Este novo módulo foi desenvolvido pela Dra. Caroline Hewson e a WSPA (em 2007). 1 2 Como observado no módulo 2, cada uma das Cinco Liberdades sobrepõe as outras. A nutrição e a alimentação estão relacionadas com cada Liberdade. •Livres de fome e sede A relação da alimentação com esta Liberdade é óbvia: os animais precisam de água e de uma boa dieta disponíveis para manterem a saúde e o vigor perfeitos. •Livres de desconforto Uma nutrição adequada promove o depósito adequado de gordura corporal. Isso ajuda a prevenir o desconforto de sentir muito calor (animais gordos) ou muito frio (animais magros). •Livres de dor, lesões e doenças Existem muitas doenças nutricionais possíveis. Algumas dessas doenças podem resultar em dor considerável, como, por exemplo, fraturas em animais com raquitismo (deficiência de Vitamina D). A nutrição adequada ajuda a garantir a saúde e o funcionamento adequado dos órgãos, sistema imune, etc. •Livres para expressar seu comportamento normal, Livres de medo e estresse A nutrição adequada inclui o fornecimento de alimentos de forma que permita a expressão de comportamentos alimentares típicos de cada espécie. Se essa necessidade não for preenchida, causa frustração e estresse. Além disso, problemas como superpopulação ou o tamanho e idade do grupo podem levar alguns animais a se tornarem dominantes nas áreas de alimentação, enquanto os outros não conseguem alcançar a comida e podem ter medo de confrontar os dominantes. Como resultado, esses animais menos dominantes podem não se alimentarem o suficiente. A próxima parte da aula observa em mais detalhes como a nutrição está relacionada com as Cinco Liberdades. 3 Fome A fome é indicada pelo aumento do apetite. O apetite é controlado pelo centro do apetite e saciedade, localizado no hipotálamo. O centro do apetite é afetado por muitos fatores, incluindo: nível de glicose no sangue; temperatura corporal; estado mental; estímulos neurológicos do Trato Gastrointestinal e metabólitos sanguíneos como glicose e uréia. O odor é uma importante parte do apetite. Por exemplo, os gatos perdem seu apetite se têm infecções respiratórias que causam inflamação e bloqueio das vias nasais. Os carnívoros geralmente comem para saciar a fome, enquanto os herbívoros comem para prevenir a fome. Na natureza, os carnívoros e herbívoros encontram uma variabilidade na disponibilidade de comida. Os herbívoros podem ter períodos de baixa ingestão por causa de predadores, que os afastam das áreas de boas pastagens, ou por causa do clima, como por exemplo na seca. Similarmente, os carnívoros podem nem sempre encontrar presas. Logo, animais selvagens podem sofrer fome extrema e morrer de fome relativamente fácil — diferentemente dos animais domésticos. Entretanto, estar com fome tem um lado positivo: a fome dá algo para os animais fazerem (como, procurar comida, achar, matar [carnívoros] e comer). Subnutrição A dieta deve atender às necessidades calóricas dos animais (como animais jovens, prenhes). Animais jovens podem morrer de fome se não comerem: bezerros vivem aproximadamente 10 dias sem se alimentarem e ovelhas vivem aproximadamente 8 dias. Entretanto, leitões vivem apenas 30 horas aproximadamente sem se alimentarem. O alimento deve ter alta digestibilidade e conter níveis adequados de micronutrientes (vitaminas e minerais) e macronutrientes (proteína, gordura, carboidrato, água). A ignorância e a ausência de médicos veterinários locais para educar os proprietários pode resultar em animais com fome e mau-nutridos. Por exemplo, um estudo com cães de duas áreas rurais na África do Sul, onde não há serviço veterinário, indica que muitos cães estavam magros porque não recebiam proteína suficiente. Consulte em: • W N Minnaar, R C Krecek Veterinary needs of dogs in two resource-limited communities in the Gauteng and North West provinces of South Africa. J S Afr Vet 4 Negligência animal Quando proprietários mantêm seus animais com fome crônica e não fornecem comida suficiente, eles negligenciam seus animais. Esse tipo de negligência pode ser causada por: i. Ignorância É comum, especialmente com proprietários de pets ou em áreas rurais sem serviço veterinário. Também acontece com uma minoria de proprietários que têm distúrbios psicológicos e acumulam animais. O Dr. Gary Patronek da Universidade Tufts nos Estados Unidos tem um programa