Revista Eletrônica Aboré - Publicação da Escola Superior de Artes e Turismo Manaus - Edição 04 Dez/2010
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O PROFESSOR DE DANÇA FACE AO ALUNO COM
NECESSIDADE EDUCATIVA ESPECIAL. ELE ESTÁ
PREPARADO PARA ATUAR EM TAL REALIDADE?
Érika da Silva Ramos ¹
Orientadora: Profª MSc. Evelyn Lauria Noronha ²
Resumo:
Este texto surgiu com interesse de discorrer sobre a preparação, o primeiro contato e a caminhada do
graduando em dança para atuar na realidade dos alunos com necessidades educativas especiais, enfatizando pormenores
para a construção de sua didática. Faz-se então uma reflexão sobre os desafios encontrados pelo professor que dispõemse a seguir a trajetória de ensinar a dança na educação especial. Consiste no compartilhar de experiência resultante do
envolvimento da pesquisadora com alunos deficientes mentais em meio seus estudos em projetos de iniciação científica
e também oriundos de seus trabalhos de conclusão de curso.
Palavras-Chave: Professor, Realidade, Aluno e Deficiente.
Abstract:
This book arose with interest to discuss the preparations, the first contact and walk on dana graduating to work
in reality for students with special educational needs, emphasizing details to build your didtica. It is then a reflection on
the challenges faced by the teacher who was willing to follow the trajetria to teach dance in particular educate. It consists
of the share experience resulting from the involvement of the researcher with mentally disabled students in their studies
through projects confi-starter and also from the conclusions of its work in progress.
Keywords: Teacher, Reality, Students and Disabled.
Desenvolvimento:
O tema abordado neste texto propicia uma reflexão sobre a qualidade, preparação e aptidão
do graduando (futuro professor) que aspira trabalhar
direcionado ao aluno com necessidade
educativa especial.
Não pretende-se aqui apenas expor uma conotação da realidade como negativa sobre o
envolvimento com docência aos alunos com alguma deficiência, e sim alertar aos interessados na
área, que nem sempre é um caminho simples, trata-se pois de um caminho que quando explorado
torna-se um universo do saber, da sensibilização e de possibilidades ao crescimento, logo não só
preenche o currículo do professor, mas acima de tudo o prepara para ser um profissional o qual
contribuirá ao desenvolvimento do aluno com deficiência, sendo tal contribuição o maior foco da
educação especial.
_________
¹ Licenciatura em Dança (UEA), Graduanda do Curso de Psicologia (UNINORTE), Bolsista da FAPEAM, no Programa
de Apoio a Iniciação Científica (PAIC), Especializanda em Psicomotricidade (GAMA FILHO).
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² Professora, Bacharel em Teologia (SP), Bacharel em Filosofia (UFRJ), Especialista em Psicopedagogia (UFAM),
Mestre em Educação (UFAM) e Doutoranda em Sociologia da Infância – Instituto de Estudo da Criança (Universidade
do MINHO – Portugal).
Dentre algumas dificuldades encontradas pelos interessados no âmbito da educação especial,
primeiramente, é preciso esclarecer que, a região Norte do Brasil, ainda está em estágio de
estabilização e crescimento a aplicação da arte na educação do aluno com necessidade educativa
especial, sendo ainda poucos os profissionais que atuam nesse meio, fato que já deveria ter sido
superado, uma vez que a arte é um excelente meio educativo que permite a construção de expressão,
idiossincrasias e socialização do aluno.
Outra situação a ser repensada é a falta qualificação de professores para o trato de
deficientes, muitas vezes, tal despreparo tem sua gênesis no próprio período de graduação, pois as
universidades quando fornecem componentes curriculares sobre a prática de ensino na educação
especial, normalmente oferecem como optativas, ou quando não, esses componentes curriculares
aparecem como “tópicos especiais” com carga horária curta mediante ao demasiado assunto a ser
explorado, onde nem sempre há tempo de os graduandos visitarem organizações educacionais e
terem contato maior com alunos atendidos pela educação especial.
