Revista Eletrônica Aboré - Publicação da Escola Superior de Artes e Turismo Manaus - Edição 04 Dez/2010 ISSN 1980-6930 171 O PROFESSOR DE DANÇA FACE AO ALUNO COM NECESSIDADE EDUCATIVA ESPECIAL. ELE ESTÁ PREPARADO PARA ATUAR EM TAL REALIDADE? Érika da Silva Ramos ¹ Orientadora: Profª MSc. Evelyn Lauria Noronha ² Resumo: Este texto surgiu com interesse de discorrer sobre a preparação, o primeiro contato e a caminhada do graduando em dança para atuar na realidade dos alunos com necessidades educativas especiais, enfatizando pormenores para a construção de sua didática. Faz-se então uma reflexão sobre os desafios encontrados pelo professor que dispõemse a seguir a trajetória de ensinar a dança na educação especial. Consiste no compartilhar de experiência resultante do envolvimento da pesquisadora com alunos deficientes mentais em meio seus estudos em projetos de iniciação científica e também oriundos de seus trabalhos de conclusão de curso. Palavras-Chave: Professor, Realidade, Aluno e Deficiente. Abstract: This book arose with interest to discuss the preparations, the first contact and walk on dana graduating to work in reality for students with special educational needs, emphasizing details to build your didtica. It is then a reflection on the challenges faced by the teacher who was willing to follow the trajetria to teach dance in particular educate. It consists of the share experience resulting from the involvement of the researcher with mentally disabled students in their studies through projects confi-starter and also from the conclusions of its work in progress. Keywords: Teacher, Reality, Students and Disabled. Desenvolvimento: O tema abordado neste texto propicia uma reflexão sobre a qualidade, preparação e aptidão do graduando (futuro professor) que aspira trabalhar direcionado ao aluno com necessidade educativa especial. Não pretende-se aqui apenas expor uma conotação da realidade como negativa sobre o envolvimento com docência aos alunos com alguma deficiência, e sim alertar aos interessados na área, que nem sempre é um caminho simples, trata-se pois de um caminho que quando explorado torna-se um universo do saber, da sensibilização e de possibilidades ao crescimento, logo não só preenche o currículo do professor, mas acima de tudo o prepara para ser um profissional o qual contribuirá ao desenvolvimento do aluno com deficiência, sendo tal contribuição o maior foco da educação especial. _________ ¹ Licenciatura em Dança (UEA), Graduanda do Curso de Psicologia (UNINORTE), Bolsista da FAPEAM, no Programa de Apoio a Iniciação Científica (PAIC), Especializanda em Psicomotricidade (GAMA FILHO). Revista Eletrônica Aboré - Publicação da Escola Superior de Artes e Turismo Manaus - Edição 04 Dez/2010 ISSN 1980-6930 172 ² Professora, Bacharel em Teologia (SP), Bacharel em Filosofia (UFRJ), Especialista em Psicopedagogia (UFAM), Mestre em Educação (UFAM) e Doutoranda em Sociologia da Infância – Instituto de Estudo da Criança (Universidade do MINHO – Portugal). Dentre algumas dificuldades encontradas pelos interessados no âmbito da educação especial, primeiramente, é preciso esclarecer que, a região Norte do Brasil, ainda está em estágio de estabilização e crescimento a aplicação da arte na educação do aluno com necessidade educativa especial, sendo ainda poucos os profissionais que atuam nesse meio, fato que já deveria ter sido superado, uma vez que a arte é um excelente meio educativo que permite a construção de expressão, idiossincrasias e socialização do aluno. Outra situação a ser repensada é a falta qualificação de professores para o trato de deficientes, muitas vezes, tal despreparo tem sua gênesis no próprio período de graduação, pois as universidades quando fornecem componentes curriculares sobre a prática de ensino na educação especial, normalmente oferecem como optativas, ou quando não, esses componentes curriculares aparecem como “tópicos especiais” com carga horária curta mediante ao demasiado assunto a ser explorado, onde nem sempre há tempo de os graduandos visitarem organizações educacionais e terem contato maior com alunos atendidos pela educação especial. Vale comentar ainda que é diminuta a quantidade de material bibliográfico e prático sobre arte com deficientes, produzido na região