CMYK Gastronomia Editora: Ana Paula Macedo [email protected] 3214-1195 • 3214-1172 / fax: 3214-1155 20 • CORREIO BRAZILIENSE • Brasília, sábado, 16 de março de 2013 O prato é um jardim Especialistas garantem que o medo de experimentar receitas com flores comestíveis é infundado. O delicado e saboroso ingrediente vai bem em preparos salgados, sobremesas e bebidas Janine Moraes/CB/D.A Press » PAULO LIMA á quem torça o nariz ao vê-las no prato e discretamente separe no canto, com receio do sabor. Mas tudo indica que elas vieram definitivamente para servir de alimento. As flores deixaram de ornamentar os ambientes e passaram a compor receitas criativas e sofisticadas. A tendência se espalha em restaurantes requintados, em que chefs elaboram preparos inusitados que são embelezados pelas cores das plantas. O sabor nada tem de ruim. Costuma ser suave. O objetivo é trazer leveza e romantismo à culinária, com a delicadeza e o aroma das belezas comestíveis. É grande a variedade das espécies cultivadas para consumo. Entre as que merecem destaque, por serem encontradas em boa parte das receitas, estão as conhecidas como amor-perfeito, que têm como característica marcante a pigmentação em formato de coração; a capuchinha, que pode ser encontrada em diferentes tonalidades; a boca-de-leão, de sabor suave a ligeiramente amargo; a calêndula, utilizada nas saladas e em chás; a hibisco, também usada no preparo de chás e famosa pelo caráter antioxidante; e as belas pétalas de rosas. Para chegar ao prato, a matéria-prima é estudada por chefs que a harmonizam com outros ingredientes a fim de propiciar uma comida agradável aos olhos e ao paladar. São usadas livres de agrotóxicos, apenas em sua forma orgânica, e podem incrementar doces, saladas, pratos salgados e bebidas. Atentos à demanda, os produtores já enchem prateleiras dos supermercados com flores comestíveis. Para que possam ser levadas ao prato, as espécies, além dos cuidados na produção, devem ser colhidas manualmente, para não comprometer a delicadeza. A agricultora Chiko Yamaguthi cultiva as flores no Núcleo Rural Vargem Bonita, no Distrito Federal. Segundo ela, entre as que sobressaem na venda estão a amor-perfeito, a capuchinha e a cravina. Essa última possui tonalidades que mesclam as cores branca, rosa e vermelha. “São vendidas na bandeja, a custo acessível”, diz Chiko, que faz entregas nas Centrais de Abastecimento do Distrito Federal (Ceasa) às segundas, às quintas e aos sábados. Sobre a variedade de flores disponíveis, a professora e consultora de gastronomia com ênfase em confeitaria e cozinha internacional Jennifer Lacerda alerta: “Com tantos tipos, é preciso atentar para as que realmente podem ser consumidas, pois existem várias que possuem agentes tóxicos que podem comprometer a saúde”. É o caso da flor de acácia, que, embora possa ser tomada em chá, tem a raiz e a casca nocivas, com substâncias que, em excesso, provocam intoxicação com sintomas de ânsia de vômito. Há também as venenosas, como as azaleias, os lírios-do-vale, a dedaleira, o narciso e a espirradeira. H Chefdebarnorestaurantepaulista Marakuthai,Thamer Lima investiu na criação de um drinque que é sucesso na casa. Batizada de Summer in Paris, a bebida tem como ingredientes framboesas, morangos, blue berries, vinho branco seco, amoras, baunilha, violeta, minilaranjinha e a flor dessa fruta. “Lancei a bebida na primavera, mas teve apelo para outras estações do ano. É um drinque refrescante e que faz a pessoa se sentir em alto-astral”, diz.