Vale comentar ainda que é diminuta a quantidade de material bibliográfico e prático sobre
arte com deficientes, produzido na região supracitada, sendo portanto um desafio para o graduando
iniciante em pesquisas do ramo, pois além da pouca literatura, para maiores informações ele terá de
envolver-se em atividades de campo, como ouvinte, estagiário voluntário ou até mesmo observaçãoparticipante, pois só assim ele construirá, para além do que é encontrado em livros, sua metodologia
e adquirirá experiência para atuar diante das especificidades das deficiências (física, mental,
auditiva, dentre outras) apresentadas pelos alunos.
Superados e enfrentados porém, tais obstáculos, o resultado que pode ser alcançado quando
unifica-se o trabalho de arte no desenvolvimento do aluno com deficiência é eficaz em vários
aspectos, desde que seja bem direcionado e aplicado, por isso, a docência no campo da educação
especial deve estar nas mãos de profissionais ou graduandos que realmente busquem o bem-estar
dos alunos deficientes e os reconheçam no seu potencial.
Cada necessidade educativa especial ou deficiência, necessita de estímulos específicos para
o desenvolvimento dos sujeitos que as apresentam, neste ponto, a arte está como um meio
estratégico de oferecer estímulos psicomotores, muitas vezes superiores a quaisquer outras
atividades das quais o aluno com deficiência esteja envolvido, por isso é importante que o
graduando já tenha a convicção de que seu papel tem de ir além do fazer filantrópico e sim do
propiciar desenvolvimento dos alunos com deficiências através das aulas por ele ministradas.
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A arte, que nesta discussão passará sobretudo ser apontada pela prática da dança, quando sai
da universidade e passa a ser aplicada aos alunos com deficiência deve fugir do senso comum “fazer
caridade”, ou “montar coreografias para ocasiões especiais das organizações ou escolas” e sim deve
adentrar na prática com objetivo de estimular o progresso educativo e o desenvolvimento cognitivo
e biológico do aluno com necessidade educativa especial.
O graduando em dança, que atuará em meio a educação especial, será um canal de contato
entre o aluno deficiente e a arte, portanto, sua postura ética e compromissada com seu curso
superior e com os sujeitos educandos será essencial para o bem-estar da relação de ensino “dança +
aluno com necessidade educativa especial”.
A IMPORTÂNCIA DA RELAÇÃO ENTRE PROFESSOR E ALUNO
Quando se faz pesquisa científica é comum primeiramente recolher informações sobre a
realidade do aluno com deficiência, fazer análise do desenvolvimento do sujeito da pesquisa, para
finalmente comparar se estavam certas as hipóteses refutadas pela metodologia da pesquisa.
Entretanto, para se chegar a conclusão, é necessário o contato verídico com o aluno deficiente, ou
seja, não fazer o trabalho apenas com interesse de apreender informações sobre o aluno sem moverse para que o mesmo cresça em alguma área, ou de aprendizagem, ou de socialização, ou motora,
dentre tantas outras.
O êxito no relacionamento e conhecimento da história de vida do aluno contribui
significativamente para o rendimento da pesquisa, e vai muito além do frio e superficial
relacionamento profissional de professor e aluno (apenas durante atividades em sala de aula).
Muitas vezes é pelo envolvimento e conhecimento da realidade familiar, pessoal e social do aluno
que desvendam-se algumas de suas características em relação a deficiência (seja física, mental ou
sensorial). Afinal, nem todos os livros, conferências e seminários são suficientes para formarem um
caráter de educador em cada professor e sim há processos em que só mesmo uma seqüência
vivencial, em contato com os alunos deficientes, dará condições para tal profissional ou graduando
prosseguir com segurança e ética no campo da docência.
Obtendo uma relação saudável equilibrada com seu aluno deficiente, o professor acaba por
discernir os fatos em evidência que norteiam a vida de seu aluno e conseqüentemente interferem no
seu ritmo de aprendizagem e desenvolvimento. Através da relação amistosa, é possível averiguar se
o aluno usa sua deficiência como pretexto para adquirir algumas “facilidades” (fazendo chantagem
emocional e atitudes do tipo manhosas), ou do contrário, se luta agressivamente conta a deficiência,
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negando-a, ou ainda se conforma-se com seu quadro e diagnóstico e age indiferente e desmotivado
à possibilidade de seu progresso.
