Texto & Contexto Enferm., Florianópolis, v.10, n.1, p.32-49, jan./abr. 2001. LEOPARDI, M.T.; GLEBCKE, F. L.; RAMOS, F. R. S. CUIDADO: OBJETO DE TRABALHO OU OBJETO EPISTEMOLÓGICO DA ENFERMAGEM? Maria Tereza Leopardi1 Francine Lima Gelbcke2 Flávia Regina Souza Ramos3 RESUMO Este artigo trata de uma introdução ao debate sobre o cuidado como objeto epistemológico da enfermagem. Articula este conteúdo com características do processo de trabalho da enfermagem, no sentido de diferenciar o objeto de trabalho e objeto epistemológico. PALAVRAS CHAVE: objeto de trabalho; objeto epistemológico; cuidado terapêutico. ABRINDO O DEBATE Muito se tem falado sobre cuidado, essência do trabalho da enfermagem para alguns, objeto de trabalho para outros, mas, sem dúvida, sempre como característica básica da profissão. Estas interpretações variam, de acordo com o referencial teórico adotado, e nos levam a questionar o real significado do cuidado e como esta ação está implicada com as necessidades humanas. A primeira noção fundamental é que cuidar traduz uma ação de tratar alguém, atender alguém, e cuidado é o tratamento e a atenção dispensada. Este alguém será o recebedor do cuidado, em qualquer de suas dimensões, seja física, psicológica, espiritual. REFLEXÃO Na teoria sobre o trabalho, em Marx (1984) o objeto de trabalho é aquilo sobre o que se realiza uma ação, que, sendo modificado neste processo, se torna diferente do que era, transformação esta projetada pelo trabalhador. Em outras palavras, ao olhar para seu mundo próximo, um ser humano encontra na natureza, ou já manufaturado, alguma coisa que tem possibilidade de satisfazer alguma necessidade do momento ou futura. Em termos de produtos materiais esta constatação é relativamente simples, porém, quando as necessidades são supridas por coisas imateriais, tais como amor, cuidado, atenção, interação, bem-estar, todo o processo parece mais complexo, como é o caso do trabalho da enfermagem. O objeto sobre o qual os profissionais de enfermagem se debruçam para executar seu trabalho (e de algum modo imprimir alguma transformação) não é um objeto comum, que o próprio trabalhador procura. A assistência à saúde, de um modo geral, é um serviço, em que o trabalho não se concretiza em coisas materiais, como seu produto, mas em mudanças que resultam em bem-estar e saúde, os quais, embora concretos e evidentes ao olhar observador, são experimentados pela própria pessoa que vai em busca desta assistência e cuidado. Ë nela que se realizam as transformações, ou seja, passa de alguém com corpo, mente, espírito, sofrido e doente, a alguém com um corpo, mente e espírito menos sofrido. Então, é esta pessoa o “objeto” transformado e é pelo ato do cuidado que isto ocorre, no caso do trabalho da enfermagem. Professora Titular aposentada pela UFSC (professora voluntária do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFSC) e professora visitante da Universidade Franciscana de Santa Maria, membro do Grupo Práxis. 2 Professora Assistente IV da UFSC e discente do Curso de Doutorado em Enfermagem da UFSC, membro do Grupo Práxis. 3 Professora Adjunta da UFSC, diretora de Assuntos Profissionais da ABEn- Nacional e Coordenadora do Grupo Práxis. 1 Mas, um dos elementos de maior discussão na enfermagem atualmente é a amplitude deste cuidado. Assim, para buscar uma sustentação filosófica ao entendimento do que seja cuidado, que encontramos na visão judaica do início da era cristã, na sabedoria dos Terapeutas, descritos por Filón de Alexandria, um referencial que agrega corpo/mente, já apresentado anteriormente por Leopardi (1998). Os Terapeutas consideram o ser humano como uma totalidade corpo/alma/espírito, sendo a condição humana desvelada em quatro dimensões: a corporal (basar, soma); a alma, enquanto dimensão psíquica (nephesh); a consciência, a dimensão noética da psique em busca da paz (nous) e a dimensão espiritual (rouah, pneuma). Para os Terapeutas, a saúde plena compreende todas estas dimensões (Crema, 1998). “Para o Terapeuta, o corpo não pode ser visto somente como um objeto, uma coisa ou uma máquina funcionando