Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES POLÍTICAS LINGUÍSTICAS NA AMÉRICA PORTUGUESA: BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O DIRETÓRIO POMBALINO E SUA APLICAÇÃO NA BAHIA Pedro Daniel dos Santos Souza (UNEB) 1 [email protected] Amanda Kerolainy Braga Santos (UNEB) 2 [email protected] Camila Santos de Oliveira (UNEB)3 [email protected] Kélly Santos Muniz da Costa (UNEB)4 [email protected] RESUMO: A sócio-história linguística do Brasil passou por profundas transformações com a chegada dos portugueses, que transplantaram sua língua e cultura, promovendo um novo modo de vida para os povos indígenas da chamada América portuguesa, o que resultou, por seu turno, no extermínio de povos e línguas indígenas e, simultaneamente, as perdas de memórias, culturas e identidades. Tendo em vista essa reconfiguração, buscamos, no presente estudo, refletir sobre a política pombalina de imposição da língua portuguesa às populações indígenas brasileiras, sob o escamoteado discurso de integração desses povos à sociedade em formação no Brasil Colônia, e da qual não poderiam ser excluídos. Para tanto, fundamentamo-nos nas reflexões sobre a diversidade linguística, as políticas linguísticas e as populações indígenas brasileiras apresentadas por Almeida (1997), Almeida (2010), Mattos e Silva (1998, 2004), Oliveira (2002) e Freire (2004), entre outros autores que têm discutido a questão. Objetivando traçar caminhos para uma compreensão e/ou interpretação das histórias de inserção das populações indígenas brasileiras no mundo da cultura escrita e seus reflexos sobre os processos de letramentos em língua portuguesa, analisamos o Diretório Pombalino, ou dos Índios, e o Parecer do Conselho Ultramarino solicitado pelo Conde D. Marcos de Noronha, sobre a aplicação do supracitado Diretório nas aldeias do Estado da Bahia. Ratificamos, através da análise, que a política pombalina interrompeu qualquer chance de o Brasil vir a possuir uma base linguística majoritária indígena, tendo em vista que o português brasileiro passou a ser oficial, tornando-se majoritário, aparentemente, hegemônico, e criando o ideal de país “unilíngue”. PALAVRAS-CHAVE: Brasil Colônia; Sócio-História Linguística; Políticas linguísticas; Populações Indígenas. 1 Professor Assistente da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Departamento de Ciências Humanas e Tecnologias (DCHT), Campus XVIII - Eunápolis. Mestre em Letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Líder do Grupo de Pesquisa em Memória, Espaço e Linguagem (GpMEL). 2 Graduanda em Letras - Licenciatura Plena em Língua Portuguesa e Literaturas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Bolsista do Grupo de Pesquisa em Memória, Espaço e Linguagem (GpMEL). 3 Graduanda em Letras - Licenciatura Plena em Língua Portuguesa e Literaturas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Bolsista do Grupo de Pesquisa em Memória, Espaço e Linguagem (GpMEL). 4 Graduanda em Letras - Licenciatura Plena em Língua Portuguesa e Literaturas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Bolsista do Grupo de Pesquisa em Memória, Espaço e Linguagem (GpMEL). 249 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES ABSTRACT: The Brazilian Linguistic social-history has crossed by profound changes due to the arrival of Portuguese people, who transplanted their language and culture and promoted a new way life to the Indian people from Portuguese America. On the other hand, this resulted an eradication of indigenous people and languages, beyond memory, culture and identity loss. Owing to this reconfiguration, in this research we aim to think over the pombaline policy that imposed the Portuguese Language to the Brazilian indigenous people, under the palmed speech of integration of these peoples to the society that was been formed in colonial Brazil, once they could not be excluded. This search was based in the studies of Linguistic diversity, Linguistic politics and Brazilian indigenous peoples by Almeida (1997), Almeida (2010), Mattos and Silva (1998, 2004), Oliveira (2002) and Freire (2004), beyond other researches who have surveyed about the subject. As we aim to draw paths to comprehension and|or interpretation of insertion histories of the Brazilian indigenous peoples in the world of written culture and its consequences on the literacy processes in Portuguese language, we analysed the Marquis of Pombal’s Directorate, or Indigenous and the Overseas Council Report requested by the Conde D. Marcos from Noronha, about the enforcement of the Directorate in the villages of State of Bahia. We reaffirm in these analysis that the pombaline policy interrupted any chance of Brazil gets an indigenous linguistic basis, once Brazilian Portuguese Language became official language, majority, seemingly hegemonic and it created an ideal of “monolingual” country. KEYWORDS: Colonial Brazil; Linguistic social history; Linguistic politics; Indigenous peoples. 