Portanto, considera-se que o progresso pessoal e social do aluno também é conquistado por
diálogo extra-classe, quando o mesmo conta como se sente, o que percebe da dinâmica social, o que
pensa sobre... E assim por diante. Esta relação de reciprocidade abre espaço para uma série de
acréscimos sentidos pelo deficiente, onde ele se sentirá valorizado e por conseguinte gera
fortalecimento de sua auto-estima bem como motivação para o aprendizado.
Sobre esse vínculo entre professor e aluno sabe-se que “igualmente importante é que o
educador tenha em mente a importância do grupo como fonte de sustentação individual e coletiva.
Perceber-se como um membro do grupo, mantendo com ele trocas afetivas, é um dos pontos-chave
deste trabalho” (MOYSÉS, 2001, p.107). Salienta-se, contudo que, limites precisam ser colocados
para que dado relacionamento não torne-se mutuamente invasivo.
Para o professor é primordial conhecer a singularidade dos alunos, pois é através desta
visibilidade que ele poderá melhor trabalhar seu plano de aula e metodologia de ensino, sabendo
como alcançar o aluno menos receptivo, o mais eufórico, o falante, o calado, enfim, fazendo de sua
aula o ambiente mais coerente possível para acolher a subjetividade dos alunos e tornar a aula um
momento equilibrado entre tantas diferenças pessoais.
O aluno está cercado por um meio social, cujo, é formado por diferenças de todos os lados e
sua habilidade social bem como sua autonomia precisam ser forjadas tanto pela família quanto pela
escola, pois “é sempre em um determinado mundo (no contato com o outro) que o sujeito nasce,
cresce, se desenvolve, se constitui. É este mundo (de incontáveis e encantáveis outros) que será, por
ele, internalizado, no processo de sua constituição social (KASSAR, 1999, p.69).
Por esse motivo o professor e o graduando em dança aspirante à área precisam ainda estar
preparados para as mais inusitadas situações, que podem surgir inesperadamente, tanto no meio de
uma aula, como em uma hora mais informal e descontraída de conversa e relacionamento com seus
alunos com alguma deficiência.
Na aula de dança onde o instrumento de trabalho é o corpo humano, é possível aparecerem
comentários pejorativos sobre os movimentos usados na aula, onde o aluno deficiente mental, por
exemplo, poderá relacionar o movimento corporal ao sexo, chegando inclusive a tocar em sua
região genital publicamente; ou surgirem movimentos corporais violentos de um aluno com alta
taxa de agressividade para com o outro (acessos de raiva); ou até mesmo crises patológicas e
complicações de algumas deficiências (como convulsões relativas à quadro de epilepsia).
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Ainda exemplificando algumas situações inusitadas que podem ocorrer durante uma aula de
dança, os motivos estão além do âmbito corporal, ou seja, de repente pode acontecer de um aluno
chorar compulsivamente por fatos aparentemente simplórios³ (como saudade dos pais), há o aluno
que falta com a verdade em inúmeras de suas afirmações, há aquele que nega-se firmemente a
_________
³ Simplórios quando remete-se às situações simples, as quais aparentemente não representem fatos relevantes e
indiferentes para alterarem o comportamento do sujeito. Mas do ponto de vista de quem sofreu alguma situação de
trauma relacionado a um fato mesmo que este seja simples, é suficiente para que este torne-se posteriormente um
reforço de bloqueio ou que ocasione mal estar.
participar das atividades propostas pelo professor, aquele que exige sempre explicações redobradas
sobre determinado conteúdo, aquele que aprende o assunto rápido demais e fica impaciente com a
demora de seus colegas.
Em cada caso, deve-se considerar a área da necessidade educativa especial bem como o
nível de comprometimento dessa deficiência no aluno, é preciso que o professor tenha um diálogo
aberto, respeitoso e confiável.
O PROFESSOR LIDANDO COM AS SITUAÇÕES INUSITADAS EM AULA
Os casos mais comuns de situações embaraçosas que podem acontecer na aula de dança são
a baixa auto-estima, a agressividade ou a saliência sexual.