com defeito, que seria mister „consertar‟. Não; o corpo é um corpo „animado‟. Não há corpo sem alma; um corpo sem alma, não sendo mais „animado‟, não merece o nome de corpo, mas de cadáver” (Leloup, 1998, p. 70). Desta forma, o Terapeuta deve estar atento aos “nós” da alma, que impedem a vida e a inteligência do ser humano, para tornar pleno e saudável. Muito do que foi abordado por Filón, ao destacar a atuação dos Terapeutas de Alexandria, e principalmente sua concepção de ser humano, é também encontrado na concepção marxista de homem, embora nesta visão, a perspectiva seja a construção de um ser humano concreto, vivente e socialmente justiçado. Marx aborda o ser humano enquanto natural, único, social, individual, histórico, com corpo e mente integrados, sendo esta concepção encontrada principalmente em: Manuscritos Econômicos e Filosóficos (Marx, 1975), Ideologia Alemã(Marx & Engels, 1981) e O Capital (Marx,1984). Esta concepção vem auxiliar a nossa reflexão acerca do objeto de trabalho da enfermagem, pois traduz uma visão integral do homem. De forma sintética, podemos descrever o ser humano na concepção marxista, como natural, por viver da natureza e transformá-la, mantendo com ela uma relação de interdependência, pois é parte dela. É social e humano, por estar em relação com outros seres humanos, tanto que Marx nos diz que “a significação humana da natureza só existe para o homem social, porque só neste caso a natureza é um laço com outros homens, a base de sua existência para outros e da existência destes para ele” (Marx, 1975, p. 118). Mas mesmo sendo um ser social, é único, particularidade que o torna individual, um ser que vive em sociedade, mas mantém sua identidade como pessoa. É também histórico, pois sua própria consciência, natureza e conduta são determinantes de sua história, o que para Marx implica na necessidade de ter condições de viver para fazer a sua história (Marx & Engels, 1981). Ao abordar a necessidade de viver para construir a história, suprindo necessidades físicas, mas também construindo e transformando a história, Marx alia corpo e mente, principalmente ao tratar da consciência e alienação. Tanto quanto para os Terapeutas, também para Marx o processo de alienação afasta o ser humano de sua liberdade, de sua vida, do conhecimento de si e dos outros, decorrente principalmente do processo de produção, do trabalho não livre, quando o trabalho não é a satisfação de uma necessidade, mas um meio de satisfazer outras necessidades. Se o trabalho é algo externo ao trabalhador, passa a não fazer parte de sua natureza, de modo que ele não encontra realização nele, negando-se a si mesmo, alienando-se. A partir do entendimento de ser humano da concepção marxista, e do significado de cuidado para os Terapeutas, discutiremos o nosso entendimento sobre o que caracteriza o objeto de trabalho e o objeto epistemológico para a enfermagem. O OBJETO DE TRABALHO DA ENFERMAGEM O trabalho da enfermagem tem sua conformação atual como resultado de um processo histórico, que incorpora elementos da evolução geral do trabalho na sociedade capitalista e especificidades da área de saúde. Não sendo objetivo deste texto, porém, analizar o trabalho desde esta perspectiva histórico-social, optamos por uma reflexão sobre seus aspectos filosóficos, para promover uma discussão sobre a profissão no campo científico. Todavia, podemos estabelecer, como elementos determinantes do próprio processo de análise, algumas de suas características neste campo social, ou seja, a enfermagem é um trabalho complexo, combinando três ações básicas não dissociadas, ou seja, a educação em saúde, o cuidado e a gerência dos sistemas de enfermagem, já posto à reflexão no 410 CEBEn (Castellanos et al., 1990, p.151). Além desta complexidade, este se situa no contexto do setor saúde, sendo, portanto, um trabalho coletivo, agregado ao trabalho dos demais profissionais da saúde. Desta forma, em seu conjunto, estes trabalhos da enfermagem não respondem por toda a assistência prestada às pessoas, no setor saúde. A explicação para esta característica é a própria