Muito mais do que contato com os amigos: Possibilidades de uso de uma Rede Social Virtual Autoria: Ademir Macedo Nascimento, Maria Conceição Melo Silva Luft, Denis Silva da Silveira RESUMO Este estudo teve como objetivo elencar na literatura os diversos tipos de uso de uma rede social virtual e verificar como tais usos podem ser agrupados em construtos que facilitem o entendimento da utilização do Facebook®, a rede social virtual mais utilizada atualmente no Brasil. Para tal, foi realizado um survey através de um questionário online junto a 4078 respondentes, e posteriormente foi utilizada a análise fatorial para verificar os construtos formados, o que revelou quatro novos construtos ligados ao relacionamento com organizações e o rearranjo de alguns construtos citados na literatura sobre o uso pessoal. 1 1. INTRODUÇÃO A população mundial cresceu muito rapidamente nas últimas décadas, atingindo a marca dos 7 bilhões de habitantes, no ano de 2011, e podendo atingir a marca dos 8 bilhões já em 2025 (UNITED NATIONS POPULATION FUND, 2012). Ao mesmo tempo, o acesso à Internet e as conexões entre indivíduos de diversos pontos do planeta se tornaram muito mais fáceis devido às melhorias na infraestrutura das telecomunicações. A Internet, antes utilizada apenas para fins militares, apresentou um enorme crescimento em suas capacidades técnicas e em sua penetração em diversos territórios ao ser liberada para o público em geral (WACHTER; GUPTA; QUADDUS, 2000). Com o advento da Internet, várias aplicações têm sido desenvolvidas e disseminadas, como os blogs, as plataformas de compartilhamento e as redes sociais virtuais, em inglês, Social Network Sites (SNS) (O'REILLY, 2007). Neste contexto, Kaufman (2010) suscita que o desenvolvimento das redes sociais virtuais talvez seja um dos maiores acontecimentos dos últimos anos, por representar uma nova maneira de organização da sociedade contemporânea. Para Recuero (2009), uma rede social virtual nada mais é do que uma plataforma Web que permite aos usuários construir o seu próprio perfil e compartilhar conexões com seus amigos dentro deste sistema. Fialho e Lutz (2011) destacam que tais redes estão em crescente expansão e têm assumido um papel de alta relevância dentre as opções de comunicação e informação na Internet. Com a consolidação das SNS ao longo dos anos, Cross e Thomas (2009) e Kirkpatrick (2012) relatam que os usuários começaram a criar novas formas de utilização que afetam tanto o relacionamento pessoal quanto o relacionamento com empresas e órgãos públicos, como é o caso do Facebook®, uma rede social virtual inicialmente criada com a intenção de conectar amigos e conhecidos da universidade, que passou a ter diversos outros usos a medida que foi se expandindo. Howe (2006) cita ainda que atualmente, também costuma-se utilizar as redes sociais virtuais para propor melhorias nas organizações ou mesmo para propor novos produtos e serviços para as empresas, sendo, portanto uma excelente fonte de informação. A partir dessas constatações, Shi et al. (2010) evidenciam que apesar das redes sociais virtuais terem se tornado populares nos últimos anos, a maior parte dos estudos sobre esse tema preocupa-se em identificar seus impactos no cotidiano dos usuários sem avaliar as formas de utilização de determinada rede social virtual. Para suprir essa lacuna, Shi et al. (2010) propõem um modelo de continuidade de uso para as redes sociais virtuais, identificando como determinantes, quatro construtos relacionados com o uso pessoal, que englobam o contato com pessoas já conhecidas, a busca de informações, a possibilidade de conhecer novas pessoas e o entretenimento. Entretanto, percebe-se que, com a consolidação das redes sociais virtuais, diversos novos usos surgiram, não estando contemplados no modelo de Shi et al. (2010). Uma série de utilizações referentes à relação dos usuários de redes sociais com as organizações é citada na literatura, o que demonstra uma lacuna que merece ser estudada (CROSS; THOMAS, 2009; RECUERO, 2009; HUNT, 2010; KIRKPATRICK, 2012; MARTIN, 2012; BROGAN, 2012). É justamente nesta lacuna onde se encaixa esta pesquisa, uma vez que o objetivo deste estudo é levantar as diversas formas de utilização de uma rede social virtual, e agrupá-las em construtos que poderão auxiliar no entendimento do Facebook®, que é atualmente a SNS mais utilizada no Brasil e no mundo (INTERNET WORLD STATS, 2012). Para tal, este estudo está estruturado em oito seções a se iniciar por esta introdução, seguida de três seções sobre fundamentação teórica que irão tratar respectivamente de redes sociais virtuais, as possibilidades de uso de uma SNS e em terceiro sobre o Facebook®. Logo após, serão explicitados os procedimentos metodológicos na quinta seção, seguido da análise 2 estatística descritiva na sexta seção e da análise fatorial na sétima seção. Por fim, são apresentadas as considerações finais sobre este estudo. 2. REDES SOCIAIS VIRTUAIS A história da Internet iniciou-se em 1969, quando a então Arpanet começou a ser utilizada pelo departamento de defesa dos Estados Unidos para comunicação e, mais tarde por cientistas, para a colaboração em pesquisas. Desde então, a Internet obteve um grande crescimento em suas capacidades técnicas e possibilidades de uso (WACHTER, GUPTA; QUADDUS, 2000). Mais tarde, ao se tornar de acesso público, a Internet consolidou-se como canal de comunicação graças à facilidade de estabelecer contato com outras pessoas, independente das barreiras geográficas e temporais (CORRÊA, 2008). Kirkpatrick (2012) destaca que antigamente a difusão de informações em larga escala era privilégio das mídias de massa, mas a disseminação da Internet e as novas funcionalidades interativas têm alterado a maneira como as pessoas se comunicam e compartilham informações. Para Maness (2007) essa nova forma de interação na Internet pode ser conhecida como Web 