Para a baixa auto-estima o professor ou graduando em dança devem atentar para os fatores
que ocasionam essa queda, e verificar qual o tipo de deficiência envolvida. Seria a dificuldade do
aluno de aceitar a sua condição de paralisia (hemiplegia, quadriplegia, diplegia)? Seria a inquietude
de o aluno surdo querer manter contato recíproco com o meio e muitas vezes não ser bem sucedido?
Seria a frustração do aluno deficiente mental de tentar entender o conteúdo e superar as expectativas
colocadas sobre seu quoficiente de inteligência?
Enfim, após, estudados os pormenores que levam à baixa auto-estima do aluno deficiente o
professor pode estimulá-lo na descoberta de seu valor próprio e mostrar as tantas potencialidades
que este aluno tem, desta forma, se o aluno não apreende uma determinada célula coreográfica, ela
pode ser adaptada, ou dependendo do nível de resiliência deste aluno, ela poderá servir como um
desafio para que ele busque a superação e esforce-se para apreender os movimentos.
No âmbito da agressividade que pode ocorrer em aula, é necessário observar se é uma
agressividade do aluno para com ele mesmo ou para com outrem, as vezes, será preciso de diálogo
com os familiares ou responsáveis para saber se tal comportamento agressivo é comum ou verificar
em sala de aula em que situações a agressividade se evidencia mais. Seria pela crítica de um colega?
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Seria por raiva de não acompanhar a aula tão bem quanto queria? Seria por dificuldade de controlar
seu próprio corpo?
Aqui a dança seria apresentada não como uma repressora da agressividade, mas até mesmo
como uma forma de extravasar a mesma, desde que a aula ocorra em nível salutar para todos os
alunos. O reforço deve ser feito corporalmente, pelo professor e destacada a importância do
domínio próprio, consciência corporal e da aceitação das diferenças individuais dos alunos. Cada
aula consiste então em um laboratório para a construção da tolerância deste aluno para com ele
mesmo e seu grau de limitação e para o coletivo, onde um deve aceitar o limite do outro
respeitando-o.
Já as situações embaraçosas na aula de dança que envolvam a questão da sexualidade, é
comum que provenham de alunos com deficiência mental (adolescente ou jovem em momento de
latência e ainda está confuso sobre como explorar e lidar com sua sexualidade).
Essa é uma questão que exige maturidade para ser tratada, pois remete-se à sexualidade que
por sua vez envolve conceito de moral deste aluno específico e também dos outros da sala que
observam a atitude “desconhecida” ou “incomum” do aluno que se toca intimamente ou quer tocar
os outros. Isto se dá pelo fato de a sexualidade junto às necessidades do aluno com deficiência não
serem discutidas com tanta clareza na família do aluno, na sociedade e até na escola. Por ser um
assunto que gera certo constrangimento e desconforto alguns pais não conversam sobre com os
filhos que conseqüentemente extravasam suas energias e dúvidas em algum lugar (podendo ser
muitas vezes no ambiente escolar).
Por isso é uma vertente que precisa ser estudada e abordada pelo professor, para que tudo
esteja bem resolvido, justamente para não ocorrer interrupções e desrespeito, principalmente em
aulas de arte que envolvam ritmos mais ousados, às vezes pedindo combinações de pares, casais ou
grupos para a realização de pesquisa de movimentos e criação de células coreográficas.
Mesmo que as situações supracitadas causem certo receio aos que iniciam seus estudos e
pesquisas sobre alunos com deficiência, não precisam ser um motivo para desistência, pois apesar
da estranheza, todas podem ser resolvidas com excelência e ética, desde que tenha uma dosagem de
compreensão e didática de cada professor, elas somam às experiências e enriquecem humana e
cientificamente o conteúdo deste.
Por fim, defende-se aqui que é essencial para a concretização da missão do professor
estimular uma relação profissional e afetiva com o aluno, assim este último não o verá apenas com
temor, mas encontrará cordialidade, achará nas aulas, não só de arte, um momento desejado e estará
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crescendo nos laços de confiança em si e nos outros, gerando então sua autonomia além é claro do
aprendizado proposto pela aula.
A DIVERSIDADE EM SALA DE AULA, COMO O PROFESSOR DEVE TRATAR?
