CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL PUBLICIDADE E PROPAGANDA JULIANA ACIOLY LIMA A IMAGEM DO FEMININO NA PUBLICIDADE CONTEMPORÂNEA: ESTUDOS DE CASO FORTALEZA 2008 JULIANA ACIOLY LIMA A IMAGEM DO FEMININO NA PUBLICIDADE CONTEMPORÂNEA: ESTUDOS DE CASO Monografia apresentada à banca examinadora dos trabalhos de conclusão curso de graduação da Faculdade 7 de Setembro como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda. FORTALEZA 2008 JULIANA ACIOLY LIMA A IMAGEM DO FEMININO NA PUBLICIDADE CONTEMPORÂNEA: ESTUDOS DE CASO Monografia apresentada ao curso de Comunicação Social da Faculdade 7 de Setembro, como requisito parcial para a obtenção do grau de bacharel, com habilitação em Publicidade e Propaganda. Data de Aprovação: BANCA EXAMINADORA Assinatura: Prof. Dr. Paulo Germano Barrozo de Albuquerque Orientador Assinatura: Prof. Ms. Leonardo Paiva Macêdo Membro Assinatura: Profa. Ms. Ana Paula Rabelo Membro DEDICATÓRIA Dedico este trabalho a algumas pessoas. Primeiro, a minha mãe, que sempre acreditou em mim, no meu potencial e foi a primeira que me deu apoio a fazer esse curso, enquanto muitos diziam que não valia à pena, e que também pagou meu curso com muito esforço e carinho. Dedico ao meu pai, que sempre esteve ali do meu lado quando eu precisasse. Também dedico a todas as pessoas da minha família que de alguma forma me ajudaram a conceder o meu trabalho, em especial a Tia Silvana e a minha avó Ivone, que sempre me perguntava se eu já tinha terminado. Aos meus primos, Lucas e Pedro, pois quando ia dormir na casa deles, eles me deixavam estudar, mesmo que às vezes também não deixavam, pois a gente ficava horas conversando. Dedico também a minha irmã, que me ajudava em dizer palavras bonitas quando meu vocabulário já estava esgotado. Não posso esquecer também namorado, de agradecer Elias, ao por meu seu companheirismo e amor, me dando forças, quando eu achava que não ia dar tempo, e entendendo o tempo que eu passava atenção. estudando sem lhe dar AGRADECIMENTOS Agradeço ao professor Paulo Germano, que aceitou essa difícil tarefa de ser meu orientador, compreendendo os meus atrasos, as minhas faltas na orientação, tirando as minhas dúvidas, me tranqüilizando quando achava que não ia dar tempo. Agradeço simplesmente por toda a sua paciência e dedicação comigo. Agradeço também ao professor Leonardo Paiva, pois ele me ajudou na escolha inicial do tema da monografia. Enfim, agradeço a todos que de alguma forma me ajudaram na execução desse trabalho. RESUMO LIMA, Juliana Acioly. A imagem do feminino na publicidade contemporânea: estudos de casos. Fortaleza, 2008. Monografia – Publicidade e Propaganda – Faculdade 7 de Setembro. Este trabalho visa discutir a imagem do feminino no campo publicitário, com o objetivo de descobrir qual o papel da mulher na publicidade, de como ela é vista nas propagandas atuais e também antigas, utilizando análises de propagandas, em especial de cervejas. Para isso, o trabalho foi dividido em 3 capítulos. No primeiro, procurou-se discutir primeiro a sociedade de consumo, visto que se precisava de um embasamento teórico para entender como se deu o processo de consumo nas pessoas. Foi visto também nessa parte, o conceito de Indústria cultural, para complementar ainda mais o capítulo. O segundo, visou apresentar a imagem da mulher na publicidade e como se deu o movimento feminista, quais suas características e influência para a sociedade contemporânea. Por fim, no terceiro capítulo, é feita uma análise de propagandas de cervejas que utilizam à imagem da mulher, como um objeto de consumo ou coisa. Palavras-chave: publicidade, propaganda, mulher, cerveja. SUMÁRIO INTRODUÇÃO---------------------------------------------------------------------------------- 1 CAPÍTULO I – A SOCIEDADE DE CONSUMO --------------------------------------- 4 1.1 ORIGEM ------------------------------------------------------------------------------------ 4 1.2 A SOCIEDADE DE CONSUMO NA VISÃO SOCIOLÓGICA ---------------- 8 1.3 INDÚSTRIA CULTURAL E SOCIEDADE DE CONSUMO ------------------ 11 CAPÍTULO 2 - A IMAGEM DA MULHER NA PUBLICIDADE ------------------- 19 2.1 O FEMINISMO --------------------------------------------------------------------------- 20 2.2 A MULHER NAS DÉCADAS DE 70 E 80 ---------------------------------------- 24 2.3 A MULHER NA DÉCADA DE 90 --------------------------------------------------- 26 CAPITULO 3 – ANÁLISES DE PROPAGANDAS ---------------------------------- 36 CONSIDERAÇÕES FINAIS --------------------------------------------------------------- 51 BIBLIOGRAFIA ------------------------------------------------------------------------------ 53 INTRODUÇÃO A indústria cultural foi um processo que resultou na crescente mercantilização das formas culturais, ocasionadas pelo surgimento das indústrias de entretenimento na Europa e nos Estados Unidos no final do século XIX e inícios do século XX. Tais bens culturais produzidos por estas indústrias são planejados e manufaturados de acordo com os objetivos capitalistas que buscam por lucro, eles não surgem espontaneamente das próprias massas, são planejados para o seu consumo. (THOMPSON, 1995). “Mesmo fora da procura de lucro, todo sistema industrial tende ao crescimento, e toda produção de massa destinada ao consumo tem sua própria lógica, que é a máquina de consumo. A indústria cultural não escapa a essa lei. Mais que isso, nos seus setores os mais concentrados, os mais dinâmicos, ela tende ao público universal.” (MORIN, 1997, p.35) Para Horkheimer e Adorno (apud THOMPSON, 1995), o desenvolvimento da indústria cultural faz parte de um processo de crescimento nas sociedades. Tal processo faz com que os indivíduos se tornem menos capazes de serem independente e sempre mais dependente dos processos sociais podendo ter ou não controle. Em vez de fazer com que esses indivíduos tenham seu próprio pensamento, sua individualidade, esse novo universo faz com que os indivíduos consumam bens padronizados. “A indústria cultural, fruto do desenvolvimento capitalista, trouxe a mercantilização do erotismo e da sensualidade, utilizando o desejo e o sonho como principais ingredientes para obtenção do lucro. Com esse objetivo, imagens eróticas e linguagem ambígua invadem todos os meios de comunicação de massa, e os anúncios publicitários são constituídos de ícones sexuais que apelam ao consumo.” (JORDÃO,2005: n.p.) . A publicidade faz com que consumidores sejam um objeto que ela pode brincar da maneira que quiser, seduzindo-os, fazendo com que eles consumam descontroladamente. Para Grillo (2006), a mulher está enquadrada em dois tipos de propaganda: a de consumidora, por decidir a compra, podendo se identificar com a modelo ou atriz e este ser o grande trunfo para a 1 decisão de compra, se sentir parecida com a modelo ou atriz em questão. O segundo tipo é a da mulher ser utilizada em propagandas, atraindo o desejo dos consumidores, ocasionando assim a compra de produtos e mais lucros para as empresas. “Os anúncios publicitários, ao exporem atraentes modelos, provocam não só o desejo masculino para a aquisição do produto, como o público feminino, pois, quando entra em jogo a magia da sedução, a mercadoria confunde-se com a imagem feminina, objeto de desejo masculino e figura a ser copiada pela mulher. É como se o homem, ao adquirir o produto, estivesse mais próximo de celebridades televisivas (...).” (JORDÃO,2005: n.p.) Isso acontece nas propagadas de cerveja, onde na cerveja são vistas as qualidades da modelo, sendo esta “gostosa, atraente”, faz com que os consumidores relacionem os fatos e como conseqüência o consumo. Essa utilização das mulheres em anúncios publicitários de cerveja não só fazem com que as empresas obtenham lucro, mas nos faz ver uma outra face da mulher. Uma mulher sem sentimentos, sem essência, sem ideais. Onde está sua pureza? Seu orgulho? Seu valor? A publicidade vem destituindo o papel feminino na sociedade, sujeitando a mulher na condição de objeto e esta acaba aceitando isso de forma clara para sentir-se aceita perante a sociedade. “Usando a mulher como isca, esta se vê reduzida à aparência e a representação de papéis. Destituída de direitos, essência, subjetividade, idéias e valores, aceita o jogo para se sentir mais importante perante a sociedade. A aceitação desse jogo mostra tanto o machismo do homem quanto o da mulher, já que esta aceita a submissão e, portanto a humilhação, de forma tácita, ao comprar os produtos que são vendidos desta forma.” (GRILLO, 2006: n.p.) Hoje a mulher participa ativamente do mercado consumidor de cerveja. Antes elas só decidiam o poder das compras do lar, das roupas dos filhos e maridos e hoje elas também bebem cerveja. Com isso, as propagandas de cerveja utilizam as mulheres em mesas de bares, donas de bares, consumindo cervejas, etc. 2 A mulher-objeto1, objeto de divertimento, de prazer e de luxo, seria, de algum modo, a vítima do cinismo desfrutador de um homem. “É o reino do novo ídolo da cultura de massa: não a deusa nua das religiões antigas, não a madona de corpo dissimulado do cristianismo, mas a mulher seminua, em pudor impudico, a provocadora permanente”.(MORIN, 1997, p. 122) Assim, a figura feminina serve como um instrumento de venda de produtos, em nosso caso a cerveja. E a propaganda tem captado isso, e cada vez mais a mulher vem sendo utilizada. No primeiro capítulo, falaremos dos conceitos dados por Lívia Barbosa sobre como se deu a sociedade de consumo. Ela fará um estudo sobre diversos conceitos de sociólogos e estudiosos, sempre fazendo a sua crítica. O estudo da sociedade de consumo é muito importante nesse primeiro passo, pois é a partir dele que iremos entender o porquê que as pessoas passaram a consumir, escolhendo objetos pelo prazer. Toda essa análise será baseada na obra da autora chamada “Sociedade de consumo”. No segundo capítulo, entraremos no conceito da imagem da mulher na publicidade, de como ela é vista perante aos olhos da sociedade, se ela é explorada pela mídia ou se ela vista de forma natural de ser “mulher feminina”. No decorrer deste capítulo, faremos uma breve pausa para discorrer como se deu o movimento feminista, na procura de entender os conceitos dados à mulher hoje, complementando com a análise de algumas propagandas. Basearemos-nos nos artigos reunidos na obra de Maria Inês Ghilardi – Lucena, chamada de “Representações do feminismo”. Por fim, no terceiro capítulo, analisaremos algumas propagandas de cervejas, com o objetivo de responder aos nossos questionamentos, explanaremos também alguns dados sobre o mercado de cerveja em Fortaleza, para assim concluirmos nosso trabalho. 1 Conceito utilizado por Morin em seu livro Cultura de massas no século XX: o espírito do tempo. V.1. onde a mulher é definida como um objeto, uma imagem que provoca o desejo masculino, atribuindo à mulher suas condutas sedutoras. 3 1. CAPÍTULO I - A SOCIEDADE DE CONSUMO 1.2 A ORIGEM Lívia Barbosa, em seu livro Sociedade de consumo, faz um estudo sobre os conceitos de diversos autores acerca da sociedade de consumo, quais são suas características e qual sua influência na sociedade contemporânea. Para entender melhor como se deu o processo de origem da sociedade de consumo, na qual há muitas controvérsias sobre as origens históricas, a autora dividiu inicialmente em duas etapas: quando ocorreu e o que mudou. Em meados da década de 1980, historiadores começaram a expor novas leituras para antigos dados históricos, fazendo assim uma revisão da importância da Revolução Industrial no surgimento da sociedade contemporânea. O que se coloca em questão é o surgimento de uma Revolução do Consumo e Comercial que teria acontecido bem antes da Revolução Industrial e foi um ingrediente importante para a modernidade e modernização ocidental. Assim, em relação a historiografia tradicional, esse revisionismo confronta-o com novas questões. Uma questão, por exemplo, é de que “como a industrialização poderia ter ocorrido em bases capitalistas sem a existência prévia de uma demanda adequada para a produção?”. (BARBOSA, 2004, p. 15). Outro fator importante destacado pela autora e que vale ressaltar é que as grandes invenções tecnológicas relacionadas à Revolução Industrial ocorreram depois da explosão do consumo. Então, pode-se concluir que não foram as invenções tecnológicas que influenciaram as pessoas a consumirem mais. “As principais invenções mecânicas da indústria de tecidos, cabeça de lança da industrialização, só apareceram a partir da década de 1780, embora a indústria de roupas já funcionasse a pleno vapor, fundada no trabalho externo ou doméstico dos artesãos, permanecendo com essa estrutura produtiva até a década de 1830. O mesmo se refere a indústria de brinquedos, cujas inovações tecnológicas só vieram a afetá-la depois de plenamente estabelecida. Podemos concluir, portanto, que não foram essas invenções que criaram as condições materiais para as pessoas consumirem mais.”