1 Introdução No decorrer do complexo processo histórico de formação da sociedade brasileira, cristalizou-se a ideia de que o Brasil é um país unilíngue. No entanto, antes mesmo que os portugueses chegassem aqui, já existia uma diversidade de línguas indígenas, que, de acordo com Rodrigues (2002 [1994]), representavam aproximadamente 1.200 línguas. Ainda segundo esse autor, na atualidade, são faladas cerca de 200 línguas no Brasil, que, em sua grande maioria, são autóctones. Sendo assim, o Brasil constitui-se em uma nação multilíngue, uma vez que a diversidade linguística existente em seu território é significativa e engloba também as influências e presença das línguas africanas e de imigração, e suas variantes aqui gestadas, fruto de histórias próprias de contato com português europeu transplantado. Desde o início do processo de colonização, foram impostas, em território brasileiro, práticas político-administrativas, iniciadas pelos jesuítas e apoiadas pela Coroa, que, consequentemente, tiraram dos povos indígenas sua cultura e sua língua, pois, para os colonizadores, aqueles não tinham fé, nem lei, nem rei, como nos informa 250 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES Pero de Magalhães Gandavo, um dos primeiros cronistas da colonização portuguesa na América (cf. VILLALTA, 2012); deveriam passar, portanto, a terem esses atributos para se tornarem civilizados, ocasionando, consequentemente, perdas linguísticas. Dentre as diversas estatísticas apresentadas, após 500 anos de dominação, ainda subsistem, no panorama contemporâneo, “cerca de 180 línguas [indígenas], das quais a grande maioria se encontra na região amazônica, para a população que se distribui em 41 famílias, dois troncos, uma dezena de línguas isoladas”, conforme estimativas apresentadas por Leite e Franchetto (2006, p. 18). Se já são difíceis e controversas as estimativas na atualidade, muito mais complexa se torna a questão se intentarmos delimitar o número de índios que habitavam o Brasil no momento da chegada dos portugueses. O certo é que podemos considerar que eram muitos ainda mais se comparados à reduzida população portuguesa no século XVI. Situação que nos possibilita assegurar que o quadro linguístico do Brasil se caracterizava por um multilinguismo generalizado, em que o predomínio de falantes de línguas indígenas era hegemônico, embora se comece chegar falantes de línguas africanas diversas. E quem eram esses falantes autóctones? Questão muito mais complexa, [...] se considerarmos a diversidade de grupos etno-linguísticos da América portuguesa cujo conhecimento nos chegou através das descrições limitadas e preconceituosas dos cronistas e missionários que, grosso modo, não compreendiam bem suas línguas e culturais. Em toda a América, havia inúmeros povos distintos que foram todos chamados índios pelos europeus que aqui chegaram (ALMEIDA, 2010, p. 31, grifo do autor). Diversos são os fatores de ordem sócio-histórica que contribuíram para que esse multilinguismo inicial se localizasse, abrindo espaço o português brasileiro, hoje língua majoritária no Brasil. Nesse sentido, diversas histórias precisam ser reconstruídas para que se possa compreender o processo sócio-histórico de formação do português brasileiro nascido do português europeu transplantado e do contato deste com as línguas 251 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES indígenas aqui já existentes, as africanas também para cá trazidas e, já em fins do século XIX, as línguas da imigração. Haja vista o complexo quadro sociolinguístico do Brasil, marcado atualmente pelo uso majoritário do português brasileiro e por um multilinguismo localizado, buscamos refletir sobre o processo de transplantação do português no Brasil e consequentes glotocídios ocorridos ao longo da história, a partir da análise do Diretório Pombalino, ou dos Índios, de 1757, documento através do qual o Marquês de Pombal intenta legislar sobre a vida das populações indígenas no período posterior à expulsão dos jesuítas, inicialmente direcionado ao Estado do Grão-Pará e Maranhão. Nesse ensejo, faremos também uma análise do “Parecer do Conselho Ultramarino da Bahia sobre os paragraphos do Directorio para regimen dos Indios das Aldeias das Capitanias do Pará e Maranhão, approvado por Alvará regio de 17 de agosto de 1758 e que podiam ser applicaveis aos Indios do Estado do Brazil”5, referente à implantação do Diretório Pombalino na Bahia, datado de 17 de maio de 1759, que atestem as questões suscitadas, sobretudo quanto às ordens de sua difusão e implantação no território brasileiro. Sob essa perspectiva, refletiremos, portanto, sobre a política linguística implementada pelo Marquês de Pombal na América portuguesa e, em específico, na Bahia. Visando contribuir para uma possível explicação das lacunas existentes no processo de reconstrução da história do português brasileiro (PB), sobretudo quanto aos processos de inserção das populações indígenas nas culturas do escrito e consequentes glotocídios de suas respectivas línguas, é que buscamos direcionar nossas reflexões, uma vez que consideramos que fatores sócio-históricos de natureza vária, como a demografia histórica do Brasil do século XVI ao XIX, a mobilidade populacional dos africanos e afrodescendentes no Brasil colonial e pós-colonial, a escolarização ou sua ausência do século XVI ao XIX, bem como as reconfigurações socioculturais, políticas 5 O acesso à documentação do Arquivo Histórico Ultramarino (AHU) foi viabilizado por meio da coleção de CD-ROM do Projeto Resgate de Documentação Histórica Barão do Rio Branco, disponibilizada no Laboratório de Ensino de História do Departamento de Ciências Humanas e Tecnologias (DCHT) do Campus XVIII da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). No caso específico da documentação mencionada, a mesma pode ser assim identificada: AHU, Bahia - Eduardo de Castro e Almeida (BahiaCA), Cx. 23, Docs. 4255-4261. 252 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES e linguísticas que ocorreram ao longo do século XIX, são condicionadores para a compreensão da língua que falamos. Diante dessas questões, consideramos ainda que “as histórias que se escrevem são sempre uma história, reconstruída e escrita a partir dos condicionamentos teóricos, metodológicos, empíricos e ideológicos dos seus autores”, como afirma Mattos e Silva (1998, p. 34, grifos da autora). A partir desse princípio, buscamos, no presente artigo, refletir sobre a política pombalina de imposição da língua portuguesa às populações indígenas brasileiras, sob o escamoteado discurso de integração desses povos à sociedade em formação e da qual não poderiam ser excluídos. Nessa direção, fundamentaremos nossa análise, inicialmente, nas discussões sobre línguas e políticas linguísticas no Brasil Colônia. 