Trabalho apresentado no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia, sendo de total responsabilidade de seu(s) autor(es). REFLEXÕES CLÍNICAS SOBRE O ATENDIMENTO AO PACIENTE IDOSO COM FUNCIONAMENTO DE PERSONALIDADE BORDERLINE: RELATO DE EXPERIÊNCIA EM AMBULATÓRIO INTERDISCIPLINAR. Roberta de Siqueira Meloso Centro de Referência do Idoso Zona Norte – São Paulo, Brasil. Palavras-chave: Equipe Interdisciplinar, Paciente idoso, Winnicott. Resumo: O presente trabalho pretende discorrer sobre um relato de caso atendido em ambulatório de Psicologia do Centro de Referência do Idoso da Zona Norte de São Paulo, levantando questões pertinentes ao manejo clínico e institucional de uma paciente idosa diagnosticada com Transtorno de Personalidade do tipo Borderline . Trata-se de uma paciente cuja biografia comporta importantes falhas do ambiente desde a infância e que ao longo do envelhecimento desenvolve preocupações de cunho hipocondríaco e ansiedade patológica diante da própria sobrevivência psíquica, aspectos agravados pelas alterações do corpo e perdas vitais decorrentes do envelhecimento. O caso foi atendido e analisado sob os moldes das consultas terapêuticas de D.W Winnicott (1971) e o trabalho junto a equipe multidisciplinar contribuiu para o estabelecimento de uma rede favorável de cuidados, dando lugar às necessidades subjetivas da paciente que frente a um trabalho integrado, pôde ir para além da cisão, iniciando aproximação efetiva com conteúdo traumático. A partir da apresentação do caso clínico são apresentadas reflexões clínicas, tais como: como lidar com pacientes idosos que apresentem funcionamento fronteiriço? Como orientar estes pacientes no manejo da realidade na ausência de vínculos familiares saudáveis? Como trabalhar o manejo clínico junto à equipe multidisciplinar? Qual a relevância da instituição e da equipe como um lugar para o paciente idoso? Trabalho apresentado no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia, sendo de total responsabilidade de seu(s) autor(es). Pretende-se ao longo desta apresentação relatar o caso de uma paciente de 63 anos de idade que foi atendida ao longo de 25 sessões em ambulatório de Psicologia integrado ao Centro de Referência do Idoso, CRI Norte de São Paulo, Brasil entre 25/09/08 e 08/04/09. O Centro de Referência do Idoso (CRI-Norte), é um ambulatório de especialidades médicas e assistenciais (OSS), fruto de uma parceria entre o Governo do Estado e Associação Congregação de Santa Catarina, de atenção secundária ao paciente com idade acima ou igual a 60 anos. Os atendimentos psicológicos são de caráter breve, contando com o suporte clínico e teórico de D.W.Winnicott (1971/1990) e suas concepções sobre o amadurecimento humano. Sra.F. foi encaminhada pela Psiquiatra da própria instituição ao Serviço de Psicologia com urgência para tratamento psicoterápico, tendo em vista hipótese diagnóstica de Depressão/ T. Personalidade. Sra.F. era uma senhora robusta e de boa aparência. Fisicamente encontrava-se em boa saúde, apenas sob a recomendação de alimentar-se com certa restrição de glicose, tendo em vista ganho de peso e possível diabetes. Nasceu em meio a 9 irmãos, soubera desde a infância a intenção da mãe em abortá-la, já que a mesma contava com a saúde debilitada devido ao nascimento dos irmãos anteriores sob condições precárias. Nascera após cesariana do irmão anterior que teve poucas horas de vida. Acredita que seu nascimento se dera em função da recomendação de uma vizinha à sua mãe para que rezasse a Nossa Senhora da Conceição. Tais dados só puderam ser coletados com o passar do tratamento. Viúva, mãe de dois filhos, mora junto com uma filha. No exame psíquico inicialmente efetuado observou-se instabilidade emocional intensa, ansiedade patológica, fala acelerada e agitação psicomotora, necessitando de contenção. Sra.F. ao início de cada consulta