estudio de doblaje, de la traducción – y en algunas ocasiones adaptación – del texto audiovisual. 4. Adaptación de la traducción inicial. 5. Doblaje propiamente dicho (o dramatización) por parte de los actores en el estudio de grabación, bajo la supervisión del director de doblaje y del asesor lingüístico. 6. Mezclas de las diferentes bandas por parte del técnico de sonido, así como creación de bandas sonoras, creación de ambientes, etc. El traductor está obligado a conocer todas estas fases o, de otro modo, su producto final carecerá del rigor que se le exige. Una simple traducción del guión que ignore el proceso descrito arriba no tiene en cuenta, por ejemplo, los problemas fonéticos que pueden afectar a la correcta dicción de los actores (cacofonías, palabras de pronunciación difícil, términos 14 Dentro desse ajuste citado por Chaume está o sincronismo labial, a substituição de sinônimos, a omissão de termos e tantas outras técnicas que devem ser conhecidas pelo profissional de tradução. Sabemos que existem outras questões, entre elas a comercial, que define o resultado final do trabalho de tradução em uma dublagem, pois o produto a ser dublado (texto de partida) também sofre influência no processo tradutório em consequência dos interesses comerciais. E quando falamos de interesses comerciais temos que ter em mente que a dublagem está a serviço de uma empresa que comprou um produto (o texto audiovisual) e necessita disponibilizá-lo para um público específico visando, principalmente, o lucro que esta compra pode lhe oferecer. Portanto, o tradutor além de empenhar toda sua criatividade para eleger quais as melhores estratégias para que o produto chegue a seu receptor de forma satisfatória, tem que atender também às exigências impostas pelos objetivos do dono deste produto. Sobre isso Chaume observa que: [...] O tradutor deve se perguntar por que a empresa comprou tal série ou tal programa, o que pretende com a emissão destes textos, a que hora se pensa emitir (é importante saber se será emitido em horas de máxima audiência, ou em horário infantil, ou de madrugada) e que benefícios se podem obter a curto e longo prazo [...] (CHAUME, 2004, p. 65)4 Vemos, então, que a responsabilidade do tradutor está relacionada a diversos aspectos, desde as escolhas em relação ao código linguístico até a repercussão e obtenção ou não do sucesso por parte de seu produto final. Assim, Chaume faz um resumo sobre a função única e intermediadora do tradutor, que leva em consideração o trabalho de sua equipe, os interesses do contratante dono do produto e a expectativa e a receptividade do público: extranjeros sin pronunciación fonética simulada para ayudar a los actores, etc.), no suele tener en cuenta el registro oral de la lengua de llegada y, especialmente, los diferentes tipos de sincronía practicados en el ajuste. 4 (...) El traductor se debe preguntar por qué la empresa ha comprado tal serie o tal programa, qué pretende con la emisión de textos, a qué hora se piensan emitir (es importante saber si se emitirán en horas de máxima audiencia, o en horario infantil, o de madrugada) y qué beneficios se pueden obtener a corto y a largo plazo.(…) 15 O tradutor é o emissor de uma cadeia complexa de emissores dispostos a fazer chegar um determinado produto a uma determinada audiência. Também forma parte de uma corrente múltipla de receptores, ou intermediários que modificam o produto original para uma correta leitura e compreensão do texto audiovisual por parte do receptor último e definitivo, os espectadores. Ele é, sem dúvida, o único emissor que recebe um texto em uma língua e tem a responsabilidade de transmitir todos seus significados em outra língua. Sobre o papel do tradutor, em nossa opinião, se trata claramente da figura central do processo, considerando que graças a ele se produz a comunicação em ultimo termo (mais ou menos sincronizada, mais ou menos artística, etc.) (CHAUME, 2004, p. 67-68)5 E, apesar de todo seu equilíbrio para atender as partes e compreender como funcionam os interesses das diversas áreas que estão ligadas à dublagem, Chaume (2004, p. 71) chama a atenção do tradutor para que ele fique ciente de que “como esta é uma tarefa coletiva, o tradutor deve se acostumar à ideia de que sua tradução não será a definitiva, mas sim que, na maioria das vezes, será manipulada pelo resto dos atuantes do processo”. Desta forma, observamos que a dublagem é um processo multicompartilhado, pois é divido em etapas que contam com diferentes profissionais, e tem que atender a distintos objetivos, desde o comercial e financeiro do dono até o lazer e a cultura do público, que por sua vez não é passivo e exige clareza e qualidade. 2.2 A tradução do humor Apesar do povo brasileiro ser considerado extrovertido e animado ou mesmo sendo as séries humorísticas cada vez mais presentes e populares nas grades televisivas, o estudo sobre o humor e suas possibilidades de tradução ainda não é encarado com a seriedade devida, de modo que não se tem investimentos para que haja mais pesquisas e reflexões teorico-práticas na 5 El traductor es el emisor de una cadena compleja de emisores dispuestos a hacer llegar un producto determinado a una audiencia determinada. También forma parte de una cadena múltiple de receptores, o intermediarios que modifican el producto original para una correcta lectura y comprensión del texto audiovisual por parte del receptor último y definitivo, los espectadores. Él es, sin embargo, el único emisor que recibe un texto en una lengua y tiene la responsabilidad de transmitir todos sus significados en otra lengua. Respecto del traductor, en nuestra opinión se trata claramente de la figura central del proceso, puesto que gracias a él se produce la comunicación en último término (más o menos sincronizada, más o menos artística, etc.). 16 área. Sobre esta desatenção ao estudo do humor e da tradução, Rosas (2002, p.16) comenta que “Infelizmente, tratam-se ambos os campos de uma espécie de “patinhos feios” da Academia.” Sendo que a tradução ganhou novas vertentes por conta do crescimento do cinema, da dublagem, da interpretação etc. Com o crescimento das dublagens, nota-se a necessidade de se discutir sobre este pouco interesse acadêmico em relação à prática na área. Sampaio (2008, p.17) comenta que: [..] a tradução, durante muito tempo, apesar de vinculada as instituições acadêmicas, não era vista como um fim em si mesmo, mas sim como um saber subsidiário de apoio a outros saberes, fundamentalmente, como meio para aperfeiçoamento linguístico, resultou que sua didática, também não despertou o devido interesse por parte dos pesquisadores. [...] Somente com a consolidação das profissões de tradutor e intérprete, favorecidas pelo aumento das relações internacionais e pelos avanços tecnológicos, foi que apareceram as condições necessárias para uma autonomia do ensino da tradução profissional. Se existe tamanha dificuldade para o estudo da tradução, que tem crescido com suas várias modalidades, para o estudo do humor, no entanto, ainda não tem um caminho propício quando se trata de investimentos. A dublagem para os programas humorísticos é de grande importância, principalmente se este estiver direcionado ao público infantil, no entanto, em nosso país, as dificuldades na área persistem, como reitera Silva (2006): A dublagem não tem sido vista com a importância que de fato tem no mundo cinematográfico. Aliás, quando o que está em jogo é a tradução enquanto atividade intelectual, a retórica parece ser sempre aquela que a classifica como de menor importância. Com relação à legendagem, a situação não se mostra diferente. Essa constatação é possível, se observarmos o contexto em que ela se realiza, incluindo nessa observação, é claro, fatores ligados aos recursos humanos. (SILVA, 2006, p. 62) Dentre as modalidades de tradução, reconhecemos que a dublagem é um recurso de acessibilidade para os espectadores. No entanto, em algumas situações, o produto que foi elaborado com cunho humorístico, pensado para promover o riso, torna-se confuso e ininteligível, uma vez que, não só os elementos linguísticos, visuais e sonoros que compõem o texto audiovisual 17 devem ser levados em conta, como também os contextos sociais, culturais e ideológicos que envolvem o referido texto e que são referenciais produtores do humor. É a partir do conhecimento e das escolhas do tradutor que esses elementos resultarão ou não em um texto compreensível na cultura de chegada, mantendo o humor pretendido na língua de partida. Quando nos referimos à tradução do humor, é notável que a tradução literal, na maioria das vezes, não atende a compreensão do texto, necessitando, portanto, buscar subsídio em outros elementos intra e extratextuais que mantenham o humor objetivado no texto de partida. Para tanto, há que se identificar o tipo de humor pretendido e qual o caráter dos elementos que foram usados no texto de partida, pois, a partir desta identificação, o