I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR Ruptura às ideias hegemônicas da sociedade patriarcal em “Isabel o La Torre de Babel” e “Rebeca”, de Berta Lucía Estrada E. BOMBONATO, Giancarla (PG – Unioeste) RESUMO: O reconhecimento da literatura de autoria feminina, a partir da consciência feminista, que revolucionou a cultura através da história, hoje incorpora diferentes visões de alteridade, pois, como afirma Rosas (1994), "as autoras latino-americanas, libertadas do ostracismo dos séculos passados, introduzem suas vozes em todos os registros da vida intelectual. Suas obras abordam com êxito os mais diversos gêneros, que elas enriquecem com múltiplas perspectivas". Com base nessa afirmação, o objetivo deste artigo é compreender, com base em Elaine Showalter (1982), a qual afirma que de 1920 até o presente, há um novo estágio de autoconsciência dessa literatura, como os contos “Isabel o La Torre de Babel” e “Rebeca”, de Berta Lucía Estrada E., mostram características desse novo estágio, isso porque, dentre os principais temas de literatura de autoria feminina, essas narrativas discutem a temática do subjetivismo, retratando a autobiografia, as memórias e as confissões. Dentre as considerações finais, foi identificado que a prosa de Berta tenta apresentar uma mulher ousada, independente, não vitimada pela sociedade patriarcal. Além disso, constitui uma tentativa de criar uma nova expressão da mulher enquanto grupo não passivo, e como uma alteridade na sociedade pós-moderna. Ademais, essa nova linguagem empresta, efetivamente, um papel ativo à mulher na ficção. PALAVRAS CHAVE: memórias, confissões, Isabel, Rebeca. RESUMEN: El reconocimiento de la literatura de autoría femenina, desde la conciencia feminista, la cual revolucionó la cultura a través de la historia, hoy incorpora distintas ideas de alteridad, pues, como afirma Rosas (1994), “las autoras latinoamericanas, libertas del ostracismo de los siglos pasados, introducen sus voces en todos los registros de la vida intelectual. Sus obras abordan con éxito los más diversos géneros, que ellas los enriquecen con innúmeras perspectivas”. Basado en esa afirmación, el objeto de este artículo es comprender, con base en Elaine Showalter (1982), la cual afirma que de 1920 hasta el presente, hay un nuevo momento de autoconciencia de esa literatur, como los cuentos “Isabel o La Torre de Babel” e “Rebeca”, de Berta Lucía Estrada E., enseñan características de ese nuevo momento, eso porque, entre los principales temas de la literatura de autoría femenina, esas narrativas discuten la temática del subjetivismo, retratando la autobiografía, as memorias y las confesiones. Con las consideraciones finales, fue identificado que la prosa de Berta intenta presentar una mujer atrevida, independiente, que no es víctima de la sociedad patriarcal. Además, constituye una intención de crear una nueva expresión de la mujer como un grupo no pasivo, e como una alteridad en la sociedad postmoderna. Sobre todo, ese nuevo lenguaje presta, efectivamente, un papel activo a la mujer en la ficción. PALABRAS-CLAVE: memorias, confesiones, Isabel, Rebeca. Ainda não se alcançou o reconhecimento da literatura de autoria feminina, a partir da consciência feminista, que revolucionou a cultura através da história, e a literatura, hoje, não só atinge o novo público produtor e leitor feminino, como também incorpora outras visões de ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR alteridade. De acordo com Lobo (1993), essa nova visão inclui o continente africano, asiático e da América Latina, que poucas vezes obtiveram voz nas histórias literárias canônicas do passado. Se, por um lado, "o período de industrialização integrou a mulher em todas as esferas do mundo do trabalho, e particularmente no mundo operário", como afirma Rosas (1994), por outro, são muito poucas as vozes femininas que conseguem superar a luta pela sobrevivência e escrever ou apreciar a literatura, pesando aí o influxo