supracitada, sendo portanto um desafio para o graduando iniciante em pesquisas do ramo, pois além da pouca literatura, para maiores informações ele terá de envolver-se em atividades de campo, como ouvinte, estagiário voluntário ou até mesmo observaçãoparticipante, pois só assim ele construirá, para além do que é encontrado em livros, sua metodologia e adquirirá experiência para atuar diante das especificidades das deficiências (física, mental, auditiva, dentre outras) apresentadas pelos alunos. Superados e enfrentados porém, tais obstáculos, o resultado que pode ser alcançado quando unifica-se o trabalho de arte no desenvolvimento do aluno com deficiência é eficaz em vários aspectos, desde que seja bem direcionado e aplicado, por isso, a docência no campo da educação especial deve estar nas mãos de profissionais ou graduandos que realmente busquem o bem-estar dos alunos deficientes e os reconheçam no seu potencial. Cada necessidade educativa especial ou deficiência, necessita de estímulos específicos para o desenvolvimento dos sujeitos que as apresentam, neste ponto, a arte está como um meio estratégico de oferecer estímulos psicomotores, muitas vezes superiores a quaisquer outras atividades das quais o aluno com deficiência esteja envolvido, por isso é importante que o graduando já tenha a convicção de que seu papel tem de ir além do fazer filantrópico e sim do propiciar desenvolvimento dos alunos com deficiências através das aulas por ele ministradas. Revista Eletrônica Aboré - Publicação da Escola Superior de Artes e Turismo Manaus - Edição 04 Dez/2010 ISSN 1980-6930 173 A arte, que nesta discussão passará sobretudo ser apontada pela prática da dança, quando sai da universidade e passa a ser aplicada aos alunos com deficiência deve fugir do senso comum “fazer caridade”, ou “montar coreografias para ocasiões especiais das organizações ou escolas” e sim deve adentrar na prática com objetivo de estimular o progresso educativo e o desenvolvimento cognitivo e biológico do aluno com necessidade educativa especial. O graduando em dança, que atuará em meio a educação especial, será um canal de contato entre o aluno deficiente e a arte, portanto, sua postura ética e compromissada com seu curso superior e com os sujeitos educandos será essencial para o bem-estar da relação de ensino “dança + aluno com necessidade educativa especial”. A IMPORTÂNCIA DA RELAÇÃO ENTRE PROFESSOR E ALUNO Quando se faz pesquisa científica é comum primeiramente recolher informações sobre a realidade do aluno com deficiência, fazer análise do desenvolvimento do sujeito da pesquisa, para finalmente comparar se estavam certas as hipóteses refutadas pela metodologia da pesquisa. Entretanto, para se chegar a conclusão, é necessário o contato verídico com o aluno deficiente, ou seja, não fazer o trabalho apenas com interesse de apreender informações sobre o aluno sem moverse para que o mesmo cresça em alguma área, ou de aprendizagem, ou de socialização, ou motora, dentre tantas outras. O êxito no relacionamento e conhecimento da história de vida do aluno contribui significativamente para o rendimento da pesquisa, e vai muito além do frio e superficial relacionamento profissional de professor e aluno (apenas durante atividades em sala de aula). Muitas vezes é pelo envolvimento e conhecimento da realidade familiar, pessoal e social do aluno que desvendam-se algumas de suas características em relação a deficiência (seja física, mental ou sensorial). Afinal, nem todos os livros, conferências e seminários são suficientes para formarem um caráter de educador em cada professor e sim há processos em que só mesmo uma seqüência vivencial, em contato com os alunos deficientes, dará condições para tal profissional ou graduando prosseguir com segurança e ética no campo da docência. Obtendo uma relação saudável equilibrada com seu aluno deficiente, o professor acaba por discernir os fatos em evidência que norteiam a vida de seu aluno e conseqüentemente interferem no seu ritmo de aprendizagem e desenvolvimento. Através da relação amistosa, é possível averiguar se o aluno usa sua deficiência como pretexto para adquirir algumas “facilidades” (fazendo chantagem emocional e atitudes do tipo manhosas), ou do contrário, se luta agressivamente conta a