I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e
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Ruptura às ideias hegemônicas da sociedade patriarcal em “Isabel o La Torre de Babel” e
“Rebeca”, de Berta Lucía Estrada E.
BOMBONATO, Giancarla (PG – Unioeste)
RESUMO: O reconhecimento da literatura de autoria feminina, a partir da consciência
feminista, que revolucionou a cultura através da história, hoje incorpora diferentes visões de
alteridade, pois, como afirma Rosas (1994), "as autoras latino-americanas, libertadas do
ostracismo dos séculos passados, introduzem suas vozes em todos os registros da vida
intelectual. Suas obras abordam com êxito os mais diversos gêneros, que elas enriquecem com
múltiplas perspectivas". Com base nessa afirmação, o objetivo deste artigo é compreender,
com base em Elaine Showalter (1982), a qual afirma que de 1920 até o presente, há um novo
estágio de autoconsciência dessa literatura, como os contos “Isabel o La Torre de Babel” e
“Rebeca”, de Berta Lucía Estrada E., mostram características desse novo estágio, isso porque,
dentre os principais temas de literatura de autoria feminina, essas narrativas discutem a
temática do subjetivismo, retratando a autobiografia, as memórias e as confissões. Dentre as
considerações finais, foi identificado que a prosa de Berta tenta apresentar uma mulher
ousada, independente, não vitimada pela sociedade patriarcal. Além disso, constitui uma
tentativa de criar uma nova expressão da mulher enquanto grupo não passivo, e como uma
alteridade na sociedade pós-moderna. Ademais, essa nova linguagem empresta, efetivamente,
um papel ativo à mulher na ficção.
PALAVRAS CHAVE: memórias, confissões, Isabel, Rebeca.
RESUMEN: El reconocimiento de la literatura de autoría femenina, desde la conciencia
feminista, la cual revolucionó la cultura a través de la historia, hoy incorpora distintas ideas de
alteridad, pues, como afirma Rosas (1994), “las autoras latinoamericanas, libertas del
ostracismo de los siglos pasados, introducen sus voces en todos los registros de la vida
intelectual. Sus obras abordan con éxito los más diversos géneros, que ellas los enriquecen
con innúmeras perspectivas”. Basado en esa afirmación, el objeto de este artículo es
comprender, con base en Elaine Showalter (1982), la cual afirma que de 1920 hasta el
presente, hay un nuevo momento de autoconciencia de esa literatur, como los cuentos “Isabel
o La Torre de Babel” e “Rebeca”, de Berta Lucía Estrada E., enseñan características de ese
nuevo momento, eso porque, entre los principales temas de la literatura de autoría femenina,
esas narrativas discuten la temática del subjetivismo, retratando la autobiografía, as memorias
y las confesiones. Con las consideraciones finales, fue identificado que la prosa de Berta
intenta presentar una mujer atrevida, independiente, que no es víctima de la sociedad
patriarcal. Además, constituye una intención de crear una nueva expresión de la mujer como
un grupo no pasivo, e como una alteridad en la sociedad postmoderna. Sobre todo, ese nuevo
lenguaje presta, efectivamente, un papel activo a la mujer en la ficción.
PALABRAS-CLAVE: memorias, confesiones, Isabel, Rebeca.
Ainda não se alcançou o reconhecimento da literatura de autoria feminina, a partir da
consciência feminista, que revolucionou a cultura através da história, e a literatura, hoje, não
só atinge o novo público produtor e leitor feminino, como também incorpora outras visões de
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alteridade. De acordo com Lobo (1993), essa nova visão inclui o continente africano, asiático
e da América Latina, que poucas vezes obtiveram voz nas histórias literárias canônicas do
passado.
Se, por um lado, "o período de industrialização integrou a mulher em todas as esferas
do mundo do trabalho, e particularmente no mundo operário", como afirma Rosas (1994), por
outro, são muito poucas as vozes femininas que conseguem superar a luta pela sobrevivência
e escrever ou apreciar a literatura, pesando aí o influxo da mídia que tem desviado as
populações de um exercício mais crítico sobre a sociedade - função que a literatura exerce de
forma primordial. Portanto, para Rosas (1994), apenas num sentido genérico é verdade que
hoje as autoras latino-americanas, libertadas do ostracismo dos séculos passados, introduzem
suas vozes em todos os registros da vida intelectual. Suas obras abordam com êxito os mais
diversos gêneros, que elas enriquecem com múltiplas perspectivas.