(BARBOSA, 2004, p.15-16) 4 Para a autora, o lado econômico desse debate entre produtivistas e os que acreditam que houve uma Revolução do Consumo antes da Revolução Industrial assume ou que as pessoas são insaciáveis pelo consumo, ou que existe uma tendência natural a consumir, que faz com que qualquer aumento no salário ou na renda seja destinado a compra de mais bens e mercadorias. Com base nesses pressupostos, a preocupação dos estudiosos se volta para a investigação de como essas diferentes maneiras e outras puderam afetar o consumo. Entretanto, esse lado econômico não consegue e nem está interessado em explicar a origem dessa “insaciabilidade” e nem dessa “propensão natural a consumir”. Tais idéias são compartilhadas por Keynes e Marx e todos os economistas até hoje. Para eles, essas idéias são “aspectos psicológicos do ser humano e que não seria o papel da economia investigar, mas apenas constatar”. “Essa constatação, contudo, nunca se baseou em qualquer evidência empírica, apenas na preferência cultural ocidental recente em destinar ao consumo de bens e mercadorias todo aumento da renda. Ao contrário, a insaciabilidade, que constitui uma das características da sociedade de consumo moderna, é o resultado de um processo histórico, no interior do qual podemos observar transformações que começaram a se delinear nos dois séculos anteriores ao XVII, quando atingem o seu apogeu e se consolidam”.(BARBOSA, 2004, p. 17). De acordo com a autora, embora não se saiba bem do “quando” aconteceu a sociedade de consumo, variando do século XVI até o XVIII, existe, por outro lado a ocorrência de algumas mudanças. Algumas delas começaram a aparecer a partir do século XVI, registrando-se o aparecimento de novas mercadorias de diversos segmentos sociais, fruto da expansão ocidental para o oriente. Os observadores da época consideravam que esse conjunto de mercadorias não poderia ser dito de necessidade, pois incluíam objetos tais como alfinetes, brinquedos, fitas, fivelas de cinto, plantas ornamentais e também novos itens de alimentação, bebidas e produtos de beleza, dentre outros muitos produtos. Outras mudanças que contribuíram para a constituição da sociedade contemporânea que Barbosa destaca, foram as mudanças culturais como o surgimento do romance ficcional moderno, o aumento do grau de literariedade 5 da população, a prática da leitura silenciosa, a preocupação com novas formas de lazer, a construção da subjetividade, a valorização do amor romântico e a expansão da ideologia individualista e por fim, a o desenvolvimento de novos processos e modalidades de consumo, bem como sistemas e práticas de comercialização que buscavam atingir novos mercados de consumidores. Apesar de várias mudanças, a autora irá se deter em duas. A passagem do consumo familiar para o consumo individual e a transformação do consumo de pátina para o consumo de moda. No que diz respeito a primeira transformação, Barbosa argumenta que o consumo familiar, característico da sociedade tradicional, era para suprir as necessidades de reprodução física e social. Formada por grupo de status, a sociedade era composta por grupos com estilo de vida previamente definidos na escolha de roupas, atividades de lazer, alimentos, dentre outros bens de consumo, aos quais as escolhas individuais encontravam-se subordinadas e condicionadas. Todo este estilo de vida era controlado e regulado por leis suntuárias. Essas leis definiam o que podia e o que não podia ser consumido, elas tinham uma preocupação moral com o luxo até a demarcação de posição social. Segundo Barbosa, para Nobert Elias, status e estilo de vida eram variáveis dependentes entre si e independentes da renda na sociedade francesa dos séculos XVII e XVIII. O autor quis dizer que a posição social de uma pessoa determinava o seu estilo de vida, independentemente de sua renda. Essa relação é inteiramente rompida na sociedade contemporânea individualista e de mercado. Nessa sociedade, a liberdade de escolha e autonomia na decisão de como queremos viver e a ausência das instituições e de códigos sociais e morais são suficientes para que todos nós tenhamos o poder de decidir por nós mesmo, seja na escolha de simples necessidades, como na escolha de um presidente. O que existe nessa sociedade é uma variedade de grupos, tribos urbanas e indivíduos criando as suas próprias modas. Uma sociedade que não existem grupos de referência, não existem regras ou restrições para consumir, onde cada um possui liberdade de escolha, onde só bastaria desejar e possuir dinheiro. 6 Dessa maneira, Barbosa argumenta que estilo de vida e identidade passaram a ser opcionais, independente da renda, posição social e idade. Segundo Stuart Ewen e Zygmunt Bauman (2004, p.22) “não é só uma questão de opção individual, mas também, uma situação transitória”.Transitória, pois estilo de vida e identidade são variáveis que podem ser compostos e decompostos, de acordo com o estado de espírito de cada um, mesmo com a renda limitada. Isso ocorre com a existência de produtos considerados “piratas”, permitindo que os estilos de vida sejam construídos e desconstruídos e lançados ao mercado, e utilizados por pessoas na qual a renda não seja compatível com o produto original. “Assim, estilo de vida, no contexto da cultura do consumo, sinaliza para a individualidade, auto-expressão, estilo pessoal e autoconsciente. A roupa, o corpo, o discurso, o lazer. A comida, a bebida, o carro, a casa, entre outros, devem ser vistos como indicadores de uma individualidade, propriedade de um sujeito específico, ao invés de uma determinação de um grupo de status. Os objetos e as mercadorias são utilizados como signos culturais de forma livre pelas pessoas para produzirem efeitos expressivos em um determinado contexto. Para alguns autores, essa tendência sugere a irrelevância das divisões sociais do tipo “classe social, idade e sexo” na determinação da vida cotidiana. Para outros, contudo esse ponto é altamente discutível.” (BARBOSA, 2004, p. 23). Outra mudança que a autora relata na sociedade tradicional para a sociedade de consumo foi a mudança do consumo de pátina para o consumo de moda. No consumo de pátina os objetos pertencem às mesmas famílias e são usados há gerações, conferindo nobreza, tradição e status aos seus proprietários. Ao contrário do consumo de pátina, o consumo de moda é a curta duração, é a valorização do novo e do individual. É impressionante a velocidade com que os estilos de vida mudam e como a vida útil de um produto é pequena e de como as pessoas se desfazem das coisas e compram mais para satisfazer desejos. Um dos impulsos a esse processo foi dado pela criação de lojas de departamentos, pois estrategicamente gigantescas, elas atiçavam o desejo de consumir nas pessoas, fornecendo um mundo de sonhos e utilizando-se da nova tecnologia do olhar ao apresentar as mercadorias ao alcance das mãos sem obrigatoriedade da compra: a vitrine. Eles se utilizavam também de cenários, com manequins de papelão disponibilizando para o público o que estava sendo 7 usado no momento, facilitando a divulgação das últimas tendências por todos os segmentos. Além de tudo isso, essas lojas facilitavam as compras, os sonhos. Com essa forma de financiar os sonhos, ocorreu o surgimento do crédito direto ao consumidor, que foi criado por Aristie Boucicaut, dono do Bon Marché, uma das primeiras lojas de departamentos, inaugurada em meados do século XX em Paris. Por fim, a autora conclui que qualquer que tenham sido as razões para a democratização do consumo, o fato é que no século XIX estava estabelecida uma sociedade de consumo claramente diferenciada e novas modalidades de comercialização e técnicas de marketing. A Inglaterra, França e Estados Unidos já faziam parte dessa realidade. 1.2 A SOCIEDADE DE CONSUMO NA VISÃO SOCIOLÓGICA São diversas as teorias que Lívia Barbosa relatou em seu livro para entendermos o processo sociológico de como ocorreu a constituição da sociedade de consumo. Ela utilizou diversas teorias para caracterizar sociologicamente a sociedade de consumo. O primeiro aspecto ressaltado pela autora, é que as teorias sobre sociedade de consumo dizem respeito à natureza da realidade social. Elas mapeiam e analisam o porque da importância do consumo na sociedade contemporânea ocidental. Mas, ao mesmo tempo, essas teorias sobre o consumo dizem respeito a outras dimensões da vida social. Elas procuram resposta para várias questões como: Quais os processos sociais e subjetivos que estão na raiz da escolha de bens e serviços? Quais são os valores, as práticas, os mecanismos de fruição e os processos de mediação social a que se presta o consumo? Qual o impacto da cultura material na vida das pessoas e, ainda, como o consumo se conecta a outros aspectos da vida social? Para Barbosa, um outro autor fundamental para o entendimento da sociedade de consumo é Don Slater. Em suas obras, o surgimento de uma cultura do consumo deve ser compreendida nos quadros dos tempos modernos. Em sua análise, ele relaciona valores, práticas e instituições no interior das quais nossos desejos e necessidades se definem mutuamente. Ele 8 define a cultura do consumidor através de indicadores sociológicos, pois seria impossível ter uma única definição. O primeiro indicador diz que “a cultura do consumidor é uma cultura de consumo de uma sociedade de mercado”. (BARBOSA, 2004, p.32). Nela, o consumo tornou-se o foco central da vida social, na qual as relações sociais, os valores culturais, as idéias, identidades estão relacionadas de acordo com o consumo as invés de estar ligadas ao trabalho, cidadania e religião. Dessa maneira, ele acaba por descrever a sociedade contemporânea de uma forma negativa, totalmente materialista, no qual os valores das pessoas estão nas coisas que elas possuem. Um segundo indicador é a “cultura do consumidor é a cultura de uma sociedade de mercado”. (BARBOSA, 2004, p.33). Tudo que consumimos esta em forma de mercadorias e o acesso das pessoas a essas mercadorias é através de recursos materiais como dinheiro ou recursos culturais, como gosto e estilo de vida. Para o autor o terceiro indicador seria “a cultura do consumidor é, em principio, universal e impessoal”.(BARBOSA, 2004, p.33). Nesta cultura, as mercadorias são produzidas para um mercado de massas e não para indivíduos específicos. Isto quer dizer que qualquer objeto, experiência, atividade, enfim, qualquer coisa pode ser, em princípios, consumida por qualquer pessoa. O quarto indicador diz que a “cultura do consumidor identifica liberdade com escolha e vida intima”. (BARBOSA, 2004, p.34). Ser consumidor é comprar, pagar e fazer do seu dinheiro o que quiser, sendo assim o consumo é um ato privado, supostamente, sem a interferência de terceiros. No quinto indicador o autor faz referência à necessidade dos consumidores que são ilimitados e insaciáveis. Segundo ele, a insaciabilidade pode ser interpretada de duas formas. Na primeira é vista como conseqüência de refinamento, sofisticação, de imaginação dos desejos e necessidades das pessoas ou da vontade individual de progresso econômico e social. A segunda é vista como uma exigência do sistema capitalista para sua própria sobrevivência. O sexto indicador diz que “a cultura do consumidor é a forma privilegiada para negociar identidade e status em uma sociedade pós9 tradicional”. (BARBOSA, 2004, p.34). Nela, a identidade social é construída pelos indivíduos a partir de suas escolhas individuais, não havendo mais instituições que escolhem o que as pessoas devem que fazer. Um sétimo indicador seria “a cultura do consumo representa a importância crescente da cultura no exercício do poder”.(BARBOSA, 2004, p.32). Neste ponto, a questão cultural confronta entre a real liberdade de escolha ou a submissão a interesses econômicos maiores que se escondem atrás do marketing. Concluindo a sua definição sobre cultura do consumidor, Slater nos alerta sobre o perigo de transformá-la em uma questão de mera preferência do consumidor e segundo ele, “elas precisam ser compreendidas como parte de uma história dos tempos modernos”. O próximo autor que merece destaque é Mike Featherstone. A sua análise é associada a pós-modernidade, ao contrário de Slater que é compreendida nos tempos modernos. Ele reúne suas teorias sobre cultura do consumidor em três grandes grupos. O autor define cultura do consumidor como sendo um termo usado para ressaltar que o mundo de mercadorias e os seus princípios são fundamentais para o entendimento da sociedade contemporânea. “Isto envolve uma dupla perspectiva: primeiro, na dimensão cultural da economia, a simbolização e o uso de bens materiais como consumidores e não apenas utilidades; segundo, na teoria dos bens culturais, os princípios de mercado como oferta, demanda, acumulação de capital, competição e monopólio operam no interior da esfera dos estilos de vida, bens culturais e mercadorias”. (BARBOSA, 2004, p. 36). Barbosa argumenta que é de suma importância à ligação entre a cultura do consumidor e a pós-modernidade, tanto para Feathestone, como para vários outros autores. Pois, para eles a cultura do consumidor é a própria cultura pós-moderna. Uma cultura cheia de signos e mensagens. Featherstone reúne suas teorias sobre cultura do consumidor em três grandes grupos: as teorias sobre a produção do consumo, teorias sobre os modos de consumo e o consumo de sonhos, imagens e prazeres. Na primeira divisão, produção do consumo, Featherstone compreende “a cultura do consumidor como conseqüência da expansão capitalista e do grande impulso 10 trazido à produção pelos métodos tayloristas e fordistas”. (BARBOSA, 2004, p. 37). As pessoas passaram a consumir mais, com a alta produção de mercadorias, e o marketing e a propaganda foram essenciais para que isso acontecesse, pois eles têm o poder de sedução e manipulação para com as pessoas, deixando-as com vontade de consumir. Segundo Barbosa, isso nos leva a ver que a cultura do consumidor é desintegradora, pois os valores e as relações sociais começam a ser diferentes, pois não existem mais as leis suntuárias que decidem pelas pessoas. Agora ser um consumidor é fazer escolhas do que quer comprar, de como pagar e gerir o seu dinheiro sem qualquer interferência institucional ou de terceiros. Apesar de sua perspectiva sociológica, Featherstone acaba naturalizando o modelo contemporâneo de consumo, que é o poder de decisão de cada pessoa. O autor centrará sua atenção nas interpretações neomarxistas. Ele dará ênfase nas implicações para a cultura do consumo segundo a interpretação da escola de Frankfurt. A primeira diz respeito à Indústria Cultural, ou seja, a transformação da cultura em mercadoria; e a segunda diz respeito à anulação do valor de uso em relação ao valor de troca, ou seja, permite que as mercadorias se tornem livres para serem associadas à muitos valores. Portanto, Featherstone diz que o marketing e a propaganda tornam-se “capazes de explorarem e associarem imagens de romance, aventura, exotismo, desejo, beleza, realização, progresso científico a mercadorias mundanas tais como sabão, máquinas de lavar, carros e bebidas alcoólicas”. Para o entendimento da influência da Indústria Cultural na sociedade de consumo, daremos uma pausa para discutir um pouco o seu conceito. 