deficiência, Revista Eletrônica Aboré - Publicação da Escola Superior de Artes e Turismo Manaus - Edição 04 Dez/2010 ISSN 1980-6930 174 negando-a, ou ainda se conforma-se com seu quadro e diagnóstico e age indiferente e desmotivado à possibilidade de seu progresso. Portanto, considera-se que o progresso pessoal e social do aluno também é conquistado por diálogo extra-classe, quando o mesmo conta como se sente, o que percebe da dinâmica social, o que pensa sobre... E assim por diante. Esta relação de reciprocidade abre espaço para uma série de acréscimos sentidos pelo deficiente, onde ele se sentirá valorizado e por conseguinte gera fortalecimento de sua auto-estima bem como motivação para o aprendizado. Sobre esse vínculo entre professor e aluno sabe-se que “igualmente importante é que o educador tenha em mente a importância do grupo como fonte de sustentação individual e coletiva. Perceber-se como um membro do grupo, mantendo com ele trocas afetivas, é um dos pontos-chave deste trabalho” (MOYSÉS, 2001, p.107). Salienta-se, contudo que, limites precisam ser colocados para que dado relacionamento não torne-se mutuamente invasivo. Para o professor é primordial conhecer a singularidade dos alunos, pois é através desta visibilidade que ele poderá melhor trabalhar seu plano de aula e metodologia de ensino, sabendo como alcançar o aluno menos receptivo, o mais eufórico, o falante, o calado, enfim, fazendo de sua aula o ambiente mais coerente possível para acolher a subjetividade dos alunos e tornar a aula um momento equilibrado entre tantas diferenças pessoais. O aluno está cercado por um meio social, cujo, é formado por diferenças de todos os lados e sua habilidade social bem como sua autonomia precisam ser forjadas tanto pela família quanto pela escola, pois “é sempre em um determinado mundo (no contato com o outro) que o sujeito nasce, cresce, se desenvolve, se constitui. É este mundo (de incontáveis e encantáveis outros) que será, por ele, internalizado, no processo de sua constituição social (KASSAR, 1999, p.69). Por esse motivo o professor e o graduando em dança aspirante à área precisam ainda estar preparados para as mais inusitadas situações, que podem surgir inesperadamente, tanto no meio de uma aula, como em uma hora mais informal e descontraída de conversa e relacionamento com seus alunos com alguma deficiência. Na aula de dança onde o instrumento de trabalho é o corpo humano, é possível aparecerem comentários pejorativos sobre os movimentos usados na aula, onde o aluno deficiente mental, por exemplo, poderá relacionar o movimento corporal ao sexo, chegando inclusive a tocar em sua região genital publicamente; ou surgirem movimentos corporais violentos de um aluno com alta taxa de agressividade para com o outro (acessos de raiva); ou até mesmo crises patológicas e complicações de algumas deficiências (como convulsões relativas à quadro de epilepsia). Revista Eletrônica Aboré - Publicação da Escola Superior de Artes e Turismo Manaus - Edição 04 Dez/2010 ISSN 1980-6930 175 Ainda exemplificando algumas situações inusitadas que podem ocorrer durante uma aula de dança, os motivos estão além do âmbito corporal, ou seja, de repente pode acontecer de um aluno chorar compulsivamente por fatos aparentemente simplórios³ (como saudade dos pais), há o aluno que falta com a verdade em inúmeras de suas afirmações, há aquele que nega-se firmemente a _________ ³ Simplórios quando remete-se às situações simples, as quais aparentemente não representem fatos relevantes e indiferentes para alterarem o comportamento do sujeito. Mas do ponto de vista de quem sofreu alguma situação de trauma relacionado a um fato mesmo que este seja simples, é suficiente para que este torne-se posteriormente um reforço de bloqueio ou que ocasione mal estar. participar das atividades propostas pelo professor, aquele que exige sempre explicações redobradas sobre determinado conteúdo, aquele que aprende o assunto rápido demais e fica impaciente com a demora de seus colegas. Em cada caso, deve-se considerar a área da necessidade educativa especial bem como o nível de comprometimento dessa deficiência no aluno, é preciso que o professor tenha um diálogo aberto, respeitoso e confiável. O PROFESSOR LIDANDO COM AS SITUAÇÕES INUSITADAS EM