de pesquisa e ajuda devotado aos colecionadores de animais. Para maiores informações consulte: • The Hoarding of Animals Research Consortium. Site http://www.tufts.edu/vet/cfa/hoarding/ ii. Falta de dinheiro. Por exemplo: criadores de gado no oeste do Canadá foram prejudicados pelo banimento das importações de carne do Canadá pelos Estados Unidos em 2004/05. Alguns fazendeiros não conseguiam alimentar seus animais e os animais valiam muito pouco. Em poucos casos, os fazendeiros interromperam o fornecimento de alimento extra e os animais estavam morrendo de fome. Apesar de serem razões compreensíveis, é crueldade; iii. Desastres naturais, como a seca, que é comum em países como a África, bem como em algumas partes da Austrália, dos Estados Unidos e do Canadá; iv. Reprodutores de frango de corte e porcos Alimentar os animais de acordo com seu grande apetite seria ruim para sua saúde e caro. Adicionar fibra à dieta é uma forma de tentar reduzir a fome em reprodutores. Crueldade deliberada Uma minoria de proprietários não alimenta seus animais adequadamente para ser cruel com eles. É muito importante estar ciente da crueldade animal, porque constantemente outros membros da família do proprietário também estão sofrendo abuso — normalmente o(a) parceiro(a)/esposo(a) e as crianças. *** Para informação detalhada sobre como reconhecer negligência animal e abuso, escrever relatórios às autoridades etc., consulte o site 5 Vacas leiteiras criadas em sistemas intensivos estão sob grande estresse metabólico para manterem sua produção leiteira aumentada, tendo muitas conseqüências, como balanço de energia negativo e laminite (Webster, 1994). Elas podem passar fome durante uma parte ou grande parte da lactação: a maior parte de seu tempo é gasta comendo e ruminando. A raça Holstein foi criada para ter uma alta produção leiteira. É muito difícil evitar grande perda de peso em vacas Holstein durante os dois primeiros meses depois do parto, quando a produção leiteira alcança seu pico. Referência Webster, A. J. F., Animal Welfare: A Cool Eye Towards Eden (Blackwell, Oxford, UK, 1994). 6 Muda forçada A muda forçada é a retirada intencional da comida e, às vezes, da água também, de galinhas poedeiras no final da temporada de postura, para fazer com que as aves voltem a botar ovos. A restrição alimentar causa perda das penas (muda) e seu subseqüente crescimento. A muda forçada é ilegal no Reino Unido e em muitos países europeus por causa da crueldade. É uma prática comum nos EUA em virtude da baixa margem de lucro que os produtores de ovos têm. O efeito fisiológico da muda forçada é o mesmo observado na galinha selvagem, que pára de comer por alguns dias antes do término do ciclo de postura. A ausência de alimento inibe a liberação do hormônio luteinizante, que por sua vez inibe a ovulação. As aves perdem as penas e interrompem a postura. Quando começam a se alimentar novamente, elas voltam a botar ovos. Comercialmente, o alimento deve ser retirado por 12 dias. Aves tratadas desta forma sofrem fome extrema. Uma das diferenças verificadas na muda forçada e na muda observada na galinha selvagem é que as aves selvagens mantêm o controle ambiental, enquanto as aves domésticas vivem em um ambiente estéril (foto) e não têm como expressar sua motivação crescente de comer. 7 Fome e estereotipia Porcos e frangos de corte são criados para crescerem rápido e têm muito apetite. Entretanto, os frangos e os porcos não podem ser alimentados de acordo com seu apetite, por razões de custo e saúde. O abdômen de uma matriz de frango de corte não consegue acomodar muita comida no trato gastrointestinal por causa do espaço que o ovo ocupa no trato reprodutivo. Se essas aves ficarem com os intestinos cheios, há a predisposição ao prolapso da cloaca e à bicagem da cloaca. No caso das porcas, alimentá-las de acordo com seu apetite levaria à obesidade. Devido a esse fato, os animais são subalimentados: ou eles são alimentados dia sim dia não, ou são alimentados com quantidades reduzidas todos os dias. Conseqüentemente, eles têm fome crônica. Porcas e matrizes de frango de corte mostram comportamentos estereotipados quando ouvem os sinais de que a comida está chegando, apresentando mais comportamentos estereotipados (CEs) depois de comerem: as porcas mordem as barras (foto) e balançam a cabeça, fuçam e mastigam. Os