batia a porta do Setor de Psicologia com significativa antecedência de horário e perguntava se de fato iria ser atendida: “Ah, pensei que você não viesse hoje” ; “Tá demorando muito”(SIC). Em uma ocasião foi advertida Trabalho apresentado no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia, sendo de total responsabilidade de seu(s) autor(es). por um dos funcionários, pois mexia nos prontuários em frente a porta :”Queria ver se o meu tinha chegado”(SIC). Sra.F., fazia referências freqüentes a sintomas somáticos como aperto no peito, falta de ar, sensação de “abafamento”, perda de memória, perda da visão e audição, insônia, sendo freqüentes as solicitações pela paciente de que pudesse ser encaminhada a todas especialidades possíveis. Tais sintomas teriam se iniciado há cerca de 4 anos. Era comum verificar no prontuário anotações de diferentes profissionais referindo hipóteses diagnósticas tais como Síndrome Demencial, em função de esquecimentos freqüentes e Transtorno Afetivo Bipolar. Em meio a diversidade de queixas difusas, passou a sobressair nos relatos a queixa de maus tratos por parte dos filhos, em especial da filha. Por conta disto, Sra.F. procurara diversas vezes o sistema judiciário, emitindo e retirando queixas. Alegava que filha a agredia verbalmente e “urrava como o demônio”(SIC). Sra.F. buscara o Serviço Social da instituição e com facilidade falava sobre o fato de ser mal tratada pelos filhos nos corredores da instituição e nos transportes públicos. Com a assistente social, não permitiu nenhum tipo de intervenção ou aprofundamento da queixa, não seguindo as orientações dadas e não permitindo contato com os filhos. Alegava por fim, que ambos os filhos seriam “doentes mentais”(SIC). Era esta a mesma justificativa utilizada para retirar a queixa no sistema judiciário. A paciente não aderia as prescrições medicamentosas quando no tratamento com outros profissionais. Sra.F. retornava as sessões com a psicologia deveras irritada e passou a caracterizar equipe como “despreparada”(SIC) para dar-lhe o suporte necessário. De maneira geral, os relatos da paciente eram carregados de negatividade, choro e lamento como se tudo fizesse referência a um lugar de exclusão. Em um discurso pouco contìnuo, mesclava falas a despeito do contexto, concluindo que tudo em sua vida levava ao abandono, ao descaso do outro diante de suas necessidades. Recusava-se a qualquer tipo de avaliação psicológica formal e no pedido para que passasse a respeitar o horário das sessões dizia: “Você me acusa e todos me abandonam, têm medo de mim, se afastam. Ninguém me ajuda meu Deus do Céu, Trabalho apresentado no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia, sendo de total responsabilidade de seu(s) autor(es). ninguém me ajuda”(SIC). “Esta psicoterapia não serve para nada, todos aqui são incompetentes. Você me abandona como todo mundo.”(SIC). O trabalho terapêutico se deu inicialmente na necessidade de conter a agitação da paciente, ofertando pela presença viva do terapeuta certo contorno ao discurso e possibilidade de intervenção, o que significava interromper as falas na mudança abrupta de temas em busca de um sentido e linearidade e solicitar a atenção da paciente ao contato com o terapeuta. O caso foi levado à discussão em equipe multidisciplinar, uma vez que a Psicologia havia sido procurada pelo Serviço Social em busca de uma orientação sobre o manejo adequado com paciente e se verificava dificuldades na equipe em geral no trato com Sra.F, despertando intolerância e irritação. Verificava-se, sobretudo que o cuidado a paciente era prejudicado pela diversidade de olhares da equipe e a partir de diferentes condutas, em uma destas pensava-se inclusive na internação de Sra.F. Foi levada a reunião a compreensão de características essências referentes ao tipo de sofrimento partilhado por pacientes com funcionamento