AULA Os casos mais comuns de situações embaraçosas que podem acontecer na aula de dança são a baixa auto-estima, a agressividade ou a saliência sexual. Para a baixa auto-estima o professor ou graduando em dança devem atentar para os fatores que ocasionam essa queda, e verificar qual o tipo de deficiência envolvida. Seria a dificuldade do aluno de aceitar a sua condição de paralisia (hemiplegia, quadriplegia, diplegia)? Seria a inquietude de o aluno surdo querer manter contato recíproco com o meio e muitas vezes não ser bem sucedido? Seria a frustração do aluno deficiente mental de tentar entender o conteúdo e superar as expectativas colocadas sobre seu quoficiente de inteligência? Enfim, após, estudados os pormenores que levam à baixa auto-estima do aluno deficiente o professor pode estimulá-lo na descoberta de seu valor próprio e mostrar as tantas potencialidades que este aluno tem, desta forma, se o aluno não apreende uma determinada célula coreográfica, ela pode ser adaptada, ou dependendo do nível de resiliência deste aluno, ela poderá servir como um desafio para que ele busque a superação e esforce-se para apreender os movimentos. No âmbito da agressividade que pode ocorrer em aula, é necessário observar se é uma agressividade do aluno para com ele mesmo ou para com outrem, as vezes, será preciso de diálogo com os familiares ou responsáveis para saber se tal comportamento agressivo é comum ou verificar em sala de aula em que situações a agressividade se evidencia mais. Seria pela crítica de um colega? Revista Eletrônica Aboré - Publicação da Escola Superior de Artes e Turismo Manaus - Edição 04 Dez/2010 ISSN 1980-6930 176 Seria por raiva de não acompanhar a aula tão bem quanto queria? Seria por dificuldade de controlar seu próprio corpo? Aqui a dança seria apresentada não como uma repressora da agressividade, mas até mesmo como uma forma de extravasar a mesma, desde que a aula ocorra em nível salutar para todos os alunos. O reforço deve ser feito corporalmente, pelo professor e destacada a importância do domínio próprio, consciência corporal e da aceitação das diferenças individuais dos alunos. Cada aula consiste então em um laboratório para a construção da tolerância deste aluno para com ele mesmo e seu grau de limitação e para o coletivo, onde um deve aceitar o limite do outro respeitando-o. Já as situações embaraçosas na aula de dança que envolvam a questão da sexualidade, é comum que provenham de alunos com deficiência mental (adolescente ou jovem em momento de latência e ainda está confuso sobre como explorar e lidar com sua sexualidade). Essa é uma questão que exige maturidade para ser tratada, pois remete-se à sexualidade que por sua vez envolve conceito de moral deste aluno específico e também dos outros da sala que observam a atitude “desconhecida” ou “incomum” do aluno que se toca intimamente ou quer tocar os outros. Isto se dá pelo fato de a sexualidade junto às necessidades do aluno com deficiência não serem discutidas com tanta clareza na família do aluno, na sociedade e até na escola. Por ser um assunto que gera certo constrangimento e desconforto alguns pais não conversam sobre com os filhos que conseqüentemente extravasam suas energias e dúvidas em algum lugar (podendo ser muitas vezes no ambiente escolar). Por isso é uma vertente que precisa ser estudada e abordada pelo professor, para que tudo esteja bem resolvido, justamente para não ocorrer interrupções e desrespeito, principalmente em aulas de arte que envolvam ritmos mais ousados, às vezes pedindo combinações de pares, casais ou grupos para a realização de pesquisa de movimentos e criação de células coreográficas. Mesmo que as situações supracitadas causem certo receio aos que iniciam seus estudos e pesquisas sobre alunos com deficiência, não precisam ser um motivo para desistência, pois apesar da estranheza, todas podem ser resolvidas com excelência e ética, desde que tenha uma dosagem de compreensão e didática de cada professor, elas somam às experiências e enriquecem humana e cientificamente o conteúdo deste. Por fim, defende-se aqui que é essencial para a concretização da missão do professor estimular uma relação profissional e afetiva com o aluno, assim este último não o verá apenas com temor, mas encontrará