frangos de corte andam de lá para cá e caminham antes da alimentação, e, após a alimentação, eles também mostram muitos CEs bucais - bicando o cocho. Quando as porcas e as matrizes de frango de corte são alimentadas, elas consomem a comida rapidamente. Entretanto, provavelmente ainda ficam com fome porque a comida é insuficiente para provocar o feedback negativo no centro do apetite no cérebro e reduzir a motivação de procurar alimento. Consequentemente, os CEs após a alimentação refletem comportamentos de procura de comida que apresentariam sob condições naturais de fome (fuçar, mastigar, bicar). Fornecer uma dieta alta em fibra e espalhar a comida no chão encoraja o comportamento de procura de alimento, que pode reduzir essa frustração. 8 Parasitos Parasitos gastrointestinais (GI) causam inflamação do trato GI e podem absorver muito da comida digerida. Os parasitos também podem impedir a absorção de comida, cobrindo a superfície vilosa do intestino delgado. Dependendo da carga parasitária, do próprio parasito e de seu estágio de vida, os animais acometidos podem não apresentar diarréia. Entretanto, eles podem ficar magros e apresentar apetite elevado. Má-digestão Os animais acometidos têm apetite aumentado. Eles têm deficiências enzimáticas ou deficiências na microflora, necessárias para digerir o alimento. O exemplo clássico é a insuficiência exócrina pancreática, observada no cão. Outro exemplo é quando os dentes dos herbívoros estão em más condições e a comida não é mastigada o suficiente (como pode acontecer em cavalos) ou quando os animais são muito velhos. Má-absorção Neste caso, o animal não consegue absorver a comida digerida. Geralmente isso é ocasionado pela inflamação ou neoplasia do intestino delgado ou grosso ou ambos. Pelo fato da maioria dos animais de produção não terem uma vida longa, doenças que causam esse tipo de má-absorção não foram observadas nessas espécies. Entretanto, em cães e gatos, essas doenças são mais comuns, a maioria tratável. Má-utilização Isto é resultado de doenças metabólicas como diabetes mellitus, que é observada especialmente em cães e gatos. A obesidade (excesso de alimentação) predispõe esses animais a desenvolverem diabetes. 9 A sensação de sede acredita-se ser regulada pelas paredes do terceiro ventrículo no cérebro, em resposta a fatores endócrinos, osmóticos e neurais. Algumas causas da sede incluem ingestão insuficiente de água e perda de água por doença ou suor. O porco na foto está bebendo em bicos de água que sempre fornecem água limpa e fresca. Água insuficiente Conforme foi discutido sobre Fome, uma minoria de proprietários pode não fornecer água aos seus animais. Problemas com o sistema de fornecimento de água, como quando a água congela em clima frio, são mais comuns. No caso de frangos de corte, a água é normalmente fornecida em bebedouros com bicos. Os bebedouros são suspensos para prevenir as aves de se baterem contra eles conforme vão crescendo. Entretanto, frangos de corte estão predispostos à claudicação, por causa do crescimento rápido de seus músculos comparado com seus ossos. Frangos mancos podem não ser capazes de alcançar o bebedouro suspenso e morrem de desidratação se não forem removidos ou eutanasiados. No caso de porcos, a ausência de água, em pouco tempo, pode tornar-se muito grave; eles desenvolvem hipernatremia ou ―envenenamento por sal‖ que leva à morte rapidamente por desidratação. No caso de bezerros criados para vitela, uma pesquisa na Itália indicou que bezerros criados com dieta exclusiva de leite beberiam água também se tivessem à disposição. Eles concluíram que fornecer tanto água quanto leite reduziu o comportamento indesejável como ficar mamando em coisas não relacionadas à alimentação. Os bezerros que não receberam água não estavam desidratados e os autores concluíram que a água fornece EA e reduz o estresse. Consulte em: •Gottardo F, Mattiello S, Cozzi G, Canali E et al The provision of drinking water to veal calves for welfare purposes. J Anim Sci. 2002; 80:2362-72 10 Perda de água ocasionada por doença Estomatite Doenças infecciosas que causam estomatite (como calicivirus em gatos, febre aftosa, peste dos pequenos ruminantes) e outras doenças que provocam dificuldade de deglutição (como megaesôfago; obstrução do esôfago) podem impedir os animais de beber água suficiente e resultar