1.3 INDÚSTRIA CULTURAL E SOCIEDADE DE CONSUMO A indústria cultural foi um processo que resultou na crescente mercantilização das formas culturais, ocasionadas pelo surgimento das indústrias de entretenimento na Europa e nos Estados Unidos no final do século XIX e inícios do século XX. Tais bens culturais produzidos por estas indústrias são planejados e manufaturados de acordo com os objetivos 11 capitalistas que buscam por lucro, eles não surgem espontaneamente das próprias massas, são planejados para o seu consumo. (THOMPSON, 1995) De acordo com Coelho, os termos “indústria cultural”, “meios de comunicação de massa”, “cultura de massa” são expressões que estão sempre correlacionados. Ao se referir de um, lembramos dos outros, mas esses termos não são iguais, possuem diferenças. Para entendermos os “meios de comunicação de massa” é necessário à existência de meios, mas não se precisa deles para existir a “cultura de massa”. O surgimento desses meios veio com a invenção dos tipos móveis de imprensa feita por Gutenberg no século XV, mas isso não significa, porém, que a partir disso passe a existir uma cultura de massa, embora com este meio já se pudessem reproduzir em massa os textos da época. Para o autor, a indústria cultural só iria aparecer com os primeiros jornais e a cultura de massa para existir exigiu a presença do romance de folhetim, esse seria sim, um produto da cultura de massa. Mas, para se ter uma cultura de massa outros produtos deveriam estar juntos a esses dois, formando um sistema: o teatro de revista, a opereta, o cartaz. Isso marcaria o surgimento da cultura de massa na segunda metade do século XIX europeu. “Não se poderia, de todo modo, falar em indústria cultural num período anterior ao da Revolução Industrial, no século XVIII. Mas embora esta Revolução seja uma condição básica para a existência daquela indústria e daquela cultura, ela não é ainda a condição suficiente. É necessário acrescentar a esse quadro a existência de uma economia de mercado, isto é, de uma economia baseada no consumo de bens; é necessário, enfim, a ocorrência de uma sociedade de consumo, só verificada no século XIX em sua segunda metade – período em que se registra a ocorrência daquele mesmo teatro de revista, da opereta, do cartaz”. (COELHO, 2003, p. 10). Contudo, o autor argumenta que os termos indústria cultural, meios de comunicação de massa, cultura de massa surgiram com a industrialização, que junto a ela veio à mudança na produção, na forma de trabalho humano, onde o uso de máquinas estava crescendo e o trabalho humano tornou-se submisso ao ritmo da máquina, a exploração ao trabalhador e a divisão do trabalho. Tudo isso são indícios marcantes da sociedade capitalista liberal para o surgimento da cultura de massa. 12 Para o autor dois desses traços merecem destaque especial: a reificação (coisificação) e a alienação. Esses traços passaram a ser marcantes, pois para a sociedade capitalista liberal tudo é dito como coisa, bem, produto, até mesmo o homem é transformado em coisa. E este homem só pode ser alienado de trabalho, pois possui “um valor em moeda inferior às forças por ele gastas, alienado do produto de seu trabalho, que ele mesmo não pode comprar, pois seu trabalho não é remunerado à altura do que ele produz”. (COELHO, 2003. P.11). Portanto, ele é alienado de tudo, da vida do país e da sua própria vida, dos seus projetos, uma vez que não tem capacidade de ter um pensamento crítico de si mesmo e da sociedade. Assim para Coelho, a cultura feita em série, realizada industrialmente em grande escala, passa a ser vista não como “instrumento de livre expressão, crítica e conhecimento, mas como produto trocável por dinheiro e que deve ser consumido como se consome qualquer outra coisa”. (COELHO, 2003. P.11). Dessa maneira, Coelho conclui que a revolução industrial, o capitalismo liberal, a economia de mercado, a sociedade de consumo, a alienação, a reificação são acontecimentos que caracterizam a indústria cultural, mas os mesmo não são suficientes para descrevê-la. Para Horkheimer desenvolvimento da e indústria Adorno cultural (apud faz THOMPSON, parte do 1995), processo o de desenvolvimento do capitalismo. Tal processo faz com que os indivíduos se tornem menos capazes de serem independentes e mais dependente dos processos sociais podendo ter ou não controle. Em vez de fazer com que esses indivíduos tenham seu próprio pensamento, sua individualidade, esse novo universo faz com que os indivíduos consumam bens padronizados. Continuando a discussão sobre indústria cultural Coelho explica as três formas de manifestação cultural dadas por Dwight MacDonald: superior, média e de massa. A cultura superior “são todos os produtos canonizados pela crítica erudita”, como pinturas, romances, arquiteturas e composições. A cultura média é a chamada midcult, “remete ao universo dos valores pequenoburqueses”, como por exemplo os Mozarts em ritmo de discoteca. A cultura de massa, conhecida como masscult, é difícil de classificar os produtos, pois há uma comparação feita pela cultura dos produtos dos meios de comunicação de massa (TV, rádio e cinema) e pela cultura dos produtos vindos da literatura ou 13 do teatro. Ao mesmo, que deveria ser relacionado com os outros produtos de comunicação de massa, como a moda, a alimentação. Depois do conceito da Industria Cultural, voltaremos a falar sobre as teorias da sociedade de consumo. Segundo Barbosa, outro autor importante é Baudrillard. O autor é ícone das teorias da produção de consumo e se diferencia dos autores pelo uso da semiologia. Para ele "sociedade de consumo é aquela em que o signo é a mercadoria” (BARBOSA, 2004, p. 39). Em sua teoria, ele afirma que o valor de uso e troca da mercadoria está associado ao seu valor simbólico. Para ele, “a autonomia do significado através da manipulação da mídia, da propaganda e do marketing indica que os signos estão livres de vinculação com objetos particulares e aptos a serem usados em associações múltiplas” (BARBOSA, 2004, p. 39). As mercadorias que não possuem nenhum glamour continuam possuindo seus significados originais e funcionais inteiramente neutralizados. “Esta autonomia do significado em relação ao significante torna a sociedade de consumo ou sociedade pósmoderna um universo social saturado de imagens. E a superprodução de signos e reprodução de imagens leva a uma perda do significado estável e a uma estetização da realidade, na qual o pastiche se torna mais real que o real, se torna hiper-real. O presente se torna o tempo permanente e as imagens são unidas cacofonicamente, sem qualquer preocupação com uma lógica histórica que as reúna numa narrativa cronológica e espacialmente coerente. Linguagens visuais do tipo videoclipe e canais de televisão como a MTV são exemplos significativos disso. É essa predominância do signo como mercadoria que levou os neomarxistas a enfatizarem o papel crucial da cultura na reprodução do capitalismo contemporâneo.” (BARBOSA, 2004, p. 39). Um aspecto que Featherstone tem cuidado de observar é o fato da teoria da produção do consumo, na versão neomarxista, ter dificuldade em dar conta das novas práticas e experiências de consumo. A perspectiva frankfurtiana de olhar a Indústria Cultural como produtora de uma cultura das massas homogênea que ameaça a criatividade e a individualidade, pode ser criticada pelo seu elitismo e inabilidade de examinar os processos reais de consumo que revelam respostas complexas e diferenciadas por parte de audiências distintas. Dentro da mesma crítica, Barbosa diz que é importante destacar que a preocupação com o controle e a produção dos consumidores discutidas pelos 14 neomarxistas e pela teoria crítica apresenta sérios problemas. Pois, “embora os consumidores como os operários, possam ser vistos como controláveis pelos capitalistas com o objetivo de aumentar seus lucros, a linha entre persuasão e controle é muito mais difícil de definir na esfera do consumo e do que na produção”. (BARBOSA, 2004, p. 40) O que caracteriza o segundo grupo de teorias a que refere Featherstone sobre os modos de consumo, é “a uma lógica de consumo que sinaliza para formas socialmente estruturadas pelas quais as mercadorias são usadas para demarcar relações sociais”. (BARBOSA, 2004, p. 40). Os consumidores passam a querer que os símbolos dado as mercadorias, sejam atribuídos a si mesmos, causando a formação de hábitos, identidades e diferenciações. Segundo Barbosa, outro autor fundamental para a compreensão da sociedade de consumo é Bourdieu. Em suas pesquisas, o consumo nem era o seu foco analítico, mas buscava novas formas de abordar as relações sociais, ele acabava por enfatizar o consumo nas relações sociais de dominação e submissão e que as pessoas na sociedade contemporânea cultural sempre estavam buscando novos bens, novos produtos para se conservarem em um determinado meio social e serem reconhecidas. Assim, a moda sempre estaria mudando e as pessoas acompanhado. Outros autores que a autora destaca nessa discurssão dos traços sociológicos da sociedade de consumo são Douglas e Isherwood. O foco deles era voltado para a economia. Eles queriam entender o porque das mercadorias definirem a relação social entre as pessoas. Segundo eles, as pessoas usam determinados produtos, não só para consumo físico, mas sim para obter uma posição social. As pessoas que não possuíssem determinados produtos estavam excluídas de um determinado grupo. Dessa maneira, Douglas e Isherwood argumentam que “para os consumidores o consumo é menos um prazer em si mesmo e mais uma forma prazerosa de preencher obrigações sociais”. Contudo, para Barbosa, mesmo que tanto Bourdieu quanto Douglas e Isherwood estivessem preocupados com o consumo enquanto atividade social mediadora, isso de maneira alguma inválida a contribuição de ambos, porem, é difícil ver em que medida o uso de mercadorias seria exclusivo de nossas 15 sociedades ligado à posição social ou a existência de uma economia de prestígio. Para ela, “o uso da cultura material para fins estritamente simbólicos e utilizar objetos e mercadorias como diferenciadores ou comunicadores sociais é um processo utilizado em todas as sociedades”. (BARBOSA, 2004, p. 43). A terceira divisão de teorias de Featherstone que é a do consumo de sonhos, imagens e prazeres, celebrado no imaginário da cultura do consumidor. Estes sonhos e desejos estão em nossa volta em espaços físicos como shoppings centers, lojas de departamentos, dentre outros que geram sensações e prazeres. De acordo com a autora, Featherstone quer com esse terceiro grupo chama a atenção para a existência de forças contraditórias que ocorrem na sociedade contemporânea, que fazem com que as pessoas tenha o prazer de consumir e trabalhar cada vez mais para satisfazer suas necessidades e desejos através da superação da escassez. Ele conclui suas teorias sobre cultura do consumidor, afirmando que existe no seu interior economias de prestígio e simbólicas. A de prestígio demanda investimentos consideráveis em tempo, dinheiro e conhecimento para que os bens posicionais sejam manuseados apropriadamente, de forma que estes possam ser utilizados para indicar o status de seu usuário. Enquanto, que as simbólicas propiciam sonhos e satisfação emocional individual através de seus signos, imagens e mercadorias simbólicas. O nosso próximo autor é Bauman. Para a autora, Bauman é extremamente importante na medida em que suas teses são difundidas e defendidas no Brasil e se caracteriza por serem pessimista e moralizante. Ele analisa diferentes categorias sociais e o impacto da sociedade de consumo sobre as mesmas. Para ele, “a característica distintiva da sociedade de consumo não é o alto grau de consumo em si, mas a desvinculação deste de qualquer função pragmática ou instrumental”. (BARBOSA, 2004, p. 46). Bauman diz que somos vítimas do consumo e que estamos entre o capricho e o desejo, onde o capricho se caracteriza pela sua dimensão casual, espontânea e aleatória, enquanto o desejo se enraíza na comparação, na vaidade, na inveja e na necessidade de aprovação, o capricho, como todos os caprichos, é infantil e inseguro. 