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Retrato funerário romano. Fayoun (Egipto).
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OS BALSENSES
BAL
VII
VII
86
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Balsa, Cidade Perdida
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Os 55 balsenses
É difícil fazer uma estimativa da população urbana de Balsa na época do
seu maior esplendor: talvez entre seis e quinze mil habitantes. É ainda mais
difícil calcular o número de pessoas do seu extenso território.
Desses muitos milhares de habitantes que a comunidade terá tido durante a sua existência multissecular, restam-nos apenas os nomes de
55 balsenses, que sobreviveram escritos em pedra devido a um mero acidente do destino e ao interesse de meia dúzia de estudiosos.
Retirados de lápides de homenagem, devoção, piedade ou interesse político, os nomes identificam cidadãos romanos e nativos mais ou menos romanizados; habitantes locais e estrangeiros; notáveis, medianos e dependentes;
livres, libertos e escravos; ambiciosos e anónimos; homens, mulheres e crianças; esposos, pais, filhos e amigos.
É uma lista profundamente humana, de homenagem a todos os balsenses que viveram e morreram com a sua cidade, inconscientes de que o tempo
e as sucessivas vicissitudes do futuro iriam varrer os vestígios da sua existência
da memória dos homens.
TVMN
Retratos emprestados
O único rosto balsense que sobreviveu
até nós é o da Dama Antonina já
referida (Busto de dama antonina,
pág. 48).
Para além da mutilação que sofreu,
a figura manifesta um formalismo
aristocrático próprio do período,
orientado para a representação da
dignidade. A severidade dos traços e
a ausência de expressão resultantes
tornam difícil uma avaliação fisionómica
da pessoa real.
Devemos assim procurar algures
os rostos semelhantes aos que
poderíamos imaginar encontrar no
quotidiano de Balsa. Recorremos para
tal aos retratos romanos do Egipto
e de Itália, de pessoas sem nome,
que podem ser usados para evocar os
balsenses sem imagem, mas cujos
nomes chegaram até nós.
Retratos em encáustica sobre tela ou
madeira, de origem egípcia, dos
séc. II a V da nossa era.
BAL
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Os Balsenses 87
Os nomes romanos
Os nomes de pessoa eram constituídos
geralmente por três elementos:
Os prenomes ou nomes próprios.
Os nomes ou gentilícios,
correspondentes aos nossos apelidos
ou nomes de família.
Os cognomes, “alcunhas” transmitidas
entre gerações e podendo identificar
um ramo de uma família.
Existem diversas excepções a esta
regra geral, tais como a ausência de
prenome e a presença eventual
de nomes duplos nas mulheres e
alterações decorrentes das modas e
costumes ao longo do tempo.
Os nomes dos habitantes peregrinos
(indígenas ou imigrantes, sem cidadania
romana), dos escravos e dos libertos
(ex-escravos que, uma vez libertados,
assumiam este novo estatuto como
dependentes do antigo proprietário,
adquirindo o seu nome) variavam
consoante a respectiva condição,
origem cultural e o seu grau de
integração na sociedade romana. Há
várias ilustrações destes casos híbridos
na lista de Balsa.
A lista está organizada por ordem
alfabética de nomes. Seguem-se os
prenomes e os cognomes. Assim
Lucius Cassius Celer surge como Cassius,
Lucius, Celer.
BAL
Indivíduos
Gentilício
Cognome
Sexo
Estatuto e observações
N.º
Aemilius
Chaeris
F
Mulher de Gaius Flavius Relato (n.º 10). Possível liberta.
1
Albius
Nereis
F
Possível liberta ou de família greco-falante ligada à navegação e
comércio marítimo.
2
Annius
Primitivus
M
Séxviro (sacerdote do culto imperial). Liberto.
Oferece combate de barcas e de pugilato.
3
Severina
F
Dedicante da homenagem a Iulia Marcia Gemina (n.º 24).
Provável mulher de L. Quintius Priscion (n.º 30).
4
Titus
?
M
Pai da anterior.
5
Lucius
Celer
M
Oferece parte do pódio do circo.
6
Lupato
M
Liberto (ex-escravo) ou peregrino (indígena ou pessoa sem
cidadania romana.
7
Agatemera
F
Mulher do anterior, provável liberta.
8
Festo
M
Possível peregrino.
9
Nome
Prenome
Callaeus
Cassius
Caturicus
Domitius
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Balsa, Cidade Perdida
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Indivíduos
Gentilício
Prenome
Cognome
Sexo
Estatuto e observações
N.º
Gaius
Relato
M
Marido de Aemilia Chaeris (n.º 1).
Provável liberto, de elevado estatuto económico.
10
Quintus
Serano
M
Criança.
11
Gellius
Lucius
Tuto
M
Liberto ou cliente de T.Rutilius Tuscilliano (n.º 32).
12
Grannius
Marcus
?
M
Gemina
F
Com gentilício duplo.
Ver Iulia Marcia Gemina (n.º 24).
14
Badius
M
Oferece parte do pódio do circo.