estrutura do processo assistencial que congrega diferentes trabalhadores, diferentes instrumentos, diferentes finalidades específicas, sem que necessariamente tenham diferentes objetos. Melhor dito, a busca de saúde e bem-estar reflete necessidades de pessoas que procuram num sistema determinado a resolução de seus problemas concretos ou potenciais, problemas estes que podemos denominar de necessidades. Estas pessoas, com seu corpo, sua consciencia e suas relações são os objetos finais das ações dos profissionais de saúde, (Leopardi et al., 1990). Estas necessidades básicas, quando não satisfeitas adequadamente, no dizer de Doyal & Gough apud Pereira (2000), implicam na ocorrência de sérios prejuízos à vida material dos homens e sua atuação como sujeitos. Estes autores consideram que estas necessidades englobam a saúde física e a autonomia, sobre as quais a enfermagem atuará em seu processo de trabalho, uma vez que sua práxis não se dirija para o corpo enquanto natureza, mas para uma pessoa humana, considerando sua vida subjetiva e social. Ao nos determos a olhar o trabalho na enfermagem, como já expresso, podemos ver três trabalhos, que se consolidam num serviço destinado a prover os meios e as técnicas para o “cuidado e o auto-cuidado”, reconhecidamente ações que indicam a identidade da enfermagem. Ao dizermos que temos três trabalhos, que se orientam para uma mesma finalidade, o atendimento às necessidades das pessoas, através da ação de cuidar, não queremos dizer que tais trabalhos têm a mesma composição em termos de processo, já que tem objetos e instrumentos diferenciados para sua execução, assim como finalidades específicas (Castellanos et al., 1990, p.154). Em outras palavras, temos um processo de trabalho geral, que compreende todas as ações da enfermagem na produção de assistência, embora operem, efetivamente, de três diferentes formas: cuidar, educar, gerenciar. Esta diferenciação determina-se a partir do modo próprio como o trabalhador apreende seu objeto (aquilo que efetivamente se transforma com o trabalho), escolhe instrumentos e métodos de atuação adequados às especificidades da dimensão a ser trabalhada. Esta questão merece análise e a formulação de teorias sobre seus conteúdos específicos, de forma que esperamos contribuir, de forma sintética, com este debate, a partir da apresentação de alguns elementos básicos destes três diferentes trabalhos. Processo de trabalho “cuidar”- este é o trabalho identificador da profissão, uma vez que se realiza a partir de necessidades de saúde concretas ou potenciais, caracterizado pela sua especialização profissional, como conseqüência analítica da ciência, pela capacidade de formulação de problemas, pela sua comunicabilidade como objeto epistemológico, preditibilidade na intervenção de cuidado terapêutico, por ter técnica e arte em sua realização. Aqui a atuação da enfermagem tem como finalidade atender as necessidades relacionadas à manutenção da saúde como condição de sua natureza como ser vivo. Os seres humanos, porém, diferentemente dos animais, requerem, para satisfazê-las, de provisões de conteúdo humano-social (interação, acolhimento, apoio, compreensão, e assim por diante) e não apenas material, ainda que o cuidado realizado tenha como objeto o corpo da pessoa, concreta manifestação de sua sociabilidade e natureza, produzindo transformações imediatas (limpeza de feridas, p.e.) e mediatas (favorecimento da cura). Quando falamos de corpo, remetemo-nos primeiramente ao “corpo apreendido”, nunca puro ou essencial, mas possuído, transformado e produzido como verdade fora de si mesmo, produzido como objeto de conhecimento e intervenção, e não mais vivido e experimentado como realidade intensa e complexa. Corpo apreendido, segundo certos modelos próprios de compreensão e de certas pautas e padrões de normalidade e discrepância, em que, apesar das variações entre os modelos, a doença se colocou como invariante decisivo e central de toda busca de saber e intervenção, tanto no nível individual ou coletivo; da célula ao social, em abstrações do “corpo real”, que nunca conseguiram