2 Línguas e políticas linguísticas no Brasil: reflexões ainda preliminares A diversidade linguística, nos últimos anos, tem sido abarcada no contexto das discussões sobre a diversidade em geral, visto que as línguas são partes intrínsecas de uma cultura e de uma sociedade. Nesse sentido, o desaparecimento de línguas ocasiona a perda dos sistemas de conhecimentos, isto é, das formas de expressão e das representações identitárias de um povo. Diante disso, é preciso considerar que “os processos de perda de língua” demandam a compreensão de fatores de ordem política e social; entretanto, os linguistas não têm controle sobre esses aspectos, pois apenas focalizam no estudo das línguas indígenas e na sua “preservação”, ou revitalização, buscando conferir-lhe um caráter científico, “enquanto objeto da linguística” (SEKI, 2000, p. 245). No campo de discussões sobre a “preservação” ou a revitalização de línguas indígenas, lidamos com um conceito contemporaneamente bastante difundido, ou seja, o conceito de política linguística. Segundo Freire (2004, p. 90), o termo política linguística tem sido utilizado no campo da sociolinguística “para designar um conjunto de medidas, explícitas ou implícitas, adotadas predominantemente pelo Estado, mas também por outros agentes sociais, para ordenar as línguas faladas em um determinado 253 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES território”. Oliveira (2005), por seu turno, destaca que, só no século XXI, que o termo política linguística começa a estar mais presente nos debates, sendo muito atrelado à educação formal. A intervenção humana na língua ou nas situações de uso linguístico sempre foi uma prática comum na medida em que “sempre houve indivíduos tentando legislar, ditar o uso correto ou intervir na forma da língua”, como pontua Calvet (2007, p. 11). Prática responsável por redefinir comportamentos linguísticos ao ponto, até mesmo, de levar à morte de línguas, como ocorrido ao longo do processo de colonização. Além dessa prática, o autor ainda destaca que [...] o poder político sempre privilegiou essa ou aquela língua, escolhendo governar o Estado numa língua ou mesmo impor à maioria a língua de uma minoria. No entanto, a política lingüística (determinação das grandes decisões referentes às relações entre as línguas e a sociedade) e o planejamento lingüístico (sua implementação) são conceitos recentes que englobam apenas em parte essas práticas antigas (CALVET, 2007, p. 11, grifos do autor). É justamente nesse aspecto da escolha de uma determinada língua, no caso a portuguesa, a da Coroa portuguesa, que se sustenta a política pombalina para as populações indígenas brasileiras, apoiada no discurso de integração dessas populações à sociedade brasileira em formação e, consequentemente, ao projeto colonizador português. Sob essa perspectiva, consideramos que o Diretório materializa-se como uma segunda instituição de política linguística no Brasil, sendo a primeira o trabalho de gramatização das línguas indígenas instituída pelos jesuítas, a exemplo da Arte de grammatica da lingoa mais usada na costa do Brasil, datada de 1595, do Padre José de Anchieta, que acabou por difundir o uso da chamada língua geral (ou línguas gerais) 6 no espaço brasileiro. 6 Destacamos aqui que o termo “línguas gerais” recobre uma infinidade de interpretações, não sendo nosso objetivo discutir o caráter polissêmico de seu uso. Para um aprofundamento da questão, indicamos a leitura de Rodrigues (2002 [1994]) que se encontra nas referências. 254 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES Com a chegada dos portugueses em meados do século XVI, os povos indígenas tornam-se aldeados e, na condição de súditos do Rei, passam assim a integrar e assumir diferentes papéis na nova sociedade que se formava. Nessa perspectiva, dar-se-á início, a uma nova política linguística, cultural e político-educacional na América portuguesa, haja vista que, com “a expulsão dos jesuítas em meados do século XVIII, instalou-se a primeira rede leiga oficial de ensino” (MATTOS E SILVA, 2004, p. 131). Considerando o testemunho da História, podemos afirmar que esse fato foi “catastrófico” para a escolarização do Brasil, uma vez que a língua portuguesa torna-se obrigatória, sendo abolido o uso de qualquer outra língua. Nessa direção, Lobo e Oliveira (2007, p. 439) salientam que, no período pombalino, “dito de remodelação iluminista”, o modelo de ensino seguido foi um dos fatores responsáveis para a concretização do português como língua predominante e, além disso, esse modelo de educação “ainda conduziu à homogeneização do português brasileiro”. Em outras palavras, além dos glotocídios testemunhados, como nos revelam as estatísticas sobre as línguas indígenas no Brasil atual, ainda assistimos ao processo de normativização e, consequente, homogeneização linguística que reforçaram o ideal de país unilíngue, como também podemos evidenciar na sociolinguística aqui praticada, ou seja, a sociolinguística das variáveis e variantes do português brasileiro, configurando-se, portanto, na sociolinguística do monolinguismo. Essas discussões são norteadoras para se pensar como ocorreram as políticas linguísticas no Brasil e, mais especificamente, o processo de “colonização linguística”, nos termos de Mariani (2004), na medida em que podemos considerar que refletir sobre [...] a trajetória histórico-lingüística constitutiva da institucionalização da língua portuguesa no Brasil é estabelecer uma relação com o projeto colonizador português de civilizar o Novo Mundo. Trata-se de um projeto de colonização lingüística constituído com base no catolicismo jesuítico e em consonância com um imaginário em torno da relação língua-nação vigente do século XVI ao XVIII (MARIANI, 2004, p. 21). 