da mídia que tem desviado as populações de um exercício mais crítico sobre a sociedade - função que a literatura exerce de forma primordial. Portanto, para Rosas (1994), apenas num sentido genérico é verdade que hoje as autoras latino-americanas, libertadas do ostracismo dos séculos passados, introduzem suas vozes em todos os registros da vida intelectual. Suas obras abordam com êxito os mais diversos gêneros, que elas enriquecem com múltiplas perspectivas. Por esse contexto, há um interesse da crítica pela narrativa de autoria feminina, e para entender esse interesse, é importante compreender o contexto histórico de produção feminina. Em meados do século XVIII, a mulher começou a fazer parte da cena literária e esse fato provocou, entre outras consequências de ordem sócio-econômica, política e cultural, uma mudança radical na relação entre sexo e novas formas de produção literária. Desde fins do século XIX e principalmente no século XX, a principal transformação por que passou a literatura de autoria feminina é a conscientização da escritora quanto a sua liberdade e autonomia e a possibilidade de trabalhar e criar sua independência financeira através, basicamente, do trabalho jornalístico, diplomático (na América Hispânica, principalmente na Argentina e México) e o professorado. Ocorreu assim uma paulatina mudança da condição "feminina" para a condição "feminista". Desde a década de 1970, a consciência do corpo e o questionamento da existência, com a maciça entrada das escritoras na Universidade, pelo menos desde a década de 1950, tornaram suas vozes mais intensas. As escritoras passaram a expressar suas realidades psicológicas, interiorizadas, filosóficas, introvertidas e superaram o estágio em que repetiam o estilo dos homens, no século XIX. Para Elaine Showalter (1982), houve três fases neste tipo de literatura: 1) feminina: aparecimento da produção na década de 1840 até a morte de George Eliot, em 1880; 2) feminista: de 1880 a 1920, com obtenção do voto; 3) "fêmea" (de cunho sexual assumido ou de gênero feminino): de 1920 até o presente, mas com novo estágio de autoconsciência por volta de 1960. ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR De acordo com Lobo (1993), dentre os principais temas da literatura de autoria feminina, temos o subjetivismo, a autobiografia, as memórias, as confissões, o sentimentalismo místico, o erotismo, a política, o indianismo, o abolicionismo, o regionalismo, a novela urbana, além da revolução da linguagem poética. Para Gutiérrez (2004), ler os textos escritos pelas mulheres, interpretando seus silêncios, e aquilo que criticam e interrogam da cultura tradicional, é um meio de substituir o discurso falocêntrico e apropriar-se de uma identidade que lhes tem sido negada. Assim, a escritura converte-se num espaço de reconhecimento de si mesmas e de redefinição, mediante as diferentes formas de representação que assume a pluralidade das vozes literárias femininas, “ausentes” de um cânone quase exclusivamente masculino e predominantemente do primeiro mundo, europeu e da classe dominante. Historicamente, na década dos 80, a literatura escrita por mulheres figura nas antologias literárias da América Latina, e se publica uma profusão de livros com trabalhos críticos sobre sua escritura com diversos enfoques. A incorporação de assuntos até então considerados masculinos e o distanciamento de uma temática romântica e testemunhal abrem caminho a novas formas de expressão. Já nos anos noventa, foram produzidas mudanças transcendentais na América Latina, uma nova configuração dos espaços sociais e culturais, a consolidação de organizações feministas e de organizações populares de mulheres, assim como a inclusão crescente da mulher no mercado do trabalho, o que originou mudanças na família e um novo imaginário coletivo. A defesa do sem posse e excluído continuou ocupando parte importante da produção literária das mulheres, mas sob a perspectiva da mudança. Rosana Ribeiro Patrício (2006) nos diz que nos textos de autoria feminina comparece quase sempre uma voz, muitas vezes em primeira pessoa, apresentando mulheres diante de si e do mundo, revisitando o passado, reestruturando seu presente, projetando para o devir um novo sentido para sua vivências e experiências. Diante dessa considerável produção, surge, ao lado dos diversos enfoques e estudos da questão da mulher, um crescente interesse da critica literária em torno da narrativa de autoria feminina. Nesse particular, os estudos literários se voltam para questões referentes à especificidade desse discurso, destacando a perspectiva narrativa e as formas de representação da mulher no texto ficcional. A expansão da narrativa feminina atesta-se pelo número de títulos publicados e de reedições, pelo reconhecimento, pelo reconhecimento público das escritoras que produzem nessa linha e pelo surgimento de ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR grupos de pesquisadores interessados em discutir e estudar os textos em diferentes direções e abordagens, sobretudo no meio universitário. Esses novos estudos buscam o distanciamento em relação à crítica ingênua do passado, que na maioria das vezes utilizava critérios diferenciados de apreciação entre o texto feminino e o masculino. A alteridade do eu em relação a si mesmo é o ponto de partida da literatura contemporânea, mas se torna mais aguda quando a literatura, pelo menos desde 1970, como afirmam Coutinho e Carvalhal (1994), percebe que se comporta de modo logocêntrico e etnocêntrico, não só a respeito de outros povos e raças, mas também com respeito ao outro sexo e às minorias sexuais. O cânone é demarcado pelo homem branco, de classe média, ocidental. A mulher insere-se nesta cena a partir de uma ruptura e o anúncio de uma alteridade ou diferença para com esta visão "falocêntrica". Essa alteridade da literatura de autoria feminina tornou-se assim, segundo Navarro (1995), a base da abordagem feminista na literatura. Ser o outro, o excluso, o estranho, é próprio da mulher que quer penetrar no "sério" mundo acadêmico ou literário. Não se pode ignorar que, por motivos mitológicos, antropológicos, sociológicos e históricos a mulher foi excluída do mundo da escrita - só podendo introduzir seu nome na história européia por assim dizer através de arestas e frestas que conseguiu abrir através de seu aprendizado de ler e escrever em conventos. AS RUPTURAS A escritora Berta Lucía Estrada E. realizou estudos de literatura na Pontifícia Universidade Javeriana, mestrado e doutorado no Institut des Hautes Etudes de l´Amérique Latine, Sobonne III (Paris-França) e uma Especialização em Docência Universitária na Universidade de Caldas. Desempenhou atividades como docente universitária. Durante 10 anos trabalhou como funcionária na Unidade de Cultura da prefeitura de Manizales, capacitando as bibliotecárias e docentes no processo de formação de leitor. Publicou vários Livros. Ganhou vários prêmios. Toda a discussão a respeito do reconhecimento da escrita feminina está presente em muitas de suas obras, como nos contos “Rebeca”, publicado no livro “Voces del Silencio” (2008) e “Isabel o La Torre de Babel”, publicado em “Féminas o el Dulce Aroma de las Feromonas” (2008). Nos dois contos (de estrutura semelhante, mas também diferente), os ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR narradores, a partir de suas memórias, caracterizam as protagonistas através da visão que eles têm delas. Em “Rebeca”, a personagem principal (que leva o mesmo nome) está morta e isso é evidenciado já nas primeiras frases do texto: “Olá, Pablo, te ligo para dizer-te que o corpo de Rebeca apareceu em uma das ribeiras do Rio Negro.” (ESTRADA E., 2008) Desde então, Pablo (ex-companheiro de Rebeca) começa a recordar-se de sua ex-mulher e passa a caracterizá-la, construindo-a a partir de suas impressões sobre ela. O diferencial deste conto é que Rebeca tem voz e desconstrói a visão construída sobre ela num