ser radicalmente diferentes do “corpo doente” (Ramos, 1998). Esta objetivação do corpo real, tirado do obscuro e misterioso universo do vivido e trazido à luz e visibilidade do pensamento científico fica, portanto, passível de ser destrinchado e especulado, tornado patrimônio do saber biomédico e, por conta do modelo médicocurativista, sempre separado de sua “alma”. A ruptura moderna do individualismo, marcando a fronteira de um indivíduo e outro, marca também a ruptura com o pertencimento coletivo, onde o sujeito é seu corpo, em relação com os demais e com a natureza. Esta participação com a totalidade do mundo vivente é substituída pela atomização do sujeito, cristalizado em torno do eu individual, estruturante do sentido da vida. As transformações das concepções sobre o corpo e seus usos - corpo integrado a uma cosmogonia, corpo sacralizado, corpo individualizado e anatomizado, corpo máquina – reafirmam a noção antropológica, como a apresentada por Le Breton (1995), de corpo como construção simbólica, que antes de ser realidade em si mesmo é realidade produzida social e culturalmente. Talvez a importância desta discussão sobre o corpo como objeto mais concreto do cuidado se faça por esta constatação histórica: as ciências e práticas de saúde se edificaram exatamente a partir desta possibilidade de exploração do corpo. Desta falta de “unidade” sobre o corpo, amplificado em sua complexidade por diversas e controversas formas de apreensão, a enfermagem ainda hoje se situa num campo de dificuldades epistemológicas, éticas e técnicas. Como formar um conhecimento relativamente unitário e integrador sobre um corpo tão múltiplo (porque não apenas biológico, mas vivido, consciente)? Ou seja, como trabalhar sobre um corpo que não se quer ver partido, mas inteiro e humano, quando ele só parece se tornar objeto viável de saber e intervenção, quando se mostra “corpo habitado pela doença”. Talvez, neste camino de busca do “corpo inteiro e real”, possamos iniciar, não negando o corpo doente ou tentando superá-lo, mas compreendendo-o, principalmente em sua vulnerabilidade ante nosso saber e nossas instituições assistenciais, numa aguda consciência deste poder e da possibilidade de um cuidado terapêutico e, ao mesmo tempo, ético. (Ramos, 1998) Estas considerações fazem-nos retomar um dado fundamental, ou seja, que este “corpo possuído”, pelo espírito, mas também pela doença, é um objeto sui generis, pois, ao contrário dos objetos no sistema de produção material, ele não se transforma em um produto separado do trabalho ao final do processo de trabalho, mas agrega, ao mesmo tempo, sua condição de consumidor, objeto e produto. Como objeto, além de tudo, pode ter consciência de que se expõe à manipulação do trabalhador e consome o trabalho, durante o próprio processo. Assim, o cuidado, é de fato uma ação com finalidade de transformar um estado percebido de desconforto ou dor em um outro estado de mais conforto e menos dor, portanto tem uma perspectiva terapéutica sobre um objeto animado, que tem uma natureza física e social. Processo de trabalho “gerenciar” - é o trabalho preferencialmente proposto para o profissional enfermeiro no sistema de saúde, caracterizado por ter uma finalidade genérica de organizar o espaço terapêutico, desenvolvendo condições para a realização do cuidado, e uma finalidade específica de distribuição e controle do trabalho da equipe de enfermagem. Seu objeto é a organização em si, produzindo uma combinação de condições para a assistência multi-profissional e a realização do cuidado terapêutico. Além da organização da assistência, o enfermeiro atua também sobre a equipe de enfermagem, no sentido da educação continuada, sendo este outro objeto de trabalho no processo “gerenciar”. No discurso informal dos enfermeiros, é comum que se refiram a este processo como cuidado indireto, figura semântica, analógica, para dizer, na verdade, que com este trabalho se produzem condições para a realização do cuidado “direto”. Há, inclusive, proposições para que este trabalho possa ser considerado “cuidando do cuidado”, uma metáfora para