255 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES É sob o argumento da “civilidade” das populações indígenas, com vistas à sua integração à nova ordem colonial e à sociedade em formação, que, em 03 de maio de 1757, se criou, pelo Marquês de Pombal, a lei intitulada Directorio, que se deve observar nas povoaçoens dos índios do Pará, e Maranhaõ em quanto Sua Magestade naõ mandar o contrario, conhecido como Diretório Pombalino, ou dos Índios, e que se constituiu como a base para a implementação da política linguística de imposição da língua portuguesa no Brasil. Segundo Souza (2014), essa lei foi, inicialmente, elaborada para atender ao Estado do Pará e Maranhão, regiões que dependiam do trabalho indígena e encontrava-se dividida em diversas “missões religiosas”, que, por sua vez, impediam o domínio da Coroa portuguesa “sobre a organização econômica e os lucros da região, e em 1758, foi expandida a todo território brasileiro, sendo revogada em 1798” (SOUZA, 2014, p. 8). Tendo como principal objetivo uma completa integração dos povos indígenas à sociedade em formação, o Diretório “buscava civilizá-los” e, dessa forma, tirá-los da condição de “ignorância”, “rusticidade” e “barbárie” à qual estavam submetidos. Nesse sentido, entrevemos uma história linguística do Brasil que se reflete em sucessivas políticas linguísticas unificadoras e repressivas e marcam os glotocídios das línguas indígenas, como se evidenciam no seguinte trecho do Diretório: [...] Observando pois todas | as Naçoens polîdas do Mundo este prudente, e sólido systema, | nesta Conquista se praticou tanto pelo contrário, que só cuidá- | raõ os primeiros Conquistadores estabelecer nella o uso da | Lingua, que chamaráõ geral; invençaõ verdadeiramente abo- | minavel, e diabólica, para que privados os Indios de todos | aquelles meios, que os podiaõ civilizar, permanecessem | na rustica, e barbara sujeiçaõ, em que até agora se conservávaõ. (Directorio, cap. 6, p. 3-4, grifo nosso)7. Dessa forma, falar de uma política linguística a partir do Diretório significa considerar que os povos indígenas foram adquirindo a língua portuguesa não como algo 7 Aporte extraído da edição fac-símile de Almeida (1997), bem como as demais citações do Diretório aqui utilizadas. 256 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES de livre escolha, mas como uma imposição e, muitas vezes, como estratégia de resistência e negociações. A esse respeito, Freire (2004, p. 80) destaca que tal ação ocasionou no “extermínio de línguas minoritárias” que propiciaram a expansão da língua geral e ajudaram na “construção de uma espécie de ponte para que a língua portuguesa pudesse se tornar hegemônica”. Assim, analisando o texto do Diretório, observamos que é na obrigação do diretor que fica evidente o projeto de imposição da língua portuguesa, língua da cultura, da nação portuguesa, como podemos perceber no trecho: “[...] será hum dos prin- | cipáes cuidados dos Directores, estabelecer nas suas respecti- | vas Povoaçoens o uso da Lingua Portugueza, naõ consen- | tindo de modo algum, que os Meninos, e Meninas, que | pertencerem ás Escólas, e todos aquelles Indios, que forem | capazes de instrucçaõ nesta materia, usem da Lingua própria | das suas Naçoens, ou da chamada geral; mas unicamente da | Portugueza, na forma, que Sua Magestade tem recomenda- | do em repetidas ordens, que até agora se naõ observáraõ com | total ruina Espiritual, e Temporal do Estado” (Directorio, cap. 6, p. 3-4, grifo nosso). O Diretório torna-se, portanto, um divisor de águas no quadro linguístico brasileiro, visto que, com a “proibição” do uso da língua geral, essa é gradualmente abandonada por seus falantes e o português passa a ser considerado uma língua “hegemônica”. De acordo com Mattos e Silva (2004, p. 20), com esse fato histórico, “se define explicitamente para o Brasil uma política lingüística e cultural que fez mudar de rumo a trajetória que poderia ter levado o Brasil a ser uma nação de língua majoritária indígena”, ou melhor, de base linguística indígena, haja vista os usos e espaços ocupados pelas línguas gerais no contexto colonial. A política pombalina de imposição da língua portuguesa, ao contrário, gestou uma história marcada por perdas linguísticas que se refletem num processo de inserção das populações indígenas brasileiras no projeto colonizador português. As consequências estão intimamente relacionadas com o fato de que o expandir de uma língua de dominação, como a língua portuguesa, carrega o estigma da morte e da vida, 257 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES de glotocídios e de nascimentos linguísticos, com o predomínio daqueles e não destes, como pontuado por Mattos e Silva (2004). Ante o exposto, evidenciamos que a política pombalina interrompeu qualquer chance de o Brasil vir a possuir uma base linguística majoritária indígena, tendo em vista que a língua portuguesa passa a ser oficial em todo território brasileiro, tornandose, aparentemente, hegemônica e criando o ideal de país “unilíngue”, como pontuamos. É sob essa perspectiva que Oliveira (2002, p. 84, grifos do autor) afirma que a política linguística do Estado sempre procurou “reduzir o número de línguas, num processo de glotocídio (assassinato de línguas), através do deslocamento lingüístico, isto é, de sua substituição pela língua portuguesa”. Assim, a diminuição de línguas faladas no Brasil não foi um processo aleatório, mas motivado inicialmente pelo Estado português, a partir dessa política linguística de imposição da língua portuguesa às populações autóctones que passaram a ocupar a posição de índios aldeados. É importante ressaltar