Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais Instituição Executora Rua Desembargador Westphalen, 15 - 16º andar 80010-110 - Curitiba - Paraná - Brasil Fone/Fax: 55 41 225 7185 e 323 1268 e-mail: [email protected] - www.maternatura.org.br Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais Adriana Marques Canha Editora técnica Curitiba, agosto de 2004 FICHA TÉCNICA Equipe técnica responsável Adriana Marques Canha Kátia Regina Casula Fornazzari Simone Canha Consoni Colaboradora Letícia Ostrovski Ilustrações Karina Marques Canha Ilustrações das Histórias e Lendas Arielson Marcondes de Oliveira Edicléia Marcondes Buture Érike Marcondes Leal Jocilaine Aparecida Leal Anderson, Angela e Jamil (alunos da 1ª série da Escola de Ribeirão dos Pinheiros) Revisão de texto Leandro Borgonha Fotos Adriana Marques Canha Cirino Corrêa Júnior Kátia Regina Casula Fornazzari Luiz Antonio Biasi Projeto gráfico e editoração Saulo Kozel Teixeira Fotolitos e impressão Optagraf copyright © Mater Natura Ô DE CASA: o saber popular de comunidades rurais / Adriana Marques Canha editora técnica. – Curitiba: Mater Natura Instituto de Estudos Ambientais, 2004. 74 p., il. ISBN: 85-98415-03-0 1. Lendas. 2. Histórias. 3. Artesanato. 4. Plantas medicinais. I. Canha, Adriana Marques, ed. II. Título. CDD 20 305.8 MUITO OBRIGADO Tão importante quanto este livro é lembrar de todos que com sua generosidade e boa vontade acreditaram e se tornaram parceiros nesta realização. Muito obrigado: Prefeitura Municipal de Castro, Secretarias de Educação, Cultura, da Infância e Adolescência; do Abastecimento e Agricultura; e da Saúde; Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais que desde o início colaborou com sua infra-estrutura e apoio financeiro. Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná – SEMA e Instituto Ambiental do Paraná - IAP que com recursos do Fundo Estadual do Meio Ambiente viabilizou a coleta de informações nas comunidades rurais e parcialmente o custo da impressão deste livro. técnicos Juarez Cordeiro e Osmar dos Santos Ribas do Museu Botânico Municipal pela identificação taxonômica das plantas medicinais; Emater – Paraná, na pessoa do Eng. Agr. M. Sc. Cirino Corrêa Júnior pelas informações e imagens de plantas medicinais; Universidade Federal do Paraná – UFPR, na pessoa do professor Dr. Luiz Antonio Biasi pelas imagens de plantas medicinais; Sr. Francisco Leocádio Canha e família pela hospitalidade na fazenda São Lourenço em Castro; professoras Jozana Carneiro, Silmara de Jesus Carneiro, Rosi de Jesus Barbosa e Joseane Alves da Silva; merendeiras Eneli Alves Leal Marcondes e Andrelina de Lourdes Leal de Oliveira e alunos da Escola Rural da Serra do Apon; professoras Elis Regina Kubis e Estela Buturi Carneiro e alunos da Escola Rural de Ribeirão dos Pinheiros. supervisoras rurais Elisângela Canha, Silmara Debétil e Eva Ferraz da Secretaria Municipal de Educação, Cultura, da Infância e Adolescência; agente de saúde Josilda de Jesus Alves da Silva do Distrito do Socavão; Érico Kauano, Daniella L. do Nascimento, Tiago T. Fabri, Sheilla Carvalho pela colaboração nas fases de campo; Leandro Borgonha pelas sugestões e revisão dos textos; artista plástica Karina Marques pelas ilustrações; jornalista Tereza Urban pelo apoio desta edição; Saulo Kozel Teixeira pelo projeto gráfico; comunidades da Serra do Apon, São João do Faxinal, Lagoa dos Alves, Pinhal dos Alves, Funil, Bairro dos Luís e Ribeirão dos Pinheiros, em especial àqueles que nos acolheram em suas casas e à beira do fogão nos enriqueceram com seus conhecimentos. BAIRRO DOS LUIS Carmélia Arminda Ribas Josabel Carneiro Osmário de Oliveira Carneiro FUNIL Acir José Leal Ambrósia Marcondes Ribas Estela Aparecida Buture Carneiro Genipro Marcondes Ribas João Maria Carneiro Sobrinho Joel Rolim Carneiro Maria Marcondes Leal Marilda Aparecida Marcondes Leal Neuza de Lourdes Silva Sebastião Marcondes Ribas LAGOA DOS ALVES Antonio Vilson Alves da Silva Amir Ferreira de Souza Cândida de Jesus Marcondes Souza Cherubino Rodrigues da Silva Dinair Rodrigues de Paula Doracina Mendes Eli Aparecida da Silva Elizangela Aparecida Alves da Silva João Alves da Silva Leal João Ferreira de Souza, dito João Pereira (in Memoriam) João Maria Alves da Silva Josilda de Jesus Alves da Silva Maria Augusta Rodrigues da Silva Maria Caetana Marcondes Maria Castorina Rodrigues dos Santos Mercedes Mendes da Silva Nanci Rodrigues de Paula Roseli de Jesus da Silva Rubens Alves Santos Sebastião Jacinto da Silva Zumira Marcondes da Silva PINHAL DOS ALVES Filomena Ferreira Alves Lourentina Oliveira de Rodrigues Júlio Rodrigues Neto Maria Eloir Marcondes da Silva Vicente Roque da Silva Rozenilda de Jesus da Silva RIBEIRÃO DOS PINHEIROS Antônio Carlos Marcondes Elis Regina Kubis Carneiro Fabiana Marcondes Ribas Butura João Maria Marcondes dos Santos Josemira Lúcia Oliveira Marcondes Lauro Pereira Pinto Leontina Alves de Oliveira Lineu Domingues Butura Maria da Luz Marcondes Carneiro Maria de Jesus Rodrigues Pereira Maria José Alves de Oliveira Ondila Alves de Oliveira Suzana Buturi Valdilha de Jesus Ribas Buturi SÃO JOÃO DO FAXINAL Cândida Rodrigues Nascimento Ferdinando Rodrigues Nascimento Joacir Pereira José Aristides Rodrigues de Melo José Rosa de Almeida, dito Zé Dario Lourdes Mendes Cordeiro Maria Zelinda Rodrigues Maciel Valdomira Alves Marcondes Vani Rodrigues dos Santos SERRA DO APON Anadir de Jesus Leal Aníbal Machado de Araújo Barbina Marcondes Ribas (in Memoriam) Benedito Roque de Campos Leal Cândida Alves Leal Carmélia Marcondes Ribas (in Memoriam) Maria da Conceição Leal Carneiro Edília Leal Eneli Alves Leal Marcondes Ione Marcondes Ribas Isalina Carneiro João Leal José dos Santos Carneiro José Francisco Alpes Jurema Maria Leal Maria de Lurdes Rodrigues da Silva Luiz Carlos Alpes Maria Campos Leal Maria da Luz Carneiro Riva Alpes e a cada um que à sua maneira contribuiu para esta realização. APRESENTAÇÃO N o município paranaense de Castro, em sua porção leste de relevo bastante acidentado, instalaram-se pequenos proprietários rurais, ditos caipiras ou sitiantes. Seja por herança de seus antepassados ou necessidade de migração devido à forte pressão exercida por latifúndios, estes núcleos populacionais impossibilitados de avançar com a mecanização agrícola desenvolveram ao longo de gerações formas próprias de manejo e gestão das áreas naturais. Durante dois anos, o projeto “Resgate do Etnoconhecimento da Região Rural de Castro, Pr” – executado pelo MATER NATURA – Instituto de Estudos Ambientais em convênio com SEMA/IAP/FEMA, verificou a importância de difundir este saber-fazer popular, seus ritos e práticas de subsistência resultantes da percepção ecológica das comunidades tradicionais em sua forte ligação e dependência a estes recursos. A primeira parte deste livro – Remédios das plantas – descreve e ilustra as plantas comumente utilizadas pelas comunidades na medicina caseira, com orientações de identificação, utilização, modo de preparo, posologia, alertas à toxicidade e equívocos de uso. Toda informação aqui prescrita está em conformidade com os mais recentes estudos nesta especialidade. Segue um índice por doenças, para uma rápida consulta às plantas mais eficazes e indicadas para cada enfermidade, além de informações sobre os cuidados que garantem a extração dos princípios ativos das plantas na preparação do remédio. E para contribuir e estimular o plantio de plantas medicinais e aromáticas, este guia também possui informações básicas de cultivo, colheita, armazenamento e secagem. Resgatadas pelas crianças das Escolas Rurais da Serra do Apon e Ribeirão dos Pinheiros no concurso “Cata Lendas” e descritas de forma ilustrativa, as Lendas e Histórias expressam por meio de mitos e símbolos a percepção aguçada de mundo e os valores pregados pelos contadores de causos da região. O artesanato local surge da necessidade de criar manualmente seus objetos de uso. Em Do Artesanal ao Artesanato esta tradição apresenta-se ilustrada descrevendo o prazer na criação de cada peça, sua beleza e originalidade, inseparáveis de sua função. Adriana Marques Canha, Coordenadora PREFÁCIO E sta publicação possui especial relevância tanto para a equipe técnica responsável por sua elaboração quanto para o MATER NATURA – Instituto de Estudos Ambientais, propositor do projeto que viabilizou a coleta de informações constantes nesta obra. Sua disponibilização às comunidades rurais do município de Castro representa o cumprimento da filosofia de ação e de objetivo estatutário do MATER NATURA, que determina a sistematização e difusão de informações à sociedade. Representa também o compromisso ético de retornar estes conhecimentos coligidos aos seus verdadeiros depositários, as citadas comunidades rurais. Esta responsabilidade é igualmente assumida em projeto similar realizado no litoral paranaense quando, em reuniões comunitárias, foram apresentados cursos de esclarecimento sobre o uso de fitoterápicos e entregue apostilas aos habitantes do entorno do Parque Nacional de Superagüi (Guaraqueçaba-PR). O lançamento deste livro faz parte das comemorações do 21º aniversário de fundação (7 de agosto de 1983) desta ONG. Demonstra a dedicação da equipe técnica do projeto em contribuir com a conservação da diversidade biológica e cultural do Paraná, reafirmando a missão do MATER NATURA. Desde 1992 é a sexta publicação devidamente catalogada junto a Fundação Biblioteca Nacional em que o MATER NATURA é o autor ou co-autor. O financiamento do projeto Resgate do etnoconhecimento da região rural de Castro – cujo presente livro era um dos produtos previstos – originou-se do convênio entre nossa ONG e o governo do Estado do Paraná, por intermédio da Secretaria de Estado do Meio Ambiente – SEMA e do Instituto Ambiental do Paraná – IAP, com recursos do Fundo Estadual do Meio Ambiente – FEMA. Integrante de um conjunto de mais de 40 projetos conveniados com Prefeituras e ONGs paranaenses (Edital FEMA nº 01), em 5 de junho de 2002, a brusca e, ainda hoje, inexplicável paralisação unilateral dos recursos por parte do Estado, prejudicou a execução e a conclusão de todos os projetos componentes do Edital. O MATER NATURA recebeu apoio de três das quatro parcelas trimestrais previstas no convênio, permitindo o levantamento das informações em campo. Contudo, todo o trabalho de compilação, ordenamento e sistematização dos dados coligidos foram realizados de forma voluntária pelas técnicas do projeto, bem como o projeto gráfico, executado sem nenhum ônus, por Saulo Kozel Teixeira. Outras despesas, como fotolitos, foram assumidas integralmente pelo MATER NATURA. A ausência desta última parcela prejudicou uma devolução mais efetiva destes conhecimentos à população local, inviabilizando a realização de reuniões com funcionários das Secretarias de Educação (professores) e de Saúde (agentes de saúde) da Prefeitura Municipal de Castro, e membros das comunidades para um repasse mais direto das informações coligidas. Um fato isolado como este não abala a perspectiva em continuar, nas próximas décadas, nosso trabalho em parceria com outras ONGs, setores privados, universidades, centros de pesquisas e órgãos governamentais, a exemplo de dois projetos significativos – Revisão do Plano de Manejo do Parque Estadual Vila Rica do Espírito Santo e Livro Vermelho da Fauna Ameaçada de Extinção no Estado do Paraná – realizados em parceria com a SEMA e o IAP e concluídos no primeiro semestre de 2004. Paulo Aparecido Pizzi, Presidente do Mater Natura SUMÁRIO 15 REMÉDIOS DAS PLANTAS Alecrim 16 Guiné 31 Alfavaca 17 Hortelã-pimenta 32 Araçá 18 Levante 33 Artemísia 19 Losna 34 Aroeira 20 Maçanilha 35 Arruda 21 Manjerona 36 Boldo 22 Melissa 37 Carqueja 23 Mentruz 38 Chapéu-de-couro 24 Novalgina 39 Cipó-milome 25 Palma-fedida 40 Erva-cidreira 26 Pinheiro 41 Erva-de-bicho 27 Quebra-pedra 42 Erva-de-santa-maria 28 Rubim 43 Espinheira-santa 29 Sete-sangrias 44 Gengibre 30 Terramicina 45 