indicar que o trabalhador se envolve numa ação para depois produzir o cuidado. Desta forma, a finalidade deste trabalho é a organização do processo cuidar, tanto em nível individual, quanto coletivo e, para tanto, o enfermeiro realiza o gerenciamento do espaço, dos tempos e das pessoas (força de trabalho – equipe de enfermagem e de saúde), cumprindo, assim, uma dupla determinação, ao organizar o trabalho próprio da enfermagem (cuidar), bem como quando atua como suporte para o trabalho de outros profissionais da saúde. De acordo com Capella (1998, p. 129), “a enfermagem organiza a assistência para si, atua nos corpos e consciências individuais, ao mesmo tempo que organiza o local de trabalho onde o sujeito hospitalizado está, além de preparar corpos e consciencias individuais para a intervenção de outras categorias profissionais”. Salienta, ainda, Capella (1998), que ao organizar tempos, movimentos e objetos, deve a enfermagem levar em conta as necessidades do sujeito que procura os serviços de saúde, visando atender as suas demandas nas mais variadas dimensões, buscando, desta forma, inclusive, possibilitar a sua autonomia, ou seja, ao organizar a assistência, a enfermagem dever privilegiar o objeto do cuidado – o indivíduo que será cuidado, e não as imposições da instituição. Vale salientar ainda a educação continuada, na qual o foco da ação (objeto) é a equipe de enfermagem, como colocamos anteriormente. Aqui, a ação também se revela como uma forma de preparação do cuidado, buscando-se uma maior qualidade assistencial, através da atualização constante da equipe de enfermagem, a qual não deve incidir apenas sobre o aperfeiçoamento técnico, mas possibilitar ao sujeito trabalhador também resgatar sua autonomia, sua cidadania, sua capacidade de responder sobre seus atos, bem como resgatar sua multidimensionalidade, o que seria fundamento para sua desalienação, tornando-se não estranho aos seus atos, mas seu autor. Processo de trabalho “educar” - é o trabalho realizado tendo em conta um objeto não manipulável sempre, embora possa ser conduzido a acreditar que as determinações terapêuticas sejam as melhores em seu caso. Educar é um processo de trabalho dirigido para a transformação da consciência individual e coletiva de saúde, de modo a que as pessoas possam fazer escolhas. É o que Doyal e Gough apud Pereira (2000) denominam de autonomia, que constitui, juntamente com a saúde física, as necessidades básicas objetivas e universais. Para estes autores “ter autonomia não é só ser livre para agir como bem se entender, mas, acima de tudo, é ser capaz de eleger objetivos e crenças, valorá-los e sentir-seresponsável por suas decisões e por seus atos” (Doyal & Gough, apud Pereira, 2000, p. 71), o que vem ao encontro do conceito de cidadania adotado pelo Grupo Práxis4 , ou seja, de que “cidadania se define pela existência de um indivíduo que compartilha intereses coletivos e trabalha no sentido de sua consolidação, para romper com a relação de anomia, quando expressar sua identidade particular não o coloca nem acima, nem abaixo, da identidade dos outros, supondo-se que o livre desenvolvimento de cada um é condição para a convivência e desenvolvimento de todos” (Leopardi et el.,1995). Marx já salientava a importância da consciência da liberdade como parte da natureza humana, a qual não poderia ser limitada à dimensão biológica ou mesmo econômica e material. Isto porque, da essência humana constam, além da sobrevivência (saúde física/ biológica), também qualidades como “o trabalho (objetivação), a sociabilidade, a universalidade, a autoconsciência e a liberdade. Estas qualidades essenciais já estão dadas na própria hominização, enquanto meras possibilidades; tornam-se realidade no proceso indefinido da evolução humana” (Heller, 1985, p.78). O processo de educar é diferenciado, pois lida com crenças, hábitos e valores, além de conhecimento, todos conceitos abstratos, não identificáveis senão pela expressão da pessoa que os carrega. Assim, a comunicação se torna uma ferramenta extremamente importante, inclusive determinando a diferença entre