16 Para ele, segundo Barbosa, os responsáveis por esta situação são dois séculos de capitalismo, os capitalistas, os marketeiros e os próprios consumidores. Bauman diz que muitas vezes um comportamento irracional pode dar origem a uma estratégia racional e oferecer uma opção racional,entre as disponíveis, são as chamadas conseqüências não antecipadas das ações sociais. É bom lembrar que o estado do bem-estar social surgiu justamente como forma de proteção aos desequilíbrios sistêmicos do capitalismo praticados por sociedades capitalistas. O ultimo autor a ser analisado pela autora é Campbell. Ele possui uma visão apologética da sociedade de consumo. Ele considera que o consumismo moderno é na verdade uma atividade através da qual os indivíduos conseguem resolver suas crises de identidade. Ele afirma que o que caracteriza a sociedade de consumo moderna é a insaciabilidade dos consumidores. Assim que um desejo ou "necessidade" é satisfeito, outro já se acha à espera. Esse processo é incessante e ininterrupto. A atividade fundamental do consumo é à procura do prazer (hedonismo) imaginativo a que a imagem do produto se empresta. O hedonismo tradicional é o prazer das sensações através da memória. Já o hedonismo moderno “se caracteriza pela preocupação primordial das sensações para as emoções”. (BARBOSA, 2004, p. 51). Isso ocorre através da imaginação de experiências agradáveis ocorridas anteriormente. Os consumidores não estão procurando nos produtos suas necessidades, mas sim o prazer, o prazer imaginativo que este objeto pode trazer, sendo assim, resulta o hedonismo mentalístico. De acordo com Barbosa, Campbell relata que o consumo moderno é tudo menos materialista, pois se as pessoas desejassem somente o consumo material de bens seria sim materialista, mas ao contrário, as pessoas se desfazem das coisas rapidamente por outras novas na medida em que vai saindo novos produtos no mercado. Ele afirma que o marketing e a propaganda não manipulam o consumo moderno, eles não possuem influência nesse processo, pois os consumidores, consomem por prazer. Para ele, “marketing e propaganda seriam no máximo sistemas de oferta de informação de novos produtos e serviços que vão detonar novas possibilidades de daydreams”. Ele quer dizer que o marketing e a propaganda não são fatores determinantes para 17 a compra. Eles influenciam no conhecimento do produto ou serviço, mas o poder de compra e quem decide a compra é o consumidor. Segundo a autora, Campbell diz que “somos aquilo que possuímos e como tal somos sujeitos desconstruíveis e permanentemente mutáveis”. Nós nos descobrimos ao nos expormos a uma grande variedade de produtos e serviços, e a partir daí vermos a nossa reação a eles, descobrindo o que gostamos e o que detestamos. É a partir disso, que as pessoas passam a descobrir a verdadeira identidade delas, na reação aos produtos e não nos produtos. “Como o autor conclui, o consumo na sociedade de consumo moderna não deve ser visto como uma busca desesperada pela ausência de significado, mas a solução desta busca. O consumo na sociedade contemporânea oferece o significado e a identidade que todos nós buscamos, e é justamente através dessa atividade que descobrimos quem somos e conseguimos combater o nosso sentimento de insegurança ontológica”. (BARBOSA, 2004, p. 39). Depois desse estudo sobre como se deu a sociedade de consumo, toda a sua trajetória e sobre as suas influências na sociedade contemporânea, no modo de como em que as pessoas passaram a consumir, desejando bens materiais e obtendo o prazer no ato de consumo. E é a partir desses conhecimentos, poderemos assim, partir para o próximo capitulo. No capitulo seguinte, iremos nos deter na imagem feminina no campo publicitário. De como a figura “mulher” vem sendo utilizada em anúncios publicitários, com o objetivo de coisificar a sua imagem, mesmo esta já ocupar uma posição social perante a sociedade. Vamos entender porque o marketing e a propaganda ainda utilizam a mulher como objeto de consumo. 18 CAPÍTULO 2 - A IMAGEM DA MULHER NA PUBLICIDADE Neste segundo capítulo, falaremos um pouco da utilização da imagem das mulheres na publicidade e como se deu o processo pelo qual as empresas cada vez mais utilizam os corpos femininos para divulgação de alguma marca ou produto. A autora escolhida para esse percurso foi Flailda Brito Garboggini. De acordo com a autora, a vida da mulher sofreu muitas transformações de quarenta anos para cá. Hoje, além de cuidar da casa e dos filhos, as mulheres trabalham fora, tomam decisões dentro e fora de casa. Mas ainda se comprova a existência de comportamentos machistas no Brasil e a publicidade se utiliza muito disso. E é sobre essa transformação que este capítulo irá se desenvolver. O papel da mulher na sociedade é motivo de pesquisa para o mundo publicitário. Cada vez mais as empresas vêem que as mulheres estão se tornando um tipo de consumidor muito importante na conjuntura socioeconômica brasileira, constituindo-se ao longo século XX, como consumidora, não só de produtos para o lar, mas de produtos que anteriormente só os homens compravam, participando, assim, do processo de decisão do que deve ser consumido. Para Garboggini (2003), a liberdade feminina, tanto profissional como intelectual, veio como conseqüência dos movimentos feministas e femininos do mundo ocidental. Porém, essa liberdade também foi devido à colaboração da mulher no orçamento doméstico, levando assim as mulheres a terem mais contato com o mundo fora das paredes do lar. Isso favoreceu, portanto uma mudança de vida e de valores. Colaborando com esse aumento da liberdade das mulheres, a partir da década de 70, houve no Brasil, um aumento no número de estudantes do sexo feminino em todos os tipos de ensino, ampliando-se assim a sua participação profissional no mercado de trabalho. Enquanto acontecia esse avanço feminino no mercado, ao mesmo tempo, ocorria a consolidação das audiências de televisão, possibilitando o acesso cada vez maior as informações nacionais e internacionais. Apesar dessas transformações, a participação ativa das mulheres no mercado de trabalho traria também desvantagens, pois muitas delas 19 acumulavam trabalho em casa, principalmente aquelas de classes média e baixa, pois não tinham condições de contratar uma empregada doméstica para substituí-la nas atividades do lar. Segundo Garboggini (2003), ao longo desse período, no que diz respeito a utilização publicitária da imagem das mulheres a “preocupação deveu-se não apenas quanto à forma como era representada [mulher] como dona-de-casa ou símbolo sexual na publicidade, mas sim a insistência nesse padrão” (GARBOGGINI, 2003, p. 143). O que mais revoltava era a utilização constante desses estereótipos, pois as mulheres já ocupavam funções profissionais e assumiam papeis importantes na vida, dividindo responsabilidades que antes só os homens assumiam. Com a ocorrência das mudanças no lugar ocupado pelas mulheres na sociedade, os homens também passaram a participar do espaço doméstico e a assumir papeis convencionais, anteriormente, considerados femininos. Mas Garboggini nos lembra que, apesar da existência desses novos papéis, a publicidade demorou a mostrálos, pois continuam a representá-las como dona-de-casa. 2.1 O FEMINISMO Daremos uma pausa agora para explicar como aconteceu o movimento feminista. Isso fará com que possamos entender melhor qual a sua influência na utilização da figura feminina no campo publicitário. Para explicar melhor o movimento feminista, no embasaremos no livro “O que é feminismo”, de Branca Moreira Alves e Jacqueline Pintaguy. De acordo com as autoras, nos anos de 1930 e 1940, a mulher já havia conseguido alguns direitos originados de algumas reivindicações, tais como: o voto, elas podiam votar e ser votadas, o ingresso nas instituições escolares e já podiam também participar do mercado de trabalho. Com isso, as mulheres foram reconhecidas pela sua cidadania. Nestas décadas, ocorre a ascensão do nazi-fascismo, período marcado pela eclosão da II guerra mundial. A igualdade entre os sexos contribuiu para que a mulher tenha uma participação na esfera de trabalho, pois no momento os homens estavam sendo liberados para as frentes de 20 batalha. Esse processo se deu nos países ligados diretamente com a batalha, como os EUA e a Inglaterra. Segundo as autoras, com o final da guerra veio o retorno do trabalho masculino, fazendo com que as mulheres sejam recondicionadas para o trabalho doméstico, com o intuito de tirá-las do mercado de trabalho e dar lugar aos homens. Nesse período, as mensagens publicitárias veiculadas nos meios de comunicação enfatizam a mulher com “a rainha do lar”, “a dona de casa”, esposa e mãe. Assim, o trabalho da mulher é suplementar ao do homem, se tornado desvalorizado. Para Alves e Pitanguy, na década de 60, o feminismo incorpora outras frentes de luta, além de reivindicar pelos direitos políticos, trabalhistas e civis, agora se questiona as raízes culturais dessas desigualdades. Se questiona “a mística de um eterno feminino”, ou seja, a crença na inferioridade “natural” da mulher, calcada em fatores biológicos.”(ALVES e PITANGUY, 1981, p.564), na qual os homens e mulheres estão condicionados a sua própria natureza a cumprir papéis opostos na sociedade, a mulher tendo a função de procriadora, mundo interno, e o homem, ao mundo externo. Isso faz com que os homens tenham a posição de mando. Para as autoras, o movimento feminista, na década de 60, se questionou também sobre a diferenciação de papeis (política, sistema jurídico, religião, etc), pois muitas construções da cultura são decididas por homens. Dessa forma, o feminismo reivindicava a igualdade em todos os níveis, seja no mundo externo, como no doméstico. Para continuar entendendo como se deu o movimento feminista, falaremos um pouco de como a mulher era vista nos tempos passados, para que desencadeasse o movimento feminista. Na Antiguidade, a mulher na Grécia ocupava posição equivalente a de um escravo no sentido de que elas executavam trabalhos manuais, extremamente desvalorizados pelo homem livre. A mulher gerava, amamentava e cuidava dos filhos, além de produzir tudo que estava ligado a subsistência do homem como a fiação, a tecelagem, a alimentação. Elas ainda exerciam ainda trabalhos pesados como o trabalho agrícola e a extração de minerais. Os homens só dedicavam as atividades consideradas nobres, como a filosofia, a política e as artes. Dessa forma, as mulheres gregas eram excluídas 21 do “mundo do pensamento, do conhecimento, tão valorizado pela civilização grega”.(ALVES e PITANGUY, 1981, p.12). De acordo com as autoras, as mulheres começaram a protestar sobre seus direitos e nos primeiros séculos da Idade Média, as mulheres já possuíam alguns direitos, garantidos pela lei e pelos os costumes. Assim, quase todas as profissões já eram acessíveis às mulheres, como também o direito de propriedade e sucessão. Na política também já podia se ver mulheres participando de assembléias e com direito a voto. Dessa forma, ao longo da Idade Média, as mulheres aos poucos foram conseguindo direitos e adquirindo tarefas antes ditas masculinas. No século XVII, período que antecede a Revolução Francesa, a idéia de igualdade de direitos para a mulher ainda era intolerável. “Marcado pela intensa participação das massas na esfera política, o século seguinte é o século das revoluções. As idéias de liberdade do cidadão frente ao arbítrio do Estado e a consciência de que esta só se constrói com a participação do individuo na esfera política, se afirmam enquanto princípios da ideologia liberal, que encontram, na propriedade privada, sua base material”. (ALVES e PITANGUY, 1981, p.30). Na França, neste mesmo século, as mulheres não vêem as conquistas políticas estenderem-se ao seu sexo. É a partir deste contexto histórico, que o movimento feminista ganha novos ares, com uma prática de ação política organizada. Elas reivindicam, por exemplo, a mudança da legislação sobre o casamento, tirando o direito do marido sobre o corpo e os bens de sua mulher. Como afirmam, Alves e Pitanguy: “No século XIX, a consolidação do sistema capitalista trará conseqüências profundas tanto para o processo produtivo quanto para a organização do trabalho o um todo, e para a mão-deobra feminina, em especial. O sistema de produção manufatureira e, posteriormente, fabril, o desenvolvimento tecnológico e a introdução cada vez mais significativa da maquinaria, vão afetar o trabalho feminino, transferindo para as fábricas tarefas antes executadas a domicílio, e aumentando enormemente o contingente feminino da mão-de-obra operária.” (ALVES e PITANGUY, 1981, p.36-38). A mulher começou, a partir disso, a compartilhar com o homem as terríveis condições de trabalhos vigentes, eram jornadas de 14, 16 e até 18 horas por dia. Mas, tanto elas, quanto os menores ainda sofriam uma 22 superexploração em virtude das diferenças salariais. Os homens ganhavam o dobro ou mais do salário delas e a justificativa para isso era de que a mulher necessitava menos salário, porque supostamente teria alguém que lhe sustentassem. Ao mesmo tempo em que o salário das mulheres era desvalorizado, fazia-se com que os salários de maneira geral diminuíssem. Com isso, os movimentos operários tentaram impedir o ingresso das mulheres no mercado de trabalho. Depois dessa breve explicação sobre como era a mulher nos tempos passados, voltaremos a falar do movimento feminista na década de 60. Esta década se caracterizou pelas lutas contra o colonialismo, a discriminação racial, pelos direitos das minorias, pelas reivindicações estudantis. É neste contexto histórico de contestações e lutas que “o feminismo ressurge como um movimento das massas que passa a se constituir a partir da década de 70, em inegável força política com enorme potencial de transformação social”.