Referências consultadas 46 Fotos das plantas medicinais 47 Índice por doenças 53 Preparação do remédio 56 Dicas de cultivo 57 LENDAS E HISTÓRIAS DO ARTESANAL AO ARTESANATO 61 69 REMÉDIOS das plantas ALECRIM - Rosmarinus officinalis Foto 1 E ncontrado em solos pedregosos e arenosos, acredita-se que estimula a memória: os gregos usavam nos cabelos ao estudarem para provas. Queima-se como incenso para purificar o ambiente, como fazem D. Maria Caetana e D. Zumira, da Lagoa dos Alves. Segundo D. Marilda, do Funil, a defumação é feita com alho e arruda para afastar o mau olhado na criação. Todas comunidades usam como calmante para os nervos. Na Lagoa dos Alves, Seu Querubino usa o chá para dor de barriga, dor de cabeça e para desânimo (anemia ou depressão); D. Mercedes para bronquite e tosse; Seu João Pereira para cortar a febre. Já D. Filomena, do Pinhal dos Alves, indica o chá para problemas cardíacos e D. Valdilha, do Ribeirão dos Pinheiros, para cólica menstrual. Segundo Seu Osmário, do Bairro dos Luís, é bom para gripe. Para sabermos mais... Indicado para os sistemas respiratório, renal, hepático e intestinal. Também para má digestão, úlceras, gases, hemorróidas, cistite (inflamação da bexiga), gota (inflamação das articulações), colesterol alto, insônia, memória fraca, perda do apetite, frigidez e pressão alta. Utilização local para dores reumáticas, queda de cabelo e caspa, e como cicatrizante e anti-séptico de feridas. Como preparar Uso externo: para reumatismo, queda de cabelo e feridas locais, infusão com 50g de folhas em 1 litro de água para banhos e lavagens locais. Uso interno: Em 1 xícara média, colocar 2g ou 1colher (chá) das folhas e adicionar água fervente. Abafar 10 minutos. Beber 3 vezes ao dia. Alerta ✔ O uso do alecrim durante a noite, pode alterar o sono. ✔ Em grandes quantidades provoca intoxicação com aparecimento de sono profundo, espasmos (contração involuntária dos músculos), inflamação de estômago e intestino (gastroenterite), sangue na urina, irritação nervosa e em doses maiores pode provocar até mesmo a morte. ✔ Contra indicado para quem tem problemas de pele, gestantes, e pessoas com problemas de próstata. Referências consultadas: 1,3,7,10,11,12 16 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais ALFAVACA - Ocimum selloi Foto 2 C onhecida também por alfavaca do mato, alfavaca do reino, alfavaca-decasca e paulista. Possui aroma semelhante ao anis e é muito utilizada pela comunidade do Funil. Segundo recomendações de D. Ambrósia e sua filha Maria, moradoras locais, combate gripe, dor de garganta, febre e retira friagem (resfriado). No Bairro dos Luís buscam sua ação diurética para problemas de bexiga e rins. Como a espinheira-santa também é usada no combate às úlceras gástricas. Para sabermos mais... Problemas das vias respiratórias como bronquite e tosse. Ajuda a eliminar os gases intestinais e evita vômitos. Como preparar Uso interno: Infusão com 1 colher (sobremesa) de folhas e inflorescências picadas. Despeje água fervente em 1 xícara (chá). Abafe e tome este coado 2 a 3 vezes ao dia antes das refeições. Para problemas respiratórios recomenda-se o xarope, feito com o mesmo coado, mais concentrado com adição de 2 xícaras de açúcar cristal. Levar ao fogo até dissolver. Tomar 1 colher (sopa) 2 a 3 vezes ao dia; e para as crianças, metade desta dose. Já Sebastião (Neno) - filho de D. Ambrósia e Seu Genipro do Funil - indica seu xarope para gripe e pressão alta. Deixe ferver por 10 minutos 1 folha grande de jaguarandi (foto 31), 100g de avenca (foto 32), 100g de folha de eucalipto, 3 folhas de novalgina (foto 24), 1 folha de sálvia (foto 33), 100g de levante (foto 18), 3 folhas de capim-cidró (foto 34) e 200g de alfavaca em 1 litro de água, 15 colheres de açúcar e 1 copo de mel. Coar e ferver novamente até engrossar. Beber 1 colher (sopa) 3 vezes ao dia para adultos e metade desta dose para crianças. Uso externo: Seu forte aroma proporciona banhos relaxantes com o chá mais concentrado diluído na água quente. Muitos conciliam o banho com a ingestão do chá no combate a gripe e febre. Seu Joacir, do Faxinal, indica também para aliviar dores no corpo e nas pernas. Referências consultadas: 1, 7 l 17 ARAÇÁ - Psidium cattleianum Foto 3 T anto o araçá-vermelho quanto o araçá-amarelo, naturais da Mata Atlântica, têm seus frutos muito apreciados. Nas comunidades são indicados para dor de barriga, problemas intestinais, disenteria, estufamento e ronco na barriga. Para sabermos mais... Possui eficaz atividade antimicrobiana e anti-hemorrágica. Como preparar Uso interno: A D. Leontina, do Ribeirão dos Pinheiros, faz chá das folhas. Seu Lauro e D. Valdilha, também do Ribeirão, Seu Joacir, do Faxinal, e D. Carmélia, da Serra, fazem infusão das folhas ou do broto. D. Maria, do Funil, adiciona maisena ao chá, para disenteria. Na Lagoa dos Alves, Seu João Pereira masca as folhas ou um pedaço da casca da árvore para cortar a disenteria. A ingestão do fruto se faz in natura. ✔ Verifique as medidas no item Preparação do remédio. Referências consultadas: 2,6,12,13 18 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais ARTEMÍSIA - Artemisia vulgaris Foto 4 M ultiplica-se por rizomas. Conhecida por otimija e artemija na comunidade do Funil. Na Lagoa dos Alves, Seu Querubino usa o chá da raiz para constipação e dor de barriga. Segundo D. Dinair e D. Zumira é ótima para fazer descer a menstruação e aliviar as cólicas, afirma também D. Estela, do Funil. Na Serra do Apon, Seu Anibal usa para recaída (desânimo) e Seu Benedito para machucadura, porém, ele alerta que ingerida em grandes doses pode ser abortiva. Para sabermos mais... Para gastrite, reumatismo, febre, flatulência (acúmulo de gases), anemia, icterícia, nervosismo, ansiedade, problemas no fígado e útero, convulsões (epilepsia, também conhecida por doença do ar), e para derrubar lombrigas (vermífugo). Tem propriedades inseticidas, agindo localmente contra piolhos e lêndeas. Os raminhos secos colocados nos armários repelem as traças. Como preparar Uso interno: Infusão para problemas digestivos, colocar 1 colher (sopa) das folhas em 1 litro de água quente. Abafar por 10 minutos. Beber 1 xícara após as refeições. Para cólicas menstruais, colocar 1 colher (chá) em 1 xícara (chá) de água quente e abafar por 5 minutos. Beber 2 a 3 xícaras (café) ao dia. Para o sistema nervoso, use 15g da planta para 1 litro de água quente. Beber 2 a 4 xícaras ao dia. Uso externo: Para reumatismo fazer compressas do suco das folhas e/ou raízes no local afetado. Do mesmo modo para piolhos e lêndeas. Alerta ✔ Não é indicada para mulher grávidas ou que estejam amamentando; ✔ Não deve ser ingerida em doses acima das indicadas, podendo ser tóxica, causando convulsões, problemas hepáticos, mentais e psíquicos. Referências consultadas: 1, 3, 12 l 19 AROEIRA - Schinus terebinthifolia Foto 5 N ativa do Brasil e conhecida em todo meio rural, é cultivada por semente e estaquia. D. Maria e Seu João, do Ribeirão dos Pinheiros, recomendam a madeira para construção de palanques e cercas. O chá da casca é utilizado pelos moradores da região para tratamentos bucais, como analgésico nas dores de dente ou antiinflamatório, e segundo D. Maria, do Funil, nos casos de estrubute (raiz do dente inflamado). D. Vani e Seu Joacir do Faxinal usam como cicatrizante e anti-séptico de feridas da pele. Para D. Mercedes, da Lagoa dos Alves, por sua ação contra fungos e bactérias, o chá das folhas pode ser utilizado para lavagens de assento. Para sabermos mais... Recomendam-se banhos de assento no tratamento de feridas no colo do útero, hemorróidas e sífilis. O chá é indicado para febre, doenças do sistema urinário e respiratório, reumatismo, hemorragia uterina, inflamações de garganta e gengiva, e também para azia e gastrite. Como preparar Uso interno: Decocção cozinhando 100g da entrecasca limpa seca e em pedaços, em 1 litro de água. Para os frutos (100g), cozinhá-los duas vezes, em 1/2 litro de água cada vez. Beber 30ml, 2 vezes ao dia. Uso externo: Este cozimento é recomendado nos banhos de assento para feridas e hemorróidas, e nas compressas para feridas da pele. Para inflamações de gengiva e garganta, gargarejos e bochechos adicionando 1 ou 2 partes de água para a mesma quantia do cozimento. Alerta ✔ Seguir a dosagem. O uso indevido causa irritações na pele e mucosa; ✔ Os frutos não devem ser ingeridos: provocam intoxicação com vômitos e diarréias, inflamação nas mucosas e irritação no estômago. Referências consultadas: 1, 4, 7, 12 20 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais ARRUDA - Ruta graveolens Foto 6 M uitas famílias da região acreditam em sua proteção contra o mau-olhado, misturando-a com plantas aromáticas nas defumações. D. Ambrósia, do Funil, usa a arruda com folhas de rosário (foto 35), capim-cidró (foto 34), alecrim (foto 1), palha do alho e queima em casa e próximo à criação. Josabel, do Bairro dos Luís, além de rosário, acrescenta guiné (foto 16) e um papelzinho com os nomes das pessoas de mau agouro e dá misturado no milho para criação comer. Nas comunidades é indicada para ardência nos olhos, ciscos, batidas e vista cansada. D. Mercedes, da Lagoa, indica para cólicas menstruais e D. Estela, do Funil, para dor de dente. D. Mercedes, da Lagoa, e a família do Seu Vicente, do Pinhal, fazem uso local em machucaduras e feridas. D. Josabel, do Bairro dos Luís no, combate ao piolho. Para sabermos mais... Vermífugo, é recomendada para febre, cãimbras, doenças do fígado e de ouvido, inflamações na pele (abscessos e furúnculos), sarna, incontinência urinária e calmante dos nervos. Como preparar Uso interno: Infusão fraca para atraso menstrual, preparado com 1 colher (café) de folhas picadas em 1 xícara (chá). Beber 2 vezes ao dia. Uso externo: Contra dor de ouvido, coloca-se 2 ou 3 gotas de sumo no ouvido doente. Para os olhos, segundo D. Dinair, da Lagoa dos Alves, e D. Estela, do Funil, deixar a folha moída em água fria de um dia para outro; ou fazer infusão da erva, filtrar, deixar esfriar e lavar os olhos. Ou ainda compressas no local, ensopando dois chumaços de algodão. Para feridas, D. Mercedes mistura no álcool erva-doce (foto 36), palma-fedida (foto 25) e mentruz (foto 23); ou segundo Seu Vicente com alho, fumo (foto 37) e mel na forma de emplastro. Para sarna e piolhos, infusão mais forte de 20g de folhas para 1 litro de água e passar na área afetada. Para inflamações de pele, emplastro de folhas frescas sobre o local. Cobrir com gaze. Alerta ✔ Bastante cuidado com seu uso interno. O excesso provoca graves hemorragias sobre o útero, sendo contra indicado em mulheres grávidas. ✔ O uso externo provoca queimaduras na pele quando exposta ao sol. Referências consultadas: 1, 4, 10, 11, 12 l 21 BOLDO - Plectranthus barbatus Foto 7 V árias espécies são denominadas popularmente por boldo. Em Castro identificam-se duas espécies diferentes utilizadas para os mesmos fins, o Plectranthus barbatus, conhecido por boldo e figatil, e o Plectrantus neochilus, conhecido por boldo, boldo-do-chile e boldo-do-reino (foto 38). Segundo as comunidades, atua no sistema digestivo: estômago embrulhado, dor no fígado e dor no peito causada pelo acúmulo de gases. D. Estela, do Funil, usa o chá para lavagem de cabeça contra piolhos. Para sabermos mais... Utilizada no controle da gastrite e úlceras, má digestão, azia, mal-estar gástrico, ressaca e como estimulante da digestão e do apetite. Como preparar Uso interno: Infusão de folhas (frescas): 3 a 4 folhas para 1 xícara média. Beber 1 a 3 xícaras por dia, adoçando ou não. Alerta ✔ O falso-boldo (Plectrantus barbatus), muitas vezes é confundido com o malvariço (Plectrantus amboinicus) (foto 39). As duas plantas possuem propriedades bem diferentes. O falso-boldo possui folhas macias e dobráveis e característico sabor amargo ausente nos ramos. ✔ Devido às substâncias amargas, doses elevadas de P. barbatus podem causar irritação gástrica. Não deve ser utilizado por