2.0, ou seja, uma Web onde é necessário que haja o diálogo. Kaufman (2010) afirma que atualmente a Web 2.0 deixou de ser uma tendência, já estando consolidada de forma irreversível. A título de exemplo, o referido autor cita que o número de blogs aumentou de apenas 50, no ano de 1990, para cerca de 112 milhões em 2010. Além disto, Krasnova et al. (2010) ressaltam que as redes sociais virtuais, outro exemplo de funcionalidade da Web 2.0, vêm crescendo rapidamente nos últimos anos. Na visão de Boyd e Ellison (2007), as SNS podem ser definidas de acordo com os serviços que proporcionam aos usuários. Sendo assim, uma SNS deve permitir aos usuários construir um perfil público ou semipúblico, articular uma lista de perfis de outros usuários com os quais mantém uma conexão e ainda, ver a lista de conexões de outros usuários. Por meio desta definição, é possível exemplificar algumas SNS, como o Google+®, o Facebook®, o Linkedin® e o Twitter®. Deste modo, vale salientar que apesar das redes sociais ocorrerem em diversos contextos, seja no cotidiano das famílias ou no ambiente de trabalho, é pelo avanço da tecnologia que as SNS têm se viabilizado, pois proporcionam conexões em tempo real com vários indivíduos em diferentes locais, e aumentam o volume de interações entre esses atores (AFONSO, 2009; ROCHA et al., 2011). Para Corrêa (2008), todo o atrativo comercial em torno das SNS pode ser explicado pela sua funcionalidade, servindo como espaços de interação, uma vez que cada pessoa registra seu perfil, contata seus amigos e conhecidos, alarga sua rede de amizade e constitui laços comunitários, que são instituídos a partir do compartilhamento de afinidades. Dessa forma, devido à grande quantidade de usuários ativos e ao rápido crescimento observado nas redes sociais virtuais, faz-se necessário discutir seu uso. 3. USO DE REDES SOCIAIS VIRTUAIS Independente do foco, todas as redes sociais virtuais permitem que os indivíduos compartilhem interesses e atividades uns com os outros (KWON; WEN, 2010). Boyd e Ellison (2007) destacam ainda que as pessoas têm várias razões para usar as SNS, a saber: (i) manter contato com amigos e familiares, (ii) conhecer novas pessoas, (iii) divulgar a imagem pessoal, (iv) compartilhar conteúdo e mídia e (v) criar grupos para que se possa interagir com outros usuários que têm interesses semelhantes. De forma similar, Nyland e Near (2007) identificaram cinco usos de redes sociais virtuais, sendo dois deles semelhantes aos apontados por Boyd e Ellison (2007): (i) conhecer 3 novas pessoas e (ii) manter relacionamentos off-line. Os outros três usos correspondem a: (i) entretenimento, (ii) organização de eventos sociais e (iii) criação de mídia. Já Joinson (2008) identificou sete tipos de usos do Facebook® em seu estudo, que no geral, são desmembramentos dos citados acima, a saber: (i) conexão social, (ii) compartilhar identidades, (iii) divulgar fotografias, (iv) divulgar conteúdos, (v) investigação social, (vi) entretenimento e (vii) atualizações de status. Dentro destas utilidades levantadas, vale destacar a formação de grupos com interesses em comum. Diferente dos tipos tradicionais de grupos, nos quais os laços são constituídos pela relação de parentesco ou vizinhança, nos grupos formados nas SNS, os usuários trocam informações com outros usuários que compartilham seus gostos, independente de sua localização geográfica (RHEINGOLD, 1998). Martin (2012) destaca ainda que as redes sociais virtuais são fontes constantes de informações, uma vez que a rapidez na disseminação é muito maior do que nos meios tradicionais. Agregando as diversas formas de uso pessoal das SNS, Elisson et al. (2006) resumem todos os pontos citados em quatro fatores, a saber: (i) manter os contatos off-line, (ii) conhecer novas pessoas, (iii) busca de informação e (iv) entretenimento. Shi et al. (2010) corroboram com essa afirmação citando que estes quatro fatores conseguem agregar de maneira satisfatória as razões para o uso de redes sociais virtuais, em especial para o uso do Facebook®. Por outro lado, Hunt (2010), Kirkpatrick (2012) e Giardelli (2012) citam que o uso das redes sociais virtuais também tem sido explorado como instrumento de ativação de movimentos sociais e culturais como a luta dos direitos humanos, feministas, ambientalistas, dentre outros. Os referidos autores citam como exemplo, o uso do Facebook® e do Twitter® em protestos na Colômbia e na onda de manifestações que ocorreram no Oriente Médio. Além disso, vale destacar o uso das redes sociais virtuais na relação com organizações, sejam elas públicas ou privadas. Para Martin (2012) as redes sociais virtuais ajudam a interagir com mais facilidade e frequência com importantes contatos profissionais e oportunidades de emprego, citando como exemplo que nos Estados Unidos, 89% das empresas pesquisam nas SNS antes de recrutar profissionais. Ademais, Hunt (2010) afirma que além de contatos profissionais, as pessoas têm cada vez mais a necessidade de interagir com as marcas por meio das redes sociais virtuais, seja para solicitar suporte sobre algum produto comprado recentemente, seja para opinar no processo de desenvolvimento e adaptação de produtos. De acordo com o Syncapse (2013), uma organização responsável por medir o retorno das ações em redes sociais virtuais, o impacto positivo de cada pessoa que defende uma marca nas SNS pode chegar a 174 dólares por ano, levando-se em conta desde o valor gasto por este usuário adquirindo produtos e serviços até as recomendações para seus contatos. Nas redes sociais virtuais é possível também perceber necessidades não atendidas dos clientes, ouvir reclamações e observar de modo geral qual a imagem de uma empresa e de suas concorrentes. De acordo com Brogan (2012), isto acontece porque as SNS dão voz aos clientes, permitindo que interajam tanto com seus pares quanto com as organizações, o que