em sede. Doenças metabólicas / renais Várias doenças podem provocar aumento de sede nos animais (como diabetes mellitus, doença renal e falência renal crônica, hipertireoidismo, hiperadrenocorticismo, hipercalcemia ocasionada por tumor). O resultado é a polidipsia acompanhada pela poliúria. Doença GI A perda de água corporal ocorre geralmente por diarréia ou vômito. Essas duas condições causam perda direta de água. Também produzem desbalanços eletrolíticos que levam a mudanças no equilíbrio de água intracelular e intersticial e no sangue. Quando os animais apresentam também indisposição, eles podem não ter vontade de beber água. Perda de água através do suor A perda de água corporal também pode ocorrer devido à sudorese excessiva, em climas muito quentes. Inicialmente isso aumenta a sede. Entretanto, se o calor é extremo e os animais não têm sombra e água suficiente, eles perdem muito sódio no suor e isto inibe a sede. Para restaurar a sede e os meios fisiológicos normais de controlar a água corporal, é necessário recuperar o balanço de sódio primeiro. Fornecer sombra e bastante água é particularmente importante para animais de carga em clima quente. A foto mostra cavalos e jumentos na Etiópia; muitas pessoas na foto têm guarda-sol para ficarem à sombra, mas os animais estão ao sol. Sede patológica É comum, mas pode ser causada pela diminuição de secreção de hormônio antidiurético (diabetes insipidus). Também é observado em galinhas poedeiras sem acesso à comida; neste caso, pode ser um comportamento redirecionado. Animais afetados bebem quantidades excessivas de água. 11 Temperatura corporal Animais magros não têm isolamento térmico de gordura suficiente, portanto, eles precisam utilizar mais energia metabólica para manter a temperatura corporal. Isto aumenta a demanda por comida. Se eles são incapazes de manter sua temperatura corporal, eles podem ficar suscetíveis a infecções. Além disso, se eles desenvolvem alguma doença – infecciosa ou não – por outra razão, eles são mais suscetíveis a se tornarem caquéticos, isto é, sofrer catabolismo de músculo esquelético. Animais neonatos são suscetíveis à hipotermia em climas frios e úmidos se eles não forem alimentados na primeira hora de vida. Por exemplo, o cabrito montês tem filhotes em março e abril, quando o clima é normalmente frio e ventoso. Ao contrário, animais acima do peso podem sofrer em climas quentes porque a gordura em seus corpos mantém mais calor corporal. Cães obesos podem ofegar continuamente em clima quente; esta atividade também gera calor, o que causa mais desconforto. Gatos obesos podem ter dificuldade de alcançar seu dorso para promover a perda de calor através da evaporação da saliva. Acolchoamento da superfície corporal Animais muito magros são suscetíveis a feridas e infecções de pele onde as proeminências ósseas se atritam com arreios ou no chão onde vivem. Facilidade de movimento Obesidade Animais que são obesos podem ter dificuldades de se aguentarem quando urinam ou defecam. Gatos bem gordos são normalmente incapazes de se lamberem apropriadamente e podem também ser incapazes de perder calor efetivamente. Em janeiro de 2007, os proprietários de uma Labradora foram considerados culpados de causar ―sofrimento desnecessário‖ porque permitiram que seu peso chegasse a 72,5 kg. Consulte em: http://news.bbc.co.uk/1/hi/england/cambridgeshire/6281001.stm Frangos de corte A rápida taxa de crescimento de frangos de corte que saciam 12 O bem-estar animal é reduzido se os animais estão mal nutridos. Mesmo que os animais recebam proteína suficiente e calorias suficientes para não sentirem fome, eles podem não receber micronutrientes suficientes. Deficiências em micronutrientes podem causar doenças e, algumas vezes, dor e lesões também. Alguns exemplos: Raquitismo Animais deficientes em Vitamina D (como cães mantidos no escuro e alimentados com dieta rica em fósforo, de carne crua e farelo de trigo) desenvolvem raquitismo e são suscetíveis a fraturas. Deficiência em taurina em gatos Gatos que são deficientes em taurina desenvolvem cardiomiopatias que podem levar ao desenvolvimento de coágulos na aorta caudal; a consequência é a ausência de fornecimento sanguíneo para as patas traseiras, o que é extremamente doloroso. Boas rações comerciais contêm taurina, portanto, sinais de deficiência são mais raros