manipulação e ensino, e entre relações mais ou menos simétricas entre os sujeitos. Ramos (1999) elabora uma critica sobre o modo como a “consciência” foi tomada como objeto de ações educativas em saúde, como um desvio ou atalho para se alcançar o corpo, a doença, o sintoma, ou o mau hábito e o comportamento desfavorável à saúde. Práxis – núcleo de estudos sobre o trabalho, saúde e cidadania, do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da UFSC. 4 Deste modo, a finalidade continuou contida no corpo e o objeto não se diferenciou dele, apenas dotou-o de uma mente e de pensamentos manipuláveis. Por esta via, são evidentes os riscos de práticas manipuladoras, autoritárias, limitantes e não autonomizantes, portanto, não verdadeiramente educativas. Opondo-se a este tipo de prática, propõe a práxis como objeto e finalidade do processo de trabalho “educar”, compreendendo praxis como ação humana concreta e transformadora, articulação da ação e reflexão, ou seja, atividade teórico-prática, consciente e objetivante, que se dirige, pela ação educativa, para níveis cada vez mais críticos e criativos. Assim, temos que considerar estes três processos particulares de trabalho, executados sobre diferentes objetos, com finalidades específicas diferentes e finalidade genérica igual, que se realiza como “processo de trabalho da enfermagem”. O OBJETO EPISTEMOLÓGICO DA ENFERMAGEM Temos aqui como premissa a necessidade de focalizar o cuidado sob outro ponto de vista, correspondente aos criterios científicos para a definição de uma profissão, ou seja, dentre os quais a definição clara de seu objeto de estudo, ou epistemológico. Tendo em vista a complexidade do processo de trabalho da enfermagem, bem como a complexidade que envolve o ser humano, é difícil apontar-se um objeto epistemológico da enfermagem, porém tem sido uma necessidade fundamental para a consolidação da enfermagem como profissão, o que não seria, necessariamente, um corte em relação à reflexão sobre o objeto de trabalho, uma vez que aqui a intenção reflexiva abrange outro campo de análise. Numa tentativa de abrir um debate, podemos iniciar dizendo que entendemos ser o cuidado do ser humano, em sua complexidade, o objeto epistemológico da enfermagem. Uma das evidências para esta afirmação ser considerada admissível é de que a produção do conhecimento se dá sobre o cuidado, cuidado do corpo, mas também “de um corpo que vive de modo inteiro” ou é vivido como inteiro, pessoa e experiência inteira, independente de quantas partes foi dividido pelos saberes e práticas que sobre ele se voltam. O que vale dizer é que esta tentativa funciona como ponto de busca de inteireza ou compreensão deste corpo, além dos limites meramente físicos ou biológicos. E aqui resgatamos Leloup e os Terapeutas de Alexandria, para pensarmos um pouco neste complexo que é o ser humano, nesta conjunção corpo/mente e na própria atuação do cuidador, a partir do que ele precisa saber sobre o cuidado, para que se torne eficiente e eficaz em seu ato de cuidar. Conhecer o cuidado, sua natureza e seu domínio, tem sido o foco epistemológico da profissão, em sua auto-construção como disciplina diferenciada da prática médica. Os Terapeutas de Alexandria cuidavam do corpo do ser humano, mas também da alma e da ética, sendo que este cuidado ético “pode fazer dele um ser feliz, „são‟ e simples (não dois, não dividido em si mesmo), isto é, um sábio” (Leloup, 1998, p. 25), atuando como coadjuvante junto à pessoa que precisa de cuidado e, ao sinalizar para a necessidade de auto-cuidar-se, atua em sua própria cura. Os Terapeutas, para Filón, são filósofos, não se limitando apenas a especular sobre a sabedoria, o conhecimento, mas acima de tudo para empreender um processo de autotransformação, da mesma forma que o ser humano, na concepção marxista, é um ser em transformação (Leloup, 1998, p. 25). Vimos, anteriormente, que o ser humano é o objeto de trabalho da enfermagem, tanto no processo de trabalho cuidar, quanto no educar. Que o cuidado, no nosso entender, deve ainda resgatar os princípios colocados pelos Terapeutas de