relato/desabafo póstumo, pois ela está dentro do caixão quando dá a sua versão para os fatos: “Me meteram nesta caixa, de onde é impossível mover-se; com se não soubessem que detesto estar imóvel. [...] Me puseram perto do altar.” (ESTRADA E., 2008) Já em “Isabel o La Torre de Babel”, a narradora (que era uma amiga de Isabel) começa o conto falando de como a protagonista era bonita, e passa a contar vários fatos e situações que ocorreram com a amiga, de tal maneira que o leitor consegue perceber que Isabel não era uma mulher comum, convencionada pelos padrões sociais, pois estava muito à frente de seu tempo em vários aspectos. Tanto que a narradora afirma que “De Isabel aprendi que uma pessoa não é cidadã de um país, nem de um continente, nem do terceiro mundo, mas cidadã do mundo, como ela se chamava a si mesma.” (ESTRADA E., 2008) Nesses contos, Berta discute algumas temáticas importantes e que caracterizam a escrita feminina, como as recordações e as memórias. Sobre esse assunto, é importante serem feitas algumas considerações. Para Ecléa Bosi (2007), “uma memória coletiva se desenvolve a partir de laços de convivência familiares, escolares, profissionais. Ele entretém a memória de seus membros, que acrescenta, unifica, diferencia, corrige e passa a limpo.” Dessa maneira, para rememorar os traços de um amigo desaparecido ou que não se vê há muito tempo, uma pessoa busca vestígios de situações que guardou desse amigo e das lembranças dos outros que o conheceram. É possível perceber isso, nos trecho do conto de Berta: De todas nós a mais formosa era Isabel. Quando a vi pela primeira vez, tive a sensa~]ao de déjavu. Passado o tempo, me dei conta eu ela parecia saída de um quadro de Boticelli. [...] Seu verdadeiro nome era Isabella. Ainda que para nós era Isabel ou A Torre de Babel. Havia nascido na Itália, de mãe alemã e pai colombiano. (ESTRADA E., 2008) ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR De acordo com as percepções de Bosi (2007), é a pessoa que recorda, mesmo que haja uma memória coletiva. É ele quem memoriza e consegue lembrar-se de fatos e situações que são somente para ele significativas. Berta exemplifica essa afirmação num trecho em que Pablo fala de Rebeca: A conheci na casa de uns amigos, uma dessas rumbas um pouco desordenadas, onde havia de tudo um pouco. Quase todos meus amigos estavam em casais. Ela e eu havíamos chegados sós. [...] Tomou a palavra, falava de política [...] Os outros cansados de estar por fora de uma conversa que saltava de um tema a outro continuamente e que nem sempre podiam seguir, se dedicaram a dançar ou amar-se sem se importar muito que todos estivéssemos no mesmo lugar. (ESTRADA E., 2008) Para Halbwachs, segundo o que afirma Bosi (2007), “cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva. Nossos deslocamentos alteram esse ponto de vista: pertencer a novos grupos nos faz evocar lembranças significativas que este presente e sob a luz explicativa que convém à ação atual.” Assim, o momento em que a narradora fala de Isabel, mostra o que ela pensa, mas que é comum ao que os outros também pensavam: Quando criticava, fazia com argumentos adequados, tanto que ninguém discutia com ela. Ao contrário, sabíamos que quando era a favor ou contra algo, era porque haveria que refletir sobre suas palavras. Sua cultura era imensa. Se a conversa era sobre arte, podia dar críticas sobre as pinturas rupestres [...]