tradutor avalia a melhor estratégia tradutória para manutenção da ideia e, sobretudo, do humor. Em ocasiões em que a referência cultural não pode ser mantida ou domesticada, espera-se uma solução para que o humor seja reiterado ainda que por meio da recriação (reformulação do texto de partida), pois de acordo com Rosas (2002): A tradução de um texto humorístico [...] apresenta problemas quando: a) não há compartilhamento de referências culturais entre os membros das duas línguas-culturas envolvidas e b) não há correspondência, em algum nível linguístico (sintático, morfológico, fonético, semântico, pragmático) entre as estruturas dessas línguas-culturas. (ROSAS, 2002, p. 89) Além da equivalência cultural e da correspondência linguística em relação à estrutura, há uma questão ainda mais séria para o tradutor que é avaliar se os aspectos que estão sendo trabalhados e os elementos manipulados além de destoarem da ideia original não irão agredir a cultura de chegada. Uma vez verificado o risco de se agredir sem perceber algum grupo, tem que se levar em consideração se o público, ao qual o texto traduzido será destinado, compartilha de conhecimentos necessários para que o humor possa ser mantido. Vale ressaltar que existe variação de aceitação entre os diferentes grupos e o que é engraçado para um grupo não o é para outro. Sobre a adequação do texto à situação e ao público, Rosas ressalta que: 18 [...] é pelo fato de poder sempre falhar que não há enunciado humorístico em si: o que é engraçado para um grupo ou para um falante pode não ser (e muitas vezes não é) para outro(s). Além disso, o tempo pode alterar a definição daquilo que um mesmo grupo ou falante considera engraçado. Independente de quaisquer outros possíveis fatores, bastaria que não houvesse conhecimento compartilhado ou que houvesse uma saturação – o caso da piada “gasta” – para que o riso não ocorresse. Há, portanto, enunciados potencialmente humorísticos (dos quais as piadas são o primeiro exemplo), mas seu efeito nunca poderá ser garantido de antemão. (ROSAS, 2002, p.42) Aprimorar os estudos sobre o humor é significativo posto a dificuldade de se traduzir este tipo de texto, pois por mais que a tradução seja bem executada em relação aos elementos linguísticos existem várias outras vertentes que precisam de muita atenção para que este texto seja funcional na língua de chegada. Outras vertentes, que podem ser reforçadas ou não, dependendo da estratégia tradutória do tradutor, são a subestimação da capacidade de percepção do público e a esteriotipação da cultura de origem do texto. E é sobre isso que Oliveira (2011, pág.7) chama a atenção: [...] Às vezes, o tradutor usa uma expressão da língua de partida no texto traduzido, deixando para o espectador a tarefa de decifrá-lo. Outras vezes, certas expressões são substituídas por outras relacionadas à cultura brasileira. Há, ainda, ocasiões em que o tradutor parece temer que o público, por desconhecer tais expressões, deixe de captar a mensagem a ser transmitida e acabe ficando frustrado. Nesses casos, a dublagem “apaga” tais aspectos. Essa estratégia acaba criando textos que subestimam a capacidade de compreensão do telespectador, além de diminuírem a representação da cultura-fonte através da língua-alvo. A opção de se traduzir ou não tais traços, tão característicos de uma cultura, quando se tenta transmitir a mensagem para um público de uma cultura diferente pode determinar o modo como o país da cultura-fonte é visto pelo público da cultura-alvo. Ou seja, o tradutor tem que estar atento para a possibilidade da não compreensão de alguma expressão estrangeira que comprometa o humor na cultura de chegada, em contrapartida, retirá-la ou domesticar o texto pode parecer que o tradutor está subestimando seus espectadores. Sobre as questões pertinentes a tradução do humor, destacamos a seguir alguns estudos que dialogam com este em diferentes aspectos. 19 Sampaio (2008) apresenta uma proposta pedagógica para a tradução do humor. Para isso, organizou um curso de tradução do humor para alunos de graduação, usando um corpus de 42 tiras cômicas da Mafalda (Quino, 2003). Seu objetivo foi mostrar como as pessoas devem agir para ensinar a tradução do humor de tal maneira que o efeito cômico se produza na língua alvo. Sua análise foi baseada em dados fornecidos pelas traduções dos alunos, por seus relatórios baseados nessas traduções, e por dois questionários. Obteve como resultado que atividades de tradução que promovem discussão, reflexão, análise crítica e reelaboração, são a melhor opção quando se espera que os aprendizes se tornem profissionais competentes e críticos. Seu trabalho é um passo importante para a questão da tradução do humor porque propõe ensinar a traduzir o humor do modo eficiente, saindo do campo das ideias e discussões e se aventurando na prática. O referido estudo é pertinente para este trabalho, uma vez que a análise de seu corpus contempla, assim como propomos aqui, a tradução de aspectos cômicos de natureza linguística e cultural, além de elementos visuais. Os dois trabalhos se diferenciam, no entanto, pelo fato de que aqui lidamos com audiovisual, no lugar de tiras cômicas. Silva (2006) discute a recepção do humor traduzido no filme Uma babá quase perfeita. Seu estudo buscou: (1) verificar se determinado enunciado humorístico produz efeito semelhante nas suas versões dublada e legendada; (2) comparar a recepção do humor entre aprendizes avançados e não-aprendizes da língua inglesa como LE e (3) identificar estratégias de tradução mais adequadas à reconstrução do humor numa língua alvo. Para tanto, contou com a colaboração de três grupos de participantes, que assistiram ao filme nas suas versões dublada, legendada e “original” sem tradução e em seguida, responderam a um questionário contendo perguntas relacionadas às estratégias de tradução utilizadas no filme. O resultado apontado foi de que o humor pode produzir efeito semelhante nas suas versões dublada e legendada e que o humor pode suscitar efeito semelhante quando apresentado na versão “original” (inglês) sem tradução a aprendizes avançados da língua inglesa como LE. Silva (2006) conclui, ainda, que as estratégias mais apropriadas à tradução do humor são aquelas que privilegiam o efeito na língua 20 de chegada sem atribuir maior relevância à forma e ao conteúdo do texto na língua de partida. As questões suscitadas por Silva (2006) dialogam com as nossas no que diz respeito à análise de estratégias mais apropriadas para manutenção do humor na língua de chegada e quanto ao tipo de meios semióticos com que se trabalhou, que por serem ambos audiovisuais, os aspectos observados se assemelham, apesar das metodologias bem diferentes. Lima (2010) propõe uma legenda para que surdos e ensurdecidos tenham acesso ao programa Nas Garras da Patrulha. Seu trabalho contribui para a discussão do grupo LEAD (Legendagem e Audiodescrição) da UECE ao introduzir a questão da tradução da comicidade para este público especial. As legendas produzidas para o programa foram testadas por surdos, homens e mulheres, falantes de LIBRAS e que liam português. Parte do grupo assistiu a um episódio de 20 minutos do programa com legendas baseadas no sistema de legendas para surdos da Rede Globo, enquanto os outros assistiram ao mesmo episódio com legendas propostas pelo projeto MOLES (Modelo de Legendagem para Surdos) que está sendo desenvolvido na UECE. Sua pesquisa investigou se a recepção do humor foi mais eficaz com as legendas do MOLES ou com as legendas da Globo. Os resultados sugeriram que os modelos de legendagem foram ineficazes no que diz respeito à recepção do humor. Ainda é preciso saber a causa desta má recepção. Mesmo sem ter rido do programa, os surdos conseguiram um melhor entendimento com as legendas do MOLES. Além dos estudos aqui apresentados, o presente trabalho dialoga também com o de Oliveira (2011), que discute a tradução de referências culturais em programa de humor, no caso, a série norte-americana Todo Mundo Odeia o Cris. Seu objetivo foi analisar a dublagem da referida série, identificando as ocasiões em que as falas dos personagens contivessem referências específicas à cultura americana. Nesses casos, Oliveira procurou verificar a estratégia de tradução utilizada, observando se o tradutor se aproximava do espectador brasileiro, afastando-se do texto original em inglês ou o inverso. A metodologia adotada por Oliveira é bem semelhante à usada neste nosso trabalho, ou seja, selecionar episódios relevantes em relação às ocorrências pretendidas, transcrever e analisar as versões originais e dubladas 21 e identificar as estratégias usadas pelo tradutor. Em seu trabalho, Oliveira conclui que a dublagem parece ter a intenção de facilitar a compreensão por parte do espectador. Porém, na tentativa de retratar a cultura de partida de maneira mais simples para o público alvo, acaba por esconder essas referências do público brasileiro, fazendo com que os elementos culturais estrangeiros não sejam mostrados para o público brasileiro. Nesse contexto, pensando nas dificuldades tradutórias e no trabalho dos profissionais de dublagem, principalmente no que se refere a tradução de textos audiovisuais cômicos, este trabalho propõe uma reflexão sobre a tradução dos aspectos linguísticos e culturais do seriado Chaves. 