Boletim Informativo das Pesquisas do Projeto Paleotocas
Número 18 – Setembro de 2011
Site: www.ufrgs.br/paleotocas
Responsável: Prof. Heinrich Frank
Contato: [email protected]
EDITORIAL
Paleotocas
em
Porto
Alegre?
Praticamente debaixo do nosso nariz? Parecia
algo muito improvável, mas os primeiros
túneis apareceram na Lomba do Pinheiro, no
Parque Saint Hilaire e no Morro do Osso.
Quando soubemos dos boatos sobre
uma “caverna” na Avenida Bento Gonçalves,
em frente à Faculdade de Agronomia da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
resolvemos investigar. O resultado das nossas
pesquisas está relatado nesse Boletim –
paleotoca sim, claro. Já destruída, mas que
mostra não apenas que tinha, mas que pode
ter mais!
Que tempo é esse ?
Há dois meses não conseguimos fazer
um trabalho de campo com paleotocas.
Simplesmente por causa das condições
climáticas. Muita chuva, muito frio – sabemos
que as paleotocas, nessas condições, estão
com água pingando do teto, água correndo
pelo piso, a frente dos túneis pode estar
desmoronando – nada muito agradável.
Por isso, a pausa no trabalho. Não vale
a pena programar um trabalho de campo para
chegar ao destino debaixo de chuva torrencial.
Há o cuidado com os equipamentos.
Adentram-se as paleotocas com equipamentos
caros e delicados: máquinas fotográficas de
boa qualidade, trenas, bússolas, lanternas,
baterias, etc. A umidade termina com eles.
Quando o tempo melhorar, vamos outra vez.
Alvos temos de sobra, é só ir lá.
Distribuição Dirigida
Fone: 51.30320382
As “galerias indígenas subterrâneas”
de Santa Catarina
Continuamos a seguir as informações
das “galerias indígenas subterrâneas”
descritas pelos arqueólogos, já que
provavelmente
todas
são
paleotocas,
reocupadas ou não por indígenas. No
TocaNews de número 16 já descrevemos
ocorrências desse tipo em Urubici.
Pois bem, saiu há pouco um livro
intitulado “Panorama Arqueológico de Santa
Catarina”, de Deisi S.E. de Farias e Andreas
Kneip. O livro traz uma listagem de todos os
sítios arqueológicos descritos para o estado de
Santa Catarina. Entre eles, 30 galerias
subterrâneas...
O grande problema desses sítios
arqueológicos é a falta de uma localização
precisa do sítio. Na literatura arqueológica de
décadas passadas são muito comuns
descrições de localização do seguinte tipo:
“no município tal, no Distrito número
tal, localidade tal, propriedade do fulano, no
milharal ao lado do arroio”.
Bom, nos dias de hoje, 30 ou 40 anos
depois, é possível que o local já faça parte de
um novo município, o número do Distrito
mudou, o fulano já morreu e no local do
milharal já tenha algo completamente
diferente. Mais de dois terços dos sítios
listados no livro simplesmente não tem
coordenadas geográficas, que é o único
método de informar corretamente e
cientificamente uma determinada localização.
Vamos ter que trabalhar com esse problema
para localizar as paleotocas catarinenses.
Cadê as paleotocas do Paraná ?
A equipe do Projeto Paleotocas tem procurado paleotocas, por uma questão de logística, no
Sul do País, abrangendo os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo.
Conseguimos uma quantidade impressionante de túneis: mais de 500 em mais de 130 localidades
diferentes. E já vínhamos notando que a concentração é grande no Rio Grande do Sul e em Santa
Catarina. Os estados do Paraná e São Paulo, por outro lado, tem mostrado poucas paleotocas.
No Paraná a questão é especialmente intrigante. Vários membros do Projeto Paleotocas têm
observado sistematicamente os grandes cortes de estrada que estão expostos ao longo das rodovias.
onde qualquer paleotoca é reconhecida facilmente. Não conseguimos achar nada.
Também foram feitos contatos com grupos espeleológicos, que fazem o estudo de cavernas.
Em 2010, participamos do II Simpósio Sul-Brasileiro de Espeleologia e, este ano, do 31º Congresso
Brasileiro de Espeleologia, ambos em Ponta Grossa. Nesses eventos, dezenas de pessoas ligadas
diretamente à exploração de cavernas conheceram o conceito e as características das paleotocas.
Nenhum desses espeleólogos conhecia alguma paleotoca.
Imagine uma pessoa
fascinada por cavernas que
encontra um buraco em um
barranco como na imagem
ao lado. Com certeza ela
notaria e investigava a
ocorrência.