Pode acontecer de este mesmo professor não atender apenas um aluno diagnosticado com
alguma deficiência, já que a educação é para todos, muitos outros alunos podem ter necessidades
educativas especiais diversas e encaixarem-se na mesma turma, logo, deve-se considerar que cada
aluno é um ser e único e portador de características inteiramente pessoais independente das
deficiências apresentadas.
Por isso o mínimo que o professor deve ter é apreensão de que as deficiências estão
organizadas nos seguintes âmbitos e seguimentos: deficiência física, mental e sensorial. Nas
palavras de Vitor da Fonseca sobre definição e classificação da deficiência pode-se dizer que a
criança deficiente é a que diferencia-se das demais por suas características mentais; aptidões
sensoriais; características neuromusculares e corporais; comportamento emocional; aptidões de
comunicação; múltiplas deficiências, “… até ao ponto de justificar e requerer a modificação das
práticas educacionais ou a criação de serviços de educação especial no sentido de desenvolver ao
máximo as suas capacidades” (FONSECA, 1995, p.25).
Assim como comentam outros estudiosos do tema, que ao deparar-se com aluno que aprende
em ritmo diferente, o professor tem de conviver com a alteridade, portanto, espera-se que o mesmo
“saiba nomear as diferenças e considerar a diversidade cultural dos seus alunos, ou seja,
multiculturalmente competente, capaz de fundamentar sua prática através de subsídios advindos das
experiências e saberes dos distintos grupos” (GOMES, 2003, p.107). E através deste conhecimento
possa como profissional competente planejar atividades diversificadas com adaptações
metodológicas ou não a fim de facilitar e suprir as necessidades de aprendizagem dos alunos.
Ainda sobre a idéia de conhecer a diversidade do aluno e suas especificidades enfatiza-se
que ainda que o professor reconheça as dificuldades apresentadas pelo aluno devido a deficiência,
ele não deve ocupar sempre um cargo de professor “bonzinho” que só solicita dos alunos com
respostas psicomotoras simples, pois agindo assim estará encarnando um sofisma de educador e
subestimando a capacidade de seus alunos, mesmo que essa não seja a intenção. Contudo, não
estima-se aqui o papel do professor inexorável.
... O reconhecimento da existência dessas diferenças e a compreensão da
exata extensão em que impõem limitação ao indivíduo são fundamentais para que se
possa oferecer-lhe condições diferenciadas que assegurem a igualdade de
oportunidades sem criar-lhes situações de privilégio por ser deficiente. Não se pode
correr o risco de, descuidadamente, considerar que todos somos igualmente
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capacitados. Somos diversamente capacitados, o que nos torna diferentes uns em
relação a outros, sendo alguns tão acentuadamente diferentes que requerem
condições especiais de tratamento para assegurar-lhes a igualdade de direitos
(OMOTE, 2001, p.48).
Sabe-se também que é um invólucro de desempenho e determinação optar por conhecer o
aluno com deficiência, sendo assim, é necessário que o graduando em licenciatura em dança,
busque sua capacitação, ainda que disciplinas não sejam vistas e disponibilizadas pelas
universidades, sem dúvida, cabe a consciência e integridade deste futuro professor para com seu
aluno, pesquisar sobre as deficiências presentes em seu corpo discente, a fim de melhor respaldar-se
no assunto da realidade física e mental do acadêmico.
Não que seja necessário ser conhecedor inquestionável da neurologia, fisiologia e áreas afins
da medicina, mas também não se deve limitar a aprendizagem do aluno em seu potencial criador e
atividades estéticas, por não conhecer as singularidades do mesmo, do contrário pede-se que este
professor tenha o conhecimento do quadro de seu aluno justamente para saber qual a área limítrofe
não para focá-la erroneamente e sim para estimulá-la a superação.
Embora afirme-se pelo estigma do senso comum que alunos com deficiência não são
incapazes de muitos afazeres, ainda têm professores atuantes nas aulas com alunos deficientes, que
quando questionados sobre sua perpétua metodologia de aula respondem que seus alunos “não
aprendem coisas complexas”... Afirmações de tal tipo são de causar consternação aos que de fato
preocupam-se com o rendimento e conquistas dos alunos com deficiências, independente de quais
sejam elas.