3. O SERIADO HUMORÍSTICO CHAVES: CONSIDERAÇÕES GERAIS Esta seção se dedica à contextualização e à caracterização do seriado Chaves, com o intuito de elucidar nossa escolha em estudar o fenômeno da dublagem do humor nesse programa. Para isso apresentaremos um breve panorama sobre o seriado, seu autor, seus personagens e seu tradutor, figura importante neste trabalho. Primeiramente trataremos do seriado desde sua origem até os tempos atuais. Depois faremos alguns apontamentos sobre Bolaños (o Chespirito), renomado comediante, autor do seriado. Em seguida, apontaremos um breve resumo sobre as principais personagens do programa. Finalizaremos a seção com considerações acerca do responsável direto pelas traduções audiovisuais dos episódios do seriado Chaves exibidos no Brasil pelo SBT. As informações contidas nesta seção serão importantes como apoio para a leitura das análises. 3.1 – O seriado Desde a década de 70, antes mesmo da ascendência da língua espanhola no mercado mundial, o seriado mexicano El Chavo Del Ocho (em português Chaves) já conquistava o mundo e chegava ao Brasil. Criado e estrelado por Roberto Gómez Bolaños, o seriado foi exibido originalmente entre 20 de junho de 1971 e 12 de janeiro de 1992, no México, como parte do Programa Chespirito - que tinha vários quadros compostos por 22 diversos personagens, bastante semelhante ao que produziu, aqui no Brasil, o humorista Chico Anísio. Nesse período, o programa foi produzido pela Televisión Independiente de México e transmitido no canal 8 do México. Em 1972, tornou-se uma série semanal com duração de meia hora, formato mantido até seu encerramento, vinte anos depois. O enredo do programa gira em torno das aventuras e atrapalhadas de Chaves (El Chavo Del Ocho, no original), um garoto pobre, órfão e ingênuo que vive dentro de um barril no pátio de uma vila suburbana fictícia, e sua relação com outros moradores do lugar. Com este enredo, El Chavo alcançou grandes índices de popularidade em toda a América Hispânica, bem como na Espanha, no Brasil, nos Estados Unidos, entre outros países, necessitando, portanto, dos serviços dos profissionais de dublagem. No Brasil, não apenas o seriado tem grande público, como também sua exibição em desenhos e seus livros como O Diário de Chaves (Bolaños, 2006) e Foi sem Querer Querendo (Thuler, 2005). Exibido pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), desde 24 de agosto de 1984 até o presente momento, o seriado chegou a sofrer pequenas interrupções, que foram reclamadas pelos telespectadores, voltando assim à apresentação normal. A trama, baseada em fatos cotidianos, que explorava a ingenuidade e espontaneidade, próprias do mundo infantil, parecia uma aposta arriscada para prender a audiência do público. O que se pode notar é que é exatamente esta receita simples, da comicidade muito semelhante à circense, que envolve telespectadores de várias faixas etárias, pois, muito embora seja um produto destinado ao público infantil, existe um apelo sentimental, de formação humana e de crítica social, que possibilita a identificação do público com suas personagens. A linguagem utilizada é de fácil compreensão, com predominância de expressões populares, mantendo, portanto a informalidade e o discurso com bastante fluidez. Além da absorção facilitada pela linguagem popular, o uso das expressões corporais e faciais é ricamente explorado, sendo, em muitos casos, dispensado por completo o uso da linguagem verbal. Atualmente, o seriado Chaves, assim como outros quadros produzidos por Roberto Gómez Bolaños, não tem mais produção, pois além do 23 fator físico da avançada idade dos atores, a equipe se desfez, ou por motivo de morte de alguns integrantes, como é o caso de Ramón Valdés( Seu Madruga) e Angelines Fernandez( Bruxa do 71), ou por ocasião de desentendimentos profissionais. 3.2 – O Autor Roberto Gómez Bolaños (conhecido como Chespirito - que significa pequeno Shakespeare), nascido na Cidade do México, em 21 fevereiro de 1929, é escritor, ator, comediante, dramaturgo, compositor de e diretor mexicano. Ficou conhecido mundialmente pela criação das séries televisivas El Chavo del Ocho (Chaves) e El Chapulín Colorado (O Chapolim Colorado), ganhou o título de o programa número 1 da televisão humorística. Estas séries lhe trouxeram grande prestígio e garantiram-lhe o reconhecimento como um dos escritores comediantes mais respeitados do mundo. Atualmente, Roberto Bolaños, que continua casado com a colega de trabalho Florinda Meza (Dona Florinda), apresenta saúde bastante fragilizada. Com 83 anos e muita dificuldade para respirar ainda pode comparecer a homenagem propiciada no dia 29 de fevereiro de 2012, no auditório Nacional da Cidade de México, por ocasião da comemoração de 40 anos de carreira do Chespirito. Além da celebração, que contou com participações de famosos atores e cantores, fãs de vários países manifestaram sua admiração pelo homenageado enviando vídeos com as conhecidas personagens do autor. 3.3 – A constituição das personagens Como já foi dito anteriormente, a comicidade da série é muito semelhante à circense, trabalhando em prol do exagero de atos e da fala popular. Com isso, as personagens se aproximam do público, utilizando-se de artifícios bastante conhecidos dos telespectadores, como quedas, tropeções, choro, caretas e gargalhadas. A proposta do autor Roberto Gómez Bolaños (Chespirito), além de criticar, com leveza, a sociedade mexicana, era criar tipos populares, com dificuldades reais vivenciadas pela população. Desta forma, 24 temos, dentre as personagens da série, vários estereótipos, como o garoto órfão, professor de escola pública, o desempregado, a viúva, a solteirona, o proprietário entre outros que expõem suas aflições e suas alegrias numa vila humilde que demonstra ser também uma personagem de forte influência na história, como vários outros lugarejos da América Latina. Assim, observaremos, a seguir, a descrição de algumas das personagens principais do seriado, com destaque para suas características mais acentuadas, que serão relevantes para algumas reflexões apresentadas posteriormente na análise deste estudo. Chaves6 Interpretado por Roberto Gómez Bolaños – “Chespirito”. Chaves é um garoto órfão, que passa por muitas privações e vive escondido em seu barril. Chaves sempre se deixa levar por sua pouca inteligência, o que é suficiente para lhe colocar em situações bem complicadas. Apesar de causar transtornos a todos, sua principal característica é a ingenuidade. Seu Madruga Interpretado por Ramón Valdés. Seu Madruga é morador e não pagador da casa nº 72, é o pai de Chiquinha, e ficou viúvo quando ela nasceu. Homem simples, maduro e sem educação, embora diga que lhe faltam oportunidades, na verdade se deixou entregar à preguiça. Tenta sobreviver como pode fazendo alguns bicos. É alvo constante das cantadas de Dona Clotilde, mas ele gosta mesmo é de Glória, tia da Paty. Quico Interpretado por Carlos Villagrán. Quico mora na casa nº 14, com sua mãe, Dona Florinda. É um garoto de Q.I. bem baixo, exibido e gosta de provocar brigas. Seu sonho é que o professor Girafales traga a tão esperada bola quadrada. Suas grandes bochechas são alvo de piadas. Quico é sempre protegido pela sua mãe, que bate no Seu Madruga quando ele dá no Quico seus famosos beliscões. Chiquinha Interpretada por Maria Antonieta de las Nieves. Chiquinha é baixinha, cheia de sardas, esperta, porém, sem muita inteligência para escola. Filha do Seu Madruga, é uma garota muito mimada, bagunceira e sem limites. Apaixonada secretamente pelo Chaves, Chiquinha morre 6 As imagens e os resumos descritivos das personagens foram obtidos a partir do site http://www.viladochaves.com/historia_chaves.htm. Sendo que os resumos foram sintetizados e reformulados por mim. 25 de ciúmes da Paty. Chiquinha é uma feminista convicta, e adora pregar peças e se dar bem à custa dos tontos do Chaves e do Quico. Dona Florinda Interpretada por Florinda Meza. Dona Florinda é moradora da casa nº 14, viúva de um comandante da Marinha e mãe do Quico. Ela crê que ainda vive numa situação de riqueza, quando na verdade a situação não está tão boa assim. Sua grosseria e mal-humor lhe renderam o apelido de velha coroca. Sempre estapeia o Seu Madruga, mas seu mau gênio se transforma em doçura e encanto quando ela se depara com o Professor Girafales. Professor Girafales Interpretado por Rubén Aguirre. Girafales é um altíssimo professor de escola pública, bem educado, bastante culto, sonhador, amável, romântico e muito vaidoso de suas capacidades cerebrais. É para Dona Florinda