(ALVES e PITANGUY, 1981, p.58). Para as autoras, é a partir disso que surgem organizações que atuam como núcleos congregadores de mulheres, desenvolvendo atividades e participando de campanhas que levaram milhares de mulheres às ruas reivindicando seus direitos. Neste contexto, o movimento feminista denuncia a forma pela qual as mulheres são submetidas, tanto na agressão física, como estrupos, espancamentos, assassinatos, etc, como na utilização do seu corpo enquanto objeto de consumo. E é nesse argumento, coisificação do corpo da mulher no campo publicitário, que este trabalho irá nos levar. Continuando a argumentação, para Naomi Wolf: “Nas duas últimas décadas de atividade radical que se seguiram ao renascimento do feminismo no inicio da década de 70, as mulheres conquistaram direitos legais e de controle de reprodução, alcançaram a educação superior, entraram para o mundo dos negócios e das profissionais liberais, derrubaram crenças antigas e tornaram-se respeitadas quanto ao seu papel social. Porém, com todas essas conquistas, as mulheres não se sentiam tão livres quanto gostariam de ser”. (citado por GARBOGGINI, 2003, p.144) Para Wolf, a falta de liberdade das mulheres está associado a sua insegurança quanto à aparência física, ao corpo, ao rosto, ao cabelo, as 23 roupas, pois, é imposto a mulher que ela só terá sucesso profissional se sua forma física for bonita e perfeita, de acordo com os padrões estabelecidos pela mídia. Dessa forma, a beleza passa ser uma condição para que a mulher venha a avançar profissionalmente. Trata-se do mito da “beleza virtuosa” que substitui o antigo mito da “domesticidade virtuosa”. Essa beleza, que por muitas vezes não é alcançada, faz com que as mulheres se sintam inseguras ou menos valorizadas. No Brasil, como em outros países, a publicidade vem traçando uma abordagem que associa a beleza da mulher à utilização de muitos produtos de diversas categorias como higiene pessoal, cosméticos, vestuário, regime, bebidas, dentre outros. Junto a esses produtos, está a apresentação de modelos ou atrizes que possuem o padrão de beleza imposto pela mídia, que na prática torna-se inatingível para maioria das pessoas. Segundo Lucena, “a redefinição do mito da beleza criou um novo imperativo de consumo e uma nova justificativa para a desigualdade econômica no local de trabalho, que substituíam os que não exerciam mais influência sobre a mulher recém liberada”. (GARBOGGINI, 2003, p.145). Para a autora, precisava-se gerar uma economia de consumo voltada para a escravidão à moda, à beleza ou mesmo a uma perfeição inatingível. Dessa forma, geraria nas mulheres uma tendência maior ao consumo de produtos que lhes trouxessem o aperfeiçoamento da aparência, manutenção da juventude, emagrecimento do corpo, dentre outras formas estéticas. 2.2 A MULHER NAS DÉCADAS DE 70 E 80 Para compreender o processo de utilização de mulheres nas campanhas publicitárias de cervejas é preciso entender o modo pelo qual Garboggini procede a sua análise. Garboggini (2003), em sua análise dos comerciais de televisão das décadas de 70 e 80 observou que a maioria deles retratavam a mulher de modo muito semelhante. A autora constatou dois tipos: de um lado a solteira, bela e jovem, que era mostrada de forma erotizada, servindo de objeto de desejo sexual. Serviam, também, de modelo de beleza para outras mulheres e 24 de isca na propaganda de produtos dirigidos ao público masculino. Por outro lado, a mulher adulta, casada, mais recatada, séria, era a mãe, a dona-decasa. Este tipo servia para os anúncios de produtos das categorias de limpeza, alimentação e de serviços domésticos. Um exemplo do segundo tipo de mulher, mencionada pela autora, é apresentada na campanha da margarina Doriana. Em 1973, o comercial mostrava a mulher independente, onde a filha apresentava o produto a sua mãe, desafiando-a a substituir a manteiga, produto tradicional, pela margarina. O cenário era de uma festa, onde a mulher estava servindo aos convidados. Contudo, podemos ainda perceber seu papel servil embora discutissem sobre as mudanças do mundo nos novos tempos e da necessidade de mudar os produtos. Nessa época, a imprensa retratava esse período como sendo marcado pelas contestações e discussões entre as gerações. A “Doriana”, dessa forma, tentava mostrar a sua consciência em relação a crise das gerações e aos movimentos feministas. Em 1974, essa tendência se repete em um comercial de uma jovem esposa servindo o café da manhã ao seu marido, introduzindo a nova margarina, sem que ele perceba que não é a manteiga. Nesse comercial, encontra-se a idéia de independência da mulher, pois é ela quem traz para a mesa a Doriana cremosa sem o consentimento do esposo. De acordo com a autora, no fim da década de 70 a mulher era mostrada na publicidade apenas no cenário doméstico, acompanhada da família feliz, fazendo as tarefas do lar. E o marido era apresentado de forma rápida em atividades de lazer com os filhos. Na década de 80, aconteceram inúmeros avanços técnicos na publicidade televisiva, mostrando muito mais dinamismo na utilização de recursos visuais e sonoros. A imagem da mulher começou a mudar. Ela passou a ser uma mulher “ativa, moderna, sempre bem disposta e feliz dentro do lar”. (GARBOGGINI, 2003, p.148) Até 1992, a “Doriana” divulgou propagandas em que a mulher fazia todos os afazeres domésticos, e, segundo a publicidade da empresa, a mulher se sentia feliz em receber simplesmente elogios e sorrisos dos filhos e maridos. Segundo a autora, eram poucos os anunciantes que ousavam utilizar os apelos femininos em propagandas. Um exemplo, dado pela autora, é do desodorante Rexona, na qual mostrava-se uma mulher que entrava em um 25 elevador lotado e no anúncio havia a seguinte frase: Sempre cabe mais um quando se usa Rexona. Outra propaganda é a do desodorante Impulse, onde uma mulher caminhava pelas as ruas e foi surpreendida por um desconhecido lhe dando flores. No anúncio havia a seguinte frase: Use impulse e se alguém lhe oferecer flores isso é Impulse. Dessa forma, esses produtos proporcionam as mulheres armas de conquistas. Esses anúncios apelam para as necessidades de afeto e aceitação social. Pode-se concluir então, que nos anos 70 e 80 não houve nenhuma inovação para o papel feminino. Por mais que se estivessem ocorrendo mudanças na vida da mulher, os comerciais ainda a representavam no papel tradicionalmente consagrado. 2.3 A MULHER NA DÉCADA DE 90 Na década de 90, devido ao crescimento das audiências em todas as classes, ao surgimento de novas mídias, como a invenção do sistema de TV a cabo e a ampliação dos mercados segmentados, houve uma transformação na relação do campo publicitário com a representação da mulher. Segundo a autora, houve uma maior participação feminina no poder econômico, resultante de sua entrada no mercado de trabalho. Dessa maneira, as empresas começaram a focar seus produtos na mulher, adequando suas propagandas aos novos papéis femininos. Há um dado muito importante que a autora destacou e que não podemos deixar de nos deter: “Há uma as discordância por parte dos consultores de empresas e especialista de propaganda que destacam, em tom crítico, a elevada presença da mulher apenas como coadjuvante e objeto de desejo e de uso do homem em grande parte da publicidade realizada no País”. (GARBOGGINI, 2003, p.149). Para ela, ainda existe no Brasil uma cultura machista, mas alguns publicitários aconselham que a propaganda deve tratar a mulher de forma natural, de como ela é realmente no seu dia-a-dia. Um exemplo, citado pela autora, é a propaganda da margarina Qualy na década de 90, que mostra a naturalidade de uma família contemporânea, associando a imagem de 26 qualidade de vida familiar à qualidade do produto. Já a margarina Doriana, mostrava a mulher pedindo a compreensão do marido e dos filhos para a realização de seu sonho que é escrever um livro. Para isso, ela pedia perdão por estar afastando-se dos seus deveres domésticos e por não estar acompanhado o crescimento dos filhos. Sendo assim, membros da família entendiam e passavam a executar as tarefas do lar. Com esses exemplos, a autora quis mostrar uma tentativa de transformação e um certo avanço do campo publicitário em relação a representação da mulher. No segundo exemplo, a mulher tentou sair do tradicional, mas ainda sente um pouco de culpa, pois percebe que não está preparada para mudar de papel. Vários setores da sociedade não eram favoráveis a esses avanços, fazendo com que a mulher não sinta autoconfiança, a não ser que ela tenha coragem de enfrentar os olhares e críticas sem se abalar. Mas, de qualquer forma, esse foi um marco de mudança na publicidade. No meio publicitário, começou-se a evitar a discriminação e os exageros machistas, devido às críticas apresentadas por parte da sociedade. Isso se refletiu bem no comercial “Bar” da cerveja Kaiser, que foi extremamente machista e recebeu inúmeras queixas através da linha direta da empresa. No comercial, o homem engana sua mulher dizendo que ainda está no trabalho e na verdade está bebendo com os amigos em um bar. Este comercial gerou uma reação por parte de grupos de mulheres. Assim, a Kaiser sentiu-se na obrigação de criar uma outra propaganda, chamada “a vingança da AMÉLIA”. Nela, a mulher também trabalha e bebe cerveja em um bar, e assim estaria se “igualando” ao seu marido. Desta forma, a mulher começa a assumir novas funções, passando a dividir com o homem a responsabilidade com relação à família sem perder a sua feminilidade. “A exigência das mulheres por maior igualdade e, principalmente, pelo aumento da independência financeira está forçando os homens a repensar a postura de autoridade e os papéis como provedor material e protetor da segurança da família. Como resultado dessas alterações sociais, a propaganda começou lentamente a abordar os novos temas como a redefinição do status feminino na sociedade”. (GARBOGGINI, 2003, p.153-154). 27 Nos anos 80, as propagandas tinham o objetivo de persuadir o consumidor, afirmando que seu produto é melhor do que o do concorrente. Já nos anos 90, o campo publicitário se utiliza da sedução, da surpresa, sempre renovada e do entretenimento. A marca torna-se um verdadeiro espetáculo publicitário. Assim, a publicidade dos anos 90 segue as novas tendências de representação do masculino e do feminino. Para a autora, a publicidade da década de 90 até hoje mudou a forma de apresentação da mulher. Ela deixou de ser vista só como dona-de-casa, mas agora em várias funções e profissões. A partir de então, todos os membros da família passaram a colaborar nas tarefas do lar. Contudo, segundo Garboggini, “os apelos tradicionais continuam ao lado de novas abordagens dos diversos tipos de funções femininas solicitadas na publicidade nos períodos anteriores” (GARBOGGINI, 2003, p.155). Há mais um aspecto a ressaltar nessas transformações dos papéis femininos, pois nem tudo são flores para muitas mulheres que romperam barreiras, assumindo cargos importantes e conquistando a liberdade pelo movimento feminista. Essas mulheres acabaram exagerando na busca de alcançar postos de controle de situação, e como conseqüência perderam o contato com a família e com sua própria sensibilidade e feminilidade. Algumas ficaram com saudades do lar e outras demonstram sinais de frustação. Garboggini verifica algumas reações: algumas mulheres fogem do trabalho no mercado, pois se sentem mais felizes no lar. Outras batalham para atingir os lugares dos homens, para se sentirem iguais. E finalmente, existe a mulher equilibrada. Ela equilibra os dois lados e se sente feliz e estabilizada. Concluindo, a autora vê que a publicidade deverá acompanhar as têndencias e as empresas deverão fazer suas escolhas, percebendo as diferenças comportamentais e as possibilidades de mercado, para assim, fazer o posicionamento de sua marca ou produto. Uma outra autora importante para a compreensão das novas representações do feminismo na publicidade é Maria Inês Ghilardi Lucena. Em seu artigo “As representações do feminismo na publicidade”, a autora busca os muitos discursos produzidos para retratar a mulher e estudar 28 qual o seu papel na sociedade, sua maneira de ver o mundo e de como ela é vista pela mídia. Ghilardi Lucena argumenta que a mulher possui uma trajetória histórico-social marcada por muitos percalços e grandes sonhos. Para ela, a origem desses problemas está nas relações estabelecidas historicamente e