15
M
Balsense, que ofereceu uma ara votiva no santuário de Runesius
Caesius, situado na Herdade de Claros Montes, Évora.
16
Faustino
M
Magistrado municipal (duúnviro) por duas vezes.
Cidadão romano da tribo Quirina.
17
Faustina
F
Irmã do anterior.
18
Titus
?
M
Pai dos anteriores.
19
Titus
Marcial
M
Elemento de topo da elite local. Possível organizador do município
latino balsense. Cidadão romano da tribo Galéria.
20
Titus
Eutiches
M
Liberto ou cliente da família da mãe de T.Rutilius Tuscilliano (n.º 32).
21
Titus
Eutichio
M
Como o anterior.
22
Titus
Lacon
M
De Alfanxia. Provável cliente ou liberto dos Manlii de Balsa e
encarregado do centro de produção anfórico.
23
Gemina
F
Iulia Marcia Gemina. (n.º 14, repetida por ter dois gentilícios)
Mulher da elite local, que tem também o gentilicio Iulius.
24
Titus
Cassio
M
Liberto ou cliente de T.Rutilius Tuscilliano (n.º 32).
25
Lucius
Marciano
M
Liberto ou cliente de T.Rutilius Tuscilliano (n.º 32).
26
Lucius
Basileu
M
Liberto ou cliente de T.Rutilius Tuscilliano (n.º 32).
27
Catula
F
Mulher livre, com um cognome como gentilício.
28
Nome
Flavius
Iulius
Gaius
Licinius
Gaius
Titus
Manlius
Marcius
Meclonius
Quintcino ?
13
Paccius
Ploce
BAL
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Os Balsenses 89
BAL
Indivíduos
Gentilício
Nome
Prenome
Cognome
Sexo
Estatuto e observações
N.º
Publicius
Alexander
Laetiliano
M
A gens Publicia é de descendentes de ex-escravos pertencentes ao
Estado ou à civitas.
29
Lucius
Priscion
M
Dedicante da homenagem a Iulia Marcia Gemina (n.º 24).
30
Avita
F
Dedicante da homenagem a Iulia Marcia Gemina (n.º 24).
Filha do anterior.
31
Tuscilliano
M
Neto de T. Manlius Marcial (n.º 20).
Elemento destacado da elite municipal.
Cidadão romano da tribo Galéria.
32
33
Quintius
Titus
Quintus
Rusticino
M
Pai do anterior. Casou-se com uma filha da T. Manlius Marcial
(n.º 20). Cidadão romano da tribo Galéria, tal como o sogro.
Este matrimónio parece ilustrar a endogamia social dos “velhos”
cidadãos romanos, pré-flávios, relativamente aos novos, cuja
cidadania recente e inscrição na tribo Quirina se deve ao direito
latino, posterior a Vespasiano.
Publius
Antígono
M
Liberto ou cliente de T.Rutilius Tuscilliano (n.º 32).
34
M
Cidadão romano originário de Neapolis, na África Proconsular
(actual Tunísia). Intitula-se postumamente como incola balsense
e faleceu em Pax Iulia. Originariamente pertencente à tribo
Arniensis, da sua colónia natal, inscreve-se em Balsa na tribo
Galéria, enquanto incola e cidadão romano ilustre. Esta tribo
era a do escalão superior da elite local balsense, cuja cidadania
precedeu a concessão do direito latino (n.º 20 e 32). Os novos
cidadãos pós-flávios, eram inscritos na tribo Quirina, como será o
caso do n.º 17, Titus Manlius Faustino.
35
Rutilius
Saturninus
Gaius
Blossio
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Balsa, Cidade Perdida
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Indivíduos
Gentilício
Nome
Prenome
Cognome
Sexo
Estatuto e observações
N.º
Sulplicius
Marcus
Euprepes
M
Provável liberto.
36
Proculus
M
De Castro Marim. Provável liberto.
37
Tuscila
F
Mulher do anterior, de Castro Marim.
38
Tiberius
?
M
Pai de Iulia Marcia Gemina (n.º 24).
O seu gentilício terá sido ou Iulius ou Marcius.
39
Servius
Ploce
M
Pai de Ploce Catula (n.º 28).
Possível peregrino ou liberto.
40
Amimetus
M
Escravo. De Alfanxia.
41
Antiocheís
F
Grega, mãe de Tatianus (n.º 53) e mulher do seguinte. De Santa
Luzia
42
Evenos
M
Grego, marido da anterior e pai de Tatianus (n.º 53). De Santa
Luzia
43
Palustre
M
Pai da anterior, provavelmente indígena.
44
Psalceades ?
F
Provavelmente grega. Irmã de Sycecale, Tricisma e Vegeta (n.º
52,54,55)
45
Publius
M
Pai ou antigo proprietário de Stepanus (n.º 51). De Paul da Asseca
46
Quincia
F
Mulher provavelmente indígena. De Castro Marim.
47
Romulense
M
Pai do seguinte. Peregrino. De Paul da Asseca. Originário de
Sevilha
48
Salianus
M
Peregrino. De Paul da Asseca
49
Speratus
M
Escravo público de Balsa com o cargo de Dispensatore
(funcionário municipal).