cordialidade, achará nas aulas, não só de arte, um momento desejado e estará Revista Eletrônica Aboré - Publicação da Escola Superior de Artes e Turismo Manaus - Edição 04 Dez/2010 ISSN 1980-6930 177 crescendo nos laços de confiança em si e nos outros, gerando então sua autonomia além é claro do aprendizado proposto pela aula. A DIVERSIDADE EM SALA DE AULA, COMO O PROFESSOR DEVE TRATAR? Pode acontecer de este mesmo professor não atender apenas um aluno diagnosticado com alguma deficiência, já que a educação é para todos, muitos outros alunos podem ter necessidades educativas especiais diversas e encaixarem-se na mesma turma, logo, deve-se considerar que cada aluno é um ser e único e portador de características inteiramente pessoais independente das deficiências apresentadas. Por isso o mínimo que o professor deve ter é apreensão de que as deficiências estão organizadas nos seguintes âmbitos e seguimentos: deficiência física, mental e sensorial. Nas palavras de Vitor da Fonseca sobre definição e classificação da deficiência pode-se dizer que a criança deficiente é a que diferencia-se das demais por suas características mentais; aptidões sensoriais; características neuromusculares e corporais; comportamento emocional; aptidões de comunicação; múltiplas deficiências, “… até ao ponto de justificar e requerer a modificação das práticas educacionais ou a criação de serviços de educação especial no sentido de desenvolver ao máximo as suas capacidades” (FONSECA, 1995, p.25). Assim como comentam outros estudiosos do tema, que ao deparar-se com aluno que aprende em ritmo diferente, o professor tem de conviver com a alteridade, portanto, espera-se que o mesmo “saiba nomear as diferenças e considerar a diversidade cultural dos seus alunos, ou seja, multiculturalmente competente, capaz de fundamentar sua prática através de subsídios advindos das experiências e saberes dos distintos grupos” (GOMES, 2003, p.107). E através deste conhecimento possa como profissional competente planejar atividades diversificadas com adaptações metodológicas ou não a fim de facilitar e suprir as necessidades de aprendizagem dos alunos. Ainda sobre a idéia de conhecer a diversidade do aluno e suas especificidades enfatiza-se que ainda que o professor reconheça as dificuldades apresentadas pelo aluno devido a deficiência, ele não deve ocupar sempre um cargo de professor “bonzinho” que só solicita dos alunos com respostas psicomotoras simples, pois agindo assim estará encarnando um sofisma de educador e subestimando a capacidade de seus alunos, mesmo que essa não seja a intenção. Contudo, não estima-se aqui o papel do professor inexorável. ... O reconhecimento da existência dessas diferenças e a compreensão da exata extensão em que impõem limitação ao indivíduo são fundamentais para que se possa oferecer-lhe condições diferenciadas que assegurem a igualdade de oportunidades sem criar-lhes situações de privilégio por ser deficiente. Não se pode correr o risco de, descuidadamente, considerar que todos somos igualmente Revista Eletrônica Aboré - Publicação da Escola Superior de Artes e Turismo Manaus - Edição 04 Dez/2010 ISSN 1980-6930 178 capacitados. Somos diversamente capacitados, o que nos torna diferentes uns em relação a outros, sendo alguns tão acentuadamente diferentes que requerem condições especiais de tratamento para assegurar-lhes a igualdade de direitos (OMOTE, 2001, p.48). Sabe-se também que é um invólucro de desempenho e determinação optar por conhecer o aluno com deficiência, sendo assim, é necessário que o graduando em licenciatura em dança, busque sua capacitação, ainda que disciplinas não sejam vistas e disponibilizadas pelas universidades, sem dúvida, cabe a consciência e integridade deste futuro professor para com seu aluno, pesquisar sobre as deficiências presentes em seu corpo discente, a fim de melhor respaldar-se no assunto da realidade física e mental do acadêmico. Não que seja necessário ser conhecedor inquestionável da neurologia, fisiologia e áreas afins da medicina, mas também não se deve limitar a aprendizagem do aluno em seu potencial criador e atividades estéticas, por não conhecer as singularidades do mesmo, do contrário pede-se que este professor tenha o conhecimento do quadro de seu aluno justamente para saber