Por esse contexto, há um interesse da crítica pela narrativa de autoria feminina, e
para entender esse interesse, é importante compreender o contexto histórico de produção
feminina. Em meados do século XVIII, a mulher começou a fazer parte da cena literária e
esse fato provocou, entre outras consequências de ordem sócio-econômica, política e cultural,
uma mudança radical na relação entre sexo e novas formas de produção literária.
Desde fins do século XIX e principalmente no século XX, a principal transformação
por que passou a literatura de autoria feminina é a conscientização da escritora quanto a sua
liberdade e autonomia e a possibilidade de trabalhar e criar sua independência financeira através, basicamente, do trabalho jornalístico, diplomático (na América Hispânica,
principalmente na Argentina e México) e o professorado. Ocorreu assim uma paulatina
mudança da condição "feminina" para a condição "feminista". Desde a década de 1970, a
consciência do corpo e o questionamento da existência, com a maciça entrada das escritoras
na Universidade, pelo menos desde a década de 1950, tornaram suas vozes mais intensas. As
escritoras passaram a expressar suas realidades psicológicas, interiorizadas, filosóficas,
introvertidas e superaram o estágio em que repetiam o estilo dos homens, no século XIX. Para
Elaine Showalter (1982), houve três fases neste tipo de literatura: 1) feminina: aparecimento
da produção na década de 1840 até a morte de George Eliot, em 1880; 2) feminista: de 1880 a
1920, com obtenção do voto; 3) "fêmea" (de cunho sexual assumido ou de gênero feminino):
de 1920 até o presente, mas com novo estágio de autoconsciência por volta de 1960.
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De acordo com Lobo (1993), dentre os principais temas da literatura de autoria
feminina, temos o subjetivismo, a autobiografia, as memórias, as confissões, o
sentimentalismo místico, o erotismo, a política, o indianismo, o abolicionismo, o
regionalismo, a novela urbana, além da revolução da linguagem poética.
Para Gutiérrez (2004), ler os textos escritos pelas mulheres, interpretando seus
silêncios, e aquilo que criticam e interrogam da cultura tradicional, é um meio de substituir o
discurso falocêntrico e apropriar-se de uma identidade que lhes tem sido negada. Assim, a
escritura converte-se num espaço de reconhecimento de si mesmas e de redefinição, mediante
as diferentes formas de representação que assume a pluralidade das vozes literárias femininas,
“ausentes” de um cânone quase exclusivamente masculino e predominantemente do primeiro
mundo, europeu e da classe dominante.
Historicamente, na década dos 80, a literatura escrita por mulheres figura nas
antologias literárias da América Latina, e se publica uma profusão de livros com trabalhos
críticos sobre sua escritura com diversos enfoques. A incorporação de assuntos até então
considerados masculinos e o distanciamento de uma temática romântica e testemunhal abrem
caminho a novas formas de expressão.
Já nos anos noventa, foram produzidas mudanças transcendentais na América Latina,
uma nova configuração dos espaços sociais e culturais, a consolidação de organizações
feministas e de organizações populares de mulheres, assim como a inclusão crescente da
mulher no mercado do trabalho, o que originou mudanças na família e um novo imaginário
coletivo. A defesa do sem posse e excluído continuou ocupando parte importante da produção
literária das mulheres, mas sob a perspectiva da mudança.