hoje em dia. Deficiências minerais •Hipomagnesemia. Gramíneas jovens, particularmente as ricas em nitrogênio, são pobres em magnésio. Quando bovinos ou ovelhas são acomodados nesses pastos, podem desenvolver hipomagnesemia. A condição causa tetania e é fatal se não for tratada imediatamente. •O solo local pode ser deficiente em cobre ou selênio, portanto, animais que pastam necessitam de fontes minerais ou outros suplementos. •Animais deficientes em minerais podem desenvolver vícios: eles comem coisas que não são alimentos, como suas fezes ou a terra. •Tradicionalmente, bezerros criados para produção de vitela são alimentados com uma dieta exclusiva de leite, sem forragem (foto). Isto induz à anemia ferropriva e produz a carne “branca”. A alimentação de bezerros apenas com leite tornou-se ilegal na União Européia desde 2007 para bezerros acima de 8 semanas de idade. •Uma pesquisa sobre a alimentação de 135 pássaros de estimação na região de Nova Iorque indica que mais de 90% consomem menos do que o necessário de vitamina D e cálcio e 57% consomem menos do que o necessário de vitamina A. Consulte em: •Hiess L, Mauldin G, Rosenthal K. Estimated nutrient content of 13 A superalimentação evita a sensação de fome nos animais, mas pode ter conseqüências graves para a saúde. Superalimentando animais de companhia Isso é um problema comum com animais de companhia na América do Norte, Europa e Austrália. Como resultado, os animais ficam muito gordos e obesos. Fatores que contribuem são: falta de exercício, comida altamente palatável e ignorância dos proprietários sobre hábitos alimentares. Por exemplo, estudos de colônias de gatos domésticos sugerem que quando os gatos têm à vontade comida ilimitada, eles fazem 8 a 16 refeições por dia. No ambiente selvagem, dependendo da época do ano, da disponibilidade de presas e outros fatores, podem passar várias horas para um gato pegar um roedor. Em ambos os casos, os gatos não comem excessivamente. Muitos proprietários de gatos fornecem alimentos ad libitum: isto permite aos gatos seguirem seu padrão frequente de alimentação. Entretanto, porque a comida é muito palatável e gatos domésticos, particularmente, não têm nada além disso, eles normalmente comem muito, especialmente se os proprietários não limitam a quantidade de comida disponível. • Fitzgerald BM, Turner DC 2000. Hunting behaviourof domestic cats and their impact on prey. In: Turner DC, Bateson P (eds). The Domestic Cat. The biology of its behaviour. 2nd edition. Cambridge University Press pp. 151-175. Um animal adulto saudável, cão ou gato doméstico que não está prenhe ou sendo usado para trabalho, requer 40-60 cal por quilo de peso vivo diariamente; uma lata de 400g de comida para gato ou cachorro contém aproximadamente 360 cal e um volume de 250 mL de comida seca contém aproximadamente 400 cal. Animais obesos normalmente têm bom apetite e aparentam estar sempre com fome aos seus donos. O aparente apetite pode ser na verdade uma atividade de distração, particularmente em gatos que ficam dentro de casa e que não têm a oportunidade de explorar ou caçar. Além disso, muitos gatos não são sociais, por razões genéticas e de vivência, e podem achar a interação com outros gatos da casa e com o dono muito estressante. Eles podem aliviar o estresse comendo muito: estes gatos são comumente muito obesos e engolem a comida 14 Superalimentação O porco na foto foi intencionalmente superalimentado para um ―festival‖ em Taiwan, onde os porcos são abatidos usando facas cegas ou as próprias mãos, consequentemente sofrendo dor e medo prolongados antes de morrerem. Fígado gorduroso Como mencionado no slide anterior, patos e gansos desenvolvem esteatose hepática iatrogênica para produção de foie gras. Vacas leiteiras desenvolvem fígado gorduroso se a condição corporal está alta antes do parto (condição corporal > 3 de 5) e se alimentam com muito concentrado. Vacas acometidas ficam inapetentes e indispostas também. Laminite É a inflamação das lâminas do casco. Cavalos e bovinos são particularmente suscetíveis se comerem grandes porções de concentrado ou gramíneas ricas em proteína. A laminite é extremamente dolorosa e pode provocar a rotação da terceira falange e levar a laminite crônica, mesmo quando a laminite aguda melhorou. Acidose ruminal Ocorre quando os ruminantes comem muito carboidrato