pessoas com doenças graves no fígado. Referências consultadas: 1, 4, 6, 7 22 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais CARQUEJA - Baccharis trimera Foto 8 N ativa do sul e sudeste do Brasil, não é exigente quanto ao solo, que deve possuir boa drenagem. Na Lagoa dos Alves, a carqueja é utilizada contra o reumatismo. Seu João Pereira indica para quem quer emagrecer. Para pressão alta, D. Doracina sugere a planta moída com a erva mate no chimarrão. E em dias de calor recomenda o refresco do chá misturado com hortelã, que além de refrescar o corpo, corta a febre. Na Serra do Apon, D. Barbina e sua filha Ione usam o chá na puxada para derrubar as bichas. No Faxinal e Bairro dos Luís os moradores indicam para dores do estômago, causadas por má digestão ou úlceras, e também para problemas de fígado e bexiga. D. Josabel recomenda para anemia. Para sabermos mais... Remove cálculos da vesícula e do fígado e atua contra vermes intestinais. Estimula a fertilidade feminina e controla a impotência masculina. Indicada para colesterol alto e diabetes, reduz o nível de açúcar no sangue. Recomendada para diarréias, enjôos, garganta inflamada, lepra, inflamações nas vias urinárias e icterícia. Como preparar Uso interno: Infusão com 1 colher (sopa) de hastes e folhas picadas em 1 xícara (chá). Adicionar água fervente e abafar. Beber 3 vezes ao dia, 30 minutos antes das refeições. Uso externo: Na Serra do Apon, D. Barbina e Ione usam o chá com 9 brotos de samambaia na puxada para derrubar as bichas. A puxada é o banho das pernas. Joga-se o chá nas coxas, massageando de cima para baixo até o tornozelo. Para garganta inflamada, gargarejo com o chá. Alerta ✔ O tratamento deve ser feito de 3 em 3 meses. Referências consultadas: 1, 3, 4, 7, 11, 12 l 23 CHAPÉU-DE-COURO - Echinodorus grandiflorus Foto 9 N ativa de todo continente, é encontrada em brejos e rios. Todas as comunidades conhecem seu poder medicinal contra problemas de inflamação da bexiga e cálculos renais. É um depurativo do organismo devido a sua ação diurética. Seu José Dario, do São João do Faxinal, recomenda no tratamento do reumatismo e dor na coluna. Para sabermos mais... Tratamento da sífilis, doenças de pele e fígado. Interrompe a arteriosclerose. Antiinflamatório para garganta, estômago, gengiva e próstata. Indicado no tratamento local de inflamações nas articulações, na eliminação do ácido úrico, para hérnias e dores nos nervos. Como preparar Uso interno: Para problemas das vias renais, infusão com 1 colher (sobremesa) do pó das folhas secas e moídas. Adicionar água fervente em 1 xícara (café). Beber 2 vezes ao dia. Uso externo: No tratamento de reumatismo, hérnias e dores nos nervos, os rizomas são aplicados como cataplasma. Feito com farinha e o cozido da planta, aplica-se ainda quente entre 2 panos finos na região afetada. Recomenda-se para inflamação da próstata, a infusão em banhos de assento 2 ou 3 vezes ao dia. E como gargarejo e bochechos para a garganta, estomatite e gengivite. Referências consultadas: 1, 7, 11, 12 24 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais CIPÓ-MILOME - Aristolochia triangularis Foto 10 N ativa do Brasil é bastante comum no Vale do Ribeira. O cipó geralmente extraído da floresta é utilizado como chá ou no chimarrão. Nas comunidades da Serra do Apon, São João do Faxinal, Lagoa dos Alves, Bairro dos Luís e Ribeirão dos Pinheiros usa-se contra a gripe. Indicado para dor de barriga, acúmulo de gases, intoxicação estomacal, resfriado, cólica menstrual e para mulher de dieta (pós-parto). Seu Benedito, da Serra do Apon, e o Seu Ferdinando, do Faxinal, recomendam como vermífugo (bichas). No Funil usam para febre. Na Lagoa dos Alves, Seu João Pereira recomenda para eczemas e moris (doença de pele, impurezas do sangue). Para sabermos mais... Provoca a menstruação e favorece a secreção urinária. É tranqüilizante, desinfetante e estimula a transpiração. Atua contra asma, gota, convulsões, palpitações, coceira, doenças venéreas, malária, cistite (inflamação da bexiga), e ciática. Estimulante do apetite, do fígado e dos rins. Recomenda-se uso local contra frieiras, micoses, caspa, orquite (testículos inflamados) e o vírus da herpes. Como preparar Uso Interno: Para problemas gástricos, hepáticos, renais e tensão pré-menstual, infusão com 1 colher (sobremesa) de ramos secos para 1 xícara. Ingerir 2 vezes ao dia antes das refeições. Uso externo: Infusão na forma de banho para caspa e orquite. Para picada de cobra, usar no local o extrato alcóolico feito com segmentos do caule e macerados em álcool. Alerta ✔ Existem espécies de cipó-milome que podem produzir efeitos tóxicos no fígado e nos rins, podendo causar câncer. ✔ Espécie abortiva, não é indicada para mulheres grávidas. Referências consultadas: 1, 2, 3, 5, 6, 12 l 25 ERVA-CIDREIRA - Melissa officinalis Foto 11 C omo a Lippia alba (foto 22), também é conhecida por melissa nas comunidades. Além de sedativo para depressão e ansiedade, Seu Vicente, do Pinhal, diz que acalma e estimula o sono, indicando-a para insônia. D. Zumira, da Lagoa dos Alves, indica para dores de cabeça. D. Mercedes, da Lagoa, e D. Maria, da Serra do Apon, indicam para má circulação e palpitação do coração. Uso local indicado para caxumba. Para sabermos mais... Para dores de dente, má digestão, gases, enjôos, problemas hepáticos e biliares, gripe, resfriado, tosse, bronquite crônica, dores de origem reumática, picada de inseto e feridas. Possui forte ação virustática sobre a herpes. Em gestantes evita o entupimento mamário. Como preparar Uso interno: Infusão com 1 colher (sobremesa) de folhas e inflorescências frescas. Picar e adicionar água fervente em 1 xícara (chá). Beber 1 xícara pela manhã e outra à noite. Uso externo: Folhas em compressa sobre os seios, herpes, caxumba e picadas de inseto. No caso de gestantes, limpar bem o local antes de amamentar. Para dores de dente, bochechos com o chá. Alerta ✔ Não exceder a dosagem indicada acima, podendo provocar entorpecimento, falta de ar e diminuição do ritmo cardíaco e arterial. ✔ Evitar o uso para pessoas com hipersensibilidade. Referências consultadas: 1, 3, 7, 11, 12 26 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais ERVA-DE-BICHO - Polygonum hydropiperoides Foto 12 N asce em lugares úmidos, como margens de rios. Nas comunidades suas propriedades antiinflamatória, analgésica e cicatrizante a indicam na profilaxia dos ferimentos. Seu José Dário, morador do Faxinal, recomenda no tratamento de hemorróidas. Seu Joacir e D. Vani misturam com alho e folha de laranjeira para descongestionante gripal. D. Barbina, da Serra do Apon, recomenda o vapor do chá para infecção vaginal. D. Ambrósia, do Funil, e Seu João Pereira, da Lagoa, indicam o banho da erva para dores nas pernas e inchaço. Para sabermos mais... Uso local para dores reumáticas, artrite, úlceras de pele e doenças venéreas como gonorréia e sífilis. Uso interno para diarréia, parasitas intestinais, febre, problemas nas vias urinárias e estimulante da circulação, atuando sobre varizes e varicoses. Como preparar Uso externo: Aplicação local do chá concentrado (30g para 1litro) na forma de compressas sobre feridas e problemas na pele; na forma de 2 banhos de assento diários para hemorróidas e doenças venéreas; e como cataplasma, nos casos de reumatismo, artrites e dores musculares. Uso interno: Para doenças venéreas, infusão com 1 colher (sopa) de folhas e ramos picados em 1 xícara de água fervente, 2 vezes ao dia. Alerta ✔ Crianças e gestantes não devem fazer uso. Referências consultadas: 1, 7, 11, 12 l 27 ERVA-DE-SANTA-MARIA Foto 13 Chenopodium ambrosioides R eproduz-se por sementes, tem cheiro forte e desagradável. Conhecida como mastruço e mastruz, pode ser confundida com o mentruz (foto 23). As comunidades usam-na para verminoses. D. Maria, do Funil, diz ser a única planta que derruba a bicha arejada preta (Ascaris lumbricoides). Porém, Seu Joacir, do Faxinal, alerta que este remédio não pode ser consumido todo dia. Para sabermos mais... Vermífugo humano eficaz também no uso veterinário. Inseticida doméstico (pulgas, percevejos, baratas), fumigante contra mosquito, inibe o crescimento de larva de pragas na lavoura. Indicada para parasitas da pele como bicho-geográfico. Para problemas das vias respiratórias (resfriados, gripes, bronquites, tuberculose, tosses, catarro crônico, inflamação de garganta e sinusite) e problemas estomacais. Abaixa a febre. Combate o reumatismo, as dores ciáticas e inchaços locais (contusões, fraturas e destroncamento). Como preparar Uso interno: Infusão para problemas respiratórios, estomáticos, reumáticos e como vermífugo. Colocar 1 colher (sobremesa) das folhas e inflorescências em 1 xícara com água fervente. Abafar 10 min, coar, adoçar e tomar 1 a 2 vezes ao dia. Para verminose, 1 xícara de chá em jejum. D. Lourdes, do Faxinal, adiciona leite fervido na planta, abafa e serve às crianças para derrubar as “bichas”, porém este preparo diminui seu poder vermífugo, sendo indicado para gripe e resfriado. D. Mercedes e D. Dinair, da Lagoa, torram a folha na chapa, moem e misturam com farinha e açúcar. Já no Funil e no Faxinal, costumam misturá-la com pó de chifre de boi ou de carneiro, açúcar, hortelã-preta (foto 40), fumo (foto 37) e sementes de abóbora. Moer no pilão e ingerir 1 colherada em jejum em dias alternados. Uso externo: Para problemas de pele e traumatismos, maceram-se 3 colheres (sopa) de folhas frescas, estende-se em um pano limpo e aplica-se no local afetado, 2 a 3 vezes ao dia. Em travesseiros e saquinhos, suas folhas secas afugentam insetos. Alerta ✔ Antes da ingestão do remédio pelas crianças, fazer o teste alérgico; ✔ Doses excessivas ocasionam vertigens, vômitos e dores de cabeça; ✔ Contra-indicada para gestantes e mulheres que estão amamentando. Referências consultadas: 1, 2, 3, 8, 9, 12 28 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais ESPINHEIRA-SANTA - Maytenus aquifolia Foto 14 N ativa do Sul do Brasil é encontrada em beiras de Matas com Araucária, capões e matas ciliares com solo úmido e rico em matéria orgânica. É utilizada pelas comunidades principalmente no chimarrão. Na Serra do Apon é indicada para problemas estomacais como má digestão, hiperacidez, gastrite e úlceras. Na comunidade São João do Faxinal, Seu José Dário usa como cicatrizante, que age tanto internamente, nas úlceras do estômago, como externamente, na pele. No Funil, serve como analgésico para dores nas costas. Sua função diurética atende também problemas de fígado, bexiga e rins. Para sabermos mais... Utilizada no tratamento de câncer, com aplicações locais sobre o câncer de pele. Possui efeito anti-séptico, expectorante e laxativo (gases). Como preparar Uso interno: Infusão ao colocar água fervente em 1 xícara (chá) com 1 colher de (sobremesa) de folhas picadas. Abafar e tomar antes das refeições. Uso externo: Fazer emplastro e aplicar sobre ferimentos e inflamações. Alerta ✔ Em mulheres que amamentam pode haver redução no leite. Referências consultadas: 1, 2, 3, 11, 12 l 29 GENGIBRE - Zingiber officinale Foto 15 O sabor picante dos rizomas é usado em alimentos e bebidas. D. Lurdes, do São João, do Faxinal, cozinha com quirera e Seu Benedito, da Serra do Apon, põe a raiz no quentão, para dar um sabor especial. O chá, antiinflamatório e expectorante, é ótimo para resfriados. D. Cândida, do Faxinal, queima a raiz com açúcar para a gripe. Na Lagoa dos Alves, D. Dinair diz que além da gripe, o chá cura rouquidão; Seu Querubino recomenda para dor de dente e de garganta. D. Lourentina, do Pinhal dos Alves, afirma que o chá também é bom para tosse. Para sabermos mais... No tratamento dos sistemas hepático, digestivo (cólicas, náuseas e má digestão) e respiratório (asma e bronquite). Uso local para reumatismo, traumatismo, dores em nervos inflamados (articulações, torcicolo e nervos ciáticos), hemorróidas e mau hálito. Como preparar Uso interno: Para problemas respiratórios e