qual a área limítrofe não para focá-la erroneamente e sim para estimulá-la a superação. Embora afirme-se pelo estigma do senso comum que alunos com deficiência não são incapazes de muitos afazeres, ainda têm professores atuantes nas aulas com alunos deficientes, que quando questionados sobre sua perpétua metodologia de aula respondem que seus alunos “não aprendem coisas complexas”... Afirmações de tal tipo são de causar consternação aos que de fato preocupam-se com o rendimento e conquistas dos alunos com deficiências, independente de quais sejam elas. Certamente não deve-se agir de forma insensata ignorando os sintomas emitidos pelos próprios alunos quando sentem dificuldades ocasionadas pelas deficiências por ele enfrentadas, mas sem dúvida deve haver boa vontade de todos os docentes envolvidos com tal público de melhorarem sempre e estarem sensíveis. Como em todo grupo social, existe sempre em sala de aula afinidade entre os membros e ausência dela, portanto, é de se esperar também que em algumas atividades coordenadas pelo professor, um aluno não queira trabalhar em equipe com o outro, não importando se ambos tenham a mesma deficiência ou não (é importante colocar que refere-se aqui ao relacionamento de alunos com deficiências e não menciona-se preconceito e sim falta de empatia mesmo). Neste caso o professor tem de conciliar a aula e facilitar o convívio entre os indivíduos, agindo de várias maneiras dependendo da situação. O importante é que os alunos aprendam o conteúdo e mutuamente respeitem-se. Revista Eletrônica Aboré - Publicação da Escola Superior de Artes e Turismo Manaus - Edição 04 Dez/2010 ISSN 1980-6930 179 Um dos objetivos de toda organização do professor está para que o aluno desenvolva sua competência estética, também citada nos parâmetros curriculares nacionais, no quesito arte, que os alunos sejam capazes de: “Expressar e saber comunicar-se em arte mantendo uma atitude de busca pessoal e/ou coletiva, articulando a percepção, a imaginação, a emoção, a sensibilidade e a reflexão ao realizar e fruir produções artísticas” (BRASIL,1997, p.53). Este mesmo professor depara-se com alunos com deficiências que têm uma distorção desmedida sobre si e suas capacidades, uns subestimam-se em demasia e inibem-se, outros destacam-se em posição antagônica. As vezes o aluno com deficiência física em aulas de dança não dispõe-se com facilidade para o trabalho corporal, isto por inúmeros motivos como o de debilidade e seriedade física mesmo ou como o de couraças musculares, apresentadas pela teoria reichiana*. Entretanto, a inferioridade em relação a locomoção decerto pode ser superada quando o professor _________ *Wilhelm Reich afirmava que é através do corpo que o homem se expressa. Este influenciou grandemente o estudo sobre o corpo e sua interligação com o psicológico humano e aponta as couraças como bloqueios psíquicos e musculares, sendo a soma de um meio recalcador de defesa. assiste este aluno, quando outros alunos o envolvem nas atividades e principalmente quando este aluno dá espaço para si mesmo aceitando-se, movendo-se e deixando-se ser tocado, mas para ocorrerem dada evolução, nestes casos, o professor sempre funciona como mediador. Por isso este professor deve estar pronto para considerar seu aluno não pela óptica dualista cuja visa a mente separada do corpo, mas considerá-lo holisticamente, assim como Aristóteles quando afirma que o corpo físico é indissociado da razão e da emoção (BOCK, 2001). O professor deve apontar nos alunos suas emoções, aspectos físicos e cognitivos, pois estes pormenores afetam consideravelmente no rendimento do aluno durante as aulas. Logo, entende-se que este professor precisa dominar suas emoções e atitudes a serem dirigidas aos seus alunos com deficiências. Uma palavra mal proferida e de entonação irregular para determinadas situações podem significar muito para estimular positivamente a interação do aluno com o meio ambiente. O conhecimento sobre a estirpe do aluno e da deficiência que o cerca deve sempre ser motivo para que o professor sempre questione e busque melhor posicionamento sobre o tema, indagando-se: “Que tipos de alunos com necessidade educativa especial podem aparecer na sala?”, “como ministra-se ao aluno deficiente mental, ou ao cego, ao surdo, ao cadeirante?”