fermentável (como quando o público alimenta os veados com pão ou bolo ou quando um fazendeiro fornece muito concentrado a vacas na sala de ordenha). Alimentando as vacas com uma dieta completa, a ingestão de amido pode ser distribuída durante o dia. Animais acometidos ficam inapetentes e deprimidos. Subalimentação Além de causar fome (discutido no slide 4), subalimentar enfraquece o sistema imune e predispõe os animais a doenças infecciosas, incluindo parasitismo. Neonatos Com ocorre com muitos animais domésticos, particularmente ungulados, os jovens precisam mamar dentro da primeira hora para absorver os anticorpos maternos antes que o mecanismo de absorção dessas proteínas grandes se perca. Se os animais não receberem o colostro cedo, eles ficam suscetíveis a infecções gastrointestinais e a outras infecções e é muito mais comum morrerem por isso. 15 Bezerros para produção de vitela Úlcera de abomaso é comumente encontrada em bezerros. A prevalência de úlceras (que penetram na mucosa) ou erosões (que não penetram na mucosa) pode variar de 6 a, aproximadamente, 76%. A prevalência varia entre as fazendas mesmo quando a dieta é a mesma. Comer forragem, como feno, aumenta a incidência de ulcerações em porções do piloro, talvez porque o feno agrida úlceras pré-existentes que se desenvolveram quando os bezerros alimentavam-se apenas com leite. Outras causas prováveis são: estresse, infecção, o fornecimento de apenas 2 refeições de leite por dia (quando, com as vacas, os bezerros de corte mamam, aproximadamente, 6 vezes por dia) e o baixo pH resultante da dieta exclusiva de leite. Entretanto, nenhum desses fatores sozinho explica a ocorrência da condição. Ulceração abomasal é difícil de diagnosticar porque muitos bezerros não mostram sinais de inapetência ou de dor abdominal. Entretanto, eles podem mostrar sinais bucais de estereotipia, como rolamento de língua e mordedura de barras (foto). Enquanto esses comportamentos podem ser, em parte, uma resposta a oportunidades inadequadas de procurar comida, eles também podem ser respostas a úlceras porque, quando aumentam o fluxo de saliva, podem reduzir o pH abomasal. Isto foi descrito em cavalos (veja abaixo). No momento, não está claro como alimentar bezerros para produção de vitela para satisfazer a demanda de carne e, ao mesmo tempo, fornecer aos bezerros forragem para satisfazer sua necessidade comportamental sem causar problemas digestivos. Consulte em: •Constable PD. Abomasal ulceration in cattle. Proceedings of the Annual Meeting of the American College of Veterinary Internal Medicine, Dallas, Texas. May 29 – June 1, 2002. Disponível online para membros da Veterinary Information Network em: http://www.vin.com/Members/Proceedings/Proceedings.plx?CID=acvim2002&PID= pr01479&O=VIN •Mattiello S, Canali E, Ferrante V, Caniatti M et al. The provision of solid feeds to veal calves: II. Behavior, physiology, and abomasal damage. J Anim Sci. 2002;80:367-75. 16 A alimentação pode ser uma fonte de medo e estresse de várias formas. Predação Quando presas são caçadas, elas sentem medo e estresse, especialmente quando são encurraladas e lutam por suas vidas. Essas emoções negativas são adaptativas, mas também são muito estressantes. Observem que as presas podem ser carnívoras ou herbívoras como seres humanos caçando raposas; gatos caçando pássaros. Competição na alimentação Muitas espécies comem em grupos: são comedores sociais; quando um animal come, todos são motivados a comer, como vacas, ovelhas, porcos e muitas espécies de peixes. Quando esses animais são agrupados, pode não haver espaço de alimentação suficiente para todos os animais ao mesmo tempo, ou animais maiores podem manter os menores afastados. Logo, para os animais menores, a alimentação pode ser uma fonte de medo e estresse. Também é verdade que, ao selecionarmos animais de crescimento rápido, também podemos ter selecionado aqueles que são naturalmente mais ousados e competitivos. Os menos ousados podem evitar se aproximar do local de alimentação quando a comida é colocada porque têm medo dos animais maiores. Efeitos nutricionais A composição nutricional da comida pode predispor os animais ao estresse. Particularmente, uma síndrome de histeria em massa foi descrita em galinhas poedeiras, sejam engaioladas ou criadas extensivamente. As aves, repentinamente, mostram pânico