que políticas como essas não foram apenas direcionadas às populações indígenas brasileiras. Ainda segundo Oliveira (2002, p. 87), a política linguística dos Estados lusitano e brasileiro não só vitimou os índios, mas também os imigrantes e seus descendentes que para cá vieram, pois passaram por uma “violenta repressão lingüística e cultural”, depois de 1850. Mais tarde, já no Estado Novo (19371945), instaurado por Getúlio Vargas, essas “línguas alóctones”, através da nacionalização do ensino, passam por uma forte repressão, conhecida juridicamente como “crime idiomático”. Com isso, pretendeu-se “selar o destino das línguas de imigração no Brasil, especialmente o do alemão e do italiano na região colonial de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul” (OLIVEIRA, 2002, p. 87). Na contemporaneidade, o conceito de política linguística, para Oliveira (2005), tem sido vinculado à questão educacional no nível formal. Ao pensar essa ideia em conjunção com a escola, a Constituição Federal de 1988, nos artigos 210 e 231, por exemplo, garante aos índios o reconhecimento das suas línguas e culturas, através de um ensino escolar bilíngue. Em função disso, muitas propostas de revitalização têm sido 258 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES desenvolvidas numa tentativa de retomada de línguas, culturas e identidades de populações indígenas que estavam sendo perdidas e/ou destinadas à morte. Sobre a questão da revitalização tão amplamente discutida, é preciso considerar que, como afirma Leite e Franchetto (2006, p. 20), “[...] os grupos, enquanto conglomerado de pessoas etnicamente diferenciados da população majoritária local envolvente, podem aumentar, mas a língua pode se extinguir. Ou perder muitas das suas características básicas”. Nesse caso, vale destacar que o projeto de revitalização garantiria que as línguas maternas voltassem a ser usadas pelas futuras gerações, como resultado de um complexo e lento processo de retomada dos usos linguísticos em espaços não só escolares. Mas essa situação linguística tem raízes históricas profundas e pode ser entrevista na política pombalina de imposição da língua portuguesa aos índios, materializada no Diretório Pombalino, ou dos Índios, sobre a qual passaremos a refletir a partir de sua aplicação no Estado da Bahia. 3 Sobre a aplicação do diretório pombalino na Bahia Tendo em vista os estudos já realizados, tanto no âmbito da sociolinguística quanto da dialetologia, consideramos que a recuperação da história do português brasileiro passa pela “reconstrução” da história social linguística do Brasil, que se caracteriza por “uma sociolinguística histórica (ou sócio-história lingüística) e uma história lingüística, isto é, a história das mudanças lingüísticas que fizeram e fazem o português brasileiro apresentar as características que tem, o seu perfil próprio, a sua gramática” (MATTOS E SILVA, 1998, p. 39). Apoiando-se nisso, Mattos e Silva (1998) definirá quatro campos de pesquisas, oriundos e reformulados a partir das vias propostas por Houaiss (1985), que o pesquisador deverá ater-se no tocante às discussões sobre o PB, constituindo, assim, um projeto coletivo, de caráter nacional. Com vistas à implementação desse projeto, para a autora, devem ser considerados os seguintes campos de pesquisa autônomos, mas interligados: 259 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES a, campo que se moverá na reconstrução de uma história social lingüística do Brasil; b, campo que se moverá na reconstrução de uma sócio-história lingüística ou de uma sociolinguística histórica; c, campo que se moverá na reconstrução diacrônica no interior das estruturas da língua portuguesa em direção ao português brasileiro; d, campo que se moverá no âmbito comparativo entre o português europeu e o português brasileiro (MATTOS E SILVA, 1998, p. 40). Haja vista os campos apresentados, entendemos que o presente estudo se inscreve no campo de pesquisa a, uma vez que temos buscado discutir, a partir da documentação colonial, dados históricos sobre a implantação do Diretório Pombalino e a imposição do português às populações indígenas do Estado da Bahia, como língua hegemônica, ato a ser difundido para todo o país, conforme determinação régia. Para Almeida (1997, p. 19), “o Diretório exprime uma visão de mundo, propõe uma transformação social, é o instrumento legal que dirige a execução de um projeto de civilização dos índios articulado ao da colonização”. O Diretório é composto por 95 parágrafos, divididos por assuntos diversos. Sendo assim, do 1° parágrafo ao 16°, abordam-se questões relativas à organização social dos índios, inclusive quanto à educação indígena e “ensino” de língua portuguesa; do 17° parágrafo ao 73°, discutemse aspectos relacionados à economia; finalmente, no 74° parágrafo ao 95°, trata-se das medidas tomadas para a consecução do Diretório. Com intuito de traçar caminhos para uma compreensão e/ou interpretação das histórias de inserção das populações indígenas brasileiras no mundo da cultura escrita e seus reflexos sobre os processos de letramentos em língua portuguesa, analisamos os parágrafos 6º, 7º e 8º do Diretório e o Parecer do Conselho Ultramarino solicitado pelo Conde D. Marcos de Noronha, sobre a sua aplicação nas aldeias da Bahia8. Assim, tencionamos possibilitar uma reflexão sobre as orientações para implementação da política pombalina. A partir da análise do citado Parecer, observamos que os índios da Bahia foram sempre vistos como inferiores aos dos Estados do Pará e Maranhão, como afirma o próprio Conde D. Marcos de Noronha em carta ao Thomé Joaquim da Costa Corte Real, 8 AHU, Bahia-CA, cx. 23, docs. 4255-4261. 