. (ESTRADA E., 2008) Há, para Bosi (2007), outros fatores que interferem na memória, como o lugar que alguém ocupa na consideração de seu grupo de convivência diária, onde há desigualdade de pontos de vista, uma repartição desigual de apreço, assim, “o membro amado por todos terá suas palavras e gestos anotados e verá com surpresa, anos depois, seus menores atos lembrados e discutidos.” (BOSI, 2007). Muitas palavras, atitudes e gestos são guardados minuciosamente. Olá, Pablo. Te ligo para dizer-lhe que o corpo de Rebeca apareceu em uma das ribeiras do Rio Negro. [...] Sei o quanto foi importante para você. [...] Ela era o começo e o fim. A criação e a destruição. A harmonia e o caos. [...] Um enigma permanente. Na noite, depois de deixar a oficina e chegar na sua casa, podia encontrar a mesa posta com uma toalha de linho [...] Ou bem podia encontrar o apartamento de pernas para cima. (ESTRADA E., 2008) ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR Nas considerações de Bosi (2007), ela afirma que chama a atenção a sucessão de etapas na memória, a qual é definida por marcos, pontos onde a significação da vida se concentra: uma mudança de casa ou de lugar, a morte de um parente, uma formatura, um casamento, empregos, festas. Quando há festas em que toda a família participa, como o Natal, as lembranças são mais evidente do que as que têm importância mais individual: formaturas, aniversários. Quando terminamos a universidade, considerou que seu tempo na Colômbia já havia sido suficiente, assim que fez suas malas e voltou à Itália. Queria seguir estudando. Se instalou em Florência e começou a estudar história da arte. Passado o tempo, começou a trabalhar como professora titular na universidade e de tempos em tempos, vem visitar-nos. (ESTRADA E., 2008) Além das discussões e reflexões sobre a memória, algumas das personagens de Berta, como as que estão contidas nos contos em questão, apresentam e discutem ideias feministas, outras evidenciam em suas falas posições preconceituosas sobre a condição das mulheres. Isso tudo torna-se importante para que se possa caracterizar Berta Lucía Estrada E. como uma mulher que está, em muitas questões, à frente de seu tempo, pelas suas ideias e atitudes inovadoras. No trecho a seguir, há a fala da narradora (que não tem nome) sobre Isabel: Nada lhe ficava mal. [...] toda sua roupa era de um gosto esquisito, ainda que nunca se guiava pela moda. Ao contrário, quando via que as mulheres começavam a utilizar algo que ela já usava há algum tempo, imediatamente deixava de lado ou simplesmente dava de presente. [...] A roupa, os acessórios, os sapatos, eram sua marca pessoal, com se necessitasse deles para ser única. (ESTRADA E., 2008) Percebe-se uma contribuição de Berta para elevar o status da mulher. Mais uma vez, em meio às ambigüidades, às negociações com o mundo masculino, a autora consegue caminhar para o centro e chamar a atenção sobre a importância da mulher na sociedade. O que é evidenciado em “Rebeca”, na fala de Pablo: “Passava de um tema a outro na velocidade da luz. Ouvia falar era enfrentar-se a uma mente lúcida, brilhante, contestadora, rebelde e também alucinante. Éramos poucos os que tínhamos coragem de interrompe-la ou contradizêla.” (ESTRADA E., 2008) A autora aproveita para evidenciar, dentro dos contos, sua visão crítica acerca dos pensamentos retrógrados e preconceituosos sobre a mulher. Ela faz com que seus personagens ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR falem ironicamente sobre os preconceitos e hipocrisias da sociedade. Isso pode ser exemplificado pela memória póstuma de Rebeca, quando está dentro do caixão: Sei bem o que pensa cada um. „No fundo não se perdeu nada. Foi-se como viveu, em um permanente sobressalto, assim está melhor‟ – diriam. O que não sabem é que vivi cada dia como se fosse o último e não me arrependo de haver feito isso. Amei e fui amada tantas vezes quanto quis, como me permiti, e me permiti sempre. Por que ter ataduras? (ESTRADA E., 2008) Em outros momentos, permite – com sua habilidade de narradora – que se depreenda uma mensagem crítica na fala deles e na maneira como os representa. A invisibilidade da protagonista funciona como uma metáfora da invisibilidade da própria mulher no espaço público, social e profissional. Percebe-se que, depois de ser encontrada morta, Rebeca é vista como alguém que não conseguia encontrar uma estabilidade emocional e por isso, suicidouse. O que não é verdade, pois a protagonista, dentro do caixão, deixa claro que não está contente por estar