Rosana Ribeiro Patrício (2006) nos diz que nos textos de autoria feminina comparece
quase sempre uma voz, muitas vezes em primeira pessoa, apresentando mulheres diante de si
e do mundo, revisitando o passado, reestruturando seu presente, projetando para o devir um
novo sentido para sua vivências e experiências. Diante dessa considerável produção, surge, ao
lado dos diversos enfoques e estudos da questão da mulher, um crescente interesse da critica
literária em torno da narrativa de autoria feminina. Nesse particular, os estudos literários se
voltam para questões referentes à especificidade desse discurso, destacando a perspectiva
narrativa e as formas de representação da mulher no texto ficcional. A expansão da narrativa
feminina atesta-se pelo número de títulos publicados e de reedições, pelo reconhecimento,
pelo reconhecimento público das escritoras que produzem nessa linha e pelo surgimento de
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grupos de pesquisadores interessados em discutir e estudar os textos em diferentes direções e
abordagens, sobretudo no meio universitário. Esses novos estudos buscam o distanciamento
em relação à crítica ingênua do passado, que na maioria das vezes utilizava critérios
diferenciados de apreciação entre o texto feminino e o masculino.
A alteridade do eu em relação a si mesmo é o ponto de partida da literatura
contemporânea, mas se torna mais aguda quando a literatura, pelo menos desde 1970, como
afirmam Coutinho e Carvalhal (1994), percebe que se comporta de modo logocêntrico e
etnocêntrico, não só a respeito de outros povos e raças, mas também com respeito ao outro
sexo e às minorias sexuais. O cânone é demarcado pelo homem branco, de classe média,
ocidental. A mulher insere-se nesta cena a partir de uma ruptura e o anúncio de uma alteridade
ou diferença para com esta visão "falocêntrica".
Essa alteridade da literatura de autoria feminina tornou-se assim, segundo Navarro
(1995), a base da abordagem feminista na literatura. Ser o outro, o excluso, o estranho, é
próprio da mulher que quer penetrar no "sério" mundo acadêmico ou literário. Não se pode
ignorar que, por motivos mitológicos, antropológicos, sociológicos e históricos a mulher foi
excluída do mundo da escrita - só podendo introduzir seu nome na história européia por assim
dizer através de arestas e frestas que conseguiu abrir através de seu aprendizado de ler e
escrever em conventos.
AS RUPTURAS
A escritora Berta Lucía Estrada E. realizou estudos de literatura na Pontifícia
Universidade Javeriana, mestrado e doutorado no Institut des Hautes Etudes de l´Amérique
Latine, Sobonne III (Paris-França) e uma Especialização em Docência Universitária na
Universidade de Caldas. Desempenhou atividades como docente universitária. Durante 10
anos trabalhou como funcionária na Unidade de Cultura da prefeitura de Manizales,
capacitando as bibliotecárias e docentes no processo de formação de leitor. Publicou vários
Livros. Ganhou vários prêmios.
Toda a discussão a respeito do reconhecimento da escrita feminina está presente em
muitas de suas obras, como nos contos “Rebeca”, publicado no livro “Voces del Silencio”
(2008) e “Isabel o La Torre de Babel”, publicado em “Féminas o el Dulce Aroma de las
Feromonas” (2008). Nos dois contos (de estrutura semelhante, mas também diferente), os
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narradores, a partir de suas memórias, caracterizam as protagonistas através da visão que eles
têm delas.
Em “Rebeca”, a personagem principal (que leva o mesmo nome) está morta e isso é
evidenciado já nas primeiras frases do texto: “Olá, Pablo, te ligo para dizer-te que o corpo de
Rebeca apareceu em uma das ribeiras do Rio Negro.” (ESTRADA E., 2008) Desde então,
Pablo (ex-companheiro de Rebeca) começa a recordar-se de sua ex-mulher e passa a
caracterizá-la, construindo-a a partir de suas impressões sobre ela. O diferencial deste conto é
que Rebeca tem voz e desconstrói a visão construída sobre ela num relato/desabafo póstumo,
pois ela está dentro do caixão quando dá a sua versão para os fatos: “Me meteram nesta caixa,
de onde é impossível mover-se; com se não soubessem que detesto estar imóvel. [...] Me
puseram perto do altar.” (ESTRADA E., 2008)
Já em “Isabel o La Torre de Babel”, a narradora (que era uma amiga de Isabel)
começa o conto falando de como a protagonista era bonita, e passa a contar vários fatos e
situações que ocorreram com a amiga, de tal maneira que o leitor consegue perceber que
Isabel não era uma mulher comum, convencionada pelos padrões sociais, pois estava muito à
frente de seu tempo em vários aspectos. Tanto que a narradora afirma que “De Isabel aprendi
que uma pessoa não é cidadã de um país, nem de um continente, nem do terceiro mundo, mas
cidadã do mundo, como ela se chamava a si mesma.” (ESTRADA E., 2008)
Nesses contos, Berta discute algumas temáticas importantes e que caracterizam a
escrita feminina, como as recordações e as memórias. Sobre esse assunto, é importante serem
feitas algumas considerações.