digestivos, gripe e cólicas, ferva 50g da raiz em 1 litro de água. Adoce com mel e tome 1 xícara 3 vezes ao dia. Ou ferva 1 colher (chá) da raiz triturada em 1 xícara de água. Tome 4 vezes ao dia. A raiz fresca pode ser mascada, para rouquidão, dores estomacais, náuseas e ânsia de vômito. Uso externo: Para reumatismo, fazer cataplasma com raiz moída ou ralada e colocar em pano fino; ou tintura com 100g da raiz moída em 0,5 litro de álcool. Para ferimentos ou cortes, moer a raiz e extrair o suco, que será, depois, coado e usado localmente. Alerta ✔ O uso local em excesso pode provocar queimaduras. Referências consultadas: 1, 2, 3, 7, 11, 12 30 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais GUINÉ - Petiveria alliacea Foto 16 N ativa da região amazônica, é indicada para dores no corpo e cabeça devido ao poder analgésico, anestésico e antiinflamatório de suas raízes. Diminui as dores de dente e previne cáries. Seu Querubino, da Lagoa dos Alves, indica para resfriados, dores na bexiga e estômago. Para sabermos mais... Para inchaço, artrite, reumatismo, malária e memória fraca. Trata cistite, doenças do útero e distúrbios pulmonares. Suas folhas são inseticidas. Como preparar Uso externo: Para prevenção de cáries e combate à inflamações bucais e infecções na garganta, infusão com 1 colher (sopa) de folhas secas picadas e 1 colher (sobremesa) da raiz picada em 1 xícara de água fervente. Amornar e fazer gargarejos ou bochechos 2 vezes ao dia. Para contusões, traumatismos, dores lombares, reumáticas e de cabeça, colocar este preparado num pano limpo e aplicar na região afetada. Uso interno: Infusão fraca com 2g de material seco (raízes e/ou folhas) para 1 litro de água. Beber 1/2 copo desta infusão 2 ou 3 vezes ao dia. As raízes, analgésicas e anestésicas, são mais ativas que as folhas. Alerta ✔ Cuidado no uso oral, principalmente da raiz, que em doses elevadas ou repetidas é considerada tóxica. Em altas doses é abortiva. ✔ O uso contínuo provoca envenenamento lento com sintomas de insônia, superexcitação e alucinações. Seguido de indiferença, fraqueza cerebral, convulsões, paralisia da laringe, chegando até mesmo à morte. Referências consultadas: 1, 3, 12, 13 l 31 HORTELÃ-PIMENTA - Mentha piperita Foto 17 D evido à polinização e cruzamento de várias espécies de Mentha, há o surgimento de híbridos como a hortelã-pimenta. Suas indicações nos tratamentos de doenças não diferem da hortelã-preta, pois suas características e propriedades se assemelham. No Funil, D. Ambrósia e Seu Genipro recomendam o chá para vermes; D. Maria utiliza para dores estomacais e aquela sensação de estufamento dos gases e má digestão. Já D. Matilde, da Serra do Apon, usa como descongestionante para gripe e resfriados. Na Lagoa dos Alves, D. Nanci usa para dores de cabeça e D. Dinair para infecções. Para sabermos mais... Indicada para inflamação dos tímpanos, palpitação, tremedeira, e vômitos ocasionados pelo nervosismo. Alivia cólicas menstruais, tosse e bronquite. Recomendada para diarréia e falta de apetite. Diminui a secreção gástrica aliviando a dor nos casos de gastrite e úlcera. Possui ação cicatrizante e analgésica nos casos de ferimentos e contusões. O uso local da hortelã pimenta é recomendado para inflamações de garganta (laringite), na boca (dores de dente) e gengiva. Como preparar Uso interno: Infusão para complicações estomacais. Chá gelado indicado para vômitos. A seguir, receita e recomendações do xarope para bronquite ensinado por D. Maria do Funil: em 2 copos de água e 1 de mel, ferva, até amarelar, folhas de ameixa-amarela, limeira, hortelã-pimenta com um punhadinho de cravo (comprado na mercearia). Deixe esfriar e tome 1 colher (sopa) antes de dormir. Conserve na geladeira, provando antes para ver se não azedou. Uso externo: Infusão morna em gargarejos e bochechos para inflamações na boca e gengiva. Alerta ✔ Em altas doses provoca moleza e sonolência. ✔ Diminui a produção de leite de mulheres que amamentam. Referências consultadas: 1, 2, 7, 12, 13, 14 32 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais LEVANTE - Mentha arvensis Foto 18 I ntroduzida por imigrantes japoneses, possui odor e sabor mentolado forte. Além do uso medicinal, D. Dinair, da Lagoa dos Alves, coloca algumas folhinhas no chimarrão, para dar um sabor especial. No Faxinal de São João, é utilizada por D. Cândida para dores de cabeça e por D. Valdomira para dor de estômago, uso também indicado por D. Maria do Funil, D. Doracina, da Serra e Seu Lineu, do Ribeirão. No Funil, D. Ambrósia e Seu Genipro utilizam como descongestionante para gripe, e como analgésico para dores no corpo. Segundo D. Jurema, da Serra do Apon, pode ser utilizada para tosse. Para sabermos mais... Ativa contra bactérias e fungos, recomendada para inflamações na boca, faringe e infecções. Também para problemas gástricos e vômitos. É indicada ainda contra coceiras e irritações da pele. Como preparar Uso interno: Infusão de 6 a 10 folhas em 1 xícara de água fervente. Abafe e deixe esfriar. Beba gelado para problemas gástricos. Seu forte aroma, inspirado lentamente, serve para desobstrução nasal e alívio do mal-estar respiratório do início da gripe; se a esse macerado misturarem-se folhas de alecrim (foto 1), apresenta melhores resultados. Uso externo: Para dores de cabeça, massagem na região lateral da cabeça com folhas frescas. Para inflamações de boca e faringe, recomenda-se gargarejos e bochechos. Compressas e/ou massagens com a tintura podem ser feitas nos locais afetados pelas afecções da pele. Alerta ✔ As folhas não devem ser fortemente aspiradas, pois esta forma de tratamento, em excesso, pode provocar paralisia respiratória. Referência consultada: 1, 18 l 33 LOSNA - Artemisia absinthium Foto 19 A mplamente usada na medicina caseira, cresce em locais pedregosos. Tolera o sombreamento, mas não resiste à geada. As comunidades recomendam para problemas estomacais e de fígado. Seu forte sabor influencia na melhor digestão dos alimentos, aumentando a produção de saliva. Estimula as secreções do estômago e os movimentos internos do intestino, eliminando gases e aliviando dores de barriga e estômago. Para amenizar estes sintomas na criação, Seu Aristides, do Faxinal, mistura a erva com a ração. Já Matilde, da Serra do Apon, recomenda para diarréia. Fabiana, do Ribeirão dos Pinheiros, indica para aliviar as cólicas menstruais. Moradores da Lagoa dos Alves, São João do Faxinal e Funil indicam como vermífugo. Para sabermos mais... Recomendado para febre, problemas na vesícula, mau hálito, pequenos ferimentos e picadas de insetos. Estimulante da circulação sangüínea (inchaços locais), da boa disposição física e do apetite. Como preparar Uso interno: Infusão com 1 colher (chá) de pedacinhos da planta para 1 xícara média. Tomar de 1 a 3 xícaras ao dia 1/2 hora antes das refeições. Uso externo: Decocção com 1 punhado de planta fresca em 1 litro de água. Ferver e aplicar compressas no local ou fazer lavagens em pequenos ferimentos e picadas de insetos. O uso de cataplasma ou compressa quente no local é recomendado para dores do ventre. Contra vermes, Suzana, do Ribeirão, amassa a folha e com o sumo faz massagens na barriga para derrubar a lombriga. D. Maria, benzedeira da comunidade do Funil e sua mãe, D. Ambrósia, indicam dois modos de fazer a puxada: um deles é moer a folha com vinagre e esfregá-la puxando do rosto para o pescoço. Ou moer as folhas com hortelã, açúcar e um pouco de álcool, e passar nas pernas, esfregando das coxas para baixo. Fazer 3 vezes seguidas as 2 aplicações. Alerta ✔ Seu uso prolongado e a ingestão de altas doses provocam vômitos, cólicas no estômago e nos intestinos, dores de cabeça, zumbido nos ouvidos e distúrbios nervosos, perturbações psíquicas e alucinações. ✔ Não deve ser ingerida durante a gravidez, já que é abortiva. Referências consultadas: 1, 2, 12, 13 34 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais MAÇANILHA - Matricaria chamomilla Foto 20 O nome Matricária vem de mater, útero em latim, mostrando sua antiga utilização em doenças femininas. Muito utilizada nas comunidades, D. Carmélia, da Serra do Apon, a recomendava na recuperação da mulher no pós-parto e para aliviar as cólicas do bebê. D. Cândida, do Faxinal, D. Maria Caetana, D. Maria Castorina, D. Dinair e toda a comunidade da Lagoa dos Alves consideram um bom calmante para a ansiedade. Indicam-na também para gases, má digestão e dores de barriga. Para sabermos mais... Indicado para diarréia e náuseas, auxilia na reconstituição da flora intestinal. Possui ação contra bactérias e triconomas. Tem uso farmacêutico em pomadas para queimaduras e acne (cicatrizante). E utilizado na inflamação da gengiva e como combatente a herpes. Como preparar Uso interno: Para cólicas do bebê, infusão de 1g de flores secas para 240ml (1 mamadeira); para problemas digestivos e nervosos, infusão de 5g para _ litro de água. Beber 2 a 3 xícaras ao dia, entre as refeições. Uso externo: Para problemas de pele e herpes, fazer compressas com infusão de 5g para 1 copo de água. Para inflamações na boca, gargarejos com este preparado. Recomendação: antes do uso, as flores devem ser secas ao ar e armazenadas ao abrigo da luz. Alerta ✔ Deve ser usado com cautela por gestantes, pois há ação abortiva. ✔ Superdosagem provoca náuseas, excitação nervosa e insônia. Referências consultadas: 1, 4, 7, 11, 12 l 35 MANJERONA - Origanum majorana Foto 21 C ultivada nas hortas da região, é apreciada como tempero nos molhos da galinha caipira. É recomendada para problemas respiratórios. Descongestionante, sedativa e analgésica nos casos de tosse, bronquite, gripe, resfriado e fôlego (asma, cansaço pela falta de ar ou dificuldade de respirar). D. Josabel, do Bairro dos Luís, combate a insônia comendo a erva fresca com alho no pão antes de dormir. Seu João Pereira, da Lagoa, tomava o chá para a digestão, combatendo as cólicas estomacais. Para sabermos mais... Indicado para queimaduras e feridas, dores musculares (contusões), dores de cabeça, sistema nervoso e cólicas menstruais. Aumenta a excitabilidade sexual. Como preparar Uso interno: Infusão com 1 colher (sopa) de folhas ou inflorescências para 1 xícara (chá) de água quente. Abafar 10 minutos, adoçar com mel e tomar durante o dia, como calmante. Digestiva após as refeições. Para bronquite, as comunidades misturam na xícara (chá) da erva 1 colher (chá) de banha de galinha. Contra tosse, xarope com açúcar ou mel. Uso externo: Banho morno para estimular os músculos, tratar feridas e queimaduras. Ferver 100g de folhas em 1,5 litro de água. Coar e misturar na banheira. O cataplasma e a compressa também são recomendados para a região afetada. Alerta ✔ Abortiva, não deve ser ingerida durante a gravidez. Referências consultadas: 1, 2, 12, 13 36 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais MELISSA - Lippia alba Foto 22 P lanta nativa, seu chá é usado em todo o país pelo seu sabor delicioso e sua ação calmante atribuída pela medicina tradicional. A comunidade da Lagoa dos Alves a conhece também como erva-cidreira. Como calmante, diminui sintomas de angústia, insônia e ansiedade, causadores de pontadas no coração. D. Zumira, da Lagoa dos Alves, recomenda como analgésico e relaxante para aliviar dores de cabeça. Para sabermos mais... Recomenda-se para problemas digestivos em geral, como má digestão, intoxicação alimentar, cólicas e náuseas. Alivia cólicas menstruais e intestinais. Tem poder expectorante para tosse e gripe. Uso externo indicado para hemorróidas e tratamento de herpes. Como preparar Uso interno: Infusão de 5g de folhas secas ou 10g de folhas verdes em 1/2 litro de água. Beber 3 vezes ao dia para gripe, tosse, problemas estomacais e como calmante. Uso externo: Compressas frias com a infusão nos locais feridos, sobre o herpes e hemorróidas. Banhos quentes indicados para gripe e tosse. Alerta ✔ Evite ingerir doses elevadas por longos períodos. O uso prolongado, no máximo de 3 meses, pode