naquele lugar e que ninguém a havia compreendido. “Me meteram nesta caixa, de onde é impossível mover-se; com se não soubessem que detesto estar imóvel. Posso estar presa, mas não quieta. Me colocaram perto do altar.” (ESTRADA E., 2008) O trecho a seguir, que fala de Isabel, mostra uma visão que os homens têm de muitas mulheres: Sua beleza somente era equiparável a sua inteligência. Recordo como os homens faziam literalmente filha para vê-la passar. Ela nem se importava. [...] Era capaz de parar o tráfego da Sétima, sem que fosse consciente que ela era a causa direta do caos veicular das seis da tarde. [...] Seu corpo exalava uma substância de mulher selvagem. [...] Quando se sentava na cafeteria da universidade, os homens começavam a sentir-se nervosos, se endireitavam, arrumavam o cabelo, davam o melhor dos seus sorrisos. (ESTRADA E., 2008) Essa opinião expressa a maneira como a sociedade enxergava a mulher: como um perigo, pronto para provocar o mal; a pecadora que usava o corpo para tentar o homem e leválo à perdição. Por isso, tantas doutrinas e teorias forjadas com o interesse de aprisionar, domesticar, vigiar e punir a mulher. A fala da narradora sobre Isabel parece servir para que a autora revele, através do uso do espaço ficcional, a sua opinião sobre a condição feminina, posicionando-se contra o que considerava limitador para a mulher. ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR Mas, ou Isabel não era verdadeiramente consciente de seu poder corporal, ou simplesmente ainda não havia encontrado o homem a quem amar. Em outra mulher, suas características poderiam ser unicamente instintivas, mas nela sexo e intelecto tinham que fundir-se num só corpo. (ESTRADA E., 2008) O excerto, a continuação, revela por parte da narradora uma postura extremamente conservadora, dentro do enredo, com o intuito de evidenciar que a sociedade espera resguardar as velhas estruturas patriarcais, as novas concepções, e quem age de forma diferente não é compreendido e é julgado por isso. “Passado um tempo entrou como professora titular na universidade e de tempos em tempo vem ver-nos. Nunca fala de si mesma. Isabel segue sendo um enigma para mim. Não sei se está casada, separada, divorciada, viúva, se divide a vida com alguém ou se está sozinha.” (ESTRADA E., 2008) Berta, através de seus textos, ajuda o leitor a derrubar antigos preconceitos e perceber que o acesso ao conhecimento e o trabalho digno e honesto são importantes e só trarão benefícios para a mulher, seja ela burguesa ou não. Ao tornar visível a questão da condição feminina, o conto contribui para corrigir uma visão atrasada sobre a capacidade intelectual da mulher. Além disso falava com fluência o Inglês e o Francês. Jamais se equivocava, passava de um idioma a outro com uma facilidade que não deixava de me surpreender. Mesmo tendo se criado em Florência, decidiu estudar literatura em Bogotá. [...] Sempre dizia as palavras justas no momento justo. [...] Quando criticava, o fazia com argumentos adequados. [...]Passado um tempo entrou como professora titular na universidade ... (ESTRADA E., 2008) Berta promove – por meio da voz da personagem Pablo sobre Rebeca – uma crítica à ordem patriarcal, ao mostrar que Rebeca não acredita na ideia de que a mulher deveria ser de apenas um homem por toda a vida. “Rebeca podia dizer que teve muitos amantes, mas nenhum podia dizer que ela tinha sido sua amante. Ela os elegia e os deixava. [...] De todas as formas, ao lado de Rebeca um homem podia estar seguro de tudo e de nada.” (ESTRADA E., 2008) Ainda em relação à questão da condição feminina, a autora expõe as hipocrisias sociais e, sutilmente, critica o fato das pessoas julgarem os que não se enquadram em um padrão social, principalmente no caso de mulheres que são diferentes da maioria. Uma aventura permanente, mas também um delírio, uma loucura, um desatino. O desvario total e absoluto. Por isso a abandonei e por isso a ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR amava.” [...] “Mas num mundo onde as mudanças não são bem recebidas eu não poderia me encaixar. Enviei sinais a Pablo, todas as que me foram possíveis. Mas ele não fez muito esforço para entendê-las. Terminou por irse de casa. (ESTRADA E., 2008) Berta afirma que é fácil entender porque a mulher sempre se submeteu às vontades do homem, quando se tem em conta o que foi o universo feminino, criado e imposto pela sociedade patriarcal. A virgindade como requisito básico para o matrimônio, a criação dos filhos, a cozinha, e tudo o que significa fazer funcionar um lar nas 24 horas do dia e nos 365 dias do ano, a impediram de gozar de um espaço próprio e de um tempo para si mesma, posto que não há como esquecer que durante séculos a mulher foi confinada a essa visão. (ESTRADA E., 2009) Um aspecto de dominação discutido em “Rebeca” é a exigência da virgindade como requisito indispensável para o matrimônio. Situação que tira o direito à mulher de poder exercer livremente sua sexualidade, sem que a religião, a sociedade e a família se convertam em donos de seu corpo. Essa fala é perceptível na voz de Rebeca, quando ela diz: Recordo que em uma festa escutei alguém dizer que havia se casado com o noivo de toda a vida e que havia chegado virgem ao casamento. O que para ela era orgulho, para mim era um absurdo. Não lhe disse nada, mas sorri para mim mesma, pensei que aos trinta anos eu já havia perdido a conta dos homem que haviam passado pela minha cama. (ESTRADA E., 2008) Segundo Berta, a mulher precisou travar muitas batalhas para reivindicar os direitos que lhe haviam sido negados, baseados em princípio patriarcais, como são o desconhecimento ao direito à educação, ao sufrágio, a dispor de seus bens materiais, a ter uma conta bancária em seu nome, a poder trabalhar sem a autorização escrita e verbal do marido. O direito a decidir sobre seu próprio corpo e seus sentimentos, ou seja, o direito de decidir com quem se casa ou se, ao contrário, opta pelo celibato. O direito ao aborto e ao planejamento familiar, o direito de eleger sua orientação sexual, mas também religiosa ou simplesmente a não tê-la; sem que por isso seja considerada como uma transgressora ou uma desequilibrada mental. (ESTRADA E., 2009) ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR Estrada (2009) também faz uma reflexão importante sobre uma inovação na medicina, ocorrida no século XX, que provocou mudanças significativas e contribuiu para a ruptura de muitas convenções patriarcais: a invenção da pílula anticoncepcional. Para a autora, a pílula abriu caminho para a mulher decidir quando e com quem quer ter filhos, ou então não tê-los, além de permitir às famílias planejar o número de filhos, o que contribuiu para melhorar a condição de vida em sociedade. E isso é muito evidente nas duas protagonistas: Rebeca – “pensei que aos trinta anos eu já havia perdido a conta dos homens que haviam passado pela minha cama.” (ESTRADA E., 2008) – e Isabel – “Ela não falava sobre sua vida íntima, não sabíamos se havia tido algum amigo, nem sequer sabia dizer se na verdade havia estado na cama com alguém.” (ESTRADA E., 2008) Os contos também mostram que o direito à educação da mulher, que nem sempre foi reconhecido, passou a ser garantido desde o século XIX, o que contribuiu para melhorar a atuação da mulher enquanto escritora, mesmo que ainda haja muito mais homens em comparação ao número de mulheres que escrevem. As protagonistas são mulheres instruídas, inteligentes e intelectuais. “Isabel falava inglês e francês e quando fazia criticas, as fazia de forma muito adequada. Já Rebeca passava de um tema a outro com muita velocidade, tinha uma mente lúcida, brilhante.” (ESTRADA E., 2008) É importante ressaltar que essa condição de intelectuais não é totalmente aceita e tida como natural, até porque, como mostra Berta, as mulheres aprendiam a ler e a escrever e nada mais. Estrada, em seu livro “¡Cuidado! Escritoras a la vista...” (2009), traz um