Para Ecléa Bosi (2007), “uma memória coletiva se desenvolve a partir de laços de
convivência familiares, escolares, profissionais. Ele entretém a memória de seus membros,
que acrescenta, unifica, diferencia, corrige e passa a limpo.” Dessa maneira, para rememorar
os traços de um amigo desaparecido ou que não se vê há muito tempo, uma pessoa busca
vestígios de situações que guardou desse amigo e das lembranças dos outros que o
conheceram. É possível perceber isso, nos trecho do conto de Berta:
De todas nós a mais formosa era Isabel. Quando a vi pela primeira vez, tive a
sensa~]ao de déjavu. Passado o tempo, me dei conta eu ela parecia saída de
um quadro de Boticelli. [...] Seu verdadeiro nome era Isabella. Ainda que
para nós era Isabel ou A Torre de Babel. Havia nascido na Itália, de mãe
alemã e pai colombiano. (ESTRADA E., 2008)
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De acordo com as percepções de Bosi (2007), é a pessoa que recorda, mesmo que
haja uma memória coletiva. É ele quem memoriza e consegue lembrar-se de fatos e situações
que são somente para ele significativas. Berta exemplifica essa afirmação num trecho em que
Pablo fala de Rebeca:
A conheci na casa de uns amigos, uma dessas rumbas um pouco
desordenadas, onde havia de tudo um pouco. Quase todos meus amigos
estavam em casais. Ela e eu havíamos chegados sós. [...] Tomou a palavra,
falava de política [...] Os outros cansados de estar por fora de uma conversa
que saltava de um tema a outro continuamente e que nem sempre podiam
seguir, se dedicaram a dançar ou amar-se sem se importar muito que todos
estivéssemos no mesmo lugar. (ESTRADA E., 2008)
Para Halbwachs, segundo o que afirma Bosi (2007), “cada memória individual é um
ponto de vista sobre a memória coletiva. Nossos deslocamentos alteram esse ponto de vista:
pertencer a novos grupos nos faz evocar lembranças significativas que este presente e sob a
luz explicativa que convém à ação atual.” Assim, o momento em que a narradora fala de
Isabel, mostra o que ela pensa, mas que é comum ao que os outros também pensavam:
Quando criticava, fazia com argumentos adequados, tanto que ninguém
discutia com ela. Ao contrário, sabíamos que quando era a favor ou contra
algo, era porque haveria que refletir sobre suas palavras. Sua cultura era
imensa. Se a conversa era sobre arte, podia dar críticas sobre as pinturas
rupestres [...]. (ESTRADA E., 2008)
Há, para Bosi (2007), outros fatores que interferem na memória, como o lugar que
alguém ocupa na consideração de seu grupo de convivência diária, onde há desigualdade de
pontos de vista, uma repartição desigual de apreço, assim, “o membro amado por todos terá
suas palavras e gestos anotados e verá com surpresa, anos depois, seus menores atos
lembrados e discutidos.” (BOSI, 2007). Muitas palavras, atitudes e gestos são guardados
minuciosamente.
Olá, Pablo. Te ligo para dizer-lhe que o corpo de Rebeca apareceu em uma
das ribeiras do Rio Negro. [...] Sei o quanto foi importante para você. [...]
Ela era o começo e o fim. A criação e a destruição. A harmonia e o caos. [...]
Um enigma permanente. Na noite, depois de deixar a oficina e chegar na sua
casa, podia encontrar a mesa posta com uma toalha de linho [...] Ou bem
podia encontrar o apartamento de pernas para cima. (ESTRADA E., 2008)
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Nas considerações de Bosi (2007), ela afirma que chama a atenção a sucessão de
etapas na memória, a qual é definida por marcos, pontos onde a significação da vida se
concentra: uma mudança de casa ou de lugar, a morte de um parente, uma formatura, um
casamento, empregos, festas. Quando há festas em que toda a família participa, como o Natal,
as lembranças são mais evidente do que as que têm importância mais individual: formaturas,
aniversários.