extremo e correm em círculos ou guincham e tentam escapar. Isto reduz a produção de ovos dramaticamente e aumenta a mortalidade. A causa da diminuição de postura não está clara, mas pode ser que ocorra pela alta densidade de aves. Quando as aves eram alimentadas com uma dieta rica em triptofano (o aminoácido precursor da serotonina), a histeria ocorria muito menos e os níveis de serotonina e seus metabólitos aumentavam no cérebro. Consulte em: 17 Como a maioria dos comportamentos, o comportamento alimentar tem dois componentes. O primeiro componente é o apetite. Neste, os animais procuram o que precisam para satisfazer sua motivação (no caso da reprodução, o componente apetite é o ritual de cortejo; no caso da alimentação, o componente apetite é adquirir o alimento primeiro — porcos fuçam para cheirar e descobrir o alimento, cães farejam o cheiro da presa, bezerros sugam o teto). O segundo componente é a consumação. Neste, o animal apresenta o comportamento que satisfaz o suporte à vida ou à saúde ou ao conforto que leva a toda seqüência comportamental. No caso da cópula, os machos cruzam com as fêmeas. No caso da alimentação, o animal apreende o alimento, mastiga (se necessário) e engole. Como as espécies se alimentam naturalmente? Entre a maioria dos sistemas de criação de animais domésticos, o foco nutricional está na consumação do comportamento alimentar: para viver, o animal deve ingerir comida. Entretanto, apesar da alimentação aliviar a fome do animal, comumente não fornece feedback suficiente para satisfazer a motivação de comer, onde a fome é uma parte. Consequentemente, bezerros alimentados com baldes sugam quando não estão se alimentando (a foto mostra o bezerro sugando forte para obter o leite, sendo parte do comportamento alimentar dos bezerros); porcos mastigam as barras das baias; reprodutores de frango de corte bicam o chão. Em todos estes exemplos, o ambiente não permite aos animais expressarem o componente apetite do comportamento alimentar. 18 Animais de produção são separados de suas mães ou desmamados geralmente muito mais cedo do que seriam naturalmente. Isto pode afetar a expressão do comportamento alimentar natural. Vacas leiteiras Sugar sem se alimentar Em criações intensivas, bezerros leiteiros são rotineiramente separados de suas mães no nascimento ou em 4 dias. Em muitos casos, os bezerros são alimentados com baldes duas vezes por dia. Eles podem beber essas refeições em poucos minutos — muito mais rápido do que se eles estivessem mamando no teto ou em mamadeiras. Esses bezerros demonstram, tipicamente, comportamentos de sugar outros bezerros ou partes de sua baia. Este comportamento redirecionado de sugar provavelmente ocorre porque o consumo rápido de leite não é o suficiente para satisfazer o componente apetite da sua motivação alimentar. Entretanto, quando os bezerros podem beber leite ad libitum de contêineres com bicos, eles sugam muito menos outras coisas, enquanto apresentam boas taxas de crescimento. Consulte em: •Weary DM. Alternative management and housing to improve the well-being of dairy calves. Proceedings from ―Dairy Calves and Heifers: Integrating Biology and Management‖ NRAES, Ithaca, NY. 2005 pp66-73. Dispnível em: http://www.landfood.ubc.ca/animalwelfare/publications/documents/weary_nraes_04. pdf Porquinhos Desmame precoce e mordedura de rabo Os porquinhos são tipicamente desmamados com 21 dias e agrupados em baias onde não existe material manipulável. Comumente, alguns porcos do grupo mordem os rabos de outros, o que pode provocar infecções levando a abscessos espinhais, assim como causa estresse aos porcos mordidos. A mordedura de rabo pode ocorrer em porcos de diferentes idades e não é um resultado direto do desmame precoce. Entretanto, fornecer material aos porquinhos, mesmo quando eles ainda estão com a mãe (ilustração à direita), ajuda a reduzir o risco de um surto. Isso se deve ao fato de 19 Enriquecimento ambiental (EA) é analisado em detalhe no Módulo 26. O que é EA nutricional? A modificação do ambiente de animais em cativeiro para maximizar a oportunidade de demonstrarem comportamentos alimentares típicos da espécie. Carnívoros Comem para aliviar a fome. Matar a presa é um risco potencial porque a presa vai lutar e pode causar lesões ou fugir. Logo, os carnívoros arriscam-se e investem muita energia no ato de se