documento, publicado em 1923, na Colômbia, que contem uma série de conselhos carregados de machismo e que deveriam ser normas para as esposas e às futuras esposas. Talvez por essa cultura totalmente equivocada, é que a autora caracteriza suas personagens como mulheres independentes, desapegadas e despreocupadas como as convenções sociais. Para las casadas y para las que aspiran a serlo” _ “Sed prudentes y resignadas; jamás caprichosas. _ No seáis vanidosas; apreciad lo necesario y huid del lujo que causa muchas veces la ruina. Presentaos con decencia; pero con sencillez, según el capital de que podáis disponer. _ Sed cariñosas; pero con tacto y oportunidad para no fastidiar y sed siempre amables, pues una mujer por bonita que sea, se ve horrible llena de ira. ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR _ Si vuestro esposo llega de la calle serio o disgustado, procurad alejar esas nubes, y si lo veis difícil, callaos prudentemente. Si es en el seno del hogar donde él se ha disgustado a pesar vuestro, tenga o no tenga razón, no contentéis con enojo, pues puede estallar una tempestad que amargue la existencia. Respetad la voluntad de vuestro esposo; no por eso quiere decirse que no tengáis voluntad propia, no; debéis ser dignas, pero muchas veces debemos sacrificarnos en aras de la paz doméstica, la más dulce de la vida. _ No seáis celosas, o al menos no lo manifestéis con ira, pues eso resulta infaliblemente en perjuicio vuestro. (ESTRADA, 2009) Utilizando-se do recurso da intertextualidade, Berta faz uma referência à escritora Virginia Woolf, que decide morrer em 28 de março de 1941, através da personagem Rebeca, quando ela toma a decisão de se atirar no rio. Entendi porque Alfonsina Storni se entregou ao mar e porque Virginia Woolf se encheu de pedregulhos nos bolsos de sua blusa antes de entrar no rio. [...] Da mesma forma que as borboletas nas plantas, o rio e eu nos fundimos em um longo abraço para nos convertermos num só. [...] Vão enterrar meu cadáver, mas meu corpo ficou nos braços do rio. Em seu nicho encontrei a paz que me foi sempre negada. Eles não sabem, nem têm porque sabê-lo. Por fim sou feliz. (ESTRADA E., 2008) Em suma, Berta traz uma renovação literária quando reflete sobre a mulher, o casamento e a sexualidade feminina. A mensagem da autora pretende valorizar a educação e a liberdade de escolha feminina e promover o abandono dos preconceitos lançados à mulher que trabalha, que vive conforme suas vontades. Interessa-lhe divulgar uma imagem de mulher que está preparada para enfrentar os obstáculos, não importando sua classe social. Reduz-se o estereótipo da mulher absolutamente dependente e sem nenhuma iniciativa, e projeta-se um novo perfil feminino, mas adequado às mudanças sociais. REFERÊNCIAS BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade – Lembrança dos velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. ISSN 2175-943X I Congresso Internacional de Pesquisa em Letras no Contexto Latino-Americano e X Seminário Nacional de Literatura, História e Memória 21 a 23 de Setembro de 2011 UNIOESTE – Cascavel/PR COUTINHO, E.F. & CARVALHAL, T.F. Literatura comparada – textos fundadores. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. ESTRADA E. Berta Lucía. ¡Cuidado! Escritoras a la vista... Ediciones Blé, Manizales, 2009. ESTRADA E. Berta Lucía. Féminas o El Dulce Aroma de Las Feromonas. In: www.ellibrototal.com., 2008. ESTRADA E. Berta Lucía. Voces del Silencio. In: www.ellibrototal.com., 2008. GUTIÉRREZ ESTUPIÑÁN, Raquel. Una introducción a la teoría literario feminista. México: Instituto de Ciencias Sociales y Humanidades Benemérita Universidad Autónoma de Puebla, 2004. LOBO, Luiza. Crítica sem juízo. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1993. NAVARRO, Márcia Hoppe, org. Rompendo o silêncio. Gênero e literatura na América Latina. Porto Alegre, Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1995. 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