“É uma bebida servida gelada, doce, mas não é enjoativa. Serve de inspiração para abrir o apetite. São flores que usamos em bebidas e em pratos Janine Moraes/CB/D.A Press Receita MI CUIT DE ROSAS POR JENNIFER LACERDA Ingredientes » 250g de chocolate meio amargo » 250g de manteiga » 5 ovos » 5 gemas » 1 colher (sopa) de água de rosas » 100g de farinha (peneirada) » 150g de açúcar » 100g de creme de leite fresco quente » 120g de chocolate branco (derretido) » 1 rosa (pétalas de rosas) Modo de preparo » Faça a ganache com as pétalas de rosa ao leite aquecido e deixe em infusão até esfriar. Bata no liquidificador e aqueça novamente, misturando o chocolate branco derretido. Mexa até obter um creme homogêneo e reserve. Faça a massa de chocolate. Derreta o chocolate meio amargo e a manteiga em banho maria. Em outro recipiente misture os ovos, as gemas e o açúcar. Junte os dois compostos e acrescente a água de rosas. Por último, coloque a farinha peneirada. Preencha formas individuais untadas e, por cima, adicione uma colher de sobremesa de ganache, para cobrir a massa. Asse na temperatura de 180ºC até o ponto em que as bordas fiquem assadas e o centro mole e brilhante. Petit gateau com ganache de rosas: infusão de pétalas, água de rosas, chocolate meio amargo e branco Restaurante Marakuthai/Divulgação do restaurante, onde os clientes têm, aos poucos, conhecido melhor o sabor das flores comestíveis”, afirma. Jennifer Lacerda, que dá aulas de gastronomia na Universidade Católica, é entusiasta no uso de flores em receitas. A chef explica que as flores comestíveis têm a finalidade não só de embelezar o prato com as colorações, mas de dar sabor à comida. “São muitas as receitas em que podemos usar as flores. O que impede, às vezes, que sejam experimentadas é a forma de apresentação do prato. Normalmente, quando se coloca as flores picadas, as pessoas têm uma resistência em comer, por isso, a necessidade de fazer com que a flor seja parte integral da receita”, explica. Ela investe numa sobremesa charmosa e glamurosa. A cuit rosas, também conhecida no Brasil como petit gateau com ganache de rosas, é feita pela infusão de pétalas, água de rosas, chocolate meio amargo e chocolate branco derretido. O modo de preparo é com o leite aquecido para infusão das pétalas. A sobremesa encanta pelo sabor suave e pela apresentação do prato, que é servido de forma individual. O cheiro é um detalhe à parte. O aroma levemente adocicado e a massa rosada convida instantaneamente ao experimento. A dica da chef para acertar no ponto da massa é preparar no forno sob temperatura de 180°C até que as bordas fiquem assadas, e o centro, mole e brilhante. “É uma receita sofisticada e levemente adocicada.” Principal O drinque Summer in Paris: o preparo leva violeta e flor da minilaranjinha CMYK Drinques e doces A salada de macarrão com flores, criada por José Torres Júnior para o restaurante Bierfass. “A capuchinha, levemente picante, aguça a vontade de comer", garante o chef Os pratos principais também podem ser floridos. José Torres Júnior, que comanda a cozinha do restaurante Bierfass, em Brasília, investe na salada de macarrão com flores. Ele usa a flor capuchincha no fusilli cozido, que leva ainda frango grelhado, presunto, milho, tomate, brócolis, creme de leite, maionese e pimentão vermelho assado. Os ingredientes misturados fazem a salada ser muito requisitada no restaurante. Segundo o chef, os clientes acham curioso o fato de haver flores na salada. “É um prato bonito e saboroso. A capuchinha, levemente picante, aguça a vontade de comer. Pode ser servido tanto como entrada ou como prato principal, já que dispõe de muitos ingredientes”, completa ele, que há 6 meses comemora a venda do prato no restaurante. Simone Blasi, que trabalha com gastronomia personalizada no Rio de Janeiro, atrai olhares com as flores de abóbora. Recheadas com ricota defumada, cream cheese, bacon, grana padano e mangerona, elas vão ao forno e servidas com sopa de tomates. O prato, que leva o nome italiano de Fiori di zucca ripieni é uma comida que garante a apreciação pela apresentação e pelo sabor marcante. “É uma receita que todos querem provar. E quem come gosta”, afirma. A chef explica que a aceitação das flores como alimento tem crescido progressivamente. “Cada vez mais, as pessoas deixam de lado a ideia de que a flor é um ornamento e começam a se acostumar com o sabor peculiar de cada espécie. Apesar de serem usadas há algum tempo na gastronomia, para muitos, ainda se trata de novidade, por isso, o indicado é experimentar para depois tirar as conclusões”, finaliza. www.correiobraziliense.com.br Confira a receita do drinque Summer in Paris.