demonstra que atualmente as pessoas não usam as redes sociais virtuais apenas para se distrair, pois vêm aos poucos percebendo suas diversas utilizações. Neste novo cenário, até os governos estão percebendo a necessidade que os usuários tem em participar das discussões que os envolvem. Nos EUA, destaca-se o uso das SNS na campanha eleitoral do atual presidente Barack Obama, na qual o mesmo obteve o apoio de diversos internautas, tendo inclusive a postagem mais compartilhada do Twitter® e do Facebook® na época. Corroborando com esse uso, Zhang et al. (2010) destacam que as redes sociais virtuais tem um papel importante no processo democrático, influenciando atitudes políticas e a participação da população, citando como exemplo o caso da Islândia que decidiu 4 levar a discussão sobre a reforma constitucional para o Facebook ®. No Brasil, pode-se citar o caso da prefeitura de Curitiba que decidiu adotar a rede social Colab.re® como canal oficial de comunicação com os cidadãos (CURITIBA, 2014). Percebe-se portanto que, apesar de terem uma concepção inicial para uso pessoal, as redes sociais virtuais vêm sendo utilizadas também para se relacionar com organizações públicas e privadas e que na maior parte dos casos, o Facebook® têm se destacado nestas ações, o que torna necessário conhecer mais profundamente esta SNS. 4. FACEBOOK® A era das redes sociais virtuais começou no início de 1997 com uma empresa chamada Sixdegrees®. De lá pra cá, diversas outras SNS foram surgindo, como a Plaxo®, a Ryze® e finalmente o Friendster®, a primeira SNS a fazer sucesso nos Estados Unidos. No entanto, devido a problemas em sua infraestrutura, esta SNS acabou perdendo lugar para o MySpace®, uma rede social voltada para o público adolescente (KIRKPATRICK, 2012. Para competir com esta SNS, a empresa de tecnologia Google® decidiu criar sua própria rede social virtual, lançando no início de 2004 o Orkut®. No entanto, apesar do seu sucesso inicial nos Estados Unidos, essa SNS acabou sendo tomada por brasileiros, tornandose a principal rede social virtual até 2009 (LARA; NAVAL, 2010). Neste mesmo ano, um grupo de estudantes de ciência da computação de Harvard havia criado uma rede social virtual exclusiva para estudantes universitários, conhecida como Facebook®. Com a popularidade desta SNS, seu uso foi liberado para estudantes secundaristas e, mais tarde, para o público em geral (KIRKPATRICK, 2012). O crescimento do Facebook® aconteceu de forma exponencial, ultrapassando a marca de 1 bilhão de usuários ativos em 2013 e devido a esse crescimento, esta SNS conseguiu desbancar o MySpace® como principal rede social virtual utilizada nos Estados Unidos e mais tarde, com sua expansão para outros países, também conseguiu desbancar o Orkut® no Brasil e diversas outras SNS ao redor do mundo. Neste contexto, vale destacar ainda que o Facebook® está disponível em mais de 70 idiomas, adaptando-se à realidade dos 213 países que o utilizam (UOL, 2012). Shi et al. (2010) afirmam que o Facebook® é uma ferramenta de rápida integração, pois cada vez que um usuário atualiza uma mensagem de status, escreve sobre seu perfil, faz um comentário, ou interage com uma marca, seus seguidores descobrem e isso aumenta o retorno das ações. Kirkpatrick (2012) ressalta que o Facebook® foi a primeira SNS a permitir que qualquer entidade comercial pudesse criar uma página gratuitamente (diferente da página de um usuário comum), permitindo assim que muitas empresas criassem um novo canal de comunicação com o cliente dentro do Facebook®. Alguns anos depois, isto fez com que muitas empresas dessem mais ênfase às suas páginas dentro da SNS do que aos seus sites, uma vez que nas páginas as ações dos fãs se propagavam muito mais rápido. Devido a estas páginas diferenciadas, esta SNS vêm sendo utilizada como forma de comunicação das empresas com seus clientes. De acordo com a consultoria americana Constant Contact (2011), o Facebook® é a SNS mais utilizada pelas micro e pequenas empresas americanas que atuam em redes sociais virtuais, com 86% das empresas classificando-o como efetivo e 70% informando que utilizam o Facebook® para se comunicar tanto com seus clientes atuais quanto com seus clientes potenciais. Para Kirkpatrick (2012) o Facebook® possui a melhor forma de direcionar um anúncio para o público-alvo, pois antes desta SNS era necessário fazer um trabalho especializado para inferir gênero, idade e interesse a partir dos sites que as pessoas visitavam, já no Facebook® os usuários oferecem estes dados voluntariamente, o que tende a conectá-los 5 a páginas que tenham interesse. A importância desta rede pode ser observada ainda no cotidiano empresarial. Numa pesquisa realizada pela consultoria brasileira Gentis Panel, em 2011, com funcionários de empresas de grande porte, 77% dos respondentes afirmaram utilizar o Facebook® no ambiente corporativo. Os entrevistados declararam ainda que dentre os objetivos de utilizar o Facebook® no ambiente de trabalho estão: descobrir informações sobre o mercado e concorrência; conversar com amigos e parentes; descobrir as novidades sobre amigos; e por fim, relaxar no trabalho. Todos estes fatores apontam a notoriedade desta rede social virtual no cenário atual e a importância de se avaliar as diferentes formas de utilização desta SNS. 5. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Com relação ao método e à natureza da pesquisa, o presente estudo pode ser classificado como quantitativo e exploratório-descritivo, uma vez que pretende levantar a situação de determinada população sem interferir no ambiente de pesquisa. (COOPER, SCHINDLER, 2003). Já em relação à estratégia de pesquisa, será utilizado um survey de corte transversal, pois se pretende fazer um levantamento das possibilidades de uso do Facebook® sem manipular ou simular condições em um momento específico, sem fazer comparações com outros períodos (SAUNDERS; LEWIS; THORNILL, 2007). Para Collis e Hussey (2005), é essencial a definição de termos em estudos quantitativos, uma vez que isso aumenta a precisão e o rigor da pesquisa. Desta forma, no Quadro 1 são demonstradas as variáveis que foram observadas neste estudo e suas definições operacionais, assim como os indicadores que serão utilizados para sua medição. Dessa forma, são elencadas cinco variáveis, tendo cada uma delas recebido uma sigla para melhor identificação dos indicadores. Para facilitar o entendimento de cada uma destas variáveis é apresentada sua definição operacional sempre fazendo paralelo com o uso do Facebook®, uma vez que este será o ambiente deste estudo. Em conformidade com a literatura, cada uma das variáveis é medida por meio de uma série de indicadores, que podem variar de dois (na variável “Conhecer Novas Pessoas”) a dez indicadores (“Relacionamento com organizações”). Ademais, na última coluna são apresentadas as bases conceituais de todas as variáveis elencadas, demonstrando os autores que corroboram com este agrupamento dos indicadores. Vale ressaltar que embora a maior parte do modelo seja baseado no estudo de Shi et al. (2010) há a contribuição de diversos outros autores para sua expansão, conforme foi explicitado na literatura. Embora os indicadores estejam apresentados de forma agrupada em cada variável, estas aglomerações obedecem apenas os critérios levantados na literatura, devendo portanto serem feitas as análises estatísticas adequadas (por meio da análise fatorial exploratória) para definir quais os agrupamentos estatisticamente confiáveis. O presente estudo adotou como instrumento de pesquisa o questionário, por possibilitar o levantamento de uma grande quantidade de respostas em um curto período de tempo (COLLIS; HUSSEY, 2005). Este questionário foi composto de duas partes, sendo a primeira relacionada ao perfil do respondente e a segunda relacionada ao perfil do comportamento, elicitando os usos pessoais e o relacionamento com organizações no Facebook® (quadro 1). As questões da segunda parte do questionário aplicado utilizaram uma escala tipo likert de 5 pontos que ia de “Nunca” a “Sempre” de acordo com a frequência de utilização de cada indicador. 6 Quadro 1 – Operacionalização das variáveis. VARIÁVEL DEFINIÇÃO OPERACIONAL INDICADORES BASE CONCEITUAL MCO1: Continuar o contato com alguém que você se relaciona pessoalmente. Manter, através do Facebook®, MOC2: Aprender mais sobre alguém de seu local de trabalho/turma. Manter os contatos offrelações já existentes fora desta line (MCO) MOC3: Restabelecer o contato com velhos amigos. SNS. Joinson (2008); Shi et al. (2010) MOC4: Obter informação em tempo real dos seus contatos. Conhecer novas pessoas Utilizar o Facebook® para iniciar CNP1: Fazer novos amigos com os mesmos interesses que você. (CNP) novas conexões. CNP2: Buscar contatos profissionais. Busca (BI) de Shi et al. (2010); Hunt (2010); Martin (2012) BI1: Aprofundar-se sobre o que está acontecendo em sua escola/local de trabalho. Utilizar o Facebook® para BI2: Manter-se atualizado com as tendências atuais. Informação procurar informações sobre Shi et al. (2010) eventos, novidades, notícias, BI3: Obter informações úteis para suas atividades no trabalho/estudo. músicas, etc. BI4: Aprofundar-se sobre assuntos relacionados aos seus interesses pessoais (Por exemplo: Novos aplicativos, músicas, filmes, livros, etc.) Entretenimento (ENT) Utilizar o Facebook® para ENT1: Preencher o tempo ocioso. preencher o tempo livre, dar uma ENT2: Divertir-se. pausa nas atividades ou se divertir. ENT3: Fazer uma pausa no trabalho/estudo. RO1: Discutir questões relacionadas a assuntos sociais/ambientais. RO2: Participar de grupos de discussão. RO3: Saber novidades e promoções sobre uma marca/empresa. RO4: Divulgar minhas atividades profissionais. Utilizar o Facebook® para RO5: Conhecer a opinião de outras pessoas sobre produtos/serviços. Relacionamento com relacionar-se com organizações RO6: Comunicar-me diretamente com uma empresa. organizações (RO) públicas e privadas. RO7: Reclamar publicamente sobre um produto/serviço. Shi et al. (2010) Zhang et al., (2010); Hunt, (2010); Kirkpatrick, (2012); Martin, (2012); Brogan, (2012); Giardelli, (2012) RO8: Recomendar publicamente um produto/serviço. RO9: Sugerir mudanças/melhorias em um produto/serviço. RO10: Ficar atualizado sobre notícias do governo. Fonte: Elaborado pelo autor (2013). 7 Em relação à forma de aplicação, os questionários foram autoadministrados. Nesta forma de aplicação a modalidade de entrega se deu por computador utilizando a plataforma Eval&Go®. De acordo com Cooper e Schindler (2003), neste tipo de modalidade há a possibilidade de contato com respondentes distantes geograficamente sem aumento dos custos, o que possibilita a aplicação de um questionário junto a uma população geograficamente dispersa, conforme a intenção da pesquisa. Devido à impossibilidade da listagem da população dos usuários brasileiros no Facebook®, foi adotado no presente estudo uma amostragem não probabilística pelo método de autosseleção, com o intuito de garantir uma amostra heterogênea e significativa. A escolha deste critério visa ainda, a participação de respondentes de todas as regiões do país, uma vez que o link para o questionário foi disponibilizado em cento e vinte grupos diferentes dentro do Facebook®, sendo quatro grupos para cada uma das unidades federativas do Brasil e mais doze grupos de representatividade nacional. Para escolher em que grupos o link seria disponibilizado foi feita uma pesquisa no próprio Facebook® a partir do nome das unidades federativas do Brasil, sendo escolhidos os quatro grupos com maior número de usuários. No que tange a análise dos dados, este estudo possui dois estágios. No primeiro estágio de análise foi avaliado o perfil dos respondentes, utilizando o método de estatística descritiva, tal