Também conversamos com dois empresários da área de terraplenagem e escavação da região
de Curitiba. Ambos têm mais de 20 anos de experiência no setor e trabalham com mais de uma
dúzia de operadores de máquina cada um. Mostramos fotografias das paleotocas e perguntamos se
nunca se depararam com uma ocorrência desse tipo. Ambos afirmaram, peremptoriamente, que
nunca encontraram algo assim nem tinham conhecimento de que poderia haver túneis nos morros e
coxilhas.
Então, cadê as paleotocas do Paraná ?
Comparando o Paraná com os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, onde há
abundantes paleotocas, as rochas são as mesmas, o clima é o mesmo, as altitudes são as mesmas, as
plantas são as mesmas, a fauna pré-histórica foi a mesma. Será que os tatus gigantes e as preguiças
gigantes de lá não cavavam ?
A caverna da Av. Bento Gonçalves em Porto Alegre – RS
1. As dicas
Vários colegas na nossa Universidade (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), entre
aqueles que estão lá há mais de 30 anos, nos contaram de uma “caverna” que surgiu durante o
alargamento da Av. Bento Gonçalves, bem em frente à Faculdade de Agronomia. Caverna ??
Paleotoca, quem sabe ?? Quanto à data, nada muito preciso. A informação mais detalhada que
obtivemos dizia “em janeiro ou fevereiro de 1978 ou 1979, a notícia saiu no Correio do Povo”.
Pesquisamos esse período, mas não achamos nada. Quase dois anos depois dessa tentativa,
encontramos a foto da caverna na internet! Apareceu em um blog do Bruno Farias
(http://historiaxatualidade.blogspot.com), na reprodução de uma coluna “30 anos atrás” do jornal
“Zero Hora”. Voltamos às pesquisas nos arquivos de jornais do “Correio do Povo” e da “Zero
Hora” e agora podemos contar aqui toda essa história muito interessante.
2. A caverna já tinha aparecido uma vez
Inicia com um depoimento do médico veterinário Mozart Pereira Soares, cuja biografia está
na Wikipédia. Quando professor da UFRGS, o Dr. Mozart assistiu em 1938 ao aparecimento de
uma caverna na Av. Bento Gonçalves quando se realizavam melhoramentos no piso da estrada que
liga Porto Alegre a Viamão:
“a estrada mantinha-se no mesmo nível da escola de Agronomia e criava
problemas para os carros que ali trafegavam em razão do barranco na encosta do
morro. Resolveu-se, então, colocar o piso bem acima do nível da escola. Para isso, o
morro teve que ser tocado pela primeira vez. O que aconteceu? A caverna foi
tornada pública, mas ninguém deu atenção ao fato.”(Zero Hora, 5.3.1980, p. 27).
Não temos nenhuma informação ou imagem desta “caverna”. E a caverna lá ficou. De
conhecimento dos vizinhos e de alguns conhecidos, mas completamente ignorada pela coletividade.
As crianças brincavam lá dentro, como testemunha Arnóbio Gonçalves, funcionário público
entrevistado em 1980: “Esta toca existe há um tempo, todo mundo sabe. Só eu tenho conhecimento
há 40 anos. Ninguém sabe e nem nos interessa saber de quem é aquilo lá”. (Folha da Manhã,
7.3.1980, pg. 6). A mesma situação (caverna aberta, acessível e freqüentada, mas de conhecimento
apenas dos vizinhos) o Projeto Paleotocas está encontrando em relação a muitas paleotocas, não
apenas no Rio Grande do Sul, mas também em Santa Catarina.
3. Novas obras revelaram novamente a caverna
A situação alterou-se radicalmente no início de março de 1980, durante as obras de
duplicação da Av. Bento Gonçalves. Com sete máquinas, oito caminhões e 50 homens, a Empresa
de Pavimentação Ipiranga iniciou o desmonte do barranco em frente à Faculdade de Agronomia,
para alargar a Av. Bento Gonçalves de 7 para 37 metros, suprimindo a curva existente em frente à
Faculdade de Agronomia e deixando uma faixa central com 16 metros de largura para um futuro
corredor de ônibus. (Folha da Tarde, 5.3.1980, p. 3). Às 8:00 horas da manhã do dia 5 de março de
1980, o operador de máquinas Orestes Ribeiro da Cruz estava escavando o barranco com sua
retroescavadeira quando a pá da retro bateu em algo oco. Descobriu uma gruta a 2,5 metros do
cordão da Av. Bento Gonçalves. Quatro metros ao lado, outra gruta foi encontrada, cuja entrada
estava entupida com sedimentos. O trabalho foi interrompido e uma aglomeração de curiosos de
formou no local (Folha da Manhã, 6.3.1980, p. 4).