que ele se declara, levando inúmeros buquês de rosas, mas sem nem sequer pensar em casamento. Seu Barriga Interpretado por Edgar Vivar. Seu Barriga é o proprietário da vila e, para economizar cobradores, vai pessoalmente cobrar os aluguéis. É um sujeito simples, paciente, amigo, risonho, simpático e muito prestativo que, no fundo, adora o menino Chaves, apesar das pancadas que recebe todas as vezes que chega na vila. Dona Clotilde Interpretadada por Angelines Fernandez. D. Clotilde moradora da casa nº 71, mantém um amor pelo Seu Madruga, a quem adora fazer favores e preparar os seus quitutes. É alvo constante das crianças, que espalham para os quatro ventos que ela é uma bruxa. Mas Clotilde é uma senhora de bom coração, e amiga de todos na vila. 3.4 – O Tradutor É importante que seja pontuada a diferença entre tradutor e dublador. O tradutor é o profissional responsável por passar o produto audiovisual (texto) da língua de partida para a língua de chegada, elegendo as estratégias convenientes, priorizando aspectos e adequando a mensagem de acordo com os mais diversos interesses envolvidos no processo de tradução. O dublador, por sua vez, é o profissional que tem como papel emprestar sua voz para que a personagem possa se comunicar na língua de chegada da forma mais convincente possível, utilizando-se da dramaturgia e, por vezes, participando 26 do processo tradutório e inclusive criativo, dando às suas personagens traços que lhes ressaltem diante das novas possibilidades do público alvo. Não há, pois, nenhum obstáculo para que o dublador também possa traduzir desde que tenha conhecimento suficiente sobre as línguas e as culturas em questão e tenha boas ideias de como resolver as questões tradutórias que se apresentarem pertinentes. No entanto, para ser dublador, no Brasil, é necessário que o profissional seja também ator, pois a dublagem requer muito das habilidades da dramaturgia. É normalmente do tradutor a responsabilidade pelas escolhas que apareceram no texto de chegada. No caso da dublagem, o processo de tradução se estende também aos dubladores, de modo que toda a equipe envolvida compartilha as escolhas e a responsabilidade pelo sucesso ou não do produto final. Falemos especificamente de Nelson Machado, tradutor do seriado em estudo, que numa entrevista publicada no site do Chaves7, comenta sobre alguns pontos importantes da dublagem do referido programa, como, por exemplo, a Dublagem MAGA (primeira empresa de dublagem responsável pela dublagem em português do Chaves, localizada dentro dos estúdios do SBT), a qual ele também dirigiu. Na mesma entrevista falou sobre sua equipe e as traduções do seriado em questão. Embora a maioria pense que o dublador do Chaves (Gastaldi) está para edição brasileira, assim como Chespirito está para versão mexicana, em que escreve, dirige, atua etc., na verdade Gastaldi era dublador e diretor de dublagem, e segundo Machado, Gastaldi não traduziu nenhum episódio do Chaves, sendo este serviço executado por Nelson Machado (dublador do personagem Quico), que afirma ter traduzido cerca de 150 episódios do seriado. É importante lembrarmos o que diz Chaume sobre a condição única em que se encontra o tradutor no processo de tradução: O tradutor é o emissor de uma cadeia complexa de emissores dispostos a fazer chegar um determinado produto a uma determinada audiência. Também forma parte de uma corrente 7 Mais informações sobre a entrevista e o tradutor podem ser encontradas no site http://www.sitedochaves.com/dublagem-maga.htm. acesso em:20 de março de 2013. 27 múltipla de receptores, ou intermediários que modificam o produto original para uma correta leitura e compreensão do texto audiovisual por parte do receptor último [...] (CHAUME, 2004, p. 67). Ou seja, o tradutor é a figura central do processo de tradução de um texto audiovisual, responsável pela diplomacia de vários e diferentes interesses e, principalmente, pelo sucesso ou fracasso de uma obra frente ao público a que esta se destina. No caso do tradutor do seriado Chaves, exibido pelo SBT, esta figura, em conjunto uma equipe, desempenhou junto ao público uma parceria. Em suma, este breve comentário sobre o tradutor apenas fecha tudo que temos dito desde o inicio sobre o tradutor e suas responsabilidades junto á prática de tradução e dublagem. E com esta seção, esperamos ter ambientado o leitor para que possa ter o mínimo de conhecimento sobre a atmosfera em que foi criado o seriado Chaves, para que assim seja facilitada a continuação da leitura e das análises que estarão dispostas na próxima seção, onde trataremos não só das análises, mas também da metodologia e do corpus empregados neste trabalho. 4. AS ESTRATÉGIAS DE TRADUÇÃO NA DUBLAGEM DO SERIADO CHAVES Esta seção apresenta a descrição e a análise de algumas estratégias de tradução na dublagem do seriado Chaves para traduzir situações cômicas atreladas a aspectos linguísticos e culturais da língua de partida. Primeiramente apontamos de forma sucinta o procedimento metodológico adotado neste estudo, bem como apresentamos uma sinopse dos episódios do seriado que constituem nosso corpus. Posteriormente partimos para a descrição e análise propriamente dita. 4.1 Procedimentos metodológicos Esta é uma pesquisa descritiva que busca identificar, de modo qualitativo, fenômenos de ordem linguística (semântica e/ou gramatical) e 28 sociocultural que dificultam o trabalho de tradução na dublagem de um programa humorístico. Para tanto, iniciamos nosso trabalho com a busca dos episódios do Chaves em suas versões originais (espanhol) e dubladas (português), exibidas no SBT, que apresentassem alguns aspectos linguísticos e socioculturais que dificultassem a tradução do texto original. Após identificarmos e selecionarmos algumas cenas mais representativas quanto a situações cômicas atreladas a aspectos linguísticos e culturais da língua de partida, fizemos a transcrição do áudio em espanhol das referidas cenas, seguida pela transcrição do áudio dublado em português. Depois de analisarmos as cenas, iniciamos a descrição e a análise das estratégias de tradução utilizadas pelos profissionais da dublagem para traduzir as cenas selecionadas. 4.1.1 Constituição do corpus O corpus da presente pesquisa está composto pelas versões originais e dubladas, exibidas pelo SBT, dos três seguintes episódios do Chaves (ver DVD em anexo): 1. Día de San Valentín (1979) - (Dia de São Valentim); Neste episódio, Chiquinha está escrevendo um cartão para o Chaves, pois é dia de São Valentim e, nesta data, as pessoas costumam trocar cartões como sinal de afeto. O problema é que Chiquinha não sabe com que letra se escreve a palavra Valentim, pois em espanhol a letra v(ve) e a letra b(be) são representadas pelo mesmo fonema, ou seja, tem o mesmo som. O Chaves tenta ajudá-la, mas também não sabe como se escreve e pede ajuda ao seu Madruga, que por não compreender as perguntas elaboradas pelo Chaves, não entende qual é sua dúvida e deixa a situação ainda mais confusa. 2. La Chilindrina con la Variuela (1975) - (A Chiquinha com Catapora); Neste episódio, Seu Madruga inventa que a filha Chiquinha está doente para que Seu Barriga tenha piedade e não lhe cobre o aluguel. Depois, o pai descobre que a filha também havia inventado uma doença para não ir à escola. Todos acreditam que ela está com catapora e, por ser uma doença 29 contagiosa, ninguém quer se aproximar dela, exceto o Chaves, que quer ficar doente para comer a refeição do hospital. 3. Sin Piñata no hay Posada (1973) - (Sem Pinhata não tem Festa). Neste episódio, a vizinhança da vila prepara uma festa, e como é tradição nas festas mexicanas tem que haver pinhatas (conhecidas no Brasil também como pinhata e em algumas regiões como pichorra). Todos se organizam e dividem as tarefas. Quico e Chaves ficam responsáveis para fazer as pinhatas. Considerando o grau de habilidade e esperteza destes dois, o espectador pode prever que acontecerá todo tipo de bagunça. Para assegurar que o trabalho será feito, Seu Madruga se encarrega de fiscalizar e cobrar o trabalho dos garotos. 