Certamente não deve-se agir de forma insensata ignorando os sintomas emitidos pelos
próprios alunos quando sentem dificuldades ocasionadas pelas deficiências por ele enfrentadas,
mas sem dúvida deve haver boa vontade de todos os docentes envolvidos com tal público de
melhorarem sempre e estarem sensíveis.
Como em todo grupo social, existe sempre em sala de aula afinidade entre os membros e
ausência dela, portanto, é de se esperar também que em algumas atividades coordenadas pelo
professor, um aluno não queira trabalhar em equipe com o outro, não importando se ambos tenham
a mesma deficiência ou não (é importante colocar que refere-se aqui ao relacionamento de alunos
com deficiências e não menciona-se preconceito e sim falta de empatia mesmo). Neste caso o
professor tem de conciliar a aula e facilitar o convívio entre os indivíduos, agindo de várias
maneiras dependendo da situação. O importante é que os alunos aprendam o conteúdo e
mutuamente respeitem-se.
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Um dos objetivos de toda organização do professor está para que o aluno desenvolva sua
competência estética, também citada nos parâmetros curriculares nacionais, no quesito arte, que os
alunos sejam capazes de: “Expressar e saber comunicar-se em arte mantendo uma atitude de busca
pessoal e/ou coletiva, articulando a percepção, a imaginação, a emoção, a sensibilidade e a reflexão
ao realizar e fruir produções artísticas” (BRASIL,1997, p.53).
Este mesmo professor depara-se com alunos com deficiências que têm uma distorção
desmedida sobre si e suas capacidades, uns subestimam-se em demasia e inibem-se, outros
destacam-se em posição antagônica. As vezes o aluno com deficiência física em aulas de dança não
dispõe-se com facilidade para o trabalho corporal, isto por inúmeros motivos como o de debilidade
e seriedade física mesmo ou como o de couraças musculares, apresentadas pela teoria reichiana*.
Entretanto, a inferioridade em relação a locomoção decerto pode ser superada quando o professor
_________
*Wilhelm Reich afirmava que é através do corpo que o homem se expressa. Este influenciou grandemente o estudo
sobre o corpo e sua interligação com o psicológico humano e aponta as couraças como bloqueios psíquicos e
musculares, sendo a soma de um meio recalcador de defesa.
assiste este aluno, quando outros alunos o envolvem nas atividades e principalmente quando este
aluno dá espaço para si mesmo aceitando-se, movendo-se e deixando-se ser tocado, mas para
ocorrerem dada evolução, nestes casos, o professor sempre funciona como mediador.
Por isso este professor deve estar pronto para considerar seu aluno não pela óptica dualista
cuja visa a mente separada do corpo, mas considerá-lo holisticamente, assim como Aristóteles
quando afirma que o corpo físico é indissociado da razão e da emoção (BOCK, 2001).
O professor deve apontar nos alunos suas emoções, aspectos físicos e cognitivos, pois estes
pormenores afetam consideravelmente no rendimento do aluno durante as aulas. Logo, entende-se
que este professor precisa dominar suas emoções e atitudes a serem dirigidas aos seus alunos com
deficiências. Uma palavra mal proferida e de entonação irregular para determinadas situações
podem significar muito para estimular positivamente a interação do aluno com o meio ambiente.
O conhecimento sobre a estirpe do aluno e da deficiência que o cerca deve sempre ser
motivo para que o professor sempre questione e busque melhor posicionamento sobre o tema,
indagando-se: “Que tipos de alunos com necessidade educativa especial podem aparecer na sala?”,
“como ministra-se ao aluno deficiente mental, ou ao cego, ao surdo, ao cadeirante?”. Tais dúvidas
nem sempre têm um manual explicativo sobre como o professor deve proceder, mas já são um bom
começo para que ele anele por respaldo teórico e encontre muitas vezes suas respostas na própria
sala de aula.
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A TRAJETÓRIA DO PROFESSOR
Quanto a trajetória do professor para finalmente chegar ao amadurecimento pode-se afirmar
que ele enfrenta muitas situações agradáveis e desagradáveis para o alcance de sua experiência. Este
professor nunca será portador do conhecimento pleno sobre a docência com alunos especiais e
estará crescendo continuamente em cada sala de aula, cada turma nova representará um desafio e
exigirá novas informações.