alimentar e é importante que o investimento gere mais energia do que a foi gasta. Quando carnívoros em cativeiro ficam com fome, eles ficam tipicamente inquietos. Se são de espécies que perseguem e matam sua comida (como o mink) ou se eles têm que viajar longas distâncias para localizar uma fonte de comida (como os ursos polares), eles podem desenvolver estereótipos locomotores, às vezes com padrões elaborados de caminhar. Para ajudar a evitar frustrações e estereotipias, o mink em cativeiro deve ser alimentado em horários fixos e não ter que esperar por muito tempo enquanto outros animais são alimentados primeiro. Ursos polares podem ser alimentados com peixes em cubos de gelo ou em caixas intrigantes. Entretanto, uma pesquisa que comparou a história natural de grandes carnívoros com as condições dos melhores zoológicos indica que é, provavelmente, impossível fornecer espaço e complexidade suficientes para satisfazer adequadamente o componente apetite da alimentação ou outras motivações, para muitas dessas espécies, particularmente ursos. Consulte em: •Clubb R, Mason G. Captivity effects on wide-ranging carnivores. Nature 2003; 425: 473 – 474. •Mason G, Mendl M. Do the stereotypies of pigs, chicken and mink reflect adaptive species differences in the control of foraging? Appl Anim Behav Sci 1997; 53: 45-58. Herbívoros A maior parte dos nossos animais domésticos são herbívoros. Eles comem para evitar a fome e podem ser seletores (selecionando padrões particulares ou tipos de vegetação e usando seus dentes para cortar e direcionar o 20 Os princípios acima estão listados em: Young RJ. Environmental Enrichment for Captive Animals. Oxford: Blackwell, 2003 página 88. Carnívoros + outros caçadores (piscívoros, insetívoros) A maior parte dos grandes carnívoros estão nos zoológicos, não em fazendas, e são necessários testes cuidadosos para desenvolver uma forma de EA segura e com boa relação custo/benefício, que utilize o maior número possível dos itens listados acima. Young (2003) descreveu um alimentador mecânico para guepardos em cativeiro que utiliza uma carcaça ou pedaço de carne e permite que o animal expresse o comportamento de espreita para se alimentar. 21 Os princípios acima estão listados em: Young RJ. Environmental Enrichment for Captive Animals. Oxford: Blackwell, 2003 página 95. Herbívoros e outros animais que não se alimentam de carne. Essas espécies podem ser arbóreas e, não, terrestres como bovinos ou jumentos e suas adaptações irão refletir isso. Por exemplo: bovinos têm uma língua preênsil para ajudar a apanhar a comida e ingerir vegetais em grande quantidade; papagaios têm pés fortes e garras para escalar as árvores procurando frutas ou sementes. 22 Alimentadores complexos Esses são containeres com buracos. Para obter a comida do alimentador, o animal tem que manipulá-lo. Dependendo do comportamento alimentar natural, o alimentador pode ser uma bola ou um taco (porcos, cavalos, gatos) ou pode permitir que o animal insira a pata (gatos). Postes alimentares Esses são utilizados para grandes carnívoros nos zoológicos: o animal tem que escalar o poste para alcançar a carne ou a carcaça Esconder a comida Essa é uma forma de enriquecimento para a maioria dos animais, pois permite a expressão do componente apetite da motivação alimentar e, em muitos casos, a utilização do sentido do olfato altamente aguçado (como porcos, cães, ursos). A comida pode ser escondida em partes diferentes do cercado e a localização varia a cada dia. A comida também pode ser espalhada no chão. Nos dois métodos é muito importante remover a comida não ingerida para que não apodreça. Comida fresca Comida fresca (como frutas e vegetais para pássaros e coelhos) fornece enriquecimento sensorial para os animais que, de outra forma, seriam alimentados com a mesma dieta comercial todos os dias. A foto mostra uma girafa recebendo bananas em um pirulito de gelo. Movimentação Esse é um importante aspecto do enriquecimento ambiental para carnívoros. Muitos zoológicos desenvolveram formas de alimentar os carnívoros o mais natural possível. Entretanto, alimentar carnívoros em cativeiro com presas vivas deve ser evitado por causar sofrimento à presa: a situação não é a mesma que na natureza, onde a presa normalmente conhece o território e tem alguma chance de escapar. Alimentadores com bicos 23 24 25 26