4.2 Análise do corpus Sobre a versão traduzida (dublada) do seriado Chaves, verifica-se que, apesar da língua espanhola ser língua irmã do português, algumas especificidades referentes ao humor requerem reformulações na dublagem (espanhol – português) para que a recepção do texto traduzido apreenda o sentido da mensagem do texto original. Essas reformulações costumam ocorrer no âmbito: da gramática, como o uso de pronomes em espanhol, por exemplo; do léxico, por meio de reformulações ou omissões de jogos de palavras que não seriam compreendidos numa tradução literal; ou por referências culturais que são domesticadas para facilitar a compreensão do público. Tomando como ilustração desses fenômenos, no seriado Chaves, analisaremos os diversos casos e as estratégias tradutórias para a dublagem de cada um dos três episódios já mencionados na subseção anterior. As falas abaixo, transcritas do episódio Dia de São Valentim, trazem uma questão linguística de aspecto fonético extremamente conflitante na passagem da oralidade para a escrita para os falantes de língua espanhola, sobretudo para os que têm pouca habilidade na linguagem escrita. No espanhol o som da letra B e da letra V são muito semelhantes, representadas pelo fonema /β/. Então ocorre que Chiquinha quer escrever um cartão para Chaves, pois é dia de São Valentim (data em que se comemora o amor e a 30 amizade), porém não sabe com que letra se escreve Valentim. Chaves tenta ajudá-la, mas também não sabe, então pede ajuda a Seu Madruga que não compreende o que Chaves diz e fica irritado. Além do aspecto supracitado observaremos outros que serão destacados em negrito e imediatamente comentados. Como, por exemplo, o caso seguinte que palavras sofrem modificações para motivar o humor: Quadro 1 - Mapeamento das estratégias tradutórias de uma cena do episódio Día de San Valentín (Dia de São Valentim). Descrições das imagens Deitada no chão, Chiquinha escreve um cartão. Chaves caminha, equilibrando uma vassoura, tropeça na Chiquinha e cai. Trilha original Trilha dublada Chilindrina:... Di-a-de-San-Va-lentín… ¡Ai, ai...! Chavo: ¡Te pusiste ahí de propósito para que yo me tropezara! Chiquinha: di-a-de- São-Va-lentim... Ai, ai...! Chaves: Você ficou ai de proprosito pra que eu tropreçasse! As palavras propósito e tropeçasse são pronunciadas na dublagem de forma incorreta, caracterizando o nível sociocultural precário do protagonista e criando, assim, um contraponto com a situação-problema do episódio. Podemos observar que no texto original (em espanhol) este recurso não foi utilizado e que a inclusão da pronúncia incorreta para formulação do humor casa-se muito bem ao próprio tropeço, típico dos palhaços brasileiros, que usam o exagero nos movimentos e na linguagem para obtenção do riso. Considerando que o seriado Chaves também traz essa característica exagerada e infantil, analisamos a modificação dos vocábulos propósito e tropeçasse como uma feliz intervenção no processo tradutório. Quadro 2 - Mapeamento das estratégias tradutórias de uma cena do episódio Día de San Valentín (Dia de São Valentim) Descrições das imagens Chaves e Chiquinha sentados no chão. Trilha original Trilha dublada Chilindrina: No es cierto. No sabes que estoy escribiendo una tarjeta de día de San Valentín. Chiquinha: Não é verdade! Não vê que eu tô aqui escrevendo um cartão pra São Valentim? Chavo: ¿Qué tarjeta? Chaves: Quê? Chilindrina: Día de San Valentín es el día del amor y de la amistad Chiquinha: É, São Valentim é o santo do amor e da amizade e se 31 y si uno quiere a una persona le manda una tarjeta. a gente gosta muito de uma pessoa manda um cartão. No Brasil, a data na qual se celebra o amor entre as pessoas, sendo comum a troca de cartões e presentes, corresponde ao Dia dos Namorados, comemorado no dia 12 de junho, véspera do dia de S. Antônio, conhecido como santo casamenteiro. Optou-se por manter a denominação da data festiva, segundo a cultura de partida, priorizando-se, assim, a questão linguística da cena sobre a particularidade cultural, pois não tendo Chiquinha e Chaves um relacionamento amoroso para justificar a troca de cartões, apenas a data de São Valentim que é também o dia da amizade explica o cartão de Chiquinha para Chaves, muito embora os fãs de Chaves possam perceber durante o seriado que Chiquinha é apaixonada por Chaves. Quadro 3 - Mapeamento das estratégias tradutórias de uma cena do episódio Día de San Valentín (Dia de São Valentim). Descrições das Trilha original Trilha dublada imagens Chilindrina: Porque no nunca Chiquinha: Ora porque não se terminaría una. Humm... pero manda pra quem não se gosta! no me acuerdo con que b se Humm... É ... Eu não me lembro escribe Valentín. com que be se escreve Valentim! Chaves: Valentim? Chavo: ¿Valentín? Chilindrina: Sí. Chiquinha: Sim! Chavo: ¿Valentín? Chaves: Valentim? Chilindrina: Sí. Chiquinha: Sim! Chavo: ¿Valentín? Chaves: Valentim? Chilindrina: Sí. Chiquinha: Sim! Chavo: ¿Valentín? Chaves: Valentim? Chaves e Chiquinha Chilindrina: Sí. (gritando) Chiquinha: Sim! (gritando) sentados no chão. Chavo: ¡No me grites! ¡Qué Chaves: Vê se não grita e me deixa estoy explicándote cosas que explicar as coisas que você não no sabes! sabe! Chilindrina: Entonces, ¿sabes Chiquinha: Então, você sabe com cómo se escribe Valentín? que be se escreve Valentim? Chavo: Es claro que sí. Chaves: Claro que sim! Chilindrina: ¿Con cuál? Chiquinha: Com qual? Chavo: ¿Valentín? Chaves: Valentim? Chilindrina: Sí. ¿Con que b se Chiquinha: Sim! Com que be se escribe Valentín? ¿Con cuál escreve Valentim? Com qual dos de las dos? dois? Chavo: ¡Pues con la de Chaves: Com be de Valentim! Valentín! Aqui vemos a repetição exagerada da mesma pergunta como promoção do humor. Mais uma vez o exagero é usado com sentido de fazer graça e neste caso em especial também para ressaltar que a personagem não 32 sabe o que responder à pergunta formulada. Temos, então, o início da dúvida ortográfica causada pela semelhança sonora das letras B (b ou β) e V (b ou β) na língua espanhola que é o fio condutor da comicidade do episódio. Verificamos um problema de não equivalência linguística (fonética). Em espanhol, na oralidade, não se distingue o som do b e o som do v, sendo por isso, os dois, chamados de be (um alto ou comprido e o outro baixo ou curto). O tradutor poderia ter optado por reformular o texto e concentrar o humor em outra discussão que não “com que be se escreve Valentim?”, no entanto sua opção é pela manutenção da particularidade linguística da língua de partida, evidenciando a estrangeirização do texto. Quadro 4 - Mapeamento das estratégias tradutórias de uma cena do episódio Día de San Valentín (Dia de São Valentim). Trilha original Trilha dublada Chilindrina: ¿Por qué no me dijo antes, Chavo? (pausa) Pero, ¿Con cuál de las dos, Chavito? Chavo: Pues, no estoy muy, muy, muy seguro... pero creo que es con be de burro o con be de vaca. Uno de los dos. Chiquinha: Ah, você podia ter me dito antes, Chaves!(pausa) Mas com qual dos dois, Chavinho? Chaves: Não tô muito, muito, muito certo... mas acho que é com be de burro ou com ve de vaca. Um dos dois! A dúvida de ortografia da personagem Chaves é exatamente saber se Valentim se escreve com b(be alta) ou com v(be baixa). Uma parte significativa do referido episódio “Dia de São Valentim” é responder a pergunta formulada pelo Chaves: Valentim se escreve com be(b) de burro ou be(v) de vaca? Considerando que para nós, falantes de língua portuguesa, não existe nenhuma semelhança entre essas letras, a pergunta do Chaves é incompreensível. O humor consiste (no texto de chegada) apenas em considerar as personagens analfabetas a ponto de não saberem distinguir letras tão diferentes. Para aquele que tem conhecimento sobre a língua espanhola a questão é bem clara e a situação é bastante comum para os 33 falantes de língua espanhola, tanto que com esta mesma temática foram produzidos mais dois episódios semelhantes8. A manutenção das palavras burro e vaca, remetendo a pronúncia de suas respectivas iniciais em língua de partida, não ajuda a esclarecer a dúvida dos telespectadores, pois enquanto que para a língua espanhola esclareceria que se trata de letras diferentes para o mesmo fonema, em português realça o fato de que se trata de letras diferentes para fonemas distintos. Esta disparidade poderia ser resolvida com a substituição da palavra vaca por outro animal que também comece com a letra be (b) em português. Mas, como já foi dito, foi opção do tradutor manter a estrangeirização. Quadro 5 - Mapeamento das estratégias tradutórias de uma cena do episódio Día de San Valentín (Dia de São Valentim). Descrições das Trilha original Trilha dublada imagens Chavo: Ahí, está tu papá. Chaves: Olha aí está seu pai! Chilindrina: ¿y? Chiquinha: Sim! Seu Madruga vem Chavo: Voy a preguntar si él sabe Chaves: Eu vou perguntar pra ele ao pátio para se ele sabe como se escreve estender roupas no cómo se escribe Valentín. Valentim. varal. Chaves vai Chilindrina: Hum…! Lo dudo Chiquinha: Ah... Duvido muito que até ele para tirar mucho que lo sepa! ele saiba! dúvidas. Chavo: Don Ramón, ¿usted sabe Chaves: Seu Madruga, o senhor sabe cómo se escribe Valentín? como se escreve Valentim? Don Ramón: Sí. Sr. Madruga: Sei! Chavo: Gracias. Chaves: Obrigado! Don Ramón: Por nada. Sr. Madruga: De nada! Chavo: Lo sabe. (pausa) Ahora le Chaves: Ele sabe. (pausa) Agora Chaves volta para pregunto se es con be de burro o vou perguntar se é com be de onde estava con be de vaca, ¿verdad? burro ou vê de vaca, né? anteriormente com Chiquinha. Chilindrina: Me gustaría. Chiquinha: Mas é claro! Neste fragmento observamos que a inteligência de Seu Madruga é questionada. Aliás, o pouco estudo é uma das principais características desta personagem. O humor consiste no fato de que quem questiona são duas personagens que sabem ainda menos que Seu Madruga, como por exemplo, o Chaves que vai até lá para tirar uma dúvida e esquece de fazer a pergunta que realmente interessa. 