como indicam Collis e Hussey (2005). Para tal, foi utilizado o software Microsoft Excel 2007® devido a sua facilidade e praticidade para este fim. Na fase seguinte, os dados foram exportados para o software Statistic Package for Social Sciences (SPSS) 19 for Windows® e foi realizada uma análise fatorial exploratória com todos os indicadores referentes ao uso do Facebook®, com o intuito de identificar se haveriam mudanças nos construtos sugeridos no Quadro 1, o que de fato ocorreu. De acordo com Dancey e Reidy (2006), a análise fatorial tem como intenção reduzir um grande número de variáveis para um número menor de construtos (também chamados de variáveis latentes ou fatores) para torná-lo mais manejável em outros tipos de análise. Essa técnica atende ainda o princípio da parcimônia, no qual é preferível a explicação mais simples para determinado fenômeno (DOWNING; CLARK, 2006). Após as análises fatoriais, é realizado o teste de confiabilidade como forma de avaliar se as variáveis específicas de cada construto dizem mesmo respeito ao que está sendo mensurado. Para tal, foi calculado o coeficiente do alfa de Cronbach como indicador da consistência interna de cada construto, tendo que seu valor ser superior a 0,7 para que o coeficiente seja aceitável (BISQUERRA; SARRIERA; MARTÍNEZ, 2004; LEECH; BARRET; MORGAN, 2005). 6. ANÁLISE DO PERFIL DOS RESPONDENTES Ao todo foram analisados 4.078 questionários válidos. Dentre esses respondentes, cerca de 53% eram do sexo feminino e 47% do sexo masculino, o que se mostrou uma amostra bastante equilibrada no tocante ao gênero. Com relação à idade, destaca-se que quase 92% dos respondentes têm menos de 35 anos. De forma geral, a partir dos 18 anos, quanto maior a faixa de idade, menor o número de participantes na amostra. Destaca-se ainda a concentração de cerca de metade dos respondentes na faixa dos 18 aos 24 anos. Quando questionados sobre a renda familiar, a maioria dos respondentes afirmou possuir um renda entre 2 e 10 salários mínimos, o que revela uma grande quantidade de usuários das classes média e classe média baixa. No quesito escolaridade, mais de 46% dos respondentes estão cursando o ensino superior, enquanto que 32,5% já possuem nível superior ou acima deste. Desta forma, percebeu-se um nível de escolaridade elevado dentre os respondentes do estudo, ressaltando 8 que menos de 2% possuem apenas o nível fundamental. Dentre as formações mais citadas, destacam-se os cursos de Administração (498 respondentes), Engenharias (244 respondentes), Licenciaturas (190 respondentes), Direito (158 respondentes) e Comunicação Social (140 respondentes). No quesito ocupação, 68% dos respondentes declaram-se como estudantes, muito embora uma boa parte destes respondentes também tenha outra ocupação como funcionário de empresa privada (20,9%) ou funcionário público (12,4%). Destaca-se ainda a grande quantidade de bolsistas de estudos/pesquisa/extensão (15,7%) e de estagiários (10,4%) na amostra. Quando avaliado o estado civil, cerca de 87% dos entrevistados declararam-se como solteiros contra cerca de 11% casados e 2% separados/divorciados. Vale destacar ainda que, dentre os declarados solteiros, cerca de 25% (dos 87%) relataram estar em um “relacionamento sério, mas não casados”, um indicador comum no Facebook®, mas não comumente analisado em estudos científicos. Já na distribuição geográfica, foram obtidas respostas das 27 unidades federativas do Brasil, com picos de resposta nos estados de São Paulo, Sergipe, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Sul. Quando analisadas as 5 regiões geográficas, o maior número de respostas foram advindas da região Sudeste (36,8%) e da região Nordeste (35,5%). Na análise geral do comportamento dos respondentes, sobre o uso das redes sociais virtuais, foi arguido sobre qual dispositivo era utilizado para acessar as SNS utilizando uma escala tipo Likert de cinco pontos que vai de “Nunca” a “Sempre”. A partir das respostas, percebeu-se que a maioria dos respondentes utiliza o computador pessoal, uma vez que cerca de 81% da amostra o utiliza sempre ou frequentemente. No entanto, vale destacar que o uso de dispositivos móveis foi bastante comentado, demonstrando que mais de 60% sempre ou frequentemente utilizam tais equipamentos. Por outro lado, vale destacar que o uso de computadores públicos (como computadores de bibliotecas e lan houses) parece ser bastante evitado para este fim. Ao total, mais de 51% dos entrevistados afirmaram nunca utilizá-lo para este fim e 38% raramente o fazem. Por fim, o uso de computadores do trabalho para acessar as redes sociais virtuais é pequeno embora considerável, já que mais de 21% o fazem sempre ou frequentemente. Além do tempo semanal utilizado para acessar as redes sociais virtuais, os usuários foram questionados sobre quais as SNS que mais acessavam além do Facebook®. Dentre as redes sociais virtuais relatadas, o Twitter® se destacou, sendo utilizado por quase 42% dos entrevistados. Vale destacar ainda o uso do Orkut® por quase 20% dos entrevistados. Embora esta rede social virtual tenha sido abandonada pela maioria dos usuários do Facebook®, nesta amostra uma quantidade significativa de pessoas afirmou continuar acessando-a. Ressalta-se ainda que mesmo acessando outras SNS, 92% dos respondentes afirmaram dedicar mais tempo ao Facebook® do que às demais, o que reitera a importância desta rede social virtual para os usuários brasileiros conforme ressaltado por Giardelli (2012). Especificamente sobre o Facebook®, foi perguntado sobre o tempo semanal gasto nesta rede social virtual, o que revelou uma grande permanência nesta SNS, com mais de 47% dos respondentes gastando mais de 8 horas semanais no Facebook e mais de 23% passando de 4 a 8 horas por semana. De uma forma geral, pode-se dizer que o perfil preponderante do respondente desta pesquisa refere-se a uma pessoa do sexo feminino, de 18 a 24 anos de idade, cursando o ensino superior, pertencente à classe média, solteira, da região sudeste, que acessa o Facebook® e o Twitter® a partir do computador de casa, embora dedique mais tempo ao Facebook® (mais de 8 horas por semana). Feito esse delineamento do perfil dos respondentes, cabe agora apresentar a análise fatorial sobre os tipos de uso do Facebook®. 