criadas pelo sistema patriarcal que valoriza bem mais o masculino que o feminino, provocando desigualdades sociais, econômicas e culturais entre homens e mulheres. Mas, Ghilardi Lucena afirma que não basta estudar apenas as representações femininas na mídia, pois isso não resolve o problema das desigualdades entre homens e mulheres. Tal estudo só vai melhor verificar o quanto ainda há para ser feito e conquistado. Foi na década de 90, “época que encerra a marca da diversidade, da mudança, da vontade de ser diferente e contrasta com as marcas do início do século” (LUCENA, 2003, p.160), que a mulher começou a mudar e a transformar a sociedade e o homem. Mas ainda é preciso responder a pergunta: em que a mulher mudou? Ela resolveu ser feliz, sem nenhuma repressão. Emancipou-se, revolucionando sua história. Com vimos, o discurso publicitário apresentou tendências de mudanças, ele passou a exibir indícios de uma nova mulher que é moderna, atuante e decidida. “As mulheres emanciparam-se, conquistaram maior liberdade de decisão e estão ocupando novos papéis sociais. Entretanto, à medida que foram se emancipando, foram adquirindo características masculinas. Ao mesmo tempo, procuram manter a feminilidade do passado nos moldes do mundo moderno. São bastantes arrojadas, muitas vezes. As transformações, no entanto, dependem das classes sociais a que pertencem, das oportunidades que lhes são oferecidas e do lugar que ocupam na sociedade”. (Lucena, 2003, p.162) De acordo com a autora, as conquistas femininas, ao longo dos anos, são evidenciadas em anúncios publicitários. Ela destaca alguns exemplos. Com a modernidade, a mulher Amélia, deixou de ser submissa às tarefas do lar, de cuidar e não reclamar, enfim deixou de ser uma figura idealizada de perfeição. A “Amélia” de hoje, passou a ser uma mulher moderna que utiliza a Internet para cuidar do lar, na qual antes, sozinha, cuidava da casa e do marido estritamente. Dessa maneira, a mulher conquistou a sua emancipação. Esta 29 liberdade se refere à possibilidade de realizar sonhos antes impossíveis e também ter direito de decidir de acordo com seu pensamento e até mesmo a sua escolha sexual. Agora, ela passou a decidir o tipo de automóvel da sua família, a realizar seus sonhos e seus desejos. Para a autora, a liberdade, a emancipação e o poder de decisão estão ligados ao novo tabu que trouxe a década de 90: o homossexualismo. Nesta década, várias propagandas se utilizaram do homossexualismo. Um exemplo, citado pela autora, foi a propaganda da Campari, onde a mulher termina seu namoro com o homem e se insinua para uma mulher. Em todos os momentos elas seguram um copo de bebida com gelo. No local, há um terceiro copo deixado pelo homem. E a frase diz o seguinte: Um final imprevisto. Campari. Só ele faz assim. Outro fator importante destacado pela autora é que a mulher passou a tomar a iniciativa amorosa. Antes, a mulher era recriminada se tomasse alguma iniciativa na conquista e ela também não podia cometer nenhum ato de traição, pois a fidelidade era obrigatória para a mulher. Porém, na publicidade a traição já passa a ser tematizada, indicando que já poderia existir uma possível infidelidade ao homem. Como podemos ver em um anúncio de tempero da revista Claúdia, que sugere amor e paixão. Nela dizia o seguinte texto: Engane seu marido. Parece feito em casa, mas é pronto. Salsareti. Pratico porque já vem pronto. Gostoso como se fosse feito na hora. Etti. Moderna como você. Segundo a autora, a beleza tem se mostrado uma preocupação constante para as mulheres, assim como objeto de cobrança para a sociedade. Entretanto, o padrão de beleza mudou com o tempo. Hoje as mulheres almejam um corpo perfeito, um rosto lindo. Elas se preocupam com as celulites, as estrias, em emagrecer, cuidar da pele e dos cabelos. O ideal de beleza nas mulheres acaba se tornando uma imposição devido à modernização da sociedade e dos novos papéis assumidos pela nova mulher. Para obter sucesso profissional e na vida amorosa, as mulheres querem parecer mais jovens e belas, então gastam muito dinheiro na compra de produtos “milagrosos”, fazem dietas, submetem-se a cirurgias plásticas, etc. É difícil para as mulheres admitirem que estejam envelhecendo, de forma que elas costumam mentir a idade. Ao contrário da mulher, para o homem é natural envelhecer. 30 Para autora, a publicidade também se utilizou da sensualidade feminina. Sempre vista de forma sensual, a mulher perdeu todo seu recato e começou a se expor e mostrar seu corpo de forma mais provocante, “principalmente as imagens visuais dos anúncios publicitários primam por mostrar o que antes era velado: a sensualidade feminina”.(Ghilardi Lucena, 2003, p.171). Segundo ela, talvez essa seja a característica mais feminina ao longo da história da mulher. “Apenas adquiriu novos ares e se expõe a muitos olhares, na modernidade”. (Ghilardi Lucena, 2003, p.171). Dessa maneira, a mulher busca hoje ser diferente, criativa, original, buscando sempre se renovar nesse mundo em que muda constantemente, principalmente na busca de seu amado e do sucesso profissional. Porém, com todas as mudanças decorridas pela modernidade, a mulher não perdeu suas características femininas. De acordo com a autora: “A mulher continua sensível, delicada, romântica e charmosa, apesar das transformações. A sensualidade, de que ela não abre mão, antes velada, agora se expões ora em revistas com fotos de mulheres nuas ora em filme eróticos. A beleza, antes natural, hoje é produzida, artificial. Essa é a forma para alcançar a felicidade e não mais abrir mão do sonho, como fazia no passado.” (Lucena, 2003, p. 175) Finalmente, a imagem da mulher vai sendo construída pela publicidade e também por outros discursos sociais como o político, religioso e jornalístico. É preciso, entretanto ter uma certa cautela em relação a essa nova imagem, pois as mulheres começam a aceitar os valores propostos, na maioria das vezes, sem questionar, por gostarem dos elogios que são lhe dados, por acharem vantajosas às propostas lhe oferecem pelos anúncios, simplesmente por não perceberem o jogo de manipulação implícito no discurso. Iara Beleli em seu artigo: “As diferenças marcadas entre gênero, raça e nacionalidade na propaganda”, também contribui para entendermos as transformações da imagem da mulher no campo publicitário. Para ela, as diferenças de gênero, raça e nacionalidade são marcantes nos anúncios publicitários, com o objetivo de sempre atingir um público-alvo direcionado a determinado produto. Mas, mesmo com a função de atingir certos públicos direcionados, as propagandas não podem ser enganosas e nem ofensivas. 31 Uma propaganda da Nestlé, citada pela autora, foi alvo do Código de Defesa do Consumidor, pois uma dona-de-casa denunciou a propaganda do suco de laranja Frutness, que dizia a seguinte frase: “Tem tanta coisa melhor para espremer do que laranja”. Essa frase acompanhava a embalagem do produto e ao lado dela vinha a imagem dos seios de uma mulher, vestida de ligerie preta. Esta campanha mostra a facilidade da dona-de-casa não perder mais tempo espremendo a laranja, podendo atingir a diversos públicos. Porém, a frase sugeri que em vez de você perder tempo espremendo uma laranja, esprema os seios de uma mulher. Sendo assim, a propaganda estaria direcionada para o público masculino, promovendo suas fantasias e desejos. “Promover o consumo é o único objetivo desse setor de mercado. Para isso, os publicitários, na maioria das vezes, recorrem a pesquisas que os aproximam dos potenciais consumidores e estão o tempo todo mapeando e jogando com o que pensam ser as necessidades dos seres humanos, seus “sonhos” de realização de beleza, de prestígio, de poder. Essas “supostas” necessidades são transpostas aos significados atribuídos aos produtos.” (BELELI, 2003, p.182) No início do século XIX, começam a aparecer propagandas que abordam a diferença sexual, marcando a beleza feminina e a força masculina. Isso se propaga ao longo do século XX. Segundo Beleli, isso não quer dizer que a sociedade e seus símbolos ficaram parados até este século, mas alguns símbolos que se referem à diferença sexual permanecem como constituidores de identidade. “Os tipos de mulheres existentes no mercado publicitário na década de 70 e 80 eram (escrava-empregada, objeto-sexual, boneca deslumbrada, burra, ingênua encantada) e a identificação do homem com o trabalho, suas conquistas econômicas, sociais e sexuais” (citado por BELELI, 2003, p. 184) são, até hoje, imagens de apelo no mercado publicitário. Beleli, na associação de mulher e trabalho, citou o exemplo da campanha dos mamíferos da Parmalat, na qual a mãe deixa de ser a “mãe – nestlé”, que cuida e protege os filhos, vai a festa da escola, ou da mãe-danone, que se preocupa com a inteligência dos filhos dando fósforo, ferro, enfim vitaminas, sai desse referencial e passa a ser a mãe que rola com os filhos no chão no pouco tempo que tem após sua entrada no mercado de trabalho. 32 Pode-se notar, nesta propaganda, a inserção da “nova mulher”, que apesar das duplas jornadas de trabalho, ainda encontra tempo para estar com os filhos e também com o marido. Segundo Beleli, para Sant’Ana, no século XX, muitos anúncios publicitários eram dirigidos ao público feminino no combate a feiúra, se incentivava à maquiagem dos defeitos naturais, como a tintura dos cabelos, tirar pêlos, etc. Beleli (2003) cita alguns autores em sua discussão. Segundo Abib, a mulher continua sendo explorada pela publicidade seja apelando para a forma natural de ser ou para formas produzidas. Em vez de um homem elogiar um bom jantar, como em anúncios da década de 50, agora ele elogia o corpo da mulher. No entanto, para a autora a profissionalização da mulher não foi algo inventado pela publicidade, isso aconteceu decorrente de transformações sociais mais amplas, oferecendo a publicidade novos modelos de mulher. Ela ainda afirma que a exploração de gêneros nas imagens, na busca por aprender as novas concepções do masculino e do feminino requer examinar a tensão existente entre mulher e homem como projetos e/ou descrição da realidade existente. Como exemplo, a utilização de seios grandes podem ser importantes em anúncios de lingerie, mas pode adquirir outro conceito, dependendo da maneira que é exposto. A autora cita o diretor de criação da DM9DDB, Sérgio Valente. Para o publicitário, não há machismo na vinculação da mulher bonita e cerveja, segundo ele essa relação é tipicamente brasileira. Como a publicidade utiliza valores para identificar os produtos, Valente quis dizer que a mulher bonita está associada à cerveja, gerando uma identificação ao consumidor. De um lado, está a vontade do consumidor em consumir a cerveja e conquistar a linda mulher da propaganda, de outro, seria simplesmente a lembrança da marca, na qual este é o principal objetivo do publicitário. No Brasil, essa relação da mulher com o consumo de cerveja está muito associada. Hoje os anúncios de cerveja chamam a nacionalidade aliada à beleza da mulher brasileira. Um exemplo, citado pela autora, foi a propaganda da Kaiser lançada em abril de 2003. Nela eram projetadas lindas cenas brasileiras, enquanto na voz de um locutor se dizia os motivos pelos 33 quais o Brasil merece uma Kaiser e no final dizia que o Brasil merecia uma Kaiser porque neste país morava a modelo Daniella Cicarelli. Tudo dito na propaganda, representada como marcas tipicamente brasileira, como o lugar mais lindo, o povo mais hospitaleiro, praias maravilhosas, a magia do futebol já seria o suficiente para despertar o interesse pela Kaiser, mas a ênfase da propaganda não estava nas belezas brasileiras e sim na mulher brasileira, personificada em Daniella Cicarelli. A propaganda ainda termina com a seguinte frase dita pela modelo: “ Eu não mereço”. Isso nos mostra a modéstia e a submissão aos atributos designados a ela. Mas, segundo a autora, isso não fica só no Brasil. No Japão, foi lançada uma propaganda em que a marca da cerveja estava estampada no vestido das modelos, dando a idéia de que os corpos se misturavam com a bebida. Já na propaganda alemã, o produto aparece numa dimensão desproporcional ao corpo da mulher. Outra propaganda utilizada para evocar sedução nos anúncios publicitários é a campanha da calça TriFil, que levanta o bumbum. A chamada do anúncio tem com frase: “Levanta Brasil”. É seguida por um texto incentivando as pessoas a comprarem o produto, pois muitas mulheres já estão usando. Ainda informa que se levaria muito tempo para conseguir levantar o bumbum em uma academia. Na parte inferior do anúncio, haviam fotos de bundas vestidas com várias roupas e à direita uma foto de uma mulher com “um corpo de violão”, escrito: “UAU! A meia calça que deixa o bumbum legal”. Mesmo com as definições de gêneros já formadas perante a sociedade, a autora nos mostra a campanha de lingerie da Duloren entre 1995 e 1996, sugerindo novas definições do masculino e do feminino. Esta campanha foi até proibida de ser veiculada por algumas revistas, como foi o caso da revista Claudia, que considerou a propaganda ofensiva, pois mostrava uma freira levantando o hábito de forma sexy para o Cristo Redentor de olhos vendados. A revista também criticou a campanha em que se legalizava o aborto. As questões de gênero e raça foram também marcantes nessas campanhas veiculadas em 1995 e 1996, pois mostrava novas definições do masculino e feminino nas relações amorosas. Em uma propaganda da Duloren, duas mulheres vestindo lingerie se insinuam no jogo da sedução, uma com a 34 “feminilidade” mais acentuada do que a outra. No anúncio segue a seguinte frase: “Você não imagina do que uma Duloren é capaz”. Tal anúncio nos mostra a transgressão das normas estabelecidas, fazendo com que mulheres se interessem por mulheres. Em outra propaganda da Duloren, em que também acontece essa transgressão, vê-se, no anúncio dois homens que se beijam na boca explicitamente, com a seguinte frase: “Você não imagina a falta que uma Duloren faz”. A propaganda fala da falta de sedução da mulher que não usa a lingerie certa, fazendo com o homem procure outro homem. As campanhas da Duloren sugerem que os sujeitos participem da ação, mas em posições distintas. Na primeira, uma mulher é mais “feminina” do que a outra, enquanto que, no segundo anúncio, os homens ocupam posições similares, na qual não se permite a feminilização de uma das partes. Em ambos, as mulheres manipulam, no primeiro caso pelo produto e no segundo pelo desejo dos homens, evocando a falta. A Duloren também abordou o tema das diferenças sociais. Num anúncio há do lado esquerdo um membro da Ku Klux Klan encapuzado segurando uma tocha acesa, e do lado direito, o mesmo membro da Ku Klux Klan está ajoelhado agarrado na perna da negra, desencapuzado. A imagem sugere a ação positiva do feminismo de desvendar a identidade do membro da Ku Klux Klan, enfrentando a perseguição racial. Depois de todo esse estudo da sociedade de consumo, suas características na visão de sociólogos, do movimento feminista, de como a imagem da mulher esta sendo usada no campo publicitário, podemos ir para o 3º capitulo, na qual será feita uma análise de anúncios publicitários de cerveja que utilizam à imagem feminina, como um signo, como um objeto de consumo. 