260 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES salientando a necessidade de pronunciamento do Conselho Ultramarino quanto aos aspectos que poderiam ser aplicáveis ou não às Aldeas do Brazil, por que os Indios, do | que os povôao, estão, eestiveraõ sempre em muito inferior Estado o | dos do Parà, e Maranhaõ, naõ se me offerece que dizer a Vossa Exelência, a | outra couzaàrespeito, senão que ficaõ à passar-se as Ordens necessa- | rias, para que em tudo aquilo, que se julgou applicavel omesmo Directorio | o haja deser sem perda detempo nasPovoaçoés dos Indios desteEstàdo | o que Vossa Excelência faràprezente à Magestade (AHU, Bahia-CA, cx. 23, doc. 4255, fl. 0396, grifo nosso)9. Evidenciamos que, na percepção dos colonizadores, os índios da Bahia eram inferiores aos dos Estados do Pará e Maranhão, principalmente na organização social, uma vez que ainda não haviam sido “salvos da rusticidade” em que viviam e sempre viveram. Era, por assim dizer, uma população a ser “lapidada”, conforme os interesses da Coroa portuguesa. No entanto, a aplicação do Diretório não poderia ser implementada de maneira uniforme em todo território brasileiro, como havia sido determinado, na medida em que os parágrafos aplicáveis aos índios das aldeias da Bahia tiveram que passar por uma flexibilidade, para que pudessem atender ao contexto dessa população, como podemos observar no trecho do Parecer anteriormente citado. No parágrafo 6º do Diretório, o Marquês de Pombal apresenta sua intenção de “civilizar” os índios pela língua, visto que essa prática sempre foi utilizada pelas nações na conquista de novos domínios, que, ao “introduzir” (ou impor) seus idiomas, consequentemente, instauram a dominação sobre os povos vistos como “aculturados”, sendo que sempre foi a 9 As informações apresentadas após os trechos extraídos da documentação se referem ao fundo documental (AHU, Bahia-CA), caixa onde se localiza, número do documento e folha. Utilizaremos a mesma forma de identificação para os fragmentos da documentação aqui citada. Para uma melhor compreensão do texto (Parecer) realizamos uma edição semidiplomática utilizando das normas de transcrição do Projeto Para a História do Português Brasileiro (PHPB). Assim, o texto encontra-se transcrito como no original. A especificação “|” corresponde à delimitação do final de linha no documento, e as abreviaturas aqui transcritas encontram-se desenvolvidas em itálico. 261 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES [...] maxima inalteravelmente praticada em | todas as Naçoens, que conquistáraõ novos Dominios, intro- | duzir logo nos Póvos conquistados o seu proprio idiôma, por | ser indisputavel, que este he hum dos meios mais efficazes para | desterrar dos Póvos rusticos a barbaridade dos seus antigos | costumes; e ter mostrado a experiencia, que ao mesmo passo, | que se introduz nelles o uso da Lingua do Principe, que os | conquistou, se lhes radîca tambem o affecto, a veneraçaõ, e | a obediencia ao mesmo Principe. (Directorio, cap. 6, p. 3, grifo nosso) Assim, ao correlacionar esse parágrafo do Diretório com informações apresentadas no Parecer do Conselho Ultramarino, observamos uma preocupação com a aplicabilidade dessas ordens nas aldeias da Bahia, como atestamos no fragmento, sempre retirado: “Parece ao Conselho mandar entre- | gar aoS Escrivaens das Camaras ReSpetivas | a Copia deste paragrafo, para que eles promo- | vaõ asua observancia nos lugares das suas | Rezidencias” (AHU, Bahia-CA, cx. 23, doc. 4255, fl. 0402). Outra questão observada diz respeito à cristianização, que, segundo Almeida (1997, p.172), servia como um instrumento para “civilizar” os índios, sendo que esse ideal encontra-se disseminado no que o Diretório compreendia como uma tarefa de instrução dos índios sobre os “meios de civilidade”, incluindo a adoção da língua portuguesa. Na visão de Freire (2004, p.137-138), a civilização das populações indígenas ocorria por meio das línguas, uma vez que estas despertam, “[...] em seus falantes e nas pessoas que entram em contato com elas, comportamentos, sentimentos e atitudes de identificação ou de estranhamento, funcionando como fatores de identidade étnica e de coesão social”. Com vistas a possibilitar meios de “civilizar” os índios, nos parágrafos 7° e 8° do Diretório, propõem-se criações de escolas públicas para meninos e meninas, filhos de índios, nas quais aprenderiam a ler, escrever e assimilar a doutrina cristã como continuidade das matérias da educação elementar. Vale salientar que os mestres e mestras teriam que ser dotados de “bons costumes, prudência e capacidade”, para que assim pudessem desempenhar bem as suas obrigações. Os meninos e meninas eram educados separadamente; só na falta de mestras, as meninas, até os dez anos, poderiam ser ensinadas juntamente com os meninos, o que possibilitaria adquirir “com maior 262 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES facilidade o uso da língua portuguesa”. Essas informações podem ser observadas nos fragmentos que se seguem: 7 Haverá em todas as Povoaçoës | duas Escólas pûblicas, huma para os Meninos, na qual se lhes | ensine a Doutrina Christãa, a ler, escrever, e contar na for- | ma, que se pratica em todas as Escólas das Naçoens civiliza- | das; e outra para as Meninas, na qual, álem de serem instrui- | das na Doutrina Christãa, se lhes ensinará a ler, escrever, fi- | ar, fazer renda, cultura, e todos os mais ministérios pro- | prios daquelle sexo. 8 Para subsistencia das sobreditas Escólas, e de hum | Mestre, e huma Mestra, que devem ser Pessoas dotadas de | bons costumes, prudência, e capacidade, de sorte, que possaõ | desempenhar as importantes obrigaçoens de seus empregos; [...] No caso porém de naõ haver nas | Povoaçoens Pessoa alguma, que possa ser Mestra de Meninas, | poderáõ estas até á idade de dez annos serem instruidas na Escóla dos Meninos, onde aprederáõ a Doutrina Christãa, a | ler, e escrever, para que juntamente com as infalíveis verda- | des da nossa Sagrada Religiaõ adquiraõ com maior facilida- | de o uso da Lingua Portugueza. (Directorio, cap. 7-8, p. 4, grifo nosso). Considerando o Parecer apresentado pelo Conselho Ultramarino, esse tipo de ensino já se encontrava em vigor na Bahia e satisfazia aos objetivos da Coroa portuguesa, uma vez que, através dessa prática, os meninos se tornavam escrivães, servindo, portanto, aos intuitos dos colonizadores, como podemos depreender do fragmento abaixo, retirado da documentação analisada: Parece | ao Conselho que alem do que neles seacha | disposto, se ordene aoS Escrivaens da Cama- | ra que continuem no ensino dos meninos | na forma da sua obrigasam, edas meninas | da Vila ate aidade de des anos, naõ levan- | do estipendio algum de seos pais, ou de outra | pesoa algu’a, visto serem satisfeitos pela Fa- | zendaReal, eque quando pelo tempo adi- | ante suceder serem oS Escrivaens Indios, | nesse | nese cazo, lhes pagaraõ seos pais, ou as pe- | soaS interesadas no ensino. (AHU, Bahia-CA, cx. 23, doc. 4255, fl. 04020403). 263 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES Nesse aspecto, o Parecer quanto à aplicação do Diretório no Estado da Bahia vai além da determinação régia inicial, uma vez que entrevemos a orientação de formação dos meninos para ocuparem o cargo de escrivães, como exposto na documentação: “Parece | ao Conselho que além do que neles seacha | disposto [...]” (AHU, Bahia-CA, cx. 23, doc. 4255, fl. 0402). E assim se ratifica a prática dos escrivães já existente. De acordo com Almeida (1997, p. 173), a imposição da língua portuguesa constituiu como “uma luta contra o uso da ‘língua geral’, empregada pelos jesuítas no trato com os índios”, o que a seu ver representou uma “afirmação política” sobre os conquistados. A autora ainda questiona se a “introdução da língua portuguesa não teria sido sobretudo uma disputa pela hegemonia [...] entre grupos de uma mesma cultura e civilização”, antes de ser firmada e apresentada como um projeto de nação. Conforme Freire (2004, p. 124-125), o fortalecimento da língua portuguesa se deu com a chegada dos colonos, com casamentos mistos e com a educação escolar. O autor afirma que cada “[...] aldeia devia abrigar duas escolas, uma para o sexo masculino e outra para o feminino. As meninas aprenderiam a fiar, costurar, fazer renda”, o que representa uma materialização dos aspectos apresentados nos 7º e 8º parágrafos do Diretório anteriormente citados. Diante disso, as propagações das escolas e da catequização fizeram com que a língua do colonizador se tornasse mais forte e “supra-étnica”, nos termos de Freire (2004, p. 58), expandindo-se por todo território brasileiro, o que anulava qualquer chance da Espanha dominar as regiões de falantes do português. E aqui se revela um aspecto que pode ser entrevisto no projeto pombalino de civilização dos índios: os domínios territoriais da Coroa portuguesa, uma vez que, onde há súditos, falantes do português, há império português e não espanhol. Vale ressaltar que, nesse período, Portugal e Espanha buscam cada vez mais ampliar seus domínios territoriais. A política de aldeamento foi essencial para a formação do projeto colonizador, sendo que os índios aldeados compunham tropas militares, ocupavam espaços conquistados e “contribuíam” como mão de obra na construção das sociedades coloniais, como nos informa Almeida (2010). Contudo, os índios, motivados por novos 264 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES interesses, aproveitaram-se de alguns ensinamentos, que podiam ser úteis “na nova situação colonial”, na medida em que as aldeias serviam como espaços de sobrevivência dos índios aldeados na Colônia, onde se tornou possível a reconstrução de suas culturas, memórias e identidades. Esse processo caminhou em conjunto com o intenso processo de mestiçagem e, após a reforma pombalina, os aldeados passam a ser classificados ora como índios ora como mestiços. Considerando essa perspectiva, aprender a ler e escrever o português, para os índios, constituía-se de um “instrumento eficaz para alguns deles, sobretudo lideranças, reivindicarem suas mercês ao Rei em moldes bem portugueses” (ALMEIDA, 2010, p. 91). Sendo assim, as populações indígenas brasileiras passam a utilizar das práticas culturais e políticas lusitanas, como forma de resistência e/ou sobrevivência, “integrando-se” à sociedade colonial em formação e, consequentemente, inserindo-se nas práticas de cultura escrita em língua portuguesa, o que contribuiu para a implementação da política linguística pombalina e os glotocídios testemunhados pelo devir da história. Evidência desse processo de negociações e resistências pode ser depreendida dos cargos que os índios aldeados passam a ocupar na nova ordem colonial. Inevitavelmente, assumir a função de escrivão, como destacado no Parecer do Conselho Ultramarino dos parágrafos do Diretório aplicáveis à Bahia, exige daqueles que o desempenham um domínio diferenciado das capacidades de ler e escrever em língua portuguesa. Nesse sentido, as populações indígenas, sobretudo aqueles que buscavam reivindicar suas mercês ao Rei, passaram a inserir-se nos contextos de uma cultura escrita que contribuiu para perdas linguísticas irreparáveis, consequência de um dos fatores principais dessa condenação à morte, qual seja, [...] a pressão das línguas nacionais, dominantes, em situações de um poder superior socioeconômico, de assimilação, através de meios e canais, como escolarização, [...] e a sedimentação de atitudes valorativas positivas, para a língua do colonizador, e negativas, para a língua dos colonizados (LEITE; FRANCHETTO, 2006, p. 20, grifo nosso). 