Integrando informações de várias matérias publicadas naquela semana nos jornais Zero
Hora, Folha da Manhã e Folha da Tarde, podemos reconstituir a “caverna” da seguinte maneira: a
abertura tinha uma altura de 80 centímetros e uma largura de um metro e meio. Em toda a extensão,
“a gruta era perfeita, como o formato de uma meia laranja, como se tivesse sido toda ela escavada a
mão, lembrando um túnel” (Folha da Manhã, 6.3.1980, p. 4). Quanto ao comprimento, as
informações divergem grotescamente. Em uma matéria, consta que “entrando, o corredor tem cerca
de sete metros e a altura vai aumentando a cada metro que se avança. No fundo, a altura chega a
dois metros e aí o corredor se divide em três. Destes, somente um é um pouco mais longo, cerca de
5 metros. Os outros estão interrompidos (ou terminam?) logo na entrada” (Folha da Manhã,
7.3.1980, p. 6). Outra matéria informa que “os três companheiro de trabalho...caminharam cerca de
30 metros. Constataram que a caverna, à medida que se distanciava de sua abertura, ganhava mais
altura, tendo possibilidade que todos ficassem de pé quando chegaram a um local mais amplo, uma
espécie de sala. Desse local partem duas bifurcações. Uma para a direita que vai sair novamente na
rua, mas cuja entrada ainda continua bloqueada de terra e outra para a esquerda” (Zero Hora,
5.3.1980, p. 26). Portanto, parece razoável assumir uma largura de um metro e meio, uma altura
inicial de 80 cm, progressivamente maior, e um comprimento de mais de 10 metros. Um trecho de
túnel com uma bifurcação no final.
4. O frenesi da descoberta
A descoberta da “caverna” da Av. Bento Gonçalves provocou um piripaque no imaginário
popular dos porto-alegrenses. “Ouro, panela de dinheiro, tesouros, achados misteriosos”... (Zero
Hora, 7.3.1980, p. 34). Durante as inspeções da caverna pelos operários da Pavimentadora Ipiranga,
pelas crianças, pelos repórteres, pelos bombeiros, por integrantes do Patrimônio Histórico do Rio
Grande do Sul e pelos curiosos em geral, muitas hipóteses foram aventadas:
- “toca de uma tribo de índios há muito extintos” (a mais lembrada)
- “antigo esconderijo de brigadianos” (Nota: policiais militares da Brigada Militar)
- “seres extraterrenos” – marcianos.
- “trincheiras escavadas por tropas na Revolução Farroupilha”
- “túnel para guardar armamentos dos farroupilhas”
- “canais feitos por uma fonte de água que acabou”.
- “toca de urso” (realmente um urso preto foi morto na região décadas atrás)
- “túnel dos Jesuítas que saía lá no centro da cidade”
- “caverna aberta pelos escravos do General Flores da Cunha”
Mas o ceticismo era geral. O Prof. Mozart Soares, um “pesquisador inquieto” (Zero Hora,
5.3.1980, p. 27), estranhou a dimensão da caverna e o fato de não correr nenhuma água por lá para
atribuir a caverna à ação de uma fonte de água. Fredolino da Silva, morador do local, afirma que
“não pode ser obra da natureza, porque é muito perfeita”. Dona Dácia Oliveira, antiga moradora do
local, não acreditava que era “coisa de índio” porque “nunca viu índio por aqui”. Quem chegou
mais próximo da resposta foi um dos trabalhadores da empresa Ipiranga, que declarou brincando:
“uma toca de tatu gigante” ......! Enquanto isso, os vizinhos da “caverna”, aproveitaram a presença
da imprensa para reclamar do fato que estavam sem luz nem água, mas com muito barulho, poeira e
lama por causa das obras.
5. E as fotos ?
As únicas fotografias da ocorrência são aquelas dos jornais da época: “Correio do Povo” e
“Zero Hora”. Há dezenas delas, muito boas, que estão guardadas nos arquivos dos jornais.