Quando terminamos a universidade, considerou que seu tempo na Colômbia
já havia sido suficiente, assim que fez suas malas e voltou à Itália. Queria
seguir estudando. Se instalou em Florência e começou a estudar história da
arte. Passado o tempo, começou a trabalhar como professora titular na
universidade e de tempos em tempos, vem visitar-nos. (ESTRADA E., 2008)
Além das discussões e reflexões sobre a memória, algumas das personagens de
Berta, como as que estão contidas nos contos em questão, apresentam e discutem ideias
feministas, outras evidenciam em suas falas posições preconceituosas sobre a condição das
mulheres. Isso tudo torna-se importante para que se possa caracterizar Berta Lucía Estrada E.
como uma mulher que está, em muitas questões, à frente de seu tempo, pelas suas ideias e
atitudes inovadoras. No trecho a seguir, há a fala da narradora (que não tem nome) sobre
Isabel:
Nada lhe ficava mal. [...] toda sua roupa era de um gosto esquisito, ainda que
nunca se guiava pela moda. Ao contrário, quando via que as mulheres
começavam a utilizar algo que ela já usava há algum tempo, imediatamente
deixava de lado ou simplesmente dava de presente. [...] A roupa, os
acessórios, os sapatos, eram sua marca pessoal, com se necessitasse deles
para ser única. (ESTRADA E., 2008)
Percebe-se uma contribuição de Berta para elevar o status da mulher. Mais uma vez,
em meio às ambigüidades, às negociações com o mundo masculino, a autora consegue
caminhar para o centro e chamar a atenção sobre a importância da mulher na sociedade. O que
é evidenciado em “Rebeca”, na fala de Pablo: “Passava de um tema a outro na velocidade da
luz. Ouvia falar era enfrentar-se a uma mente lúcida, brilhante, contestadora, rebelde e
também alucinante. Éramos poucos os que tínhamos coragem de interrompe-la ou contradizêla.” (ESTRADA E., 2008)
A autora aproveita para evidenciar, dentro dos contos, sua visão crítica acerca dos
pensamentos retrógrados e preconceituosos sobre a mulher. Ela faz com que seus personagens
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falem ironicamente sobre os preconceitos e hipocrisias da sociedade. Isso pode ser
exemplificado pela memória póstuma de Rebeca, quando está dentro do caixão:
Sei bem o que pensa cada um. „No fundo não se perdeu nada. Foi-se como
viveu, em um permanente sobressalto, assim está melhor‟ – diriam. O que
não sabem é que vivi cada dia como se fosse o último e não me arrependo de
haver feito isso. Amei e fui amada tantas vezes quanto quis, como me
permiti, e me permiti sempre. Por que ter ataduras? (ESTRADA E., 2008)
Em outros momentos, permite – com sua habilidade de narradora – que se depreenda
uma mensagem crítica na fala deles e na maneira como os representa. A invisibilidade da
protagonista funciona como uma metáfora da invisibilidade da própria mulher no espaço
público, social e profissional. Percebe-se que, depois de ser encontrada morta, Rebeca é vista
como alguém que não conseguia encontrar uma estabilidade emocional e por isso, suicidouse. O que não é verdade, pois a protagonista, dentro do caixão, deixa claro que não está
contente por estar naquele lugar e que ninguém a havia compreendido. “Me meteram nesta
caixa, de onde é impossível mover-se; com se não soubessem que detesto estar imóvel. Posso
estar presa, mas não quieta. Me colocaram perto do altar.” (ESTRADA E., 2008)
O trecho a seguir, que fala de Isabel, mostra uma visão que os homens têm de muitas
mulheres:
Sua beleza somente era equiparável a sua inteligência. Recordo como os
homens faziam literalmente filha para vê-la passar. Ela nem se importava.