35 3. ANÁLISE DE PROPAGANDAS Como vimos no primeiro capítulo, na sociedade de consumo as pessoas consomem à procura do prazer. Os consumidores não procuram nos produtos a sua necessidade, mas si o prazer imaginativo que o objeto pode trazer, o chamado hedonismo mentalístico. No mesmo contexto, vimos no segundo capítulo, a mulher, como signo, utilizada em diversas propagandas publicitárias, mas isso decorreu de várias transformações no feminismo, pois a mulher de muitos anos para cá conquistou muitos direitos, tornando-se independente perante a sociedade. Porém, com todas essas transformações a mulher continua sendo expostas em anúncios publicitários como objeto de consumo, dando prazer, emoção no ato de consumir. Dessa forma, no terceiro capítulo iremos fazer uma análise de propagandas que utilizam a imagem da mulher como foco principal de vendas. As propagandas escolhidas são os anúncios publicitários de cervejas. Antes de analisarmos as propagandas de cervejas, faremos uma breve explanação no público consumidor de cerveja da cidade de Fortaleza. De acordo, com Instituto Marplan, 1.698.000 são pessoas maiores de 18 anos que possivelmente possam beber cerveja. Desse total 38% ou 638.000 bebem cerveja. Sendo que 59% são homens e 41% são mulheres. Observe o gráfico abaixo: Fonte: Ipsos Marplan / Mercado: Fortaleza - 18+ anos - Jan07 a Dez07 36 Essa dados nos comprovam que os homens consomem mais cervejas do que as mulheres. Isso é mais um motivo para o mercado publicitário de cerveja colocarem as mulheres como um objeto de consumo, direcionando as propagandas para o público masculino. Podemos perceber no gráfico abaixo, que essa porcentagem aumenta para os homens, quando comparamos as pessoas que consomem pelo menos uma cerveja por semana. Num total de 22% ou 374.000 pessoas bebem pelo menos uma vez por semana cerveja, deste total, 63% são homens e 37% são mulheres. Fonte: Ipsos Marplan / Mercado: Fortaleza - 18+ anos - Jan07 a Dez07 Podemos constatar, mais um motivo pelo qual a publicidade volta sua campanha de cerveja para o público masculino. As classes sociais que consomem mais cervejas são as C e D. Veja o gráfico a seguir: Fonte: Ipsos Marplan / Mercado: Fortaleza - 18+ anos - Jan07 a Dez07 37 No gráfico podemos notar que das 638.000 pessoas que consomem cervejas, 9% pertencem à classe A, 14% pertence à classe B, 36% pertencem à classe C, 35% pertencem à classe D e 6% pertence à classe E. O gráfico nos mostra que as pessoas que consomem mais cervejas pertencem às classes C e D. Estas classes possuem um público de menor poder aquisitivo, permitindolhes o acesso a cerveja. Já o público AB, possui um padrão de vida melhor, podendo beber bebidas mais sofisticadas, como o uísque. Concluímos que as pessoas de baixa renda consomem mais cervejas do que as pessoas que possuem um poder aquisitivo maior. É o que mostra o gráfico a seguir: Fonte: Ipsos Marplan / Mercado: Fortaleza - 18+ anos - Jan07 a Dez07 Depois dessa breve explanação sobre o público de cerveja em Fortaleza, podemos perceber que o público masculino é bem mais concentrado neste mercado, porém as mulheres já estão participando desse mercado. Contudo, mesmo com a participação mais efetiva, o marketing e a publicidade ainda colocam a mulher como objeto em propagandas de cerveja. A partir disso, vejamos agora algumas análises feitas em algumas propagandas de cervejas. 38 Observe-se o anúncio publicitário da cerveja Skol, a seguir: Neste anúncio podemos perceber o abuso feito à figura feminina. Na frase: Se o cara que inventou o provador bebesse Skol, ele não seria assim. (Imagem de um provador normal, cobrindo todo o corpo da mulher). Seria assim. (imagem cobrindo a cabeça da mulher). Neste anúncio, é claramente exposta a exploração feita ao corpo feminino, pois para o mundo publicitário essa exploração tem o objetivo de persuadir o consumidor, mexer com seus sonhos e desejos, principalmente, com o do público masculino. Mas será que só os homens consomem cervejas? Ao longo desta análise poderemos responder essa questão. Podemos ainda, perceber no presente anúncio, a falta de respeito a mulher, afirmando que seu corpo, na forma de objeto, é muito mais importante do que a sua personalidade, a sua feminilidade, enfim a sua forma natural de ser mulher. O corte redondo do provador está também associado ao slogan da Skol, que é “A cerveja que desce redondo”. Portanto, na propaganda acima diz que com Skol, tudo fica redondo. Mas essa utilização de corpos femininos em propagandas de cervejas, não acontece só nos tempos atuais, antigamente isso já acontecia, como podemos ver em algumas propagandas a seguir: 39 Antigamente já se utilizavam corpos femininos em anúncios de cervejas, direcionada ao público masculino, pois, para a sociedade, só os homens consumiam cerveja. Diante de uma sociedade tão conservadora, que considerava que a mulher tivesse um comportamento puro, totalmente virtuoso, já se permitia que a mulher fosse exposta em cartazes de com poucas ou muitas roupas. Dessa forma, essa tendência de utilização da mulher em anúncios publicitários de cerveja, vem se mantendo até hoje, porém com mais exposição e exploração do corpo. Como podemos perceber em outro anúncio da Skol, seguindo a mesma linha do anúncio anterior. Neste, a saia da modelo loira, bonita, com boas formas foi cortada de forma redonda, mostrando sua bunda, com o slogan: “Com Skol, o verão fica redondo”. 40 Este modelo de que a mulher tem que ser bonita, possuir boas formas, ser magra, ter a pele bonita, não é de hoje, pois sempre se exigiu que a mulher fosse bonita, que se cuidasse. Foi o que podemos ver no segundo capítulo quando estudamos o feminismo. Antes, a sociedade exigia da mulher que ela se cuidasse para ficar sempre bela para garantir e manter um bom casamento, e com o passar do tempo, veio o acontecimento do movimento feminista e a mulher precisava ser bela para obter sucesso profissional e sorte no amor. Mas, mesmo com todos os acontecimentos do movimento feminista, a mulher ainda deixa-se ser tratada como um objeto de consumo, de prazer, enfim aceitando todos os estereótipos que a sociedade e a publicidade impõe. Como podemos ver no comercial da Nova Schin. Uma mulher chega correndo a uma espécie de templo budista para consultar “o mestre”. Quando ela entra, o mestre está rodeado de mulheres, ele bate palmas e elas saem. Aflita, a mulher mostra ao monge a camisa do marido com uma mancha de batom no colarinho e diz: - Está é camisa do meu marido e com batom de outra, ele é um semvergonha!! O mestre responde que não e começa a falar parábolas: - Veja essa cerveja. Ela é minha, mas pode tomar um golinho. 41 A moça aceita. Depois, o mestre continua: - Está vendo? Seu batom no meu colarinho. E o mestre não é semvergonha. A moça pára, pensa, raciocina, e responde aliviada: - Entendi!! Você salvou o meu casamento! Obrigada mestre! - Obrigada? (risos maliciosos) Depois disso é dito o slogan da campanha: Nova Schin. Ou seja, cerveja! E o mestre aparece rodeado de mulheres, como um sultão no harém. As mulheres inclusive estão vestidas de odaliscas. No VT publicitário em questão, a mulher aparece na condição de limitada e fácil de manipular. O que o mestre disse, está dito, ela acredita sem questionar, parece até que o mestre é o senhor da verdade. No final, o mestre ainda sugere que ela devia “favores” em troca dos ensinamentos que ele acabara de lhe conceder. Percebe-se então, a submissão da mulher ao homem [mestre], ao campo publicitário, que mesmo considerada como um objeto de desejo, ela submete-se a esse estereótipo de manipulação. Vamos agora a outro exemplo. A Antarctica em sua nova campanha tem como cenário o “Bar da BOA”, o melhor lugar para se divertir com amigos, onde tem gente bonita e o melhor, onde se encontra gente boa e a cerveja BOA. A dona do bar é a atriz Juliana Paes, considerada símbolo sexual por muitos brasileiros, ou seja, mulher “boa”, “boazuda”, um objeto de desejo. Em uma propaganda, dois clientes entram no bar e um deles diz: - Ju, tem uma Boa aí pra gente. De trás do balcão, ela responde: - Esta ou esta? De um lado, ela aponta para o copo com uma cerveja. Do outro, para a garçonete loira e bonita. Os rapazes na mesa pensam, pensam, as imagens começam a acelerar, sugerindo que os clientes passou horas refletindo sobre a decisão. Quando finalmente um deles responde: - Quero a cerveja! [pausa], o outro completa: - Mas será que ela pode servir? E o bar inteiro começa a aplaudir e dar risada. 42 Pode-se perceber nesta propaganda que, mulher e cerveja, são dois objetos de desejo, junto ao mesmo tempo, ao alcance das mãos. A propaganda coloca a mulher na mesma condição do produto, ficando a critério do cliente decidir qual dos dois ele prefere. Ainda se percebe que a garçonete está vestida com um vestido “tomara-que-cai”, em que apenas a parte que cobre os seios é dar cor branca, do colarinho. E o resto do vestido é amarelo, da cor da cerveja. As curvas do corpo feminino lembram um copo do tipo de “tulipa”. Enfim, a mulher é considerada a própria cerveja. Vamos a mais um exemplo: Em um dos primeiros comerciais da cerveja Sol, no inicio do verão. Um homem que está no seu trabalho com muito calor sai com alguns amigos para curtir o verão na praia. No decorrer da propaganda ele diz que verão sem mulherada, não é verão, é um terror (neste momento passa ao lado do seu carro, um ônibus lotado de mulher, em direção a praia). No comercial se repete várias vezes a frase: Sol, “vamo ai” que o verão já começou. (chamando o telespectador a tomar uma Sol, pois o verão já está ai). Ainda no VT, algumas mulheres tomam sol, e perguntam quem vai passar bronzeador, então todos os homens levantam a mão com a cerveja Sol. No fim, Henri Castelli, chama o telespectador para tomar uma Sol, dizendo que o verão já está ai. Nessa propaganda, percebe-se mais uma vez a relação entre a mulher e a cerveja na parte em que diz, que o verão sem mulherada, não é verão é um terror. Nesta a mulher é considerada parte integrante do verão, além da cerveja, pois para o público masculino se tiver mulher e cerveja, o verão está completo. Vejamos, agora dois comerciais da Skol, chamado de Dona Carminha 1 e 2. No primeiro, um homem vai ao médico, pois só consegue ver as coisas quadradas. Na consulta, o médico lhe mostra um circulo, e lhe pergunta: -Que forma geométrica tenho aqui? Ele responde: - Um quadrado. Agora o médico lhe mostra uma bola e lhe pergunta a forma geométrica, ele responde de novo: - Um quadrado. 