provocar irritação gástrica. Referências consultadas: 1, 2, 7, 9, 11, 13 l 37 MENTRUZ - Coronopus didymus Foto 23 P lanta nativa, também conhecida na Serra do Apon por mastruço. Nessa comunidade e em São João do Faxinal é apreciada em saladas, por seu forte cheiro de agrião. Seu uso medicinal a recomenda para dores musculares, feridas e machucaduras (batidas). D. Maria Zelinda - a senhora mais idosa da região - indica para reumatismo. Seu poder expectorante alivia a tosse e trata a bronquite. Para sabermos mais... Purifica o sangue, combate gastrite, problemas nas vias urinárias e inflamações na boca como gengivite e sintomas relacionados ao escorbuto (falta de vitamina C). Como preparar Uso externo: Para dores, feridas e reumatismo recomenda-se tintura e emplastro. Na tintura, mergulha-se a planta no álcool durante algum tempo, em local escuro. Após o repouso, derrame sobre o local dolorido massageando. Também utiliza-se cachaça ou vodca como infusão substituta na extração dos princípios ativos. O mentruz pode ser associado com palma fedida (foto 37) ou rubim (foto 28). No emplastro as folhas, flores e sementes são maceradas com um pouco de água até formar uma pasta, usada na área afetada atada com um pano limpo, por 2 horas. Uso interno: Xarope para tosse e bronquite. Sobre 1 colher de sopa de folhas, flores e sementes picadas em 1 xícara (café), adicionar água fervente e 2 xícaras de açúcar. Levar ao fogo até dissolver. Tomar 1 colher (sopa) 3 vezes ao dia por 2 dias. Referências consultadas: 1, 12 38 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais NOVALGINA - Achillea millefolium Foto 24 M ultiplica-se por estaca e divisão da touceira. Conhecida também como mil-folhas, anador, novalgina-da-horta e pronto alívio. Alguns a conhecem por camomila, confundindo-na com a maçanilha ou camomila verdadeira (foto 20), gerando dúvidas nas indicações de uso. Há duas indicações de uso da maçanilha, que são melhor recomendadas pela novalgina. Uma delas como energético em forma de chá com gemada, preparada com malva (foto 41) e noz-moscada (foto 42). E a segunda forma para deter hemorragias do útero, pulmonar e hemorroidais. Indicada pelas comunidades para problemas estomacais e de digestão, como dores de estômago, de barriga, diarréia e barriga inchada (gases). D. Filomena, do Pinhal dos Alves e D. Maria, da Luz do Ribeirão dos Pinheiros, recomendam para febre. Sua ação antiinflamatória e expectorante melhora gripe e resfriados. Indicada a pessoas nervosas, desanimadas e com insônia. Para sabermos mais... Para infecções das vias respiratórias, cálculos renais e gota. Regula hemorragias uterinas, tanto retendo o excesso, como estimulando as interrompidas. Alivia cólicas menstruais. Melhora as condições gerais da circulação sanguínea. Estimula o apetite. Usada contra vermes. Cicatrizante e antiinflamatória, age localmente em feridas, contusões, dores musculares e reumáticas, queimaduras, doenças de pele, hemorróidas e fissuras no ânus, e infecções na próstata. Como preparar Uso externo: Infusão para banho de assento em exposição mínima de 15 minutos para feridas locais. Para dores reumáticas, cólicas menstruais e renais, recomenda-se cataplasma das inflorescências em aplicação sobre a área afetada durante 15 minutos 3 vezes ao dia. Uso interno: Para outras enfermidades e sintomas. Infusão com água fervente em 1 xícara (chá) com 1 colher (sobremesa) de inflorescências picadas. Abafar e beber 2 vezes ao dia. Alerta ✔ O suco da planta fresca em contato com a pele pode provocar queimaduras e vermelhidões. ✔ Uso prolongado desencadeia reações alérgicas em pessoas sensíveis. Referências consultadas: 1, 2, 7, 11, 12, 13 l 39 PALMA-FEDIDA - Tanacetum vulgare Foto 25 C onhecida também por catinga-de-mulata, cresce junto a brejos, lagos, margens de caminhos e terrenos baldios. Cura infecções e mata bactérias, sendo útil no tratamento de feridas e machucados (contusões); D. Maria Caetana, da Lagoa dos Alves, utiliza com álcool para lavar inflamações. Na Serra do Apon, D. Anadir mistura com mentruz (foto 23) e hortelã no álcool e usa para dores do corpo. D. Maria, do Faxinal de São João, recomenda para reumatismo. No Funil, D. Ambrósia usa o chá para derrubar bichas, e D. Estela, para dores estomacais. Para sabermos mais... Alivia cólicas menstruais fazendo descer a menstruação. Indicada para dor de dente, sarna e dores ciáticas. Também é inseticida doméstico: espalhe folhas secas pela casa para espantar moscas, traças e pulgas. Como preparar Uso externo: Infusão utilizada no banho para sarna. Bochecho para dor de dente. Para contusões e outras dores, macere folhas frescas, limpas e aplique no local envolvendo-o com tecido fino. Ou como solução em 1/2 litro de álcool, com 50g de folhas amassadas e 1 colher (sopa) de sal. Coloque num vidro e feche bem. Aplique 3 vezes ao dia no local. Uso interno: Raramente é usada via oral, apenas para facilitar a menstruação, aliviar náuseas e estimular o apetite. Recomenda-se infusão de 20g das flores em 1/2 litro de água fervente e beber 2 xícaras ao dia. Para vermes, infusão em 200ml de água fervente. Adicione 10g de flores e folhas. Beba (sem adoçar) 1 vez ao dia durante 1 semana. Alerta ✔ Chá abortivo não indicado para mulheres grávidas. ✔ Planta tóxica com reações adversas quando em altas dosagens. Referências consultadas: 1, 3, 5, 12, 13 40 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais PINHEIRO - Araucaria angustifolia Foto 26 T ípica da região sul do Brasil, árvore símbolo do Paraná. Conhecida por araucária, pinheiro-do-paraná, pinheiro-do-brasil e pinhão teve grande importância na economia do estado. O desmatamento a restringiu a capões e reservas legais. Seu fruto é bastante apreciado, porém sua madeira, de alta qualidade, é a causa de sua extinção. Em Castro os pinheirais eram dominantes no passado. Atualmente, sobretudo no Ribeirão dos Pinheiros, ainda é possível apreciar sua bela paisagem. D. Josabel, do Bairro dos Luís, usa o xarope da base do broto do pinheiro e mel contra gripe e dor de garganta. Seu Sebastião, do Funil, faz um preparado contra gripe e dor de garganta. Seu Aníbal, da Serra, usa o chá das folhas como fortificante. Além do uso medicinal, seus frutos são excelentes fontes nutricionais consumidos cozidos e assados. Para sabermos mais... Folhas indicadas para anemia, debilidade, escrófula, e tumores causados por distúrbios linfáticos. Combate a diarréia. Usado localmente para cobreiro, reumatismo, varizes e distensões musculares. Como preparar Uso interno: Chá, por decocção das folhas, pode ser apurado com mel para fazer o xarope. O preparado fervido do Seu Sebastião leva, além das folhas do pinheiro, sálvia (foto 33) e 1 dente de alho. Uso externo: Sua casca, mergulhada em álcool é usada para cobreiro, reumatismo, varizes e distensões musculares. Sua resina é aromática. Referências consultadas: 1, 3, 5, 12, 13 l 41 QUEBRA-PEDRA - Phyllanthus niruri Foto 27 N ativa da região tropical, é encontrada em fendas de calçadas, terrenos baldios, jardins e hortas. A quebra-pedra facilita a eliminação dos cálculos renais (pedras nos rins) sem dor e sangramento. Segundo D. Dinair, da Lagoa dos Alves, suas propriedades diurética e analgésica aliviam dores nas cadeiras. Indicada para dores na região inferior das costas causadas por problemas nos rins (cólicas renais) e bexiga (cistite, retenção da urina). D. Maria Caetana, da Lagoa dos Alves, indica para dores de barriga e como fortificante do estômago. Para sabermos mais... Para reumatismo e afecções caracterizadas por taxas elevadas de ácido úrico. Estimula o apetite. Ativo contra o vírus da hepatite B. Como preparar Uso interno: Decocção com 30 a 40g da planta fresca ou 10 a 20g da planta seca, para 1 litro de água. Ferver por 10 minutos. Filtrar e guardar na geladeira até o dia seguinte. Beber 1 xícara três vezes ao dia. Alerta ✔ Devido à sua ação tóxica, interrompa o uso do chá por 1 semana, a cada período de tratamento de 3 semanas. Referências consultadas: 1, 4, 7, 11, 12 42 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais RUBIM - Leonorus sibiricus Foto 28 U tilizada no sabão artesanal, D. Dinair, da Lagoa dos Alves, usa a mesma água do cozimento das folhas para apurar o sabão. Nas comunidades é recomendada para machucaduras. D. Valdilha, do Ribeirão dos Pinheiros, amassa as folhas, mistura com álcool e sal, e usa diretamente nos locais afetados. Seu Anibal, da Serra do Apon, usa o chá para curar a tosse; e para dor das cadeiras (dor nos rins) D. Jurema recomenda fritar as folhas no azeite e após esfriar, aplicar no local dolorido. No Bairro dos Luís, D. Josabel usa para aliviar dores e inchaços provocados pelas varizes. Para sabermos mais... Para problemas nos rins, irritação do estômago, cessar vômito, regular o ciclo menstrual, bronquite e eliminar impurezas do sangue. Como preparar Uso interno: Chá das folhas para problemas renais e eliminar toxinas. Chá das flores para bronquite e tosse comprida. A planta inteira e as sementes para casos de menstruação excessiva e dolorida, sangramento pós-parto e problemas renais. ✔ verificar medidas de uso desta planta nas dicas de preparação do remédio. Alerta ✔ O seu uso deve ser evitado por mulheres grávidas. Referências consultadas: 1, 12, 13 l 43 SETE-SANGRIAS - Cuphea balsamona Foto 29 C om forte crescimento espontâneo, dita erva-de-sangue, é conhecida também por perna-de-saracura na Lagoa dos Alves e guaco-do-mato no Faxinal. No Funil, D. Ambrósia, D. Maria e D. Marilda usam para problemas da bexiga e dos rins. Na Lagoa dos Alves, indica-se também para bexiga, segundo D. Maria Caetana. No Faxinal, Seu Joacir e D. Vani recomendam para dores nos rins e na coluna, proveniente de infecções renais. Na Lagoa, D. Zumira e D. Mercedes indicam para pressão alta e D. Doracina usa a sete-sangrias com cipó-são-joão-da-costa(foto 43). Na Serra do Apon, D. Barbina usa a sete sangrias para inflamações nos olhos. Para sabermos mais... Excelente remédio contra arteriosclerose e palpitações do coração, é sedativa do coração, diaforética (provoca suadouro), antiinflamatória das mucosas, antitérmico nas febres. Limpa o estômago e os intestinos, auxiliando disenterias, diarréias e a eliminação do ácido úrico. Reduz colesterol e obesidade. Indicada para sífilis, reumatismo e afecções da pele (eczemas, psoríase e úlceras). Como preparar Uso interno: Infusão com folhas e flores. Decocção com ramos, caules e raízes. Ferver por 15 minutos 2 colheres em 1 litro de água. Abafar 10 minutos e tomar 4-5 xícaras por dia, morno e sem açúcar. Segundo D. Ambrósia e D. Maria, do Funil, as indicações para dores nos rins, bexiga e coluna, são como infusão. No chimarrão, colocam um galinho junto à erva, com consumo livre durante o dia. Uso externo: Compressas de 6 colheres (sopa) em 1 litro de água para problemas de pele e inflamação nos olhos. Deixe esfriar. Aplicar no local várias vezes ao dia. Alerta ✔ Não é aconselhado seu uso por crianças. Referências consultadas: 4, 5, 11, 12 44 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais TERRAMICINA - Alternanthera brasiliana Foto 30 N ativa de áreas abertas da região litorânea e amazônica, é conhecida na Lagoa dos Alves como penicilina e anador. No Funil como melhoral. E no Pinhal dos Alves, como sibalena. Suas propriedades analgésicas a indicam para dores de cabeça e no corpo. Antiviral para a gripe. Antiinflamatória ou antibiótico para a febre. Relaxante para os nervos, também é recomendada para tosse. Para sabermos mais... Para infecções de garganta, rins, dentes, e cicatrização ao lavar feridas. Elimina impurezas, sendo indicada para problemas de fígado e bexiga. Como preparar Uso interno: Infusão de 1 colher (sobremesa) de inflorescências picadas em 1 litro de água. Beber 3 a 4 xícaras de chá ao dia. Uso externo: Utilizar esta infusão para gargarejos e lavagem de feridas. Alerta ✔ Seu uso contínuo pode ser tóxico. Referências consultadas: 1, 2, 13, 14 l 45 REFERÊNCIAS CONSULTADAS 1 LORENZI, H. & MATOS, F.J.A. Plantas Medicinais no Brasil - Nativas e Exóticas. Nova Odessas, SP: Instituto Plantarum, 2002. 