É uma área educacional que tem sido renovada e reestruturada constantemente, na região
Norte, impõe disponibilidade, esforços e carece de professores que de fato dediquem-se ao valor da
docência com humildade, persistência e humanidade, a fim de que possam representar uma melhora
significativa na vida daquele que precisa de acompanhamento – o aluno com deficiência.
São poucos professores que integram-se a este campo, pois reconhece-se a dificuldade de se
trabalhar com o público com necessidade educativa especial, como por exemplo não saberem como
lidar com o sujeito, por terem receio de fracassar em sua missão, ou ainda por não apresentarem
interesse algum pela área aqui destacada, ao começar pelas envergaduras que o acompanham desde
a época de faculdade, nem sempre ele receberá estímulos na organização em que estuda para
prosseguir com pesquisas na área, podendo ainda encontrar dificuldade nos locais de estágio. Tais
circunstâncias podem ocasionar a desistência de atuar na área ou que podem servir como um
desafio pessoal e estímulo para continuar e tornar-se um professor de educação especial.
Embora as idéias aqui expressas tenham parecido um tanto negativas, não é interesse deste
texto pontuar somente o lado difícil da realidade do professor face ao aluno com deficiência, e sim
buscou-se mostrar a situação por um prisma realista, a fim de que o graduando não embarque no
trajeto com uma visão romântica e utópica. Entretanto, não pode-se deixar de comunicar que os
poucos que realmente optam pela continuidade e envolvimento com a educação especial querem
fazer diferença no seu trabalho são recompensados imensuravelmente pelo evoluir dos alunos em
suas maiores dificuldades e superações próprias.
A dança e a arte como um todo é um excelente componente construtivo aos que apresentam
deficiências, pois em grande parte dos casos tais sujeitos apresentam-se limítrofes em sua interação
e autonomia precisando então de auxílio de familiares e professores a fim de desenvolverem-se
integralmente, sendo a aula de arte um meio para estimular as funções cognitivas, motoras e sociais
dos alunos.
A gratidão dos alunos é exposta por diferentes e pessoais maneiras, sejam pelo olhar, gestos
e sorriso daquele que não fala, seja pelo progresso na motricidade daquele que não locomove-se
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facilmente, seja pelas mãos e palavras daquele que não enxerga, seja pela coordenação pessoal
daquele que é atrasado mentalmente. Há sempre uma recompensa em cada aluno independente do
jeito que é declarado.
Os acréscimos obtidos pelo aluno com deficiência após o contato com a arte, estão para alem
deste texto. O âmbito psicomotor de dado aluno é acrescido de funções mais coordenadas e os
relatos das melhorias são reconhecidas não apenas pelos alunos, como pelos seus familiares e
demais pessoas de seu circulo de convivência, pois o que eles aprendem e desenvolvem na sala de
aula, transcendem as quatro paredes e alojam-se na vida dele.
REFERÊNCIAS
BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. Psicologias:
uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva, 2001.
BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Arte.
Brasília, MEC/SEF, 1997.
FONSECA, Vítor da. Educação Especial: programa de estimulação precoce – uma introdução as
idéias de Fuerstein. 2.ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
GOMES, E. S.; COSTA, M. Currículo e Cotidiano no Trabalho com a Diversidade: Metáforas
Representativas do Professor de Educação Especial. In: MARQUEZINE, Maria Cristina. et al.
(Org.). Capacitação de Professores e Profissionais para Educação Especial e suas concepções
sobre inclusão. Londrina: Eduel, 2003.
KASSAR, Mônica de Carvalho Magalhães. Deficiência Múltipla e Educação no Brasil: discurso
e silêncio na história de sujeitos. São Paulo: Autores Associados. 1999.
MOYSÉS, Lúcia. A auto-estima se constrói passo a passo. 4. ed. São Paulo: Papirus, 2001.
(Coleção Papirus Educação).
OMOTE, Sadao. A Concepção de deficiência e formação profissional em educação especial. In
MARQUEZINE, Maria Cristina; (et al). (orgs.). Perspectivas Multidisciplinares em Educação
Especial II. Londrina: Eduel, 2001.
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