43 O médico insatisfeito com aquele homem que não consegue ver outra forma que não seja um quadrado chama Dona Carminha (uma loira muito bonita e belas formas) para lhe conceder um favor: - Dona Carminha, por favor, mostra os seios. Dona Carminha faz cara de que não quer. E o médico insiste: - Por favor, Dona Carminha, é para o bem da ciência. Então Dona Carminha mostra os seios e o médico pergunta: - O que o senhor está vendo. Ele responde: - Dois quadrados. Então o médico lhe oferece uma Skol. O homem bebe e a partir disso, o homem consegue ver tudo redondo e olha para Dona Carminha querendo que ela lhe mostre os seios. Dona Carminha diz que não, dizendo-o que ele já está curado. No final da propaganda, ele está com um amigo em um bar e Dona Carminha passa e ele diz: Vai Dona Carminha, pro bem da ciência. No segundo, o amigo dele vai ao mesmo consultório, fingindo que não está conseguindo identificar as imagens geométricas. O médico percebendo a forma geométrica de seu olho pergunta logo se ele toma Skol. Ele diz que sim. Então o médico diz que ele não tem nenhum problema, mas ele continua dizendo que sim. Então o médico lhe mostra um circulo e lhe pergunta a forma geométrica e ele responde: - É um losango. Ele lhe mostra um circulo e lhe pergunta qual é a forma, ele responde: - Um pentágono quadrado. O médico conclui que ele não tem nada. E o paciente pergunta pela Dona Carminha. O médico diz que ela ta de férias e chama a Dona Lulu. A Dona Lulu aparece e logo ele diz que é redondo, mostrando que não está com nenhum problema. Ele age assim, pois a Dona Lulu, não possui o perfil da Dona Carminha, ela não tem possui o perfil de mulher bonita imposta pela sociedade, ela é gordinha. Ele ainda pede no fim do comercial para a Dona Carminha voltar logo de férias pelo bem da ciência. Esses dois comercias, mostra como o estereótipo de beleza influencia muito dentro de uma sociedade que se permanece eternamente, como de consumo. A mulher além de trabalhar, cuidar dos filhos, da família e da casa, 44 precisa ser bonita, precisa seguir esse modelo de mulher bonita que a sociedade atual exige. Alguém já viu, alguma gordinha fazendo propagandas de cerveja? Não existe, pois esse não é o perfil de mulher que a cerveja precisa para chamar atenção do consumidor. A mulher tem que ser loira ou morena, alta, magra, cabelos lisos para entrar nesse padrão. Vale lembrar, que este perfil é muito pequeno dentro da sociedade, nem todas as mulheres são assim, esse perfil se enquadra em uma pequena parte da população. Não é à toa que nunca se vendeu tanto nos últimos anos produtos de beleza para emagrecer, para tirar celulites, estrias, como também tinturas de cabelo, alisamentos, o uso de chapinha, etc, e ainda aumentou o número de cirurgias plásticas. Portanto, as mulheres continuam querendo atingir a esse padrão de beleza, procurando sempre novas formas de atingir a beleza desejada. Uma outra propaganda, um pouco mais antiga da Skol, mostrava uma garota de calcinha em casa, se preparando para receber o namorado. Ela despeja um pouco de cerveja na máquina de lavar e passa a roupa. Logo em seguida, ela se veste e molha os dedos com um pouco de cerveja e passa como perfume atrás das orelhas e nos lábios também, servindo de batom. E a campanhia toca. Ela abre a porta e o namorado fica “embriagado” com a beleza e “algo a mais” da sua namorada. Afinal ela está especialmente atraente naquela noite. Este comercial sugere que a mulher deve fazer tudo que para agradar o seu homem, mexendo com suas fantasias e desejos. Mais uma vez, podemos notar que a mulher e a cerveja são dois objetos de desejo e consumo, portanto, uma combinação perfeita. Todo homem adoraria chegar em casa e encontrar sua mulher linda, sedutora e saborosa para o consumo. Dessa maneira, os comerciais de cerveja levam a acreditar que o homem, independentemente da sua beleza, possa conquistar mulheres bonitas, maravilhosas, com belas formas física. Podemos ver isso na propaganda do baixinho da Kaiser. Além de baixinho, ele é barrigudo, nada atraente, e aparece mudo no comercial. Porém, muito disputado pelas mulheres mais cobiçadas do país, como a Danielle Winits. Isso também acontecia nos comercias da Antarctica com o Bussunda e nos comercias da Brahma com o Zeca Pagodinho. 45 Em outro comercial da Antarctica, Juliana Paes esta na praia, senta-se perto do balcão e pede uma Boa, na hora em que o garçom coloca a Boa em cima do balcão, Juliana se levanta para pegar. Então sua saia fica enganchada da cadeira, mas ela continua tentando pegar a cerveja. Enquanto acontece isso, os homens da mesa ao lado, ficam de olho na sua bunda, com olhares maliciosos, desejando que sua saia se rasgue por completo. Na hora em que a Juliana está quase conseguindo pegar a cerveja, aparece o Bussunda para ajudá-la e ele diz: - Calma Juliana, assim sua saia pode rasgar. Ela fala: - Aí Bussunda, que fofo! Em vez de ele lhe ajudar e entregar a cerveja, ele afasta a cerveja mais ainda e diz: - Assim, ela vai rasgar com certeza. Este comercial nos mostra a mulher no papel de consumidora, porém ainda sendo um objeto de consumo, pois os homens não tiravam o olhar malicioso e ficavam desejando que a saia da Juliana rasgasse, e ainda aparece o Bussunda para fazer com que isso se concretizasse. Um comercial mais recente da Antarctica é aquele em que está se fazendo uma seleção para quem quer concorrer a participar do comercial da Boa. O que falaremos em questão é o da Karina Bacchi, querendo participar do comercial. Ela entra e fala que quer participar do comercial da Boa. E a Juliana pergunta o porque. Ela responde: - Sou loira, gostosa e todo mundo me adora. (solta risos). Juliana responde: - Ai Karina, acho que você vai ter que tentar outra vaga. Karina faz cara de triste e Juliana diz que a vaga já foi preenchida. Ela pergunta porque e a Juliana responde pegando uma Boa e colocando em cima da mesa e apontando para a cerveja: - Lora, gostosa e todo mundo adora (risos). No fim Karina ainda pede uma. Esta propaganda nos mostra mais uma vez a aceitação da mulher aos estereótipos impostos pelo marketing e a publicidade, pois Karina se diz loira, 46 gostosa, se igualando a cerveja, um produto de consumo. Mais uma vez a mulher está se igualando a cerveja, se colocando como coisa, uma vez que já se tornou um objeto de desejo que cultua o prazer masculino. Observe a seguinte propaganda: Como podemos perceber no anúncio acima da Nova Schin, as mulheres já estão participando tanto desse mercado de cervejarias, que até as grávidas já podem ficar tranqüilas, pois já existe a cerveja sem álcool. Isso não é mais problema de ficar sem beber, por causa da gravidez. Observe este gráfico: Fonte: Ibope Monitor. 47 O mercado de cervejaria cresce com o passar dos anos, acarretando o aumento de investimentos feitos na publicidade de cervejas. O gráfico acima pode comprovar o crescimento da publicidade nos mercados de cervejaria a partir do ano de 2002 a 2006, retirado do site da revista Exame, por Daniel Hessel Teich (fonte:http://www.amata.com.br/Fio%20Maravilha/assinaturas/arquivodenoticias /14.06.07.htm). Devido ao constante crescimento do mercado, as propagandas de cervejas precisam chamar a atenção do consumidor e para isso utilizam-se de mulheres bonitas de acordo com a sociedade para atrair os consumidores, mesmo as mulheres já colocadas como consumidoras também. A utilização desses corpos femininos atrai somente os homens como função de prazer, sedução. As mulheres não bebem cerveja por causa desses corpos, elas bebem porque simplesmente gostam. Em relação aos corpos utilizados, elas apenas idealizam e desejam essa beleza imposta pela sociedade. Nesta propaganda da Skol, não se precisou colocar a imagem de uma mulher, mas fica subentendida a sua participação, pois no controle remoto só tem três botões: um de futebol, outro de mulher pelada e um outro de futebol de mulher pelada. Esta propaganda mostra o machismo do homem em relação à mulher, o quanto ela se torna um objeto de consumo masculino, a ponto de o 48 homem poder escolher o modo de como quer vê-la, no caso do anúncio, pelada. Isso é uma agressão à mulher, a sua identidade feminina. Algumas propagandas podem nos mostrar essa mudança, de que a mulher pode ser vista em propagandas de cervejas, sem que sejam abusadas. Porém, o que prevalece mais nas propagandas é a essa mulher objeto. Vejamos alguns exemplos: Neste anúncio da cerveja Sol, retirada da revista Veja, as mulheres estão vestidas de maneira sedutora, tentando “cantar” o homem. Podemos lembrar o que foi visto no segundo capítulo sobre a mudança feminina, em que a mesma já podia determinar a “cantada”, dar o primeiro passo. Antes a mulher era recriminada se tomasse à iniciativa, hoje isso é normal. No presente anúncio, elas estão no poder de consumidoras também, participando do mesmo ambiente, que antes era considerado masculino. Porém, cada uma tem um charme diferente para conseguir conquistar um só homem, é uma disputa feminina. A mulher hoje já possui total liberdade para tomar esse tipo de iniciativa, os homens de certa maneira até gostam. Para alguns mais tímidos, facilitam mais na conquista. Mas, os homens também não gostam das coisas 49 tão fáceis, então as mulheres se forem iniciar a conquista, precisam tomar cuidados. Em outra propaganda da cerveja Itaipava, as mulheres estão em um momento descontraído num bar, com um amigo. Não há nenhuma “azaração”, nenhuma forma de sedução ou conquista entre eles. Nesta propaganda, a mulher não é mais vista como um objeto de consumo ou de desejo, ela é consumidora tanto quanto ao homem. Mas, pode-se notar que, por mais que as mulheres não estejam nessas condições de coisificação da imagem, elas permanecem bonitas. As propagandas continuam com o rótulo de que se precisam ter mulheres muito bonitas em propagandas de cerveja, contribuindo para o culto da beleza. Portanto, podemos concluir depois dessa análise, que as propagandas de cervejas vão continuar se utilizando de mulheres, pois já se foi confirmado que os homens consomem mais cervejas que as mulheres, fazendo com que as propagandas se dirijam a eles. 50 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste trabalho, podemos concluir que as mulheres, apesar de todas suas conquistas no campo profissional quanto na vida amorosa, ainda podem ser vistas como objetos de consumo, vistas como coisa. Estamos ainda perante a coisificação da mulher. Hoje, a publicidade e o marketing, sabendo que o mercado de cerveja está crescente, e sabendo que a quantidade de pessoas que bebem cervejas é do sexo masculino, criam uma propaganda totalmente voltada para esse público. Como foi visto em algumas propagandas citadas no terceiro capítulo, a mulher está exibindo o seu corpo, de forma apelativa, se igualando na maioria das vezes a própria cerveja. Isto se verifica, por exemplo, em propaganda da cerveja BOA, em que o cliente passa horas em dúvida se quer a cerveja ou a mulher “boasuda.” Podemos perceber então a condição de objeto que é imposta a mulher. Outra propaganda da Antarctica é a que Juliana Paes é a dona do Bar da BOA. Mesmo na posição de proprietária Juliana Paes é ressaltada pelas suas belas curvas, onde no Bar da Boa, a proprietária também é boa. Ela está diretamente ligada à cerveja que é Boa, sendo bonita e gostosa, a cerveja também será. Então, o consumidor relaciona esses conceitos de mulher gostosa à cerveja, ocasionado o desejo de consumir. Portanto, a mulher nunca deixará de querer atingir esse estereótipo de beleza imposto pela sociedade, sempre procurando ser bela e continuar nesse padrão. Não é a toa que os salões de beleza assim como, as clínicas de estéticas estão crescendo para conseguir garantir esse modelo feminino. Dessa forma, nossas sociedades atuais continuam permitindo que os anúncios publicitários ainda tratem a mulher como desprovida de valores, sem sentimentos, sem pureza, sem feminilidade. Infelizmente muitas mulheres continuam aceitando essa forma imposta. Percebe-se, no anúncio da cerveja Itaipava, que as mulheres estão freqüentando o bar, não há nenhum índice de que a mulher está sendo colocada com um objeto de consumo, ela está lá, como consumidora, “igual” à posição do homem. Isso acontece de outra forma em um anúncio da cerveja Skol, em que as mulheres estão na condição de tomar a iniciativa. Mas, se percebe que elas são sempre bonitas, não saem do padrão de beleza. Isso nos 51 afirma que mesmo elas tentando sair da condição de objeto, a mulher não consegue, pois a sociedade não permite. Se fossem colocadas mulheres baixas, gorda, em propagandas de cervejas, esta não iria fazer nenhum sucesso. Nenhum homem se interessaria em beber aquela cerveja, pois já está em sua cabeça à associação de mulher gostosa, cerveja também gostosa. Por isso, que as empresas vão permanecer sempre fazendo essa associação de mulher e cerveja. A mulher nunca sairá dessa condição de objeto de desejo, prazer e consumo. Mas apesar desse “triste realismo”, podemos perguntar: Até quando as mulheres vão se submeter a este papel? Isso é uma pergunta que só com o passar dos tempos poderemos responder. Mas, o que se sabe é que a mulher ainda é vista na condição de objeto, mesmo já possuindo uma participação ativa nas nossas sociedades contemporâneas, seja consumindo cerveja ou tentando construir uma nova imagem de si. 52 BIBLIOGRAFIA ALVES, Bianca Moreira; PITANGUY, Jacqueline. O que é feminismo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981. BARBOSA, Lívia. Sociedade de consumo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,2004. GHILARDI-LUCENA, Maria Inês. Representações do feminino. Campinas, SP: Editora Átomo, 2003. – (Coleção mulher & vida). GRILLO, Karla Coelho. A imagem da mulher como argumento de venda na publicidade. Dissertação ao curso de mestrado em Ciências da Linguagem. Universidade do Sul de Santa Catarina, 2006. Disponível em < http://busca.unisul.br/pdf/84907_Karla.pdf> Acessado em 14 mar. 2007. JORDÃO, Flávia Patrícia. A coisificação da mulher em anúncios publicitários de cerveja. Bauru: Programa de Pós-Graduação em Comunicação UNIMARMarília, 2005. 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