2 DI STASI, L.C. & HIRUMA-LIMA, C.A. Plantas Medicinais na Amazônia e na Mata Atlântica. 2ª ed. rev. e amp., São Paulo: Ed. UNESP, 2002. 3 EPAGRI - Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina S.A. CD-Rom de Plantas Medicinais e Aromáticas. Florianópolis: EPAGRI. 4 ALMEIDA, E. R. Plantas Medicinais Brasileiras: conhecimentos populares e científicos. São Paulo: Ed. Hemus, 1993. 5 FRANCO, L.L. As Sensacionais 50 Plantas Medicinais + algas - campeãs de poder curativo. Vol. II. Curitiba: Ed. Lobo Franco, 2001. 6 ALICE, A.B.; SIQUEIRA, N.C.S.; MENTZ, L.A.; SILVA, G.A.A. B.; JOSÉ, K.F.D. Plantas Medicinais de Uso Popular - Atlas Farmacológico. Canoas: Ed. da Ulbra, 1995. 7 LIMA, R.X. Guia Básico de Plantas Medicinais - APA de Guaraqueçaba - Paraná - Brasil. SPVS - Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental, Programa Floresta Atlântica, Curitiba, 1996. 8 PANIZZA, S. Plantas que curam: cheiro de mato. 3ª ed. São Paulo: IBRASA. 1998 9 BALMÉ, F. 1982. Plantas medicinais. Editora Hemus limitada, São Paulo. 10 BORNHAUSE, R.L. Ervas do sítio. São Paulo: BEI Comunicações, 1998. 11 TESKE, M. & TRENTINI, A.M. Herbarium - Compêndio de Fitoterapia. 3ª ed., Curitiba: Ingra, 1997. 12 BALBACH, A. A Flora Nacional na Medicina Doméstica. Vol. II. 3ª parte. 11ª ed. São Paulo: Ed. MVP. 1971. 13 CÔRREA, M.P. Dicionário das plantas úteis do Brasil e das exóticas cultivadas. RJ: Imp. Nacional, 6 vol. 1984. 14 GRANS, W. F. P. Plantas medicinais de uso popular em 5 distrito da Ilha de Santa Catarina. Florianópolis, SC. Dissertação (Mestrado em Botânica) - Dpto. Botânica, UFPR. Curitiba, 1999. 15 FAVORETO, R.F.; VELASCO, R.; FERREIRA, J.L.P. Estudo da anatomia foliar de Araucaria angustifolia (Bertol.) O. Kuntze. Museu Emílio Goeldi, PA. Dispinível em: http://www.adaltech.com.br/evento/museugoeldi/resumoshtm/resumos/R0803-2.htm. Acesso em 01/07/04. 16 ANGELI, A. Araucaria angustifolia (Araucária). Disponível na Internet em: http://www.ipef.br/identificacao/aruacaria.angustifolia. html, 2003. Acesso: 01/07/2004. 17 CRUZ, G.L. Livro verde - das plantas medicinais e industriais do Brasil. Vol.I. BH, 1965. 18 MATOS, F.J.A. Farmácias vivas - Sistemas de utilização de plantas medicinais projetados para pesquisas em comunidades. 2ª ed. Fortaleza: EUFC, 1994. 46 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais Fotos das plantas medicinais 1 alecrim Rosmarinus officinalis 2 alfavaca Ocimum selloi 3 araçá Psidium cattleianum l 47 4 artemísia Artemisia vulgaris 6 arruda Ruta graveolens 8 5 aroeira Schinus terebinthifolia 7 boldo Plectranthus barbatus 9 carqueja Baccharis trimera chapéu-de-couro Echinodorus grandiflorus 10 11 cipó-milome Aristolochia triangularis erva-cidreira Melissa officinalis 48 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais 12 13 erva-de-bicho Polygonum hydropiperoides erva-de-santa-maria Chenopodium ambrosioides 14 15 espinheira-santa Maytenus aquifolia gengibre Zingiber officinale 16 17 guiné Petiveria alliacea hortelã-pimenta Mentha piperita 18 19 levante Mentha arvensis losna Artemisia absinthium l 49 20 21 maçanilha Matricaria chamomilla manjerona Origanum majorana 22 23 melissa Lippia alba mentruz Coronopus didymus 24 25 novalgina Achillea millefolium palma-fedida Tanacetum vulgare 26 27 pinheiro Araucaria angustifolia quebra-pedra Phyllanthus niruri 50 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais 28 29 rubim Leonorus sibiricus sete-sangrias Cuphea balsamona 30 31 terramicina Alternanthera brasiliana jaguarandi Piper gaudichaudianum 32 33 avenca Adiantum raddianum sálvia Stachys lanata 34 35 capim-cidró Cymbopogon citratus rosário Coix lacryma-jobi l 51 36 37 erva-doce Foeniculum vulgare fumo Nicotiana tabacum 38 39 boldo-do-chile Plectrantus neochilus malvariço Plectrantus amboinucus 40 41 hortelã-preta Mentha viridis malva Malva parviflora 42 43 nosmoscada Alpinia zerumbet cipó-são-joão-da-costa Pyrostegia venusta 52 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais ÍNDICE POR DOENÇAS A acidez estomacal: carqueja, espinheira-santa, boldo. ácido úrico: quebra-pedra. acne: maçanilha. ansiedade: erva-cidreira, maçanilha, melissa, artemísia. antihemorrágico uterino, hemorroidal e pulmonar: aroeira, novalgina. arteriosclerose: chapéu-de-couro, alecrim, carqueja. artrite (articulações inflamadas): gengibre, erva-de-bicho, guiné, palma-fedida. asma: gengibre, alecrim, milome, manjerona. azia: aroeira, boldo. B bronquite: gengibre, alfavaca, mentruz, erva-de-santa-maria. C câimbras: arruda. câncer de pele: espinheira-santa . caspas: alecrim, milome. caxumba: erva-cidreira. cicatrizante bucal: aroeira. cistite (inflamação da bexiga): alecrim, quebra-pedra, milome, guiné. coceiras: milome. cólica infantil: maçanilha. cólicas menstruais: arruda, milome, hortelã-pimenta, palma-fedida, melissa. cólicas renais: quebra-pedra, novalgina, chápeu-de-couro. D desânimo (depressão): alecrim, erva-cidreira, novalgina diabete: carqueja. diarréia: carqueja, erva-de-bicho, hortelã pimenta, losna, maçanilha, novalgina. dificuldade (dor) de urinar: quebra-pedra, erva-de-bicho. doenças venéreas: erva-de-bicho, milome. dor de barriga: hortelã-pimenta, losna, manjerona, melissa, novalgina, gengibre dor de cabeça: alecrim, erva-cidreira, guiné, hortelã-pimenta. dor de dente: aroeira, hortelã-pimenta, palma-fedida, erva-cidreira. dor de ouvido: arruda. dores musculares: manjerona, palma-fedida, novalgina, espinheira-santa. dores no corpo: guiné, levante, palma-fedida, terramicina. dor nos rins: rubim, alfavaca, alecrim, milome, espinheira-santa, quebra-pedra. E emagracedor: carqueja enjôo e vômitos: erva-cidreira, gengibre, hortelã-pimenta, maçanilha, melissa. epilepsia (convulsões): artemísia, milome. estimulante do apetite: quebra-pedra, losna, novalgina, alecrim, boldo, milome. entupimento mamário: erva-cidreira F febre: losna, novalgina, milome, erva-de-bicho, terramicina. feridas no colo do útero: aroeira. l 53 ferimentos: alecrim, manjerona, palma-fedida, maçanilha, novalgina, aroeira. fraqueza (anemia): alecrim, artemísia, carqueja, novalgina, losna. fraturas e contusões: palma-fedida, mentruz, novalgina, guiné, manjerona. frieira: milome. furúnculos: arruda. G gases intestinais: boldo, hortelã-pimenta, manjerona, maçanilha, novalgina. gastrite: carqueja, boldo, espinheira-santa, mentruz, aroeira, artemísia, rubim. gengivite: chapéu-de-couro, hortelã-pimenta, maçanilha, mentruz, aroeira. gonorréia: erva-de-bicho. gota (inflamação nas articulações): alecrim, chapéu-de-couro, milome, novalgina. gripe e resfriados: gengibre, manjerona, melissa, novalgina, terramicina, hortelã-pimenta. H hemorróidas: alecrim, erva-de-bicho, melissa, novalgina. hepatite B: quebra-pedra. hérnia: chapéu-de-couro. herpes: milome, erva-cidreira, maçanilha, melissa. I icterícia (pele amarelada decorrente de doenças hepáticas): carqueja, artemísia. inchaços: erva-de-santa-maria, losna. incontinência urinária (urina solta): novalgina, arruda. infecção vaginal: aroeira, erva-de-bicho. inflamação de garganta: gengibre, alfavaca, hortelã-pimenta, carqueja. inflamação de próstata: chapéu-de-couro, novalgina. inflamações do tímpano (causados pelo nervosismo): hortelã-pimenta. inseticida doméstico: artemísia, erva-de-santa-maria, guiné, palma-fedida. insônia: erva-cidreira, hortelã-pimenta, melissa, alecrim, maçanilha, novalgina. intoxicação alimentar: melissa, milome. L limpeza bucal: aroeira. M má circulação: erva-cidreira, novalgina, erva-de-bicho, losna. má digestão: alecrim, carqueja, boldo, Erva-cidreira, gengibre, hortelã-pimenta. machucadura (batida): artemísia, arruda, gengibre, palma-fedida, mentruz. mau hálito: gengibre, losna. memória fraca: guiné, alecrim. micose: milome. N nervo ciático: gengibre, palma-fedida, milome, santa maria. nervosismo: alecrim, erva-cidreira, hortelã-pimenta, maçanilha, melissa. O orquite (inflamação dos testículos): milome, hortelã-pimenta. P palpitação do coração: erva-cidreira, hortelã-pimenta, milome, melissa. pedra na vesícula, fígado e bexiga: carqueja. 54 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais pedra nos rins (cálculos renais): chapéu-de-couro, quebra-pedra, novalgina picada de insetos: erva-cidreira, losna. piolho: arruda, artemísia, boldo. pressão alta: alecrim, carqueja. prevenção de cáries: guiné. problemas nos olhos (ardência, ciscos, batidas e vista cansada): arruda. problemas de pele: arruda, milome, chapéu-de-couro, erva-de-bicho, novalgina. problemas no fígado: artemísia, boldo, carqueja, chapéu-de-couro, losna. Q queda de cabelo: alecrim. queimaduras: manjerona, maçanilha, novalgina. R raiz do dente inflamada: aroeira, hortelã-pimenta, terramicina. reconstituição da flora intestinal: maçanilha. ressaca: boldo. reumatismo: alecrim, chapéu-de-couro, erva-cidreira, gengibre, novalgina. rouquidão: gengibre. S sarna: arruda, palma-fedida. sífilis: aroeira, erva-de-bicho, chapéu-de-couro. sinusite: erva-de-santa-maria. T torcicolo: gengibre. tosse: gengibre, terramicina, hortelã-pimenta, erva-cidreira, rubim, terramicina. U úlceras no estômago: carqueja, boldo, espinheira-santa, hortelã-pimenta. V varizes e varicoses: erva-de-bicho, rubim. vermes intestinais: arruda, erva-de-santa-maria, artemísia, losna, palma-fedida. l 55 PREPARAÇÃO DO REMÉDIO A s plantas medicinais podem ser preparadas de diversas formas. A mais usada pelas comunidades são os CHÁS, preparados de três formas: ✔ infusão: Despejar água fervente sobre flores, folhas e ramos da planta, previamente colocadas em um recipiente. A proporção para 1 xícara de chá é de 8 a 10g da droga fresca ou 4 a 5g da droga seca. Abafar, esperar o preparado amornar e tomar. ✔ decocção: Colocar cipós, raízes, cascas ou sementes na água fria e ferver por 10 a 20 minutos, dependendo da consistência da parte da planta. Esperar 10 a 15 minutos, coar e tomar assim que amorne. ✔ maceração: Colocar a planta picada ou amassada de molho em água fria, durante 10 a 24 horas. Folhas, sementes e partes duras ficam 10 a 12 horas. Talos, cascas e raízes duras, 22 a 24 horas. Coar e tomar. Recomendações para preparação do chá ■ utilizar água de boa procedência e evitar vasilhas de alumínio. ■ preparar no dia a quantidade a ser tomada, para evitar fermentação. ■ tomar o chá ainda quente quando indicado para gripe, resfriado, bronquite e febre. ■ para indigestão, dores de estômago, diarréia, deve ser tomado frios. XAROPE: levar a infusão ou decocção ao fogo, com açúcar cristalino para engrossar. Pode ser tomado quente ou frio. O xarope ingerido frio, depois de 3 dias em descanso, é filtrado, podendo ser usado por vários dias. Agite bem antes de tomar. Não utilizá-lo se azedar ou coalhar. EMPLASTRO: é a aplicação das ervas diretamente no local afetado. Pode ser feito com água, vinho ou leite com farinha. Devem estar picadas e cozidas por 5 minutos. Filtrar, colocar num pano limpo e aplicar no local por 1 hora. Fazer até 6 aplicações diárias. ALCOOLATURAS: são preparações líquidas obtidas da planta fresca ou seca em contato com misturas variáveis de água e álcool, à temperatura ambiente. Pode ser ingerida em gotas (tinturas) geralmente antes das refeições, ou utilizada externamente como compressas e fricções. COMPRESSAS: Além de utilizadas frias com as alcoolaturas, podem ser preparadas pela infusão. Embeber um pano na infusão já morna ou fria e aplicar sobre o local afetado. 