50
Step[h]anus
M
Filho (escravo?) ou liberto de Publius. De Paul da Asseca
51
Sycecale
F
Provavelmente grega. Criança. Irmã de Psalceades, Tricisma e Vegeta
52
Tatianus
M
Criança. Grego. Filho de Antiocheís e Evenos (n.º 42 e 43). St.ª
Luzia
53
Tricisma
F
Provavelmente grega. Irmã de Sycecale, Vegeta e Psalceades
54
Vegeta
F
Vibius
?
Provavelmente grega. Irmã de Sycecale, Psalceades e Tricisma
A origem da população de Balsa
Os poucos elementos conhecidos até meados do séc. I da nossa era indiciam, para Balsa e para a generalidade do Sul da Lusitânia, uma depressão
demográfica associada a um fraco desenvolvimento urbano e a uma população essencialmente rural.
De facto, considerando a globalidade da Época Romana, parece verificar-se no território balsense um défice de sinais de romanização nas áreas
rurais exteriores à zonas de centuriações ou afastadas dos portos e das vias
principais (Os arredores de Balsa, pág. 80).
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Os Balsenses 91
A enorme expansão urbanística desde finais do séc. I, reflectida na topografia urbana (As quatro fases de Balsa, pág. 104) e na evolução do consumo de bens
importados (Evolução da conjuntura económica de Balsa, pág. 65), revela um crescimento muito rápido e importante da população urbana, que se deverá explicar
pela imigração organizada de um numeroso contingente de novos habitantes.
É impossível estabelecer qual a parte dos nativos na nova comunidade, geradora do município latino balsense. É porém muito improvável que o
acréscimo se tenha realizado à custa da população rústica e pouco romanizada das periferias. Esta constituiria uma mão-de-obra essencial, no contexto
demográfico descrito, para a manutenção do sistema de produção tradicional,
garante do aparelho tributário.
Será assim de esperar que a massa rural nativa do território balsense
tenha permanecido fora da civitas, isto é, sem direitos de cidadania nem alteração substancial da sua anterior condição jurídica, política e fiscal.
Uma parte essencial da nova população terá portanto provindo de outras
regiões e de meios socioculturais mais romanizados.
Entre esses imigrantes, a presença de gregos é a mais notável, manifestando-se: inequivocamente pela inscrição de Taciano (balsense n.º 53 da
lista das págs. anteriores) (Cipo grego da Fazenda do Trindade, pág. 59); pela frequência da onomástica grega em nomes que não se podem associar a escravos;
e, muito provavelmente, pela placa dionisíaca (Placa dionisíaca, pág. 50).
Esta última implicará a presença de habitantes de origem grega (quiçá
da Magna Grécia) antes da municipalização Flávia, desde pelo menos a época
de Cláudio I.
A presença de imigrantes do Norte de África é considerada indiscutível por Vasco Mantas e outros investigadores, mas os seus sinais são menos
óbvios: a presença do gentilício Gellius (balsense n.º 12) e dos cognomes
Faustinus, Relatus e Catula (n.ºs 10, 17, 18 e 28); a fórmula da inscrição funerária de Aemilia Chaeris (n.º 1); o uso da palavra púnica “barcarum” na lápide de
Annius Primitivus (n.º 3); a presença do cidadão romano de Neapolis (Tunísia)
Blossius Saturninus (n.º 35) como íncola balsense; e, possivelmente, a origem
do cognome Lacon (n.º 23).
É muito provável que a ascensão de Balsa a município autónomo só se
tenha tornado possível pelo reforço demográfico e financeiro originado por
estes imigrantes, que sem dúvida passaram a ocupar um papel destacado na
vida política e social da nova comunidade.
Terá sido em grande parte graças a eles, que Balsa nos surge como uma
ilha de romanidade formal num território essencialmente indígena.
Estaremos aqui perante um exemplo de colonização de facto, embora
sem o estatuto jurídico correspondente, visto as colónias de direito latino serem
desconhecidas na Hispânia, durante a Época Flávia.
Ignora-se porém quase tudo sobre o processo de planificação, recrutamento e logística organizativa deste tipo de iniciativas, que implicavam a fundação de um novo corpo político e a construção de novos programas urbanísticos pelos próprios habitantes.
MNA
FORTVNAE AVG(ustae)
SACR(um)
ANNIVS PRIMITIVVS
OB HONOREM
IIIIII VIR(atus) SVI
EDITO BARCARVM
CERTAMINE ET
PVGILVM SPORTVLIS
ETIAM CIVIBVS
DATIS
D(e) S(ua) P(ecunia) D(ono) D(edit)
Consagrado à Fortuna Augusta.
Annius Primitivus, em honra do seu
sexvirato, tendo promovido um
combate de barcas e pugilistas e
também oferecido dádivas aos cidadãos,
do seu dinheiro esta oferenda deu*
* Tradução de Carla Alves Fernandes e José Cardim
Ribeiro, Religiões da Lusitânia, Museu Nacional de
Arqueologia, Lisboa 2002, p. 452
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