[...] Era capaz de parar o tráfego da Sétima, sem que fosse consciente que ela
era a causa direta do caos veicular das seis da tarde. [...] Seu corpo exalava
uma substância de mulher selvagem. [...] Quando se sentava na cafeteria da
universidade, os homens começavam a sentir-se nervosos, se endireitavam,
arrumavam o cabelo, davam o melhor dos seus sorrisos. (ESTRADA E.,
2008)
Essa opinião expressa a maneira como a sociedade enxergava a mulher: como um
perigo, pronto para provocar o mal; a pecadora que usava o corpo para tentar o homem e leválo à perdição. Por isso, tantas doutrinas e teorias forjadas com o interesse de aprisionar,
domesticar, vigiar e punir a mulher.
A fala da narradora sobre Isabel parece servir para que a autora revele, através do uso
do espaço ficcional, a sua opinião sobre a condição feminina, posicionando-se contra o que
considerava limitador para a mulher.
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Mas, ou Isabel não era verdadeiramente consciente de seu poder corporal, ou
simplesmente ainda não havia encontrado o homem a quem amar. Em outra
mulher, suas características poderiam ser unicamente instintivas, mas nela
sexo e intelecto tinham que fundir-se num só corpo. (ESTRADA E., 2008)
O excerto, a continuação, revela por parte da narradora uma postura extremamente
conservadora, dentro do enredo, com o intuito de evidenciar que a sociedade espera
resguardar as velhas estruturas patriarcais, as novas concepções, e quem age de forma
diferente não é compreendido e é julgado por isso. “Passado um tempo entrou como
professora titular na universidade e de tempos em tempo vem ver-nos. Nunca fala de si
mesma. Isabel segue sendo um enigma para mim. Não sei se está casada, separada,
divorciada, viúva, se divide a vida com alguém ou se está sozinha.” (ESTRADA E., 2008)
Berta, através de seus textos, ajuda o leitor a derrubar antigos preconceitos e perceber
que o acesso ao conhecimento e o trabalho digno e honesto são importantes e só trarão
benefícios para a mulher, seja ela burguesa ou não. Ao tornar visível a questão da condição
feminina, o conto contribui para corrigir uma visão atrasada sobre a capacidade intelectual da
mulher.
Além disso falava com fluência o Inglês e o Francês. Jamais se equivocava,
passava de um idioma a outro com uma facilidade que não deixava de me
surpreender. Mesmo tendo se criado em Florência, decidiu estudar literatura
em Bogotá. [...] Sempre dizia as palavras justas no momento justo. [...]
Quando criticava, o fazia com argumentos adequados. [...]Passado um tempo
entrou como professora titular na universidade ... (ESTRADA E., 2008)
Berta promove – por meio da voz da personagem Pablo sobre Rebeca – uma crítica à
ordem patriarcal, ao mostrar que Rebeca não acredita na ideia de que a mulher deveria ser de
apenas um homem por toda a vida. “Rebeca podia dizer que teve muitos amantes, mas
nenhum podia dizer que ela tinha sido sua amante. Ela os elegia e os deixava. [...] De todas as
formas, ao lado de Rebeca um homem podia estar seguro de tudo e de nada.” (ESTRADA E.,
2008)
Ainda em relação à questão da condição feminina, a autora expõe as hipocrisias
sociais e, sutilmente, critica o fato das pessoas julgarem os que não se enquadram em um
padrão social, principalmente no caso de mulheres que são diferentes da maioria.
Uma aventura permanente, mas também um delírio, uma loucura, um
desatino. O desvario total e absoluto. Por isso a abandonei e por isso a
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amava.” [...] “Mas num mundo onde as mudanças não são bem recebidas eu
não poderia me encaixar. Enviei sinais a Pablo, todas as que me foram
possíveis. Mas ele não fez muito esforço para entendê-las. Terminou por irse de casa. (ESTRADA E., 2008)
Berta afirma que é fácil entender porque a mulher sempre se submeteu às vontades
do homem,
quando se tem em conta o que foi o universo feminino, criado e imposto pela
sociedade patriarcal. A virgindade como requisito básico para o matrimônio,
a criação dos filhos, a cozinha, e tudo o que significa fazer funcionar um lar
nas 24 horas do dia e nos 365 dias do ano, a impediram de gozar de um
espaço próprio e de um tempo para si mesma, posto que não há como
esquecer que durante séculos a mulher foi confinada a essa visão.