56 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais DICAS DE CULTIVO O s cuidados com as plantas medicinais começam no cultivo. A escolha do local, o preparo do solo, métodos de plantio, cuidados como colher, secar e armazenar corretamente garante a eficácia dos remédios fitoterápicos. Escolha da planta As plantas medicinais a serem cultivadas nas hortas caseiras devem estar devidamente identificadas, ou seja, deve-se ter a garantia de que esta planta é a espécie verdadeira para os fins medicinais. As sementes, estacas ou mudas devem ser colhidas de plantas bem desenvolvidas, ou seja, que não esteja atacada de pragas, doentes ou com deficiências nutricionais. Onde cultivar O local de cultivo deve ser preferencialmente terreno ensolarado, plano ou pouco inclinado, com disponibilidade de água, longe de fossas sépticas e de preferência cercado. Em locais de ventos fortes, plantas como sabugueiro e aroeira podem ser utilizadas como “quebra-ventos”. Em áreas inclinadas fazer o plantio em curvas de nível com o capim-limão e confrei como cordão de contorno para evitar possíveis erosões com um melhor aproveitamento da área. Como cultivar Planejamento da área de cultivo ✔ plantar as árvores separadamente da área da horta; ✔ dividir a horta em pequenos talhões, utilizando capim-limão e alecrim para esta divisão; ✔ cuidar para que os arbustos não prejudiquem outras plantas devido ao sombreamento excessivo; ✔ manter pequenas áreas de vegetação nativa entre os talhões. Funcionam como barreira ao ataque de pragas e doenças. l 57 Preparo do solo A terra utilizada para o cultivo não pode ser muito arenosa (não segura as plantas) nem muito argilosa (sua compactação dificulta a penetração das raízes e absorção de nutrientes). As plantas de pequeno porte e herbáceas devem ser plantadas em canteiros. Antes de prepará-los limpe o terreno, retirando tocos, pedras e raízes para o adequado revolvimento do solo. Estes devem ter cerca de 1m de largura, 20cm de profundidade e um espaço de 40cm entre cada canteiro. Aplicar adubo orgânico, misturando uniformemente junto ao canteiro. O adubo pode ser feito com esterco de galinha ou de gado, que devem já estar curtidos. Caso contrário revolva e molhe o canteiro por vários dias antes do plantio para não queimar as plantas. Após estes procedimentos os canteiros devem ser nivelados. Para espécies arbustivas e arbóreas preparam-se covas que devem ter pelo menos 30X30X30cm. Durante abertura da cova separe a terra da parte de cima (terra gorda) e misture com o adubo orgânico. Deposite no fundo da cova e preencha com o restante da terra na hora do plantio. Adubação orgânica O cultivo de plantas medicinais obriga atenção especial ao tipo de adubação e ao consumo de produtos químicos, que devem ser evitados, pois alteram as propriedades medicinais das plantas. A adubação orgânica é a forma mais natural, eficaz, ambientalmente correta e de baixo custo para se ter um solo saudável, fértil e com boas condições para o desenvolvimento da planta. A compostagem é uma das várias maneiras de se produzir o adubo orgânico. Veja como prepará-la: Escolha um canto de preferência sombreado para montar sua composteira. O tamanho indicado é de 1x1x1m. Deposite na primeira camada 20cm de material seco (cascas, bagaços, palhas, capins, serragens). Por cima coloque o seu lixo orgânico misturado com outros materiais verdes (capim verde, palhas de cana, etc). Cubra-o com mais material seco. Então deposite um camada de 5 cm de esterco (aves, bovino, caprino etc) e mais uma camada de material seco, até que não dê para ver os restos de alimentos e material verde. Regue o monte e de 3 em 3 dias e revolva o composto de um lado para o outro para arejar. Depois de 60 a 120 dias, o composto estará pronto se: ✔ possuir cheiro agradável de terra e cor marrom café; ✔ estiver homogêneo sem distinção dos restos colocados; ✔ e, não esquentar após revolvimento. 58 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais Como colher Para que se obtenha um produto final de qualidade é importante: ✔ colher com tempo seco; ✔ colher partes das plantas que estiverem sadias e limpas; ✔ não machucar ou podar bruscamente a planta, para que rebrote; ✔ em plantas perenes retirar apenas 40% das folhas de um ramo. A época de colheita pode variar: ✔ flores - quando estiverem bem abertas; ✔ folhas e planta inteira - quando as flores ainda não abriram; ✔ cascas e raízes - no outono e início do inverno, retirando pequenos pedaços de cada vez e de apenas um dos lados da planta; ✔ frutos - bem maduros, sementes - bem desenvolvidas. Como secar Selecionar as plantas mais limpas e sadias evitando as muito sujas (terra, insetos). Em geral secar em lugares sombreados, sem umidade e protegidas de poeira e insetos. Evitar a secagem em fornos. As partes duras como os talos, raízes e sementes devem ser cortadas em pequenas porções e estendidas em bandejas onde o ar pode circular, podendo ser dessecados ao sol (evitar o horário entre as 10 até 15 horas). As plantas aromáticas, flores e folhas não devem ser secas diretamente ao sol, pois perdem todo seu princípio ativo. A secagem correta das plantas medicinais permite que o teor de princípio ativo adequado esteja presente e conservado por um período de 2 anos. Como armazenar O local de armazenamento deve ser seco, ventilado, escuro e limpo, sem a presença de roedores. Cada planta deve ser armazenada em embalagens separadas com uma etiqueta de identificação com o nome científico, parte utilizada e data da colheita. Geralmente as plantas medicinais são estocadas em sacos de papelão (Kraft) de 60Kg. Os sacos não devem ser estocados diretamente no chão, e sim em cima de estrados de madeira para uma melhor ventilação. l 59 HISTÓRIAS e lendas A Currupira L á no Faxinalzinho, era uma vez uma mãe que brigava muito com seu filho. Ela dizia muitos nomes feios para ele, até que um dia, a Currupira veio e carregou o menino. Depois de passado algum tempo, a mãe, cheia de remorso e saudades de seu filho, não agüentou e pediu ajuda à comunidade. Os homens saíram pelo mato a procura do menino. A currupira o tinha levado a uma toca num perau de pedra. Quando o menino ia gritar socorro, a currupira “ponhava” o cabelo na boca do menino. Os homens não acharam o menino naquele dia. No outro dia saíram todos juntos, as mulheres foram também e começaram a rezar com seus rosários na boca da toca. A currupira falou para o menino: - As mulheres estão com as bostas de cabrito no pescoço. Não agüento mais ouvir esta ladainha, vou me embora daqui. Quando os homens entraram na toca encontraram o menino quase morto, sujo, com a roupa toda rasgada e com muita fome. Sua mãe desesperada agradeceu a Deus e o abraçou dizendo que nunca mais falaria nome feio para ele. Lenda escrita por Camila Carneiro Pereira e Érike Marcondes Leal contada por Seu Cherubino Rodrigues da Silva da Lagoa dos Alves. A Parteira Mãezinha T empos atrás, quando as mulheres engravidavam não costumavam ir ao hospital. Na hora do nascimento, uma mulher mais velha ajudava durante o parto – a “parteira”. Minha avó conta que meus tios e minha mãe nasceram em casa, e quem cuidou de minha avó foi uma mulher chamada Filomena, a parteira da região. Quando as mulheres iam dar a luz, os maridos iam à casa de Mãezinha Filomena para chamá-la. A qualquer hora do dia ela ia, sempre disposta a ajudar. Às vezes o marido dela ficava bravo por ela sair tanto, mas 62 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais Mãezinha Filomena dizia que, nem que apanhasse, deixaria de atender às mulheres, pois dizia ter um Dom confiado por Deus. Ao chegar à casa de uma mulher que estava para dar a luz, Filomena fazia um remedinho e o bebê logo nascia. Às vezes a situação era mais complicada e não era possível levar a mulher ao médico, pois não havia carro. Então, como Mãezinha Filomena era muito devota de Nossa Senhora e São João de Maria, fazia uma promessa para que o bebê nascesse e corresse tudo bem. Ela era sempre atendida; e os pais, cumprindo a promessa, colocavam no bebê o nome de João Maria se fosse menino, ou Maria se fosse menina. Filomena era quem sempre batizava os bebês. Comadre de todos os moradores da Serra e da vizinhança, todos a respeitavam muito. Mesmo quem não era afilhado dela, a chamava de Mãezinha. Ela também benzia as crianças e fazia remédios para derrubar lombriga. Minha mãe contou que Mãezinha Filomena faleceu quando eu era recémnascida (tinha mais ou menos 12 dias). Merecia ser considerada uma santa por tudo de bom que fez a tantas mulheres e crianças. História escrita por Camila Carneiro Pereira contada por sua avó. Jamil e Anderson contam através do desenho como é o caminho de casa para a escola. l 63 O menino que era lobisomem Uma mulher chamada Marcela teve um filho chamado Felipe. Eles moravam num ranchinho de pau-a-pique e todos os dias ela dava banho no bebê, o vestia com roupas quentinhas e o colocava para dormir. Marcela começou a estranhar que sempre na quaresma o bebê amanhecia todo sujinho. Um dia ela contou para a vizinha que não sabia o que estava acontecendo com seu filho. A vizinha falou para ela se esconder atrás da porta e esperar pela hora que a criança levantasse. Seguindo os conselhos da vizinha, viu quando Felipe saiu debaixo das cobertas, rolou nas cinzas e se transformou em um cachorrinho que saiu por um buraco na parede. Marcela continuou atrás da porta, esperando seu filho voltar. À meia noite, Felipe voltou. Rolou nas cinzas e pulou na cama novamente. Marcela contou o que havia acontecido à vizinha que disse que era preciso chamar a madrinha da criança e pedir para ela cortar seu dedinho. A madrinha cortou o dedinho de Felipe, que nunca mais virou lobisomem. Lenda escrita por Juliana, contada por sua amiga Joseli. As meninas tongas Uma mãe tinha três filhas. Elas eram tongas e não sabiam falar. Sempre sua mãe dizia: - Vocês não falem, cuidem do serviço quietas. Mas um dia, a filha mais velha levando o mate pra sua mãe, derrubou a cuia. Disse bem alto: - Opa! Derrubei o mate. Sua mãe fez uma tromba de brava. A filha do meio falou: - Viu a mãe falou para você não falar e você falou. A mãe ficou mais brava ainda. E a caçula falou da cozinha: - Bem fiz eu que não falei nada. Aí a mãe perdeu a paciência e colocou as três de castigo. História escrita por Jocilaine Aparecida Leal, contada por D. Maria Marcondes Leal. 64 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais O Padre, São Cristóvão e o Tongo São Cristóvão e o padre saíram para tirar uma esmola para construir a igreja e encontraram pelo caminho um rapaz tongo. Os três seguiram em frente e acharam um pedaço de queijo. O padre falou: – Quem tiver o sonho mais bonito vai comer o pedaço de queijo! O padre deixou o queijo em uma prateleira e todos foram dormir com fome. Em seguida o tongo levantou-se, comeu o pedaço de queijo e voltou a dormir. O padre acordou e começou a contar seu sonho. Sonhou que estava no céu com uns anjinhos, comendo um almoço muito gostoso. São Cristóvão contou que em seu sonho estava almoçando com Deus e os anjos. Então o padre perguntou o que o tongo havia sonhado. Ele respondeu: -– Eu sonhei que estava com muita fome e vocês não me deixavam entrar lá. Então levantei, peguei o queijo e comi. História escrita por Edicléia Marcondes Buture. O ladrão de batata doce Um homem costumava roubar batata doce do vizinho. Um dia ele se deu mal, estava roubando como de costume, e sem perceber estava sendo espiado pelo dono do batatal. De repente, o dono do batatal fez um gesto para que o ladrão percebesse sua presença. Então, o ladrão fingiu que teve um acesso de tontura, e exclamou: – “Undé queu tô?” O dono do batatal respondeu: – “Ocê tá no meu batatá, cabra safado.” História escrita por Arielson Alves da Silva, contada por seu falecido avô. Segundo Arielson, quem duvidar da história pode ir perguntar para seu avô, no lugar onde ele está. l 65 Um homem que morreu e foi pro céu Um homem estava com sede pediu água pra uma moça que estava lavando roupa. Ela deu água com sabão em uma lata suja, e ele desejou que ela casasse com um homem bom. Mais adiante, outra mulher deu água, num copinho bem limpo, e ele disse para ele casar com um homem bem ruim. Muito tempo depois o homem morreu e foi para o céu e encontrou São Pedro que perguntou porque ele tinha dito para a mulher ruim casar com um homem