Consultamos as fotos por lá. Entretanto, para serem publicadas aqui, precisam ser adquiridas por
valores de quase 100 reais cada uma. Como as fotos não acrescentam nada em relação àquelas que
temos nas fotocópias das matérias, evitamos a despesa. Se alguém estiver interessado em algumas
fotos,
exclusivamente
para
uso
particular
e
individual,
pode
pedir
pelo
email
[email protected] que enviamos. No “Correio do Povo”, as fotos estão nas fichas “Túneis
RS(EG) MAR80rst – 5MAR1980-154444” e “Túneis RS(EG) MAR80rst – 6MAR1980-154498”.
6. As explicações científicas da época
No dia 7 de março de 1980, o Prof. Pedro Ignácio Schmitz, padre jesuíta e então professor
Titular da Disciplina de Antropologia no Departamento de Ciências Sociais da UFRGS, que já tinha
declarado que a caverna não tinha nada a ver com os índios (Zero Hora, 5.3.1980, p. 27),
inspecionou o local e confirmou sua opinião anterior: “túnel feito por erosão tubular”. Ou seja, um
canal subterrâneo escavado por águas que se infiltraram no solo, com uma idade de em torno de
500.000 e um milhão de anos (Zero Hora, 8.3.1980, p. 22). Os índios, segundo Padre Schmitz, “não
sentiam nenhuma necessidade de abrigo sob a terra, por causa do clima ameno destes lugares. Não
haveria sentido dormir em cavernas. Eles se sufocariam”. Quanto à suposição de ser um túnel
construído pelos jesuítas, o Padre sorri e comenta: “O que eles fariam com este túnel? ...E depois, os
jesuítas eram muito gordos para andar neste aqui” (Zero Hora, 8.3.1980, p. 22). Depois desta
informação, a situação se acalmou, a caverna sumiu do noticiário e foi destruída com o
prosseguimento das obras de duplicação da Av. Bento Gonçalves. Hoje em dia, como pudemos
constatar, não há nenhum vestígio da caverna no barranco da Av. Bento Gonçalves,
aproximadamente em frente à entrada para veículos da Faculdade de Agronomia.
6. Reinterpretando a ocorrência
Com as informações disponíveis hoje em dia, podemos reinterpretar a “caverna da Bento”
tranquilamente como uma paleotoca – um túnel escavado por um animal pré-histórico. O formato
cilíndrico, a configuração interna do túnel, sua posição no terreno e a comparação das fotos do túnel
com as fotos de paleotocas do Banco de Dados do Projeto Paleotocas não deixam dúvidas em
relação à identificação do túnel como paleotoca. A identificação do animal escavador é outra
questão. O túnel da Bento está escavado em granito alterado e provavelmente passou longos
períodos afogado por águas subterrâneas. Já vimos isso em muitos locais: a retro desmonta o
barranco, abre o túnel e muitos metros cúbicos de água escorrem, jorram, do túnel. O túnel que
sobra tem suas paredes revestidas por argila que ali foi depositada. Uma argila bem específica,
marrom escura, lembra chocolate. Nos túneis em granito e em basalto, raramente sobram marcas de
garra nas paredes, pois elas sofrem pequenos desmoronamentos, principalmente no teto. Assim, o
túnel se alarga progressivamente por processos inorgânicos e torna-se difícil reconstituir o diâmetro
original. Se o túnel original da Bento foi um dos pequenos (~80 cm), quem escavou foi um tatu
gigante. Se o túnel original foi grande (1,0 – 1,5 – 2,0 m), quem escavou foi uma preguiça gigante.
Túneis como esse da Av. Bento Gonçalves são comuns na região. O Padre Schmitz já
comentava, em 1980, que “há muitos deles por aqui, nas mesmas condições, principalmente em
Viamão. Eles são comuns à beira de morros. Cavernas semelhantes também há em Camaquã e
Campo Bom. Nas construídas pelo Homem, há indícios de sua passagem: panelas, inscrições,
instrumentos, comida” (Zero Hora, 8.3.1980, p. 22). Realmente: só na região da “caverna da
Bento” o Projeto Paleotocas já localizou outro túnel semelhante no topo do Morro da Agronomia,
um conjunto de 3 túneis no Beco do David, 6 túneis no Parque Saint Hilaire, um túnel no Morro do
Osso, 7 túneis em Viamão e há indícios de vários outros. Ainda acreditamos que podemos encontrar
um túnel do outro lado da Av. Bento Gonçalves, atrás da Faculdade de Agronomia. Se havia um
túnel de um lado do Arroio Dilúvio (que é o córrego no vale da Faculdade de Agronomia), porque
não pode ter do outro lado ?
Obrigado pela leitura.
No próximo TocaNews: a fantástica rede de megatúneis da propriedade Willemann.
Download

TOCA NEWS