8 Episódios semelhantes são filmagens com o mesmo texto, mudando apenas as personagens que atuam. Teriam, portanto, as mesmas questões linguísticas discutidas aqui. 34 Em relação à tradução podemos observar a manutenção do texto bem semelhante ao original e obtenção do humor por meio dos mesmos elementos usados no texto de partida. Quadro 6 - Mapeamento das estratégias tradutórias de uma cena do episódio Día de San Valentín (Dia de São Valentim). Descrições das Trilha original Trilha dublada imagens Chaves volta para perto de Seu Madruga e fica olhando-o fixamente. Don Ramón: ¿Qué me ves? ¿Qué tengo algo en la cara o qué? Chavo: ¿es de burro o de vaca? Sr. Madruga: O que tá olhando? Eu tenho alguma coisa na cara? Don Ramón: ¿Qué cosa? Sr. Madruga: O que disse? Chavo: La be. Chaves: O be? Don Ramón: ¿Qué pasa? Chavo: Nada. Don Ramón: ¿Entonces? Sr. Madruga: O que tem? Chaves: Nada! Sr. Madruga: E então? Chaves: É de burro ou é de vaca? As palavras burro e vaca, pelo contexto, se relacionam à palavra cara referindo-se ao Seu Madruga, insinuando sua semelhança com os referidos animais. Trocadilho que dá a entender que Chaves insulta Seu Madruga, chamando-o de burro ou vaca, o que na cultura de partida é equivalente a ser chamado de tonto e este jogo de palavras criado nesta situação comunicativa tem sentido semelhante na cultura de chegada, de modo que o humor pode ser recriado pela recepção. Quadro 7 - Mapeamento das estratégias tradutórias de uma cena do episódio Día de San Valentín (Dia de São Valentim). Descrições das Trilha original Trilha dublada imagens Chavo: Yo lo que pregunto Chaves: Estou perguntando que ¿es que be? ve! Seu Madruga se irrita Don Ramón: Yo veo es lo que Sr. Madruga: Eu vejo o que me e fica confuso com se me pega a regalar las dá vontade! E você o que tem a as perguntas. ganas. ¿Qué te importa? ¿De ver com isso? Além disso, eu... qué diablos estás hablando? Mas de que diabos está falando? Em espanhol, há um trocadilho entre a letra b(be) e o verbo ver, pela semelhança fonética, quando este verbo está conjugado na terceira pessoa do singular, como no enunciado em questão. Na tradução do fragmento acima, verificamos a opção pelo som /v/ em detrimento do /b/, mais próximo do som proferido no texto de partida, recriando, assim, a semelhança fonética entre a 35 letra V e o verbo ver, conjugado no presente da terceira pessoa do singular, familiar ao público-alvo da dublagem. Quadro 8 - Mapeamento das estratégias tradutórias de uma cena do episódio Día de San Valentín (Dia de São Valentim). Trilha original Trilha dublada Chavo: De la letra. Don Ramón: ¿De qué canción? Chavo: No, no es canción. Chaves: Da letra! Sr. Madruga: De que canção? Chaves: Não é canção! Don Ramón: ¿Entonces? Sr. Madruga: E então? O contexto estabelece um trocadilho semântico entre a letra do alfabeto em questão e a letra de uma música. Verificamos, nesse caso, que a tradução mantém o trocadilho semântico, uma vez que o mesmo é possível na cultura de chegada sem nenhum prejuízo para a compreensão. Quadro 9 - Mapeamento das estratégias tradutórias de uma cena do episódio Día de San Valentín ( Dia de São Valentim). Descrições Trilha original Trilha dublada das imagens Chilindrina: Mira, es yo quiero mandar Chiquinha: Ora, é que eu quero mandar Chiquinha se una tarjeta de día de San Valentín... um cartão porque hoje é dia de São junta a Chaves Valentim. e a Seu Don Ramón: Bueno, ¿Y? Sr. Madruga: Bem. E? Madruga para Chavo: ¿Usted sabe escribir? Chaves: O senhor sabe escrever? explicar o Don Ramón: Claro que sí. Sr. Madruga: Claro que sei! problema. Chavo: Aí, por fin. ¿Con qué be? Chaves: Ainda bem! Com que vê? Don Ramón: Con los ojos. Sr. Madruga: Com os olhos! Chavo: ¿Pero, de burro o de vaca? Chaves: Mas de burro ou de vaca? Identificamos no trecho acima, a retomada e o reforço das situações anteriores que dão a entender que Chaves duvida que Seu Madruga saiba realmente escrever. Nesse sentido, Chaves insulta Seu Madruga dizendo que ele tem aspectos de burro ou de vaca; é reestabelecido o trocadilho fonético entre o som da letra B e o verbo ver conjugado no presente do indicativo em terceira pessoa do singular no espanhol; e novamente a tradução faz opção pelo som /v/ em detrimento do /b/, mais próximo do som proferido no texto de partida, recriando, assim, a semelhança fonética entre a letra V e o verbo ver, familiar para o público da dublagem; bem como o aspecto cultural também retomado. 36 Quadro 10 - Mapeamento das estratégias tradutórias de uma cena do episódio Día de San Valentín ( Dia de São Valentim). Descrições das Trilha original Trilha dublada imagens Chilindrina: Espera, papá. Yo te voy Chiquinha: Espera ai, papai, espera... a explicar desde el principio. Yo eu vou explicar desde o começo. Eu quiero escribir una tarjeta de día de quero escrever um cartão de dia de Chiquinha se San Valentín... São Valentim... coloca entre os Don Ramón: Bien, ¿Y? Sr. Madruga: Sim. E? dois para acalmar Chilindrina: Es que yo no sé con Chiquinha: E eu não sei com que letra os ânimos. qué letra se escribe Valentín, se es se escreve Valentim, se é com be de con be de burro o con be de vaca. burro ou ve de vaca... Don Ramón: Acabáramos. ¿Y la Sr. Madruga: Ah, agora entendi. E esse tarjeta te vas a mandar al Chavo? cartão você vai mandar pro Chaves?! Chilindrina: Sí. Chiquinha: Sim! Don Ramón: Es con be de buey. Sr. Madruga: É com Che de chato! Na cultura do texto original, dizer que alguém está como boi ou vaca é chamá-lo de lerdo. Em português esta mesma colocação até é compreensível, porém não usual ou pelo menos não tem tanta ênfase. Como no texto de partida o autor usou um terceiro elemento (buey – boi) para destoar de burro e vaca, no texto de chegada o tradutor manteve a ideia com o terceiro elemento (chato). Desta forma, enquanto no espanhol a comicidade continua atrelada à sonoridade da letra B, mas agora associada à palavra buey para qualificar o Chaves (quebra de expectativa); na tradução, a relação sonora das letras em questão desaparece, estabelecendo-se uma relação sonora entre as iniciais das palavras Chaves-chato (recriação da quebra de expectativa). Observamos, então, neste fragmento, a manutenção das estratégias supracitadas, estabelecendo uma coerência interna na dublagem com apenas a substituição de um elemento, mas mantendo a ideia principal de quebra de expectativa e de relação sonora entre as palavras. A partir de agora, analisaremos o segundo episódio intitulado Chilindrina con variuela (A Chiquinha com Catapora). Nele, Seu Madruga inventa que Chiquinha está doente para que Seu Barriga não lhe cobre o aluguel. Depois, o pai descobre que a filha também havia inventado uma doença para não ir à escola. Todos acreditam que ela está com catapora e, por ser uma doença contagiosa, ninguém quer se aproximar dela, exceto o Chaves, que quer ficar doente para comer a refeição do hospital e também porque ele ouviu alguém dizer que ela estava com ciriuela (em espanhol significa ameixa), então, Chaves vem pedir algumas ameixas à Chiquinha. 37 Temos, portanto, uma situação em que o texto original apresenta um trocadilho entre os vocábulos ciruela(ameixa) e viruela(catapora). Vejamos então qual a estratégia usada pelo tradutor para solucionar o problema encontrado neste segundo episódio: Quadro 11 – Mapeamento das estratégias tradutórias de uma cena do episódio Chilindrina con variuela (A Chiquinha com Catapora) Descrições das imagens No pátio, várias personagens evitavam contato com Chiquinha ou Seu Madruga para não pegarem catapora. Aos poucos, todos saem de cena e ficam apenas o Chaves e Seu Madruga. Trilha original Trilha dublada Don Ramón: ¿Y tú qué? Chavo: ¿Qué qué? Don Ramón: ¿Por qué no te vas? Sr. Madruga: E você. O quê? Chaves: O quê o quê? Sr. Madruga: Por que não se manda? Chaves: Porque eu tô querendo ver se a Chiquinha me empresta. Sr. Madruga: Empresta? Chaves: Pois eu ouvi que a Chiquinha tem um cata-vento... Sr. Madruga: Não é cata-vento, é catapora. E é uma catapora muito especial. Chavo: Yo querría ver se a chilindrina me da una. Don Ramón: ¿Una qué? Chavo: Pues yo oí que la Chilindrina tiene ciruelas. Don Ramón: No son ciruelas, son viruelas y por cierto viruelas muy especiales. Verifica-se no fragmento acima, que no texto de partida, há uma confusão em relação às palavras viruelas e ciruelas que têm grafia e pronúncia muito semelhantes. O sentido e a comicidade da cena são reforçados pela composição da figura do protagonista da série, garoto pobre e faminto que sempre pensa em comida, chegando, neste caso, a confundir o nome de uma doença com o nome de uma fruta. No texto de chegada, observamos que houve uma reformulação no nível lexical, pois, no português brasileiro, a aproximação fonética entre as palavras viruela e ciruela, se traduzidas