9 7. ANÁLISE FATORIAL EXPLORATÓRIA Esta seção apresenta a análise fatorial exploratória realizada entre todas as variáveis propostas por Shi et al. (2010) e as variáveis propostas neste estudo que dizem respeito ao relacionamento com organizações. Esta análise tem o intuito de verificar se alguma das variáveis sugeridas pode agregar-se a algum dos construtos de Shi et al. (2010) ao invés de formar um novo construto, e vice-versa. Cada uma das questões aqui analisadas, conforme já mencionado, utilizou uma escala tipo Likert de 5 pontos, no qual o escore 1 significa que o respondente nunca utilizou o Facebook® para o item questionado, o escore 2 indica que ele raramente o faz, o escore 3 que ele as vezes utiliza o Facebook® para o item em questão, o escore 4 que ele frequentemente o faz, e o escore 5 que ele sempre o utiliza. Para realizar tal análise, as variáveis selecionadas foram exportadas para o software Statistic Package for Sociail Sciences 19 e foram extraídos os construtos por meio da análise de componentes principais e rotacionados obliquamente por meio da técnica de Oblimin direto para melhorar a interpretação. De acordo com Field (2009), a rotação oblíqua por Oblimin direto é realizada para facilitar a interpretação quando há evidências teóricas que os fatores podem estar correlacionados, como é o caso deste estudo. O referido autor cita ainda que em estudos que envolvam percepção dos respondentes, a rotação oblíqua sempre é mais indicada. Preliminarmente, Hair et al. (2009) destacam que, para se possa realizar a análise fatorial exploratória, é necessário que sejam realizadas uma série de testes para averiguar a possibilidade de uso desta técnica, sendo o primeiro passo a análise da matriz de correlação. Para que a análise fatorial possa ocorrer, as variáveis devem estar altamente correlacionadas, mas não perfeitamente correlacionadas. Para tal foi verificado que nenhuma das correlações era maior que 0,9. Em segundo lugar, a matriz de significância, apenas dois valores excedem 0,05, o que possibilita o uso da análise fatorial. Em terceiro lugar, o determinante desta matriz de correlação foi de 0,01, bem maior do que o necessário que é de 0,0001. De acordo com Field (2009), estes testes são necessários para verificar se alguma das variáveis pode estar atrapalhando as demais, ou se duas variáveis podem estar muito correlacionadas, devendo-se utilizar apenas uma delas, o que não ocorreu neste estudo. O referido autor afirma ainda que é importante analisar a medida de adequação de Kaiser-Meyer-Olkim (KMO) para verificar se as correlações permitem que a análise fatorial seja utilizada. Nesta medida de adequação, é necessário que haja um valor acima de 0,5 para que a análise seja aceitável, embora apenas valores acima de 0,7 sejam considerados bons e valores acima de 0,8 sejam considerados excelentes. No referido estudo, o valor do KMO foi de 0,881, o que significa uma adequação excelente da amostra. Além disso, todos os valores individuais de KMO, para cada variável, foram superiores a 0,7, reiterando a boa adequação da amostra, tanto a nível individual quanto a nível geral. Antes de aplicar a análise fatorial, é preciso realizar também o teste de esfericidade de Bartlet. Este teste analisa se os coeficientes de correlação entre as variáveis são diferentes de zero, o que de acordo com Hair et al. (2009) é condição básica para a análise fatorial. Para que a análise fatorial possa ser realizada, é necessário que o teste de esfericidade de Bartlet seja menor que 0,05. No caso deste estudo se mostrou verdadeiro, uma vez que o valor foi de 0,001. Além disto, Field (2009) cita que, para que os dados não sejam prejudicados, a porcentagem dos resíduos entre as correlações observadas e as correlações reproduzidas não 10 deve ser superior ao valor de 50%. Felizmente, neste estudo, os resíduos gerados foram de cerca de 22%, o que mais uma vez revela a adequação da amostra a esta análise. Como última análise antes de aplicar a análise fatorial, foi observado que todas as comunalidades das variáveis estão acima de 0,5, o que demonstra que todas as variáveis possuem uma covariância compartilhada acima de 50%. Esta covariância compartilhada é vital para que os fatores gerados sejam adequados, pois de acordo com Field (2009), sem que haja altos valores de comunalidades, os fatores gerados podem ser pouco representativos. Tendo a amostra passado por todos os testes necessários, a primeira parte da análise fatorial é delimitar o número de fatores. Neste estudo, foi utilizado o critério de Jolliffe (reter fatores com autovalores maiores que 0,7). Este critério foi utilizado devido ao maior poder explicativo proporcionado pelos fatores. Deste modo, emergiram 10 fatores que explicam 72,88 % da variância dos 23 indicadores analisados. Tendo determinado a quantidade de fatores que seriam extraídos, é necessário agora definir quais as variáveis que irão fazer parte de cada um destes fatores observando a matriz padrão dos fatores. Uma vez que a identificação a partir da matriz padrão dos fatores causa dúvidas sobre a separação das variáveis nos fatores, foi utilizada a matriz rotacionada obliquamente por Oblimin Direto para que fosse realizada esta análise. Desta forma, o primeiro fator foi composto pelas variáveis: “Reclamar publicamente sobre um produto/serviço”, “Recomendar publicamente um produto/serviço”, “Sugerir mudanças em um produto/serviço” e “Comunicar-me diretamente com uma empresa”. De acordo com Martin (2012), Brogan (2012) e Giardeli (2012), este fator está ligado à ideia de relacionar-se diretamente com uma empresa. Portanto, este primeiro fator foi denominado “Relacionar-se diretamente com uma empresa”. O segundo fator, composto pelas variáveis “Fazer uma pausa no trabalho/estudo” e “Preencher o tempo ocioso do dia”, embora bem similares com o encontrado por Shi et al. (2009) não engloba o uso de aplicativos e jogos. Ainda assim, devido à grande similaridade este segundo fator foi denominado “Entretenimento”. O terceiro fator faz relação com o uso do Facebook® envolvendo a escola/local de trabalho do respondente e é composto pelas variáveis “Auxiliar nas atividades do trabalho/estudo” e “Atualizar-se sobre assuntos que envolvam sua escola/local de trabalho”. Martin (2012) cita que cada vez mais o Facebook® é utilizado para auxiliar em atividades rotineiras, inclusive atividades acadêmicas e profissionais. Desta forma, este fator foi denominado “Auxiliar nas atividades acadêmicas/profissionais”. Rheingold (1998) e Zhang et al. (2010) ressaltam a importância do ativismo nas redes sociais virtuais, seja participando de grupos de discussão ou levantando questões sociais e ambientais em perfis pessoais. No quarto fator, evidenciou-se justamente este uso, através das variáveis “Discutir questões relacionadas a assuntos sociais/ambientais”, “Participar de grupos de discussão” e “Ficar atualizado sobre notícias do governo”. Sendo assim, tal construto foi denominado de “Ativismo”. O quinto e o sexto fatores se mostram bastante semelhantes aos relatados por Shi et al. (2009). No quinto fator é ressaltado o uso do Facebook® para manter contato com velhos amigos que dificilmente se encontra pessoalmente e com pessoas que já se conhece pessoalmente. Já no sexto, é destacado o uso para conhecer pessoas com os mesmo interesses ou buscar contatos profissionais. Desta forma, foram preservados os nomes dos fatores como “Manter os contatos off-line” e “Conhecer Novas Pessoas” respectivamente. O sétimo fator foi formado por apenas uma variável, que aparentemente não demonstra correlação com qualquer outro uso. Este fator está ligado ao uso do Facebook® para “Usar aplicativos e jogos”. O oitavo fator, é bastante similar ao construto “Busca de Informação” relatado por Shi et al. (2010), demonstrando o interesse do usuário em utilizar o Facebook® para manter-se 11 atualizado sobre notícias do seu interesse e notícias em geral, ficando preservada a nomenclatura. O nono fator trata do relacionamento indireto com uma empresa. Diferente do primeiro fator, neste construto o usuário está preocupado em conhecer a empresa e não em se comunicar diretamente com a empresa. Fazem parte deste construto, as variáveis “Saber de novidades e promoções de uma marca/empresa”, “Conhecer a opinião de outras pessoas sobre um produto/serviço” e “Divulgar as atividades profissionais”. Por fim, o último fator está diretamente ligado a “Investigação social” citada por Joinson (2008), no qual um usuário utiliza o Facebook® para saber mais detalhes sobre a vida de alguém ou para ter informação em tempo real dos seus contatos. Os fatores resultantes da análise fatorial exploratória podem ser vistas no Quadro 2. Quadro 2 – Fatores sobre o uso do Facebook®. VARIÁVEL INDICADORES Reclamar publicamente sobre um produto/serviço. Relacionar-se diretamente com uma Sugerir mudanças/ melhorias em um produto/serviço. Recomendar publicamente um produto/serviço. empresa Comunicar-me diretamente com uma empresa. Fazer uma pausa no trabalho/estudo. Entretenimento Preencher o tempo ocioso do dia. Auxiliar nas atividades do trabalho/estudo. Auxiliar nas atividades acadêmicas e/ou Atualizar-se sobre assuntos que envolvam sua escola/local de profissionais trabalho. Discutir questões relacionadas a assuntos sociais/ ambientais. Ativismo Participar de grupos de discussão. Ficar atualizado sobre notícias do governo. Manter os contatos off-line Manter contato com velhos amigos que dificilmente encontra pessoalmente. Manter contato com pessoas que já conhece pessoalmente. Fazer novos amigos que tenham os mesmos interesses que você. Buscar contatos profissionais. Usar aplicativos/jogos. Usar aplicativos/jogos. Aprofundar-se sobre assuntos relacionados ao seu interesse. Busca de Informação Manter-se atualizado sobre notícias no geral. Saber de novidades e promoções de uma marca/empresa. Relacionar-se indiretamente com uma Conhecer a opinião de outras pessoas sobre um produto/serviço. empresa Divulgar minhas atividades profissionais. Ter informação em tempo real dos seus contatos. Investigação social Conhecer mais detalhes sobre a vida de alguém. Fonte: elaborado pelo autor (2013) Conhecer Novas Pessoas Nota-se que dos cinco construtos propostos inicialmente, puderam ser extraídos dez construtos que melhor explicam o uso do Facebook®. Terminada a análise fatorial exploratória, é necessário ainda analisar a confiabilidade da escala do instrumento. Hair et al. (2009) afirmam que a confiabilidade demonstra que a escala utilizada no construto é consistente, sendo o alfa de Cronbach, uma das medidas mais comumente aceitas na literatura. Para os referidos autores, valores a partir de 0,7 são aceitos, embora valores acima de 0,8 indiquem uma alta confiabilidade. 12 Field (2009) destaca ainda a necessidade de verificar se alguma das variáveis pode estar interferindo negativamente na confiabilidade dos fatores, tendo portanto que analisar se o valor do Alfa de Cronbach sofre mudanças, caso a variável seja excluída. Na análise exploratória apresentada nesta seção, foi identificado um valor de Alfa de Cronbach elevado (0,860) e, evidenciado que a exclusão de nenhuma das variáveis poderia elevar este valor consideravelmente. 8. CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente estudo teve como objetivo expandir a gama de possibilidades de uso Facebook® propostas originalmente por Shi et al. (2010), comparando o relacionamento com organizações com o uso pessoal e verificando quais os construtos presentes nos itens elicitados a partir da análise fatorial exploratória. Foi realizado um levantamento na literatura (Seção 3) sobre os principais usos das SNS para relacionar-se com organizações, sendo tais usos (um total de dez) elencados na metodologia (Seção 5) para formar um novo construto. Diferente do estudo original de Shi et al. (2010), que foi realizado com estudantes de universidades de Hong Kong, neste estudo procurou-se obter uma amostra o mais heterogênea possível de respondentes brasileiros. Desta forma, por meio de um questionário virtual, foram coletadas 4.078 respostas válidas de respondentes das vinte e sete unidades federativas do Brasil. Além da heterogeneidade regional, conseguiu-se também uma boa participação de ambos os sexos e de diferentes classes sociais. Quando realizada a análise fatorial, foi revelado que nem todos os construtos propostos puderam ser validados na forma como foram originalmente concebidos, embora muitos dos novos construtos se mostraram tão importantes quanto os já validados pela literatura. Além disto, alguns construtos demonstraram uma configuração distinta dos construtos já validados em outros estudos (Shi et al., 2010; ROCHA, et al., 2011; JOINSON, 2008; GIARDELLI, 2012). Desta forma, a principal contribuição deste estudo refere-se aos novos construtos gerados, sejam os obtidos a partir do levantamento sobre relacionamento com organizações (Ativismo, Relacionamento indireto com empresas, Relacionamento direto com empresas e Auxílio nas atividades acadêmicas/profissionais), seja os obtidos a partir dos novos rearranjos gerados pela análise fatorial (Busca de informação, Entretenimento, Manter os contatos offline, conhecer novas pessoas, usar aplicativos/jogos e investigação social). No que tange aos novos construtos gerados, há diferenças significativas em comparação ao estudo de Shi et al. (2010). Inicialmente, o construto “Manter os contatos offline” passou a ser formado por apenas duas variáveis, gerando o construto “Investigação social” a partir das variáveis que não se adequaram a este. Já o construto “Entretenimento”, perdeu uma de suas variáveis, que passou a formar um construto único denominado “Usar aplicativos e jogos”. Este comportamento leva a crer que por mais que as pessoas usem o Facebook® para fazer uma pausa no trabalho ou preencher o tempo ocioso, os usuários não aproveitam este tempo utilizando aplicativos e jogos da SNS, ou se o fazem, preferem utilizar jogos e aplicativos em outros ambientes, como smartphones. O construto “Conhecer novas pessoas” continuou com duas variáveis tal qual era no estudo original. No entanto, abrangeu questões pessoais e profissionais (MARTIN 2012), sendo voltado para conhecer pessoas com os mesmos interesses em comum e contatos profissionais. Apesar de algumas variáveis terem se adequado aos construtos já existentes, houve a geração de quatro novos construtos ligados diretamente ao relacionamento com organizações. O primeiro destes construtos destaca o relacionamento direto com uma empresa, seja reclamando ou recomendando publicamente um produto ou serviço, seja comunicando-se com 13 esta empresa através do Facebook® para sugerir mudanças e melhorias, como destacado por Brogan (2012) e Giardelli (2012). O segundo uso trata-se do inverso do relatado acima, pois destaca o relacionamento indireto com uma empresa. Neste caso, o usuário não pretende falar diretamente com uma empresa para conhecê-la, mas sim, conhecer a opinião e experiência de outras pessoas sobre esta empresa ou apenas acompanhar a página da empresa no Facebook®. O terceiro construto validado sobre relacionamento com organizações diz respeito ao uso do Facebook® para auxiliar nas atividades acadêmicas/ profissionais, seja conhecendo melhor sobre a organização onde trabalha/estuda, seja utilizando o Facebook® para ajudar diretamente nas tarefas. O quarto construto ativismo, demonstra o uso do Facebook® para discutir questões relacionadas a assuntos sociais/ambientais, seja abertamente no perfil do usuário, seja em grupos de discussão específicos, como destacado por Zhang et al.(2010) e Kirkpatrick (2012). Por fim, este estudo teve como principal contribuição demonstrar o amadurecimento do uso das redes sociais virtuais, em especial para o relacionamento entre os usuários e as organizações. Inicialmente as SNS eram voltadas apenas para se relacionar com os amigos da faculdade ou da escola. Com o passar do tempo foram se expandindo e se tornando canais de ligação para que pessoas que nunca se viram pessoalmente. Porém, com o seu amadurecimento, começou-se a gerar uma grande quantidade de informações e as SNS passaram a servir como filtro de notícias e até mesmo de fonte de entretenimento. Atualmente, possuem uma gigantesca taxa de adesão, o que chamou a atenção de empresas dos mais diversos portes e segmentos fazendo com que as SNS se transformassem em potenciais canais de divulgação, de relacionamento ou até mesmo de colaboração, sendo que esta colaboração pode ser organizada tanto para tarefas cotidianas como para mobilizações sociais. REFERÊNCIAS AFONSO, A.S. Uma análise da utilização das redes sociais em ambientes corporativos. São Paulo: PUC-SP, 2009. BISQUERRA, R.; SARRIERA, J.C.; MARTÍNEZ, F. Introdução à estatística: enfoque informático com o pacote estatístico SPSS. Porto Alegre: Artmed, 2004. BOYD, D.M.; ELLISON, N.B. Social network sites: Definition, history, and scholarship. Journal of Computer-Mediated Communication, v.13, n.1, 2007. BROGAN, C. ABC das mídias sociais. São Paulo: Prumo, 2012. COLLIS, J.; HUSSEY, R. Pesquisa em administração. 2 ed. Porto Alegre: Bookman, 2005. CONSTANT CONTACT (2011). Fall 2011 attitudes and outlook survey. 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