Alexandria, em que se rompe com as usuais fragmentações corpo/mente, normal/patológico e com o privilegiamento do corpo como local do pecado, da doença e, portanto do tratamento, mas que propõe um cuidado mais integrador, humanizado e propiciador da cura e da vida mais plena, portanto “cuidado terapêutico”. Assim, o cuidado não pode ser entendido como objeto de trabalho, mas pode ser o objeto epistemológico da enfermagem, sobre o qual desenvolvemos o conhecimento. Ressaltese que, enquanto objeto epistemológico, todo o desenvolvimento teórico e tecnológico sobre o cuidar deve privilegiar a lógica da necessidade da clientela, e não apenas a lógica institucional. Ao cuidar, muitas vezes, reproduzimos somente o que é definido institucionalmente, porém, há que se ressaltar o papel da enfermagem na reflexão sobre o cuidado, visando a mediação das relações humanas entre a lógica externa e interna da profissão (cuidado institucionalizado versus reais necessidades da população – manifestas ou não). Para Bunge (1985), um campo de conhecimento caracteriza “um setor da atividade humana dirigido a obter, difundir ou utilizar conhecimento de algum tipo, seja verdadeiro ou falso”, tendo características, tais como as aventadas abaixo e adaptadas à enfermagem, constituindo-se em regras epistemológicas para e existência de um campo disciplinar. - Comunidade de sujeitos que cultivam o campo – profissionais de enfermagem; - Domínio ou universo do discurso – objetos de estudo, que no caso da enfermagem é o cuidado humano, e implicados com ele, o ensino da saúde e a gerência de serviços de saúde; - Concepção geral – como filosofia inerente ao objeto de estudo (ou ao cuidado); - Fundo formal – conjunto de instrumentos lógicos ou materiais, utilizado para produzir o campo cientificamente e tecnicamente (procedimentos e técnicas de enfermagem para a execução do cuidado); - Fundo específico – conjunto de premissas que o campo específico toma de outros campos e o interpreta e utiliza de acordó com sua concepção ou conhecimento próprio produzido (teorías biológicas, químicas, físicas, sociais, etc. e teorias sobre o cuidado); - Problemática própria – ou conjunto de problemas abordáveis em seu campo (necessidades de saúde e bem-estar); - Objetivos – metas ou finalidade a serem atingidas com ações específicas (bem-estar e saúde através do cuidado terapêutico); - Metodologia – conjunto de métodos próprios utilizáveis nas situações específicas de enfermagem (a partir de teorias de enfermagem). A partir da análise da enfermagem em relação a estas características de um campo de conhecimento, ou epistêmico, de acordo com Bachelard (1971), é “indispensável examinar setores particulares da experiência científica e procurar em que condições esses setores recebem não somente uma autonomia, mas também uma autopolêmica, ou seja, um valor de crítica sobre as experiências antigas e um valor de ação sobre as experiências novas”. De toda maneira, as “regiões epistemológicas”, para ele, são determinadas pela reflexão, não podendo ser afetadas pelo subjetivismo, ainda que definidas pelo interesse de sujeitos sobre um campo, e sua persistência nele. Não podemos desconhecer, também, que em torno desta polêmica posição ou significado do cuidado para a enfermagem, têm se afirmado diferentes modos de conceber, alguns destes apresentando-se em teorias do cuidado que, ao mesmo tempo em que representam o necessário desenvolvimento de uma problemática própria da profissão, estimulam o imprescindível aprofundamento crítico. Assim é, que podemos concordar com Meyer (2000), ao apontar a urgência de refletirmos sobre o modo ou o próprio processo de produção das concepções e discursos hoje apresentados sobre a enfermagem e o cuidado, além de não perdermos de vista o movimento da enfermagem nas conflitantes relações de subordinação e insubordinação à ciência e às práticas dominantes na área da saúde. Estes movimentos até podem atribuir a si um papel de distinção ou diferenciação no saber e prática da enfermagem, porém não podemos deixar de reconhecer a necessidade de retomada de certos