literalmente, não é possível. Neste caso, o tradutor deu ênfase à doença, foco temático do episódio, e buscou recriar uma aproximação sonora no início do nome da doença catapora com o brinquedo cata-vento. O sentido e a comicidade da cena são reformulados, suprimindo uma característica importante da personagem Chaves que é a privação de alimentos, mas contemplando outro aspecto de composição do protagonista, no caso, sua privação a brinquedos e à infância. Logo, temos uma substituição 38 de elemento no campo semântico, mas manutenção da ideia principal que é doença x carência. Iniciamos aqui a análise do episódio Sin Piñata no hay Posada (Sem Pinhata não tem Festa), que é o terceiro e último episódio selecionado para este trabalho. Neste episódio, a vizinhança da vila prepara uma festa, e como é tradição nas festas mexicanas tem que haver pinhatas (conhecidas no Brasil também como pinhata e em algumas regiões como pichorra). Todos se organizam e dividem as tarefas. Quico e Chaves ficam responsáveis para fazer as pinhatas. Para assegurar que o trabalho será feito, Seu Madruga se encarrega de fiscalizar e cobrar o trabalho dos garotos. Encontramos aqui situações distintas uma da outra, como substituições que reformularam o texto com domesticação, problema de não equivalência linguística de vocábulos heterossemânticos (em espanhol) o que não ocorre em português em relação às mesmas palavras, tal como uso de expressões de uso popular que só tem sentido para cultura de chegada. Observemos, então, a partir das seguintes análises: Quadro 12 – Mapeamento das estratégias tradutórias de uma cena do episódio Sin Piñata no hay Posada (Sem Pinhata não tem Festa). Descrições das Trilha original Trilha dublada imagens Doña Florinda: ¿Pero qué es esto? ¿A quién se le ocurre…? Dona Florinda está entrando no pátio quando esbarra com Seu Madruga que se abaixou para apanhar uma caixa. Don Ramón: ¿Porquería de barrio? Pues está muy equivocada señora. La vecindad está adorna como para una posada. Porque hoy por la noche vamos a hacer la posada de la vecindad. Doña Florinda: Claro. Un pretexto más para rogorios de la chusma. Don Ramón: Pues sí, pero casi todos los vecinos pusieran 20 pesos por cabeza y digo casi porque hay una persona que no postó nada. Dona Florinda: Mas o quê que é isso? Quem será que foi a criatura...? Sr. Madruga: Me agachei para pegar essa caixa de refrescos. Dona Florinda: Tá bom! Eu quero saber quem teve a ideia de enfeitar o pátio da vila como se fosse um boteco de bairro? Sr. Madruga: Como boteco de bairro? A senhora está muito enganada! Nós enfeitamos a vila para uma festa. Fique sabendo que hoje é a noite dos grandes festejos aqui na vila. Dona Florinda: Claro! Mais uma desculpa para a gentalha fazer farra. Sr. Madruga: É. Mas quase todos os vizinhos deram 20 mangos cada um. Digo quase porque há uma senhora que não deu nada! Doña Florinda: ¿Qué quiere usted decir? Dona Florinda: O que o senhor quer dizer? Don Ramón: Perdón, es que venía por esta caja de refrescos. Doña Florinda: Ah, sí. ¿Me quiere decir a quien le ocurrió adornar la vecindad como porquería de barrio? 39 No pátio, sobre uma mesa, Quico e Chaves preparam a pinhata com cola e papel colorido, quando chega Dona Florinda. Don Ramón: Pues que usted también debe poner. Doña Florinda: ¡Ni que fuera gallina! Doña Florinda: ¿Qué estás haciendo tesoro? Kiko: Estamos componiendo la piñata. Don Ramón dijo que sin piñata no hay Posada. Chavo: Trabajamos mucho porque nos costó mucho trabajo para conseguir el papel y la cola. Doña Florinda: ¿Cuál cola? (con espanto) Chavo: Pues esta. ¿Con que cree que estamos pegando los papeles? Doña Florinda: No se pegan con cola, se pegan con el grudo. Sr. Madruga: Que também tem que dar dinheiro! Dona Florinda – Nem que eu fosse o Silvio Santos! Gentalha! Dona Florinda: O que está fazendo, tesouro? Quico: Estamos fazendo a pichorra. O seu Madruga disse que sem pichorra não tem festa. Chaves: É... estamos trabalhando muito porque deu muito trabalho para conseguir o papel e o grude. Dona Florinda: Que grude? (com espanto) Chaves: Este. Como acha que estamos colando os papeis? Dona Florinda: Não é com grude é com cola. Kiko: ¿Con el grudo? Quico: Com cola? No inicio do episódio, Dona Florinda e Seu Madruga começam a discutir porque Dona Florinda não contribuiu financeiramente para a festa da vizinhança e Seu Madruga diz que “Pues que usted también debe poner.” (Pois você também deve por dinheiro) e Dona Florinda responde “¡Ni que fuera gallina!” (Nem se fosse uma galinha), fazendo um trocadilho porque Seu Madruga usou o verbo poner (que significa por). Neste caso o tradutor optou por domesticar o texto, colocando no lugar do elemento galinha e do verbo por, o Silvio Santos que é uma figura bastante conhecida no Brasil, principalmente quando se trata de dar dinheiro. E desta forma ao invés de dizer "nem que fosse uma galinha”, Dona Florinda diz “Nem que eu fosse o Silvio Santos” trazendo o texto para mais próximo da cultura de chegada. Na segunda situação vemos que, em espanhol, o vocábulo cola adquire outros significados que variam de acordo com o contexto em que for empregado. Além do mais, esta palavra (cola) constitui para nossa a tradução (espanhol-português) um heterossemântico, ou seja, palavra com grafia igual, mas com significado diferente. Dentre seus significados em espanhol encontramos “fila” ou “calda” e, por último e menos usual, a própria “cola”, sendo que para este fim o mais usual seria “pegamento” ou “grudo” e raramente “cola”. Com estas considerações, é possível compreender que Dona Florinda se espante que os meninos digam que deu trabalho arranjar papel e calda para fazer a pichorra. Esta tradução, se feita assim literal, pareceria no 40 mínimo deselegante e porque não dizer agressiva ao público de chegada, pois a compreensão do trocadilho se perderia, já que não existe relação entre os vocábulos supracitados em língua portuguesa para promover um jogo de palavras semelhante que justificasse falar da calda (rabo) do vizinho. Desse modo, observamos que se apresentou apenas uma inversão no nível lexical (cola por grude), pois na cultura de chegada o uso de grude, nesse contexto, é menos comum, o que justificaria o espanto de D. Florinda. Quadro 13 - Mapeamento das estratégias tradutórias de uma cena do episódio Sin Piñata no hay Posada (Sem Pinhata não tem Festa). Trilha original Trilha dublada Doña Florinda: Si, Tesoro. ¿Y qué clase de Dona Florinda: Sim, tesouro. E que tipo de cola están usando? cola estão usando? Kiko: La cola del vecino. Del vecino que es Quico: É cola de colar. Daquelas que colam as coisas. carpintero. Doña Florinda: Oiga, ¿Y quien trajo el Dona Florinda: Tá, tá. E de onde vem esse papel de china? papel? Chavo: No, lo trajimos de más cerquita. Chaves: Bom, ganhamos da porteira da vila. No fragmento acima, o uso da palavra cola é mais uma vez substituído de forma sutil por outros elementos, utilizando-se um novo campo semântico, necessitando, portanto, de reformulação para o texto de chegada. Partimos então para uma nova questão que é o papel da China, que para nós (português do Brasil) é o mesmo que papel de seda. No referido fragmento, Dona Florinda pergunta quem trouxe o papel da China, ou seja, quem deu esse tipo de papel aos garotos, e Chaves responde que não o trouxeram da China que foi de mais pertinho. É notável que não se mantém o trocadilho de vocábulos do texto original porque o mesmo papel, no texto de chegada, não tem nome de um lugar. Para resolver este impasse, o tradutor optou pela omissão do elemento “origem do papel” e reformulação do texto com apresentação de um novo elemento “a porteira da vila”, o que causa estranheza, já que não se vê nenhuma porteira durante todo o seriado. Quadro 14 - Mapeamento das estratégias tradutórias de uma cena do episódio Sin Piñata no hay Posada (Sem Pinhata não tem Festa). Descrições das Trilha original Trilha dublada imagens Doña Florinda: Ah, Dona Florinda: Ai, Chaves, eu falei que tipo Chavo, me refiero a la de papel. 