(ESTRADA E., 2009)
Um aspecto de dominação discutido em “Rebeca” é a exigência da virgindade como
requisito indispensável para o matrimônio. Situação que tira o direito à mulher de poder
exercer livremente sua sexualidade, sem que a religião, a sociedade e a família se convertam
em donos de seu corpo.
Essa fala é perceptível na voz de Rebeca, quando ela diz:
Recordo que em uma festa escutei alguém dizer que havia se casado com o
noivo de toda a vida e que havia chegado virgem ao casamento. O que para
ela era orgulho, para mim era um absurdo. Não lhe disse nada, mas sorri para
mim mesma, pensei que aos trinta anos eu já havia perdido a conta dos
homem que haviam passado pela minha cama. (ESTRADA E., 2008)
Segundo Berta, a mulher precisou travar muitas batalhas para reivindicar os direitos
que lhe haviam sido negados, baseados em princípio patriarcais,
como são o desconhecimento ao direito à educação, ao sufrágio, a dispor de
seus bens materiais, a ter uma conta bancária em seu nome, a poder trabalhar
sem a autorização escrita e verbal do marido. O direito a decidir sobre seu
próprio corpo e seus sentimentos, ou seja, o direito de decidir com quem se
casa ou se, ao contrário, opta pelo celibato. O direito ao aborto e ao
planejamento familiar, o direito de eleger sua orientação sexual, mas
também religiosa ou simplesmente a não tê-la; sem que por isso seja
considerada como uma transgressora ou uma desequilibrada mental.
(ESTRADA E., 2009)
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Estrada (2009) também faz uma reflexão importante sobre uma inovação na
medicina, ocorrida no século XX, que provocou mudanças significativas e contribuiu para a
ruptura de muitas convenções patriarcais: a invenção da pílula anticoncepcional. Para a
autora, a pílula abriu caminho para a mulher decidir quando e com quem quer ter filhos, ou
então não tê-los, além de permitir às famílias planejar o número de filhos, o que contribuiu
para melhorar a condição de vida em sociedade. E isso é muito evidente nas duas
protagonistas: Rebeca – “pensei que aos trinta anos eu já havia perdido a conta dos homens
que haviam passado pela minha cama.” (ESTRADA E., 2008) – e Isabel – “Ela não falava
sobre sua vida íntima, não sabíamos se havia tido algum amigo, nem sequer sabia dizer se na
verdade havia estado na cama com alguém.” (ESTRADA E., 2008)
Os contos também mostram que o direito à educação da mulher, que nem sempre foi
reconhecido, passou a ser garantido desde o século XIX, o que contribuiu para melhorar a
atuação da mulher enquanto escritora, mesmo que ainda haja muito mais homens em
comparação ao número de mulheres que escrevem. As protagonistas são mulheres instruídas,
inteligentes e intelectuais. “Isabel falava inglês e francês e quando fazia criticas, as fazia de
forma muito adequada. Já Rebeca passava de um tema a outro com muita velocidade, tinha
uma mente lúcida, brilhante.” (ESTRADA E., 2008)
É importante ressaltar que essa condição de intelectuais não é totalmente aceita e tida
como natural, até porque, como mostra Berta, as mulheres aprendiam a ler e a escrever e nada
mais. Estrada, em seu livro “¡Cuidado! Escritoras a la vista...” (2009), traz um documento,
publicado em 1923, na Colômbia, que contem uma série de conselhos carregados de
machismo e que deveriam ser normas para as esposas e às futuras esposas. Talvez por essa
cultura totalmente equivocada, é que a autora caracteriza suas personagens como mulheres
independentes, desapegadas e despreocupadas como as convenções sociais.
Para las casadas y para las que aspiran a serlo”
_ “Sed prudentes y resignadas; jamás caprichosas.
_ No seáis vanidosas; apreciad lo necesario y huid del lujo que causa
muchas veces la ruina. Presentaos con decencia; pero con sencillez, según
el capital de que podáis disponer.