. Tais dúvidas nem sempre têm um manual explicativo sobre como o professor deve proceder, mas já são um bom começo para que ele anele por respaldo teórico e encontre muitas vezes suas respostas na própria sala de aula. Revista Eletrônica Aboré - Publicação da Escola Superior de Artes e Turismo Manaus - Edição 04 Dez/2010 ISSN 1980-6930 180 A TRAJETÓRIA DO PROFESSOR Quanto a trajetória do professor para finalmente chegar ao amadurecimento pode-se afirmar que ele enfrenta muitas situações agradáveis e desagradáveis para o alcance de sua experiência. Este professor nunca será portador do conhecimento pleno sobre a docência com alunos especiais e estará crescendo continuamente em cada sala de aula, cada turma nova representará um desafio e exigirá novas informações. É uma área educacional que tem sido renovada e reestruturada constantemente, na região Norte, impõe disponibilidade, esforços e carece de professores que de fato dediquem-se ao valor da docência com humildade, persistência e humanidade, a fim de que possam representar uma melhora significativa na vida daquele que precisa de acompanhamento – o aluno com deficiência. São poucos professores que integram-se a este campo, pois reconhece-se a dificuldade de se trabalhar com o público com necessidade educativa especial, como por exemplo não saberem como lidar com o sujeito, por terem receio de fracassar em sua missão, ou ainda por não apresentarem interesse algum pela área aqui destacada, ao começar pelas envergaduras que o acompanham desde a época de faculdade, nem sempre ele receberá estímulos na organização em que estuda para prosseguir com pesquisas na área, podendo ainda encontrar dificuldade nos locais de estágio. Tais circunstâncias podem ocasionar a desistência de atuar na área ou que podem servir como um desafio pessoal e estímulo para continuar e tornar-se um professor de educação especial. Embora as idéias aqui expressas tenham parecido um tanto negativas, não é interesse deste texto pontuar somente o lado difícil da realidade do professor face ao aluno com deficiência, e sim buscou-se mostrar a situação por um prisma realista, a fim de que o graduando não embarque no trajeto com uma visão romântica e utópica. Entretanto, não pode-se deixar de comunicar que os poucos que realmente optam pela continuidade e envolvimento com a educação especial querem fazer diferença no seu trabalho são recompensados imensuravelmente pelo evoluir dos alunos em suas maiores dificuldades e superações próprias. A dança e a arte como um todo é um excelente componente construtivo aos que apresentam deficiências, pois em grande parte dos casos tais sujeitos apresentam-se limítrofes em sua interação e autonomia precisando então de auxílio de familiares e professores a fim de desenvolverem-se integralmente, sendo a aula de arte um meio para estimular as funções cognitivas, motoras e sociais dos alunos. A gratidão dos alunos é exposta por diferentes e pessoais maneiras, sejam pelo olhar, gestos e sorriso daquele que não fala, seja pelo progresso na motricidade daquele que não locomove-se Revista Eletrônica Aboré - Publicação da Escola Superior de Artes e Turismo Manaus - Edição 04 Dez/2010 ISSN 1980-6930 181 facilmente, seja pelas mãos e palavras daquele que não enxerga, seja pela coordenação pessoal daquele que é atrasado mentalmente. Há sempre uma recompensa em cada aluno independente do jeito que é declarado. Os acréscimos obtidos pelo aluno com deficiência após o contato com a arte, estão para alem deste texto. O âmbito psicomotor de dado aluno é acrescido de funções mais coordenadas e os relatos das melhorias são reconhecidas não apenas pelos alunos, como pelos seus familiares e demais pessoas de seu circulo de convivência, pois o que eles aprendem e desenvolvem na sala de aula, transcendem as quatro paredes e alojam-se na vida dele. REFERÊNCIAS BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva, 2001. BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Arte. Brasília, MEC/SEF, 1997. FONSECA, Vítor da. Educação Especial: programa de estimulação precoce – uma introdução as idéias de Fuerstein. 2.ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. GOMES, E. S.; COSTA, M. 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