41 Dona Florinda se dar por vencida e vai para casa. clase de papel. Kiko: Está bonito, ¿verdad? Es papel de hija. Doña Florinda: ¿De hija? Kiko: De hija del carpintero. La hija nos regalo papel y el carpintero nos regalo la cola. Doña Florinda: Bueno, procura no ensuciarte mucho, tesoro. Kiko: Si, mamacita. (...) Quico: Está bonito, não está? É papel de tudo. Dona Florinda: Papel de tudo? Quico: De tudo quanto é tipo. É que a porteira deu muitos papeis velhos pra gente. Dona Florinda: Tá, tesouro, tá. Procura não se sujar, tesouro. Quico: Sim, mamãe. (...) Na sequência do fragmento em que Dona Florinda insiste em saber o tipo de papel, Quico responde que é “papel de filha” (tradução literal do texto de partida) e depois completa que a filha do carpinteiro deu o papel para eles. Em português, Quico diz que é “papel de tudo” (de tudo que é tipo). É mantida, assim, a substituição, agora da filha pela porteira para induzir à coerência do contexto criado anteriormente. Quadro 15 - Mapeamento das estratégias tradutórias de uma cena do episódio Sin Piñata no hay Posada (Sem Pinhata não tem Festa). Descrições das Trilha original Trilha dublada imagens Quico cola o papel na Don Ramón: ¿Por qué no están Sr. Madruga: Por que não estão trabajando? Sin piñata no hay trabalhando? Lembrem-se de que mão e tenta tirar sem sem pichorra não tem festa. sucesso. Chaves tenta posada, ¿no? ajudar e fica colado. Kiko: Ai que ya va con cuarenta Quico: Ai, o senhor já repetiu isso Então chega Seu veces que nos dices lo mismo. umas quarenta vezes. Madruga, que toma o papel e fica colado Don Ramón: Lo torno a repetir: sin Sr. Madruga: Sim e eu vou repetir: também. piñata no hay posada. sem pichorra não tem festa. Chavo: cuarenta y uno... Chaves: Ora, não me diga! Seu Madruga já está Don Ramón: ¿Qué? Sr. Madruga: O quê? de saída quando Chavo: Cuarenta y una veces Chaves: Ora, não me diga, pois já Chaves grita “cuarenta que nos dices lo mismo. sei que sem pichorra não tem y uno” e ele volta bem festa. zangado. Don Ramón: Mira Chavo, solo no Sr. Madruga: Olha Chaves, só não te te doy una... solo no te doy otra dou uma porque... só não te dou porque... ¿De dónde sacaron este outra porque... onde conseguiram pegamento? esta cola? Produzir pinhatas, decorar a festa com elas e quebrá-las depois são traços culturais fortes da cultura mexicana. O uso da pinhata na cultura de chegada é um evento esporádico, que neste caso, apesar de demarcar a 42 estrangeirização do seriado não impossibilita a compreensão e contextualização do objeto. Em seguida, vemos a passagem onde Seu Madruga (no texto de partida) é chamado pelo Chaves de “cuarenta y uno”, o que pela reação da personagem conota ser um palavrão (xingamento). Quando Seu Madruga volta para bater no Chaves, este se corrige colocando a expressão no feminino e dizendo que já faz quarenta e uma vezes que ele diz a mesma coisa. O humor é formado pelo fato de Seu Madruga ser ofendido e não poder revidar, já que os argumentos do garoto são convincentes. É importante que se diga que a expressão “Cuarenta y uno”, na cultura de partida, é uma variação linguística de menor prestígio social referente à homossexualidade. Considerando que o seriado Chaves tem como alvo o público infantil, a substituição deste termo por outro de valor semelhante poderia não se adequar devidamente ao contexto, causando a sensação de inadequação do seriado à faixa etária. Assim a expressão em questão é trocada por um irônico “Ora, não me diga!”, bem típico das crianças que gostam de reclamar, e insinua apenas que Chaves foi sarcástico. Quadro 16 - Mapeamento das estratégias tradutórias de uma cena do episódio Sin Piñata no hay Posada (Sem Pinhata não tem Festa). Trilha original Trilha dublada Don Ramón: Mira Chavo, solo no te doy Sr. Madruga: Olha Chaves, só não te dou una... solo no te doy otra porque... ¿De uma porque... só não te dou outra porque... dónde sacaron este pegamento? onde conseguiram esta cola? Chavo: De la cola de un vecino. Chaves: Intrometido! Don Ramón: ¿Qué? Sr. Madruga: O que disse? Chavo: Sí, de un carpintero que vive en el 39. Chaves: ora, o intrometido que mora no 39. Kiko: Sí, nosotros no teníamos embrujo el Quico: É a gente não tinha com que colar e carpintero nos regalo su cola. ele deu a cola pra gente. Como já falamos anteriormente, a presença do vocábulo “cola” com sentido de calda (rabo) não faria sentido na língua de chegada. Para remediar esta situação, o tradutor opta por trocar a expressão “da calda de um vizinho” (texto de partida) por “intrometido” (texto de chegada) retomando o aspecto de humor no fato do Chaves mais uma vez implicar com Seu Madruga chamandoo de metido por querer saber da cola e corrigindo como se tivesse chamando o vizinho do 39 de metido por se oferecer para ajudar com o material para pinhata. 43 Quadro 17 - Mapeamento das estratégias tradutórias de uma cena do episódio Sin Piñata no hay Posada (Sem Pinhata não tem Festa). Trilha original Trilha dublada Kiko: Sí, nosotros no teníamos embrujo y el Quico: É a gente não tinha com que colar carpintero nos regalo su cola. e ele deu a cola pra gente. Don Ramón: ¡Ah, qué bien! Ahora vas a Sr. Madruga: Ah, que bom. Agora vai ter tener con que espantarte las moscas... com que colar o seu cérebro. Cala a boca cállate, cállate y sigues trabajando. Tengo que e continua trabalhando. Tenho que ver mirar con qué me quito esto. como soltar isso. Chavo: (risos) Chaves: (risos) Kiko: ¿De qué te ríes? Quico: Você tá rindo do quê? Chavo: Que te vas a espantar las moscas Chaves: Vai colar o seu cérebro com con la cola... Te dijo cara de vaca. cola porque é muito burrico. Nas duas primeiras linhas deste quadro encontramos uma situação conflitante, pois a expressão “no teníamos embrujo y el carpintero nos regalo su cola” (não tínhamos embrulho e o carpinteiro nos presenteou com sua calda) embora para a cultura de partida seja apenas um trocadilho engraçado, para a cultura de chegada seria pejorativa e com grande conotação sexual. Para sanar esta divergência, o tradutor deixou a palavra cola que aqui, neste contexto, só tem sentido de grude mesmo. Temos, portanto, a tradução literal de um elemento que serviu para facilitar a tradução. Em seguida, no texto de partida, Seu Madruga faz uma piada chamando o Quico de vaca (tonto) e que ganhou uma calda para espantar as moscas, movimento típico deste tipo de animal. O Chaves riu e disse que Seu Madruga “lhe chamou de cara de vaca” (texto de partida). No texto de chegada como a palavra cola foi usada como líquido que gruda, Chaves diz que “vai colar o cérebro porque é burrico”. Desse modo, como não havia equivalência semântica para manter a piada, houve reformulação e os elementos vaca, calda e moscas foram omitidos. Logo, temos a reformulação do texto, com substituição de elementos, mas com a manutenção do humor baseada na mesma ideia que é chamar Quico de tonto, pois como já vimos anteriormente, na cultura do texto original, dizer que alguém está como boi ou vaca é chamálo de lerdo. Essa ideia é sustentada com a troca do elemento vaca por burro que insinua que a personagem tem o raciocínio lento. 44 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho teve como objetivo descrever e analisar as estratégias tradutórias na dublagem do seriado mexicano Chaves para traduzir situações cômicas atreladas a aspectos linguísticos e culturais da língua de partida. Verificamos, neste estudo, que o tradutor adotou diferentes estratégias, optando, na maioria das vezes, pela domesticação ao invés da estrangeirização. No entanto, em alguns casos, em consequência de elementos visuais ou por falta de correspondente linguístico direto, a estrangeirização não pode ser evitada. Em casos mais complexos, utilizou-se da reformulação do texto priorizando a manutenção do humor e, quando possível, a manutenção dos campos semânticos. Percebemos que as estratégias mais recorrentes na tradução do humor do referido seriado são as que privilegiam a manutenção do humor na língua de chegada, adequando o texto audiovisual às situações linguísticas e socioculturais do público ao qual o produto se destina. Esperamos ter contribuído de alguma forma para a discussão a respeito da Tradução do Humor, da Dublagem e de estratégias de tradução. Sem termos, no entanto, e nem poderíamos, a pretensão de encerrar tão rica discussão. Esperamos, ainda, ter incutido o mínimo de sensibilidade para a questão teórico-prática do humor, considerando que nosso país e, principalmente, nosso estado, seja referência nesta modalidade textual que garante, portanto, amplo material a ser explorado e incentivado. 45 REFERÊNCIAS BOLAÑOS, Roberto (2006). Diário do Chaves. São Paulo: Suma de Letras. CHAUME, Frederic. Cine y Traducción. 1ª edição, Madri: Ediciones Cátedra, 2004. FRANCO, Paulo; JOLY, Luis; THULER, Fernando. Foi sem querer querendo. Local: Editora Matrix, 2005. LIMA, Cristiano Rocha de. Legendando nas Garras da Patrulha para Surdos. 2010. Dissertação de Graduação. Universidade Estadual do Ceará, 2010. OLIVEIRA, Gregório Magno Viana. A Tradução de Referências Culturais na Dublagem de “Everybody Hates Chris”. 2011. Dissertação de Especialização em formação de Tradutores. Universidade Estadual do Ceará, 2011. QUINO. Mafalda. Buenos Aires, Argentina: Ediciones de la flor, v.1, 2003. ROSAS, Marta. Tradução de humor: transcriando piadas. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002. SAMPAIO, Patrícia Moreira. O Ensino da Tradução do Humor: Um Estudo com as Tiras da Mafalda. 2008. Dissertação de Mestrado – não publicada. Universidade Estadual do Ceará, 2008. SILVA, Nilson Roberto Barros da. Um Estudo sobre a Recepção do Humor Traduzido. 2006. Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual do Ceará, 2006. VENUTI, Lawrence. The Scandals of Translation: Towards an Ethics of Difference. London & New York: Routledge, 1998.