bom? Ele respondeu que é melhor uma mulher ruim casar com um homem bom, porque se ela casasse com um homem ruim eles não conseguiriam viver juntos. História escrita por Arielson Marcondes de Oliveira e contada por Seu Lauro Pereira Pinto do Ribeirão dos Pinheiros. O Boitatá Essa história aconteceu há muitos anos. Havia uma tribo de índios que não tinha o que comer. Saíram para caçar, e a noite foi chegando, bem devagarinho. Haviam crianças pequenas junto com eles, todos já cansados de tanto procurar. Desanimados, estavam partindo quando, de repente, o menino que estava andando na frente viu ao seu lado, uma bola de fogo que rapidamente caiu sobre uma árvore. O menino gritou para os adultos que vieram correndo, e todos ficaram com medo. Uma das crianças disse que a bola de fogo era Boitatá, mas todos disseram que não. Porém, um dos adultos disse 66 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais que talvez fosse mesmo o Boitatá, que tinha vindo para avisar aos índios que não era para matar os animais da floresta para comer. Todos, em sinal de respeito, concordaram. Daquele dia em diante nunca mais saíram para caçar animais, e passaram a se alimentar apenas de frutas, legumes e raízes. Lenda escrita por Juliana, contada por sua amiga Joseli Um pouco de história da Comunidade Serra do Apan Conta-se que os primeiros habitantes que aqui residiam foram os Hapãs, uma tribo de índios. Eis a origem do nome Serra do Apan. Também deram o nome do rio de Apon que sustenta, beneficiando a comunidade desde sua origem. Este rio liga as comunidades Santa Quitéria a Caraguatá, descendo ao Turvo. Tempo depois nesta região chegaram para morar pessoas de outras nacionalidades, de origem italiana e negra (dos escravos). Nessa época não existiam estradas somente carreiros (caminhos muito estreitos). As estradas melhores eram feitas a picareta. Muitas vezes colocavam as pessoas que desobedeciam as leis, os criminosos, para trabalharem fazendo as estradas para assim cumprirem suas penas. Quando uma pessoa ficava doente, alguém da família precisava andar quilômetros para conseguir medicamentos com alguém que entendesse melhor de remédios de raiz e chás. Se o caso era grave que precisasse do médico, então fazia-se rede de taquara para conduzir a carroça até onde chegasse e o doente até onde estava o carro para que pudesse chegar ao hospital. Muitos nem chegavam, pois a morte chegava antes. Às vezes iam a cavalo até a cidade buscar o médico para atender o doente em casa. Muitas mulheres vinham a falecer por não conseguirem dar a luz, outras em seguida do parto faleciam deixando o recémnascido. Porém existia no lugar as entendentes (parteiras) no dizer popular, que nos casos mais fáceis socorriam as pacientes. Era muitos comum a morte das crianças com doenças como – sarampo, hepatite, meningite, crupe. Nesta época que não existia vacina. l 67 Existia aqui um senhor que vivia sozinho, estava em dia em uma casa, dia em outra. Mesmo sendo analfabeto, trabalhava com ervas medicinais, qual os efeitos desses remédios eram aprovados por todos. Por andar muito, trazia do campo, vassourinha e carquejinha. Faleceu por volta do ano 1975 com mais ou menos 80 anos de idade (Seu nome: João Marcondes). As famílias vivam do trabalho da roça produzindo e beneficiando seu próprio alimento da terra. Apesar de todas essa riqueza, muitas famílias venderem seus sítios para pessoas estranhas, mudando-se para cidade. Historia contada por Edília Leal. Angêla conta através do desenho como é o seu caminho de casa para a escola. 68 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais Do ARTESANAL ao artesanato 1 2 3 CESTARIA T endo como matéria prima a taquara, a cestaria artesanal possui tamanhos e formas variadas dependendo da sua utilidade (fotos 1 e 2). As peneiras, de acordo com o grão a ser peneirado, têm trançado o tamanho de seus orifícios. A sururu, com orifícios maiores, é usada para peneirar a erva mate após secagem e a farinha de milho e mandioca (foto 3). Os balaios, cestas e cumbucas são usados tanto para carregar lenha e a produção do sítio, quanto para enfeitar a casa. Alguns utilizam balaios para proteger as galinhas do frio e as que estão chocando (foto 4). Há também o juquiá com tampa, de bocal mais estreito, para conservar na água os peixes vivos durante as pescarias. As cangalhas ou cargueiros geralmente são feitos aos pares, e são colocados no lombo dos cavalos para cargas mais pesadas (foto 5). Seu José, artesão da Serra do Apon, colhe na lua minguante as taquaras ainda verdes, quando as rebrotas estão mais saudáveis, para garantir a continuidade da planta cortada. Na crescente, o taquaral cortado tende a desaparecer. É importante também cortar taquaras no diâmetro mínimo de 4 cm. Os artesãos da região utilizam dois tipos de taquara: a branca e a preta, esta última trançada nos fundos dos balaios e cestas (foto 6). Em uma cesta grande usam-se 5 taquaras e em um par de cangalhas, 16 taquaras. Os irmãos Luiz Carlos, José Francisco e Riva do grupo musical Guris do Rincão (foto 7), atualmente moradores da Serra, fazem, também de taquara, a cerca para os tratadores de pintinhos. O tamanho das aberturas da cerca 8 9 70 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais 10 4 5 7 6 impede as galinhas de entrarem nestes locais (foto 8). Além da Serra do Apon, na Lagoa dos Alves Seu Wilson, Seu Sebastião e esposa D. Eli, e também Seu Júlio Rodrigues e D. Lourentina moradores do Pinhal dos Alves, são os que mantém viva a arte do trabalho com a taquara. Da palha do milho também se criam objetos de cestaria, feita geralmente da mistura das tonalidades da palha branca (do milho convencional) com a roxa (do milho crioulo), personalizando cada peça (foto 9). D. Vani e Seu Joacir do São João, do Faxinal, são conhecedores desta técnica que se aplica também no feitio de baixeiros (foto 10). A palha também é utilizada por Seu José, da Serra, para fazer assentos de cadeiras (foto 2). ERVA-MATE A maior parte da erva-mate “lavada” no tradicional chimarrão é produzida artesanalmente pelas comunidades. Em meados de junho e julho, são extraídos das árvores de erva-mate os ramos para a secagem. Amarrados, formam grandes feixes colocados nos caríjos, buracos feitos nos barrancos (fotos 11 e 12). Nestes locais, abaixo dos feixes suspensos, ateia-se o fogo. Após a secagem, “malheiam” a erva até ficar toda picada e peneiram na sururu (foto 13). Segundo D. Carmélia, do Bairro dos Luís, aproveitam tudo, até os raminhos mais duros que sobram na peneira, que depois são moídos. Diz ela que é nos ramos que o sabor mais forte da erva fica concentrado. 11 12 13 l 71 14 MADEIRA O 15 16 17 19 18 20 21 22 Monjolo é um instrumento que foi muito utilizado na fabricação artesanal das farinhas. Sua força é gerada pela queda d’água que movimenta o pilão com o encher e esvaziar de um dos seus lados (fotos 14 e 15). Seu José da Serra, que utiliza a madeira de angico, é um dos poucos que ainda sabem construir o monjolo. Seu Rubens, da Lagoa dos Alves, possui uma marcenaria onde produz de forma mais elaborada móveis de cedro envernizados e se diverte fabricando brinquedos de madeira (fotos 16, 17 e 18). Além disso, em processo muito trabalhoso, da canela sassafrás, esculpe a cuia (foto 19). Estas, geralmente são feitas dos purungos, que já possuem esta forma naturalmente. D. Maria, desta mesma comunidade, entalha à faca o purungo, criando belas cuias de chimarrão (foto 20). Seu Joel Rolim Carneiro, do Funil, esculpe em madeira de cedro e guaicá, os coxos que utiliza para colocar o alimento da criação. E faz sua própria balança de pesagem (foto 21). Nesta propriedade também se costuma usar as fibras das folhas da espada-de-padre (foto 22) para “manear” o porco durante o abate. FARINHAS N as comunidades da Serra do Apon, Lagoa dos Alves e Pinhas dos Alves existem farinheiras que mantém a 72 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais 23 24 25 tradição do uso do monjolo para o preparo das farinhas de mandioca e milho. Primeiramente os grãos ou a raiz são moídos no monjolo (foto 23). Quanto estiver bem triturado e levemente úmido, a massa, em pequenas porções, é colocada para assar em grandes frigideiras. À medida que se resseca no fogo, solta-se do fundo da panela e forma o conhecido biju, que pode ser comido inteiro ou peneirado na sururuca (fotos 24 e 25). Segundo D. Maria da Conceição Leal Carneiro, D. Maria da Luz Carneiro e D. Isalina Carneiro, podem se utilizar duas variedades de milho: o branco e o amarelo. D. Maria Castorina e D. Maria Augusta, da Lagoa, e D. Lourentina, do Pinhal dos Alves, também produzem farinha artesanal em época de safra. VASSOURAS N as comunidades as vassouras utilizadas na limpeza dos terreiros são produzidas pelos próprios moradores. Amarra-se à ponta de um pau vários ramos de arvoretas como pitangueira ou cambuí; ou de arbustos como guanxuma; e até de ervas como gerbãozinho, arnica, alfavaca e erva-davida. Na Serra do Apon, Seu José faz vassouras de milho-de-pinto para vender (foto 26). 26 QUEIJO TIPO MINAS N a região a família do Seu João Teco, no Funil, do Seu Lineu Butura e da D. Valdilha Boture, no Ribeirão dos Pinheiros, comercializam o queijo. l 73 COURO DE GADO S eu Wilson, tocador de viola da Lagoa (foto 27), os irmãos Alves e Seu José, da Serra do Apon, utilizam o couro para fazer arreios, chicotes e bainhas de facão. Antes de trançar as tiras de couro, raspa-se o couro na água para retirar os pêlos. Depois, bem esticado, deixa-se ao sol. Quando seco, corta-se em tiras e enseba-se. Para fazer bainhas, o processo de obtenção do couro é o mesmo, porém o corte diferenciado segue o tamanho do facão. 27 COLCHAS, MANTAS E TAPETES DE RETALHOS A confecção destas peças - que além de úteis, alegram o ambiente - reflete a criatividade das donas de casa da região. Com retalhos de tecidos mais grossos, D. Maria Castorina faz os baixeiros (foto 28). D. Vani, do Faxinal, além de tecer tapetes em quadros de madeiras (foto 29), faz colchas e acolchoados preenchidos de retalhos (foto 30). De retalhos plásticos, as irmãs Leontina, Maria José e Ondila também confeccionam coloridos tapetes 28 29 30 74 l Ô DE CASA o saber popular de comunidades rurais 31 (foto 31). Seu artesanato inclui peças de crochê feitos sem agulha e bordados em sacas de plásticos (foto 32). Técnica também conhecida por D. Eli, esposa do Seu Sebastião, da Lagoa dos Alves, que transmite em seu bordado bonitos dizeres de otimismo (foto 33). Moradora desta comunidade, Elizângela filha da D. Mercedes, além de fazer bicos de crochê nas toalhas de mesa e banho, borda em ponto cruz bonitos desenhos (foto 34). Com o crochê também faz cestas, amarradores de cabelo e outros trabalhos. 32 33 34 TECELAGEM EM LÃ DE CARNEIRO A lã de carneiro é muito utilizada na confecção de baixeiros e acolchoados, porém antes de desfiá-la é necessário fazer várias lavagens para retirar toda gordura acumulada nos pêlos e secá-la bem ao sol. Seu Joacir e D. Vani, do Faxinal, e as irmãs Leontina, Maria José e Ondila, do Ribeirão, ainda hoje vendem estes produtos. l 75 C astro tem aproximadamente 30% de seus habitantes na região rural. São em sua maioria sitiantes que vivem do que suas pequenas porções de terras podem produzir. Nutrem-se desta relação tão próxima com o natural – atualmente incompreendida por muitos – alimentando seus sentidos e inspirações. A interação, conquistada ao longo dos tempos e transmitida de geração a geração, é a riqueza que trazem na bagagem de suas vidas. Com a pretensão de resguardar na história de Castro o modo de vida e proteger a sabedoria destas sete comunidades – Serra do Apon, São João do Faxinal, Lagoa dos Alves, Pinhal dos Alves, Funil, Bairro dos Luís e Ribeirão dos Pinheiros – este pequeno livro, carregado em essência de grandes experiências, transmite a todos um fragmento deste acervo cultural tão valioso. “O eco é quase sempre mais lindo que a voz que ele repete”. Oscar Wilde