pressupostos destas teorias, que acabam sendo tomados como verdades a priori, sem que osefeitos e o poder vinculados a tais verdades sejam questionados, inclusive o poder de produzir identidades profissionais. A autora delimita alguns destes pressupostos, como o que estabelece uma relação unívoca, naturalizada e, portanto, essencializada, entre enfermagem, mulher e cuidado (legitimando “essências” de mulher, cuidado e enfermagem) ou o atributo feminino da enfermagem como argumento para um modo diverso da enfermagem conhecer, ou seja, produzir conhecimento. Se devemos ampliar nosso conhecimento sobre o cuidado, posto que é ação fundamental de nosso trabalho e objeto de nossa escuta e olhar, devemos buscar a superação das noções parciais, contingentes, arbitrárias sobre o mesmo, negando-o como ação política e neutralizando-o no projeto político profissional, que tão árdua e comprometidamente vem sendo defendido e elaborado no desenvolvimento histórico da profissão. Assim, a enfermagem, ao aderir a um objeto tal como o cuidado terapêutico como seu objeto científico ou epistemológico, o assimila como valor (exatamente por seu conteúdo ético e estético), como um bem necessário às pessoas, tornando-se um programa de estudo para o conjunto dos sujeitos que o produzem. Evidencia-se como a problemática constituída, de acordo com Bachelard(1971), cujas respostas serão necesariamente produzidas de acordo com premissas específicas, mesmo que não sejam exclusivas da enfermagem. O cuidado, neste caso, vem sendo abordado como a ação básica para a resolução da problemática constituída (carencias humanas de saúde, mal-estar ou sofrimento, por exemplo), como objeto epistemológico, mas aparece como inacabado, uma objetivação que não se completou, daí tornar-se objeto de estudo. Torna-se o objeto a ser conhecido, decifrado, objetivado, reclamando, como bem o diz o autor, “uma solidariedade entre método e experiência” (Bachelard, 1971), o que nos incentiva a buscar também uma solidariedade entre o que é do sujeito particular e o que é de sua sociabilidade, numa síntese que estamos chamando de “cuidado integral” à pessoa como um todo. Assim é que a ação de enfermagem propriamente dita é o nosso objeto de estudo, seja em sua construção a priori, como conhecimento, seja em sua materialização, como técnica, seja ainda em sua complexidade, como ato humano sobre “um objeto de trabalho humano”. Nosso objeto epistemológico é, pois, uma ação (cuidar), não o seu produto, pois que estamos comprometidos com o processo de produzi-lo até suas conseqüências e não somente com o resultado. O cuidar começa, se desenvolve e termina na e com a pessoa, que se torna momentaneamente objeto desta ação, mas também a transcende, para assegurar sua ampliação à coletividade. É para pessoas e em pessoas que trabalhamos (nosso objeto de trabalho privilegiado), e, para isto, esta ação deve ser plenamente conhecida, desde suas razões morais e sociais até suas resultantes objetivas em termos terapêuticos, ou seja, em suaepistemologia. Como profissão, a enfermagem pode e deve comprometerse com a elucidação de aspectos inaparentes ou essenciais desta ação, de modo a tornar-se cada vez mais como uma região epistemológica no conjunto da ciência, mas também pode e debe propor-se a afirmar a complexidade da vida, sem deformá-la, superando a fragmentação imposta pela ciência, produzindo conhecimentos e técnicas mais integradas e mais próximas desta visão de totalidade, sem perda da identidade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BACHELARD, G. A epistemologia. Rio de Janeiro: Edições 70, 1971. BUNGE, M. Seudociencia e ideología. Madri: Alianza Editorial, 1985. CAPELLA, B. B. Uma abordagem sócio-humanista para um “modo de fazer” o trabalho de enfermagem. Pelotas: Ed. Universitária/UFPEL; Florianópolis: Programa de Pós-Graduação em Enfermagem/UFSC, 1998. CASTELLANOS, M. B. et al. Os desafios da enfermagem para os anos anos 90. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ENFERMAGEM, 41., 1989, Florianópolis. Anais... 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