265 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES É no contexto da escolarização, nas escolas para meninos e meninas onde “[...] aprederaõ a | Doutrina Christan, a ler, e escrever, para | que juntamente com as infaliveis verdades da | nossa Sagrada Religiaõ adquiraõ com maior | facilidade o uzo dalingua Portugueza [...]” (AHU, Bahia-CA, cx. 23, doc. 4255, fl. 0425), que se instala o início do processo de perdas linguísticas, na medida em que se consolida a ruptura geracional e a obrigatoriedade de uso da língua portuguesa. O Parecer do Conselho Ultramarino sobre os parágrafos do Diretório aplicáveis aos índios da Bahia, embora reconheça a distinção entre estes e os índios do Estado do Grão-Pará e Maranhão, ratifica, em diversos momentos, a necessidade de “civilizar” as populações indígenas a partir da imposição da língua do Príncipe, através da escolarização de meninos e meninas, expressando ser uma das funções do diretor dos índios, [...} estabele- | cer naS suas Respetivas povoasoens o uzo da | Lingua Portugueza, naõ consentindo por | modo algum, que os meninoS, e meninas, que | pertencesem aS escolas, etodos aqueles Indios, | que fosem capazeS de instrusam nesta mate- | ria, uzasem da lingua propria das suas na- | soenS, ou da cHamada geral; maS unicamen- | te da Portugueza naforma que V. Mg.e | tem Recomendado em Repetidas ordens [...] (AHU, Bahia-CA, cx. 23, doc. 4255, fl. 0424). A referência, reiteradas vezes, ao 6º parágrafo do Diretório, como ocorre no Parecer analisado, deixa entrever a importância, para a Coroa portuguesa, de tornar a língua portuguesa hegemônica no território brasileiro, no caso aqui discutido, o Estado da Bahia. As consequências desse processo histórico que marcou a formação da nova ordem colonial refletem as perdas e extermínios evidenciados quando se intenta estabelecer os números, fruto de meras deduções, mas que deixam transparecer o impacto violento da conquista e da colonização das populações indígenas brasileiras sob o escamoteado discurso da integração. 4 A título de conclusão 266 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES Sem dúvida, a história social e linguística do Brasil modificou-se, radicalmente, com a chegada dos portugueses, que transplantaram sua língua e cultura e promoveram, portanto, um novo modo de vida para os índios da América portuguesa. Como resultado dessa mudança, podemos atestar o extermínio de povos e línguas indígenas e, simultaneamente, as perdas de suas memórias, culturas e identidades. Em função dessas questões, consideramos que o tecido histórico pode contribuir para uma reconstrução da história de constituição do português brasileiro, fornecendo dados que podem lançar luz à própria história interna e externa das línguas e abrir caminhos para a compreensão de como e quando a língua portuguesa tornou-se hegemônica, não perdendo de vista que muitas histórias precisam ser reescritas. O Diretório Pombalino tencionava internalizar, nas populações indígenas, novas instituições, hábitos e crenças para formar uma nova base de caráter nacional e identitário, proveniente dos colonizadores. Ademais, é nos encontros e/ou desencontros que o português brasileiro passa a diferenciar-se do português europeu devido às influências das línguas indígenas que eram aqui faladas, das línguas de origem africana para cá transplantadas e, posteriormente, das línguas de imigração. É nesse entrecruzarse das variantes indígenas, africanas e de imigração, menos ou mais aportuguesadas, que se instauram e emergem traços específicos do PB, a língua que falamos. Embora não nos tenhamos ocupado, no presente artigo, desses traços diferenciadores, entendemos que a história social e linguística do Brasil, e consequente emergência do chamado português brasileiro como língua majoritária, passa pela escrita da história (ou histórias) do contato linguístico. Nesse sentido, as reflexões sobre a política linguística de imposição do português às populações indígenas, a entrada de povos de tradições orais em uma cultura escrita, a morte de línguas e adoção do português como língua hegemônica são aspectos sócio-históricos fundamentais para uma melhor compreensão da realidade linguística da atualidade. Em nosso exercício de reflexão, apresentamos alguns indícios desse complexo processo de penetração das populações indígenas brasileiras no mundo da cultura escrita, resultado da política linguística pombalina materializada no Diretório, bem 267 Web-Revista SOCIODIALETO • www.sociodialeto.com.br Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande ISSN: 2178-1486 • Volume 5 • Número 15 • Maio 2015 Edição Especial • Homenageado ARYON DALL'IGNA RODRIGUES como a sua aplicação no Estado da Bahia, como transparece no Parecer do Conselho Ultramarino solicitado pelo Conde D. Marcos de Noronha. Por fim, é importante salientar a escassez de documentos e pesquisas relativas a essa questão fundamental para a compreensão dos processos sócio-históricos que possibilitaram tornar o português uma língua majoritária no Brasil. Mesmo cientes dessa fragmentariedade da documentação, intentamos apresentar alguns indícios com vistas a contribuir na direção de uma reconstrução de uma sócio-história linguística do Brasil e, principalmente, da Bahia, tendo em vista a memória coletiva preservada nos arquivos, cuja função é, segundo Cook (1998, p. 23), “ajudar a sociedade a se lembrar do seu passado, de suas raízes, de sua história”. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Maria Celestino de. Os índios na história do Brasil. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010. ALMEIDA, Rita Heloísa. O Diretório dos índios: um projeto de “civilização” no Brasil do século XVIII. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1997. (Com facsímile do Diretório dos Índios em apêndice). BRASIL. 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