de personalidade do tipo borderline: ”(...) os pacientes Borderlines adultos têm dificuldade de estar a sós e uma ansiedade constante em relação ao fato de que os outros possam abandoná-los”. (Gabbard, 2006 p.324). Com o advento do envelhecimento, da possibilidade da solidão e da própria morte, tais manifestações clínicas ganham maior exuberância. As questões referentes a destrutividade originária se recolocavam à paciente neste momento de desconstrução. Na discussão com equipe médica e assistencial, a compreensão psicológica do caso foi apresentada e optou-se pela necessidade de revisão da conduta medicamentosa pela psiquiatria, uma vez que foi possível concordar com o diagnóstico levantado, sendo também possível dar sentido a dificuldade da paciente em aderir aos tratamentos, o que evitou conduta de internação da mesma, o que significaria mais uma retaliação da vida para com ela. O espaçamento entre os retornos com a psiquiatria foram diminuídos e o Serviço Social foi orientado a acolher queixas da paciente sem a preocupação em adiantar-se a uma solução prática. Trabalho apresentado no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia, sendo de total responsabilidade de seu(s) autor(es). Entendeu-se o quanto Sra.F. ora buscava com voracidade o cuidado ora idealiza a salvação, mas reagia indiscriminadamente ao outro retomando a queixa de desamparo ou perseguição frente ao medo de ser abortada. O trabalho da equipe também fazia parte deste mesmo registro. No decorrer do tratamento com a psicologia a cisão era reavivada na desintegração da equipe na prestação de cuidados. Com o tempo, a psicoterapeuta representava o bom, por haver se tornado objeto subjetivo e as orientações dos demais profissionais eram negligenciadas, representando o ruim. Nas sessões seguintes, paciente pôde chegar com a antecedência necessária as consultas e aguardar sem maiores alardes o horário de atendimento, o que aconteceu concomitante as recordações de infância de pouco carinho e o medo de perder a mãe. Destacara o fato de ter sabido desde cedo que a mãe tinha saúde frágil e de ter presenciado mais 5 nascimentos subseqüentes ao seu: “Toda vez que ela ia pro hospital, ficava eu e meus irmãos tudo sentado no chão pra ver se ela voltava”(SIC). “Minha mãe só me pegava no colo pra catar piolho” (SIC). Sra.M era considerada como a filha mais trabalhosa dentro da família, aspecto que muitas vezes fundamentava sua sensação de não pertencimento no Mundo e a visão de que a sua presença era temida. Na juventude, Sra.F. teve dificuldade em freqüentar a escola, concluindo parcialmente o ensino básico:“ Eu não conseguia ficar lá, era um peixe fora d´agua”(SIC). Sobre os irmãos: “Sempre me olhavam como se eu fosse doente, um peixe fora d água. Meu irmão me espetava com a caneta” (SIC). Winnicott (1971/1990) dedicou-se no estudo do amadurecimento humano, destacando os estados de ser e não ser e o manejo terapêutico com pacientes graves. Winnicott (1971/1990) nos fala sobre a importância dos cuidados ambientais satisfatórios na primeira infância e os desdobramentos desta experiência e suas especificidades ao longo de cada etapa do desenvolvimento maturacional, salientando o papel fundamental do ambiente na interminável constituição humana. Denominou de angústias primitivas os temores associados as dúvidas sobre as garantias da própria sobrevivência psíquica, que se ligam a constituição de defesas psicóticas que protegem a continuidade do Ser de maiores intrusões, do trauma de aniquilação: Trabalho apresentado no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia, sendo de total responsabilidade de seu(s) autor(es). Em termos de manejo concreto, o bebê que falha em estabelecer contato com a realidade externa não necessariamente morre. Pela persistência dos que dele cuidam ele é persuadido a alimentar-se e viver, ainda que a base para