_ Sed cariñosas; pero con tacto y oportunidad para no fastidiar y sed
siempre amables, pues una mujer por bonita que sea, se ve horrible llena de
ira.
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UNIOESTE – Cascavel/PR
_ Si vuestro esposo llega de la calle serio o disgustado, procurad alejar esas
nubes, y si lo veis difícil, callaos prudentemente. Si es en el seno del hogar
donde él se ha disgustado a pesar vuestro, tenga o no tenga razón, no
contentéis con enojo, pues puede estallar una tempestad que amargue la
existencia. Respetad la voluntad de vuestro esposo; no por eso quiere
decirse que no tengáis voluntad propia, no; debéis ser dignas, pero muchas
veces debemos sacrificarnos en aras de la paz doméstica, la más dulce de la
vida.
_ No seáis celosas, o al menos no lo manifestéis con ira, pues eso resulta
infaliblemente en perjuicio vuestro. (ESTRADA, 2009)
Utilizando-se do recurso da intertextualidade, Berta faz uma referência à escritora
Virginia Woolf, que decide morrer em 28 de março de 1941, através da personagem Rebeca,
quando ela toma a decisão de se atirar no rio.
Entendi porque Alfonsina Storni se entregou ao mar e porque Virginia
Woolf se encheu de pedregulhos nos bolsos de sua blusa antes de entrar no
rio. [...] Da mesma forma que as borboletas nas plantas, o rio e eu nos
fundimos em um longo abraço para nos convertermos num só. [...] Vão
enterrar meu cadáver, mas meu corpo ficou nos braços do rio. Em seu nicho
encontrei a paz que me foi sempre negada. Eles não sabem, nem têm porque
sabê-lo. Por fim sou feliz. (ESTRADA E., 2008)
Em suma, Berta traz uma renovação literária quando reflete sobre a mulher, o
casamento e a sexualidade feminina. A mensagem da autora pretende valorizar a educação e a
liberdade de escolha feminina e promover o abandono dos preconceitos lançados à mulher
que trabalha, que vive conforme suas vontades. Interessa-lhe divulgar uma imagem de mulher
que está preparada para enfrentar os obstáculos, não importando sua classe social. Reduz-se o
estereótipo da mulher absolutamente dependente e sem nenhuma iniciativa, e projeta-se um
novo perfil feminino, mas adequado às mudanças sociais.
REFERÊNCIAS
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade – Lembrança dos velhos. São Paulo: Companhia das
Letras, 2007.
ISSN 2175-943X
I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e
X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória
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COUTINHO, E.F. & CARVALHAL, T.F. Literatura comparada – textos fundadores. Rio de
Janeiro: Rocco, 1994.
ESTRADA E. Berta Lucía. ¡Cuidado! Escritoras a la vista... Ediciones Blé, Manizales, 2009.
ESTRADA E. Berta Lucía. Féminas o El Dulce Aroma de Las Feromonas. In:
www.ellibrototal.com., 2008.
ESTRADA E. Berta Lucía. Voces del Silencio. In: www.ellibrototal.com., 2008.
GUTIÉRREZ ESTUPIÑÁN, Raquel. Una introducción a la teoría literario feminista.
México: Instituto de Ciencias Sociales y Humanidades Benemérita Universidad Autónoma de
Puebla, 2004.
LOBO, Luiza. Crítica sem juízo. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1993.
NAVARRO, Márcia Hoppe, org. Rompendo o silêncio. Gênero e literatura na América
Latina. Porto Alegre, Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1995.
PATRÍCIO, Rosana Ribeiro. As filhas de Pandora: imagens de mulher na ficção de Sonia
Coutinho. Rio de Janeiro: 7LETRAS; Salvador, BA: FAPESB, 2006.
ROSAS, Luisa Ballesteros. La femme écrivain dans la société latino-américaine. Préface de
Jean-Paul Duviols. Paris, Éditions L'Harmattan, 1994.
SHOWALTER, Elaine. A literature of their own. London, Virago, 1982. 378 p.
ISSN 2175-943X
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Isabel o La Torre de Babel