este viver seja débil ou mesmo ausente (Winnicott, 1990, p.127). Com o envelhecimento, se descortinava no horizonte da paciente a presença real de alterações da saúde, como o esgarçamento natural das funções vitais e alterações no corpo. O corpo sofria um processo de desintegração antes mesmo de ser habitado pela paciente, aos poucos tornava-se também lugar de ameaça, assim envelhecer e morrer tornava-se algo impossível a Sra.F., ou seja, agonia impensável. Intensificava-se a busca incessante pela retomada da continuidade do si-mesmo por via da justiça e do uso da retaliação. O ódio dissociado dava contorno para uma hipervigilância com o corpo e com o ambiente que nos momentos de maior instabilidades constituíam-se em estados hipocondríacos (ameaça via mundo interno) e/ou paranóides (ameaça via mundo externo). Na ausência de estados de tranqüilidade desde o início, em que estar com o outro e ser cuidada era equiparado a destruição, a não sobrevivência se torna mais próxima e o real se impõe, recolocando questões essências de sua vida e a possibilidade de findar. Credita-se ao trabalho integrado os alcances terapêuticos com Sra. F., que era a todo momento lembrada que os profissionais envolvidos em seus cuidados estavam em contínua comunicação. Dentre outras coisas, o que se pedia da equipe era principalmente entender as necessidades subjetivas da paciente sem sentirem-se ameaçados por elas, ou seja, não pensar sobre o próprio desempenho e eficácia profissional mais do que no pedido que Sra.F. de fato fazia. Buscou-se manter paciente ciente de que uma rede sustentava seus cuidados, sendo que a confiança e aderência terapêutica se mantiveram pela relação transferencial com terapeuta e a equipe pode sustentar a ambiência necessária a suportar a presença conturbada de Sra.F. A filha da paciente foi integrada a esta rede de cuidados com o consentimento de Sra.F., passando a ter contato também com a psiquiatra. A experiência de ter um lugar levou a melhoras importantes, em junção com o aspecto Trabalho apresentado no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia, sendo de total responsabilidade de seu(s) autor(es). medicamentoso que melhoraram a sintomatologia ansiosa, contribuindo para uma relação mais favorável com o ambiente. No espaço terapêutico, paciente tratou do ódio dos filhos e da mãe, reconhecendo na própria maternagem falhas importantes: ”Eu e minha filha temos a mesma coisa, somos carentes e nunca tivemos carinho”(SIC); “Tem horas que eu pareço um saco sem fundo.” ”Eu sou lamentadora”(SIC) Na sessão de alta, trouxe um quadro pintado por ela mesma em que se figurava uma rosa aberta e outra a desabrochar em postura de gratidão disse: “Para que leve pra sua casa e lembre sempre de mim” (SIC). ”Por favor, mostra pra Doutora e para a assistente social” – referindo-se a Psiquiatra e Assistente social. A partir da experiência de ser sustentada no tempo e espaço, paciente pôde verificar uma maneira de adquirir permanência pelo acesso a experiência criativa, algo que recoloca sua presença no Mundo, podendo inclusive aceitar de forma tranqüila a despedida da terapeuta e se aproximar do envelhecimento e da morte como possibilidades. Bibliografia: GABBARD, G. O. (1990/2006). Psiquiatria psicodinâmica na prática clínica. Ed.Artmed, Porto Alegre. WINNICOTT, D.W. (1971/1984). Consultas terapêuticas em psiquiatria infantil.Ed.Imago. Rio de Janeiro. WINNICOTT, D.W. (1989/1994). Explorações Psicanalíticas. Ed.Artes Médicas, Porto Alegre. WINNICOTT, D.W . (1971/1990). Natureza Humana. Ed.Imago, Rio de Janeiro. Dados do autor: Roberta de Siqueira Meloso, Psicóloga Clínica, Coordenadora do Serviço de Psicologia do Centro de Referência do Idoso da Zona Norte de São Paulo, Brasil. Trabalho apresentado no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia, sendo de total responsabilidade de seu(s) autor(es).